Por unanimidade, a Câmara Municipal derrubou o veto ao projeto do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) que facilita a instalação de bicicletários e paraciclos em vaga destinada ao estacionamento de automóveis nas vias públicas. “É um presente para a capital gaúcha na semana de aniversário de Porto Alegre. Temos esta possibilidade de ter este espaço mais humanizado e democratizado”, comemorou Sgarbossa nesta segunda-feira (20/03), agradecendo aos ciclistas e apoiadores a mobilização para esta conquista.
“A falta de locais adequados e seguros para estacionar limita e impede muitas pessoas de usarem a bicicleta como meio de transporte básico. Daí a importância de se estimular e implementar a instalação tanto de bicicletários quanto de paraciclos, como peças de mobiliário urbano, no maior número de estabelecimentos públicos e comerciais”, ressalta o parlamentar.
O projeto foi aprovado em dezembro passado e vetado em janeiro pelo prefeito. Com a derrubada do veto, a lei permite que os interessados em ter esse tipo de equipamento junto ao leito da rua possam tê-lo mediante avaliação técnica da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC). Pelo padrão da EPTC, uma vaga de carro pode comportar até oito bicicletas.
Autor: da Redação
Câmara derruba veto e permite bicicletários em vaga de carro
Homem é executado com quatro tiros em frente ao Palácio Piratini
Quatro tiros tiraram a vida de Paulo Roberto Camargo de Oliveira, 36 anos.
Testemunhas relataram que os disparos foram feitos pelas costas. Paulo era morador de rua e vivia na praça da Matriz, há poucos metros do Palácio Piratini, bem em frente à Catedral Metropolitana.
Segundo o relato de testemunhas, um homem se aproximou do local onde ficava o acampamento onde a vítima costumava ficar, efetuou os disparos e correu em direção General Câmara.
O crime ocorreu em torno das 17h e gerou correria na praça. A movimentação atraiu a atenção de seguranças da Assembleia legislativa, que correram para a praça para ver o que havia ocorrido.
Um rapaz que mora na praça e conhecia Paulo Roberto afirmou “ele era um cara de boa, não roubava, estava até estudando à noite e participava daquele jornal, Boca de Rua”, afirmou o jovem que não quis se identificar.
A testemunha relatou que estava sentado em um banco, com outros moradores de rua, ao lado do local onde ocorreu o crime. “A gente nem viu o cara chegando. Só ouvimos os tiros e saimos correndo”Clube de Cultura promove debates durante a semana de Porto Alegre
Porto Alegre para quem? Este é o tema da programação preparada pelo Clube de Cultura em parceria com o coletivo A Cidade que Queremos para a semana em que Porto Alegre completa 245 anos. Durante a semana, o Clube terá debates e atrações culturais todas as noites. A programação tem início nesta segunda-feira, 20, com um ato no Largo Glênio Peres, com apoio de coletivos, movimentos populares, associações, sindicatos e a Rádio Na Rua.
Programação:
21/03 – terça
19h Debate sobre Planos Diretores
Painelistas:
Maria Etelvina Guimaraens – Advogada, Procuradora Municipal de Porto Alegre aposentada, Especialista em Direito Municipal e Mestre em Planejamento Urbano. Professora de Patrimônio Cultural, Direito Urbanístico, Ambiental e Municipal em cursos de especialização.
Manoel José Ávila da Silva – Historiador, Professor de História da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre, ex-assessor de Relações Étnicas da Secretaria Municipal de Educação (SMED) – “Territórios Negros Negros em Porto Alegre”
Paulo Guarneri – Assessor Parlamentar “O papel do legislativo na elaboração e revisão de Planos Diretores”
Moderação: Lucimar Fatima Siqueira | Geógrafa, Coletivo A Cidade Que Queremos
21h Show com Seu Samba
22/03 – quarta
19h Happy Hour com Carlos Hahn
20h Debate “Carrinheiros e catadores, legislação e direitos”
Painelistas:
Antônio Carboneiro – presidente AREVIPA
Valdenir Macedo da Silva “Vavá” – vice presidente da Associação Comunitária da Vila Dique | Gestor de Galpão Comunitário.
