Autor: da Redação

  • As eleições do desencanto com a política e da ilusão com os “não políticos”

    Benedito Tadeu César
    Cientista político e professor da UFRGS
    Diferentemente do que noticiou a grande imprensa corporativa e do que tentam nos fazer crer alguns analistas oficiais, o resultado do 1º Turno das eleições municipais de 2016 não representou a vitória das forças políticas que depuseram Dilma Rousseff e que se dedicaram ao aniquilamento do PT e de seu projeto de governo e de país.
    O resultado expressou, em primeiro lugar, o desencanto com as instituições políticas e, ainda, o crescimento de candidaturas apresentadas como “antipolíticas” ou “novas” na política.
    O somatório das abstenções (não comparecimento), dos votos brancos e dos nulos, que em ciência política é denominado de alienação eleitoral (com o significado de que o eleitor abre mão de sua capacidade de interferir no resultado do processo eleitoral) registrou, em 2016, um aumento expressivo frente às eleições anteriores.
    Tomando-se os exemplos das capitais dos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul, verifica-se, de acordo com os dados do TSE, que a alienação eleitoral praticamente dobrou durante o período das cinco eleições municipais realizadas de 2000 até 2016.
    Como se pode verificar nos gráficos e tabelas abaixo, a alienação eleitoral para a Prefeitura de São Paulo saltou de 22,60% em 2000 para 34,70% em 2016, enquanto praticamente dobrou em Porto Alegre em igual período, passando de 19,04% em 2000 para 38,40% em 2016.
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    Os gráficos e as tabelas acima e abaixo permitem observar que, se ocorreu um salto brusco do crescimento da alienação eleitoral na eleição do corrente ano nas duas capitais em questão, este salto foi mais intenso em Porto Alegre. Nesta capital, além disso, os votos nulos praticamente dobraram entre 2012 e 2016, saindo de 4,82% para atingir 8,88%. Fenômeno similar foi observado também com relação à votação para a Câmara Municipal, mas que não será aqui analisado.
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    O crescimento significativo da alienação eleitoral ocorreu em todo o país. A análise dos resultados eleitorais de 2016, realizada a partir dos dados fornecidos pelo TSE, permite constatar que, em 11 das 26 capitais onde foram realizadas eleições municipais neste ano, a alienação eleitoral foi superior à votação do candidato mais votado no 1º turno. O caso de São Paulo é emblemático, pois o candidato eleito já no 1º turno obteve votação inferior à alienação eleitoral.
    Mais grave do que este fato, em três capitais, a saber, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a alienação eleitoral superou o somatório dos votos conferidos aos dois primeiros colocados, ou seja, o total de “não voto” foi superior aos votos totais obtidos pelos dois candidatos mais votados e que disputarão o 2º turno, como se pode constatar no quadro abaixo.
    Cumpre alertar que, neste quadro, os percentuais de votos dos candidatos apresentados diferem daqueles fornecidos pelo TSE, uma vez que o TSE calcula os percentuais eleitorais tomando por base apenas os votos válidos, ou seja, excluindo as abstenções e os votos nulos e brancos, enquanto os dados apresentados no quadro foram calculados sobre o total do eleitorado apto a votar, única maneira de se trabalhar com a mesma base numérica para o cálculo da alienação eleitoral e dos votos em cada candidato.
    Alienação eleitoral e votação dos candidatos melhor colocados nas capitais no 1º turno em 2016

    CapitalAlienação Eleitoral1º candidato mais votado no 1º Turno2º candidato mais votado no 1º turnoTotal dos dois candidatos mais votados no 1º turno
    Porto Alegre38,40%19,45%16,90%36,35%
    Florianópolis22,86%31,70%19,25%50,95%
    Curitiba30,22%27,66%17,04%44,71%
    São Paulo38,48%34,72%10,88%45,60%
    Rio de Janeiro42,54%17,19%11,30%28,49%
    Vitória21,44%34,93%28,16%63,08%
    Belo Horizonte43,14%20,54%16,33%36,88%
    Campo Grande30,35%24,82%19,11%43,93%
    Goiânia30,48%28,95%22,77%51,72%
    Cuiabá33,55%23,62%19,64%43,26%
    Salvador34,72%50,42%9,91%60,33%
    Aracajú38,94%25,13%24,69%49,82%
    Maceió29,56%33,99%17,94%51,93%
    Recife23,32%38,51%18,54%57,05%
    João Pessoa25,27%45,54%25,59%71,13%
    Natal36,78%42,23%8,90%51,13%
    Fortaleza25,42%37,70%23,68%61,37%
    Teresina20,09%41,37%32,17%73,53%
    São Luís21,48%36,34%16,98%53,32%
    Palmas25,51%39,82%23,90%63,72%
    Belém26,98%23,12%21,98%45,10%
    Macapá24,50%34,26%20,26%54,52%
    Boa Vista26,71%59,51%7,06%66,57%
    Manaus18,40%28,99%20,50%49,49%
    Porto Velho36,78%18,11%17,40%35,51%
    Rio Branco22,16%43,25%25,24%68,48%

