Nesta segunda-feira, 19, a Agapan promove uma palestra com o educador José Maria Tardin, da Via Campesina. O tema é a herança dos povos tradicionais na agroecologia. A palestra terá mediação de Leonardo Melgarejo, da Agapan. O evento acontece a partir das 19h, no Clube de Cultura (Ramiro Barcelos, 1853).
Sobre o palestrante
José Maria Tardin é integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latino-Americana de Agroecologia – ELAA localizada no assentamento Contestado, Lapa-PR, criada pela Via Campesina Brasil em 2005.
Atua na formação em agroecologia nas escolas técnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná, em cursos de especialização em agroecologia organizados pelo MST em parceria com Universidades Federais, cursos de licenciatura em ciências da natureza com Universidades Federais e Estaduais, no Instituto Latino-Americano de Agroecologia – IALA, em Sabaneta, estado de Barinas, na Venezuela, no IALA Guarany, no Paraguai, IALA Amazônico, no assentamento Zumbi dos Palmares, em Paraupebas, estado do Pará e na Escola Nacional de Agroecologia, no Equador.
Participa da coordenação da Jornada de Agroecologia, no Paraná, desde 2001, que anualmente realiza um evento de quatro dias com participação média de quatro mil pessoas.
Autor: da Redação
A herança dos povos tradicionais é tema de palestra da Agapan
Cia de Flamenco Del Puerto estreia novo espetáculo
Comemorando os 18 anos de sua formação, a Cia de Flamenco Del Puerto estreia no próximo dia 20 de junho o espetáculo Ciclos. Chegando à maioridade, a Del Puerto apresenta ao público amostras do processo de criação do primeiro semestre de 2017 e também bailes que foram marcos na trajetória do grupo.
O espetáculo conta com a participação do corpo de baile formado pelos alunos do centro de formação da Del Puerto, além dos artistas da companhia e de artistas convidados.
A Escola e Companhia de Flamenco Del Puerto foi fundada em 1999 e desde então realiza um intenso trabalho de pesquisa técnica, expressiva e histórico-cultural que envolve a Arte Flamenca.
A companhia já circulou por todo o país com suas montagens, recebeu prêmios e indicações, entre eles troféus Açorianos de Dança em 2008, 2012 e 2014, o Prêmio Funarte Klauss Vianna 2013 e o Prêmio de Pesquisa em Artes Cênicas do Teatro de Arena em 2015.
A apresentação de Ciclos ocorre às 20h, no Teatro Renascença (Av Erico Verissimo, 307), com ingressos a R$ 40,00 e descontos para idosos, estudantes e artistas.
As entradas podem ser adquiridas antecipadamente na sede da Del Puerto (Av. Cristóvão Colombo, 752). No dia do espetáculo, a bilheteria abre uma hora antes da apresentação.Cresce número de infartos em pessoas com menos de 30 anos
“Eu infartando? Mas não tenho idade para isso”. Atire a primeira pedra o cardiologista que não escutou esta frase de uma pessoa com menos de 30 anos apresentando dores no peito. Chegou a hora dos pacientes reverem seus conceitos.
Segundo dados do DataSUS, do Ministério da Saúde, em 2013 houve um aumento de 13% no número de infarto entre adultos de até 30 anos no país. Segundo o diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Daniel Silveira, essas pessoas não identificam os sintomas iniciais de um infarto, confundindo-os com dores musculares – o que é um perigo.
“Um estudo internacional identificou que mais ou menos 3% dos que infartam morrem em casa. A nossa estatística varia muito de região para região. Em hospitais do Sul, o índice é de 8% a 10% – ainda muito alto”, conclui.
Daniel ressalta que o ideal é conseguir tratar o paciente até 90 minutos depois das primeiras dores, que iniciam com um aperto no peito, migrando para o braço esquerdo e queixo. Em hospitais, o diagnóstico, diferente de anos atrás, é muito simples, bastando fazer um eletrocardiograma (gráfico que registra oscilações elétricas que resultam da atividade do músculo cardíaco) juntamente com a coleta de enzimas cardíacas (exame de sangue).
Ansiedade generalizada somada a diversas atribuições que os profissionais de até 30 anos são submetidos hoje, facilita a incidência do estresse que resulta em infartos. Outra característica é da população mais nova estar se cuidando menos. “Não faz exercício. Se faz e sente dor, toma anti-inflamatório sem limites, se automedicando (existem pesquisas que relacionam a ingestão de anti-inflamatório com infartos). A população está comendo menos e engordando mais”, salientou Daniel.
Em suma, não há idade para se ter infarto, e sim fatores de risco: diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e hipertensão arterial, nos mais jovens acrescenta-se o fator estresse intenso.

O infarto
O infarto ocorre quando existe a obstrução de uma artéria coronária devido a um coagulo de sangue sobre a placa de gordura que está na parede, impossibilitando que o sangue chegue em quantidade suficiente à área do músculo cardíaco. Com isso, pode ocorrer morte celular e necrose, que leva à insuficiência cardíaca ou morte súbita.
O número de doenças cardiovasculares aumentou no país para as mulheres. Cerca de 30% dos casos de infarto têm o sexo feminino como vítimas. Segundo informações da Campanha Coração Alerta, o coração delas é menos, as artérias coronárias são mais estreitas e a frequência cardíaca de repouso maior, ou seja, o coração é mais acelerado.