Rogério Uzun Fleischmann – Procurador-Chefe do MPT/RS
Moderação: Leonardo Melgarejo – Coletivo A Cidade Que Queremos
23/03 – quinta (Atividade com cobrança de entrada*)
19h30 Sarau da Alice Homenageia o Museu do Trabalho de Porto Alegre
Annekatarin Fahlke apresenta o Museu, que dará gravuras do seu acervo, uma para sorteio e outra para leilão, e mais uma exposição de fotos e gravuras do acervo.
Bazar com obras de artistas parceiros, como cartuns, desenhos, gravuras, fotografias e artesanato.
Apresentação musical de Cristiano Hanssen, #Duo Batuque de Cordas(com os violonista Vinicius Correa e Claudio Veiga) e Nivaldo José.
* Alice, Clube de Cultura e Museu do trabalho são três associações civis sem fins lucrativos que tem propósitos e dificuldades parecidas e fazem uma resistência no campo da Cultura. O valor da entrada é de R$ 12,00 (estudantes e aniversariantes da semana não pagam). Tanto o valor da entrada, como um percentual das vendas do bazar, revertem para custear os projetos sociais da ALICE.
24/03 – sexta
19h Happy Hour com Raul Ellwanger
20h Debate sobre Transporte Público e Mobilidade Urbana
Painelistas:
Pedro De Araujo – Arquiteto e Urbanista, mestrando no PROPUR/UFRGS. “Situação da mobilidade urbana em Porto Alegre e Região Metropolitana”.
Getulio Vargas Jr. – Presidente da UAMPA, Diretor da CONAM, membro do Comitê de Mobilidade do Conselho Nacional das Cidades. “Política Nacional de Mobilidade Urbana e Movimentos Populares”
Carlos Schmidt – Professor aposentado da Faculdade de Ciências Econômias da UFRGS, ex-Secretário Adjunto dos transportes, doutor em desenvolvimento socioeconomico pela EHESS França. “Aspectos econômicos e sociais da mobilidade”
Moderação: Ricardo Almeida – Consultor em Gestão de Projetos, Coletivo A Cidade Que Queremos
25/03 – sábado
19h Zoravia Bettiol – “O vazio Cultural”
20h Baile com Queijo com Goiabada (Antonio Carlos Falcão e Alexandre Missel)Céu estrelado do pampa é tema de exposição de fotografias
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…”Foi assim, seguindo a recomendação do príncipe dos poetas brasileiros, Olavo Bilac, no poema “Ouvir Estrelas” que o fotógrafo Otávio Teixeira idealizou a exposição “Estelar- Sobre os Céus do Pampa, que abre a partir da terça feira, dia 21, no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo.
Segundo o fotógrafo, o projeto foi gestado em viagens pelo interior gaúcho, realizadas entre 2012 e 2013. “Entre lidas campeiras, suas gentes e paisagens, os objetos retratos foram as noites quentes e completamente escuras do céu pampeano, mostrando o firmamento com seus intermináveis objetos estelares. São estas imagens noturnas que quero, agora, dividir com o público”, explica Teixeira.
Lugares escuros
Para a obtenção das imagens noturnas foram necessárias duas condições. Estar em lugares escuros, afastado de iluminação artificial e controlar bem a exposição de cada fotografia. Algumas levaram minutos, outras horas, segundo ele.
A mostra consta com 17 fotografias nos tamanhos 50×70 em papel matte com molduras em madeira. A curadoria é do fotógrafo Jorge Aguiar, museografia de Ester Mayer e apoio técnico de Basílio Santiago, astrofísico da UFRGS e equipe do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.
SERVIÇO
Exposição: Estelar- Sobre os céus do Pampa
Local: Centro Cultural CEEE ERICO VERISSIMO, rua dos Andradas, 1223, Centro Histórico
Abertura: dia 21 de março de 2017, às 19h na Sala “O Retrato”, quarto andar.
Visitação: de terça a sexta das 10 às 19h; sábado das 11 às 18h entrada franca, de 21 de março a 29 de abril de 2017.Prefeitura quer padronizar bancas das feiras ecológicas
A prefeitura de Porto Alegre iniciou diálogo com os agricultores das feiras ecológicas para um processo de padronização das bancas da feira. A ideia é organizar melhor o espaço e facilitar a circulação de pessoas. A padronização vale para todas as feiras.
