Polícia Civil indicia 34 pessoas por suspeitas de fraudes milionárias na Educação em Porto Alegre

Operação Capa Dura da polícia apontou desvios de R$ 58 milhões. Divulgação/PC-RS

Nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, a Polícia Civil gaúcha finalizou o conjunto de inquéritos da Operação Capa Dura, no total foram 34 pessoas indiciadas.

O esquema pode ter movimentado mais de R$ 58 milhões e funcionou dentro da Secretária Municipal de Educação de Porto Alegre (Smed) entre 2021 até 2023. Houve direcionamento de licitações, uso de orçamentos falsos e pagamentos de propina.

Entre os indiciados há nomes como o da ex-secretária de Educação municipal Sônia da Rosa, e os ex-vereadores Alexandre Bobadra e Pablo Melo (filho do prefeito Sebastião Melo), além do empresário Jailson Ferreira da Silva, um dos mentores das fraudes, segundo o relatório policial.

O número de indiciados aumentou de 24 (em maio de 2025) para 34 porque a Polícia Civil finalizou frentes que corriam em paralelo. Os principais crimes apontados são de corrupção passiva e ativa, fraude em licitação, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Para a polícia, o esquema criminoso se utilizava da modalidade de “carona” em atas de registro de preços de outros estados (como Sergipe) para comprar materiais sem concorrência e com superfaturamento. Foram identificadas compras de milhares de livros didáticos e centenas de telas interativas (lousas digitais). Muitos dos materiais foram estocados em depósitos, sem uso, enquanto o pagamento às empresas de Jailson Ferreira era priorizado em tempo recorde.

Novas frentes na investigação, agora concluídas, revelaram que o esquema não se limitava a livros e telas; ele funcionava como um “cardápio de fraudes” dentro da Smed. O grupo utilizava a mesma lógica das “caronas” em atas de preços para contratar empresas de reforma sem licitação real.

O processo agora segue para o Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia formal contra os 34 envolvidos.

Vale lembrar que, diferente do inquérito policial, o relatório final das CPIs da Educação na Câmara Municipal, aprovado em dezembro de 2023, não apontou ilegalidades cometidas por agentes públicos na época, gerando críticas e relatórios paralelos da oposição.

De acordo com as investigações, os principais nomes envolvidos são:

Pablo Melo, ex-vereador e filho do prefeito Sebastião Melo. Foi indiciado por suspeita de atuar como articulador político e intermediário nos contratos. Apontado no inquérito como um dos articuladores que facilitaram o contato entre empresários e a cúpula da Smed. Durante as fases da operação, houve ainda investigação sobre o uso de sites de apostas esportivas para movimentar valores suspeitos, acusação que Melo nega veementemente.

Pablo Melo não possui cargo na prefeitura atualmente. Em novembro de 2024, ele foi afastado de funções públicas por 180 dias por determinação judicial devido às investigações. Ele teve ainda sua candidatura a vereador cassada e foi declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS), pelo entendimento de que parentes de prefeitos não podem se candidatar ao mesmo cargo no território de jurisdição do titular, decisão mantida pelo TSE.

Sônia da Rosa, ex-secretária municipal de Educação, que chefiava a pasta na época das compras suspeitas.

Jailson Ferreira da Silva, empresário representante das fornecedoras de livros e kits pedagógicos, considerado o centro do esquema comercial.

Maon Calegaro Moraes, advogado e ex-servidor (CC) da prefeitura, indiciado por suposto recebimento de propinas e operação financeira do esquema.

Reginaldo Bedigaray, ex-chefe de gabinete de Pablo Melo, suspeito de atuar como operador financeiro no repasse de valores.

Alexandre Bobadra, ex-vereador, apontado por intermediar contatos entre empresários e a prefeitura.

Mateus Viegas, ex-CC da Procuradoria-Geral do Município (PGM), indiciado por suspeita de facilitar os trâmites jurídicos das compras.

Michele Bartzen e Mabel Luiza, ex-assessoras da SMED que chegaram a ser presas e colaboraram com as investigações.

Lia Wilges, servidora que atuava no Gabinete do Prefeito. O inquérito aponta que ela fazia a ponte entre os interesses dos empresários e as decisões administrativas da SMED.