José Fortunati, ex-prefeito de Porto Alegre, confirmou ontem após 15 anos sua saída do partido trabalhista, o PDT. Uma carta, onde alegou rumos políticos diferentes, foi entregue ao presidente estadual da legenda, o deputado federal Pompeo de Mattos, que oficialmente respondeu como “total ingratidão” a debandada de Fortunati.
Publicamente, o ex-prefeito desconversou e não falou qual será seu novo partido. Disse apenas ter convite de pelo menos sete partidos: PSB, PR, PRB, PSD, PV, PTB e Rede e que escolherá o partido que lhe der a chance de concorrer ao senado.
A saída de Fortunati acontece dois anos após seu primeiro conflito na sigla, quando um atrito com vereadores da sua base de governo do PDT o fizeram a pedir licença da sigla. Após isso a relação nunca mais foi a mesma.
Fortunati também já foi filiado ao PT, partido que saiu em 2001 após divergências políticas. Um ano antes, foi eleito com 39 mil votos para vereador da Capital, a maior votação alcançada para este cargo em Porto Alegre.
Confira a íntegra do PDT sobre a desfiliação de José Fortunati:
A executiva estadual do Partido Democrático Trabalhista (PDT) recebeu no dia 06 de novembro de 2017 carta do ex-prefeito José Fortunati, solicitando abertura do processo de escolha do candidato do partido ao senado da república nas eleições de 2018, ponderando que tal fosse feito até o dia 16 de dezembro quando ocorrerá a convenção estadual do partido.
A executiva estadual do PDT, em reunião, delegou a esta presidência a responsabilidade de fazer consulta a outros postulantes do cargo, especialmente o ex-deputado Vieira da Cunha e o ex-prefeito de Osório Romildo Bolzan Junior, que após serem contatados, abriram mão de qualquer pretensão à candidatura, liberando o partido para indicar Fortunati como pré-candidato ao senado.
Este presidente levou a informação à reunião da executiva estadual realizada na noite desta segunda-feira 27 de novembro de 2017, quando então foi definido que, o único nome para a disputado do senado seria o de José Fortunati e, tal indicativo seria levado à convenção do dia 16 de dezembro.
Após esta definição, ainda durante a reunião, a executiva foi surpreendida com a entrega da carta de desfiliação de Fortunati.
Ninguém no PDT foi tão prestigiado como Fortunati desde sua filiação ao partido em setembro de 2001, senão vejamos:
Fortunati concorreu em 2002 a deputado federal fazendo cerca de 50 mil votos e não se elegeu. Em janeiro de 2003 quando o PDT compôs o governo Rigotto, indicou Fortunati ao cargo de Secretário de Estado da Educação, o qual foi nomeado e desempenhou a função durante 4 anos, sendo o cargo mais relevante do partido no governo Rigotto, mesmo Fortunati estando filiado ao PDT a pouco mais de 1 ano e 3 meses.
Em 2006, Fortunati concorreu novamente a deputado federal e fez cerca de 30 mil votos. Não se elegendo, foi nomeado secretário de planejamento do governo Fogaça em Porto Alegre. Em decorrência disso, o PDT perdeu o vereador Dr. Goulart, pretendente do mesmo cargo e também o suplente de vereador, DJ Cassiá, que assumiria mandato na Câmara de Vereadores da capital no lugar de Dr. Goulart.
Em 2008, Fortunati foi indicado pelo PDT candidato a vice-prefeito de Porto Alegre na chapa vitoriosa encabeçada por José Fogaça.
Em 2010, na eleição de governador, o PDT em pré-convenção tirou indicativo de coligação com Tarso Genro, podendo indicar o vice na chapa do candidato do PT. O PDT mudou seu posicionamento e concorreu a vice na chapa de Fogaça, o qual renunciou a prefeitura de Porto Alegre, tornando Fortunati herdeiro do mandato por quase 3 anos. O PDT perdeu a eleição ao Piratini, mas Fortunati ficou em nome do partido como prefeito de Porto Alegre.
Em 2012 o PDT ungiu o nome de Fortunati para disputar a reeleição à prefeitura de Porto Alegre, que teve a chapa vitoriosa em primeiro turno.
Em 2015, a deputada estadual Regina Becker Fortunati, eleita pelo PDT, pediu desfiliação do partido para ingressar na Rede Sustentabilidade. O PDT através de sua executiva deliberou em não reivindicar judicialmente o mandato da deputada, tendo em conta que se tratava da esposa do prefeito do PDT da capital gaúcha.
Em março de 2015, durante o segundo mandato de Fortunati como prefeito, houve uma crise de desentendimento com a bancada do PDT da Câmara de Vereadores. O então prefeito, “licenciou-se do partido”. Embora não exista esta figura jurídica, o PDT teve compreensão e considerou a decisão de Fortunati.
Na eleição municipal de 2016, Fortunati não apoiou o nome do candidato do PDT, Vieira da Cunha, como seu sucessor, mesmo assim o partido relevou a atitude do então prefeito que preferiu Sebastião Melo (PMDB) como candidato.
Em 2017 a direção estadual agendou 37 reuniões de coordenadorias em todas as regiões do Rio Grande do Sul para discutir candidaturas ao governo do estado e ao senado federal. O ex-prefeito de Canoas, Jairo Jorge, hoje pré-candidato ao Piratini, se apresentou para o debate, participando de todas as reuniões, enquanto Fortunati participou de apenas 4 reuniões iniciais, desinteressando-se do debate mesmo sendo o único postulante ao senado pelo PDT.