No caso da quadra 1 da José Bonifácio (entre Osvaldo Aranha e Santa Terezinha), o prazo estabelecido pelo poder público municipal, de 45 dias, se encerra no próximo sábado, 25 de março. Na quarta-feira, 22, está marcada uma reunião entre os feirantes e o CAD (Centro Agrícola Demonstrativo) da prefeitura. Existe a possibilidade de ampliação do prazo. No caso da quadra 2, boa parte das bancas já se adequou ás exigências.
Os modelos apresentados são bancas de três tamanhos: 2m, 4m e 6m. A questão é como adequar o padrão planejado no gabinete ao espaço físico da feira.
“A resolução veio depois da feira, então ela que tem que se adaptar à realidade”, defende a agricultora Marinês Riva.
As bancas da José Bonifácio se instalam ao longo do canteiro central, uma área entrecortada por dezenas de árvores. Os espaços entre as árvores têm em torno de 5,5m, mas as medidas não são idênticas. A banca da família da Marinês, por exemplo, mede 5,70m e está colocada exatamente entre duas árvores. Para se adequar ao modelo, como não podem aumentar 30cm, os agricultores teriam que reduzir a banca a 4m, ou seja, perder 1,70m do espaço onde expõem suas verduras e hortaliças.
A dificuldade de circulação entre as bancas é a reclamação predominante depositada pelos clientes na caixinha de sugestões da feira. Outra exigência do poder público é que se tenha mais escapes entre as bancas, para facilitar o acesso ao corredor de circulação. Neste sentido, a iniciativa agrada os expositores. Outra preocupação dos feirantes é que, com a adaptação, o ambiente não fique abafado ou mal iluminado.Feiras de orgânicos produzidos em assentamentos ganham espaço
Elas não constam da lista oficial de feiras livres, mas crescem e se espalham pela região central da cidade: são as feiras de alimentos orgânicos produzidos em assentamentos do MST , que há mais de uma década aboliu os agrotóxicos e vem aperfeiçoando as técnicas de agroecologia.
Desde outubro de 2015 funciona no espaço da associação dos servidores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (Ashclin) a feira do grupo Mãos na Terra, integrante do assentamento Santa Rita de Cássia II, de Nova Santa Rita. É resultado da integração dos produtores com o Núcleo de Economia Solidária da Ufrgs.
Além das hortaliças da estação, oferece feijão crioulo e arroz da Coopan. Ali também se encontra mel de São Gabriel e frutas silvestres dos Campos de Cima da Serra. Banana e limão sempre tem.
O preço é atraente, pois a venda é feita diretamente pelos produtores. No mesmo dia em que uma bandeja de 400 gramas de tomate cereja era vendida a R$ 9,25 numa rede de supermercados, ali o quilo custava R$ 10,00.
Funciona às quartas-feiras, das 7h30 às 16h, mas quem chega depois do meio-dia já encontra poucas verduras. Criada para atender aos servidores do hospital, acabou conquistando também parte da vizinhança. E agora tem reprise aos sábados, das 9h às 13h, na rua Rômulo Teles Pessoa, em Petrópolis (atrás do restaurante Barranco).
No Campus Central da Ufrgs, quem faz a feira é o assentamento São Sepé, de Viamão. E quem perde as feiras ainda tem a opção de comprar na loja da Reforma Agrária do Mercado Público, abastecida de hortaliças às terças, quartas e sextas-feiras.
O alvo era o Lulinha
Pinheiro do Vale
A vaca foi “pro” brejo? É o que parece: a grande imprensa golpista foi com toda sua sede na Operação Carne Fraca, certa de que iria pegar Lulinha no contrapeso, mas não encontrou nada.
Mesmo vasculhando os porões da Friboi a Polícia Federal encontrou apenas carne adulterada.
Nem sinal dos contratos de gaveta que dariam ao filho do ex-presidente a propriedade de uma fatia do maior frigorífico do mundo.
Quando os jornalões e a Rede Globo se deram conta da “barriga” já era tarde, pois as denúncias amplificadas já corriam o mundo e a pecuária brasileira jogava sua credibilidade na lata do lixo.
Não bastassem as denúncias, o presidente ilegítimo convidou os embaixadores para um churrasco de desagravo num espeto corrido de Brasília.
Entretanto, para confirmar a “competência” da comunicação golpista, os marqueteiros de Temer levaram os diplomatas à uma churrascaria que só serve carne estrangeira. Parece anedota.
