Tainara Stumpf
Em meio a tantas notícias ruins de corrupção, roubo, exploração, violência e injustiça o desânimo chega. Por mais positivos que tentamos ser, o meio nos neutraliza. Em uma manhã destes últimos dias turbulentos, eu fui até um laboratório fazer exames de sangue. Saí da sala de coleta e fui tomar um cafezinho e comer algo, gentilmente oferecido pelo laboratório.
Nesta sala de espera encontrei um amigo, ex-colega de trabalho em uma empresa na qual me aposentei. Ele perguntou se eu ainda fazia exames anuais. Eu disse que fazia porque com a idade sempre acontecem surpresas. Um colesterol aqui, uma pressão alta ali, a artrose que se apresenta. Enquanto eu brincava com a situação uma senhora me observava atentamente e, no meio da conversa ela falou: tudo isso se previne com a alegria.
Concordei e fiquei encantada! De manhã cedo, ainda com fome, ouvir alguém falar em alegria. Isso não é comum! A esperança me iluminou a partir desta interação. Saí muito animada do laboratório, e dirigi-me a outro compromisso em um dentista.
Desloquei-me até o consultório e buscava um cartão de estacionamento que é vendido em estabelecimentos comerciais. Aguardava pacientemente uma jovem me atender em uma lancheria, mas ela ainda dava atenção a uma pessoa na minha frente.
Havia mesas na calçada, onde as pessoas paravam e pediam algum lanche ou cafezinho. Em uma delas, tinha um senhor sentado de uns 70 anos aproximadamente, que bebericava uma água mineral. Aproximou-se uma pessoa que o reconheceu e foi logo dizendo: Seu Antenor, como vai? Ao que ele respondeu: Muito tranquilo, na Santa paz! E prosseguiram em uma animada conversa.
Eu que ainda estava aguardando a atendente, me surpreendi com a resposta. Dentro do caos social que estamos vivendo esta pessoa tem reservas de tranquilidade? Eu esperava naturalmente ouvir uma torrente de reclamações e queixas. Apesar de ter a minha expectativa frustrada, sorri por dentro. Pensei: que bom. Ainda há esperança.
Saí sorrindo após ser atendida. Estava contagiada pelo bom humor de Seu Antenor que não me conhecia, mas havia me feito momentaneamente feliz e cheia de esperança.
Em meu caminho até o dentista, eu precisei atravessar a rua e uma saraivada de buzinas chamou a minha atenção. Um motorista distraiu-se na sinaleira e demorou a arrancar o seu carro. Com o susto, ele apagou o carro e se esforçava para ligá-lo rapidamente e liberar o trânsito. Os motoristas que aguardavam não deram trégua. Esganiçavam suas buzinas como se o fim do mundo se precipitasse sobre nós. Novamente tive um choque de realidade. Desta vez não foi agradável.
Mas logo me dei conta que não valia a pena entrar na energia de incompreensão dos motoristas raivosos, pois tinha boas lembranças anteriores para guardar. Pensei nas escolhas que a vida coloca à nossa frente o tempo todo e nas coisas que devo dar mais atenção.
Durante o dia comentei com muitas pessoas sobre as experiências positivas da manhã e esqueci completamente o episódio das buzinas. Percebo que por mais que o contexto se mostre caótico, a esperança está no ar e na vida das pessoas. A partir do desejo de paz e felicidade, contaminamos todos que nos cercam com muito mais força do que com a raiva e incompreensão.
Desejo que pessoas inspiradoras me abordem e surpreendam sempre. Deste modo terei energia e vitalidade abundantes para fazer o mesmo. Se dedicarmos mais atenção para as coisas boas que a vida oferece, penso que não teremos tanta violência e corrupção no nosso contexto. É preciso acreditar para manter a esperança.
Autor: da Redação
Onde está a esperança?
Busatto anuncia parcelamento em junho, Justiça manda Prefeitura pagar em dia
O secretário municipal da Fazenda, Luciano Busatto, anunciou na manhã desta segunda-feira que o salário dos servidores municipais vai ser parcelado em junho.
Desde o início do ano, o prefeito Nelson Marchezan Júnior vem anunciando que a Prefeitura não terá recursos para quitar em dia a folha. Em janeiro, Marchezan só garantia os dois primeiros meses do ano pagos em dia. Em abril, no balanço dos cem dias de governo, reafirmou que os atrasos acontecerão ainda este ano.
O Sindicato dos Municipários (Simpa) classificou como “ato terrorista” os frequentes anúncios de atraso e parcelamento de salários da gestão municipal.
A declaração do secretário da Fazenda foi dada em entrevista à Rádio Gaúcha. Busatto afirmou que no final do mês de junho, faltarão R$ 40 milhões para quitar a folha salarial, de R$ 180 milhões. Busatto adiantou ainda a forma como será feito o parcelamento, semelhante à forma adotada pelo governo do Estado, pagando na íntegra os menores salários e parcelando os demais.
Justiça determina pagamento em dia
Uma decisão judicial obtida pelo Simpa determina que a Prefeitura pague os salários dos servidores em dia. No dia 19 de maio, despacho do juiz Murilo Magalhães Castro Filho, da 5ª Vara da Fazenda Pública, atendeu ao pedido de um embargo declaratório do sindicato.
Uma decisão anterior havia concedido liminar proibindo o parcelamento de salários. O sindicato entrou com embargo declaratório para que fossem julgados também os outros pedidos, relativos ao parcelamento e suspensão do pagamento, e um pedido de multa em caso de descumprimento.
Esta segunda decisão estende a proibição ao parcelamento e à suspensão dos salários, porém rejeita o pedido de multa em caso de descumprimento.
No despacho, o juiz justifica: “a medida pode vir a onerar ainda mais o erário municipal, sendo certo que a presunção, aqui não elidida, é a de que o agente público destinatário da decisão judicial válida e eficaz irá lhe conferir cumprimento”.TCE apresenta avaliação da rede municipal de ensino
Nesta quarta-feira (31), a Direção de Controle e Fiscalização (DCF) do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) apresentará, ao secretário Municipal de Educação, Adriano Naves de Brito, os principais dados da Avaliação da Eficiência e da Eficácia da Rede Municipal de Ensino Fundamental de Porto Alegre.
O estudo, que avalia os exercícios de 2015 e 2016, diagnostica a qualidade do ensino da rede municipal de ensino fundamental da Capital, detalhando aspectos como a oferta de vagas, o atendimento educacional especializado, o corpo docente, o investimento em educação e a taxa de alfabetização.