Em sua primeira carta em 06 de novembro de 2017, Fortunati pediu que a decisão do partido em relação à candidatura do senado fosse até a data da convenção, prevista para 16 de dezembro. A nova carta deixa claro que Fortunati não aguardou o prazo que ele mesmo sugeriu, abandonando o partido, surpreendendo a todos.
Essa atitude de Fortunati demonstra total ingratidão, uma vez que o partido sempre disponibilizou as melhores oportunidades ao ex-prefeito, que novamente seria prestigiado com a candidatura ao senado.
Provavelmente Fortunati antecipa sua saída ao tomar conhecimento de que a pretendida vaga ao senado lhe estava garantida, deixando evidente que não queria mais permanecer no PDT.
Deputado Pompeo de Mattos, presidente estadual do PDT.
Autor: da Redação
Após sair do PDT, Fortunati diz ter propostas de sete partidos
Espetáculo Simplesmente Flamenco tem duas sessões gratuitas no Teatro Glênio Peres
A Companhia de Dança Tablado Andaluz apresenta seu espetáculo Simplesmente Flamenco nesta sexta e sábado no Teatro Glênio Peres, da Câmara Municipal. As apresentações iniciam às 20 h, com entrada gratuita e classificação livre.
O espetáculo é, segundo a companhia, “um mergulho no universo flamenco, no dia-a-dia, na intimidade dos ensaios e na vida de cada um”. A fusão de coreografias com a iluminação serve de inspiração e de pano de fundo, onde se desenrolam todas as cenas. O espetáculo trata o baile flamenco com simplicidade, “traduzida na sua forma mais pura e na sua linguagem mais direta”.
O grupo lembra que os hábitos do povo da Andaluzia de cantar e dançar, “traduzindo suas vidas, suas dores e seus sentimentos em arte, são os elementos principais da alquimia que originou o flamenco.
A direção geral e as coreografias são de Andréa Franco e das demais bailaoras (professoras) do Tablado. Acompanha as danças a Banda Flamencura, tendo o bailaor Pedro Fernández na voz e na direção musical. O repertório resultou de uma profunda pesquisa nas raízes do flamenco.
Até sexta-feira, das 9 às 12 horas e das 13h30 às 18 horas, os ingressos poderão ser retirados na Seção de Memorial da Câmara. As entradas também estarão disponíveis a partir de meia hora antes das apresentações, no saguão do Teatro Glênio Peres (Avenida Loureiro da Silva, 255, 2º piso). Estacionamento gratuito.
As apresentações integram a III Mostra de Artes Cênicas do Teatro Glênio Peres. Nos dias 8 e 9, a mostra traz o espetáculo de dança SeteOito – Impermanências e nos dias 15 e 16, o teatro infantil A Arca de Noé.Decisão sobre convocação de Marchezan na Câmara é adiada, embate político continua
A votação que aprecia o requerimento de convocação do prefeito Nelson Marchezan Júnior para comparecer à Câmara de Vereadores ficou para a quarta-feira. Dessa vez foi a oposição que retirou o quórum e encerrou a ordem do dia desta segunda-feira, 27/11. Na semana passada quem havia feito esta manobra foi a base aliada do governo já que o risco de perder era grande.
Com a base marcando presença até o final de uma sessão mais extensa que as habituais, a oposição decidiu retirar quórum já que parlamentares que querem chamar o prefeito ao Legislativo já não se encontravam em plenário.
Na prática, o embate político continua desde que veio a tona o vídeo mostrando declarações do prefeito, durante o 3º congresso nacional do MBL, referindo-se a parlamentares: “É tudo cagão”.
O resultado desta votação ainda é incerto visto que irá depender da presença de alguns vereadores que podem votar a favor ou não do requerimento. Para aprovar a convocação de Marchezan é preciso maioria simples, ou seja, metade mais um do número de vereadores presentes no plenário. Se todos os parlamentares estiverem na sessão serão necessários dezenove votos. Na semana passada o requerimento foi assinado por dezesseis vereadores.
Críticas e defesas ao prefeito
O requerimento foi o último assunto a ser discutido em plenário. Antes disso, a Câmara revogou a lei sobre o Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Município. A convocação do prefeito alternou opiniões no plenário.
De volta de viagem à Europa, após acompanharem o prefeito Marchezan, os vereadores Moisés Barboza (PSDB) e Idenir Cecchim (PMDB) foram alguns que defenderam o prefeito. “Não foi diretamente aos vereadores”, comentou Barboza. Já Cecchim lembrou sobre declarações infelizes de outros políticos.
Também da base e contra a convocação do prefeito, a vereadora Mônica Leal fez um discursos um tanto emocionada na tribuna. “Fiquei triste e chateada ao ouvir isso do prefeito, mas não quero que ele venha aqui pra explicar o inexplicável”, salientou Leal, que ainda cobrou desculpas do prefeito.
Já o ex-líder da base, Clàudio Janta, voltou a criticar Marchezan: “Não adianta o prefeito e seus defensores dizerem que ele não falou mal desta casa”.
Janta é um dos principais engajados na convocação do prefeito. Mesmo se for aprovada, a presença de Júnior para prestar esclarecimentos não é certa já que o requerimento é considerado por muitos inconstitucional. Mas, como comentou um assessor, “é mais um tijolo no castelo de conflitos” entre o prefeito e legislativo.
Clàudio Janta (gravata laranja) é um dos que quer a convocação do prefeito / Ramiro Furquim / outroangulo.com 
Idenir Cecchim foi à Tribuna e defendeu a rejeição de convocação do prefeito / Ramiro Furquim / outroangulo.com Câmara antecipa devolução de R$ 15 milhões à prefeitura
A Câmara Municipal de Porto Alegre confirmou a devolução antecipada à prefeitura das sobras do orçamento de 2017, no valor de R$ 15 milhões. O presidente da casa, vereador Cássio Trogildo (PTB), assinou o termo de transferência, na manhã desta terça-feira, 28/11, na presença do prefeito Nelson Marchezan Júnior e do vice Gustavo Paim.
