Autor: da Redação

  • Ecologistas pedem retirada da urgência do projeto para florestas plantadas

    Olga Arnt, da Agência AL
    Ecologistas e servidores públicos querem a retirada do regime de urgência do Projeto de Lei (PL) 145 2016, do Poder Executivo, que trata da Política Agrícola Estadual para Florestas Plantadas.
    Eles participaram nesta quarta-feira (16) de audiência pública da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa sobre a questão ambiental no Rio Grande do Sul, na qual pediram o apoio dos deputados para que a matéria não seja votada antes de ser discutida com a sociedade.

    A principal alegação para o pedido é que o projeto do governo desconsidera o zoneamento da silvicultura e ameaça a biodiversidade do Estado.

    O tema deverá ser debatido na próxima terça-feira (22) em uma nova audiência pública, requerida pelo presidente da Comissão, deputado Valdeci Oliveira (PT).

    A partir do dia 24 de novembro, a proposta passa a trancar a pauta de votações da Assembleia Legislativa. Valdeci acredita que, se não houver uma mudança nas intenções do governo, a matéria deverá ir à apreciação em plenário ainda em novembro. “Precisamos nos manter unidos, mobilizados e evitar dispersões. Há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo aqui e em Brasília para que não tenhamos pernas para acompanhar tudo”, apontou o parlamentar.

    O deputado Zé Nunes (PT) considera que o PL 145/2016 “surfa na onda de retirada de direitos e das aprovações a galope no Congresso Nacional”. Para ele, não há justificativa para que a proposta seja votada sem discussão. “Uma mudança como a que pretende o governo, que afeta profundamente a visão de silvicultura e pode promover a degradação de nossas terras, não pode ser votada a na calada da noite, sem que a sociedade tenha plena consciência do que está em jogo”, frisou.

    Licenciamentos ambientais

    Paulo Brack, da Apedema: / Foto Vinicius Reis/Agência AL
    Paulo Brack, da Apedema (com a camiseta contra a extinção da Fundação Zoobotânica), denunciou o desmantelamento dos órgãos ambientais no RS /Foto Vinicius Reis/Agência AL

    Os participantes da audiência pública também manifestaram preocupação com o desmantelamento dos órgãos ambientais no Estado e com tentativas de inviabilizar instrumentos e estruturas voltadas à preservação ambiental. O professor Paulo Brack, da Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (Apedema), citou a tentativa de derrubada da Lista da Fauna Ameaçada no RS e a intenção do Executivo de extinguir a Fundação Zoobotânica.

    Já a representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS) Janaína Pretto defendeu a necessidade de adequar a legislação ambiental do Estado à legislação federal. “Necessitamos de segurança jurídica. Grande parte da judicialização da questão ambiental é decorrente da desatualização da legislação estadual em relação à norma federal. Precisamos revisar a lei em vigor e definir procedimentos para o licenciamento ambiental”, ponderou.

    O diretor técnico da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Rafael Volquind, afirmou que é preciso fortalecer as estruturas voltadas à fiscalização para que os termos das licenças ambientais sejam cumpridos. Segundo ele, foi criado um departamento na Fepam, que está inciando a fiscalização de cerca de 15 mil empreendimentos licenciados. A ideia é fazer as vistoriais por amostragem, concentrando o esforço nos setores com maior capacidade poluidora.

    Rafael defendeu também a necessidade de modernizar o licenciamento ambiental, fixando procedimentos. “O licenciamento não pode ser uma prática subjetiva. Ele precisa ter caráter institucional”, alertou, lembrando que os órgãos ambientais do País estão assoberbados com a quantidade de pedidos de licenças ambientais. Há dois anos, a Fepam tinha um acumulado de 12 mil pedidos. Hoje, cerca de 6.500 ainda estão na fila de espera.

    A audiência pública foi acompanhada por estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

  • Morre aos 89 anos Irmão Antonio Cechin, um pioneiro da ecologia

    Antônio Pires Cechin, fundador da Comissão Pastoral da Terra no RS, morreu aos 89 anos nesta quarta-feira, 16. Ele estava internado no Hospital São Lucas da PUCRS se recuperando de uma fratura na bacia. Irmão Cechin foi militante de movimentos sociais ligado a causas ambientais e irmão Marista. Foi fundador da Pastoral da Ecologia, da ONG Caminho das Águas, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), criador da Romaria da Terra e da Romaria das Águas, idealizador da missa em honra a Sepé Tiaraju.
    Nascido no dia 17 de junho de 1927, em Santa Maria, Ingressou no Juvenato dos Irmãos Maristas em 1937, com 10 anos incompletos. Aos 16 anos, em 24 de janeiro de 1944, emitiu os votos temporários, tornando-se Irmão Marista. Formado em Letras Clássicas e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, foi professor e diretor em colégios da Congregação Marista e secretário da Faculdade de Filosofia da PUC-RS.
    Preso político em 1968, o irmão deixou o Colégio Rosário e a PUC, onde lecionava, e foi trabalhar em comunidades eclesiais de base na periferia de Canoas. Em 1979, organizou a primeiro ocupação urbana na Região Metropolitana. Em 1986, junto com sua irmã, Matilde Pires Cechin, começou a trabalhar com a população da Ilha Grande dos Marinheiros, na época, com cerca de 2 mil habitantes vivendo em extrema pobreza.
    O sepultamento acontece nesta quarta-feira, às 17h30, no Cemitério Marista de Viamão.
    Pioneiro no trabalho com reciclagem
    Irmão Antônio Cechin é reconhecido nacionalmente por seu pioneirismo com as unidades de reciclagem e com a organização de catadores de material reciclável, considerados por ele “profetas da ecologia”. Parte de seu trabalho com unidades de reciclagem é contada no livro “Pioneiros da Ecologia”, lançado pela JÁ Editores em 2002.
    Confira um trecho:
    “‘Os papeleiros que moravam lá eram muito pobres, viviam na maior promiscuidade’, diz ele. Criadores de porcos, em sua maioria, eles viviam cercados de lixo e suas crianças  cresciam soltas nesse ambiente marcado por enchentes duas vezes por ano. Ao contrário de Canoas, onde o trabalho envolvia pessoas com emprego fixo e uma certa estrutura familiar, na ilha os irmãos Cechin lidavam com gente vinda do interior ou decaída no meio urbano, cuja sobrevivência era tirada do lixo. Pessoas sem profissão, membros de famílias desestruturadas, viviam todos em conflitos mútuos e eram, ainda, estigmatizados como ‘ ladrões de lixo’ pelas autoridade municipais da época.
    Inicialmente, os irmãos Cechin tentaram organizar a separação do lixo seco. ‘Naturalmente não foi fácil, pois o pessoal desconfiava de tudo, até das nossas intenções’, diz ele. Enquanto lutava  para convencer a comunidade a aderir ao projeto, ele procurou o chefe do departamento de Limpeza urbana, Vieira da Cunha, que concordou com o trabalho, mesmo lembrando que a ilha era um parque ecológico. Em seguida, Cechin conseguiu junto à Cáritas, da Igreja Católica, uma verba (‘irrisória’) para levantar um galpão – só telha, sem paredes. Do Colégio Bom Conselho, das irmãs franciscanas, veio como doação um caminhão para recolher o lixo.”
    O livro Pioneiros da Ecologia (Já Editores, 2002) está à venda no site do JÁ e nas boas livrarias.

