Primeiro de Maio é incógnita em meio à saída da crise na Europa

Sem primeiro de maio, sem tumulto, diz o cartaz em tom satírico sobre a tradição de conflitos entre polícia e manifestantes nesse feriado. Fotos: Mariano Senna

Mariano Senna, de Berlim

Às vésperas do fim oficial do confinamento por conta da pandemia pelo Covid-19 na Europa, a chamada retomada das atividades, uma incógnita paira sobre o Continente. Serão respeitadas as regras de distanciamento e prevenção durante o primeiro de maio? Ou melhor, como farão os governos para evitarem que as pessoas saiam as ruas no feriado para protestarem contra questões relacionadas à crise atual?

O noticiário europeu dá conta da crescente insatisfação especialmente dos setores de entretenimento, gastronomia e turismo. “Donos de estabelecimentos não sabem como vão pagar suas contas, funcionários não sabem se receberão algum tipo de ajuda. Vivemos em clima de total incerteza e insegurança”, reclama Pascuale Tascaari, diretor da Associação de Restaurantes da Toscana. Na Itália, um dos países mais castigados pelo Corona, 13% do PIB provém de hotéis, bares, restaurantes, agências de viagem etc.

Na Alemanha, a situação é um pouco melhor, mas não menos incerta. Antonio D’Ambrosi comanda a cozinha de um pequeno restaurante no bairro de Neukölln, em Berlin. Lugar pequeno, aconchegante, de decoração simples, pratos originalmente deliciosos e uma carta de vinhos italianos de dar inveja às melhores casas do Brasil. D’Ambrosi reabriu o restaurante apenas para entregas há duas semanas. “É a única forma de sobreviver”, conta o Chef, contabilizando, apesar do esforço, uma perda de 70% no faturamento.

A pergunta que todos fazem é: quando poderemos voltar a trabalhar normalmente? “Há duas semanas me dizem que amanha saberemos”, conta Curgy Lopes, gerente do Hostel Plus, em frente a estação WarschauerStr., uma das preferidas pelos turistas em Berlin. O Hostel com 240 camas, foi fechado logo no início da crise. Todos os funcionários recebem desde então o chamado “Kurzarbeit”, o que equivale a 60% do salário. “Mal paga o aluguel e a comida”, reclama o gerente.

Nos últimos dias o movimento foi intenso nas ruas de BerlimCom escolas, creches e grandes lojas ainda fechadas, a vida nas ruas da capital da Alemanha voltou ao normal. Uma das novidades são as filas. Elas estão por todo o lado. Para ir no banco, na farmácia, no supermercado. Fora isso, tudo igual.

Até os mendigos voltaram a pedir dinheiro no metrô e os junkies voltaram a se drogar em plena calçada à luz do dia. Em alguns momentos é inevitável mesmo a impressão de multidão, pois parece que há mais pessoas andando na rua do que antes da pandemia.

Até os junkies voltaram a se drogar em plena calçada à luz do dia

O movimento nas ruas hoje lança dúvidas inevitáveis sobre as reais razoes para o pânico das primeiras semanas de marco. Um mês antes da quarentena, os jornais do país davam em página inteira os possíveis prejuízos de uma paralisação pandêmica. O assunto principal especulava sobre a flexibilização do limite de endividamento do setor público para poder lidar com uma crise como a que se desenhava na época. De lá pra cá, os europeus aprovaram um pacote de ajuda de 540 bilhões de Euros, 100 bilhões a fundo perdido, e o restante a ser concedido em condições ainda em discussão.

Os recursos são fundamentais para a sobrevivência de alguns pilares da economia do continente. Áreas como a aviação também estão no chão. Desde 12 de Marco até o 24 de Abril a Lufthansa cancelou 23 mil vôos. A média diária era de 350 mil pessoas voando por dia, hoje são menos de três mil. Uma quebra de 95% no número de passageiros transportados.

Presidente do Conselho Diretor da Lufthansa espera socorro financeiro do governo

Os custos fixos de todas as operações da Lufthansa somam 1 milhão de Euros por hora. “Não teremos como sobreviver sem a ajuda do Estado”, alertou Carsten Spohr, presidente do conselho da empresa, em um pronunciamento aos funcionários. Trata-se de um pacote de socorro financeiro de 10 bilhões de Euros a ser negociado em Bern, Viena, Berlin e Bruxelas nos próximos dias. Independente do resultado, a empresa já anunciou que reduzirá 100 aviões de sua frota até Julho. O número de funcionários demitidos pode chegar a 10 mil. Parece coisa de quem quer tirar proveito da situação. E esse não é o único caso.

Mesmo tendo recebido ajuda do Estado para pagar os funcionários, fabricantes de automóveis como Volkswagen, Daimler e BMW distribuirão bônus e dividendos aos acionistas agora em Maio, “O pagamento de dividendos é importante para manter os acionistas, e evitar a tomada do controle das empresas por concorrentes estrangeiros ”, defendeu Hildegard Müller, presidente da Associação da Indústria Automobilística (VDA) da Alemanha.

Já o ministro das finanças, Olaf Scholz, avisou: “As regras do programa de ajuda são claras, empresas que receberem auxilio financeiro estatal não podem distribuir dividendos, também o pagamento de bônus aos executivos e funcionários tem regras estritas”. O tempo dirá quem vai vencer esse embate.

Movimento aumentou muito também nos parques de Berlim

O sucesso da retomada das atividades depende agora da redução do número de novos casos da infecção por Covid-19. No país neste final de abril eles ainda somam 2.500 por dia. O número total de mortos passou dos 6.100. “Precisamos de algumas centenas de novos casos a menos para estarmos seguros dos resultados com a reabertura”, declarou Lothar Wieler, presidente do Robert-Koch Institut, responsável pelos dados oficiais.

Pesquisas de opinião apontam que os alemães estão muito satisfeitos com o trabalho do governo de Angela Merkel no gerenciamento da crise. Segundo o Polit Barometer, enquete encomendada pelas redes de comunicação pública, ARD e ZDF, 83% a 90% dos entrevistados aprovam a forma como as autoridades cuidam da pandemia.

“As pessoas aqui têm uma mentalidade peculiar. Elas têm tesão de ficarem em fila, sofrer com a burocracia, estão felizes se o governo lhes tirar as liberdades individuais em troca de segurança”, afirma Lindomar Gomes, dono de uma loja de bicicletas em uma das regiões mais turísticas da capital.

Ao contrário da grande maioria, Lindomar não fez quarentena. Trabalhou o tempo todo e garante que seu movimento aumentou 50% em relação a abril do ano passado. “As pessoas tiveram mais tempo para comprarem ou arrumarem suas bicicletas”, acredita o paulista de 44 anos que mora há 17 anos em Berlin.

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