No documento, fica estipulado ainda que, desse montante, R$ 6 milhões deverão, obrigatoriamente, ser destinados ao pagamento do saldo integral das aposentadorias e pensões de servidores inativos do Parlamento da Capital, referente ao exercício de 2017. Os valores, conforme Trogildo, serão depositados na próxima quinta-feira.
Conforme o prefeito, os recursos devolvidos pelo Legislativo irão engrossar o montante a ser utilizado para o pagamento dos servidores municipais. “Esse gesto nos permitirá melhorar os percentuais a serem pagos ao funcionalismo até o dia 30”, projetou Marchezan.
O presidente da Câmara ressaltou que a devolução dos recursos é reflexo de um processo de gestão que vem se aprimorando nos últimos anos. “Reduzimos gastos com pessoal, energia, quotas de gabinete, que, em média, utilizam 60% do previsto no orçamento anual, entre outros insumos”, disse.
O Legislativo tem, por lei, direito ao recebimento – a cada exercício fiscal – do correspondente a 4,5% da receita corrente líquida do Município para fazer frente às suas despesas. É obrigação do Parlamento devolver os recursos não gastos. Em tese, a devolução deveria ocorrer após o fechamento das contas, no ano seguinte. “Diante das dificuldades do Executivo, a Casa não poderia deixar de ser solidária e viabilizar a antecipação de recursos”, justificou Trogildo.Estudantes aprovam dois projetos no Deputado Por Um Dia
Estudantes de cinco escolas de diferentes municípios do Estado participaram da 49ª edição do Programa Deputado Por Um Dia, da Assembleia Legislativa do RS, nesta segunda-feira, 27/11. A Sessão Plenária do Estudante aprovou dois projetos: a valorização do Espaço Escolar e a criação do Dia do Apoio Emocional nas escolas da rede pública do RS.
A atividade é realizada desde 1999 pela Escola do Legislativo Deputado Romildo Bolzan, da ALRS. O objetivo é proporcionar a alunos das redes pública e privada, da 7ª série do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, a experiência de atuar como deputados, discutir e votar projetos de lei.
O evento teve início às 10h, com a cerimônia de abertura, no Salão Júlio de Castilhos. Às 14h, aconteceu a Sessão Plenária do Estudante, no Plenário 20 de Setembro, com discussão e votação de matérias, de autoria dos próprios estudantes.
A sessão foi presidida pela deputada Regina Becker Fortunati (REDE), que destacou a importância da presença do todos, como forma de participação de um processo de construção da cidadania, a partir de políticas sérias e honestas para o bem comum.
Cinco projeto foram apresentados
No período da Ordem do Dia, cinco projetos de lei foram apresentados e debatidos na tarde desta segunda-feira. Dois foram aprovados.
Valorização do Espaço Escolar e criação do Dia do Apoio Emocional foram os projetos aprovados / Evandro Oliveira / Divulgação
O projeto de Lei 8/2017, do Partido da renovação Estudantil Santanense (PRES), da Escola Estadual de Ensino Médio Cyrino Luiz de Azevedo, de Santana do Livramento, instituindo o projeto de valorização do Espaço Escolar, foi aprovado com 28 votos favoráveis e 27 contrários.
O outro projeto aprovado foi o 10/2017, do Partido Marechal Floriano (PMF), do Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto, de Porto Alegre, instituindo o Dia do Apoio Emocional nas escolas da rede pública do RS, foi aprovado por 43 a 12.
O projeto de Lei 6/2017, do Partido da Juventude Democrática (PJD), da Escola de Educação Básica Frei Casimiro Zaffonato, do município de Ipê, propôs o Programa Política Também se Aprende na Escola, Formando Eleitores Conscientes, – nas escolas de ensino médio do RS. Ele foi rejeitado com 26 votos favoráveis e 29 contrários.
O projeto de Lei 7/2017, do Partido da Liderança Jovem (PLJ), do Instituto Estadual de Educação São João Batista, de Herval, instituindo o Acampamento Farroupilha nas escolas estaduais, como forma de resgate da cultura gaúcha, foi rejeitado com 27 votos favoráveis e 28 contrários.
O projeto de Lei 9/2017, do Partido Fernando Albino (PFA), da Escola Estadual de Ensino Fundamental Fernando Albino da Rosa, de Santa Rosa, propondo a colocação de placas solares nas escolas da rede pública estadual, aplicando a energia sustentável, foi rejeitado, por 32 votos a 23.
Próxima edição já tem escolas definidas
Foram definidas, por sorteio, as cinco escolas que participarão da 50ª edição do Deputado Por Um Dia, a ser realizado em 2018: Escola Estadual de Ensino Médio Cilon Rosa, de Santa Maria; Escola Municipal de Ensino Fundamental Edgar Rosa Cândido, de Fazenda Vila Nova; Escola Municipal de Ensino Fundamental Morada do Sol, de Campo Bom; Escola Municipal de Ensino Fundamental, Leonel Moura Brizola, de Ipê, e Escola Estadual de Ensino Médio Floriano Peixoto, do município de Engenho Velho.Gil Jazz Trio, com Simplesmente Jazz, é a atração do projeto Chapéu Acústico
A atração do projeto Chapéu Acústico nessa terça-feira, 28/11, a partir das 19h, na Biblioteca Pública do Estado, é o Gil Jazz Trio, com “Simplesmente Jazz”. O evento coordenado pelo fotógrafo e produtor Marcos Monteiro tem entrada mediante contribuição espontânea, feita no chapéu, como nas performances de rua.