A apresentação será realizada a partir das 11h, na Sala Rosane Heineck Schmitt, na sede do Tribunal de Contas (Rua Sete de Setembro, 388, Centro Histórico de Porto Alegre).Desmatamento da Mata Atlântica cresce quase 60% em um ano
A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgam nesta segunda-feira (29) os dados mais recentes do Atlas da Mata Atlântica, referentes ao período de 2015 a 2016.
O estudo aponta o desmatamento de 29.075 hectares (ha), ou 290 Km2, nos 17 Estados do bioma Mata Atlântica – representando aumento de 57,7% em relação ao período anterior (2014-2015), referente a 18.433 ha. A íntegra, do estudo está no link http://www.sosma.org.br/downloads/index.php
Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica, observa que há 10 anos não era registrado no bioma um desmatamento nessas proporções. “O que mais impressionou foi o enorme aumento no desmatamento no último período. Tivemos um retrocesso muito grande, com índices comparáveis aos de 2005”, disse. No período de 2005 a 2008 a destruição foi de 102.938 ha, ou seja, média anual de 34.313 ha.

Segundo o levantamento, que tem patrocínio de Bradesco Cartões e execução técnica da empresa de geotecnologia Arcplan, a Bahia foi o estado que liderou o desmatamento com decréscimo de 12.288 ha – alta de 207% em relação ao ano anterior, quando foram destruídos 3.997 ha.
Dois municípios baianos – Santa Cruz Cabrália e Belmonte – lideram o ranking dos maiores desmatadores, com supressão de 3.058 ha e 2.119 ha, respectivamente. Se somados aos desmatamentos identificados em outras cidades do Sul da Bahia, como Porto Seguro e Ilhéus, cerca de 30% do total do bioma foi destruído nessa região, que historicamente é conhecida pela chegada dos portugueses e pelo início da colonização do país. “Essa região é a mais rica do Brasil em biodiversidade e tem grande potencial para o turismo. Nós estamos destruindo um patrimônio que poderia gerar desenvolvimento, trabalho e renda para o estado”, complementa Marcia.
Um sobrevoo realizado por técnicos da SOS Mata Atlântica, em 16 de maio deste ano sobre os municípios de Santa Cruz Cabrália e Belmonte, constatou queimadas em floresta, conversão da floresta em pastagens e processos de limpeza de áreas onde o entorno apresenta forte atividade de silvicultura.
A vice-liderança do ranking do desmatamento da Mata Atlântica ficou com Minas Gerais, com 7.410 ha desmatados, seguido por Paraná (3.453 ha) e Piauí (3.125 ha).
Em Minas Gerais, os principais pontos de desmatamento ocorreram nos municípios de Águas Vermelhas (753 ha), São João do Paraíso (573 ha) e Jequitinhonha (450 ha), região reconhecida pelos processos de destruição da Mata Atlântica para produção de carvão ou pela conversão da floresta por plantios de eucalipto. Minas liderou o ranking em sete das últimas nove edições do Atlas da Mata Atlântica, sempre com municípios dessa região figurando na lista dos maiores desmatadores.
Já no Paraná, os índices de desmatamento voltaram a subir pelo segundo ano consecutivo, passando de 1.988 ha destruídos entre 2014 e 2015 para 3.545 ha entre 2015-2016, aumento de 74%. E um alerta continua: a destruição concentra-se na região das araucárias, espécie ameaçada de extinção, com apenas 3% de florestas remanescentes.
No Piauí, os maiores desmatamentos ocorreram em Manoel Emídio (1.281 ha), Canto do Buriti (641 ha) e Alvorada do Gurguéia (625 ha), municípios limítrofes entre si e próximos ao Parque Nacional Serra das Confusões. Esse é o quarto ano consecutivo que o Atlas registra padrão de desmatamento nesses municípios que ficam numa importante região de fronteira agrícola, que concentra a produção de grãos e é também área de transição entre a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga.
Para Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, a situação é gravíssima e indica uma reversão na tendência de queda do desmatamento registrada nos últimos anos. E, para ele, não é por acaso que os quatro estados campeões de desmatamento são conhecidos por sua produção agropecuária.
“O setor produtivo voltou a avançar sobre nossas florestas, não só na Mata Atlântica, mas em todos os biomas, após as alterações realizadas no Código Florestal e o subsequente desmonte da legislação ambiental brasileira. Pode ser o início de uma nova fase de crescimento do desmatamento, o que não podemos aceitar”, destaca.
Segundo ele, a ofensiva continua com a tentativa de flexibilização do licenciamento ambiental e diversos ataques ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação.
“No momento em que o caos está instalado em Brasília, numa crise política que tem no seu centro a maior empresa de carnes do mundo, a bancada do agronegócio e o núcleo central do governo federal avançam, de forma orquestrada e em tempo recorde, sobre o nosso sistema de proteção ambiental. A sociedade não pode ficar alheia às decisões tomadas por nossos governantes e legisladores. Precisamos nos mobilizar para frear o desmonte da nossa legislação”, conclui.
Mangue e Restinga
No período de 2015 a 2016 foi identificada supressão da vegetação de restinga em 9 dos 17 estados do bioma: Ceará (788 ha), Piauí (244 ha), Santa Catarina (199 ha), Bahia (64 ha), Sergipe (50 ha), São Paulo (32 ha), Rio de Janeiro (29 ha), Paraná (14 ha) e Rio Grande do Norte (6 ha).
Já o desmatamento em mangues aconteceu apenas na Bahia, em uma área de 68 ha.
Desmatamento zero
Em maio de 2015, 17 secretários de Meio Ambiente dos Estados da Mata Atlântica assinaram a carta “Nova História para a Mata Atlântica”, compromisso que prevê a ampliação da cobertura vegetal nativa e a busca do desmatamento ilegal zero no bioma até 2018.
Entretanto, dois anos após o acordo, esta edição do Atlas da Mata Atlântica aponta que apenas cinco estados estão no nível do desmatamento zero, ou seja, com menos de 100 hectares (1 Km2) de desflorestamentos, somadas áreas desmatadas em florestas, mangues e restingas: Rio Grande do Norte (6 ha), Alagoas (11 ha), Paraíba (32 ha), Pernambuco (16 ha) e, Rio de Janeiro (66 ha).
