“Se o presidente da OAB quiser saber como o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele”.
Foi a frase bombástica que Jair Bolsonaro escolheu para sua entrevista desta segunda-feira.
O presidente da OAB é Felipe Santa Cruz, filho de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, militante da Ação Popular que desapareceu na ditadura, aos 26 anos.
O corpo dele nunca apareceu. Segundo relato do delegado Cláudio Guerra à Comissão Nacional da Verdade, foi incinerado, junto com outros dez companheiros numa usina em Campos.
Os escassos registros que existem dão conta que ele foi preso no dia 23 de fevereiro de 1974 por agentes da polícia política,.
A versão de Bolsonaro, inverossímel, é de que Fernando Santa Cruz foi morto pelos próprios companheiros de guerrilha. Ele sabe que é uma versão inconsistente, mas o que interessa é a polêmica.
“Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar às conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco, e veio a desaparecer no Rio de Janeiro”, complementou.
Realmente, o pai do presidente da OAB militou no movimento estudantil e participou da Juventude Universitária Católica (JUC), movimento da Igreja reconhecido pela hierarquia eclesiástica, e depois integrou a Ação Popular Marxista e Leninista, organização de esquerda contrária ao regime.
Fernando desapareceu em um encontro que teria no Rio de Janeiro, em 1974, com um colega militante, Eduardo Collier Filho, da mesma organização. Segundo o livro “Direito à memória e à verdade”, produzido pelo governo federal, Fernando e o colega foram presos juntos em Copacabana por agentes do DOI-CODI-RJ em 23 de fevereiro daquele ano.
Em 2011, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro já havia dito que os militares não eram culpados pela morte de Fernando Santa Cruz. Em uma palestra na Universidade Federal Fluminense (UFF), o então parlamentar disse Santa Cruz deve “ter morrido bêbado em algum acidente de carnaval”.
O ataque de Bolsonaro a Felipe Santa Cruz foi motivado pela a atuação da OAB no caso de Adélio Bispo e perguntou qual era a intenção da entidade. Segundo o presidente, a ordem teria impedido o acesso da Polícia Federal ao telefone de um dos advogados do autor da facada.
“Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados [do Adélio]? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”, questionou o presidente.
O que a OAB fez foi defender as prerrogativas do advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior que atuou na defesa de Adelio Bispo.
Em dezembro do ano passado, sob justificativa de tentar identificar quem estaria financiando a defesa do autor do atentado, a PF em Minas Gerais cumpriu dois mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao advogado.
Foram apreendidos na ocasião livros caixa, recibos e comprovantes de pagamento de honorários e de seu aparelho telefônico. Na ocasião, a OAB disse que ação da PF em locais ligados a Zanone “viola prerrogativas da advocacia”.
Em março, o desembargador Néviton Guedes, do TRF1, atendeu a pedido Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e da OAB de Minas Gerais e suspendeu apurações sobre a suposta cumplicidade do advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, com o atentado contra o presidente.
À tarde, apesar dos documentados desmentidos que surgiram a respeito da morte de Fernando Santa Cruz, Bolsonaro voltou a falar no assunto numa gravação enquanto cortava o cabelo. “São informações que eu soube através de quem participou do nosso lado e viu o que aconteceu naquele momento”, justificou.
Impressionante como esse cara cria crises para seu próprio governo. Alguém já disse que o que mais agride o governo bolsonaro é a família Bolsonaro. Votei nele para tirar aquela quadrilha do poder, mas este Bolsonaro é burro demais.
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