O trio foi formado em 2015, pelo multi-instrumentista Gilberto Oliveira e duas revelações da música instrumental brasileira, o baterista Lucas Fê e o baixista Dionísio Souza. As composições do Gil Jazz Trio trazem o melhor da música instrumental.
GILBERTO OLIVEIRA
Guitarrista, violonista, baixista, compositor, arranjador e produtor, é conhecido por imprimir seu estilo marcante tanto em suas músicas quanto nas dos artistas com quem produz e atua, sendo bastante requisitado em palcos e estúdios. Músico e professor há 38 anos, dividiu o palco e gravou com nomes brasileiros e estrangeiros. Atua com trabalho próprio e também com vários artistas como instrumentista, arranjador e diretor musical.
DIONÍSIO SOUZA
Natural de Rio Grande, o baixista e compositor é músico profissional e formando no curso de música da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). É fundador do grupo instrumental “KIAI” e atua com vários artistas como Luciana Lima, Quinteto Guitarreria, Big Band da Furg, Gilberto Oliveira entre outros.
LUCAS FÊ
Também de Rio Grande, seu primeiro contato com a música foi com o tio, o baterista consagrado Marquinhos Fê. Músico profissional, fundou o grupo instrumental KIAI e atua com vários artistas, como Luciana Lima, Grupo Sperandires, Frank Solari, Gilberto Oliveira, Renato Borguetti, Gastão Vileroy, Paulinho Fagundes, Marco Fhilomena, Ricardo Baumgarten, Djâmen Farias, entre outros. O baterista foi o grande vencedor do Concurso de Bateristas “Tamborim Drum Festival”, realizado em Porto Alegre, em novembro de 2015.Serviço:
Dia: 28 de novembro de 2017 (terça-feira);
Hora: 19h;
Local: Biblioteca Pública do Estado/BPE (Riachuelo, 1190). Contribuição espontânea.Prefeitura gasta R$ 4,3 milhões do fundo do meio ambiente sem autorização do Conselho
Três decretos editados ao longo deste ano retiraram R$ 4.388.075,00 do Fundo Municipal Pró-Defesa do Meio Ambiente (Fumproamb). O maior deles (nº 19.724), em abril, destinou R$ 3,6 milhões para reurbanização de áreas verdes de acesso público. Outros dois decretos, em setembro e outubro, somam o restante do valor.
As retiradas foram feitas sem autorização do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam), que não se reúne há um ano. Formado por 27 representantes de secretarias, órgãos públicos e entidades ambientais, é o conselho quem define como será a distribuição dos recursos do Fumproamb (Lei DECRETO No 15.679,2007). O Comam deveria se reunir mensalmente para discutir e debater temas relativos ao meio ambiente da cidade.
Compete ao secretário do Meio Ambiente, Maurício Fernandes, que é o presidente do Comam, marcar e convocar as reuniões, conforme art. 2º, II do Regimento Interno do Conselho (Decreto Municipal nº 11.638/96). No entanto, no período de seis meses desde que assumiu a pasta, o secretário não marcou nenhuma reunião do Conselho.
A reportagem do Já tentou contato com o titular da pasta, através da assessoria de imprensa, não tendo retorno até o fechamento da matéria.
Entidades entregam denúncia ao MP de Contas
Um conjunto de entidade entrega, nesta sexta-feira, uma denúncia ao Ministério Público de Contas referente ao uso irregular dos recursos do fundo. “Isso é extremamente grave e vamos querer explicações por esse uso indevido do dinheiro do fundo”, declarou um dos dos coordenadores do Ingá e ex-conselheiro do Comam, o professor Paulo Brack. A iniciativa é da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Associação Sócio-Ambientalista (Igré), o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá) e a União Pela Vida (UPV).
Em junho, o Fumproamb tinha R$ 27 milhões disponíveis. Desde 2007 qualquer verba que sai deste fundo tem de ser autorizada pelo Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam). Em fevereiro de 2008, uma resolução criou a Câmara Técnica do Fundo Pró Meio Ambiente, e definiu segundo o artigo 2 da resolução que:
Compete à Câmara Técnica do FUMPROAMB:
I – apreciar proposta de diretrizes gerais e planos de aplicação anuais e plurianuais do
Fundo e sua conformidade com a Política Municipal do Meio Ambiente, encaminhando sua análise para subsidiar decisão do Plenário, que se manifestará por resolução;
II – analisar previamente a proposta de orçamento anual do fundo, e sua conformidade
com as prioridades, diretrizes e planos de aplicação aprovados, propondo a adequação dos recursos disponibilizados à programação anual estabelecida;Chapecoense, um ano de dor: Sofremos, reagimos, perseveramos
MARCOS A. BEDIN
No dia 29 de novembro, os chapecoenses vão cerrar os olhos, elevar seus pensamentos aos céus e pronunciar uma prece silenciosa em memória das vítimas do acidente com o avião que transportava a delegação da Associação Chapecoense de Futebol a Medellín, na Colômbia. Muitos ouvirão o magnífico e pungente Toque do Silêncio magistralmente interpretado por um músico imaginário. Os olhos transbordarão de lágrimas, os corações serão tomados pela aflição. No firmamento, 71 estrelas nos observarão em silêncio.
Não haverá tribuno, nem discurso, nem mensagem capaz de interpretar esse momento. As palavras serão inúteis. Os discursos serão dispensados. As pompas serão canceladas. Somente o abraço forte e emocionado, o beijo carinhoso, o olhar compungido e, acima de tudo, a presença solidária serão aceitas como verdadeiras manifestações de um pesar profundo.