  • Semana da Consciência Negra enfoca educação e empreendedorismo

    Empreendedores de origem afro expõem seus produtos no Largo, até domingo / Foto PM/JÁ
    Empreendedores de origem afro expõem seus produtos no Largo, até domingo /PM/JÁ

    Começou oficialmente na segunda-feira, 14, a 26ª Semana da Consciência Negra de Porto Alegre, no Largo Zumbi dos Palmares. Num dia útil entre um domingo e um feriado, o movimento foi pouco, mas logo aqueceu.
    Na terça-feira, feriado ensolarado, a 2a Marcha do Orgulho Crespo atraiu centenas de pessoas, saindo do Parque da Redenção ate o Largo. A adesão à primeira Marcha foi tamanha, ano passado, que entrou para a programação oficial da Semana. A inspiração é mostrar que mostrar, principalmente às meninas, que o padrão do liso é só uma das opções, e portanto assumir o cabelo crespo pode ser libertador – com ganho de tempo, dinheiro e autenticidade.
    O tema da Seamana deste ano é “Fortalecimento da Cultura Negra através da Educação e Empreendedorismo”. Uma extensa programação se desenrola no Largo, com apresentações artísticas e a exposição de uma feira de empreendedores de origem afro.
    Até domingo, diversos grupos culturais do município se apresentam no palco do Largo Zumbi, como o Pagode do Dorinho, Brazil Estrangeiro, Padedê do Samba e Puro Astral, além das escolas de samba Areal do Futuro e Imperatriz Dona Leopoldina.
    Diversas oficinas serão desenvolvidas no Largo – a temática negra, religiosidade, educação e empreendedorismo – e rodas de conversas.
    A Décima Marcha Estadual Zumbi dos Palmares será na na sexta-feira, dia 18.
    Segundo a secretária adjunta do Povo Negro, Samanta Nunes, “o tema desta 26ª Semana da Consciência Negra é atualíssimo, foi escolhido pelo coletiva da comunidade e trata  do fortalecimento da Cultura Negra através da educação e do empreendorismo”.
    (Com informações da Prefeitura de Porto Alegre)

  • 2º Grande Ato Contra a PEC 241/55: Frente de Esquerda e a lição dada pelos Anarquistas

    Adriana Lameirão – Doutoranda em Ciência Política no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS.
    Há um consenso geral sobre o ato do dia 11 de novembro: foi lindo e emocionante! Portanto, não serei mais uma a falar mais do mesmo.
    Quero abordar outro aspecto que me emocionou muito e que me deu esperança de que é possível construir uma unidade na esquerda: a unidade dos anarquistas nesse ato.
    Os anarquistas participaram desse ato agrupados em um grande bloco anarquista.
    Mas, foi mais do que um simples agrupamento de todos os coletivos anarquistas. Foi uma unidade! Unidade, essa, fruto de uma construção que vem sendo realizada há alguns meses.
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    Essa construção teve como ponto de partida o entendimento comum a todos os coletivos de que era necessária essa unidade dos de baixo frente aos ataques do andar de cima (elite política e econômica). Unidade imprescindível para criar o ????? ???????, única força capaz de enfrentar esses ataques.
    A partir daí, ações e atividades construídas coletivamente começaram a ser realizadas. Mas não ficou só nisso: foram realizadas avaliações sobre os pontos positivos e negativos das atividades. Além disso, os problemas que surgiram foram expostos e resolvidos. Não foi uma tarefa fácil tampouco agradável, pois consumiu tempo e energia de várias pessoas. Mas, tratava-se de um desgaste necessário em prol da unidade.
    E essa unidade construída manifestou-se no bloco anarquista participante desse ato. Nesse bloco não havia o nosso coletivo e o coletivo deles; os(as) nossos(as) companheiros(as) e os(as) deles. Éramos todos um só: os anarquistas. E todos, da saída até a dispersão, cuidavam uns dos outros, independentemente de ser membro ou não do seu coletivo.
    Além disso, não era um grupo fechado em si mesmo. Nele também cabiam pessoas de outros grupos e movimentos com os quais companheiros(as) anarquistas desenvolvem algum trabalho de base ou profissional, como o movimento da população de rua, por exemplo.
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    Todos éramos um! E esse sentimento expressou-se fortemente quando a rampa do trensurb foi tomada por pessoas de diversos movimentos, tremulando suas bandeiras. Tão logo isso aconteceu, o bloco anarquista puxou o cântico “?????, ?????, ????? ???????”, a plenos pulmões.
    É isso! Somente a unidade dos de baixo pode criar o poder popular e derrubar o golpe, que é, antes de tudo, contra o povo.
    A lição dada é essa: enquanto parte da esquerda olha com preconceito para os anarquistas, inclusive usando adjetivações como black blocs ou vândalos para se referir a este grupo de esquerda, é, justamente, esse grupo que deu o primeiro passo para a unidade da esquerda e apontou caminhos de como ela pode ser alcançada.
    (Fotos de Thais Ratier/JÁ)