SIMERSVereadora quer CPI para apurar fraudes na Assistência Social da Prefeitura
A vereadora e líder da bancada de Oposição, Fernanda Melchionna (PSOL), apresentou na sexta-feira um requerimento para a elaboração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar uma série de irregularidades envolvendo a Fundação de Assistência Social e Cidadania – FASC, da Prefeitura de Porto Alegre.
Melchionna descreve fatos que apontam para possíveis irregularidades em 34 contratos de imóveis locados pela Fundação, com indícios de desperdício de recursos públicos, paralisação dos serviços de cozinha nos abrigos municipais por falta de pagamento para a empresa FA Recursos Humanos, falta de infraestrutura para funcionamento dos CRAS (telefonia e energia elétrica), suspeita de pagamentos realizados para a empresa terceirizada Multiagil e JD Contruções, por serviços não executados, entre outras.
“A Câmara Municipal precisa cumprir seu papel constitucional de fiscalizar o Executivo. São anos de contratos fraudulentos e irregulares e sucateamento dos serviços públicos da assistência social. É preciso fiscalizar a fundo o que têm levado ao funcionamento precário dos CRAS, CREAS e abrigos, que tem problemas constantes de infraestrutura, falta de pagamento a empresas terceirizadas e pagamento indevido de serviços inexistentes”.
Como subsídio para a instalação da CPI são apresentadas as denúncias das auditorias da FASC, realizadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), de 2011 a 2015, as investigações realizadas pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais de 2017, a sindicância da Procuradoria Geral do Município, de 2017 e uma série de matérias publicadas pela imprensa local.
Até o momento assinam a CPI os vereadores que compõem a Bancada de Oposição na Câmara Municipal, a saber: Fernanda Melchionna (PSOL), Roberto Robaina (PSOL, Prof Alex Fraga (PSOL), Sofia Cavedon (PT), Marcelo Sgarbossa (PT), Adeli Sell (PT) e Aldacir Oliboni (PT).Art&Bar comemora dois anos do projeto Blues em Dobro
Já tradicional atração da cena musical na cidade, o Art&Bar celebra no dia 20 de junho os dois anos do Blues em Dobro. O projeto da casa é reunir em um mesmo local, música, bebidas e comida de qualidade, intitulado “Rock N Food”.
Sempre às terças-feiras, a noite de blues tem como atração fixa o guitarrista Solon Fishbone acompanhado de Nando Peters (baixo) e Roni Martinez (bateria). O Blues em Dobro já recebeu diversos nomes como Fernando Noronha, Big Gilson, Luciano Leães, Ale Ravanello, entre outros.
Para a festa, Fishbone preparou um repertório especial com o que se consolidou entre o público nestes dois anos com músicas de JJ Cale, Snooks Eaglin, Johnny Guitar Watson, Freddy King, Albert Collins, Earl King, The Ventures, BB King e diversos sucessos do blues, soul e rock.
O show inicia às 22h, com entrada franca até às 20h. Após, ingressos entre R$ 20,00 e R$ 25,00. O Art&Bar fica na Rua Silva Jardim, 92 e abre às 18h.Entrevista bomba de Joesley Batista detona Temer e sua turma
DIEGO ESCOSTEGUY, da ÉPOCA
Na manhã da quinta-feira (15), o empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, recebeu ÉPOCA para conceder sua primeira entrevista exclusiva desde que fechou a mais pesada delação dos três anos de Lava Jato. Em mais de quatro horas de conversa, precedidas de semanas de intensa negociação, Joesley explicou minuciosamente, sempre fazendo referência aos documentos entregues à Procuradoria-Geral da República, como se tornou o maior comprador de políticos do Brasil. Discorreu sobre os motivos que o levaram a gravar o presidente Michel Temer e a se oferecer à PGR para flagrar crimes em andamento contra a Lava Jato. Atacou o presidente, a quem acusa, com casos e detalhes inéditos, de liderar “a maior e mais perigosa organização criminosa do Brasil” – e de usar a máquina do governo para retaliá-lo. Contou como o PT de Lula “institucionalizou” a corrupção no Brasil e de que modo o PSDB de Aécio Neves entrou em leilões para comprar partidos nas eleições de 2014. O empresário garante estar arrependido dos crimes que cometeu e se defendeu das acusações de que lucrou com a própria delação.
A seguir, os principais trechos da entrevista publicada na edição de ÉPOCA desta semana. Leia as 12 páginas da conversa com Joesley na edição que chega às bancas neste sábado (17).
ÉPOCA – Quando o senhor conheceu Temer?
Joesley Batista – Conheci Temer através do ministro Wagner Rossi, em 2009, 2010. Logo no segundo encontro ele já me deu o celular dele. Daí em diante passamos a falar. Eu mandava mensagem para ele, ele mandava para mim. De 2010 em diante. Sempre tive relação direta. Fui várias vezes ao escritório da Praça Pan-Americana, fui várias vezes ao escritório no Itaim, fui várias vezes à casa dele em São Paulo, fui alguma vezes ao Jaburu, ele já esteve aqui em casa, ele foi ao meu casamento. Foi inaugurar a fábrica da Eldorado.
