Matheus Chaparini
Eugênio Silva de Alencar, o Mestre Paraquedas, tem mais de mil músicas na bagagem de compositor, muitas delas emprestadas a diversas escolas de samba da capital, mais os hinos para tribos indígenas. Participou também na fundação de agremiações como Samba Puro, Praiana, Comando do Morro, Unidos da Conceição, Tribo Comanches. Além de compor, desenha fantasias e alegorias. Tem quase todos seus oitenta e dois anos dedicados à folia de Momo.
Por este versatilidade, Paraquedas se intitula clínico geral do carnaval porto alegrense.
Participou ainda da produção dos documentários O Grande Tambor e Batuque gaúcho. É mestre griô, carregando o compromisso de levar adiante a história da ancestralidade africana através da oralidade.
Um de seus sambas diz “da área do meu barraco aqui no morro a gente faz samba olhando a cidade lá embaixo.” Nesta mesma área, na rua Dona Firmina, Zona Leste, Paraquedas recebeu a reportagem do JÁ. Ao longo de uma tarde, falou sobre um pouco do que pode acompanhar da história do carnaval, desde os desfiles de blocos, nos bairros e na Rua da Praia, o surgimento das primeiras tribos, a revolução da fundação da primeira escola, a Academia de Samba Praiana, até os dias de hoje.
Qual a tua lembrança mais antiga de carnaval?
A lembrança mais antiga era de ir ver o carnaval na Rua da Praia, na Praça da Alfândega. Mas a primeira saída foi aos cinco anos. Saí, fantasiado de marinheiro, na cacunda do pai, no Bloco Aratimbó. Minha mãe era costureira e meu pai era policial e foi um dos fundadores do bloco. Naquele tempo, o carnaval era de um jeito, hoje é de outro jeito. Eram só blocos. E um bloco tinha oito no bateria e quinze pulando atrás. Daí tinha os Turunas, os Tesouras, tudo ali na Baronesa. O Bambas da Orgia era um bloco, era o maior que tinha: saía com quinze na bateria e trinta pulando.
Nasceu na Baronesa?
Não, nasci no Alto da Bronze. Fui morar na Baronesa do Gravataí aos 3 anos de idade. Eu estou com 82 e estou estudando ainda. Com uma criança às vezes eu aprendo, porque eu escuto muito. Graças a isso eu tenho o acompanhamento do desenvolvimento do carnaval.
E como eram os desfiles na época dos blocos?
Tinha os coretos, Porto Alegre chegou a ter 14. Ali na rua de baixo, aquele espaço largo, onde agora é fim da linha do ônibus Santa Catarina era o local do carnaval. Tinha coreto oficial ali na Barão do Amazonas, em frente ao portão do Jardim Botânico, na Anita Garibaldi, na Santana, na Cavalhada tinha dois.
O primeiro desfile era no oficial, no centro, porque as fantasias estavam novinhas. Quando chegava aqui no Partenon já tava tudo rasgado, um pé com sapato, outro não. Mas lá era de carinha limpa, tudo bonitinho pra fazer a apresentação. Aquilo era o que a prefeitura cobrava
Era tudo a pé. Ninguém tocava, era só uma surdinha, tum, tum, – os outros instrumentos só tocavam no coreto – e cada bloco tinha um refrão. Aqui do morro era “É o galo! É o galo! Senta o esporão”. Tinha outro que era “Choveu! Choveu!. O cabelo da nega encolheu.” Aí o bloco passava aqui e eu ia atrás, chegava na esquina e bah, tinha deixado a porta aberta. Daí eu voltava, mas outros já tinham entrado e assim ia.
E tinha um carnaval de clube também?
É, a Sogipa e o Leopoldina Juvenil tinham.
Mas era um carnaval de branco?
Era bem branco. Mas quem tocava eram os negros.
Mas tinha também os clubes de negros?
Sim, A primeira sociedade negra que se criou em Porto Alegre foi o Floresta Aurora, criado por negros oficiais do exército, que vieram transferidos de Pelotas. O nome é porque a rua Cristóvão Colombo se chamava Floresta e a Ramiro Barcellos se chamava Aurora. E o clube se criou naquela esquina. Depois o Floresta Aurora foi pra Barros Cassal, depois pra rua da Margem, que é a João Alfredo. Então criou-se o Prontidão, hoje Satélite Prontidão.