Enquanto Lula num golpe de mestre reassume a paternidade da transposição do Velho Chico, Temer se afunda num festival de desmentidos inverossímeis.
Por mais que a Carne Fraca fosse um tiro n’água de um delegado de polícia faminto por holofotes, não dá para acreditar em tamanha repercussão só pela denúncia de um fiscal do Ministério da Agricultura despeitado.
Algumas vozes de viés conspirativo estão debitando a operação na traição à Pátria dos federais, que estariam a serviço de potências estrangeiras carnívoras. Seria o segundo passo do projeto Lava Jato que baniu a Engenharia e a construção civil brasileiras do mercado internacional e abre as portas do País às construtoras estrangeiras. James Bond perde.
E o gaúcho desconfiado ainda acrescenta: isto é coisa de argentino para tirar nossa carne da frente. “Os castelhanos não se conformam que lhes tiramos o campeonato da carne”, diz o gaudério.
Brincadeira. Se sujar a marca da carne brasileira leva junto a imagem dos vizinhos. Ganham norte-americanos e australianos.
O que parece mais plausível até este momento era o objetivo de pegar Lulinha, bem no dia em que seu pai renascia das cinzas na inauguração verdadeira da transposição do São Francisco. “Se for candidato ganho”, disse Lula.
Tiro n’água do Velho Chico, pois Lulinha não tinha um mísero centavo aplicado na Friboi e a Carne Fraca veio a público na data do aniversário da Lava Jato, misturando esse fiasco com os desmandos de Curitiba.Rafael Guimaraens traz 20 novos relatos do passado de POA
GERALDO HASSE
O jornalista-escritor Rafael Guimaraens, 60 anos, que vem se especializando na recontagem de antigas histórias portoalegrenses, lança nesta terça (21) à noite no Teatro Renascença (Erico Verissimo 307) “20 Relatos Insólitos Sobre Porto Alegre”, livro de 224 páginas editado pela Libretos.
Com preço de R$ 34 nas livrarias ou pela internet, o livro abrange histórias ocorridas entre 1864 e 1979, algumas frequentemente lembradas como a de Maria Degolada, outras esquecidas ou ignoradas e uma ou outra devidamente escondidas por autoridades e familiares.
É o caso do triste fim de Honorina de Castilhos, a viúva do presidente do Estado do Rio Grande do Sul, falecido durante uma cirurgia em 1903: cerca de um ano depois de perder o marido, ela se suicidou, deixando na orfandade seis filhos pequenos.
É claro que Rafael Guimaraens não conta as histórias assim secamente.
Com a sutileza do repórter escolado em outros livros como A Dama da Lagoa e A Enchente de 1941, ele explora detalhes bizarros, resgata as circunstâncias da época e analisa o contexto, “sem julgamentos”, bem de acordo com o rigor ético das melhores escolas de jornalismo e/ou comunicação social. “São histórias bizarras que certamente vão provocar reações desencontradas”, acredita o autor.
No caso do casal Castilhos, a chave do relato é uma série de cartas reveladoras do relacionamento entre ambos: Julio mandava, Honorina obedecia. Com o desaparecimento dele aos 43 anos, o Rio Grande ficou sem o chefe do governo e Honorina sem o marido e senhor. “É uma história incômoda para os adeptos do positivismo”, afirma Guimaraens, que não hesitou em colocar no livro uma história familiar envolvendo a figura de Araujo Vianna, um dos grandes nomes da música gaúcha, que faleceu em 1916.
“Eu nasci em 1956 e quem me ensinou a ler, com quatro para cinco anos de idade, foi uma tia-bisavó”, conta Guimaraens. Antiga cantora lírica de temperamento forte, a velhota obrigava o guri a ler o jornal, pois já não enxergava direito. Nunca se casou: aí estava a história meio surrealista que o repórter só desvendaria na vida adulta.
A tia fora namorada do compositor Araujo Vianna, que rompeu o noivado quando soube que sofria de uma doença degenerativa que provavelmente o obrigaria a ficar em cadeira de rodas. Enquanto ela se quedava para sempre em Porto Alegre, o maestro se mudou para o Rio, onde morreu, vítima de paratifo.
Como tantas outras, é uma história que certamente daria um livro, mas o autor admite ter concluído que nenhum dos relatos teria conteúdo para garantir um livro solo, como chegou a pensar, durante os vários anos em que andou vasculhando jornais, livros e baús de estudiosos da história de Porto Alegre.