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ÉPOCA – Qual, afinal, a natureza da relação do senhor com o presidente Temer?
Joesley – Nunca foi uma relação de amizade. Sempre foi uma relação institucional, de um empresário que precisava resolver problemas e via nele a condição de resolver problemas. Acho que ele me via como um empresário que poderia financiar as campanhas dele – e fazer esquemas que renderiam propina. Toda a vida tive total acesso a ele. Ele por vezes me ligava para conversar, me chamava, e eu ia lá.
ÉPOCA – Conversar sobre política?
Joesley – Ele sempre tinha um assunto específico. Nunca me chamou lá para bater papo. Sempre que me chamava, eu sabia que ele ia me pedir alguma coisa ou ele queria alguma informação.
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ÉPOCA – Segundo a colaboração, Temer pediu dinheiro ao senhor já em 2010. É isso?
Joesley – Isso. Logo no início. Conheci Temer, e esse negócio de dinheiro para campanha aconteceu logo no iniciozinho. O Temer não tem muita cerimônia para tratar desse assunto. Não é um cara cerimonioso com dinheiro.
ÉPOCA – Ele sempre pediu sem algo em troca?
Joesley – Sempre estava ligado a alguma coisa ou a algum favor. Raras vezes não. Uma delas foi quando ele pediu os R$ 300 mil para fazer campanha na internet antes do impeachment, preocupado com a imagem dele. Fazia pequenos pedidos. Quando o Wagner saiu, Temer pediu um dinheiro para ele se manter. Também pediu para um tal de Milton Ortolon, que está lá na nossa colaboração. Um sujeito que é ligado a ele. Pediu para fazermos um mensalinho. Fizemos. Volta e meia fazia pedidos assim. Uma vez ele me chamou para apresentar o Yunes. Disse que o Yunes era amigo dele e para ver se dava para ajudar o Yunes.
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ÉPOCA – E ajudou?
Joesley – Não chegamos a contratar. Teve uma vez também que ele me pediu para ver se eu pagava o aluguel do escritório dele na praça [Pan-Americana, em São Paulo]. Eu desconversei, fiz de conta que não entendi, não ouvi. Ele nunca mais me cobrou.
ÉPOCA – Ele explicava a razão desses pedidos? Por que o senhor deveria pagar?
Joesley – O Temer tem esse jeito calmo, esse jeito dócil de tratar e coisa. Não falava.
ÉPOCA – Ele não deu nenhuma razão?
Joesley – Não, não ele. Há políticos que acreditam que pelo simples fato do cargo que ele está ocupando já o habilita a você ficar devendo favores a ele. Já o habilita a pedir algo a você de maneira que seja quase uma obrigação você fazer. Temer é assim.
ÉPOCA – O empréstimo do jatinho da JBS ao presidente também ocorreu dessa maneira?
Joesley – Não lembro direito. Mas é dentro desse contexto: “Eu preciso viajar, você tem um avião, me empresta aí”. Acha que o cargo já o habilita. Sempre pedindo dinheiro. Pediu para o Chalita em 2012, pediu para o grupo dele em 2014.
ÉPOCA – Houve uma briga por dinheiro dentro do PMDB na campanha de 2014, segundo o lobista Ricardo Saud, que está na colaboração da JBS.
Joesley – Ricardinho falava direto com Temer, além de mim. O PT mandou dar um dinheiro para os senadores do PMDB. Acho que R$ 35 milhões. O Temer e o Eduardo descobriram e deu uma briga danada. Pediram R$ 15 milhões, o Temer reclamou conosco. Demos o dinheiro. Foi aí que Temer voltou à Presidência do PMDB, da qual ele havia se ausentado. O Eduardo também participou ativamente disso.
ÉPOCA – Como era a relação entre Temer e Eduardo Cunha?
Joesley – A pessoa a qual o Eduardo se referia como seu superior hierárquico sempre foi o Temer. Sempre falando em nome do Temer. Tudo que o Eduardo conseguia resolver sozinho, ele resolvia. Quando ficava difícil, levava para o Temer. Essa era a hierarquia. Funcionava assim: primeiro vinha o Lúcio [o operador Lúcio Funaro]. O que ele não conseguia resolver pedia para o Eduardo. Se o Eduardo não conseguia resolver, envolvia o Michel.
ÉPOCA – Segundo as provas da delação da JBS e de outras investigações, o senhor pagava constantemente tanto para Eduardo Cunha quanto para Lúcio Funaro, seja por acertos na Câmara, seja por acertos na Caixa, entre outros. Quem ficava com o dinheiro?
Joesley – Em grande parte do período que convivemos, meu acerto era direto com o Lúcio. Eu não sei como era o acerto do Lúcio do Eduardo, tampouco do Eduardo com o Michel. Eu não sei como era a distribuição entre eles. Eu evitava falar de dinheiro de um com o outro. Não sabia como era o acerto entre eles. Depois, comecei a tratar uns negócios direto com o Eduardo. Em 2015, quando ele assumiu a presidência da Câmara. Não sei também quanto desses acertos iam para o Michel. E com o Michel mesmo eu também tratei várias doações. Quando eu ia falar de esquema mais estrutural com Michel, ele sempre pedia para falar com o Eduardo. “Presidente, o negócio do Ministério da Agricultura, o negócio dos acertos…” Ele dizia: “Joesley, essa parte financeira toca com o Eduardo e se acerta com o Eduardo”. Ele se envolvia somente nos pequenos favores pessoais ou em disputas internas, como a de 2014.