Não estão mais no nível de desmatamento zero Goiás, com 149 ha desmatados; Ceará, com 797 ha e São Paulo, com 730 ha. A boa notícia fica para Pernambuco, que voltou para a lista desse ano com a redução de 88% do desmatamento – passou de 136 ha entre 2014 e 2015 para 16 ha no último ano.
“Apesar do grande aumento do desmatamento em São Paulo, é importante destacar que 90% ocorreu por causas naturais, mais especificamente vendavais e tornados que atingiram os municípios de Jarinu, Atibaia, Mairinque, São Roque e Embu-Guaçu em 5 de junho do ano passado”, esclarece Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador e coordenador técnico do estudo pelo INPE.
Confira o ranking completo dos estados:

Eficiência Energética da RGE faz doação para atingidos por vendaval em São Francisco
Depois de formar uma força-tarefa para recompor a rede de distribuição de energia elétrica de São Francisco de Paula, devastada por um vendaval histórico, em tempo recorde, em março, a Rio Grande Energia (RGE) fez uma nova ação na cidade da Serra Gaúcha. Por meio de seu Programa de Eficiência Energética (PEE), a distribuidora do Grupo CPFL Energia, investiu R$ 230 mil na substituição de equipamentos danificados pela força dos ventos e o volume acentuado de chuvas. No total, 100 famílias foram beneficiadas com os novos padrões de entrada de energia doados pela concessionária.
A ação do PEE fez a substituição dos padrões de energia danificados e daqueles que foram derrubados por rajadas de vento superiores a 80 Km/h. A avaliação das propriedades beneficiadas e a instalação dos novos equipamentos foram realizadas por técnicos da RGE e abrangeram a parcela da população que contabilizou os maiores prejuízos com o fenômeno climático.
De acordo com o gerente de Eficiência Energética do Grupo CPFL Energia, Felipe Henrique Zaia, uma das missões do PEE é auxiliar os consumidores. “Com esse tipo de investimento ajudamos no fortalecimento da cidadania aos nossos consumidores e ainda estabelecemos boas práticas de segurança, uma vez que o material utilizado e as instalações seguem o que está determinado pelas normas técnicas”, assinala Zaia.
Três dias depois do município de São Francisco de Paula ter sito atingido pelo vendaval, que foi classificado por alguns institutos de meteorologia como sendo um tornado, a RGE conseguiu recompor completamente a rede de distribuição de energia elétrica.
A Consultora de Negócios, Polyanna Souza da Cunha, lembra que desde o final da manhã do dia 12, quando centenas de postes da área urbana da cidade e estruturas da transmissão foram danificadas, uma força-tarefa foi criada pela RGE para reconstruir o sistema da cidade. “Contamos com 60 equipes que instalaram mais de 300 novos postes e reconstruíram 15 Kms de rede trabalhando dia e noite e em locais de difícil acesso. Sabíamos que a população estava fragilizada e por isso tínhamos que agir com velocidade”, lembra Polyanna.
Sobre o Programa de Eficiência Energética
O projeto faz parte do Programa de Eficiência Energética da Rio Grande Energia (PEE – RGE), existente há 16 anos e elaborado de acordo com as regulamentações do Programa de Eficiência Energética da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).
O PEE-RGE tem como objetivo combater o desperdício de energia elétrica, a partir de ações como: substituição de equipamentos ineficientes, doação de lâmpadas, adequação da entrada de energia de consumidores irregulares, dentre outros. Com um investimento de mais de R$ 162 milhões em 86 projetos realizados ao longo do período, o resultado foi de uma demanda evitada de 84.783 kW e de energia conservada de 286.013 GWh/ano, desde 2001.Protestos de pais e alunos fecham 12 escolas municipais de Porto Alegre
Em protesto “contra a mudança da rotina escolar imposta por decreto pelo prefeito Marchezan Júnior”, pais e alunos fecharam nesta segunda-feira (29/05) pelo menos 12 escolas da rede municipal de Porto Alegre.
Segundo levantamento feito por diretores, as seguintes escolas da rede estão fechadas:Anísio TeixeiraAramy SilvaCampos do CristalGabriel ObinoGilberto JorgeJosé LoureiroLeocadiaLidovino FantonMonte CristoRincãoSaint HilaireVilla-LobosAs comunidades escolares reivindicam uma mesa de negociação para construir coletivamente uma solução para o impasse, o que a prefeitura rejeita, segundo os professores.Diversas reuniões e encontros de professores, sindicalistas e vereadores com o prefeito e com o secretário de Educação, Adriano Naves de Brito, tiveram sempre o mesmo resultado: “a prefeitura se nega a recuar em um milímetro que seja do decreto”.Belchior, além do mito
Elstor Hanzen
Um nordestino com 22 irmãos nascido em Sobral (Ceará), no dia 26 de outubro 1946, traduziu a essência da condição humana para uma linguagem viva e cortante.
Viveu mais intensamente a coerência de suas letras do que a lógica do nosso mundo. Belchior, um literato popular da poesia e da música brasileira.
De espírito nômade, o compositor foi descrito como homem mais livre dentro do mundo que escolheu viver. Em fuga do espetáculo, encontrou a verdadeira liberdade.
Foi uma escolha, garantem os que conviveram com ele no recente tempo.
Era simples, afável e lia de tudo: teologia, filosofia, literatura à física quântica. Declamou poesia em latim. Leu A Divina Comédia em italiano. Era um poliglota.
No mosteiro, cantou e tocou suas canções para uma plateia de freiras. Para o seu guardião nos últimos quatro anos, chegou a ensinar a técnica do Haicai.
Se estava satisfeito com o que via? Ele mesmo tratou de responder em uma entrevista, em 1983. “Estou em harmonia com o mundo, no sentido mais cósmico, mais profundo. Mas, o que vejo na realidade, evidentemente, por ser uma pessoa atenta, sensível e consciente, não posso gostar. Acho que não é um lugar adequado para o homem comum desenvolver suas qualidades e possibilidades, de forma apropriada”, resumiu.
Atualmente, também não estava nada satisfeito com os rumos do Brasil.
Enfim, um homem de aparência máscula e alma delicada. Um progressista, que queria expressar uma nova cultura do Nordeste, não dar continuidade ao estabelecido. Ademais, era combatente do nivelamento da cultura por baixo, da alienação e da mercantilização do mundo.