Na verdade, vários personagens dos 20 Relatos Insólitos já renderam livros, como é o caso do próprio músico Araujo Vianna, que foi biografado por Cavalheiro Lima.
A história mais explorada é a dos crimes da Rua do Arvoredo, atual Fernando Machado, onde supostamente se fabricava linguiça de carne humana. Nesses casos mais conhecidos, Rafael Guimaraens optou por explorar detalhes marginais que podem dar um novo colorido às histórias.
É o caso do delegado Dario Callado, chefe de polícia de Porto Alegre em 1864, o ano em que a Rua do Arvoredo se tornou famosa. Transferido para o Rio, ele desapareceu sem deixar notícias, pistas ou rastros.
E há também casos “novos”, como a fugaz passagem do ator Tyrone Power por Porto Alegre em 1938. Viajando de Buenos Aires para o Rio, seu avião fez uma escala de abastecimento no aeroporto da capital gaúcha.
Durante a parada de 20 minutos, ele se dispôs a dar autógrafos e posar para fotos. O evento simplório virou um assalto de fãs enlouquecidas que tiraram pedaços da roupa e se apossaram do chapéu do astro americano.
Misturando várias histórias reais em relatos jornalísticos com sabor de conto e/ou crônica, o novo livro de Rafael Guimaraens vai para as ruas com tiragem inicial de 1 500 exemplares. Na noite de lançamento, antes dos autógrafos, o autor será entrevistado por Ivete Brandalise, uma das lendas vivas do radiojornalismo gaúcho.Escoteiros no Bordel
BRUNO P. W. REIS
Professor de Ciência Política, Universidade Federal de Minas Gerais
Esta semana deu-se um alvoroço nas redes e na mídia depois que, após reunião no Planalto entre Michel Temer, os presidentes das duas casas do Congresso Nacional e o presidente do TSE Gilmar Mendes (a pedido deste último), saíram os quatro brandindo apoio à reforma política que o PT defende desde 2003: financiamento público exclusivo e lista fechada. É até possível que, como todo mundo imediatamente imaginou, os caras estejam simplesmente querendo se proteger. Como se a lista aberta em nossos distritos de grande magnitude fosse um primor em matéria de controle popular… Se eles se protegessem melhor na lista fechada que na aberta, já a teriam providenciado há décadas – e não teriam perdido a chance em 2015, quando a Lava-Jato já andava à solta.
Permaneço cético. De saída, dá pra perceber que eu duvido da eficácia da presumível jogada. Controlar a lista é mais fácil com a lista aberta vigente, em que o dirigente partidário finge que todos os candidatos são iguais e depois canaliza o dinheiro para quem ele quer. Como um candidato tende a se eleger com algo em torno de 1% dos votos, a rejeição é irrelevante, desde que o candidato preserve algum “reduto”. Não há motivo para pânico por ali. Já com a lista pré-ordenada, se eles enchem o topo com as figurinhas carimbadas, suspeitas de corrupção, com rejeição alta, contestáveis durante a campanha pelos adversários, o partido todo perde votos – e cadeiras.
A que atribuir a movimentação, então? A razão me parece clara, e é consistente com a atribuição da iniciativa ao Gilmar Mendes. Simplesmente, o precedente firmado pelo STF no caso do Valdir Raupp (em que se admitiu tomar doação legal como evidência de corrupção) é incompatível, na prática, com a manutenção de qualquer regime de financiamento privado de campanhas eleitorais. E a impossibilidade de os candidatos arrecadarem recursos por conta própria inviabiliza as campanhas eleitorais individuais da lista aberta.
Não sei como poderíamos nos certificar disso, mas tenho a impressão de que essa jurisprudência de criminalização do caixa 1 não encontra paralelo mundo afora. Não que as eleições por aí sejam uma belezinha, mas compreende-se em geral que os abusos devem ser previsíveis e solucionáveis pela legislação sobre financiamento das campanhas, e que qualquer abuso que se dê por meios legais somente será sanável se se mudarem as regras do financiamento, com novas proibições. Tentar operar retroativamente e identificar as verdadeiras(!) intenções(!!) por detrás de cada doação, além de impraticável pelos tribunais eleitorais (e talvez inconstitucional), afetará de maneira adversa a liberdade de que deve desfrutar o representante político. Como eu tenho insistido desde o julgamento do mensalão, é muito grave que o voto de um representante em plenário possa ser usado como prova em ação penal contra ele.