Quantas emoções cabem em um ano? É pouco tempo para a fenda profunda cicatrizar. Ainda nos assombra e jamais sairá de nossa memória a tragédia. A ausência desses inesquecíveis jogadores, dirigentes, técnicos, empresários, tripulantes e jornalistas constituem um capital humano cuja perda jamais será reparada nas famílias, nas empresas e nas organizações onde seus talentos brilhavam.
Passamos por várias fases. Do choque, da revolta e da reação. O choque da perda de 71 vidas foi potencializado pela constatação de uma cadeia de erros na gestão da navegação aérea internacional e o protagonismo de um piloto viciado em voar sem combustível – ou seja, fatores previsíveis e evitáveis. Alia-se o fato da Chapecoense catalisar a admiração de boa parte do País como um Clube jovem, despretensioso e feliz que vivia uma fase de excelentes resultados sob o comando firme do presidente Sandro Pallaoro e do técnico Caio Júnior. O impacto foi planetário. Povos de todos os continentes choraram com os brasileiros a perda que calou fundo na alma dos chapecoenses.
O mundo parou de uma forma jamais vista naqueles lancinantes e perturbadores dias de 29 de novembro a 4 de dezembro de 2016, acompanhando o resgate, os preparativos, o traslado para o Brasil e as cerimônias de despedidas. Chapecó se transmutou na capital mundial da solidariedade e, a Chape, tornou-se o segundo clube de milhões de torcedores em todas as nações.
A revolta pela incompreensível perda foi inevitável, os dias ficaram longos e as horas, amargas. Eram muitas emoções para viver, muitas informações para processar, muitas incertezas a elucidar. O apoio do Clube, da comunidade, da imprensa, das empresas e de milhares de voluntários permitiu articular uma reação gradual e determinada para vencer o imobilismo da dor e do desespero. Com muita transparência e espírito público, a diretoria da Chape, à frente Plínio David De Nês Filho, conduziu a reação, amparou as famílias, assegurou indenizações e adotou todas as providências cabíveis.
O conceito e a convicção no associativismo/cooperativismo prevaleceram. A própria Chape, um produto da ação cooperativa dos torcedores, empresários e patrocinadores, exercitou mais uma vez essa política com um plano de reação, de reconstrução e de compromisso com o futuro. A ação em lugar da resignação. A retomada a partir do marco zero. Todos foram chamados a contribuir nessa obra de reconstrução, ainda inconclusa, mas que segue em linha reta e ascendente rumo ao seu desiderato.
O primeiro ano pós-tragédia foi angustiante, tortuoso e torturante. Os percalços dessa jornada de recomeço não empanam o brilho de uma vitória e de um desafio conquistados – o de permanecer na série A do Campeonato Brasileiro. É dessa forma que honramos todos os que partiram dessa dimensão.
Futebol é a atividade humana mais impregnada de paixão e, onde predomina a paixão, não se deve exigir lucidez e racionalidade. Por isso, é preciso relativizar os eventuais exageros de torcedores e outras personagens do universo da bola que, nesse interregno de 12 meses, às vezes foram anjos, às vezes algozes…
Eu também ouço o músico imaginário interpretando Toque do Silêncio e reflito Por quem os sinos dobram, lembrando estrofes do poeta inglês Jonh Donne: “Nenhum homem é uma ilha isolada. Cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. Por isso, não me perguntes por quem os sinos dobram… eles dobram por ti!”.
Chapecó e a Chapecoense tem uma mensagem ao mundo. Sofremos, mas, reagimos e perseveramos.“A pior dor na face da Terra é a dor da fome”
Verduras, frutas e legumes que iriam para o lixo alimentam centenas de pessoas que buscam nos restos a forma de sobreviver
Textos e fotos: Annie Castro e Gabriela Rabaldo
Agência J de Reportagem | Famecos/PUCRS
Por entre a multidão, enquanto a luz alaranjada do sol entra pelas muitas janelas do galpão, o vulto de um menino corre esquivando-se de corpos, caixas e carrinhos. Com agilidade e destreza nos pés, ele desvia dos obstáculos, firme e certo como uma bala. Ele carrega, envolvidas na blusa, meia dúzia de bergamotas e um molho de espinafre, que segura com as pequenas mãos rumo à saída da Pedra, o pavilhão central. No local, produtores de grãos, legumes e frutas vendem aos comerciantes os alimentos que abastecem os mercados de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Os produtos que aquele menino recolheu às pressas fazem parte de uma parcela de legumes e frutas que são desprezados, todos os dias, por estarem machucados ou mais maduros que o padrão estético de venda. Meninos como aquele não podem se dar ao luxo de desprezar alimentos. Meninos como aquele disputam o desperdício. Meninos como aquele comem sobras.
Fazia calor. Era mais um daqueles dias de Primavera, que amanhecem gelados e depois esquentam. Do lado de fora, com as bergamotas e o molho de espinafre, o menino alcança duas mulheres e um homem. Os três estão sentados no gramado sob a sombra de um jacarandá. Falam pouco. O menino, que usa um boné preto, entrega os alimentos com sorriso tímido, comenta sobre ter conseguido um legume muito bom e que voltaria lá para buscar. Ele pega um gomo de bergamota e retorna correndo à Pedra. Em frente ao casal sentado, dois caixotes de feira acumulam frutas e legumes já obtidos no pavilhão. Eles não são os únicos, são apenas três entre mais de 20 pessoas que se concentram perto do jacarandá naquele dia abafado. Muitas são mulheres, mães e filhos.
