Maio começa atípico e sem coesão contra a pandemia na Alemanha

Em Berlim, obrigatoriedade de máscara não é respeitada. Fotos: Mariano Senna

Mariano Senna, de Berlim

Mesmo obrigatório, o uso de máscara protetora continua sendo ignorado pelos alemães. Quase uma semana após a medida ter entrado em vigor, nas ruas, lojas, supermercados e no transporte coletivo, muitas pessoas ainda não a adotaram. Alguns poucos estabelecimentos, como agências bancárias ou dos correios, exigem o uso da máscara para permitir a entrada, mas o acessório também pode ser improvisado com um lenço, ou a gola da camisa. Tudo em um ambiente tao confuso, quanto fingidamente relaxado, mas sem garantir imunidade contra o vírus.

“É um absurdo o que estamos fazendo aqui. Não vejo um jeito disso funcionar”, reclama Janin Schulz, educadora de uma creche no bairro de Neukölln, na região central de Berlim. Além da máscara, ela se refere ao esquema montado pela secretaria da Educação do município para a lenta volta ao trabalho. “Devemos dividir as crianças em grupos de 7. Os grupos não podem se misturar, nem quando vamos ao parquinho. Mesmo que consigamos isso, ninguém me explica como vamos manter cada brinquedo desinfetado para todas as crianças”, argumenta.

Nem todos respeitam o uso de máscara no transporte publico

Com um total de 128 crianças, a creche está operando desde 12 de marco em sistema de acompanhamento de emergência. Somente para os filhos de pessoas que trabalham em áreas chave, como nos hospitais. Dos 23 educadores, cinco se revezam a cada semana para cuidarem das poucas crianças que continuam frequentando a escolinha. “Na segunda (04/05) teremos pelo menos metade do total de crianças de volta”, estima Rainer Pruchnik, gerente da creche, em referência a aceleração do processo de retomada das atividades.

O governo federal tem feito um esforço permanente para demonstrar que está pró-ativo. Missas, cultos, assim como jogos de futebol sem público estão autorizados a partir da segunda semana de maio. “Faremos novos avanços no afrouxamento do confinamento”, prometeu Markus Söder, governador da Bavária, em resposta à pressão por uma retomada mais rápida das atividades.

A primeira ministra Angela Merkel tem tido sérias dificuldades para manter a coesão da estratégia contra a pandemia. No sábado (02/05), dois Estados (Saarland e Saxônia Anhalt) governados pelo mesmo partido da chanceler, decidiram se antecipar a Berlim e flexibilizaram a abertura do comércio para lojas maiores que 800 metros quadrados. O Estado de Nordhein-Westfalen, que tem os aliados sociais-democratas à frente, também vai sair na frente na volta às aulas. Pouco a pouco, o “cuidado” que Angela Merkel reitera a cada pronunciamento têm se tornado letra morta.

Oficialmente, os alemães estão proibidos de viajarem para fora do país até 14 de junho. A decisão do governo em Berlim estende a restrição até a véspera das férias de verão. Quem precisar viajar antes daquela data precisa apresentar uma boa razão. Quem decide o que é uma “boa razão” são as autoridades de controle em cada local.

“Enquanto isso, duas em cada três empresas de viagens está ameaçada de falência”, reclama Norbert Fiebig, presidente da Federação Alemã de Agentes de Viagem. Alguns consultores do governo apontam que o setor só voltará a operar normalmente em março de 2023 por conta das restrições provocadas pelo coronavírus.

Junto com as incertezas, aumenta a pressão sobre a chanceler Angela Merkel. Sua política para enfrentar a pandemia já custou 680 bilhões de euros ao tesouro do país. E não há ainda um valor final para essa conta. Cálculos preliminares apontam uma queda de 6,3% do PIB em 2020. “Passaremos pela pior recessão da história da república federativa da Alemanha”, sentencia o ministro da Economia, Peter Altmeier (CDU).

Mais de 10 milhões de trabalhadores vivem hoje com 60% do salário, o chamado “Kurzarbeit”. A medida adotada pelo governo federal ajuda a evitar demissões, mas está longe de ser uma solução para o longo prazo. Segundo a Agência Federal do Trabalho da Alemanha (Bundesagentur für Arbeit), 92% dos trabalhadores da gastronomia vivem sob essa condição atualmente. Nas montadoras, o total de trabalhadores recebendo sem trabalhar chega a 68%. No setor metalmecânico, 44% da mão de obra recebe essa ajuda do governo.

O ministro da Saúde, Jens Spahn, anunciou com pompa no dia 30/04 o bônus de um bilhão de euros para os enfermeiros de hospitais e asilos do país. “É um valor muito generoso”, disse ele. Em contra-ponto, uma única empresa, a Lufthansa, pleiteia e vai levar do governo dez vezes esse valor. De quebra, ainda venderá 100 aviões velhos e demitirá 10 mil pessoas.

As empresas do setor automobilístico também já receberam seu quinhão de ajuda. Mais de 800 mil trabalhadores das montadoras receberam “Kurzarbeit” desde o início da quarentena. Agora com a retomada gradual da produção, as montadoras fazem Lobby pesado para reemplacar a proposta de oferecer “prêmios” pagos pelo Estado para compradores de carros novos. “É uma forma de renovar a frota e melhorar nossos padrões de emissões”, defende Hildegard Müller, presidente da Federação da Indústria Automobilística Alemã (VDA). Detalhe, o plano apresentado pelas montadoras inclui incentivos do governo para venda de carros a gasolina e diesel.

Apesar de toda a insatisfação e insegurança, o primeiro dia do mês foi atípico. Em Berlim, normalmente sacudida por turbas de pessoas vindas de todos os cantos do país para os protestos do dia do trabalhador, a coisa foi bem calma. Dias antes, cartazes anarquistas foram espalhados pela cidade. Eles denunciavam e criminalizavam alguns dos principais líderes do país e da Europa, e pareciam indicar a preparação de um confronto. Mas a presença massiva da polícia acabou com qualquer esperança daqueles que pretendiam expressar com liberdade a própria indignação.

Na MariannenPlatz, praça tradicional dos embates entre polícia e manifestantes, diversos pelotões da tropa de choque se movimentavam de um lado para o outro o tempo todo. Um caminhão da polícia com alto-falantes e o ruído constante de um helicóptero ajudavam a intimidar o publico presente. A partir das 21 horas, os policiais passaram a evacuar a área e arredores. Num sistema de varredura total, só ficava quem tivesse documentos comprovando que morava ali. Quem resistisse, rodava, Pouco depois da meia noite o bairro de Kreuzberg todo já estava calmo. Com menos de 50 detidos e nenhum ferido, este feriado foi bem diferente de outros anos.

 

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