Bolsonaro erra mais uma vez e até aliados admitem risco de impeachment

Imagem projetada num prédio da rua João Telles, no Bom Fim, em Porto Alegre na noite de 18/3/2020 / Foto Thiago Garcia

A desastrada entrevista coletiva do presidente Jair Bolsonaro e ministros, todos com máscara, turbinou o panelaço programado nas redes sociais para o início da noite de quarta-feira.

Já no momento em que o presidente fazia seu pronunciamento, os protestos se fizeram ouvir em diversas capitais.

Na hora marcada, as panelas e os gritos de “fora Bolsonaro” se espalharam pelo pais, reforçados por imagens projetadas nas fachadas dos edifícios.

O Jornal Nacional dedicou dois minutos reproduzindo cenas do panelaço em todos os Estados, gravadas pelos próprios manifestantes de dentro dos apartamentos.

A entrevista no Palácio do Alvorada foi uma tentativa de reverter a repercussão negativa dos atos do presidente no domingo, quando saiu à rua para confraternizar com manifestantes na esplanada dos ministérios.

Sua atitude contrariou as recomendações de todas as autoridades médicas e desautorizou seu próprio ministro da Saúde, que em reiteradas entrevistas pedia à população que evitasse aglomerações.

O erro se tornou mais grave diante da constatação de que 17 integrantes do primeiro escalão do governo (inclusive dois ministros) estavam contaminados. Todos eles integravam a comitiva que, uma semana antes, acompanhou o presidente em sua viagem aos Estados Unidos.

A repercussão negativa estimulou um panelaço já na terça-feira e deu ensejo a vários pedidos de impeachment  encaminhados ao presidente da Câmara Rodrigo Maia,  que tem sido um crítico implacável das atitudes de Bolsonaro. Depende dele levar avante o processo.

Ao se apresentar, com seis ministros, todos usando máscaras, na entrevista coletiva desta quarta-feira, Bolsonaro pretendia reverter a sensação de que o presidente vem agindo de modo irresponsável em relação à epidemia do coronavirus. Em diversas vezes ele chamou de “histeria” o destaque que vem sendo dado à epidemia.

O”teatro de máscaras”, como foi ironizada cena no Palácio Piratini, piorou mais a situação.  O próprio presidente demonstrou que não sabe usar a máscara. Iniciou falando com ela, depois tirou e deixou pendurada na orelha, para em seguida recolocar e logo tirar de novo.

Os ministros também revelaram falta de sintonia,  uns falando com a mascara, outros retirando-a na hora de falar.  Esse desacerto, que em determinados momentos pareceu cômico, revelou o caráter improvisado da  manifestação presidencial.

Renomados especialistas ouvidos pela imprensa condenaram a maneira como foram usadas as máscaras pelo presidente e seus ministros, revelando a falta de preparo da cúpula do governo e o mau exemplo dado à população.

Pouco depois, o filósofo Olavo de Carvalo, tido como o “guru do presidente” manifestou nas redes sociais o seu desânimo com a situação.

Ele diz: “desde o início do seu mandato, aconselhei ao presidente que desarmasse os seus inimigos ANTES de tentar resolver qualquer ‘problema nacional’. Ele fez exatamente o oposto. Deu ouvidos a generais isentistas, dando tempo a que os inimigos se fortalecessem enquanto ele se desgastava em lacrações teatrais. Lamento. Agora talvez seja tarde para reagir.”

O panelaço foi registrado em São Paulo, Rio, Recife, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre, Natal, Florianópolis e Curitiba  e cidades menores em diversos Estados.

Houve também, atendendo a apelo do presidente, um panelaço pouco depois a favor do governo, mas de alcance muito menor.

Pouco depois, Bolsonaro postou uma mensagem acusando o desgaste:

“Nunca abandonarei o povo brasileiro, para o qual devo lealdade absoluta! Boa noite a todos!”, escreveu.

 

 

 

 

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