E o surgimento das tribos indígenas?
O carnaval de índio foi criado pelo Seu Hemetério (de Barros), um negrão, era amigo do meu pai, criou a primeira tribo de índio: Os Caetés, em 43. Eu tinha uns 11 anos e ajudei a fazer a primeira alegoria dos Caetés. Neste tempo o carnaval era na Rua da Praia, na Praça da Alfândega. A entrada era ali do lado do Correio do Povo pra cá e a dispersão era na General Câmara ou naquela ruazinha que fecharam e agora ficam os engraxates.
Mas se o seu Hemetério tivesse noção que existia bloco afro ele não teria criado tribo indígena. Porque a intenção dos que compõe a primeira formação dos catésbos do carnaval não era homenagear os índios. Era sim botar pra fora sua necessidades tibais, era andar dançando, num outro ritmo… Você olha as roupagens das fantasia tem mais linguagem afro que indígena.
As tribos vieram em substituição aos blocos?
Não, o seu Hemetério não queria aquilo de fantasia e tal. Porque o carnaval é meio marcial, tu sabe. O desfile de uma escola de samba é meio marcial. Como foi criada uma escola de samba? Quem criou a escola de samba foi Olavo Bilac, que era professor e reitor do Tiro de Guerra lá no Rio de Janeiro e tinha só negro naquela dele, era uma escola de recuperação. E eles todos eram fardados e tinha a banda marcial. Então, quando os negros não estavam marchando, faziam samba com os instrumentos da banda marcial. Dali surgiu a escola de samba.
Qual a importância do surgimento da Praiana para o carnaval de Porto Alegre?
A chegada da Praiana é um marco. Foi a primeira escola de samba – o Bambas tem uns cem anos, mas antes era bloco. Em seguida surgiu o Imperadores, porque o Bambas era azul e branco, daí botaram o vermelho pra contrastar e pra pegar o povo que não gosta do azul, aquela coisa do grenal. O imperador foi fundado com essa ideia.
É dessa época que vem o nome Paraquedas?
É, eu servi 12 anos no exército como paraquedista no RJ. Tinha um tenente que serviu comigo e era mestre sala da mangueira. Mas como a Portela era mais perto, ele me levou lá. Quando eu vi aquelas tecnologias, os bonecos se mexendo, piscando olho… Bah, eu me encantei né, cara! Então durante 12 anos eu observei muito o carnaval carioca, desfilei, trabalhei no carnaval. E Eu trouxe muito pra cá, em matéria de alegoria, de desfile. Esse tempo no Rio lapidou o conhecimento duro que eu tinha.
Como se deu o surgimento da figura do mestre sala?
Os brancos davam as roupas velhas que não queriam mais, eles vestiam, e saiam fazendo aquelas reverências, imitando os gestos dos brancos, tirando onda. Aí que surgiu essa figura de mestre sala.
Aqui, no tempo dos blocos, tinha a figura do Remelecho, que também tinha o apelido de ‘assusta-criança’. Ele ia na frente, animando, e não tinha compromisso nenhum com o rtimo, o negócio era chamar atenção. Ele chegava “Ahhh!!!” e as criancinhas saiam correndo “ai, socorro mãe” e ele virava cambota, botava língua pra fora, fazia um zoião.
O carnaval aqui no Rio Grande do Sul não tem essa tradição de mestre sala, isso é mais no Rio. São detalhes da coisa que dizem muito. Ali está a raiz, a tradição da coisa, compreende? Não essa superficialidade do carnaval de Porto Alegre, que é só oba oba. Mas você chega num Império Serrano, no RJ, ali e serrinha, é jongo, é raiz profunda da cosia. O jongo é a raíz do samba.
Este ano a gente tem um momento diferente para o carnaval, com o corte dos repasses pela Prefeitura…
Olha, esse carnaval profissional que tem hoje começou a partir de um cidadão que tinha a alcunha de Comendador, que era dono da Pepsi Cola. E foi esse cidadão que mal acostumou os carnavalescos de Porto Alegre. Até então ninguém cobrava nada para tocar, a escola te dava o mínimo, o chapéu, a camiseta, se quisesse fantasia bonita tinha que fazer.
