Sem privatizações e com gastos estourando, Guedes perde a função no governo Bolsonaro

Bolsonaro defende o teto de gastos mas está “fritando” Guedes

“Agora o Guedes tem que achar um jeito de cair fora”.

A declaração, em off,  de um conhecido líder empresarial, reflete o sentimento dominante no meio econômico esta semana: o superministro da Economia, Paulo Guedes está com seus dias contados no governo Bolsonaro.

Na histórica reunião ministerial de 22 de abril, divulgada por decisão judicial,  já aparecia a divisão dentro do governo e o enfraquecimento de Guedes.

Na reunião, ele defendeu com veemência o controle de gastos mesmo diante das emergências da pandemia. Fez  estimativa de mais de R$ 400 bilhões em investimentos privados a partir das privatizações e criticou o uso de recursos do Tesouro para amenizar os impactos da crise.

Foi, em seguida, rebatido pelo ministro do Desenvolvimento Regional,  numa reação surpreendente, pois Rogério Marinho sempre foi alinhado a Guedes e na reunião se colocou ao lado do chefe da Casa Civil, general Braga Neto, coordenador do programa Pró-Brasil, que prevê um pacote de investimentos públicos.

Marinho disse que as previsões de Guedes para as privatizações não se realizariam a curto prazo e que a necessidade de apoiar os setores mais atingidos pela recessão econômica é uma urgência que não pode esperar.

O aumento da popularidade do presidente, atribuído ao abono emergencial de R$ 600, reforçou a posição dos “desenvolvimentistas” que defendem gastos do Estado para socorrer setores abalados pela paralisação econômica.

Nesta semana, o esvaziamento de Guedes chegou às manchetes, quando dois de seus principais assessores – Salim Mattar e Paulo Uebel – pediram demissão.

Há duas semanas ele já havia perdido Monsueto Almeida, Secretário do Tesouro Nacional, que era uma espécie de guardião do ajuste fiscal e do teto de gastos.

O próprio Guedes admitiu nesta quarta-feira, 12, que enfrentava “uma debandada” em sua equipe.

“Tudo aponta para a saída de Guedes, no curto ou médio prazo”, diz Vitor Marchetti, cientista político da Universidade Federal do ABC. “A equipe que sustentava a agenda se desfez”, acrescenta.

Ele lembra que o economista Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional, vai ser sócio do banco BTG Pactual, do qual Paulo Guedes é cofundador.

O movimento de Mansueto mostra que a ruptura do ex-secretário não é com Guedes, e sim com a agenda do governo.

Na quarta-feira (12), Bolsonaro encontrou-se com presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, e juntos fizeram uma declaração de apoio ao teto de gastos, que obriga o governo federal ao congelamento de investimentos públicos em áreas vitais como educação e saúde.

“Nós respeitamos o teto dos gastos. Queremos a responsabilidade fiscal”, disse Bolsonaro no que foi considerada uma declaração formal para acalmar os aliados que defendem o rigor do projeto liberal, do qual Guedes é o mentor. Na quinta o presidente minimizou os movimentos na área politica pelo aumento dos gastos: “O pessoal está querendo estourar o teto, e daí?”, perguntou.

Surfando no aumento da popularidade por conta das medidas populistas,  Bolsonaro vai anunciar nas próximas semanas o programa Pró-Brasil, que reúne diversos projetos em diversos ministérios e pode chegar a R$ 70 bilhões em investimentos públicos.

Vai ser o momento em que Paulo Guedes terá um bom motivo para “cair fora”.

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