A região metropolitana de Porto Alegre estará sujeita a enchentes cada vez mais “imprevisíveis e violentas” se nada for feito para preservar os banhados e a vegetação no entorno do Guaíba e seus afluentes.
O alerta foi feito pelo então fundador presidente da Agapan, José Lutzenberger, em extenso artigo na edição de 27 de agosto de 1972 do Correio do Povo (na época o principal diário do Rio Grande do Sul).

Veja o resumo do artigo “Estuário do Guaíba, Reserva da Grande Metrópole do Futuro”, escrito por José A. Lutzenberger. Na época a região metropolitana tinha 1,5 milhão de habitantes. Hoje ultrapassa os 4 milhões.
O texto é um alerta pioneiro sobre a degradação ambiental no Rio Grande do Sul, causada, principalmente, pelo o avanço dos aterros, drenagem e secamento dos banhados no Estado, para expansão urbana, agricultura, pecuária ou plantios de eucalipto.
Alerta para o “desaparecimento total dos banhados em poucos anos”, se medidas preventivas não fossem tomadas.
Lutzenberger critica a postura “ecologicamente cega” e pautada pelo imediatismo econômico. “A especulação imobiliária ignora as necessidades de longo prazo da coletividade”, destaca.
“Há”, diz ele, “uma visão leiga e equivocada de que banhados servem apenas para criar mosquitos e jacarés. Banhados, afirma, estão entre os ecossistemas mais produtivos e cruciais do planeta. Cerca de 60% da produtividade dos oceanos depende direta ou indiretamente dos banhados”.
Os banhados do Guaíba e da Lagoa dos Patos garantem o suporte de vida e o equilíbrio biológico de todo o estuário. A perda da vegetação nativa desestabiliza o regime de águas do estuário. Os banhados atuam como filtros biológicos naturais que depuram a poluição acumulada. Sem eles, a capacidade de auto-purificação das águas é perdida e a poluição se agrava.
“Exercem papel fundamental no controle de cheias ao reterem grandes volumes de água. O fim dos banhados tornará as enchentes mais imprevisíveis e violentas”.
O resultado de sua destruição é que “volumes cada vez maiores de sedimentos carreados pelos rios Jacuí, Sinos, Caí e Gravataí causam o assoreamento crescente do Guaíba, problema que a engenharia tenta resolver de forma paliativa por meio de dragagens”.
“Os efluentes que chegam ao Guaíba não contêm apenas matéria orgânica que se decompõe. Indústrias metalúrgicas e químicas despejam sais de metais pesados e cianureto nas águas. As águas pluviais varrem contaminantes das cidades diretamente para os cursos d’água”.
“Os banhados atuam como filtros biológicos naturais que depuram a poluição acumulada. Sem eles, a capacidade de auto-purificação das águas é perdida e a poluição se agrava. Exercem papel fundamental no controle de cheias ao reterem grandes volumes de água. O fim dos banhados tornará as enchentes mais imprevisíveis e violentas”.
O estuário confere um valor estético e recreativo único no contraste com o centro urbano.
A urbanização desordenada destruiria o principal patrimônio ambiental paisagístico da cidade.
A área deveria ser convertida em reserva biológica para proteger a avifauna e fauna aquática.
Lutzenberger condena o uso de aterros sanitários com lixo urbano nas ilhas.
O lixo em decomposição anaeróbia contamina o lençol freático com substâncias tóxicas.
A única solução sustentável para os resíduos é a coleta seletiva e a reciclagem industrial.