“A pior dor na face da Terra é a dor da fome, não ter, ver os outros comendo e não poder comer, ver teus filhos pedindo e não ter pra dar. Eu já passei por isso”, lamenta Ilda Celina Cavalheiro, 33 anos, mãe de Davi, o menino de 12 anos que corria por entre as frestas da Pedra com as bergamotas e o molho de espinafre. Junto ao filho e ao companheiro, Douglas Paz Victória, 32 anos, eles percorrem aproximadamente 16 quilômetros em um Gol antigo, que nem os vidros das janelas tem mais, desde o Morro Santana, zona leste de Porto Alegre, até a Ceasa, onde conseguem cenoura, couve e frutas – naquele dia, fizeram o percurso com apenas R$ 13 de gasolina.
O casal sabe bem o que é passar fome. Ambos já vivenciaram, individualmente, dificuldades nas ruas. Ela foi garota de programa, ele foi viciado em crack. Eles se conheceram no Feijão com Arroz, uma festa no centro de Porto Alegre. Na época, Douglas era taxista e estava fazendo uma corrida para lá. Resolveu entrar na festa e viu Ilda dançando. “Uma semana depois já tava na casa dela, no morro Santana”, lembra ele, em meio a sorrisos. Mas o semblante de Douglas muda quando ele relembra o que passou durante a infância.
“Eu comecei a usar crack com o meu pai. Aos 11 anos, eu andava sozinho na rua, sempre tive o apoio da minha mãe, mas sempre morei sozinho porque eu não aceitava ele dentro de casa, ele me espancava, me colocava pra fora. Eu queria andar de bicicleta e não tinha, eu queria ir em um aniversário e meu pai me deixava trancado no banheiro. Muitas coisas dessas eu não tive, sabe?”. O relato de Douglas é com voz embargada. “Às vezes as pessoas só precisam de um abraço, um carinho, amor”, tenta explicar com lágrimas cravadas no rosto. O menino sai do colo da mãe para abraçar o padrasto. “Por isso que eu amo esse homem, por isso ele merece amor e carinho”, diz Ilda, emocionada, sorrindo. Atualmente ela trabalha como atendente em uma tabacaria. Ele é prestador de serviços gerais em uma empresa de Canoas. Ainda assim, uma vez por semana o casal busca com produtores os alimentos para que seriam descartados.

Apesar de ser considerado um atacado de hortifruti e não uma feira, o centro de distribuição dos alimentos da região metropolitana de Porto Alegre, a Central de Abastecimento (Ceasa), fundada em 1974, ainda recebe frequentadores que buscam nas sobras o seu sustento. Em dias de grande movimento, chegam a circular 45 mil pessoas nos pavilhões da Ceasa. A confusão é grande. As 470 bancas, organizadas em 94 fileiras, expõem verduras, frutas e legumes. O cheiro no local é um misto de hortifruti e pastel frito, vendido nas lancherias dentro do pavilhão. Homens conduzem carrinhos cheios de caixas empilhadas umas sobre as outras com os produtos vendidos pelos comerciantes. As vozes reverberam pelas paredes. Produtores, comerciantes e consumidores estabelecem diálogos dinâmicos durante as negociações.
-“Trinta reais? Mas isso tá muito caro!”
-“Não sai por menos?”
Cascas e restos de alimentos que caem das caixas vão se acumulando pelo chão de cimento. Muitos deles são condenados ao desperdício. Entre os corredores de caminhões que se formam ao entorno da Pedra, na área do estacionamento, um homem com metade do corpo para dentro da caçamba do veículo joga, com desdém, por cima dos ombros, os tomates que contêm marcas na pele. As frutas voam de dentro da estrutura de alumínio e explodem no asfalto, pintando-o de vermelho.
Os alimentos excedentes poderiam ser recolhidos para o projeto social da Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), o Prato Para Todos, que realiza a doação desses hortifruti para as 208 entidades – creches comunitárias, instituições filantrópicas ou asilos – cadastradas no programa do Governo do Estado em parceria com duas empresas, o Sesc e a Seven Boys. De acordo com Ivanise Mancio, coordenadora pedagógica do programa, são 51 mil pessoas atendidas por mês. Toda sexta-feira, os mais de 20 produtores que contribuem com o programa deixam seus excedentes para que sejam separados para as doações. Em setembro, foram repassados 78.599 kg de hortifrutis pela Ceasa. Além de atender instituições, há ainda 200 famílias que recebem um complemento da alimentação uma vez por semana, o que não seria o suficiente para Ilma Orizontina, 46 anos, que vai à Ceasa duas ou três vezes por semana para alimentar 13 bocas em casa.
Ilma pedala 9,3 quilômetros até a Ceasa Entre filhos, marido, netos, quem cuida da família é a matriarca de cabelos encaracolados e meio grisalhos. De bicicleta, Ilma pedala 9,3 quilômetros até a Ceasa ao lado do genro, Patrick. Repetem o trajeto de volta, carregados de sacos de cenouras, pêssegos e sacolas com garrafas pet e materiais plásticos para reciclar. “Eu venho faça chuva, vento, sol. Preciso disso aqui”, aponta para o saco que exala um cheiro azedo. Logo se senta no gramado e, com uma faca, corta os pedaços podres das batatas que retira de dentro do saco. “Se eu não venho, toda a família passa fome, ainda mais agora que cortaram o meu Bolsa Família”. Quase vinte quilômetros sobre uma bicicleta não parecem muito para a mulher que cruzou 614 quilômetros em busca de melhores oportunidades. Foi em 1984 que Ilma deixou São Borja, na fronteira com a Argentina, para tentar uma vida na Capital. Marcas de expressões desenhadas pelo sol contornam os olhos, a voz e o olhar são de quem não encontrou as promessas ouvidas na cidade do Interior. Ilma trabalhou como auxiliar de cozinha, mas atualmente está desempregada e, ainda assim, sustenta o lar com a persistência de quem não pode se permitir desistir.