ÉPOCA – O senhor realmente precisava tanto assim desse grupo de Eduardo Cunha, Lúcio Funaro e Temer?
Joesley – Eles foram crescendo no FI-FGTS, na Caixa, na Agricultura – todos órgãos onde tínhamos interesses. Eu morria de medo de eles encamparem o Ministério da Agricultura. Eu sabia que o achaque ia ser grande. Eles tentaram. Graças a Deus, mudou o governo e eles saíram. O mais relevante foi quando Eduardo tomou a Câmara. Aí virou CPI para cá, achaque para lá. Tinha de tudo. Eduardo sempre deixava claro que o fortalecimento dele era o fortalecimento do grupo da Câmara e do próprio Michel. Aquele grupo tem o estilo de entrar na sua vida sem ser convidado.
ÉPOCA – Pode dar um exemplo?
Joesley – O Eduardo, quando já era presidente da Câmara, um dia me disse assim: “Joesley, tão querendo abrir uma CPI contra a JBS para investigar o BNDES. É o seguinte: você me dá R$ 5 milhões que eu acabo com a CPI”. Falei: “Eduardo, pode abrir, não tem problema”. “Como não tem problema? Investigar o BNDES, vocês.” Falei: “Não, não tem problema”. “Você tá louco?” Depois de tanto insistir, ele virou bem sério: “É sério que não tem problema?”. Eu: “É sério”. Ele: “Não vai te prejudicar em nada?”. “Não, Eduardo.” Ele imediatamente falou assim: “Seu concorrente me paga R$ 5 milhões para abrir essa CPI. Se não vai te prejudicar, se não tem problema… Eu acho que eles me dão os R$ 5 milhões”. “Uai, Eduardo, vai sua consciência. Faz o que você achar melhor.” Esse é o Eduardo. Não paguei e não abriu. Não sei se ele foi atrás. Esse é o exemplo mais bem-acabado da lógica dessa Orcrim.
ÉPOCA – Algum outro?
Joesley – Lúcio fazia a mesma coisa. Virava para mim e dizia: “Tem um requerimento numa CPI para te convocar. Me dá R$ 1 milhão que eu barro”. Mas a gente ia ver e descobria que era algum deputado a mando dele que estava fazendo. É uma coisa de louco.
ÉPOCA – O senhor não pagou?
Joesley – Nesse tipo de coisa, não. Tinha alguns limites. Tinha que tomar cuidado. Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Liderada pelo presidente.
ÉPOCA – O chefe é o presidente Temer?
Joesley – O Temer é o chefe da Orcrim da Câmara. Temer, Eduardo, Geddel, Henrique, Padilha e Moreira. É o grupo deles. Quem não está preso está hoje no Planalto. Essa turma é muita perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles. Por outro lado, se você baixar a guarda, eles não têm limites. Então meu convívio com eles foi sempre mantendo à meia distância: nem deixando eles aproximarem demais nem deixando eles longe demais. Para não armar alguma coisa contra mim. A realidade é que esse grupo é o de mais difícil convívio que já tive na minha vida. Daquele sujeito que nunca tive coragem de romper, mas também morria de medo de me abraçar com ele.
ÉPOCA – No decorrer de 2016, o senhor, segundo admite e as provas corroboram, estava pagando pelo silêncio de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, ambos já presos na Lava Jato, com quem o senhor tivera acertos na Caixa e na Câmara. O custo de manter esse silêncio ficou alto demais? Muito arriscado?
Joesley – Virei refém de dois presidiários. Combinei quando já estava claro que eles seriam presos, no ano passado. O Eduardo me pediu R$ 5 milhões. Disse que eu devia a ele. Não devia, mas como ia brigar com ele? Dez dias depois ele foi preso. Eu tinha perguntado para ele: “Se você for preso, quem é a pessoa que posso considerar seu mensageiro?”. Ele disse: “O Altair procura vocês. Qualquer outra pessoa não atenda”. Passou um mês, veio o Altair. Meu Deus, como vou dar esse dinheiro para o cara que está preso? Aí o Altair disse que a família do Eduardo precisava e que ele estaria solto logo, logo. E que o dinheiro duraria até março deste ano. Fui pagando, em dinheiro vivo, ao longo de 2016. E eu sabia que, quando ele não saísse da cadeia, ia mandar recados.
ÉPOCA – E o Lúcio Funaro?
Joesley – Foi parecido. Perguntei para ele quem seria o mensageiro se ele fosse preso. Ele disse que seria um irmão dele, o Dante. Depois virou a irmã. Fomos pagando mesada. O Eduardo sempre dizia: “Joesley, estamos juntos, estamos juntos. Não te delato nunca. Eu confio em você. Sei que nunca vai me deixar na mão, vai cuidar da minha família”. Lúcio era a mesma coisa: “Confio em você, eu posso ir preso porque eu sei que você não vai deixar minha família mal. Não te delato”.
ÉPOCA – E eles cumpriram o acerto, não?
