Relator recusa prorrogação e CPI do DMAE termina com muitas denúncias não esclarecidas

Gilvani Dall, o Gringo, diz que pagou propina porque foi coagido. Foto: Guilherme Vivan / CMPA

Será apresentado nesta segunda-feira, 13, o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Departamento Municipal de Águas e Esgoto de Porto Alegre, autarquia que está em processo de privatização.

A CPI recebeu denúncias graves e indícios consistentes de que a tese do desmonte deliberado do DMAE tem muito sentido. Mas isso não estará no relatório do vereador Rafael Fleck, do MDB.

Contribuiu para o desfecho a escassa cobertura da imprensa.

Criado em 1961, o Departamento Municipal de Águas e Esgotos, popularizado como o DMAE, foi a solução encontrada para um problema histórico de Porto Alegre: o abastecimento de água e o tratamento dos esgotos.

A cidade durante muito tempo sofreu com a escassez de fontes de água potável e a falta de tratamento de esgoto, que era lançado direto nas águas do Guaiba e da Lagoa dos Patos.

O DMAE, criado na gestão de Loureiro da Silva (1961/64) inaugurou uma nova era nesse quesito do saneamento e tem um histórico de “estatal municipal” eficiente e sustentável, e até lucrativa.

O atual diretor, Bruno Vanuzi, diz que o DMAE é superavitário porque não faz os investimentos necessários.  Por que não faz?

A  ideia de privatizar o DMAE não é nova e há muito os vereadores da oposição,  denunciam um processo de desmonte da autarquia, com corte de pessoal e de investimentos, para criar justificativas à privatização.

Com seu robusto orçamento (R$ 1,13 bilhão em 2025) o DMAE também é um foco de denúncias reiteradas sobre as relações incestuosas entre diretores e fiscais da autarquia e as empresas prestadores de serviço, as terceirizadas.

Já o primeiro depoente na CPI, Luiz Augusto França,  ex-diretor executivo da MG Terceirizações, apresentou detalhado relato de um esquema de propina, iniciado em 2021, quando sua empresa enfrentava atrasos nos pagamentos por parte da autarquia. Com nomes e números ele detalhou o esquema de propina.

A deputada estadual Luciana Genro (PSOL), que tornou a denúncia pública, exibiu áudios e mensagens trocadas entre os fruncionários, nos quais o pagamento da propina é explicitamente discutido. Em uma das gravações, um deles reconhece que mais de R$400 mil já haviam sido pagos em propina e revela a insatisfação de um “superior” com os atrasos.

A deputada revelou que recebeu documentos, planilhas e provas materiais em 2023, e a partir disso, encaminhou o caso ao Ministério Público. 

Nas últimas sessões da CPI, o vereador Gilvani Dall Oglio, o Gringo, disse que foi extorquido em várias ocasiões, deu nomes  e apresentou documentos comprovando denúncias que fez à Polícia. Os documentos não foram acolhidos pelo relator, depois que o “Gringo” foi desqualificado pelos vereadores da bancada governista, que estão pedindo sua cassação. Antigo prestador de serviços à prefeitura e com um contencioso de irregularidades, o Gringo passou de acusador à acusado.

A CPI foi instalada no início de junho para investigar “o desmonte do DMAE”,  proposta e presidida pela vereadora Natasha Ferreira (PT).

Como relator foi indicado Rafael Fleck (MDB), partido do prefeito Sebastião Melo.

A polêmica começou já no nome da CPI.  Natasha Ferreira, a presidente propôs que se chamasse “CPI do Desmonte do DMAE”, ao que se opuseram os vereadores da base aliada ao prefeito Sebastião Melo, que tem uma maioria de 8 a 4 na comissão.

(Na Câmara são 23 vereadores da base do prefeito e 12 da oposição).

Muitas denúncias foram feitas à comissão. Gilvani Dall Oglio, o Gringo, foi ouvido duas vezes, na última falou quatro horas. Disse que tem conhecimento de contratos  firmados pelo Dmae entre 2023 e 2025. Levantou suspeitas sobre serviços para limpeza de tubulações e de abastecimento de água por caminhões-pipa.

” Os elementos novos que o vereador Gilvani conseguiu trazer hoje para a CPI são muito graves. Ele falou abertamente sobre contratos de 2023 e 2024. Coisa que, na segunda-feira passada, tinha ficado um pouco difícil de compreender”, avaliou a presidente da comissão, vereadora Natasha Ferreira (PT).

Dois depoentes convocados não compareceram à CPI: o ex-diretor do DMAE, Alexandre Garcia e o ex-secretário de Articulação e Apoio dos Municípios do governo do Estado Agostinho Meirelles.

Mesmo sem estes depoimentos e apesar das novas suspeitas levantadas por Gringo, foi rejeitado um requerimento que prorrogaria os trabalhos da comissão.

“(Alexandre Garcia) já é indiciado e responde a um processo judicial. A CPI não vai contribuir em nada, não vai ter fato novo”,  argumentou o relator da CPI, Rafael Fleck (MDB), que votou contra a prorrogação.

O relatório final será apresentado na segunda-feira (13). Segundo Fleck, o documento deve apontar responsabilidades de empresários.

“Acho muito ruim que a CPI termine sem as demais oitivas”, afirmou Natasha. “Os apoiadores do prefeito desconsideraram as denúncias e focaram nas acusações ao governo federal e quando eu pedi  a convocação do Paulo Pimenta, ex-ministro da Reconstrução, para trazer os números eles negaram”, disse ela..