Mas ele traia uma proposta que já estava rolando no Rio de Janeiro. Ele copiou e trouxe para cá. Isso ali por 1968. Quando ele encampou o carnaval, o coreto era Pepsi Cola, a mídia toda do carnaval era Pepsi Cola, então eles tavam ganhando muito dinheiro com isso aí. Mas ele saiu, a Pepsi saiu e a negrada continuou exigindo a mordomia que ele ofereceu a partir daquele tempo que ele encampou o carnaval.
A partir desse cidadão, comercializou o carnaval. E está esse estado de coisa que tá ai.
Autor: da Redação
Entrevista: Mestre Paraquedas, clínico geral do carnaval de Porto Alegre
Rua João Alfredo, na Cidade Baixa, enfeitada para receber os blocos, década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo “Se o seu Hemetério tivesse noção que existia bloco afro ele não teria criado tribo indígena” / Matheus Chaparini Academia de Samba Praiana, um marco no carnaval de Porto Alegre. Década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo “A partir do Comendador, comercializou o carnaval. Aí está esse estado de coisa que tá ai” / Matheus Chaparini Dmae investiga alterações na água de Porto Alegre
O Dmae informou que está realizando coleta de água e novos exames em locais específicos de Porto Alegre para investigar as alterações reatadas por moradores no gosto e no odor da água nos últimos dias.
Em nota de esclarecimento, o Dmae informou que a alterações podem estar relacionadas ao período de verão e de estiagem, que altera as condições do Guaíba.
Até o final da segunda-feira, não haviam sido identificada nenhuma alteração prejudicial à saúde pública e os valores usuais das análises permanecem inalterados.
Confira a íntegra da nota:
O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) informa que desde o início desta segunda-feira, 27, está realizando coleta de água e novos exames em locais específicos de Porto Alegre para buscar identificar possíveis alterações relatadas por moradores no gosto e odor da água. Essas alterações podem estar relacionadas ao período de verão e de estiagem, o que altera as condições do Lago Guaíba. Para garantir a eficiência na prestação de serviço, o Dmae intensificou as ações operacionais e de controle de qualidade da água. Além disso, são realizadas análises regulares da água em conjunto com a Secretaria Municipal da Saúde. Até o momento não foi identificada alteração prejudicial à saúde pública e os valores usuais das análises permanecem inalterados. A água da Capital segue dentro do padrão de potabilidade estabelecido pela Portaria 2914/2011 do Ministério da Saúde. Quanto às reclamações de coloração, o Dmae realizou lavagens de rede em diversos pontos na última madrugada e não encontrou alteração. Qualquer alteração detectada pelos usuários deve ser registrada no 156, opção 2.Empresa fechada em agosto pelo mesmo problema desafia DMAE

Engenheiro quimico José Carlos Bignetti. Foto: Walmaro Paz O engenheiro quimico José Carlos Biugnatti, técnico da empresa fechada em agosto depois de denunciada pelo DMAE como responsável pelo mesmo problema : mau cheiro e gosto ruim da água servida a população, desafia o DMAE. ” Pelo menos fica comprovado que não era a nossa empresa a responsável. A situação atual corrobora o nosso argumento de que este é um problema cíclico nas águas do Guaíba”, afirmou. E segue argumentando que a Cettraliq funcionou 12 anos de acordo com as normas da Fepam e nunca teve este tipo de problemas.
Conforme ele as análises deverão aprovar que a empresa não foi responsável. ” É triste chegar-se a este tipo de conclusão depois de desempregar 40 técnicos”, disse. A Cetraliq tratava efluetes quimicosde cerca de 1500 pequenas indústrias que não tinham condições de realizar o tratamento por conta prórpira porcausa do pequeno volume de efluentes, a maioria no ramo da galvanoplastia. Atualmente estes residuos são levados para uma empresa localizada em Joinville, Santa Catarina.
Grupo terrorista uruguaio ameaça defensores dos direitos humanos
Um grupo autodenominado “Comando general Pedro Barneix” enviou uma mensagem via internet ameaçando de morte o ministro da Defesas do Uruguai, Jorge Menéndez, e outras onze pessoas, entre elas o brasileiro Jair Kritsche, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, com sede em Porto Alegre.