Joesley – Sim. Sempre me mandando recados: “Você está cumprindo tudo direitinho. Não vão te delatar. Podem delatar todo mundo menos você”. Mas não era sustentável. Não tinha fim. E toda hora o mensageiro do presidente me procurando para garantir que eu estava mantendo esse sistema.
ÉPOCA – Quem era o mensageiro?
Joesley – Geddel. De 15 em 15 dias era uma agonia terrível. Sempre querendo saber se estava tudo certo, se ia ter delação, se eu estava cuidando dos dois. O presidente estava preocupado. Quem estava incumbido de manter Eduardo e Lúcio calmos era eu.
ÉPOCA – O ministro Geddel falava em nome do presidente Temer?
Joesley – Sem dúvida. Depois que o Eduardo foi preso, mantive a interlocução desses assuntos via Geddel. O presidente sabia de tudo. Eu informava o presidente por meio do Geddel. E ele sabia que eu estava pagando o Lúcio e o Eduardo. Quando o Geddel caiu, deixei de ter interlocução com o Planalto por um tempo. Até por precaução.Ameaçado de morte, Jair Krischke vai ao Uruguai sob proteção internacional
Ignorando as ameaças de um grupo da extrema direita uruguaia, o brasileiro Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), desembarca em Montevidéu na próxima terça-feira, 20, sob a proteção de uma Medida Cautelar solicitada por ele à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Krischke é uma das treze pessoas (além de um francês, uma italiana e dez uruguaios) envolvidas na investigação de crimes da ditadura que imperou no país entre 1973 e 1985 e mencionadas numa lista de alvos a serem mortos por um certo ‘Comando General Pedro Barneix’.
No final de janeiro, o brasileiro e outras 12 pessoas, incluindo o atual ministro da Defesa, Jorge Menéndez, receberam em seus computadores um e-mail ameaçador, anunciando: “O suicídio do general Pedro Barbeix não ficará impune, não se aceitará nenhum suicídio mais por injustos processamentos. Por cada suicídio de agora em diante, mataremos a três escolhidos aleatoriamente da seguinte lista…” O e-mail foi enviado pelo servidor Tor, uma rede anônima de Internet que triangula o emissário em vários países, inviabilizando sua identificação.
A mensagem relacionava, além de Krischke e do ministro da Defesa, juízes, procuradores, advogados, investigadores e ativistas de direitos humanos comprometidos na punição a torturadores e na investigação de crimes relacionados à Operação Condor, a multinacional da repressão que aterrorizou o Cone Sul nos anos 1970. Um dos ameaçados de morte é a ex-procuradora de Justiça Mirtha Guianze, diretora da Institucíon Nacional de Derechos Humanos, onde será lançada na terça-feira a edição em espanhol do livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios, do jornalista brasileiro Luiz Cláudio Cunha. Krischke assina a contracapa do livro, que será publicado pelo SERPAJ, Servicio Paz y Justicia do Uruguai, com financiamento da Fundação Rosa Luxemburgo e do Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha.
O general suicida
Pedro Barneix, o general que dá nome ao comando de morte, era o então capitão responsável pela repressão em Colônia do Sacramento, em fevereiro de 1974, quando chegou ao quartel do Batalhão de Infantaria nº 4 um novo preso, Aldo Perrini, um sorveteiro de 34 anos, pai de três filhos, simples eleitor da Frente Ampla de esquerda, sem militância política. Perrini morreu dias depois sob intensa tortura, segundo a autópsia. Barneix, seu interrogador, foi denunciado pela justiça em 2012. Em setembro de 2015, a polícia foi à sua casa para levá-lo ao tribunal para depor. O general pediu licença para trocar os chinelos por sapatos, subiu as escadas, pegou a pistola no quarto e disparou contra a cabeça. Tinha 69 anos.
Dois anos depois, apareceu o ‘Comando Pedro Barneix’, disparando ameaças e prometendo mais, após listar os 13 alvos: “Já temos vários (nomes) mais, cujos domicílios e hábitos já levantamos”. Informado da ameaça, Krischke pediu formalmente a Medida Cautelar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, no início de junho, para interceder junto ao governo de Tabaré Vásquez para garantir sua segurança, alegando: “Estarei em Montevidéu para participar do lançamento do livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios, tema que certamente não goza da simpatia dos responsáveis pela ameaça”.
Dos 13 ameaçados, apenas um (o juiz francês Louis Joinet) não participou da Jornada sobre a Operação Condor, promovida no ano passado em Montevidéu pela Universidade de Oxford, sob coordenação da investigadora italiana Francesca Lessa, outro dos 13 nomes da lista de morte. Krischke, um dos integrantes destacados da jornada, foi o responsável central pela localização no Brasil e pela extradição para a Argentina do coronel uruguaio Manuel Cordero Piacentini, 79 anos, da equipe de torturadores da Automotores Orletti. Era o único estrangeiro entre os 18 condenados, no ano passado, na Megacausa da Operação Condor, merecendo a maior pena da Justiça argentina: 25 anos de prisão.
