Aos 65 anos com as credenciais de sete mandatos legislativos (seis como vereador e um como deputado estadual), Pedro Ruas é o candidato do PSOL para o governo do Rio Grande do Sul, nas eleições de 2022.
Foi indicado por aclamação na convenção no início de novembro.
O porto-alegrense Ruas tem um eleitorado fiel que o colocou sempre entre os mais votados de seu partido na capital gaúcha. Na última eleição, com mais de 14 mil votos foi o segundo mais votado entre todos, compondo quatro vereadores para o Psol, a maior bancada da oposição em Porto Alegre.
Na eleição de 2018 concorreu a deputado estadual, foi um dos mais votados mas os votos na legenda não foram suficientes para que o PSol elegesse dois deputados.
Advogado, formado na UFRGS, tem o ex-governador Leonel Brizola como referência para sua atuação política e seu estilo combativo. Entra na disputa de 2022 convicto de que o Brasil vai mudar e que a esquerda vai recuperar o protagonismo perdido.
“Essa direita vai cair, nós temos que promover essa mudança”. Quando alianças, ele diz que está conversando com todo mundo do centro para a esquerda, mas acordo mesmo só no segundo turno.
Como foi essa indicação para concorrer ao governo do Estado?
Foram duas visões, a minha e a do partido. O partido queria ter uma candidatura competitiva, eu apareci em duas pesquisas, uma com 6% e a outra eu tenho 8,7%. Um candidato como o Luiz Heinze, do PP, que está em campanha há tempo tem 10%, ou seja nós estamos pertinho. Isso tudo estimulou o PSOL. Antes dessas pesquisas eu já tinha uma ideia de participar da eleição majoritária porque eu tenho vários mandatos, disputei muitas eleições, eu acho muito importante em 2022 disputar a majoritária de uma maneira que até ficaria frustrado se disputasse a proporcional e o Psol tem que disputar é a nossa maneira de construção.
Há um entusiasmo partidário e pessoal. Quero apresentar o melhor programa de governo, ter uma condição boa de poder fazer o enfrentamento com a direita e mostrar a nossa cara. Eu acho que um partido de esquerda como o nosso, socialista, combativo ele tem que disputar sempre com cara própria, eu sou a favor da unidade mas a alianças a gente pode deixar pra depois, é um outro debate.
Como avalias o cenário para a eleição no Rio Grande do Sul
O atual governador não concorre, mas a direita tem candidatos fortes e temos que ter uma capacidade de enfrentamento grande. Temos que mostrar as atuações fascistas , apontar os representantes do bolsonarismo e a pior face disso tudo na campanha eleitoral, é parte do nosso papel.
Já foste candidato ao Governo do Estado em 2010, o que mudou?
Mudou bastante em onze anos. Há cinco ou seis anos atrás, se alguém nos dissesse que nós iriamos ter um fascista na presidência da república, daríamos risada, não se cogitava disso, nem de ter que combater racismo vindo da presidência da República. Era muito diferente tudo.
Evidentemente que as necessidades do nosso Estado já existiam. Há 10 anos já tinha a Lei Kandir que é uma praga para o Estado. Ela praticamente isenta a produção primária de tributos estaduais liquidou com as nossas finanças, a tal compensação que viria nunca veio. Eu tenho um levantamento que a nossa soja que sai daqui in natura e vai pra Argentina e pra China, se transforma em óleo, farelo, ração, em muita coisa mas aqui não gera empregos, além da lavoura. São problemas que já existiam.
De lá pra cá como foram os governos?
Nos anos 90, o governo Britto teve um certo pioneirismo nessa política neoliberal. Ele acabou com a Caixa Estadual, privatizou parte da CEEE e a CRT. Eu sou um Brizolista e em 59 o Brizola criou a CEEE e a CRT. Então, eu venho de uma origem politica de criação de estrutura pra todos e não o inverso, por que eu faço essa referencia? Porque todos os governos que vieram depois; Leite, Sartori, Yeda, Rigotto foram governo na mesma linha do Britto. O que é também a linha do governo Melo. Vendeu a Carris, na prática acabou com a Procempa. No Estado o Leite acabou com a Procergs, tu vês que são políticas semelhantes. Coisas que vem desde o consenso de Washington em 95, que tomou conta do planeta. O que não se imaginava, pelo menos eu não li nada nesse sentido, é essa transformação de neo liberalismo em fascismo. É estranho. São coisas assustadoras e incríveis de como por exemplo nós voltarmos a discussões do século XV ou XIV, sobre se a terra plana ou é redonda. É um debate medieval, esses grupos anti-vacinas, por exemplo, não se imaginava um retrocesso tão grande a respeito dos costumes por exemplo.
Eu uso isso de parâmetro para trazer porque essa linha toda vai ter representação nas eleições do ano que vem. Fascismo, negacionismo estará representado. Quando nós falamos em nível de unidade eu por exemplo, sou o líder da oposição aqui na Câmara. Lidero o Psol, PT e PC do B com muito orgulho e eu acho que unidade de ação politica contra o fascismo nós já temos mas unidade eleitoral é outro debate, que pode ou não ocorrer.
Esses atos Fora Bolsonaro são da Unidade de Ação Politica que é o que interessa. O fundamental é que a gente tenha clareza das nossas missões e a do PSOL é afirmar o partido cada vez mais como pólo de esquerda coerente, responsável, com capacidade de enfrentamento. O Psol é um partido que não se rende e não se vende, não tem medo de ninguém e não tem preço. Isso nós temos que deixar bem claro e fazer os enfrentamentos necessários.