  • Vem aí mais uma boa safra de grãos. Quase a metade é soja

    A estimativa da safra 2016/17 de grãos varia de 210,9 milhões de toneladas a 215,1 milhões de toneladas, de acordo com o segundo levantamento da produção agrícola divulgado no dia 10/11 pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O crescimento poderá ser de até 15,6% em relação à safra anterior, de 186,1 milhões. Também há previsão de ampliação da área total plantada, que deve ficar entre 58,5 milhões de hectares e 59,7 milhões de hectares — crescimento de até 2,3% na comparação com a safra 2015/16.
    Nos últimos 10 anos, a área plantada cresceu em cerca de 10 milhões de hectares, com aumento de 20%, enquanto a produtividade aumentou entre 50% e 60%. “A elevação do rendimento no campo ocorre graças à competência do nosso produtor, ao clima, mas, principalmente, à incorporação de tecnologias, além do crédito em linhas de longo prazo”, disse Neri Geller, secretário executivo do Ministério da Agricultura.
    Das principais culturas, a soja segue na ponta, podendo atingir o recorde de 103,5 milhões de toneladas. O milho de primeira safra poderá alcançar entre 27,1 milhões de toneladas a 28,6 milhões de toneladas (o milho safrinha, plantado em fevereiro, já é predominante). Já o arroz, com a retomada de áreas não cultivadas, registra uma perspectiva de produção entre 11,5 milhões de toneladas e 12,1 milhões de toneladas, superior à safra passada entre 8,4% e 13,9%.
    Na colheita de trigo 2016, ainda em andamento, a produção deverá ser de 6,3 milhões de toneladas, ou seja, 14,5% superior à safra passada.
    (Com base em informações do Ministério da Agricultura)

  • ONU faz em Porto Alegre 1o simpósio internacional sobre saúde dos negros

    Neste 15 de novembro, dia da República, começa em Porto Alegre o 1º Simpósio Internacional de Saúde da População Negra. É uma ação da Década dos Afrodescendente, período estabelecido na ONU – 2015 a 2024 – para promover equidade social e racial.
    Serão três dias, com discussões no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e no Kilombo do SUS, estrutura montada entre o Espelho d’Água do Parque Farroupilha (Redenção) e a avenida Setembrina. Estão envolvidos na realização dos eventos o Ministério da Justiça e a Prefeitura.
    A abertura oficial do evento ocorre às 15h de terça-feira, 15, no Salão de Atos da UFRGS (confira a programação completa). Às 16 se forma a mesa magna, sob o mote Raça, Etnia e Inclusão Social – com Zakiya Carr, da Johnsons’ Affairs, e Fernanda Lopes, pelo Fundo da População Negra da ONU/UNFPA, e mediação do secretário municipal da Saúde, Fernando Ritter.
    Kilombo do SUS – Uma estrutura com palco, área de exposições e atividades culturais, praça de alimentação e estandes com informações e orientações de saúde da população negra compõe o Kilombo do SUS – assim, com K. Vai funcionar paralelamente ao 1º Simpósio Internacional de Saúde da População Negra, de 15 a 17 de novembro.
    Um dos serviços será o fornecimento do Cartão SUS à população, além de orientação a respeito da doença falciforme, que atinge especialmente pardos e negros.
    A doença falciforme é um termo utilizado para definir um grupo de alterações genéticas caracterizadas pelo predomínio da hemoglobina S (Hb S), que incluem a anemia falciforme, além de complicações que podem afetar quase todos os órgãos e sistemas, com expressiva morbidade, redução da capacidade de trabalho e da expectativa de vida.
    No Brasil, a doença é heterogenia na população, sendo mais prevalente em regiões com maior presença de afro-descendentes. No Sudeste do Brasil, a prevalência média de portadores é de 2%. No entanto, observa-se que esse valor sobe 6 a 10% entre os afro-descendentes. Estima-se a existência de mais de 7 milhões de portadores.
    Geração Poa
    Produtos diferentes e exclusivos, como cadernos e blocos de papel reciclado criados especialmente para o evento, além de colares, camisetas e bolsas confeccionados por integrantes do Geração Poa – Oficina Saúde e Trabalho, também estarão à venda no Kilombo do SUS.
    O grupo participou ainda da criação das sacolas que serão entregues aos participantes do simpósio, em conjunto com moradores de quilombos da Capital. Serviço da área de atenção psicossocial da SMS, o Geração Poa mantém oficinas de trabalho e geração de renda a usuários da rede de saúde mental, com ênfase em serigrafia, papel artesanal, confecção de velas e costura. O serviço propõe o acompanhamento em expressão e arte, servindo de referência para toda a cidade, a partir do encaminhamento das unidades de saúde. Informações e encomendas pelo fone 3321-1976 ou na página www.facebook.com/geracaopoa/.
    Dia 15, das 12h às 22h, dia 16, das 8h30 às 19h, e dia 17, das 8h30 às 18h