O ativista brasileiro, por tudo isso, não é persona grata aos nostálgicos da ditadura. A discreta gestão da CIDH, órgão autônomo da OEA sediado em Washington, fez efeito em Montevidéu. O cônsul do Brasil na capital uruguaia, Anuar Nahes, foi informado oficialmente pela Dirección General de Información y Inteligência Policial que, desde o aparecimento do e-mail do comando clandestino, está investigando o caso relacionado a Krischke. No Brasil, o Itamaraty foi instado a tomar providências de segurança em ofício enviado em 7 de junho passado pelas duas Comissões de Direitos Humanos do Congresso – no Senado e na Câmara dos Deputados. O Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos, anunciou um dia antes a Krischke que estava fazendo ‘articulações institucionais’, supostamente junto ao governo uruguaio, para reduzir o ‘contexto de risco e vulnerabilidade’ que cerca a viagem de Jair Krischke.JBS e a "reforma trabalhista"
Hugo Cavalcanti Melo Filho
O jornal Folha de São Paulo noticiou, na edição de ontem (15), que o grupo J&F, controlador da JBS, patrocinou iniciativas do IDP – Instituto Brasiliense de Direito Público, ao qual destinou, nos últimos dois anos, mais de R$ 2 milhões. Como é notório, o Ministro Gilmar Ferreira Mendes é um dos sócios do IDP.
De acordo com a Folha de São Paulo, o Instituto informou que os recursos foram destinados a cinco eventos, além do suporte a um grupo de estudos em Direito do Trabalho e cursos gratuitos para a comunidade.
Para além das já noticiadas relações do ministro Gilmar Mendes com os sócios da JBS, a reportagem chama a atenção por outro aspecto: o financiamento, com dinheiro da JBS, do grupo de estudos em Direito do Trabalho.
Na página do IDP na internet, obtêm-se as informações de que o Grupo de Pesquisa de Direito do Trabalho foi lançado em 30 de junho de 2016, sob a coordenação do presidente do TST, ministro Ives Gandra Filho, para, segundo a apresentação ali feita, a produção de estudos e artigos temáticos, realização de seminários, “buscando encontrar soluções para os problemas que ora são mais cruciais na seara laboral, passíveis de embasar projetos de lei ou ser supedâneo para decisões judiciais”.
Além dos ministros Gilmar e Ives, figuram como coordenador do Grupo e como professores orientadores três juízes do Trabalho que, coincidentemente, são juízes auxiliares da Presidência do TST, afastados da jurisdição. Outra coincidência: a Secretaria-Executiva do Grupo de Pesquisa coube à mesma senhora que é secretária-geral do CSJT – Conselho Superior da Justiça do Trabalho, também presidido pelo ministro Ives.
É muito importante examinar as linhas de pesquisa do Grupo, no campo do Direito Material do Trabalho, retiradas da página do IDP:
A) Direito do Trabalho
– A extração de novos direitos trabalhistas a partir da exegese do ordenamento jurídico vigente à luz dos princípios constitucionais e laborais – baseado em levantamento de que direitos trabalhistas têm sido criados ou ampliados pela jurisprudência do TST invocando princípios constitucionais ou legais próprios do Direito do Trabalho e seu impacto na empregabilidade.
– Um marco regulatório seguro para o fenômeno da terceirização – perquirindo-se sobre quais seriam os parâmetros justos para se disciplinar o fenômeno da terceirização, inclusive no setor público.
– As micro e pequenas empresas e o Direito do Trabalho – perquirindo sobre que reformas trabalhistas seriam necessárias para não comprometer a existência e funcionamento das micro e pequenas empresas, especialmente em contexto de crise econômica.
– O tempo à disposição do empregador e sua remuneração – estudo para aperfeiçoar o conceito, hipóteses, efeitos e remuneração do período não laborado do trabalhador.
– O Direito e a Justiça do Trabalho e a empregabilidade – partindo do levantamento de que encargos sociais as empresas mais reclamam como entraves à competitividade e empregabilidade, para subsidiar eventuais reformas trabalhistas.
B) Direito Sindical
– Os meios alternativos de composição de litígios na seara trabalhista – analisando a jurisprudência e a realidade fática atual, para verificar como inserir adequadamente na seara laboral os meios alternativos de composição de litígios, constituídos pela arbitragem, mediação, conciliação prévia e negociação coletiva, de forma a desafogar a demanda judicial não assimilada pela Justiça do Trabalho.
– O conceito de Indisponibilidade de direitos – partindo da conjugação dos princípios da proteção e da subsidiariedade, propostos pela Doutrina Social Cristã, verificar quais seriam os parâmetros adequados para fixar um conceito de indisponibilidade de direitos em matéria de negociação coletiva.
– Os limites da autonomia negocial coletiva – baseado em levantamento de quais cláusulas de acordos e convenções coletivas de trabalho têm sido anuladas pela Justiça do Trabalho e por que razão.
A reforma sindical possível – estudando que reformas sindicais seriam precisas para tornar mais legítima a negociação coletiva.
As fontes de financiamento do sistema sindical – estudo das fontes atuais de custeio do sistema sindical e propostas de seu aperfeiçoamento.
No dia 30 de março de 2017, o Grupo de Pesquisa lançou o 1.º Caderno de Pesquisas Trabalhistas do GPDT, com onze artigos. Foram premiados, com um total de R$ 20.000,00, os autores dos três melhores trabalhos selecionados. Sobre o evento, publicou o sítio do IDP na internet: “De acordo com o ministro Ives Gandra, o principal propósito do GPDT, a partir da publicação do 1.º Caderno de Pesquisa Trabalhista, é ‘que, da análise de nossa jurisprudência trabalhista, cotejada com a legislação e a doutrina, verificando os impactos que provoca na realidade econômica e social, possa-se chegar a soluções e propostas que contribuam para o aperfeiçoamento e modernização de nossa legislação laboral”.