    Como se pode observar, não se tratam de resultados eleitorais que legitimem fortemente os eleitos e/ou os candidatos que chegaram ao 2º turno e, muito menos, que impliquem ampla aprovação popular e eleitoral aos projetos de governo que eles representam.
    A análise da geografia eleitoral nas capitais brasileiras, isto é, da distribuição espacial dos votos segundo as zonas eleitorais e os bairros, evidencia que foram nas regiões com eleitores de mais baixa renda onde se observou as maiores incidências de alienação eleitoral, ou seja, de “não votos”. Estas áreas, normalmente localizadas nas periferias das grandes cidades e capitais, são áreas onde o PT detinha a preferência da maioria do eleitorado.
    O caso de São Paulo é, novamente, emblemático, uma vez que não apenas o candidato petista perdeu grande parte do eleitorado das regiões de menor poder aquisitivo e que havia votado nele em 2012, como foi também nessas regiões onde ocorreu o maior percentual de alienação eleitoral ou de “não votos”.
    É expressivo, além disso, o fato de Porto Alegre e Belo Horizonte terem sido administradas pelo PT durante longos anos e serem duas das três capitais onde a alienação eleitoral suplantou o somatório dos votos obtidos pelos dois candidatos que chegaram ao 2º turno, conforme referido acima.
    O desencanto com o PT e, mais do que isto, o desencanto com a política de modo geral, provocou o crescimento do “não voto” e fez com que candidatos “alternativos”, que se apresentaram como “novidade” e/ou como “não políticos”, obtivessem a maioria dos votos válidos. Maioria obtida em grande parte das capitais apenas porque parcela expressiva do eleitorado (média de 29,54% e mediana de 28,27%) se alienou do processo, deixando de votar em qualquer dos candidatos concorrentes.
    Em relação aos candidatos “alternativos” vencedores no 1º turno ou levados ao 2º turno eleitoral nas capitais analisadas, vejam-se os exemplos da vitória de João Dória Jr, em São Paulo, um empresário que se apresenta como “não político”, e a ida ao 2º turno de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, senador e antes de tudo pastor evangélico, e, ainda, de Nelson Marchezan Jr., em Porto Alegre, deputado federal, filho do líder do governo Figueiredo (o último da ditadura civil-militar de 1964/85) e apoiado pelas forças políticas tradicionais mais conservadoras no estado, o qual  se apresenta como um “novo político”.
    Se o PT foi o partido que mais perdeu postos e eleitores nestas eleições e o PSDB o que obteve o maior crescimento percentual, enquanto o PMDB manteve-se ainda como o partido detentor do maior número de Prefeituras e o segundo em eleitorado, isto se deveu muito mais ao desencanto do eleitorado com a política, em geral, e com o PT em particular, do que ao encantamento com as propostas e/ou os candidatos peessedebistas e/ou peemedebistas.
    Considerando-se os resultados eleitorais nacionais registrados em 2012 e em 2016, verifica-se que o PT perdeu 60,1% do eleitorado total que havia conquistado na eleição municipal anterior e passou da primeira para a quinta posição nestas eleições, enquanto o PSDB teve um crescimento eleitoral total de 25,1% e passou a ocupar a primeira posição.
    O bom desempenho eleitoral do PSDB pode ser atribuído ao fato de ele ser o partido que tradicionalmente polarizou com o PT, caracterizando-se como o seu antípoda ideológico, e, talvez, principalmente pelo fato de as denúncias envolvendo muitas de suas principais lideranças não terem sido investigadas judicial e criminalmente e nem terem sido exploradas pela grande imprensa, como ocorreu principalmente com o PT e suas lideranças e, secundariamente, com o PMDB.
    Tão significativo quanto a diminuição eleitoral do PT e o crescimento do PSDB, foi o decréscimo registrado na votação nacional de boa parte dos partidos tradicionais, aqui considerados como os partidos com presença histórica nas disputas eleitorais e/ou que já haviam obtido resultados eleitorais expressivos em eleições municipais anteriores. Neste grupo de partidos, apenas o PDT, o PPS e o DEM cresceram eleitoralmente e, mesmo assim, o fizeram de modo débil: o primeiro cresceu 2%, o segundo 4,4% e o último 6,3%.
    Todos os demais partidos aqui considerados como tradicionais, incluindo-se neste grupo também os partidos de esquerda, exceto o PT e o PPL (que cresceu 8,2%, mas que passou de apenas 146.686 para 158.650 votos), sofreram uma diminuição eleitoral total de 27% frente aos votos que haviam conquistado em 2012. Entre estes partidos, o campeão de perdas foi o PMDB, que teve uma redução de 12,5% em seu eleitorado, o que representa quase a metade do decréscimo eleitoral deste conjunto de partidos.
    Votação por partido em 2012 e 2016

