É devastador o cenário descortinado pelo economista Ricardo Paes de Barros sobre o impacto da pandemia entre os jovens brasileiros.
Mestre em estatística pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, Barros, avalia que 35 milhões de crianças e jovens da educação pública básica do país terão graves prejuízos na aprendizagem e na renda futura, diante da situação criada pela pandemia.
Ele estima que, o custo da pandemia na educação em 2020 vai chegar a R$ 700 bilhões, ou 10% do PIB.
A palestra de Paes de Barros fez parte da última etapa da quarta edição do seminário “O RS Pós-pandemia – reflexões e caminhos para o futuro do Estado”, promovido pela Assembleia Legislativa.
O evento foi realizado na noite desta quinta-feira (12), sob mediação do presidente da Casa, deputado Gabriel Souza (MDB).
Valendo-se de um simulador modelado pela escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), Paes de Barros projetou a realidade provocada pelo fechamento das escolas em cumprimento às medidas sanitárias durante a pandemia.
O estudo buscou avaliar a magnitude das perdas, a possibilidade de reparação e as consequências.
Até agora, apenas São Paulo apurou a sua realidade. O Rio Grande do Sul ainda está elaborando seu diagnóstico.
A avaliação baseia-se em alunos da segunda série do Ensino Médio de 2020, que agora estão na terceira série, por ser um dos cortes educacionais mais afetados pela pandemia, explicou Barros.
Sem a pandemia, na Escala Saeb o nível de aprendizado desses jovens em língua portuguesa e matemática seria de 22 pontos.
Com a pandemia, na simulação feita para o RS, surgem perdas de 10 pontos devido à transição para o modo remoto, as dificuldades de acesso e a não realização das atividades escolares.
O mesmo índice que em São Paulo, conforme apurou o especialista: “Para quem trabalha com educação e conhece a Escala Saeb, vai saber que 10 pontos é uma enormidade”.
Aplicando-se para todo o país a perda de 10 pontos, ele chega na dramática realidade que repercutirá no futuro de cada jovem brasileiro, que é a redução de 5% na renda estimada após a conclusão do Ensino Médio.
Perda que pode se acentuar em caso de pouca atenção com os conteúdos escolares no período da pandemia, alertou.
Essa é a situação de 35 milhões de jovens da educação básica pública do país, cujo impacto Barros calcula em R$ 700 bilhões, ou 10% do PIB brasileiro. O custo para a educação será duas vezes o custo para a saúde, destacou.
Ele mostrou estudos do Banco Mundial sobre o impacto da perda de aprendizagem dos jovens, que foi em torno de 10% do PIB mundial.
Na América Latina, a perda salta para 16% do PIB regional.
“A boa notícia é que dá para recuperar”, disse ele, embora as projeções para 2021 sejam de perda de até 17% do PIB.
Paes de Barros acredita que com o 4º ano opcional e bolsa, o jovem poderá recuperar. “Diferente da vida, o conhecimento é recuperável”, observou. Mas alertou que continuando no mesmo ritmo de 2020, a perda chega aos 17% do PIB.
As simulações indicam que a superação poderá acontecer dobrando-se a adesão dos jovens ao ensino remoto ou híbrido, que é de 40% e deveria passar para 80%; as 25 horas semanais de dedicação teriam que aumentar para 80 horas.
Com um sistema de recuperação simplificado e adequado ao currículo, para que o aprendizado se torne 50% mais eficiente; e retornar ao ensino híbrido ao longo deste segundo semestre.
“Só assim se poderá recuperar ao menos 6 pontos na Escala Saeb, e fazer um impacto na vida dessas gerações”, vislumbrou Ricardo Barros.
O presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, Renato Meirelles, falou sobre o impacto da pandemia no comportamento dos brasileiros.
Ele informou que o Instituto Locomotiva e o Data Favela realizaram mais de 75 pesquisas específicas sobre a pandemia, incluindo questões como a situação da fome na favela e o processo de distribuição das vacinas contra a Covid-19 nos municípios, por exemplo.
Enfatizou que 23 milhões de brasileiros acreditam que as vacinas irão alterar seu DNA ou inserir um chip em seu corpo, o que contribui para criar uma barreira efetiva no processo de vacinação no país.
Além das fake news e da falta de vacinas para imunizar rapidamente a todos, lembrou que parte dos vacinados resiste a tomar a segunda dose por conta dos efeitos colaterais observados em algumas pessoas.
Meirelles acrescentou que as desigualdades no país foram escancaradas com a pandemia e defendeu que é preciso pensar em políticas públicas que não apenas distribuam renda, mas que priorizem a instalação dos equipamentos públicos nos locais onde eles mais são necessários e não necessariamente nas regiões centrais das cidades.
O prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo destacou que o Brasil é um país de privilégios e que isso ficou mais claro durante a pandemia.
Defendeu que a gestão pública tem que olhar para todos, mas ter um olhar especial para os que mais precisam. Ele ainda reclamou que a rede pública de professores segue incentivando que os alunos não voltem para a escola e que o retorno dos estudantes ao ensino presencial é o primeiro desafio a ser vencido atualmente.
Mello também defendeu a facilitação do crédito para quem precisa, a qualificação profissional e a desburocratização estatal como formas de contribuir para superar as perdas da pandemia e ressaltou que o Estado não fará isso sozinho, precisando também da academia e do setor privado.
A presidente do BRDE, Leany Lemos, por sua vez, observou que a desigualdade social era um tema com raízes profundas no país e que é essencial que se busquem soluções para o problema.
De acordo com relatório da ONU, lembrou, o Brasil ocupava o segundo lugar em desigualdade de renda, atrás somente do Catar.
Disse ainda que o BRDE vinha trabalhando ativamente para aumentar sua carteira de investimentos em temas relacionados às mulheres, aos jovens e às microfinanças.
Já o economista e consultor legislativo do Senado Pedro Nery defendeu o benefício universal infantil como uma das possibilidades para se reduzir a desigualdade social no país.
Segundo Nery, enquanto países desenvolvidos despendem mais com famílias mais pobres, que tenham crianças, muitas vezes chefiadas por mães-solo, o Brasil gasta mais com a parcela mais rica da população.
O presidente da Assembleia Gabriel Souza expressou sua preocupação com o agravamento das desigualdades decorrente da pandemia e o desejo do Parlamento de contribuir para mitigar a crise.
“Acredito que seja o dever do parlamento buscar consensos e transformá-los em medidas legislativas e políticas públicas baseadas em evidências que atendam às necessidades atuais da sociedade”, disse.
Ao final do seminário, Gabriel Souza informou que a desigualdade social será tema da próxima pesquisa de opinião a ser realizada pela Assembleia Legislativa, a exemplo dos eventos anteriores. Explicou que os resultados embasarão ações concretas a serem propostas pela Casa.
A série de eventos tem a produção e organização da Storia Eventos, Sperintendência de Comunicação da Assembleia e agência Moove.


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