Nem se trata de negar o que há ostensivamente indecoroso nessa retaguarda. O cartel das empreiteiras, junto a mais umas poucas grandes empresas (alimentícias inclusive…), sabidamente domina há décadas o mercado de financiamento de campanhas, com valores astronômicos. Sim, claro, o sistema é viciado. Faz mais de dez anos que eu repito essa ladainha sem parar, país afora. Mas, francamente, se está valendo explicar uma doação feita em 2014 por uma medida provisória de 2009, então está valendo explicar qualquer doação por qualquer iniciativa legislativa. O que implica admitir que qualquer legislador passa a ser processável por qualquer providência que tome no exercício de seu mandato. Parlamentares são, em sua própria função institucional, os corretores de interesses afetados pela manutenção ou pela mudança na lei. O que significa que toda doação que lhes é feita é (ou pode ser) politicamente interessada; e toda ação de um político em exercício de mandato é (ou deve ser) estrategicamente calculada com vistas a finalidades vinculadas a interesses específicos. Do ponto de vista político, é preciso falar claro, não existe algo que se possa legitimamente chamar de interesse público – e isso está muito apropriadamente estabelecido não só nos textos canônicos do jovem Karl Marx, mas também em qualquer texto de referência da ciência política pluralista americana de meados do século vinte. Me ver forçado a repetir essa trivialidade como se fosse novidade, a esta altura da vida, me faz lembrar uma velha brincadeira que eu repetia à beira da piscina na Anpocs, já há uns vinte anos: a necessidade de “uma aliança liberal-socialista, enquanto houver um republicano!”
Com os nossos sistemas de controle (instituídos a duras penas) sequestrados para procurar crime na inevitável barganha política em nome de um autoproclamado “interesse público”, perde-se de vista que os grandes financiadores nunca estiveram comprando medidas específicas no varejo, ora. Isso é claríssimo. Com as montanhas de dinheiro que eles aportavam nas campanhas (e ainda aportam, por vias tortas) eles compram canais desobstruídos, compram a boa vontade do sistema político, em todos os partidos que chegarem a ser relevantes – e por isso pagam a todos. O jogo deles é no atacado; o varejo é para os bagrinhos: para ongueiros, para a “sociedade civil”… Quando eu leio que um Marcelo Odebrecht andou associando doação eleitoral a medida provisória de cinco anos antes, eu entendo que ele simplesmente resolveu dizer o que seus inquisidores querem ouvir. E quem poderá recriminá-lo por isso?
É muito provável (eu diria quase certo) que esse precedente do caso Valdir Raupp seja mais um (entre tantos recentes) que venha se mostrar insustentável logo, logo. Mas esta sim acaba sendo uma dimensão que a elite parlamentar não controla. Enquanto os tribunais admitirem a interpretação de que doação legal pode ser usada como prova de corrupção, não deverá nos surpreender que ela nos empurre rumo a outra coisa que não existe no mundo, que é o financiamento exclusivamente público das campanhas. Apesar das boas intenções que essa ideia costuma reunir em torno de si, ela protege o status quo, aumenta a inércia do sistema partidário e reforça ainda mais uma tendência à cartelização que já é forte de todo jeito. Menos mal que o único jeito de viabilizar essa excentricidade é jogando ao mar a lista aberta – que, por meu gosto, já vai muito tarde. A ironia é que a única coisa boa dessa notícia – a lista fechada – é justamente aquela que vai ser unanimemente esculhambada como casuísmo para livrar bandido da cadeia.
E assim vamos, perseverando na paulatina desorganização do sistema político (e econômico), no bojo de uma investigação com pendores messiânicos que se permite ela mesma ignorar a lei conforme lhe pareça conveniente. Quando advertidos dos riscos da aventura, seus protagonistas invariavelmente recorrem à mesma profissão de fé voluntarista nas virtudes e na força esperada da sociedade civil. Meses atrás foi Sérgio Moro; esta semana, Deltan Dallagnol repetiu o mantra ingênuo e irresponsável com que eles delegam sua própria responsabilidade institucional para fazê-la repousar sobre os ombros impessoais dessa entidade coletiva: que o problema na Itália (eles afinal o reconhecem!) teria sido a fragilidade da sociedade civil; que é crucial que a sociedade esteja atenta para impedir que os políticos usem as prerrogativas institucionais de que de fato dispõem. Ou seja, para impedir que políticos façam política… Pois bem, digamos que se dê o caso de que a tal “sociedade civil” não se mostre à altura da tarefa que nossos bravos paladinos lhe outorgam. Nesse caso, azar o dela?