    Partido20122016Diferença
    PSDB14.074.12117.612.60625,1%
    PMDB17.007.75514.877.621-12,5%
    PSB8.760.5468.304.485-5,2%
    PSD6.064.4648.005.87832,0%
    PT17.448.8016.822.964-60,9%
    PDT6.265.1986.388.8982,0%
    PP5.675.4055.667.418-0,1%
    DEM4.596.1124.886.8176,3%
    PR3.818.3744.388.09514,9%
    PRB2.615.5533.882.49448,4%
    PTB4.102.4703.555.638-13,3%
    PPS2.509.9082.621.5414,4%
    PSOL2.400.8922.097.623-12,6%
    PC do B1.882.5261.767.051-6,1%
    PSC1.695.6431.761.6883,9%
    PV2.165.0781.691.752-21,9%
    SD1.469.099
    REDE995.447
    PHS319.572945.782196,0%
    PMM570.684797.44939,7%
    PTN354.028697.62797,1%
    PROS689.958
    PSL324.604487.59250,2%
    PMB288.893
    PEN286.493
    PRP385.586280.645-27,2%
    PTC412.783268.155-35,0%
    PT do B301.338267.680-11,2%
    PSDC240.480211.648-12,0%
    PRTB328.750162.215-50,7%
    PPL146.686158.6508,2%
    PSTU178.60777.952-56,4%
    NOVO38.512
    PCB46.10724.501-46,9%
    Fonte: G1, com base em dados do TSE

