Bacurau é uma metáfora perfeita do Brasil de hoje

 
Por Jeferson Arenzon
Estamos alguns anos no futuro. Todo o país foi ocupado pelos romanos. Todo? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis — hum, quem nasce em Bacurau é o que mesmo? — ainda resiste ao invasor. Como a aldeia gaulesa, Bacurau é uma pequena comunidade que sofre constantes ataques do seu entorno, da falta de água crônica à ganância dos políticos. Embora inicie como muitos outros filmes que já retrataram a dura vida daqueles que só são lembrados às vésperas das eleições, Bacurau traça outro perfil e segue outro caminho. Como metáfora do que é o Brasil atual, é perfeito.
A pequena cidade nordestina de Bacurau é o último reduto de civilidade num país brutalizado, onde as execuções públicas foram retomadas (o resto fica subentendido) e governantes corruptos entregam, literal e diretamente, a vida das pessoas para grupos estrangeiros, processo este apoiado, no filme, por um membro do judiciário. Apesar das dificuldades, Bacurau funciona. Os poucos conflitos internos são facilmente resolvidos e a cadeia, aparentemente desnecessária, está enterrada, resquício de uma era ultrapassada, assim como as armas que estão no seu devido lugar, um museu. Ao ser atacada, a cidade se defende, a dor e os riscos são compartilhados. A luta, a resistência coletiva de Bacurau, é tonificada por uma pílula mágica, que dá forças para encarar o sofrimento e fazer o necessário. Quando Teresa (Barbara Colen) chega para o enterro de sua avó, precisa ser forte e recebe uma pílula.Quando a população vai responder ao ataque também precisa receber as pílulas. Tudo isso ao som do bardo local. Mas a violência não é gratuita, e sim deflagrada em resposta, proporcional, ao ataque insano, desumano, desprovido de empatia, numa competição por pontos, onde o discutível mérito pisoteia a humanidade.
O filme retrata, por um lado, a defesa coletiva do pacto social, em que liberdade, igualdade e fraternidade são conquistas não negociáveis. Faltou a guilhotina como marca da revolta iluminista, mas não faltaram cabeças rolando. Por outro lado, também mostra a entrega do país, por concidadãos, mesmo ao custo de vidas. Como metáfora do que é o Brasil, Bacurau é perfeito. Como retrato, é ainda melhor.
Jeferson Arenzon, físico, professor titular da Ufrgs e um dos produtores do podcast “Fronteiras da Ciência”

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