  • MST volta a ocupar área desativada da CEEE em Charqueadas

    Cerca de 500 pessoas ligadas ao MST ocupam, desde a madrugada desta segunda-feira (14), o Horto Florestal Carola, da Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica (CEEE), situado no município de Charqueadas, 54 quilômetros a oeste de Porto Alegre. Segundo os Sem Terra, a ocupação tem como objetivo pressionar para o cumprimento de Termo de Compromisso assinado, ainda em 2014, entre a CEEE e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
    O documento revela o interesse do Incra em comprar o horto, que tem 1.080 hectares, para assentar famílias acampadas no Estado. Para isto, a CEEE precisaria retirar a vegetação e tocos de árvores do local, como também embalagens cheias e com resíduos de arseniato de cobre cromatado, produto considerado tóxico utilizado na Usina de Preservação de Madeira, que deixou de funcionar no ano de 2013.
    O termo, de caráter “irretratável e irrevogável”, registra ainda o interesse da CEEE em se desfazer da área, uma vez que, conforme alegado pela própria companhia, não pretende mais utilizá-la para a sua atividade-fim – florestamento de árvores para a fabricação de postes. Atualmente, apenas funcionários de uma empresa de segurança estão no local. À época, a empresa e o Instituto tinham 60 dias para o cumprimento do compromisso, contudo, o prazo não foi respeitado.
    “O governo do Estado não criou nenhum assentamento nos últimos anos, sendo que há áreas, como esta, com características para isso. Queremos que o acordo entre a CEEE e o Incra seja cumprido, e que a área seja destinada à reforma agrária para podermos produzir nossos alimentos”, diz o acampado Laerte Lima, que lembra que esta é a terceira vez que o Movimento ocupa o imóvel desde 2014.
    A maioria dos Sem Terra que participa da ocupação é oriunda de acampamentos da Região Metropolitana. Famílias que estavam acampadas até o final do mês de outubro em outra área da CEEE, em Candiota, também estão na mobilização. Segundo os trabalhadores rurais, a área da companhia na região da Campanha também estava encaminhada para a reforma agrária quando ocorreu o despejo – as famílias estavam acampadas há quase 2 anos no local.
  • Defensoria Pública inaugura novo local em Porto Alegre

    A Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul inaugura na próxima quinta-feira, dia 17, às 11h, um novo local de atendimento em Porto Alegre, na rua Sete de Setembro, nº 745, Centro Histórico (ao lado do ProconRS).
    O espaço atenderá, exclusivamente, as áreas de Família e da Infância e Juventude. A Unidade Central de Atendimento e de Ajuizamento (UCAA), como é conhecida, além de atendimentos à população, também é responsável pela triagem e pelo direcionamento dos processos para os foros regionais da Capital.
    Os horários de funcionamento permanecem os mesmos: das 8h às 12h e das 13h30 às 17h30.
     
    O espaço de 539,90 m² possui 11 salas individuais para o atendimento com Defensores Públicos, sala de triagem com capacidade para 43 lugares e salas privativas para o acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica.
    As novas instalações oferecem acessibilidade completa, banheiros universais, balcões destinados às orientações gerais, além de uma sala reservada com 36 lugares para os assistidos com consultas já agendadas.
  • Manifestações nas ruas: silêncio na mídia, repressão policial

    Ainda aconteciam passeatas contra o governo Temer, na noite de sexta-feira (11), quando os telespectadores do Jornal Nacional foram informados que estudantes haviam feito manifestações – nos Estados Unidos, contra Trump, o antipolítico eleito na terça-feira presidente dos EUA.

    O JN sequer citou as numerosas manifestações em pelo menos 16 estados brasileiros, nem registrou as ocupações por estudantes secundaristas e universitários, declarações de apoio de professores e paralisações visando greve nas universidades federais e escolas de Ensino Médio no país. 

    No Rio Grande do Sul, não foi diferente. Desde cedo os jornais anunciavam: os policiais iriam endurecer se fosse necessário, por ordem do secretário de Segurança. Não faltaram notícias sobre os “bloqueios de ruas” e “dispersão pela BM para desobstruir as vias públicas”, atualizadas o dia todo, e entrevistas com motoristas irritados com a lentidão do trânsito opinando que “deveriam deixar quem quer trabalhar”.

    Técnicos em greve na UFRGS, UFCSPA e institutos federais na esquina da Osvaldo Aranha com Sarmento Leite, de manhã / Foto Divulgação
    Técnicos em greve na UFRGS, UFCSPA e institutos federais na esquina da Osvaldo Aranha com Sarmento Leite, de manhã / Foto Divulgação

    Pela manhã, um dos atos em Porto Alegre foi protagonizado por técnicos em greve da UFRGS, UFCSPA e IFRS, que trancaram temporariamente avenidas do centro em apoio às ocupações dos estudantes e contra a PEC 55. Os “trancaços” não são para atrapalhar o trânsito, mas para dar visibilidade ao movimento. São breves, e em vários pontos.

    Centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais de tendências políticas diferentes, com os estudantes e profissionais do meio acadêmico participando, fizeram protestos em diversos pontos de Porto Alegre. Foi o Dia Nacional de Greve e Manifestações contra a PEC dos Gastos. Reuniu manifestantes de ocupações de vários pontos da Região Metropolitana, ao todo foram mais de dez mil pessoas.

    Em comum, um fato: a repressão da polícia militar, que usou bombas de gás e spray de pimenta para desobstruir ruas e tirar manifestantes da via pública. Até dentro do campus central da Ufrgs, perto do prédio da Reitoria, foi jogada uma bomba de gás.

    Aos veículos de comunicação da Capital, o secretário da Segurança, Cesar Schirmer, confirmou a orientação dada à BM de agir com rigor. Ela foi posta em prática em frente a garagens de empresas de transporte público já antes do dia amanhecer.