    Na verdade, os grandes vencedores do 1º turno das eleições municipais deste ano, considerando-se os resultados obtidos nacionalmente, foram os partidos de orientação religiosa ou de defesa de interesses clientelísticos. O PR obteve um crescimento eleitoral de 14,9%, o PSD de 32%, o PRB de 48,4%, o PSL de 50,2%, o PTN de 97,1% e o PHS de 196%.
    Somados, os votos obtidos pelo PR, PMM, PRB, PSL, PTN e PHS representam 19.204.917 eleitores, o equivalente a 13% dos votos válidos consignados em todo o país. Isto faz com que o eleitorado deste conjunto de partidos se torne numericamente mais expressivo do que o do PMDB ou do PSDB tomados isoladamente, já que o primeiro obteve 14.877.621 ou 10% dos votos válidos e o segundo 17.612.606 ou 12% desses votos nacionalmente.
    A tendência é, portanto, o aumento do poder de pressão e de chantagem política desse conjunto de partidos e, a se repetir o mesmo fenômeno nas eleições nacionais de 2018, o revigoramento do chamado “presidencialismo de coalizão” brasileiro, reforçado em suas práticas de barganha.
    Afastado dos partidos e dos candidatos que anteriormente mereciam a sua preferência, o eleitorado se dividiu. Cerca de 1/3 dos eleitores das capitais decidiu-se pela alienação eleitoral, abdicando de seu direito de interferir no resultado eleitoral, enquanto cerca de 1/4 do total dos eleitores do país decidiu votar em partidos alternativos, ou seja, em partidos que não tinham obtido expressão nas eleições anteriores.
    Verifica-se, deste modo, que uma parcela importante do eleitorado total do país não votou nos candidatos e/ou os partidos que tiveram maior responsabilidade nos governos anteriores ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, nem votou nos candidatos e/ou partidos que interferiram diretamente na sua derrubada e que dão sustentação política ao atual governo federal.
    Assim, mais do que uma eleição que legitime os atuais governantes em nível federal e que autorize seu projeto de governo, o 1º turno das eleições municipais de 2016 revela a existência de um eleitorado à deriva, a ser disputado pelos diferentes partidos, e que está sendo ganho, até aqui, em grande parte, pelos partidos que defendem não projetos políticos para o país,  mas interesses de parcelas restritas da sociedade e que, por este motivo, encontram-se, quase sempre, distantes dos interesses públicos.
    Fica claro, além disso, que todo o esforço para a desconstrução do PT e de seus políticos não foi suficiente para liquidá-los. Não obstante a perda significativa de seu eleitorado e do número de Prefeituras sob o seu comando, o PT manteve-se entre os maiores partidos nacionais, como o 5º maior partido brasileiro em termos eleitorais, o que lhe reserva, ainda, um grande potencial de crescimento.
    Nas eleições municipais de 2016, foram a criminalização da política e o desencanto do eleitorado, na verdade, os grandes vencedores do 1º turno. Um resultado altamente preocupante, porque contribui para que lideranças oportunistas possam se apossar do poder de Estado e se manter nele por meio de ações ilegítimas, ainda que travestidas pelos ritos legais.

  • Assim acabam elegendo Lula

    P.C. DE LESTER
    Elio Gaspari escreveu  n`O Globo que “assim acabam absolvendo o Lula”.
    (globo.com/opinião/assim acabam absolvendo lula. com)
    Refere-se aos últimos vazamentos incriminando o ex-presidente, que beiram o ridículo.
    Um deles foi a pré-delação de Emílio Odebrecht (estão  vazando até “pré-delação”!) que teria dito à Federal que o estádio do Corinthians, o Itaquerão, foi presente da empreiteira ao Lula.
    O outro, uma planilha de propinas em que o termo “amigo” foi atribuído ao ex-presidente, por simples dedução.
    Essa do Itaquerão, um “furo” da Folha de São Paulo, foi cômica.
    Manchete da Folha, na segunda feira, foi reproduzida em todos os portais dos jornalões.
    Ao meio dia, depois que o presidente do Corinthians divulgou uma nota jocosa, caiu a ficha e todos tiraram do ar a “manchete”.
    O “Itaquerão”, informou o presidente do Corinthias, custou quase um bilhão ao clube, que paga religiosamente as prestações mensais de 900 mil. Lula nunca foi sequer assistir a um jogo no estádio.
    Só a Folha sustentou o ridículo até o fim da tarde. No dia seguinte, deu lugar à tal planílha, em que o “amigo” é identificado com Lula.
    Gaspari, por astúcia não disse, mas assim eles acabam é elegendo o Lula em 2018.
     