Dia 30 de maio, um mês da sua morte, a reportagem e a análise buscam compor um perfil do compositor cearense, autor de letras como Monólogo das Grandezas do Brasil, Como Nossos Pais, Divina Comédia Humana. Se os textos não forem suficientes para entender o rapaz latino-americano, ainda há um recurso derradeiro: mergulhar nas suas músicas.
Ele brincava que seu nome de registro era tão comprido que precisava ser percorrido a cavalo: Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Todavia, após percorrer o mundo e traduzir os sonhos, os desafios, as angustias e até os medos privados de toda uma geração dos anos 70 e 80, entrou para a história da música e da arte como Belchior. “Para vocês verem, trata-se do maior nome da música brasileira”, autodefinia-se.
Já nos anos em que se retirou da cena pública e deixou o mito de lado, fez questão de ser simplesmente – Antônio – um rapaz de alma livre e com pressa de viver. “A gente não via ele como um personagem, era uma pessoa comum como qualquer outro morador. Era isso que ele buscava”, conta Flávio da Silva, 51 anos, vizinho no último endereço onde Belchior e a esposa Edna Prometheu moravam em Santa Cruz do Sul (RS), antes da morte do cantor, no dia 30 de abril.
O casal se mudou para a casa cedida por amigos em outubro de 2015, após ter morado em outros seis lugares diferentes na cidade e no mês do aniversário de Belchior. Sem saber que o morador ao lado era o conhecido autor do álbum Alucinação (1976), Flávio e a esposa Aline iniciaram a amizade com o escritor Antônio e a produtora cultural Edna. Quando, finalmente, revelado o segredo, Flávio lembra que ele sempre preferiu ser chamado de Antônio, sem qualquer adjetivo anexado ao nome. E, assim, a amizade foi se consolidando, sem perguntas pessoais sobre o passado nem cobrança da vida profissional.
Um ano depois, os quatro comemoravam juntos o aniversário de 70 anos do cearense, à base de pizza. “Ele gostava muito de pizza com tomate seco, rúcula e queijo. Sem carne”, recorda o santacruzense.
Desde que chegou a Santa Cruz em agosto de 2013, trazido por um amigo a bordo de um gol preto, vindo de Seberi – região Norte do Rio Grande do Sul -, a vida de Belchior pode ser resumida em poucas palavras: hábitos simples, alma leve e um profundo conhecedor da realidade brasileira. Um ávido leitor, também queria fazer a revolução pela palavra. Tinha extrema sensibilidade social, entendia que a instabilidade política afetava diretamente os mais pobres. “Na época do impeachment, achava que não era o momento de fazer o processo. Considerava que a Dilma teria que terminar o mandato, porque foi eleita democraticamente, para não causar uma ruptura institucional no país. Lamentou a confusão e o alvoroço que o processo gerou para a população”, relata o organizar da estadia e guardião de Belchior na cidade de 126 mil habitantes, no Vale do Rio Pardo, o radialista Dogival Duarte, 50 anos.
“Foi um dinossauro da literatura, da cultura e da arte. Uma cachoeira de sabedoria. Também era muito amoroso, querido e pacato. Um Dalai Lama”, assim Dogival descreve seu ilustre hóspede. Na biblioteca do radialista, o autor da canção Apenas um Rapaz Latino-Americano passava a maior parte dos 365 dias, desde a chegada em 18 de setembro, de 2013, às 19h, à casa. “Lia Dom Quixote, de Cervantes; Juan de la Cruz; Simões Lopes Neto; Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez; e, em italiano, A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Ia de clássicos nacionais e mundiais, a escritores brasileiros, gaúchos. Lia com calma e sem pressa. Ele tinha tempo e gosto para ler”, narra Dogival. Com obsessão, procurava traduzir para linguagem popular os 14.230 versos da obra de Dante Alighieri.
Devido ao conhecimento vasto e ao modo afável no trato, Belchior fez amizade com o bispo dom Sinésio Bohn, 82 anos, cujos encontros se davam, na maior parte das vezes, na casa do anfitrião Dogival. O bispo emérito de Santa Cruz definiu o compositor cearense como um gentheman. Já na cerimônia da virada do ano de 2013/2014, quando o casal Belchior está hospedado no Mosteiro da Santíssima Trindade, dom Sinésio o convidou a cantar Panis Angelicus, cântico católico escrito por São Tomás de Aquino. Belchior aceitou. Irmã Andréa Freire, 51 anos, há 20 no mosteiro, lembra com carinho aquela noite. “Cantou à capela. Foi lindo e encantador”, resume.
Homem simples e gentil
Nos 11 anos que viveu no autoexílio, passou pelo Uruguai, Porto Alegre e cidades da região Metropolitana da capital, até parar em Seberi, no início de 2013. Dali partiu para o interior de Santa Cruz do Sul, no distrito de Rio Pardinho, para morar por três meses na comunidade sustentável – Ecovila Karaguatá. Há poucos quilômetros da ecovila, pela mesma estrada, tem-se acesso ao Mosteiro da Santíssima Trindade, onde Belchior e a esposa chegaram pela primeira vez no começo de outubro, de 2013.
No mosteiro – prado verdejante e ar bucólico – o músico se sentia em paz e, inclusive, foi o único lugar em que tocou e cantou por diversas vezes para as freiras. “Além de cantar várias canções, ele gostava de fazer um breve resumo dos bastidores da composição de cada letra”, lembra Andréia. “As irmãs sempre pediam que tocasse Paralelas. Ele obedecia”, completa.
Apesar de ser difícil saber o que se passava na cabeça dele, irmã Andréia acredita que o melhor caminho para tentar entende-lo é por meio de suas letras. “Ele foi e seguiu o que cantava nas músicas”, ressalta. O próprio Belchior, em uma entrevista produzida pela TV Cultura, em 1983, sinalizou nesta direção. “Não tenho palavra precisa, definitiva. Não tenho como indicar um caminho seguro, porque eu também estou fazendo meu caminho a cada instante. Tudo está nos meus discos, de forma mais lúcida”. As explicações mais definitivas, todavia, parecem estar na letra – Tudo Outra Vez: “Gente de minha rua, como eu andei distante. Quando eu desapareci, ela arranjou um amante. Minha normalista linda, ainda sou estudante. Da vida que eu quero dar”.