Patrick e Ilma O mesmo país onde 3,5 milhões de pessoas passam fome desperdiça 41 mil toneladas de alimento por ano, conforme o Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares (IFPRI) e a World Resources Institute (WRI) Brasil, respectivamente. O número pode ser maior, 7 milhões de brasileiros passaram fome em 2013, conforme pesquisa divulgada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com pesquisa realizada por professores da Universidade de Cambridge, da PUCRS e da UFRGS, a pobreza monetária atinge 11,3% da população de Porto Alegre, ou seja, mais de 150.000 pessoas vivem nesta condição. Por pobreza, neste dado, compreende-se a insuficiência de renda ou baixo nível de recursos, bens primários ou necessidades básicas. No entanto, o intuito do estudo é justamente compreender as múltiplas camadas da pobreza, portanto, para além da renda, as dimensões de habitação, saúde e educação são incorporadas ao conceito. A pobreza deve ser entendida desde os aspectos mais elementares, como privação de capacitações básicas, e aspectos como estar bem nutrido, saudável e livre de doenças evitáveis e da morte prematura, até aspectos de maior complexidade, como ser feliz, ter respeito próprio e participar da vida comunitária, de acordo com o estudo.
Entre os que vivem situação de insegurança alimentar, apenas uma parcela consegue acessar a Ceasa. Douglas e Ilda sabem disso. Além de usarem as sobras para a alimentação da família, ainda lembram de quem tem menos que eles. Destinam não apenas para o próprio prato, mas transformam um pouco do que arrecadam em alimento para dezenas de pessoas que hoje estão em situação de rua e habitam o centro de Porto Alegre. “Botamos umas madeiras, lenhas e esquentamos o panelão na rua mesmo e, como não temos pote nem colheres, nós cortamos as garrafas pet e caixinhas de leite no meio e servimos o sopão”, explica Douglas.
Também nas ruas vivia Vitória, de 13 anos. A mãe, viciada em crack. O pai, ausente. Foi a tia, Cláudia, quem, há cerca de um ano, adotou a menina e a acolheu na casa cujo terreno compartilha com as irmãs. Sentadas em um banco nas proximidades da Pedra, na mesma pracinha onde muitas famílias ficam, Cláudia e Andreia Pinheiro conversam com semblantes sérios. No chão, ao redor das irmãs Pinheiro, cerca de dez mochilas estão espalhadas. Elas estão cheias de laranjas, bergamotas, alfaces, bananas.
Vez em quando aparecem as duas meninas que, aos risos, entregam algumas frutas e voltam para dentro do galpão. São Vitória e Quetelin, filha de Andreia, seguindo um esquema já conhecido. Há cerca de quatro meses, a rotina havia se tornado familiar para aquelas mulheres, quando a mãe, responsável pela renda da família, faleceu. A avó delas costumava pedir as sobras nas feiras para levar os alimentos para casa. Depois, a mãe passou a fazê-lo. Agora, filhas e netas são responsáveis por alimentar o lar da família Pinheiro. Elas moram na Vila Augusta, em Viamão. Levam quase duas horas de ônibus até a sede da Ceasa, localizada no bairro Anchieta, em Porto Alegre, quase na divisa com Canoas. Antes, faziam o todo trajeto de ônibus e a pé, mas naquela semana começaram a voltar de Uber, graças ao dinheiro que Cláudia recebeu do Bolsa Família, programa social do governo brasileiro, direcionado às famílias em situação de pobreza ao redor do país. Cláudia é uma das mais de 13,9 milhões pessoas atendidas pelo programa. Sem a possibilidade de se locomover com o transporte privado por aplicativo, elas teriam que pegar dois ônibus e ainda caminhar um bocado para chegar em casa. Tudo isso carregando uma dezena de sacolas lotadas com as sobras da Ceasa que conseguiram para alimentar a família. Além do pai, ao todo, são seis irmãos. Cada irmão tem de seis a sete filhos, que acabam passando bastante tempo com Andreia e Cláudia. “É uma família bem grande”, afirmam elas, em tom orgulhoso. Após a perda da mãe, a renda da família diminuiu bastante, e as irmãs assumiram a missão de ir uma vez por semana na Ceasa. “A gente leva tudo isso pra dividir”, garante Claudia, apontando para as sacolas com frutas diante de si.
André trabalha há 30 anos na Ceasa Os produtores que jogam alimentos no contêineres são exceção. Luiz André Sauer, de 47 anos, da cidade de Feliz, tenta, sempre que possível, ajudar os que frequentam a Ceasa. Há 30 anos, quatro vezes por semana, André, um homem de feições de origem alemã, deixa a família no município de Feliz, distante 87 quilômetros da Capital, para trabalhar na Ceasa. Ele frequenta o local há bem mais de 30 anos, se contar as vezes em que ia acompanhar o pai, que fazia a Ceasa em Caxias do Sul. Desde 1982, passou a vender na central de Porto Alegre. Hoje, quem dá continuidade ao negócio paterno é André e o irmão. Um cuida da lavoura, o outro se dedica à venda. “É tudo junto. Eu também ajudo ele lá, mas pra cá faz uns dez anos que ele não vem”. A divisão é feita assim, não por André gostar mais de estar na Ceasa, mas por conhecer bem os clientes e o funcionamento local. Com um brilho nos olhos, ele confessa. “Lá fora é outra vida, é bem mais desistressante. Aqui tu trabalhas mais livre”.