  • Rebaixamento da avenida João Goulart pode voltar ao projeto do Cais Mauá

    Naira Hofmeister
    O rebaixamento da avenida João Goulart, previsto na proposta original de revitalização do Cais Mauá e posteriormente retirado pela Prefeitura do rol de contrapartidas, pode voltar a fazer parte do projeto. É o que indicam os conselheiros do Plano Diretor de Porto Alegre, que analisam o Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) da iniciativa, uma das últimas etapas antes da emissão de licenças para obras no local.
    “É quase um consenso de que o rebaixamento deve ser incluído”, revela o representante da Região 1 do Planejamento (RP1), Daniel Nichele, que coordena a análise conjunta do projeto, que já obteve parecer favorável do representante do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado (Sinduscon-RS).
    Segundo Nichele, não há, em todo o processo administrativo que registra a evolução e mudanças na proposta ao longo dos mais de cinco anos em que tramita na Prefeitura Municipal uma justificativa razoável das razões de sua exclusão. “Já pedimos esse esclarecimento à Prefeitura”, completa o conselheiro.
    Apesar das inúmeras polêmicas que cercam o projeto, a preocupação central dos conselheiros é com a mobilidade urbana e, neste aspecto, o mergulhão da João Goulart serviria como um ponto a favor. “O empreendedor está prevendo quatro novos semáforos na Mauá e ainda faixas redutoras de velocidade”, justifica Nichele.
    Aliado ao volume extra de automóveis que a revitalização vai atrair para a região, os conselheiros temem que a intervenção prejudique o trânsito no Centro Histórico. “Alguns conselheiros de mais idade também lembraram da importância de se ter acesso direto ao Guaíba, caminhando”, complementa.
    Neste sentido, o mergulhão também seria uma solução interessante, na opinião de Nichele, pois permitiria o acesso livre, de nível, a pedestres, sem influir no fluxo de automóveis.
    Prefeitura barrou iniciativa
    A proposta de rebaixar a avenida João Goulart no trecho entre as praças Brigadeiro Sampaio e Julio Mesquita e a Usina do Gasômetro estava contida nos primeiros desenhos que foram apresentados à população, em 2008, pelo Governo do Estado – antes mesmo da licitação para a concessão da área à iniciativa privada, que ocorreu em 2010.
    Era o conteúdo da proposta vencedora da concorrência pela Manifestação de Interesse na obra do cais, que incluía, entre outras exigências, um estudo inicial sobre como ficaria o espaço. Os esboços foram feitos em parceria pelos arquitetos Jaime Lerner, bastante conhecido no Brasil, e Fermín Vázquez, um catalão.
    A ideia era não apenas rebaixar a João Goulart, mas enterrar o shopping center que ocupará uma área ao lado da Usina do Gasômetro. Do telhado do imóvel desceria uma esplanada verde que passaria sobre a via subterrânea e se integraria às praças de fronte ao Gasômetro, formando uma espécie de parque.
    Primeiro foi o empreendedor que desistiu da fórmula para o shopping, alegando custo muito elevado. Depois, a própria Prefeitura Municipal liberou o consórcio vencedor da licitação de realizar o mergulhão. “O rebaixamento não foi retirado do projeto por nós. Foi decisão da Prefeitura, em razão de uma série de intervenções que serão feitas na avenida”, esclareceu o diretor de Operações da Cais Mauá do Brasil, Sérgio Lima, durante apresentação do projeto aos conselheiros, no dia 11 de outubro.

    Maquete virtual simula como seria a passarela com o "tapete verde" / Divulgação
    Maquete virtual simula como seria a passarela com o “tapete verde” / Divulgação

     
     
     
    Durante as audiências públicas realizadas em 2015 e neste ano, a retirada da obra do rol de contrapartidas foi muito criticada por movimentos cidadãos. Especialmente porque o consórcio manteve na lista o prolongamento da rua Ramiro Barcelos, que terá um trecho subterrâneo, sob a Avenida da Legalidade. Essa intervenção é a mais cara entre todas as compensações que o empreendedor dará à cidade (R$ 24,3 milhões em valores de 2015), mas beneficiará diretamente o consórcio, uma vez que será por esta via, rebaixada que entrarão os veículos na área das docas do Cais Mauá, onde serão erguidas três torres com hotel e escritórios.
    Diante dos protestos, o consórcio retomou a ideia do telhado verde no shopping e ofereceu uma passarela para pedestres que ligaria a praça à cobertura do centro comercial. A passarela, entretanto, foi considerada inadequada para a área pelos órgãos do patrimônio histórico, que barrou a iniciativa. Movimentos ambientalistas também contestavam a solução, que exigia o corte de mais de uma dezena de árvores na praça Brigadeiro Sampaio.
    A Secretaria de Urbanismo idealizou então um acesso de nível com sinalização especial e piso diferenciado, para dar a ideia de que é uma continuidade da Rua da Praia.
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    Um terraço no shopping desobstruiria a vista de quem estiver na Usina do Gasômetro / Divulgação

    O empreendedor acatou a saída e ainda acrescentou uma novidade ao projeto: decidiu abrir um grande terraço no segundo pavimento do shopping center, uma área de 3 mil m², para desobstruir a vista da Usina do Gasômetro e ampliar o contato com o Guaíba.
    Ainda assim, a altura do shopping (14 metros) é superior à do cume dos armazéns, que medem 10 metros nos vértices do telhado. Não haverá subsolo, nem para estacionamento, que será distribuído no miolo do edifício no andar térreo – a parte exterior do edifício abrigará lojas