E mais: “De acordo com o ministro Gilmar Mendes, que coordenou junto ao ministro Ives Gandra a publicação do Caderno de Pesquisas Trabalhistas, o Brasil vivencia um grande desafio acerca da legislação trabalhista nacional, que se utiliza de modelos obsoletos que não correspondem à realidade globalizada: ‘Hoje, o nosso país tem uma massa de desempregados graças a essa brutal recessão. Há famílias que são dilaceradas por esse fenômeno. Não queremos um sistema engessado e precisamos ter uma visão diferente sobre a reforma trabalhista’.
Em 26 de abril de 2017 foi aprovada, na Câmara dos Deputados, a denominada reforma trabalhista, a partir de substitutivo apresentado pelo relator da matéria. A coincidência entre os eixos centrais da reforma e as linhas de pesquisa do Grupo de Pesquisa de Direito do Trabalho (IDP) é absoluta! Sem nenhuma dúvida, o propósito de “subsidiar eventuais reformas trabalhistas” foi plenamente alcançado. Por outro lado, a lógica que direcionou o trabalho do relator é em tudo coincidente com a visão dos ministros Gilmar e Ives sobre o Direito do Trabalho.
No dia 28 de abril de 2017, a ministra do TST Kátia Arruda encaminhou ofício ao presidente da Corte questionando se propostas de emendas da reforma trabalhista teriam saído da Presidência do tribunal, conforme indicara reportagem publicada pelo The Intercept Brasil.
Por todo esse tempo, nos jornais e na TV, pôde-se ver outro juiz do Trabalho, também assessor da Presidência do TST, a reproduzir as curiosas ideias do ministro Ives, em pronunciamentos e entrevistas, magistrado este que, declaradamente, atuou em comissão na Presidência da República, criada para redigir a proposta de “reforma” e, depois, no auxílio ao relator da “reforma trabalhista”, na Câmara, devidamente liberado das funções jurisdicionais, nas duas situações.
O encadeamento dos fatos conduz, razoavelmente, à conclusão de que o Grupo de Pesquisa de Direito do Trabalho do IDP, liderado pelo presidente do TST, coordenado por juízes auxiliares da Presidência do TST, secretariado pela secretária-geral do Conselho Superior da Justiça do Trabalho – também presidido pelo ministro Ives -, produziu subsídios para a reforma trabalhista, que foram integralmente acolhidos pelo relator da matéria na Câmara dos Deputados, havendo suspeita de que até as emendas apresentadas ao relator tenham saído do gabinete da Presidência do TST. O mais grave: tudo financiado pela JBS, que repassou ao IDP mais de 2 milhões de reais, nos últimos dois anos.
Ninguém ignora que os ministros Gilmar e Ives, especialmente este, não têm nenhum apreço pelo Direito do Trabalho e pela Justiça do Trabalho e que querem, a todo custo, ver aprovada a brutal “reforma trabalhista”, de interesse exclusivo do grande capital.
Só não se sabia, até ontem, que esses custos tinham sido suportados pela JBS, empresa envolvida no mais escandaloso esquema de corrupção do país e, desde sempre, impiedosa exploradora dos seus infelizes empregados, contumaz demandada na Justiça do Trabalho e notória devedora da Previdência Social.
A origem espúria dos recursos é indiscutível e reconhecida pelo próprio IDP: “Ao ser questionado pela Folha sobre o assunto, o instituto disse que devolveu R$ 650 mil deste total no dia 29 de maio, após revelação de acordo de delação premiada de executivos da empresa. O IDP diz que, em razão de uma cláusula contratual relacionada à conduta ética e moral do patrocinador, rescindiu um contrato assinado em junho de 2015 com o grupo”. Restam R$ 1.450 mil.
E o ministro Ives, a título de, digamos, contribuição pessoal, escalou mão-de-obra altamente qualificada para assegurar o resultado pretendido e abriu mão da integral concorrência nos serviços do gabinete da Presidência do TST de quatro de seus juízes auxiliares e da secretária-geral do CSJT.
Parece ter sido simples assim: a JBS financiou, o TST e o CSJT indicou quadros qualificados, o GPDT/IDP orientou a produção de textos e os publicou, estes subsídios foram apresentados ao relator da “reforma trabalhista” que os acolheu, prontamente, para escravizar os trabalhadores brasileiros. Será que isso se harmoniza com a Doutrina Social Cristã?
Hugo Cavalcanti Melo Filho, é titular da 12a vara do TRT de Recife e presidente da Associação Latino-Americana de Juízes do Trabalho.Torturados e torturadores
José Antônio Severo
A jornalista mineira Miriam Leitão, comentarista da Rede Globo, colunista de O Globo e ativa conferencista em eventos empresariais pelo país, é a personagem principal, ao lado de seu ex-marido Marcelo Netto, do livro “Em nome dos Pais”, em que o autor, Matheus Leitão, relata a prisão e tortura dos dois pelos serviços secretos do Exército, no Espírito Santo, em 1972.