“Desde jovem, aos 20 anos, as canções dele foram trilha sonora de muitos momentos importantes na minha vida. A frase ‘Estava mais angustiado que goleiro na hora do gol’, na Divina Comédia Humana, é genial. Tem que ser um grande poeta para ter tal tipo de sacada”, conta o professor Ricardo Maurício da Silva, 60 anos. “Não há semana que não ouço duas três músicas dele. Para mim, o mais importante é a obra que deixou”, acrescenta.
Ricardo Maurício, que é natural de Porto Alegre e mora há 20 anos em Santa Cruz, lembra ainda a primeira vez que viu Belchior no aeroporto Salgado Filho, nos anos 80. “Ele estava sentando e conversando com o pessoal da banda. Logo me venho à cabeça a música Medo de Avião. Ele tinha uma imagem muito delicada, frágil; apesar da aparência máscula – homem corpulento e bigode vistoso”. O professor que é formado em letras vai além, diz que o cantor pode ser comparado a grandes escritores como Mário Quintana, por exemplo, embora o cearense não fosse um autor de livros, mas tinha a essência da poesia. “Era o contrário de uma pessoa pé no chão. Tinha sensibilidade e capacidade de observação. Ele via tudo de forma aumentativo”, salienta.
Sobre a diferença entre poesia e música, Belchior mesmo deu sua opinião numa entrevista na década de 80. “Tenho necessidade de um veículo quente, o palco, para expressar minhas mensagens. O livro não tem a mesma força”. Também ressaltou que a mídia é importante para a divulgação do trabalho, mas, acima de tudo, achava que o artista tinha que ter autonomia e independência na sua produção, e a indústria deveria ser apenas uma intermediária entre o artista e o público.
Todos os ouvidos pela reportagem que conviveram, ou tiveram contato com o autor do Na Hora Do Almoço, não ficaram com nenhuma dúvida quanto à sua simplicidade, gentileza, delicadeza. Também na alimentação, seguia o mesmo comportamento singelo: era disciplinado, comida qualquer comida, menos carne vermelha. Gostava muito de vinho tinto. “Mas, bebia só uma taça por vez, exceto em uma comemoração especial, excedia esse limite”, pondera Dogival.
Um sábio
Antes de se tornar popular na MPB, o cearense estudou no Seminário de Guaramiranga, medicina na Universidade Federal do Ceará e se formou em filosofia. Depois fez história e se tornou uma referência na música, mas não chegou a saborear por muito tempo os bens materiais desse sucesso. “Não tem como saber o que se passava exatamente na cabeça dele. Lembrava muito a época dos festivais, com Fagner e Elis Regina. Falava das viagens. Depois falou sobre cada música que fez. A vida de estudante”, observa Andréia.
No mosteiro, reescreveu uma mensagem de Santa Tereza D’Ávila. Primeiro assinou só Antônio. Com a insistência das freiras, no dia seguinte, acrescentou Belchior. Ele não demonstrava preocupação com nada nem nostalgia, contam as irmãs, mesmo tenho poucas coisas para usufruir. “Ele estava na dele. Tudo estava bom”, salienta Andréia. A irmã acredita que o cantor estava consciente da escolha e satisfeito com a situação. “Parece ter sido uma tentativa de tentar uma nova vida, uma alternativa ao padrão oficial”, reflete.
Em geral, deixou para trás o lado popular e só queria cuidar do erudito. Na casa do professor de filosofia Ubiratan e da empresária Ingrid Trindade, em Santa Cruz do Sul, onde o casal Belchior ficou por alguns meses em 2013 e passou o Natal daquele ano, declamou poesia em latim e estudou física quântica. “Falei que gostava de poesia, ele largou os talheres e desceu uma poesia em latim, no meio da janta. Me emocionei demais”, recorda Ingrid.
Na casa dos Trindade, fora à hora do almoço e no jantar, Belchior passava o resto do dia no segundo pavimento da moradia, lendo, escrevendo, desenhando e conectado à Internet. “Gostava de Fernando Pessoa e de Carlos Drummond. Mas, repentinamente, interessou-se muito por física. Leu artigos sobre o tema, Albert Einstein e pediu emprestado o livro A Dança do Universo, do físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleise. Também era um cientista”, testemunha Ubiratan. Eles se admiraram com tanta intelectualidade. “Na janta ele debulhava a Suma Teológica de São Tomás de Aquino e a Lógica de Aristóteles, discorria com naturalidade sobre teologia. Um homem desse não está preso”, conclui o professor de filosofia.
A rotina não foi muito diferente ao logo do ano em que viveu na casa do Dogival. Gostava de ler, desenhar, assistir a filmes à noite. Além do A Divina Comédia, a obra que o cantor mais apreciava era: 31 poetas, 214 poemas. Uma antologia de uma espécie de volta ao mundo da poesia – em nove línguas. Conduzidos pelo poeta e tradutor Décio Pignatari. Uma da raridade, entre os mais de três mil livros na biblioteca do radialista. “Tinha como arma a literatura e a poesia. Era muito espiritualista, por causa a literatura. Astral muito bom”. Ainda gostava das obras do Alceu Wamosy, o poeta soldado.
Dogival diz que adorava beber na sabedoria dele. Além de falarem diariamente de filosofia, literatura, política, o cearense ensinou ao anfitrião a escrever haicais.
A técnica consiste em poemas curtos que utilizam linguagem sensorial para capturar um sentimento ou uma imagem. Eles normalmente são inspirados por um elemento da natureza, um momento de beleza ou uma experiência comovente. Dogival – que também é escritor – agora está escrevendo um livro dos diálogos com o cantor, que é inédito e deve ser publicado até o final deste ano. Uma espécie de biografia.
Visão política e social
Belchior lamentava a alienação dos estudantes, a passividade deles, em não se importar com o dia a dia da realidade. Além da preocupação, conta o professor Ubiratan, o cearense era lúcido e apontava alternativas. “Entendia que não havia mais o mesmo vigor e resistência dos jovens e artistas na mobilização por mudanças, como nos anos 60 a 90. Achava, por isso, que só mesmo a revolução pela palavra seria possível hoje”. O contexto da tecnologia e da comunicação virtual seria favorável para a “revolução” pelo verbo, para o cearense.
A instabilidade política no Brasil e o reflexo disso na vida das pessoas era outra inquietação para o cantor. “De certa forma, estavam prevendo o que está acontecendo agora”, constata Ubiratan. Também tinham muita preocupação com a seletividade da justiça, principalmente, Edna. “Ficaram muito revoltados com a prisão do José Genoino, naquela época. Sempre atentos ao destino do país”, lembra o professor de filosofia. Para eles, as mudanças em curso no Brasil iriam deixar o país menos igualitário, com isso, quem sofreria as piores consequências seria a população com menos recursos financeiros, como o povo nordestino.
