Aos 90 anos, o economista Cláudio Accurso trabalha num ensaio de 300 páginas sobre a economia brasileira, que pretende deixar como um estímulo às futuras gerações.
Decano dos economistas, formador de uma geração de profissionais que implantou o planejamento no setor público no Rio Grande do Sul, Accurso participou de vários governos, desde Leonel Brizola nos anos 60 até Pedro Simon, de quem foi secretario do planejamento, em 1986.
Hoje ele vê com desalento a crise fiscal esvaziar a capacidade dos governos de promoverem mudanças, por meio de planejamento e investimentos dirigidos. “A capacidade de investimento chegou a zero e só se pensa em cortar, cortar…esse caminho só vai agravar a situação”, diz ele.
Accurso deu esta entrevista ao JÁ:
Estão falando que a economia vai crescer. Vai?
Isso não é relevante para o trabalhador. O crescimento do PIB não altera a sociedade, o que altera é o crescimento da produtividade. E a produtividade segue muito baixa, é histórico. Eu pesquisei a década do “Milagre Brasileiro”, na ditadura. A indústria crescia quase 10% ao ano, o emprego crescia 7%, a produtividade 1%, o salário 2%.
O salário sempre fica pra trás…
A massa de salários deveria crescer com o PIB. Mas não acompanha. O nível dos salários é sempre abaixo do PIB. Como há uma força de trabalho abundante, a tendência é que o nível de salário cresça menos e haja uma transferência do trabalho para o capital mesmo nos ciclos de crescimento.
Nos ciclos de crise nem se fala…
Claro. A solução atrasada, medíocre, é reduzir salários, o desemprego, isso que nós temos aqui. A solução progressista é aumentar a produtividade. Fui ver a produtividade dos americanos, peguei um período de cem anos, o crescimento da produtividade é que fez a diferença, distribuiu renda, ampliou o mercado.
E como se altera esse quadro?
Quando tu tem abundância de mão de obra disponível, só pode ser por via da política econômica.
O mercado não resolve…
Não, ele vai explorar a abundância de mão de obra para não alterar a faixa de salário.
A produtividade implica vários fatores, na valorização do salário, por exemplo…
A valorização do salário vem depois. Implica, em primeiro lugar na qualificação da força de trabalho. E, em segundo lugar, implica na inovação tecnológica, tudo isso vai elevar o rendimento por trabalhador e consequentemente os salários. Aí que vem a contradição do Brasil. O país tem uma produtividade que é 23% da produtividade dos países desenvolvidos. Vais ver, é a mesma diferença de renda per capita. Nós temos menos de um terço da renda deles.
Temos muito que andar…
É uma fronteira imensa que não se ocupa. Por que? Porque há uma abundância de mão de obra, então os caras acham que não precisam de produtividade para ocupar. Via mercado nós não vamos sair do buraco nunca.
O ministro Guedes, então, está na contramão?
A desse governo que está aí é fazer o jogo do capital financeiro, toda jogada é colocar dinheiro nas mãos dos bancos. Olha essa sacanagem aí de reduzir a taxa de juros do crédito bancário, mas cobrar pela disponibilidade, ora, ora, eu só vou pagar pelo que eu uso…Esses caras estão brincando.
Vai piorar, então?
Piorar para quem? Nós temos no Brasil, hoje, tranquilamente, 100 milhões de pessoas que vivem com as mesmas condições dos africanos, 50 milhões que vivem na Europa, e 50 milhões que não sabem o que fazer. Esse é o problema, nosso crescimento é em cima de uma reserva de mão de obra barata e, não, em cima da produtividade. Só concentra a renda.
O senhor foi secretário do Planejamento do Simon. Ele foi o primeiro a aderir a era dos pacotes de ajuste fiscal no Rio Grande do Sul?
Eu fiquei dois anos lá no Planejamento e quando vi que o governo não ia pra frente, eu cai fora.
Por que não ia pra frente?
Ninguém quer mudar nada. Um exemplo: no tempo em que a educação no nosso estado era um exemplo para o país, havia mais de 30, 40 alunos por professor, agora que têm 14 alunos. E o pior: hoje precisa do dobro de recursos para fazer pior. Os recursos que estão faltando é porque estão mal gastos. Claro, tu tens a metade da produtividade de antes, vai precisar de mais recursos para tentar manter as coisas.