Ali, nas bancas 66D e 67D, uma grudada na outra, as mesmas que eram usadas pelo pai há alguns anos, nos horários de pico a confusão é grande. Geralmente mais de cinco pessoas compram ao mesmo tempo, sem fila ou nenhuma organização. “Um pergunta o preço do aipim, outro pergunta o preço de outra coisa. Um tá pagando aqui, e o outro pagando lá. E ainda tem que ficar cuidando para ver se ninguém vai levar algo sem pagar”, conta o produtor. Ele sempre separa os alimentos que não serão vendidos aos compradores maiores, geralmente donos de mercados, mas que ainda estão bons para consumo. Guarda os hortifrutis para vender bem mais barato, ou então doar aos que passarem pedindo. No dia em que a reportagem visitou a Ceasa, alguém levará para casa pepinos, que estão em uma caixa, que nem foi exposta junto com as outras, separada no canto direito da banca de André.
Na Ceasa, os alimentos desperdiçados se espalham pelo chão feito escombros de uma batalha ainda não perdida. E os que se recusam a deixar derrotar são crianças como Davi, que nas pequenas mãos segura os frutos com a firmeza de saber que com isso, Douglas e Ilda multiplicam o alimento não só para a própria casa, mas para dezenas de pessoas que não têm o que comer. São mulheres como Dona Ilda, que carrega em sua bicicleta quilos de verduras para alimentar mais 13 pessoas. Como Cláudia e Andreia, persistentes, garantem o prato de comida na mesa da família. Para não fazer parte dos 1,6%, esses personagens resistem. Porque resistir é a forma que encontraram para viver.Projeto inédito ensina a cultivar alimentos orgânicos em escolas de Carazinho
Um projeto inédito no Brasil que une educação e conscientização ambiental tem mudado o hábito de muitos moradores de Carazinho, cidade com pouco mais de 60 mil habitantes. Em um ano, mais de 1,4 mil pessoas foram impactadas pelo “Educação & Sustentabilidade”, que ensina aos alunos de escolas públicas, professores e seus familiares teorias e práticas sobre como cuidar do meio ambiente.
A cidade já colhe os resultados de um ano da iniciativa. As escolas fazem a merenda escolar com produtos orgânicos plantados pelos próprios alunos e foram desenvolvidas unidades de compostagem de resíduos dentro das instituições de ensino. A comunidade envolvida reduziu o desperdício de água e energia, e a população está mais consciente sobre a importância da sustentabilidade.
Segundo Rodrigo Berté, idealizador da ação e diretor da Escola de Superior de Saúde, Biociência, Meio Ambiente e Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter, os objetivos foram além do planejado e a mobilização social foi surpreendente.
Rodrigo Berté, idealizador do projeto/Divulgação
“Nunca tinha visto uma cidade, uma Secretaria de Educação e escolas se mobilizarem tão rápido, o comprometimento deles foi maior do que o esperado. Geralmente as pessoas querem algo em troca para se movimentar. Em Carazinho, a adesão foi espontânea”.
O trabalho no município ainda não acabou. A próxima etapa é englobar mais colégios nesse movimento, os principais parceiros, a Secretaria de Educação e o Ministério Público estão discutindo a possibilidade de ampliar o número de escolas do Ensino Fundamental e inserir as de Educação Infantil.
Crianças aprendem a plantar, adubar, cuidar e colher os frutos da horta/Divulgação.
“Todos os envolvidos foram, de fato, educados para a sustentabilidade e foi possível verificar uma significativa mudança de hábitos. Acredito que outras cidades deveriam implementar o projeto, tendo em vista que constitui uma excelente oportunidade de despertar a consciência cívica e motivar ações dessa natureza”, conta Adriana Costa, promotora de Justiça e titular do Ministério Público na cidade.
O encerramento do primeiro ano de atividades acontece no dia 25 de novembro, sábado, às 8h30, no auditório da Universidade de Passo Fundo, no campus de Carazinho que fica na Rua Diamantino Conte Tombini, 300. Todos os participantes receberão os certificados, os chamados Selos Verdes, que atestam que as ações sustentáveis desenvolvidas são amigas da natureza e seguem determinados parâmetros que neutralizam ou reduzem seu impacto no entorno. A solenidade vai contar com a presença de autoridades locais e parceiros.
Sobre o projeto
Prática já impactou 1,4 mil pessoas no município gaúcho/Divulgação
O “Educação & Sustentabilidade” foi criado em 2016 pelo professor Berté para que as escolas públicas trabalhassem o tema Meio Ambiente de forma prática, atraindo a atenção dos alunos e envolvendo a comunidade. As crianças aprendem a plantar, adubar, cuidar e colher os frutos da horta. Em casa, eles aplicam o que aprenderam sobre a reciclagem de resíduos para a produção de fertilizante, processo conhecido como compostagem.
Oito escolas públicas de Carazinho (RS) aderiram ao projeto. São elas: Eulália Vargas Albuquerque, o Patronato Santo Antônio, Alfredo Scherer, Capitão Aristides Gabriel, Piero Sassi, Pedro Pasqualotto, Pedro Vargas e Políbio do Valle.
Alunos estão consumindo o que plantam/Divulgação
Em 2016, o projeto começou com capacitações teóricas sobre Educação Ambiental. Na segunda etapa, foram desenvolvidas atividades práticas, ensinando o processo de compostagem e hortas mandalas. Além dessas atividades, as escolas são incentivadas a criar iniciativas próprias.
O desenvolvimento é feito pela Unibio com o apoio Ministério Público Estadual, por intermédio da Promotoria de Justiça Especializada de Carazinho, Uninter, Secretaria Municipal de Educação e Cultura, responsáveis pela capacitação, acompanhamento, material didático e supervisão de todo o processo.