    Em Porto Alegre, a manifestação conjunta – de estudantes dos Ocupa e de sindicatos – acabou com violenta repressão policial a partir das 21 horas, no bairro Cidade Baixa. Durante o dia, cinco intervenções contra os estudantes ocorreram no campus do Vale e no campus Central, durante o dia. A cada tentativa de bloqueio de rua feitas próximas a esses locais, soldados da Brigada Militar interviram provocando pânico, protestos e denúncias de violência. O Comando, no entanto, classificou essas intervenções como as mais adequadas por evitar contato entre manifestantes e brigadianos, além de não usar balas de borracha, como em ocasiões anteriores.

    Para o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Claudir Nespolo, a postura da Brigada Militar foi “exagerada, intempestiva e inconsequente”. A CUT saiu ao lado do Cpers/Sindicato e o Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do RS (Ugeirm-Sindicato), engrossando as manifestações contra a PEC com protestos contra o governo Sartori pelos parcelamentos dos salários do funcionalismo estadual e a falta de investimentos. Escolas da rede pública estadual não tiveram aulas, assim como nas delegacias e outros órgão de Segurança, não houve atendimento ao público.

    Já a Central de Trabalhadores do Brasil (CTB) organizou os protestos e os piquetes nas empresas de ônibus no início da manhã. A Brigada Militar concentrou suas tropas e impediu que manifestantes evitassem as saídas dos veículos nas empresas Carris, Nortran e Sudeste, que conduzem o maior número de passageiros.

    Fotos Thais Ratier/JÁ

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  • Documento desconstrói a PEC 241/55 e o discurso da austeridade

