Mariano Senna
De Berlim/Alemanha
O caso do músico e educador brasileiro João de Alencar Rego ilustra bem o tipo de disfunção que o novo coronavírus provocou no sistema de saúde das principais potências mundiais.
Vivendo há sete anos em Berlim na Alemanha, João vem se tratando de um câncer no reto desde o início de 2019. Além de quimio e radioterapia, passou por cinco cirurgias, a última delas dia 13 de marco, para retirar a bolsa de colostomia que o acompanhava há seis meses.
A sexta-feira da última cirurgia foi também o dia em que o governo alemão anunciou a Quarentena. Escolas, creches, autarquias e comércios, tudo fechado.
A fim abrir espaço para os esperados doentes do vírus e reduzir os riscos de sua própria contaminação, o músico foi mandado para casa apenas cinco dias após a operação.
Subindo ao terceiro andar do seu apartamento acabou forçando os 19 pontos em seu ânus. Aguentou ainda três dias em casa até retornar ao hospital para limpar e suturar novamente o corte.
Dessa vez, permaneceu internado duas semanas, indo logo depois para a casa de um amigo que mora no térreo de um prédio no subúrbio da capital.
“Às vezes me pergunto se esse tipo de coisa só acontece com gente como eu – brasileiro, negro, de origem humilde”, indaga ele. João faz questão de apontar que outras pessoas operadas antes dele continuaram internadas.
“Eles só removeram todo mundo para um andar específico e reservaram um outro andar só para os doentes do corona”, conta, acrescentando que até dia 10 de Abril, quando teve alta o andar reservado para os pacientes do corona vírus continuava praticamente vazio.
Mas, se o pânico da pandemia espalhado em ondas pelo noticiário provocou decisões precipitadas em todas as partes, o mesmo não aconteceu com as profusas estatísticas de infectados.
O caso da estudante de Educação Infantil, Denise Heilbrun, 35, é exemplar em mostrar a confusão nos números das autoridades.
Na mesma terça-feira, 13 de marco, Denise foi ao médico. Estava abatida já há alguns dias. Desde a noite anterior apresentava febre, fora a tosse seca e dor de cabeça.
Seu médico particular fez alguns testes e perguntas, antes de mandá-la para casa. Dois dias depois recebeu por SMS a confirmação de que estava infectada por Covid-19.
Deveria informar a todos com quem teve contato nos últimos dias e se trancar por duas semanas em casa.
Ao repassarem a seus chefes a informação do caso confirmado, os 23 colegas de Denise do curso de Pedagogia na SPI de Berlim receberam diferentes instruções.
Alguns foram colocados imediatamente em quarentena. Afinal haviam estado junto com ela durante as aulas. Outros deveriam fazer os testes para confirmar a contaminação.
Nos primeiros dias da crise, ninguém sabia ao certo onde fazer o tal teste. Hospitais, postos de saúde e clínicas particulares se viram, de repente, sobrecarregadas. Em muitos lugares não haviam mais kits. Onde eles ainda existiam, a espera podia chegar a quatro horas, quase sempre em ambientes abarrotados de gente nitidamente doente.
Jasmin Neye, 23, colega de Denise, passou por mais de três horas de espera até conseguir lamber um cotonete. O resultado positivo confirmou a presença do vírus, adquirido da amiga ou da maratona pelo teste. Quem sabe?
O fato é que Jasmin recebeu o comunicado oficial emitido pela secretaria de Saúde de Berlim (Gesundheitsamt) agora na metade de abril, quando sua quarentena acabou em 29 de marco. “O pior é que posso ter contaminado muita gente por conta dessa demora na comunicação do resultado”, reclama ela.

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