“O suicídio do general Pedro Barneix não ficará impune, não se aceitará nenhum suicídio mais por injustos processos. Para cada suicídio de agora em diante, mataremos três escolhidos da seguinte lista”, dizia o texto recebido via e-mail pelo juiz Jorge Díaz.
O fato foi revelado pelo semanário Brecha, de Montevidéo, no início de fevereiro, confirmado pelas autoridades na semana passada.
O general Pedro Barneix foi condenado pela morte de Aldo Perrini, militante assassinado sob tortura, durante a ditadura uruguaia (1976-1983). O general suicidou-se em 2015, minutos antes de ser preso em sua casa em Montevidéo.
O brasileiro Jair Krischke está na lista, provavelmente, por sua atuação decisiva para a prisão do ex-coronel uruguaio Manuel Cordero, que foi condenado a 25 anos de prisão por várias mortes no âmbito da Operação Condor.
A mensagem foi enviada através de uma plataforma chamada Tor que oculta a fonte do e-mail. Alguns dos nomeados na nova ameaça interpretam que esse suposto “Comando general Barneix” é uma maneira de marcar que continuam ativos.
Na lista figuram o ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menendez, o procurador Jorge Diaz, a ex-procuradora Mirtha Guianze, a professora Belela Herrera, os advogados Oscar Lopez Goldaracena, Paulo Chargonia, João Errandonea, Frederico Alvarez, João Fagundes e Hebe Martinez, o jurista francês Louis Joinet, a investigadora italiana Francesca Lessa e o brasileiro Jair Kristchke.
Segundo Krischke, as ameaças partem dos “órfãos de Eleutério Fernandez Huidobro, o ex-ministro da Defesa que os protegia”.
Huidobro, ex-militante do grupo guerrilheiro Tupamaro, foi ministro do primeiro governo de Jose Mujica e, no governo, passou a questionar os processos de resgate dos crimes do regime militar. Morreu em agosto passado. O ministro atual, Menendez tem outra postura sobre as violações aos direitos humanos durante a ditadura.
O atual ministro anunciou há um ano a reativação dos chamados “Tribunais de Honra” para os militares processados.Secretário uruguaio que ajudaria na Lava-jato aparece boiando na piscina da própria casa
O secretário Nacional de Luta contra a Lavagem de Dinheiro do Uruguai, Carlos Díaz, foi encontrado morto na piscina da casa dele, em Punta Del Leste.
Díaz seria um elo entre Brasil e Uruguai nas investigações da Operação Lava Jato. Em entrevista a um jornal brasileiro na última semana, o secretário afirmou que estava disposto a cooperar com o Ministério Público Federal brasileiro no combate à lavagem de dinheiro.
Segundo a imprensa uruguaia, a autópsia confirmou que a causa da morte foi afogamento. Mas a Justiça do país disse que ainda vai fazer uma série de perícias para que não restem dúvidas sobre o caso.
A polícia afirmou que tudo indica que foi um acidente, já que não havia sinais de violência no corpo e nem algo suspeito na casa de Carlos Díaz.
Aos 69 anos, o secretário exercia o cargo desde 2010. Ele assumiu a pasta na gestão do ex-presidente José Mujica. Díaz era responsável por conduzir várias investigações contra grupos criminosos e defendia leis que dariam mais transparência às movimentações financeiras do Uruguai.
No país, existem diversas offshores, que são empresas usadas para esconder dinheiro e dificultar o rastreamento dos verdadeiros donos.
Informações da Radiogência NacionalÁgua com cheiro de mofo e gosto de terra retorna às torneiras dos porto-alegrenses
Desde o início do carnaval na semana que passou, os porto-alegrenses passaram a consumir água com gosto de terra e cheiro de mofo. O departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) explicou ontem(28) que a causa provável seria a formação de algas no Guaíba que soltam bactérias gerando o sabor e o cheiro.