    Com lançamento marcado para quinta-feira, dia 17, em Porto Alegre, estudo faz análise das finanças públicas e da política fiscal no Brasil e põe abaixo simplificações e mitos, muitos dos quais baseados em argumentos econômicos supostamente técnicos que sustentam a austeridade.
    Com lançamento marcado para quinta-feira, 17 de novembro, no auditório da Afocefe – Sindicato dos Técnicos Tributários do RS, o documento ‘Austeridade e Retrocesso: Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil’ desconstrói a PEC 241 e o discurso da austeridade.
    Elaborado por iniciativa do Fórum 21, Fundação Friedrich Ebert, GT de Macro da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) e Plataforma Política Social apresenta uma análise aprofundada da questão fiscal, apontando seus problemas reais, denunciando os problemas fictícios e desmascarando os mitos que sustentam um discurso que se traveste como técnico, mas que atende a interesses políticos.
    A força desse discurso se materializa na proposição da PEC 241, a PEC da Maldade, que pretende instituir uma austeridade permanente no Brasil a partir de diagnósticos e argumentos equivocados e falaciosos. Na verdade, trata-se da imposição de outro projeto de país, incompatível com a Constituição de 1988 doc-austeridade_capa-520x400_siteoke com a expansão de bens públicos como saúde e educação.
    Leia, abaixo, o texto de apresentação. Leia a íntegra na Versão digital ou na versão PDF: Austeridade e Retrocesso
    Austeridade e Retrocesso: Finanças Públicas e Política Fiscal no Brasil
    Desde o final de 2014, o Brasil vem sendo submetido à retórica que propõe a austeridade como único caminho para recuperar a economia. Com o objetivo de melhorar as contas públicas e restaurar a competitividade da economia por meio de redução de salários e de gastos públicos, a austeridade se sustenta em argumentos controversos e até mesmo falaciosos. Entre os principais experimentos internacionais, vem predominando resultados contraproducentes, não resultando em crescimento, tampouco equilíbrio fiscal. O que sim é menos controverso é que tais experimentos têm como objetivo redesenhar o papel do Estado para atender interesses velados. No Brasil, o ajuste econômico ortodoxo, iniciado na gestão Levy, fracassou em retomar o crescimento e estabilizar a dívida pública, contribuindo para lançar o país no maior retrocesso econômico das últimas décadas.
    Não obstante, o ajuste ajudou a criar as condições necessárias para mudança da correlação de forças políticas e para impor ao país, passando ao largo do crivo das urnas, um outro projeto de sociedade. Nesse contexto, esse documento procede uma análise das finanças públicas e política fiscal no Brasil, procurando esclarecer as principais causas da atual crise fiscal, assim como desconstruir simplificações e mitos, muitos dos quais baseados em argumentos econômicos supostamente técnicos que sustentam a austeridade. O documento também é propositivo ao apontar alternativas fiscais para um projeto de país que valorize a democracia, a distribuição da renda e da riqueza e a expansão dos direitos sociais.
    Da agenda Fiesp ao austericídio
    A economia brasileira entrou em uma trajetória de desaceleração no quadriênio 2011-2014 depois do desempenho extraordinário durante 2007-2010. Há fatores que escapam à política econômica e explicam essa desaceleração, dentre eles a perda de dinamismo de um ciclo doméstico de consumo e de crédito ou os desdobramentos da crise internacional. Contudo, é importante apontar que a política fiscal praticada pelo governo contribuiu para essa trajetória de queda do crescimento.
    Enquanto no quadriênio 2007-2010 o espaço fiscal foi canalizado prioritariamente para investimentos públicos, no quadriênio 2011-2014 a taxa de investimento parou de crescer e, em compensação, o governo elevou significativamente os subsídios e desonerações ao setor privado. O governo fez uma aposta no setor privado e acreditou que promoveria o crescimento econômico via realinhamento de preços macroeconômicos e incentivos aos investimentos privados – a chamada agenda FIESP. Ironicamente, a FIESP passou de beneficiada das políticas de um governo para algoz do mesmo.
    Como resposta ao cenário de piora nos indicadores fiscais provocada pela queda no crescimento econômico e pelas desonerações, o segundo governo Dilma tem início adotando a estratégia econômica dos candidatos derrotados no pleito de 2014, ou seja, realizou um choque de preços administrados e um duro ajuste fiscal e monetário, na esperança de que o setor privado retomasse a confiança e voltasse a investir. Joaquim Levy foi o símbolo da implementação da austeridade econômica no Brasil que consiste em uma política deliberada de ajuste da economia por meio de redução de salários e gastos públicos para supostamente aumentar lucros das empresas e sua competitividade, assim como tentar estabilizar a trajetória da dívida, com resultados contraproducentes.
    O forte ajuste fiscal, em uma economia já fragilizada, agravou os problemas existentes e contribuiu para transformar uma desaceleração em uma depressão econômica. O ajuste fiscal promovido se mostrou contraproducente, pois gerou aumento da dívida pública e do déficit público.
    Em 2015, por exemplo, os investimentos públicos sofreram queda real de mais de 40% no nível federal, o gasto de custeio caiu 5,3%, e o governo não logrou a melhoria das expectativas dos agentes econômicos que justificaria esse ajuste com vistas a retomar o crescimento. Pelo contrário, a economia real só piorou e as expectativas se deterioraram, apesar de toda a austeridade fiscal manifestada e praticada. Naquele ano, apesar de todo o esforço do governo para reduzir as despesas, que caíram 2,9% em termos reais, as receitas despencaram e o déficit ficou ainda maior, evidenciando o caráter contraproducente do ajuste: o austericídio.
    A virada para a austeridade foi um remédio equivocado para os problemas pelos quais a economia brasileira passava. O tratamento de choque fundado em uma contração fiscal, um rápido ajuste na taxa de câmbio, um choque de preços administrados e um aumento de juros contribuiu para criar a maior crise econômica dos últimos tempos. Contudo, para determinados interesses políticos, o ajuste se mostrou funcional ao gerar desemprego, queda de salários reais e assim mudar a correlação de forças para favorecer a imposição de outro projeto de país, sem passar pelo crivo das urnas.
    O novo regime fiscal e a imposição de outro projeto de sociedade
    A gestão da política fiscal protagonizada pelo governo Temer lançou sinais contraditórios com relação à continuidade das políticas de austeridade. Para o curto prazo definiu-se o “keynesianismo fisioló-gico” e para o longo prazo, a “austeridade permanente”.
    O afrouxamento da meta fiscal para 2016 e 2017 evidencia por um lado o pragmatismo econômico e, por outro lado, hipocrisia dos que argumentam pela austeridade e, simultaneamente, passam a defender um déficit primário recorde no novo Governo.
    Como medida de longo prazo, o governo Temer propõe estabelecer um “Novo Regime Fiscal” por meio de uma proposta de emenda constitucional (PEC 241) que cria por 20 anos um teto para crescimento das despesas públicas vinculado à inflação. Enquanto a população e o PIB crescem, os gastos públicos ficam congelados.
    A proposta apoia-se em argumentos falsos de que nações desenvolvidas usam regras semelhantes. Desde 2011, membros da União Europeia estabeleceram um limite para o crescimento da despesa associado à taxa de crescimento de longo prazo do PIB e não em crescimento real nulo. Na maioria desses países já existe uma estrutura consolidada de prestação de serviços públicos, diferentemente do Brasil onde há muito maiores carências sociais e precariedades na infraestrutura.