Essa linha de ajuste fiscal, privatizações, teto de gastos…
Com exceção do Alceu Collares, Olivio Dutra e Tarso Genro, todos os outros foram nessa linha de destruição. Por exemplo, a CEITEC (Centro Nacional de Tecnologia Avançada) fechou sem qualquer resistência do Estado. Esse caso é emblemático, pois se produzia tecnologia de ponta que ninguém produz, coisa que se paga caro para importar, e além disso gerava empregos. Toda essa ideia do juste fiscal também… O Sartori mandou um projeto pra Assembleia Legislativa pra fazer uma acordo com a União, sobre ajuste fiscal, o Plano de Recuperação, o regimento dizia que deveria se apresentar o acordo e não se tinha o acordo e mesmo assim foi aprovado, nós entramos na Justiça e estamos aguardando. O que se sabia e o governo Satori negou é que nesse acordo o Estado tinha prometido Banrisul e Corsan. O Eduardo Leite negou em campanha que fosse vender a Corsan, ele mentiu. Agora nega que vá privatizar o Banrisul…como acreditar?
O governador Eduardo Leite conseguiu remover da Constituição Estadual a exigência de plesbicito para privatizar as estatais…
Nós conseguimos evitar que o Sartori mudasse a Constituição Estadual. O Leite depois conseguiu, em 2019, mas naquela época nós ajudamos a salvar a CEEE, CRM e a Sulgás. A Sulgás operando no azul desde sempre. E a Corsan, que particularmente eu conheço bem quando fui secretário de Obras, é fundamental para o nosso desenvolvimento e saúde. Tem uma água com um cloro de alta qualidade, foi uma das primeiras Estaduais a usar o flúor na água. O flúor é importante na saúde dentária. Mas na verdade eu quero chegar num outro ponto. Já se sabia que isso era uma condição. É um absurdo a divida do Estado com a união. Essa dívida, pelo levantamento dos auditores do TCE, ela já foi paga em 2013, desde de 2013. É só usar o indexador correto. A dívida está paga. Então, o governo tem problemas seríssimos nesse sentido porque não reivindica, não se impõe.
Imagina na época do Brizola se ele iria aceitar isso, ia dizer que estava pago. Então, por um lado nos tiram os tributos, por outro nos cobram uma dívida que não existem mais. E a respeito da Lei Kandir, vão dizer que eu quero arrebentar com o agro, claro que não. Se é pra beneficiar o agro com dinheiro do Estado que a União vai repor, então a gente cobra o tributo e depois que o produtor pagar o seu tributo ele vai lá e se ressarce na União, não é a União que quer fazer a coisa? Por que se a desculpa era ajudar o agro então que se mude a operação, eu vou cobrar o produtor paga e cabe ao governo federal ressarci-lo.
Pra onde vai esse recurso da soja?
Não é o produtor. O produtor via de regra é pequeno, tem os grandes que ganham muito, mas via de regra é pequeno. Tem gente que lida só no mercado financeiro e é dono tudo daquilo ali. Isso faz parte de uma máquina financeira onde o rentismo opera forte.
Nas últimas eleições a esquerda perdeu espaço tanto nos governos como nos parlamentos…
É difícil explicar, mas isso está mudando. Aqueles ventos de 2018 e chegaram a 2020 não vão se repetir. Mas nós temos o risco de 2022 de ter bolsonaristas no Rio Grande do Sul, eles tem candidaturas aí fortes. Isso não teve em 2018 aqui por exemplo, era um direita clássica.
O Sartori ainda tentou se agarrar no Bolsonaro no último minuto…
Mas aquilo ali foi oportunismo. Ele como governador conseguiu liquidar com todas nossas fundações. Ficamos sem saber o nosso Produto Interno Bruto, porque não tínhamos mais a FEE(Fundação de Economia e Estatística), ficamos dois anos sem saber isso. Ele acabou com a Cientec. Ele mesmo foi ao Japão ficou encantado com a tecnologia que produziam lá e que por acaso a Cientec já produzia aqui também. Quer dizer, ele nem conhecia o que ele destruiu. Ele não conseguiu na época a CEEE,CRM e a Sulgás mas pegou as Fundações.
Mas essa ascenção da direita vai perdendo força na medida que chegou no extremo do fascismo e agora está voltando. São ciclos, como tiveram os períodos de ditatura na América Latina. Tivemos governo de esquerda, progressistas e aqui no Brasil eu acho que nós estamos passando o ciclo da direita, eu tenho certeza que essa direita cai ano que vem. Nós temos que cuidar é pra que caia nos Estados e depois nos municípios.
A gente tem que protagonizar a mudança e potencializar os movimentos sociais.
Eu estou motivado. A candidatura majoritária te dá a condição de estar no olho do furacão e diferente da proporcional que te esconde.
E num eventual segundo turno, como será a articulação política?
Acho que, do centro pra esquerda, temos que falar com todo mundo, essa tem que ser um posição desde logo assumida.
E o PSOL no cenário nacional?
Nós temos o deputado Glauber Braga como pré-candidato, ainda não é selada porque há divergências. Há setores que apoiam diretamente o Lula, não é o nosso caso aqui, mas eu acho fundamental que nós tenhamos candidatura própria e depois num segundo turno contra o Bolsonaro, apoiar o Lula sem dúvida. Em São Paulo nós temos o Boulos, que fez uma bela campanha em 2020.
E aqui no Rio Grande do Sul, tu abdicaste de uma possível eleição a Deputado Estadual para concorrer ao Governo…
Eu faço questão de fazer parte disso. Estou abrindo mão conscientemente e estou bem contente. Gostei muito da Assembleia mas acho que essa missão é muito mais importante e com uma contribuição maior pra dar. Vai ser o ano da mudança nacional, do debate mundial e uma das tarefas também é ajudar a construir essas candidaturas proporcionais. Devemos ter pelo menos duas vagas à nível federal e três estadual. 2022 será o inverso de 2018.


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