O fenômeno tornou a acontecer quase dois meses depois da empresa acusada em junho de ser a causadora do problema : a Cettraliq, que tratava efluentes químicos de pequenas indústrias, ter seus tanques completamente esvaziados. A empresa havia dito em sua defesa que a causa do cheiro e do sabor seria a proliferação de bactérias que costumam reproduzir-se no lodo acumulado nos esgotos pluviais e/ou nos detritos depositados no leito do rio aparecendo sempre que estes locais são remexidos.
Ao encerrar as atividades a Cettraliq apresentou um relatório à Justiça e deixou entendido que, se provada a sua inocência exigiria indenização. Na época foram dispensados 40 trabalhadores, na sua maioria técnicos e os efluentes removidos para uma empresa similar com sede em Joinville, Santa Catarina.Romaria da Terra celebra 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni
A antiga fazenda Annoni, localizada no município de Pontão (RS), onde ocorreu em 29 de outubro de 1985 a primeira ocupação brasileira de latifúndio por famílias organizadas no MST, recebeu nesta terça-feira (28) milhares de pessoas de todas as regiões do estado para a 40ª Romaria da Terra.
A edição comemorativa do evento, que acontece sempre na terça-feira de Carnaval por ocasião do aniversário de morte do indígena Sepé Tiaraju, resgatou a luta dos agricultores do assentamento por transformação social, sendo norteada pelo tema “Romaria da Terra: 40 anos de luta e memória das conquistas” e pelo lema “Terra de Deus, terra de irmãos”.
A acolhida aos romeiros começou por volta das 7h30 no Instituto Educar, uma escola de ensino médio, técnico e superior construída há 12 anos pelas famílias assentadas na Annoni, seguida de caminhada até a sede da comunidade Nossa Senhora Aparecida. Durante o trajeto, de cerca de 2 quilômetros, foram carregadas 40 tochas em celebração aos 40 anos da Romaria da Terra e uma cruz de mais de 3 metros de altura com escoras, representando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores e a solidariedade que eles receberam da igreja, universidades, artistas, partidos políticos e sindicatos à época dos acampamentos na Encruzilhada Natalino e na fazenda Annoni. A cruz levava tiras de tecido nas cores branco e vermelho, em memória às crianças e adultos que morreram nos dois acampamentos, vítimas da falta de assistência médica por parte dos governos.

Também foi carregado durante o trajeto um sino, instrumento utilizado pelas famílias na ocupação da Annoni como sinal da alerta para problemas, notícias importantes ou chamamento para celebrações. A caminhada ainda lembrou, por meio de cartazes, seis mártires que tombaram em lutas a favor das causas populares: Sepé Tiaraju, Joceli Corrêa, Elton Brum da Silva, Lari Grosseli, Roseli Nunes e Vitalvino Mori. Os três últimos foram assassinados numa manifestação de agricultores em Sarandi, em 1987, dois anos depois de ocorrer a ocupação da fazenda Annoni.
Todas estas simbologias acompanharam a caminhada em cinco paradas, que resgataram a história da Romaria da Terra e a luta das mais de 400 famílias que hoje vivem nas comunidades do assentamento. Uma tratou das conquistas que os assentados obtiveram nestes últimos anos, entre elas o fortalecimento do trabalho coletivo através das cooperativas e agroindústrias, e da educação por meio da construção de escolas e do método de ensino diferenciado do MST. A romaria ainda destacou o papel fundamental que as mulheres tiveram no desmanche do latifúndio de mais de 9 mil hectares.
Para o padre Arnildo Fritzen, que desde a ocupação sempre esteve ao lado das famílias Sem Terra, a grande lição que fica à sociedade da luta pela Annoni é de que o povo organizado se torna educador. “A luta pela terra nos mostra que o poder popular existe e que é possível transformar um latifúndio em terra produtiva e de boas oportunidades para muitas pessoas”, disse.
foto MST
O coordenador nacional do MST, João Pedro Stedile foi um dos fundadores do Movimento e ajudou na organização das famílias nas ocupações das fazendas Macali, Brilhante e Encruzilhada Natalino. Na 40ª romaria, ele criticou as medidas de retiradas de direitos adotadas pelo governo Temer e falou dos desafios da classe trabalhadora na atual conjuntura política. “Em tempos de crise, temos que fazer trabalho de base para uma formação política que leve as pessoas a refletir sobre os problemas que estamos enfrentando”, apontou.