    Segundo nossas estimativas, a regra implicaria reduzir a despesa primária do governo federal de cerca de 20% do PIB em 2016 para algo próximo de 16% do PIB até 2026 e de 12% em 2036.
    Adicionalmente, para que o teto global da despesa seja cumprido – dado que algumas despesas como os benefícios previdenciários tendem a crescer acima da inflação – os demais gastos (como Bolsa Família e investimentos em infraestrutura) precisarão encolher de 8% para 4% do PIB em 10 anos e para 3% em 20 anos, o que pode comprometer o funcionamento da máquina pública e o financiamento de atividades estatais básicas. Essa meta não parece ser realista.
    A nova regra não prevê nenhum mecanismo para lidar com crises econômicas ou outros choques. Ao contrário, tende a engessar a política fiscal por duas décadas.
    Na verdade, o que o novo regime se propõe a fazer é retirar da sociedade e do parlamento a prerrogativa de moldar o tamanho do orçamento público, que passará a ser definido por uma variável econômica (a taxa de inflação), e impor uma política permanente de redução relativa do gasto público.
    Em suma, trata-se da imposição de um projeto de país que dificilmente passaria no teste de um pleito eleitoral, única forma de garantir sua legitimidade.
    Quem ganha? Quem não quer financiar os serviços públicos por meio de impostos e o grande capital que enxerga o Estado como concorrente quando esse ocupa setores que poderiam ser alvo de lucros privados, como saúde e educação.
    Quem perde? A população mais pobre, isto é, aqueles que são os principais beneficiários dos serviços públicos. Além disso, aqueles que vislumbram uma sociedade mais justa e igualitária.
    O falacioso discurso da austeridade
    A austeridade é uma política deliberada de ajuste da economia por meio de redução de salários e gastos públicos supostamente com o objetivo de reduzir a dívida e aumentar lucros e a competitividade das empresas.
    A recomendação de que o Estado deve cortar gastos em momentos de crise parte de uma falácia de composição que desconsidera que se todos os agentes cortarem gastos ao mesmo tempo, inclusive o Estado, não há caminho possível para o crescimento. A solução mais razoável para tratar de um desajuste fiscal em meio a uma recessão é, portanto, estimular o crescimento, não cortar gastos.
    No círculo vicioso da austeridade, cortes do gasto público induzem a redução do crescimento que provoca novas quedas da arrecadação que, por sua vez, exige novos cortes de gasto. Esse círculo vicioso só pode ser interrompido por decisões deliberadas do governo, a menos que haja ampliação das exportações líquidas em nível suficiente para compensar a retração da demanda interna, pública e privada. Esta exceção é pouco provável diante de uma crise internacional como a que o mundo enfrenta nesta década, com lenta recuperação da demanda e maior competição pelos mercados.
    A obsessão alarmista contra qualquer elevação da dívida pública esconde uma agenda política permeada por interesses de grupos econômicos, mas travestida como uma questão meramente técnica, seja ao defender a retração de bancos públicos, seja ao demandar a redução dos gastos sociais.
    No fundo, a austeridade é principalmente um problema político de distribuição de renda e não um problema de contabilidade fiscal. Os efeitos da austeridade afetam de forma distinta os diferentes agentes econômicos e classes sociais de forma que os mais vulneráveis, que fazem mais uso dos serviços sociais, são mais afetados.
    Apesar das inúmeras evidências contrárias à sua eficácia, a austeridade persiste como ideologia e sempre retorna ao debate político por ser oportuna para os grupos dominantes de poder.
    A insensatez do superávit primário
    O regime fiscal brasileiro é extremamente pró-cíclico, ou seja, acentua as fases de crescimento e de recessão. Assim, em contextos de baixo crescimento, a busca pelo cumprimento da meta fiscal por meio de uma política fiscal contracionista retira estímulos à demanda agregada e reduz ainda mais o crescimento econômico e a própria arrecadação.
    Um segundo fator a se sublinhar sobre o regime fiscal brasileiro é sua natureza “anti-investimento”, porque, diante de uma estrutura de gastos públicos rígida, os cortes de despesa recaem primordialmente sobre o investimento público, um dos poucos gastos passíveis de contingenciamento. O mesmo regime impõe uma lógica curto-prazista à gestão da política fiscal e subordina o planejamento governamental.
    Na ditadura do superávit primário, os fins são atropelados pelos meios, e tudo se submete à necessidade de cumprir a meta de curto prazo, inclusive o próprio crescimento, o emprego e o bem estar da população. Portanto, um novo modelo de gestão fiscal precisa ser constituído, de caráter anticíclico, que viabilize o planejamento e que priorize o investimento público.
    Há diversas variantes institucionais para um regime fiscal, dentre essas estão as que estipulam metas fiscais ajustadas ao ciclo econômico, como a meta de “resultado fiscal estrutural”. Ou alternativamente, pode-se adotar bandas fiscais de forma análoga ao que ocorre no regime de metas de inflação. Ainda há a opção, aplicada em alguns países, de retirar todo investimento público do cálculo do superávit primário (assim como o gasto com juros é excluído desse indicador) e assim incentivar o uso do investimento público como vetor de desenvolvimento e abrir espaço para atuação anticíclica do gasto público.
    Desmistificando a dívida pública
    A dívida brasileira é tão grande? Qual é o parâmetro para definição de “grande”? Na verdade, poucos economistas se arriscam a definir um parâmetro ótimo para dívida pública, simplesmente porque as evidências não parecem indicar que esse patamar exista. Não há um número mágico a partir do qual a relação dívida pública/PIB torna-se problemática. Isso vai depender das especificidades de cada país.
    No Brasil, a excessiva preocupação com o patamar da dívida é carregada por preconceitos ideológicos e por uma visão estreita sobre a relação entre Estado, moeda estatal e dívida pública. Uma dívida elevada pode custar muito caro, mas um Estado soberano não quebra por conta de dívidas na sua própria moeda. Por isso, a natureza da dívida pública se diferencia substancialmente da gestão de dívidas privada e o governo não incorre nas mesmas restrições para gasto e endividamento. O paralelo com a economia da dona de casa não serve para as finanças públicas.
    Entre 2003 e 2013 a redução da relação dívida líquida/PIB foi expressiva, de 54,3% para 30,6%, muito embora as taxas de juros continuassem pesando no orçamento público.
    A dívida externa pública, por sua vez, caiu e, a partir de 2006 o país passou a realizar uma política de acumulação de reservas cambiais, tornando-se credor externo líquido. Por conta disso, quando em 2008 a crise mundial determinou forte depreciação da moeda brasileira, a acumulação de reservas cambiais propiciou significativos ganhos patrimoniais para o Estado brasileiro.
    No final de 2014, pelo critério da dívida líquida não havia um cenário de tragédia fiscal, desenhado pelos economistas da mídia e do mercado. Havia sim, condições financeiras para realizar uma política anticíclica que ampliasse o investimento público e o gasto social para impedir que a desaceleração cíclica se transformasse em uma depressão. À época, a necessária e esperada desvalorização cambial apenas contribuiria para reduzir o patamar da dívida líquida, ampliando o espaço fiscal para políticas de estímulo ao crescimento.
