Novo foco da tensão internacional, Bielorrússia tem apoio de Putin para conter protestos

O governo da Rússia anunciou, nesse domingo (16), que está pronto para oferecer assistência militar ao líder da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, alvo de intensos protestos por suspeita de fraude nas eleições nacionais realizadas há uma semana.

No mesmo dia, manifestantes que pedem a renúncia de Lukashenko, realizaram o maior protesto até agora contra o que consideram uma reeleição manipulada.

Segundo o The Guardian, o Kremlin disse que Moscou está pronta para fornecer ajuda de acordo com um pacto militar coletivo, se necessário, mas Putin não ofereceu apoio ou endosso a Lukashenko, que está há 26 anos no poder.

O protesto de domingo na capital, Minsk, atraiu cerca de 200 mil pessoas, segundo estimativa da agência Reuters.

Pelo menos dois manifestantes morreram e cerca de 7 mil foram detidos nas manifestações desde a eleição do último dia 9.

Adversários de Lukashenko, no poder há 26 anos, dizem que a votação foi fraudada para esconder o fato de que ele havia perdido apoio do público. Ele rebate citando resultados oficiais que lhe dão pouco mais de 80% dos votos.

Uma greve geral tenta paralisar a Bielorússia a partir desta segunda-feira, para obrigar o presidente a renunciar.

A greve dá seguimento aos protestos que se avolumam pelo país desde as eleições há uma semana.

Lukashenko, que “governa com mão de ferro”, já deixou claro que não vai recuar.

“Se destruírem Lukashenko, será o começo do fim”, bradou ele neste domingo, 16, num comício em que reuniu milhares de seguidores em Minsk, a capital do país de quase 10 milhões de habitantes.

Pouco antes ele havia recebido o telefonema de Vladimir Putin, o poderoso presidente russo. Putin garantiu que mantém o apoio ao seu governo, conforme o acordo coletivo de cooperação militar vigente entre os dois países.

Lukashenko fez um discurso desafiador perante seus partidários: “Não deixarei que ninguém entregue o nosso país, não permitirei isso nem depois de morto”, bradou ele diante de milhares de pessoas, principalmente funcionários estatais e trabalhadores que chegaram em comitivas de ônibus e trens até a capital.

O Ministério do Interior estimou 60 mil pessoas na manifestação na Praça da Independência, no centro de Minsk.

Os jornais e noticiosos críticos ao governo estimaram entre 6 e 4 mil o número de governistas na manifestação.

Lukashenko descartou categoricamente a ideia de convocar novas eleições e defendeu a apuração em que a comissão eleitoral lhe deu 80% dos votos, contra 10% de sua principal adversária, Svetlana Tijanovskaia.

A adversária está desde terça-feira na Lituânia, onde se exilou ao sentir que sua família estava sendo ameaçada.

Lukashenko acusa as “potências ocidentais” de tentar interferir na soberania do país e de concentrar unidades militares ao longo das fronteiras ocidentais da  Bielossrússia

“Os aviões da OTAN estão a 15 minutos de voo, suas tropas e seus tanques estão às nossas portas”.

E incluiu os vizinhos Lituânia, Letônia, Polônia “e, lamentavelmente, nossa querida Ucrânia” no suposto complô externo para tirá-lo do poder.

“Querem que repitamos as eleições, mas se lhes dermos ouvidos vamos despencar”, insistiu Lukashenko, acrescentando que uma nova votação significaria a morte da Bielorrússia “como Estado e como nação”.

“Não queremos nos tornar um cordão sanitário entre Oriente e Ocidente, não queremos nos tornar o banheiro da Europa”, disse em seu discurso.

Seus partidários o aclamavam usando seu apelido favorito, Batka, o “pai” da nação.

Aos 65 anos, Lukashenko preside um regime autoritário que persegue oposicionistas, controla os veículos de comunicações e, segundo denúncias internacionais, viola direitos humanos.

Os protestos contra o resultado da eleição e a violência começaram na segunda-feira, movidos pelas denúncias de fraude.

Reprimidos com violência pela polícia, tiveram pelo menos dois manifestantes mortos e cerca de 7 mil presos. Pessoas libertadas relataram a organizações como Anistia Internacional, Human Rights Watch e Comitê de Helsinque, casos de maus-tratos e até de tortura.

A Rússia reconhece “a pressão exercida [sobre a Bielorrússia] do exterior”, está disposta a oferecer ajuda para “resolver os problemas”, inclusive sob o pacto de segurança coletiva previsto em tratados bilaterais, “caso seja necessário”.

A agitação no país vizinho, onde até então poucos se atreviam a criticar o Governo em público, inquieta o governo russo.

Entre as razões da perda de popularidade de Lukashenko está sua atitude em relação a pandemia de coronavirus. Ele zombou do vírus e afirmou que a melhor forma de combatê-lo era com vodca, sauna, hóquei e trabalho na terra. Não decretou medidas de quarentena nem fechou as fronteiras do país.

A indignação com a violência contra manifestantes pacíficos alimentou o descontentamento. A ponto de que neste domingo o próprio ministro do Interior, Yuri Karaiev, ter dito ser contra os abusos. “Isso é muito ruim, não deveria acontecer. Investigaremos todas as acusações, mas não agora, e sim quando a situação se acalmar. Já disse que lamento que alguns tenham sido espancados”, afirmou Karaiev na manifestação a favor do Governo.

“Estamos vendo que este ditador não se deterá diante de nada, está disposto até a sacrificar a soberania e a independência de Bielorrússia para manter seu poder”, afirmou Maria Kolesnikova, uma das mulheres do trio oposicionista liderado por Tijanovskaia, que Lukashenko procurou insultar com comentários machistas.

O que acontecer na Bielorrússia, que tem uma extensa fronteira com a Rússia, mas também com a Letônia, Lituânia, Polônia e Ucrânia, será decisivo para toda a região. O Kremlin não parece disposto a perder sua influência sobre o pequeno país, que atua há anos como amortecedor entre a Rússia e a OTAN.

Até que ponto Putin vai apoiar Lukashenko? Essa é uma dúvida entre os analistas. Uma intervenção militar direta poderia reviver sentimentos contra os russos na Bielorrússia, onde são minoritários e provocar uma reação sem precedentes da OTAN e dos Estados Unidos, inclusive.

(Com informações do NYT, Guardian, Agência Brasil, El Pais e Reuters)

 

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