Após chegarem ao Assentamento Nossa Senhora Aparecida, os romeiros participaram de uma celebração eucarística, coordenada pela Arquidiocese de Passo Fundo, e de tribuna popular. No local, também foi realizada uma feira com produtos da reforma agrária.Aumenta desemprego em setor estratégico
WALMARO PAZ
Embora as autoridades econômicas do governo insistam que terminou a recessão e há uma retomada no processo de crescimento, o desemprego vem aumentando no país conforme dados coletados por todos os institutos de pesquisa. O IBGE divulgou na semana passada que o número real de desempregados é o dobro do estipulado pela sua pesquisa: em vez de 12,6 milhões, as pessoas a procura de emprego no País são estimadas em 24 milhões.
Isto porque na pesquisa somente são contadas aquelas que perderam o local de trabalho e esquecidas as que estão atrás de emprego há mais tempo. No Rio Grande do Sul, a Federação dos Metalúrgicos divulgou um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), segundo o qual 70.151 trabalhadores do setor foram dispensados em 2016 e apenas 50.192 foram contratados no período restando um saldo de 19.959.
Porém o dado mais alarmante é que depois do setor de construção naval o que mais desempregou foi o de Bens de Capital Mecânico com o número negativo de 4.726 dispensados. Segundo a coordenadora da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana (PED-RM), Iracema Castelo Branco em 2015 e 2016 foram fechados 26.417 postos de trabalho gerais na Grande Porto Alegre, confirmando a pesquisa dos metalúrgicos.
Iracema explicou que a queda nos postos de trabalho vem crescendo desde 2014 na região: em 2015 foi 8,7 %; em 2016 aumentou para 10,7 %. Isto se deve há vários fatores, mas, sem dúvida indicam que não há retomada de crescimento porque o primeiro setor a crescer e a aumentar postos de trabalho é justamente o de Bens de Capital.
Segundo o presidente da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, Jairo Carneiro, somente no setor de máquinas agrícolas se nota uma maior movimentação positiva. “ Isto se deve as excelentes safras dos últimos anos”. Mas segundo ele, os outros setores que produzem basicamente para industrias do centro do País existe uma retração muito grande, “ sem falar no setor da construção naval que está sendo praticamente desmontado pelo governo”, concluiu.Os Comanches, uma tradição da Vila São José
Matheus Chaparini
Nos altos da rua Borborema, vila São José, na Zona Leste de Porto Alegre, fica a sede da Tribo Comanches. Em uma sexta feira de fevereiro a reportagem do Jornal JÁ foi conferir um ensaio na quadra.
Valdir de Souza Ribeiro é o presidente da Sociedade Recreativa Beneficente Carnavalesca Tribo Comanches, fundada em 10 de outubro de 1959.
Dentro da sede, entre as paredes repletas de fantasias, alegorias e pôsteres de títulos do Sport Club Internacional, ou na avenida, Valdir é Itaúna, seu nome de guerra.
Ele era um guri da São José quando um grupo de amigos decidiram criar uma agremiação carnavalesca. A primeira empreitada foi uma escola de samba, o Comando do Morro, que durou apenas dois anos.
Um dia, após o fim da escola, estavam sentados em uma praça da redondeza quando alguém sugeriu: quem sabe a gente faz uma tribo? “Naquele tempo tinha muita tribo. Bah! Escola de samba não tinha muito”, conta Valdir.
As cores escolhidas foram amarelo, vermelho e azul. O nome foi decidido em uma votação apertada, com diferença de apenas um voto. A inspiração veio dos filmes americanos que passavam na televisão.
“A gente via os Comanches, assim, em cima da montanha, à cavalo e a gente era gurizada nova, achava fantástico”, explica.
Tribo Comanches na avenida no carnaval de 2004 / Arquivo Comanches
Valdir é está no cargo há cerca de 25 anos. Antes disso, se orgulha de ter sido o presidente no ano do primeiro título de campeão de carnaval, em 1967, quando a disputa entre as tribos era a principal atração do carnaval porto alegrense.
“Era o tempo da Pepsi Cola, do Vicente Rao, que era Rei Momo, tempo do Heitor Pires, o comendador. Ele botava o dinheiro e a prefeitura botava os ônibus. A gente pedia 3, 4 ônibus e eles davam”, recorda.