    Apesar da redução substancial da dívida líquida, na última década a dívida bruta manteve-se relativamente estabilizada e passou a crescer a partir de 2013. Diferentemente do senso-comum, essa dinâmica da dívida bruta não é explicada pela “gastança do governo” ou o resultado primário, mas principalmente pela acumulação de ativos por parte do Estado como a acumulação de reservas cambiais e de créditos junto ao BNDES.
    Essa estratégia possui méritos como, por exemplo, a redução da vulnerabilidade externa do setor público. Da mesma forma a política de expansão dos empréstimos do BNDES, em 2009, foi importante para a ação contracíclica que assegurou a recuperação rápida da economia brasileira na maior crise da história do capitalismo mundial desde a década de 1930. No entanto, não devemos negligenciar seus elevados custos.
    A estratégia de acumulação simultânea de ativos e passivos, com grande diferencial de rentabilidade entre eles, explica boa parte da elevada conta de juros. Em 2015, domando-se os custos de oportunidade da manutenção das reservas internacionais e dos créditos ao BNDES com o resultado das operações de swaps cambiais, chegamos a 4,9% do PIB.
    Em suma, se o objetivo for equacionar a dívida bruta é preciso desatar o nó da gestão macroeconômica, reduzir substancialmente o gasto com juros e ponderar o custo da estratégia de acumulação de ativos. A ideia que se disseminou no Brasil de que ao governo só compete controlar os gastos primários, desconsiderando os custos e benefícios fiscais das demais políticas macroeconômicas, deve ser revista e amplamente debatida.
    Mito da gastança federal
    O diagnóstico convencional da crise pela qual passa o país se traduz simplificadamente na seguinte narrativa: os governos do PT expandiram demais os gastos públicos, encobriram o déficit público crescente por meio da chamada “contabilidade criativa” e das “pedaladas fiscais” e esse tipo de política fiscal expansionista e nada transparente destruiu a confiança do mercado e mergulhou o paísna estagflação.
    Contudo, a análise dos dados mostra que, de fato, a despesa do governo vem crescendo a um ritmo elevado e estável há tempos. As taxas médias de crescimento real do gasto do governo federal dos últimos quatro governos foram: FHC II (3,9%), Lula I (5,2%), Lula II (5,5%) e Dilma I (3,8%).
    O principal fator por detrás do crescimento das despesas na esfera federal não são os gastos com pessoal, como muitos acusam. Estes crescem sistematicamente abaixo do PIB e tiveram sua menor taxa de expansão real justamente no governo Dilma I (-0,3%), ao contrário do que ocorre, por exemplo, nos estados e municípios, onde o gasto com salários e aposentadorias de servidores tem crescido a 5,5% ao ano, independentemente da coloração partidária do governante.
    O motor do gasto federal tem sido os benefícios sociais (aposentadorias e pensões do INSS, benefícios a idosos e deficientes, seguro-desemprego, bolsa família, etc), que hoje consomem metade do gasto da União (mais de R$ 500 bilhões em 2015) e crescem a taxas sistematicamente superiores ao PIB pelo menos desde 1999, por influência principal de fatores demográficos, da justa formalização e dos direitos consagrados na Constituição e, adicionalmente, pela política de valorização do salário mínimo.
    Porém, uma visão mais acurada dos gastos sociais mostra que tampouco nesta área houve expansão desenfreada, sobretudo frente às demandas sociais brasileiras, e que a política de valorização do salário mínimo contribuiu para este cenário, mas com impactos sobre a redução da desigualdade relevantes. Certamente é possível discutir excessos e tornar o gasto mais eficiente, mas as possibilidades de fontes de financiamento discutidas neste documento evidenciam que este é um debate que deve envolver toda a sociedade brasileira.
    Vale notar que, a despeito de gastos elevados, o governo conseguiu manter resultados fiscais positivos na última década e meia pelo aumento da carga tributária (1999-2005) ou pelo crescimento mais acelerado do PIB (2006-2011). Nos governos Lula, enquanto o país crescia, não havia desajuste fiscal apesar do crescimento do gasto público. Mas a partir de 2012, com a queda do crescimento econômico e com as desonerações tributárias, houve uma piora dos resultados fiscais.
    Reforma tributária, já!
    A estrutura tributária brasileira é extremamente perversa com os mais pobres e a classe média e benevolente com os mais ricos. Esse sistema singular é reflexo tanto do federalismo brasileiro e da dualidade tributária (impostos e contribuições sobrepostos), quanto de algumas recomendações de política que o mainstream econômico propagou nas décadas de 80 e 90 e que foram incorporadas de forma bastante acrítica ou peculiar pelo Brasil.
    A agenda de reformas da tributação sobre a renda e o patrimônio, que envolve um forte conflito distributivo, permaneceu totalmente embargada nos últimos 20 anos, não tendo o governo federal apresentado qualquer proposta de reforma mais substancial que visasse ampliar a progressividade ou mesmo corrigir as graves distorções ensejadas pela atual legislação.
    O Brasil foi um dos primeiros países e até hoje um dos poucos que isentou e continua isentando de imposto de renda os dividendos distribuídos a acionistas, tal como a pequena Estônia.
    De acordo com os dados das declarações de imposto de renda, as 70 mil pessoas mais ricas do Brasil, representando meio milésimo da população adulta, concentram 8,2% do total da renda das famílias, índice este que não encontra paralelo entre as economias que dispõem de informações semelhantes. Esse mesmo seleto grupo pagou apenas 6,7% de imposto de renda sobre esse montante.
    Além de injusta, essa assimetria entre o tratamento tributário dispensado a dividendos e salários tem sido responsável por um fenômeno conhecido por “pejotização”, que é a constituição de empresas por profissionais liberais, artistas e atletas com o objetivo de pagar menos impostos do que como autônomos ou assalariados.
    Nesse contexto, a proposta de se aumentar alíquotas do imposto de renda das pessoas físicas sem revogar a isenção de dividendos não proporciona uma redistribuição de renda tão efetiva uma vez que as alíquotas progressivas da tabela do Imposto de Renda (IRPF) só atingem os “rendimentos tributáveis”, o que não inclui atualmente a distribuição de lucros e dividendos que são as principais fontes de renda dos mais ricos. Então, qualquer proposta de reforma do imposto de renda que não passe pela tributação dos dividendos não será tão efetiva nos objetivos de contribuir com uma maior justiça fiscal e também gerar receitas extras para o governo.
    Na atual conjuntura de crise, é pouco razoável crer na possibilidade de um equilíbrio fiscal com baixo crescimento. Isso implica que, no curto prazo, deveríamos no mínimo assegurar espaço fiscal para o investimento público e para gastos sociais de elevado impacto sobre o bem-estar das camadas mais vulneráveis da população.
    Uma reforma tributária, que combine eficiência e equidade poderia atuar incentivando o crescimento econômico de longo prazo ao reduzir a tributação do lucro e da produção das empresas, ao mesmo tempo em que concentra o ajuste fiscal de curto prazo sobre uma pequena parcela da poupança dos mais ricos, não diretamente relacionada ao investimento, e, por conseguinte, vinculada a um maior nível de emprego e produto. Assim, ganha-se tempo para aprimorar outras propostas de reformas estruturais das despesas, debatê-las com a sociedade e pactuá-las democraticamente.
    Artigo adaptado do Brasil Debate.