Lamento, colegas. Não rola. Por piores que sejam, e por maior que seja seu viés em favor do poder econômico, partidos são, bem ou mal, um elo crucial entre sistema político formal e sociedade civil. Quando os partidos se enfraquecem e/ou desorganizam, a alavancagem da dita “sociedade civil organizada” sobre o sistema também se reduz. Quem ganha influência nesses contextos é o poder econômico, em ligação direta. Numa investigação policial, você pode até desbaratar alguns esquemas, mas nunca poderá desbaratar a todos. Mas, sim, se bobear periga desarticular os mecanismos de representação social organizada restantes no sistema. Se a débâcle partidária se aprofunda a ponto de inviabilizar as redes vigentes, quem tem seu poder aumentado não é o “sonhático” sindicalista, ongueiro ou ativista civil, mas o pastor que lava dinheiro por conta própria, o milionário habituado a evasão fiscal e subornos, a celebridade com penetração na mídia, o gangster que controla territórios a bala. Quem mobiliza cash e não entrou no radar ainda. Por isso o meu palpite corrente tem sido o aumento da influência das milícias e do tráfico. Do PCC também, claro, que é hoje a mais poderosa organização nesse espaço.
A relação entre partidos e representação de interesses é análoga ao efeito da ONU na relação de forças no plano internacional. Os procedimentos da ONU são cheios de vieses em favor dos mais poderosos, em reconhecimento tácito de uma assimetria real. Mas, se extinguíssemos a ONU, quem se beneficiaria não seriam os países pequenos ou pobres. Seriam as mesmas potências já favorecidas no status quo, que se tornariam ainda mais poderosas. Ruim com a ONU, pior sem ela. É idêntica a relação entre os partidos e o poder econômico: ruim com eles, pior sem eles. Na presença de partidos fortes, o poder econômico tem de se empenhar em comprar os partidos e atravessar essa mediação; na ausência deles, faz-se a ligação direta. Acreditar que a “sociedade civil” pode se interpor eficazmente nesse caminho é mais ou menos como acreditar em contos de fadas.
Estamos fazendo uma autoflagelação pública, um autêntico harakiri político-institucional, por um conjunto de problemas que, em várias de suas dimensões, são iguais no mundo todo. Em seu sentido mais ‘soft’ (de promiscuidade, de favorecimentos arbitrários depois compensados em financiamento de campanha), o jogo é igualmente corrupto no mundo todo. Mas, sim, como eu tenho repetido ad nauseam, temos nossa peculiaridade num sistema que legaliza uma patronagem empresarial numa escala sem paralelo, por nosso teto para as doações (o único no planeta todo que é proporcional à renda do doador) que ainda por cima interage com um peculiar sistema eleitoral que confronta centenas de candidaturas individuais num mesmo distrito. Disso resulta a escala astronômica dos valores envolvidos, mas também fica claríssimo que quem manda nesse mercado é o financiador. Estamos cavando um desastre inevitável quando pegamos o quadro dedutivamente esperável e saímos processando político por atacado, sem tratarmos seriamente de mudanças regulatórias, seja nas eleições, seja nos contratos públicos. Mesmo se presumirmos que há crime no financiamento das campanhas, estamos fazendo acordo de leniência com Don Corleone para pegarmos os goodfellas da esquina. Se os inevitáveis casuísmos decorrentes dessa crise nos empurrarem para uma reconcentração das candidaturas com a lista fechada, pelo menos alguma conquista terá sido extraída da confusão.