Atualmente a disputa se dá apenas entre duas tribos: Comanches e Guaianazes, “o que restou da guerra”. Há uma forte rivalidade entre as duas tribos e a esta disputa é o que mantém vivo o carnaval de índio, como alguns chamam. Os Comanches venceram as últimas quatro disputas.
Este ano, a tribo vai para a avenida com cerca de 300 pessoas. Segundo Valdir, a maioria dos integrantes mora nas redondezas da sede. A bateria conta com 70 percussionistas.
Surdos, maracanãs, repiniques e agês são os instrumentos da pescussão. A harmonia vem com dois cavacos, violão de seis e de sete cordas. O desfile conta ainda com personagens como porta estandarte, feiticeiro e cacique – em outros tempos, eram mais personagens, como deusa, cacique, pajé.
Presidente Valdir em ação na quadra: “eu não sei fazer nada, mas eu sou curioso” / Arquivo Comanches
O tema para o carnaval 2017 é Um tema para Lino e Jacira. Segundo o presidente, as fantasias e alegorias estão praticamente prontas. “É só colocar no carro.”
“Isso aqui é uma família, meu!”
Apesar de ter vivido os melhores dias das tribos, o momento em que Valdir mais se emociona não é ao lembrar glórias de carnavais passados, mas ao defender a união do grupo em momentos de dificuldade. Valdir se considera “um cara glorioso” por ter o seu pessoal ao lado. “Isso aqui é uma família, meu!”
Mesmo com o repasse da prefeitura à Liga, que era dividido entre as agremiações, colocar a tribo na avenida não era uma tarefa fácil. Para Valdir, este feito só é possível, ano após ano, graças à união dos integrantes da tribo, na maioria moradores da região. O trabalho é o ano todo.
As cabeças das fantasias são feitas em papelão reciclado. Um funcionário do supermercado que hoje ocupa o terreno onde já foi a quadra dos Comanches separa caixas de papelão que sobram e encaminha para a tribo.
“Eu tenho minha comunidade muito forte aqui. Talvez saia alguma coisa, mas a gente não tá contando com isso aí. Eu já falei com a minha harmonia: ‘esse ano não tem nada, quem quiser ir, vai, quem não quiser, pode parar agora’. Eles deram o grito de guerra.”
Este ano, o prefeito Nelson Marchezan Júnior decidiu cortar o repasse que todos anos a prefeitura fazia para o carnaval. Dos R$ 7 milhões previstos, cerca de R$ 5 milhões seriam usados na estrutura do desfile e o restante, dividido entre as agremiações.
Uma equipe montada pela prefeitura e Liespa está visitando diversas empresas que são potenciais patrocinadoras. Mas até o momento, não se fala em confirmações ou valores.
O projeto da prefeitura é que a partir deste ano, o carnaval se sustente sem verba pública. A forma de captação ainda não está definida. Se a captação for feita de forma individual, por cada entidade, as menores terão mais dificuldade, correndo o risco de extinção nos próximos anos.
Quando perdeu sua esposa, Valdir quis parar com os Comanches. Dona Georgina era costureira da tribo e braço direito do presidente, que hoje é auxiliado pela filha Karen. Ele propôs o fim da entidade, mas a comunidade não aceitou.
Hoje, mesmo com todas dificuldades e com a incerteza da situação financeira futura, o fim dos Comanches é algo que Itaúna nem cogita: “Nós vamos abraçar e não vamos deixar morrer.”
Dona Georgina e Valdir dando entrevista após o titulo de 2002 no carnaval / Arquivo Comanches “Nossa alegoria a gente fazia no meio da rua”
Matheus Chaparini
Panelão de cola de farinha, oficina na rua, um ensopado no fogo ou uma carne na brasa e cachaça noite adentro. Era assim que se fazia alegoria para o carnaval na calçada da rua Borborema, bairro São José, ou em frente a qualquer quadra de tribo, bloco ou escola de samba de Porto Alegre. Pelo menos é como Marlene Silva Machado se lembra dos preparativos de carnaval.