Embora estivesse fora do mundo público, acompanhava todos os acontecimentos pela mídia e internet. “Ele se retirou do mundo, mas se inteirava de tudo que passava no mundo. Estava vivaz e afiado” atesta Dogival. Ademais, estava muito lúcido, contava piada e sempre de bom humor. Também costumava procurar na internet informações sobre seus fãs-clubes. Via com muito carinho a manifestação do público. “Se emocionava ao ver isso e mostrava disposição de voltar aos palcos, mas Edna sempre o dissuadia da ideia”, lembra Ingrid.
Mesmo sem prazo, ele tinha interesse em voltar a fazer shows. O principal motivo seria a instabilidade política e desorganização do país. Segundo os amigos, Belchior estava muito preocupado com a situação do Brasil e não podia ficar mais oculto. E, para ajudar, tinha que voltar a fazer shows politizados. Questionando a realidade e os rumos do Brasil.
Além de ajudar o país no campo político, Ricardo Maurício, fã do autor da canção Coração Selvagem, acredita, caso o cantor resolvesse voltado à ativa, poderia também ter sanado seu eventual problema financeiro, tranquilamente. “Não tem lado B nas músicas dele, todas são muito boas, embora a mídia tenha popularizado mais algumas. As letras dele tinham uma origem na literatura, e ele conseguiu traduzir para uma linguagem popular. Um grande diferencial”, sintetiza.
Mulher controladora
Todos que conviveram com o casal Belchior, nos últimos anos, apontam Edna Prometheu como controladora e responsável pela vida prática do compositor. “Ela não era uma pessoa de fácil convivência. Por isso, foram sendo deslocados de casa em casa, porque depois de um tempo ninguém aguentava ela”, conta Dogival. Se tivesse só hospedado Belchior, ele teria ficado os quatros anos e mais o tempo que quisesse na casa da família, afirma o radialista. No dia da morte do cantor, por exemplo, Edna foi embora da cidade no carro da funerária sem sequer falar uma palavra nem se despedir de ninguém.
Atualmente, conforme informações obtidas pela reportagem, Edna está hospedada na casa da vice-prefeita de Sobral, Christianne Marrie Aguiar Coelho.
Para Belchior, porém, a rede de proteção criada pela esposa parecia ser confortável. Pois ela tinha o controle do espaço dele, da vida física e ele não se opunha muito às ordens dela. Na análise de Ubiratan, o cantor era uma pessoa lúcida, com todos os poderes intelectuais plenos, e não iria se deixar dominar por ninguém. “Ele tinha acesso a tudo, não estava preso, mas gostava de estar aí. Fez uma escolha pela vida que levava. O homem mais livre de todos os brasileiros, o que as pessoas materialistas e com visão utilitaristas não entendiam”.
A hipótese mais razoável apontada pelos que tiveram contato com o cônjuge, e a de que Edna tenha sido apenas uma espécie de empurrão que faltava para ele seguir uma vida mais livre. “A Edna era a principal fã dele. Ela o elogiava e colocava para cima. Também havia uma admiração intelectual recíproca entre eles”, observa irmã Andréia. Outro motivo indicado pelos amigos, é o de que ele era um eterno menino sem interesse nem jeito para lidar com a vida prática, precisando de proteção, e Edna deu esse apoio a ele.
Ademais, o compositor vivia inspirado e tinha planos. Quando ficou na chácara dos Trindade, único lugar que foi possível fotografá-lo, estava mais alegre ainda que o normal e planejava gravar um clipe no sítio, com a algazarra das crianças de uma escola ali perto, e som do canto dos passarinhos. Por vezes, conta Ingrid, “imitava os pássaros, e eles meio que o respondiam”. Para o marido de Ingrid, Belchior estava em fuga do espetáculo e da mídia. “Fez um reencontro com a infância. Com aquele menino de Sobral que foi para o seminário. Abandonou o mundo da aparência e da posse”.
Que vem de baixo não atinge
Depois de voltar da turnê pela Europa, em 2005, Belchior mandou desmarcar todos os shows no Brasil. Na mesma época, conheceu Edna. Desde então há muitas versões sobre o seu sumiço, de dividas a problemas imaginários. Para os fãs e amigos com quem esteve nos anos recentes, alegava estar cansado da noite e dos palcos; estava mais interessado, contudo, em ler e desenhar. E, mesmo mal tendo a roupa do corpo e sem endereço fixo, estava bem com a vida que levava, conta irmã Andréia. “Uma pessoa gratuita. Sempre muito simpático e contente. Essa mensagem que ficou dele”.
Esse desprendimento também tinha em relação à crítica. “Fiz um pacto com eles: não me atingem, porque, simplesmente, não compreendem meu trabalho. Quando não tem competência não se estabelece. Por isso, sequer merecem uma resposta minha, pela razão de não terem tocados em nenhum ponto fundamental do meu trabalho”, declarou Belchior, sobre a crítica ao álbum Paraíso (1982), na entrevista à TV Cultura, em 1983. Na mesma entrevista, definiu assim sua produção: “Sou partidário de uma arte viva, uma arte atual, arte forte que entra na vida das pessoas. Essa minha postura foi levada para o lado pessoal, por isso, dizem que sou agressivo. Mas não sou nada disso, naturalmente”. A crítica não o atingia, porque não compreendia a essência de seu trabalho, simplesmente.
Talvez, parte da resposta de Belchior, diante de todo o processo, esteja na letra Tocando por Música: “Aluguei minha canção / pra pagar meu aluguel / e uma dona que me disse / que o dinheiro é um deus cruel / […] hoje eu não toco por música / hoje eu toco por dinheiro / na emoção democrática / de quem canta no chuveiro / faço arte pela arte / sem cansar minha beleza / assim quando eu vejo porcos / lanço logo as minhas pérolas” Enfim, entre necessidade e a vida abundante, ficou com a última. Ou consciente como nas Paralelas: “E no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico. Diminui o meu amor”.