Com o perdão da evocação de costumes felizmente em decadência (foi o Jucá quem começou), a imagem que me ocorre é que os moros, dallagnois e joaquins da vida são missionários imberbes no bordel em que gilmares, renans e micheis são cafetinas com quarenta anos de balcão. Só que os meninos acharam que, sozinhos, podiam reescrever as regras da zona. Nunca puderam, mas no meio do caminho espantaram a freguesia do cabaré, e ainda dispersaram o bom naipe de meninas da casa, que às vezes incomodavam a posição das velhas cafetinas. Agora o jogo melou, as putas velhas estão recuperando o pleno comando da casa. Botar microscópio nas estórias picantes contadas por velhos e ricos frequentadores a um dos escoteiros é perseverar na fantasia dos adolescentes. Só vai desandar mais ainda a espelunca. Melhor cuidar de repactuar as regras da casa, e começar a trabalhar em novos estatutos para a velha gafieira."Governadores plantavam mudas aqui", diz primeiro jardineiro do Botânico
Cleber Dioni Tentardini
De Ildo Meneghetti a Simon, todos os governadores gaúchos que Julião de Mello Prado conheceu pessoalmente estiveram no Jardim Botânico de Porto Alegre para plantar mudas de árvores nativas. “Eles faziam questão de vir aqui, uns mais que os outros como o Brizola, o Triches, lembro também do Guazelli, do Jair Soares, o Collares”, eu me dava muito bem com eles porque comecei os jardins aqui e no Palácio Piratini”, diz.
Seu Julião é um dos primeiros funcionários do Jardim Botânico. Começou em 1957, há 60 anos, portanto, ao lado do padre Teodoro Luiz, o fundador, quem o convidou para trabalhar como jardineiro. O local ainda não havia sido aberto ao público.
Seu Julião, primeiro agachado (da esq p dir) e colegas (em pé) Anarolino, João, Antônio, Euclides e Mário, Elói e Dário /Arquivo Pessoal 
Seu Julião cuidando dos jardins nos anos 70/Arquivo JB/FZB
Acompanhou a criação da Fundação Zoobotânica, e quando achou que seria devolvido à Secretaria de Obras Públicas, onde estava registrado, o primeiro diretor da FZB, o professor gaúcho Albano Backes, o convidou para continuar no JB e com um salário maior.
Neste domingo, 19 de março, foi um dia especial para esse jovem alegretense de 93 anos e memória irretocável. Foi dia de visitar seu antigo local de trabalho e moradia, contar causos, rir, se emocionar, rever árvores que ele plantou há pelo menos 50 anos e visitar a famosa placa que registrou o plantio de mudas 1959 pelo governador Brizola, e que ele não deixou ser quebrada pelos desafetos do líder trabalhista.
A cada dez passos, parava e indagava ao filho Julio: “Essa aqui é aquela figueira que eu plantei?” Sim, pai, há 50 anos. E o angico? E aquelas com frutas? Algumas caíram com o temporal no verão passado. O filho Julio conhece cada palmo do local. Foi morar com o pai lá quando tinha um ano, e trabalha há 40 no JB. É um dos três funcionários mais antigos em atividade por lá.
Orgulhoso defronte à figueira que plantou há 50 anos/Cleber Dioni Tentardini
Um ou dois anos depois da abertura do JB, foram construídas seis casas para servir de moradia aos funcionários. Irmão Teodoro entendeu que assim a área ficaria mais segura, porque era quase tudo campo aberto, sem cercas, e transitavam livremente por lá criadores de animais e os pacientes da colônia agrícola do São Pedro.
Uma das filhas de seu Julião, Elisabete Pinto, no JB, então pátio de sua casa
“Eu e mais outros dois que plantamos todas essas árvores mais antigas aqui. O Irmão Teodoro era muito rigoroso com tudo, nada passava sem ele perceber, nem os milhos que eu plantei na frente da minha casa, escondido dele, quer dizer, achava que ele não sabia, mas eu estava enganado”, diz.
Preparação para o plantio /Arquivo JB/FZB 
Preparação para plantio/Arquivo JB/FZB 
Construção do orquidário /Arquivo JB/FZB 
Cactário/Arquivo JB/FZB 
Entrada do JB, ao fundo Colônia Agrícola do HSP/Arquivo JB/FZB 
Transporte de coleções/Arquivo JB/FZB 
Preparação para plantio/Arquivo JB/FZB 
Governador Antônio Britto observa o secretário César Schirmer plantando muda, em 10/09/1997 
Governador Britto conversando com alunos uruguaios no Jardim Botânico/Arquivo JB/FZB