A crise então atende a interesses?
A depressão econômica é o caminho mais fácil das concessões ao capital. Nós temos 13 milhões de desempregados. Como vai manter salários com tanta mão de obra barata? Nos governo petistas a taxa de crescimento do salário mínimo era real, acima da inflação. Aí quando a massa de salários começa a bater na taxa de lucro, tem a saída da depressão.
O governo não tinha como evitar?
Acontece o seguinte: a esquerda brasileira entrou num populismo barato, de ir atr[as do PT. Ora, o PT nunca foi de esquerda. Claro, é muito melhor ter uns caras desses no governo dos que estão agora. Mas a esquerda deveria ter uma postura crítica e não teve, foi a reboque do populismo. Quando esse populismo começou a apelar para a desonestidade, a falta de lisura, a esquerda deveria ter denunciado: “Olha nós estamos de acordo com os avanços sociais mas não com a safadeza. Não fez nada, ficou a reboque. E agora? Como distingue uma coisa da outra?Porque o povo brasileiro elegeu essa mediocridade que está aí? Porque o PT caiu na vala comum dos partidos sem lideranças confiáveis. O eleitor entrou em desespero.
Ficou sem rumo?
A verdade é que chegamos ao século 21 sem lideranças, sem partidos e sem projetos. A gente vive a conjuntura, mas isso não tira o país do barro. Milhões de pessoas desempregadas, uma violência brutal. Aquele banditismo no Rio de Janeiro é o prenúncio do Brasil no futuro. Chegou lá primeiro porque estão mais adiantados no processo de desestruturação da máquina pública. A ausência do Estado empurra as pessoas para o crime. E o pior: o governo quer resolver com polícia.
O Rio é o Brasil amanhã, então?
O Rio de Janeiro é um caso exemplar de desestruturação do Estado, que resulta naquela desorganização social… E o Rio Grande do Sul, que já teve um padrão de administração pública está sendo desmontado.
O que significa a falta de lideranças?
Há uma incompreensão das questões brasileiras. As nossas lideranças são alienadas, o Bolsonaro é a expressão maior. É uma percepção meramente eleitoreira. Depois de eleito, cada um cuida de seus interesses. O Brasil tem mais de 20 mil obras paradas. Por causa da roubalheira. O Brasil um país continental, com os recursos que tem, não consegue avançar porque é tudo conjunturas de curtíssimo prazo, para ir levando… Enquanto isso, o Vietnam está indo para o primeiro mundo. O Japão, duas mil pedras no meio do mar, não tem recurso de solo, nem de subsolo é uma potência…
O que falta para o Brasil?
Há uma elite intelectual no Brasil de primeiríssima qualidade, mas falta uma cúpula pol[itica honesta, ela entendeu que dessa forma que está dá para viver bem, então não precisa mudar. O que falta ao Brasil são políticos com novas concepções.
Estamos vivendo um retrocesso…
Havia um progressismo de curto prazo. E nem isso tem mais. Repassam 20 milhões para o Bolsa Família e 100 milhões de concessoes de créditos aos donos do capital, que são uma minoria. Pra quê? Então, chega um momento em que não tem mais recursos e quem acha que vai recuar? A mão de obra.
O sr, está filiado a algum partido?
Não, não. Eu fui filiado ao Partido Comunista quando estava na Universidade, mas quando começaram os crimes do Stalin e o partido fazia que não via, eu caí fora. Não era pra mim. Quer ser uma pessoa séria e colocar a cabeça no travesseiro e dormir ou não.
O sr. não foi filiado ao MDB?
Também nunca me filiei ao MDB. Eu conhecia o Pedro Simon do Colégio Rosário, do ensino ginasial, e quando ele ganhou a eleição para governador, o alemão Siegfried Heuser foi lá em casa me pedir para preparar um plano de governo. Eu fiz. Reunia 40, 50 pessoas no último andar do prédio do IPÊ. Insistia com o Simon para ele tomar tais e tais atitudes. Havia profissionais muito entusiasmados, todos querendo participar, porque foi o primeiro governo depois da ditadura. E o Simon só prometia que ia fazer e tal, mas nunca editou o plano de governo.