Dona Marlene sai no carnaval de Porto Alegre desde a adolescência. Desfila pelos Comanches desde o primeiro ano da tribo. Já saiu também pela extinta tribo Tapuias, apesar do ciúme dos colegas de Comanches, e por escolas de samba como Imperadores do Samba e Bambas da Orgia. Além de desfilar, já teve ala nos Bambas e até alguns anos atrás costurava.
Dona Marlene, em um ensaio dos Comanches, em 2017 / Matheus Chaparini
Este ano, está impedida de desfilar porque está se recuperando de uma cirurgia. O fato de saber que não vai estar na avenida no final de março, interfere pouco ou nada na rotina carnavalesca de Dona Marlene. Mora a poucos quarteirões da sede dos Comanches e não perde um ensaio. “Não se perde o vínculo com os carnavalescos. A gente faz almoço, jantar, roda de samba… aqui é o ano todo.”
Marlene é saudosa de um tempo em que o carnaval era construído de forma mais colaborativa. “Nossa alegoria a gente fazia no meio da rua. Fazia uma panelão deste tamanho de cola de farinha de trigo. A gente passava a noite inteira ali, tomando cachaça e fazendo carro alegórico. Saía sopão, churrasco. Agora, terminou tudo aquilo, não tem mais.”
Marlene é critica ferrenha da remoção do carnaval da região central da cidade, com a construção do Porto Seco. Segundo ela, muita gente deixou de participar dos desfiles depois da mudança. “Os governantes querem acabar com o carnaval. Colocar o carnaval lá no Porto Seco? Aquilo é um horror. Os barracões são muito bons, mas é muito longe, a condução é ruim. Se tem carro, não pode levar porque roubam.”
Ela reclama da dificuldade de acesso ao local, com poucos ônibus, muitas filas, paradas de distantes e estacionamentos inseguros. Além disso, há restrições à entrada de alimentos e bebidas de fora. “Lá é tudo uma careza. Quer dizer, uma mãe que vai levar três ou quatro filhos tem que levar um lanche de casa.”
Aos 74 anos, com boa parte deles dedicados ao carnaval de Porto Alegre, Marlene é pessimista em relação ao futuro das agremiações carnavalescas. “Tá muito devastado. O carnaval maior está concentrado na Cidade Baixa. Eu acho que no futuro vai ter só bloco de rua. Escola, essas coisas não vai ter mais.”Eclipse solar visto em Porto Alegre
WALMARO PAZ
Neste domingo, ao acordar depois de uma noite de carnaval, os moradores da Cidade Baixa, puderam assistir ao espetáculo que foi o eclipse parcial do sol, as 11horas. Aliás o eclipse pode ser visto neste horário em toda a Região Metropolitana, mas a foto foi tirada na Rua da República. Para conseguir a melhor nitidez o fotógrafo teve que apanhar o sol entre nuvens, com o formato de uma lua crescente.
Eclipse anular fotografado no Texas em 2012.
Foi um Eclipse Solar do tipo Anular, que acontece quando a Lua está mais distante da Terra. Nesse caso, ela não consegue bloquear todo o disco solar, e a borda do Sol fica exposta. Já no Eclipse Solar Total, a Lua está mais próxima da Terra, e com isso ela é capaz de bloquear todo o disco solar.
No entanto o “anel de fogo” só pode ser observado de navios em pontos específicos do Oceano Atlântico. Em Porto Alegre o fenômeno adquiriu as características de um eclipse parcial.


A acolhida aos romeiros começou por volta das 7h30 no Instituto Educar, uma escola de ensino médio, técnico e superior construída há 12 anos pelas famílias assentadas na Annoni, seguida de caminhada até a sede da comunidade Nossa Senhora Aparecida. Durante o trajeto, de cerca de 2 quilômetros, foram carregadas 40 tochas em celebração aos 40 anos da Romaria da Terra e uma cruz de mais de 3 metros de altura com escoras, representando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores e a solidariedade que eles receberam da igreja, universidades, artistas, partidos políticos e sindicatos à época dos acampamentos na Encruzilhada Natalino e na fazenda Annoni. A cruz levava tiras de tecido nas cores branco e vermelho, em memória às crianças e adultos que morreram nos dois acampamentos, vítimas da falta de assistência médica por parte dos governos.