ARTIGO: A contracultura ao mundo do espetáculo
Elstor Hanzen*
Belchior jamais pôde ser limitado a um movimento cultural nem enquadrado no nome que a indústria do entretenimento e do espetáculo lhe tentaram atribuir. Coerente e autêntico, o cantor cearense não se acomodou às etiquetas da arte nem aos estereótipos da imagem; resolveu mergulhar na vida e praticar na plenitude o que pregava nas letras. Viveu como nômade os últimos anos de sua vida no Rio Grande do Sul. Contudo, permaneceu lúcido e intransigente até o fim contra a ideia de separar o sujeito da obra, o prazer como mercadoria, a arte como simples moeda de troca, práticas tão corriqueiras na atual sociedade do espetáculo. “É preciso muita lucidez para não ceder, ficar com a cabeça no lugar. Eu, por exemplo, tinha uma série de fatores considerados negativos pela indústria do disco: a voz que era estranha, o fato de abordar temas, como dizer, ásperos, o fato de não ser exatamente um cantor galã. Eu podia ter amaciado meus temas, feito jogadas. Mas não fiz.”, revelou em uma entrevista, em 1977.
Essa consciência e a postura de não obedecer nem reverenciar a lei do mercado não é bem vista pela sociedade da produção e do consumo e, por isso, parece ser imperdoável. Em contraposição, seus colegas da Bahia se enquadraram melhor no script da indústria fonográfica, consequentemente, tornaram-se “medalhões” e bem-sucedidos comercialmente. O próprio Caetano reconheceu essa diferença em um artigo ao Globo. “Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto ele seria o novo e a verdadeira rebeldia. Me parecia uma interessante reação ao habitual “tudo amiguinho, tudo certo’”, escreveu, após a morte de Belchior.
Dentro do movimento Tropicália no final dos anos 60, no século passado, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso cantavam alegria, alegria e mundo maravilhoso e divino; Belchior contra-atacava e apresentava uma interpretação mais progressista e viva diante do exposto. “Mas trago na cabeça uma canção de rádio/em que o antigo compositor baiano me dizia/ – ‘Tudo é divino! Tudo é maravilhoso’/Mas sei que nada é divino/Nada/Nada é maravilhoso, nada/Nada é misterioso…”, na parte que encerra a canção, “Apenas um rapaz latino-americano”. Belchior acrescentava que tudo o que retratava na letra ainda era pouco, perto da vida real. Posteriormente, o cantor afirmou não se tratar de uma simples contestação da letra, mas, cujo intuito era deslocar o ângulo de visão e ampliar a compreensão do público sobre aquela realidade. O mesmo contraponto fez na letra: “E Que Tudo Mais Vá Para o Céu”, para a música do Roberto Carlos – “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”.
A leitura consciente da complexidade do mundo e de expor suas cruezas – como de fato é a realidade – não se encaixa bem no mundo que vive das aparências, porque é visto como perda de tempo já que trava o ritmo dos negócios. Por isso, quando mais raso, flexível e passível o artista for melhor é para transformá-lo em produto e, deste jeito, um medíocre, graças à força da mídia, vira sucesso e se transforma em celebridade, enquanto talentos genuínos ficam sem vez. O mesmo teria acontecido com o cearense de Sobral, caso dependesse da mídia e não tivesse tanto talento e capacidade artística, teria entrado na história como um personagem romântico, voz fanha e um bigodudo – uma figura.
Essa dissimulação do mundo em prol da lei do mercado, com a qual Belchior não se identificava nem se amaciava, não se limita a questões isoladas nem pontuais, está inserida num contexto mais abrangente, a sociedade do exibicionismo, que já foi prevista por Guy Debord, em 1967, no “A Sociedade do Espetáculo”. No livro, o autor faz uma crítica direta contra a nova fórmula do capitalismo se expandir e alterar o comportamento das populações mundo afora. Coincidentemente, na mesma época em que o francês escreveu sua obra, os músicos brasileiros projetavam seus trabalhos no cenário nacional.
Debord previu há 50 anos, portanto, o que vivemos hoje na plenitude: a oposição do mundo da aparência ao da essência; a fofoca à verdade; a opinião ao fato. Enfim, de forma mais contextual e nas palavras do autor. “O espetáculo, compreendido, na sua totalidade é o resultado e o projeto do modo de produção existente. É o coração da irrealidade da sociedade atual. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. A forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação das condições e dos fins do sistema existente. O espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, socialmente falando, como simples aparência”.
Dois mundos
A partir dessa lógica se separou o mundo real do mundo representado pelo espetáculo. Este último, graças à técnica, recorta uma imagem da realidade e cria uma “realidade” melhor do que a realidade em si. Ou seja, o que foi chamado de hiper-realismo e de simulacro, por outro francês, Jean Baudrillard. Segundo Baudrillard, vivemos em uma era cujos símbolos têm mais peso e mais força do que a própria realidade. Desse fenômeno surgem os simulacros, simulações malfeitas do real que, contraditoriamente, são mais atraentes ao espectador do que o próprio objeto reproduzido. O que acontece, por exemplo, quando assistirmos a um show e a um jogo pela televisão, temos imagens e ângulos melhores do que fossemos ver no lugar do evento.
Tal cultura de viver o mundo simulado em detrimento do real foi potencializado ainda mais pelo imediatismo das redes sociais, a troca de mensagens em tempo real, os grupos produtores de notícias falsas e a massa de distribuidores dessa gama de informações. Quando, em geral, tudo isso é apenas uma realidade dissimulada e projetada para o espetáculo, não havendo nenhuma relação histórica dos fatos. Isso traz uma aceleração de todo tipo de sentimento e de emoção, além é claro, da ansiedade e do ódio, construindo um contexto em que a opinião, a convicção, os adjetivos, as versões dos fatos e as aparências funcionam melhor à verdade e aos fatos. Diante disso, surge uma nova realidade social: a pós-verdade.
Para Debord, essa falsa realidade gera uma contrapartida selvagem, por ele nominado de boato. “No início, o boato foi supersticioso, ingênuo, autointoxicado. Mas, em nosso tempo, a vigilância começou a infiltrar na população pessoas suscetíveis de lançar, ao primeiro sinal, os boatos que lhe convêm. É a aplicação prática de uma teoria formulada há anos, cuja origem está na sociologia norte-americana da publicidade: a teoria dos indivíduos chamados ‘locomotivas’, isto é, que são seguidos e imitados pelos outros do mesmo meio; desta vez, passando do espontâneo ao praticado”. Ou como agora, as conhecidas celebridades, que têm a mesma função, embora o nome tenha mudado. Ademais, há, agora, inclusive recursos orçamentários, “profissionais” e massiva distribuição das falsas notícias que, infelizmente, beneficiam poucos e prejudicam muitos.
