Paulo Guedes sobre corte de aumento a servidores: “Colocamos a granada no bolso do inimigo”

O economista Paulo Guedes emerge da fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril como o ministro mais poderoso do governo Bolsonaro.

“Eu tenho poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção”, diz o presidente no vídeo divulgado por determinação judicial na sexta-feira, 22.

Em seguida ele fez a ressalva: “Se eu tiver que mexer nos bancos, falo com o Guedes (…) Zero problemas com o Paulo Guedes, mas os demais [ministérios] vou [interferir]”, diz Bolsonaro.

Guedes, empoderado,  foi um dos ministros que mais falou na reunião, em diversas intervenções, nas quais fez  jus à linguagem chula usada pelo presidente.

Suas declarações, no entanto,  não tiveram grande repercussão na imprensa, que de modo geral apóia sua política.

Entre outras coisas, ele revela sua urgência em privatizar o Banco do Brasil e comemora a proibição de aumento por dois anos para os servidores (“Botamos a granada no bolso do inimigo”), dando a entender que pretende aprofundar o ajuste fiscal, apesar da crise econômica decorrente da pandemia. “Vamos manter o rumo, vamos manter o rumo”, insistiu.

Sua declaração mais preocupante, no entanto, refere-se ao financiamento para ajudar as empresas a se recuperarem da crise econômica agravada pela pandemia:

“Nós vamos botar dinheiro, e … vai dar certo e nós vamos ganhar dinheiro. Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos pra salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas”.

A declaração explica as dificuldades que as micro e pequenas empresas estão enfrentando para ter acesso às linhas de crédito já anunciadas pelo governo.

Esse é o segmento empresarial que mais emprega e que afeta um maior número de pessoas, mas pelas declarações de Paulo Guedes não vai ser uma prioridade nos programas para recuperação da economia.

Veja as declarações de Paulo Guedes na reunião:

“O Banco do Brasil não é tatu nem cobra. Não é privado, nem público. Então se for apertar o Rubem (Rubem Novaes, presidente do BB), coitado. Ele é super liberal, mas se apertar ele e falar: ‘bota o juro baixo’, ele: ‘não posso, senão a turma, os privados, meus minoritários, me apertam’ . Aí se falar assim: ‘bota o juro alto’, ele: ‘não posso, porque senão o governo me aperta’. O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização”.

Bolsonaro, então decidiu dar a palavra ao presidente do banco, Rubem Novaes, mas Guedes logo interrompeu: “Banco do Brasil a gente não consegue fazer nada e tem um liberal lá. Então tem que vender essa porra logo”.

“Todo mundo está achando que, tão distraídos, abraçaram a gente, enrolaram com a gente. Nós já botamos a granada no bolso do inimigo – dois anos sem aumento de salário”.

“E estamos agora no meio dessa confusão, derrubando a última, a última torre do inimigo. Que uma coisa é que nós vamos fazer a reconstrução e a nossa transformação econômica. A outra coisa são as torres do inimigo que a gente tinha que derrubar. Uma era o excesso de gasto na Previdência, derrubamos assim que entramos. A segunda torre eram os juros. Os juros tão descendo e vão descer mais ainda”

“Nós sabemos para onde nós vamos voltar já, já, tá certo? E se o mundo for diferente, nós vamos ter capacidade de adaptação. Por exemplo: eu já tenho conversado com o ministro da Defesa, já conversamos algumas vezes. Quantos? Quantos? Duzentos mil, trezentos mil. Quantos jovens aprendizes nós podemos absorver nos quartéis brasileiros? Um milhão? Um milhão a 200 reais, que é o Bolsa Família, 300, para o cara. […] Faz ginástica, canta o hino, bate continência. De tarde, aprende, aprende a ser um cidadão, pô! Aprende a ser um cidadão. Disciplina, usar o … usar o tempo construtivamente, pô! […] É voluntário para fazer estrada, para fazer isso, fazer aquilo. Sabe quanto custa isso? É 200 reais por mês, 1 milhão de cá, 200 milhões, pô! Joga dez meses aí, 2 bi. Isso é nada!”.

“O sonho do presidente de transformar o Rio de Janeiro em Cancún lá, Angra dos Reis em Cancún… Aquilo ali pode virar Cancún rápido. Entendeu? A mesma coisa aí é a Espanha. Espanha recebe trinta, quarenta milhões de turistas. Isso aí é uma cidade da Ásia. Macau recebe vinte e seis milhões hoje na … na China. Só por causa desse negócio. É um centro de negócios. É só maior de idade. O cara entra, deixa grana lá que ele ganhou anteontem, – ele deixa aquilo lá, bebe, sai feliz da vida. Aquilo ali num atrapalha ninguém. Aquilo não atrapalha ninguém. Deixa cada um se foder. Ô Damares. Damares. Damares. Deixa cada um … Damares. Damares. O presidente, o presidente fala em liberdade. Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa o cara se foder, pô! Não tem … lá não entra nenhum, lá não entra nenhum brasileirinho”.

“A China é aquele cara que cê sabe que cê tem que aguentar, porque pro cês terem uma ideia, pra cada um dólar que o Brasil exporta pros Estados Unidos, exporta três pra China. Você sabe que ele é diferente de você. Cê sabe que geopoliticamente cê tá do lado de cá. Agora, cê sabe o seguinte, não deixa jogar fora aquilo ali não porque aquilo ali é comida nossa. Nós tamo exportando pra aqueles cara. Não vamos vender pra eles ponto crítico nosso, mas vamos vender a nossa soja pra eles. Isso a gente pode vender à vontade. Eles precisam comer, eles precisam comer”.

“Montamos um comitê de bancos, estamos lá com o Montezano (do BNDES) agora fazendo justamente a reestruturação. Não vai ter molezinha pra empresa aérea, pra nada disso. É dinheiro que nós vamos botar usando a melhor tecnologia financeira lá de fora. Nós vamos botar dinheiro, e … vai dar certo e nós vamos ganhar dinheiro. Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos pra salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas. Então, nós estamos fazendo tudo by the book, direitinho”.

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