No livro, o autor, que é filho do casal, recapitula os horrores de sua mãe seviciada pelos militares e insultada aos gritos de “terrorista” enquanto era despida, humilhada, agredida e jogada numa cela imunda e escura com uma cobra jiboia de cinco metros; curiosamente, há dias narrou Miriam, ao ser admoestada dentro de um avião de passageiros por um grupo de militantes políticos fardados, que a ameaçavam aos gritos de “terrorista”. Ela diz que se lembrou dos dias de chumbo da ditadura.
O livro é uma obra literária que revela uma escola de texto de uma geração de jornalistas de meia idade que está chegando ao comando das redações. Também mostra ao leitor as minúcias do trabalho de um repórter clássico, o que hoje no jargão da imprensa se chama de “jornalismo investigativo”.
O leitor acompanha passo a passo a determinação, o rigor e, também, muito importante, vai com o autor gastando sola de sapatos atrás da notícia. Respira velhos dossiês embolorados no fundo dos arquivos, sobe morros e procura sobreviventes; usa os recursos da tecnologia (gravadores e câmeras), sempre para se resguardar.
Matheus sempre informa a seus interlocutores que é repórter e diz o que está fazendo. Mais ainda: ele se vale de forma muito efetiva da Lei de Acesso à Informação. Tempos modernos de um mesmo país.
A narrativa é muito interessante. A começar pelo nome do autor, Matheus, que era o codinome de seu pai na clandestinidade. A ditadura é um pano de fundo. Quase não se vê em seu lado essencial: um regime que tinha no comando político velhos generais da ativa de quatro estrelas (com mais de 60 anos) e a máquina administrativa aparelhada por um enxame de oficiais da reserva; do outro lado, a fina flor da juventude brasileira.
No teatro de operações um grupo minúsculo de estudantes universitários idealistas (a célula retratada, do PCdoB capixaba, contava com 30 militantes) contra também jovens oficiais do Exército, tenentes e capitães, num combate desigual travado nos porões imundos de quartéis de Vitória e do Rio de Janeiro.
Há cenas pungentes, como o pai do autor, Marcelo, trancafiado numa solitária da Vila Militar, jogando xadrez de memória, sem tabuleiro, movendo as peças por sinais precários, como nas novelas de Alexandre Dumas, com seu companheiro de suplício, o jornalista Jorge Luiz de Souza, num cubículo ao lado, também brutalmente torturado na fase de interrogatórios.
O país andou muito ou muito pouco até chegar ao mundo de Matheus Leitão: Os velhos generais, coronéis e tenentes coronéis de 1964 morreram e foram deixando um vazio ocupado por seus adversários do MDB autêntico de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Pedro Simon, Marcos Freire e tantos outros.
Estes também se foram, ou se aposentaram, deixando o quadro político para a geração seguinte que chegou ao poder com os tucanos de Fernando Henrique, numa transição para os jovens da guerrilha, que assumem a Presidência com Dilma Rousseff, uma menina dos tempos recuperados no livro e que governava a República enquanto o autor vasculha arquivos e percorre os caminhos dos oprimidos e opressores.
Mal ficaram os operadores da Guerra Suja: a maior parte morreu sem glória, muitos atormentados e frustrados, pois seus chefes boicotaram suas carreiras. Hoje, seus filhos ouvem atônitos as perguntas de Matheus e, até mesmo, expressam simpatia pela luta dos inimigos de seus pais. É um ponto alto do livro os encontros dessa segunda geração, os filhos de torturados e torturadores.
Mesmo sem descartar a emoção inerente à sua posição, Matheus apresenta uma matéria objetiva, muito útil para as novas gerações entenderem o lado humano daqueles tempos terríveis, sem os clichês (estenótipos) recorrentes. Leitura fácil de um texto feito com talento e correção. “Em Nome dos Pais” está, justificadamente, se convertendo em best seller. Um livro fundamental.
Em Nome dos Pais, 448 páginas, Editora Intrínseca, R$ 49Pretto solicita encontro com governador sobre ação policial na Lanceiros Negros
Diante dos acontecimentos da noite do dia 14 de junho, com a reintegração de posse da Ocupação Lanceiros Negros, em Porto Alegre, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, deputado Edegar Pretto (PT), encaminhou por meio de ofício protocolado ao governador do Estado, José Ivo Sartori, solicitação de agenda com o chefe do Executivo para aprofundar as questões do episódio.
Pretto considera a detenção do deputado Jeferson Fernandes (PT), que é advogado e presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, como situação extremamente grave e que deixa vulnerável a própria existência da democracia, ainda mais que não houve qualquer registro específico quanto à sua eventual conduta, o que seria obrigatório em face de sua prisão e posterior liberação sem qualquer explicação.
O presidente do Legislativo reafirmou, ainda, que é evidente que não houve o mínimo respeito aos direitos fundamentais de cidadãs e cidadãos e ao livre exercício das prerrogativas parlamentares. “Por óbvio que as determinações judiciais devem ser efetivadas, mas o seu cumprimento, em concreto, não pode jamais ocorrer dissociado das normas internacionais e constitucionais que definem a própria caracterização do homem como sociedade e como civilização”, acrescenta.