No atual momento em que estamos, como se sabe, o apelo às emoções e às crenças tem mais importância aos fatos objetivos na modelagem da opinião pública. O fenômeno já está tão presente no cotidiano, por exemplo, que até a justiça se manifesta em público dizendo ter convicções, mas não provas de determinados acusados. Como se percebe, é o pacote completo do espetáculo e da sociedade de consumo, que não é coisa recente, apenas o nome pós-verdade foi incorporado ao dicionário em 2016.
Oculto é mais importante
O discurso do espetáculo vende uma cultura de nos fazer esquecer que somos únicos, mortais e frágeis; quer nós fazer acreditar que somos grandiosos, potentes e poderosos. É uma ideia virtual e dissonante da realidade do fato. Pois, foi exatamente essa alienação que as canções do compositor cearense debateram, desde os anos 1970, além das relações mercantis e a própria indústria cultural. Sua critica a esse estilo de vida venho em versos. “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais”, Belchior entendia a experiência com o real como a verdadeira emancipação do ser humano.
Com a industrialização e a tecnologia, a vivência foi terceirizada, assim fomos reduzidos a meros espectadores a contemplar passivamente as imagens virtuais projetadas pela sociedade do espetáculo e, no máximo, agimos para cumprir ordens e para consumir. “No plano das técnicas, a imagem construída e escolhida por outra pessoa se tornou a principal ligação do indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir”, lembra Guy Deborad. O sistema social que separa o homem de sua produção e natureza, conclui o autor – impede o reconhecimento recíproco entre sujeito e objeto –, consequentemente, não emancipa a pessoa nem traz felicidade.
O mundo da permanente renovação tecnológica, da generalização do segredo, da mentira sem contestação e do presente perpétuo, foi previsto por Deborad também. Segundo o ele, o fato de a mentira não ter contestação, ela ganha uma nova qualidade: vira verdade. “Ao mesmo tempo, a verdade deixou de existir quase em toda parte, ou, no melhor do caso, ficou reduzida a uma hipótese que nunca poderá ser demonstrada”, previa.
Em uma sociedade na qual a mentira e o boato eram para ser exceções e uma espécie de contrapartida ao espetáculo social, elas ultrapassaram o limite e se transformaram em regra. Belchior sabia, no entanto, que o espetáculo era feito para distrair com o óbvio e o banal, consciente que o mais importante sempre ficava oculto ou incomunicável, assim como seu sumiço voluntário da vida pública.
Talvez, por preferir viver a vida de forma autêntica, dar mais relevância à essência das coisas em oposição aos bens materiais e ao espetáculo da vida, tornou-se um incompreendido para a sociedade do pensamento único e da cobiça pela posse. Ou quem sabe, Belchior tenha adotado semelhante lógica de vida ao do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Porém, sem a mesma paciência nem disposição de comunicação do uruguaio. O fato é que, Belchior, não quis ser um pássaro na gaiola nem fazer as concessões e atender as expectativas do mercado. Enfim, uma espécie de contracultura da ordem oficial do espetáculo.
* Jornalista e especialista em convergência de mídias
Projeto para acabar com o reajuste automático nos salários dos servidores avança na Câmara
Depois que o regime de urgência para a votação de reajuste dos servidores foi rejeitado em plenário, sexta-feira, formou-se na Câmara de Vereadores outro arranjo para aprovar a proposta do prefeito sem mais debates.
Votação de urgência também pode acontecer se ao menos três comissões permanentes assim decidirem em reunião simultânea. É o que diz o artigo 50 do regimento interno da Câmara.
Nesta segunda-feira, 29, três comissões – de Constituição e Justiça (CCJ), de Economia, Finanças, Orçamento e do Mercosul (Cefor) e de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab) da Câmara Municipal – estarão em reunião conjunta na sala 302 da Casa, às 10 horas, para votar o parecer do relator, vereador Luciano Marcantônio (PTB), que se manifestou favorável à aprovação do Projeto de Lei do Executivo (PLE) n° 002/17.
A proposta altera a Lei n° 9.870, de 30 novembro de 2005 (que dispõe sobre a política salarial dos servidores da administração centralizada, das autarquias e fundações municipais) e condiciona a reposição da inflação do período para o salário dos servidores à disponibilidade orçamentário-financeira do Município, retirando a atual obrigatoriedade de reposição automática da inflação.
Com a nova redação, se aprovado o projeto, o caput do artigo 1º da Lei 9.870/05 passa a prever que os valores básicos dos vencimentos, funções gratificadas, cargos em comissão, vantagens remuneratórias e retribuições pecuniárias “serão objetos de revisão geral anual, sempre na mesma data-base, em maio de cada ano, sem distinção de índices, observada a disponibilidade orçamentário-financeira do Município”.
Pela redação atual, a Lei determina que esses vencimentos “serão reajustados com periodicidade anual e data-base de reajuste em maio de cada ano, com base nas perdas inflacionárias do período”. A proposta também revoga o parágrafo único do artigo 1º da Lei 9.870/05, que exclui da aplicação da Lei “os valores de remuneração percebidos a título de subsídio”.
Ruas quer tornar lei: quem doa para político não pode receber do Estado
O deputado Pedro Ruas vai apresentar nesta segunda-feira um projeto de lei para proibir a concessão de incentivos, subsídios, subvenções, doações ou empréstimos de entidades ou órgãos públicos à empresas cujos sócios controladores, ou com participação societária acima de 10% (dez por cento) do capital social, tenham realizado doações financeiras a candidatos, coligações ou partidos no Estado do Rio Grande do Sul.
Rodada de renegociação de dívidas de consumidores
Volta e meia, acontece uma rodada de renegociação de dívidas diretamente entre consumidores e empresas das quais eles têm queixas. Barateia e desafoga a via judicial.
A atual rodada em Porto Alegre é está sendo coordenada pelo Procon Municipal. A iniciativa é do portal consumidor.gov.br, serviço público do Ministério da Justiça e Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para solução de conflitos de consumo via internet.
Até o dia 31 de maio, a plataforma para renegociações está disponível. Participam as seguintes instituições financeiras: Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Santander. O Banrisul não está na lista.
Preocupados com a alta inadimplência. promovem a renegociação Senacon, Banco Central, Sebrae, Febraban e Serasa.