Quando o Simon assumiu, decretou um grande arrocho.
A situação já era muito difícil. Com os recursos ocultos, era preciso saber usá-los. Aí a questão da produtividade. Mas tem que mexer nas estruturas e as pessoas não querem, mesmo que a gente explique a inviabilidade de insistir em certos caminhos. O conservadorismo no Brasil é muito grande. Mas a cúpula política brasileira vive dessas distâncias. E vive bem. Somado a isso, tem a massa que não incomoda. Se é na Europa, botam fogo. Os debaixo, ao invés de pressionarem, ficam rezando, estão aí os evangélicos, com grupos cada vez maiores. Há uma resignação. O cara nasce no porão, acha que não vai sair. Então recorre a igreja ou a maneira de ser feliz como pode, mesmo no porão. O carioca já decretou que vai ter Carnaval o verão inteiro, colocou 300 blocos na rua e vai chegar a 500, até a Semana no final de fevereiro. Pronto. Eu nunca gostei do jeito festeiro do carioca, até ser levado no trem da central, às seis horas, 40 graus. Tinha gente até em cima do trem. Fiquei horrorizado. Parecia um vagão de escravos. Então percebi que só com a alegria típica do carioca, ele poderia suportar aquela vida. Aí entendi o que era o carioca.
Quando o Brasil aboliu a escravidão, se tivesse feito a reforma agrária, o país seria outra coisa, mas não, deixaram todos nas cidades e criaram bolsões de miséria que estão lá até hoje. Ainda hoje volta e meia descobrem trabalhadores escravizados pelo Interior. Em pleno século 21. Criou-se essa abundância de mão de obra que não se sabe o que fazer.
Seu livro aborda isso?
Analisei o desenvolvimento da economia brasileira nos últimos 50 anos. Tu tem alguns setores da indústria com alta produtividade, igual à europeia.Outros, como de calçados e peças, tem a produtividade muito baixa. Agora eles querem abrir a economia, como vai abrir com um terço da produtividade dos outros? Só se for para perder, como a indústria brasileira, que está decrescendo.
As lideranças da indústria estão apoiando o Guedes…
E como muda a mentalidade dessa gente? Vai na universidade ver o que estão ensinando. Estão falando de economia de primeiro mundo. E o que se faz com isso aqui? Desestatizar a economia como outros fizeram, mas os outros agora estão retornando. Porque na hora do aperto, precisam do Estado. Esse é um dos problemas: os caras vivem no Brasil com a cabeça nos Estados Unidos, na Europa. Ora, tem que colocar os pezinhos aqui. Uma vez ou outra tu ouve alguém falar em aumentar a produtividade. E qual é a restrição? O custo de trabalho bater na taxa de lucro. Aumentar a produtividade é mudar a cultura, procedimentos, escalas de produção, é uma revolução, de conhecimentos, procedimentos técnicos, tudo.
A crise começa na política?
Tem muita gente ignorante na política, sem formação, não compreendem o que a gente fala. Um ou outro foge à regra. Tu vai naquele Congresso, vê aquela gente, fica desesperançado.
Lá é o lugar para perder as esperanças?
É, lá é uma safadeza, uma mediocridade. Mas tem que cuidar ao dizer isso porque podem interpretar que sou contra a democracia e me convidam pra ser ministro do Bolsonaro. Olhem quanta gente pede a volta da ditadura.
A desesperança ajudou a eleger o Bolsonaro…
Claro. Há milhões que não sabem o que fazer, estão perdidos e esperando que o amanhã seja melhor, mas ele não virá com esse sistema brasileiro, com a política desse Guedes, formado na Califórnia, uma das escolas mais reacionárias. Olha o que ele fez no Chile? Alta renda per capita da minoria, e o povão?
Por que se entra nessa?
Os 50 milhões que pertencem à Europa brasileira olham para os 100 milhões da África brasileira e não deixam acontecer as mudanças. Assim está bom, vamos preservar isso daqui.


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