  • Nota de repúdio à intolerância e violência nas eleições de Porto Alegre

    O Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito vem a público manifestar seu veemente repúdio ao clima de intolerância e violência verificado neste período de eleições para a Prefeitura de Porto Alegre.
    No dia 17 de outubro, Plínio Zalewski, coordenador do programa da campanha do candidato Sebastião Melo, do PMDB, foi encontrado morto. Sem que tenha sido elucidada até o momento a causa de sua morte, manifestações públicas de pessoas que com ele conviveram registram o alto grau de tensão em que se encontrava o coordenador.
    Segundo estas manifestações, Plínio Zalewski viveu um clima de perseguição, com a invasão de seu Facebook, difamações feitas por integrantes do Movimento Brasil Livre/MBL e ameaças que foram, inclusive, denunciadas em ocorrência policial, além dos três processos judiciais movidos contra ele pelo candidato Nelson Marchezan Jr, do PSDB.
    Hoje, dia 25 de outubro, a deputada Juliana Brizola, do PDT, candidata a vice-prefeita na chapa de Sebastião Melo, registrou boletim de ocorrência, em função dos agressivos ataques verbais sofridos na Esquina Democrática, por parte de ativistas que a candidata afirma pertencerem ao mesmo grupo que difamou Plínio Zalewski.
    Além das agressões a pessoas, foram denunciados, durante a campanha eleitoral, um ataque com tiros ao comitê do candidato Nelson Marchezan Jr e uma invasão de integrantes da equipe de Marchezan Jr. à sede do PMDB.
    A escalada de agressões e violência vivida na campanha à Prefeitura de Porto Alegre expressa o clima de truculência de tipo fascista que vem crescendo no Brasil e do qual têm sido vítimas lideranças políticas, intelectuais, artistas, estudantes e outros cidadãos participantes de movimentos reivindicatórios no país.
    A memória histórica não permite que nos calemos frente à possibilidade de crescimento de forças e regimes fascistas em nosso estado e no Brasil. Por isto conclamamos todos os democratas a expressarem seu repúdio às atitudes e movimentos com características de cunho fascista e a se unirem em torno da defesa da democracia e dos valores da convivência pacífica e civilizada.
    Porto Alegre, 25 de outubro de 2016
    Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito
     

  • Retrospectiva de 60 anos da arte de Zoravia Bettiol no Margs

    O lírico e o onírico da obra de Zoravia Bettiol  está no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). É um acontecimento raro no cenário das artes plásticas do Brasil. E uma oportunidade para os gaúchos homenagearem em vida, com a forma mais correta – uma grande exposição – sua artista mais representativa.
    Abertura ao público a partir desta quarta-feira (26), a exposição tem curadoria dos historiadores e críticos de arte Paula Ramos e Paulo Gomes. Eles trabalharam com obras efeitas ao longo de seis décadas, e deram à mostra o nome de “Zoravia Bettiol- o lírico e o onírico” para assinalar os 80 anos de vida da artista e 60 de profissão. Os curadores definem a empreitada como “um exercício de síntese de sua numerosa e prolífica produção”.

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    Trabalhar, da série Sentar sentir ser, entre 2005 e 2016

    A exposição é composta por desenhos, pinturas, gravuras, arte têxtil, objetos, ornatos e joias, além de registros de performances. Entre os destaques, a série Sentar, sentir, ser, iniciada em 2005 e concluída em 2016. Surgida a partir da reflexão do grande tempo que as pessoas permanecem sentadas, diariamente, a série exibe a própria artista em poses e situações engraçadas, realizando distintas ações que podem ser feitas enquanto se está, justamente, sentado, tais como: comer, legislar, celebrar, fofocar, magicar etc. Solta no espaço, em meio à representação de elementos e adereços que identificam as atividades empreendidas, a artista desponta em composições de cores cítricas e ridentes, que articulam fotografia, desenho, pintura e colagem.
    Outro destaque está no conjunto completo de xilogravuras para a lenda A salamanca do Jarau, publicada por Simões Lopes Neto (1856–1916) em seu livro Lendas do Sul (1913). Zoravia ilustrou o texto no final dos anos 1950, produzindo 27 imagens que serão expostas pela primeira vez em sua totalidade, acompanhadas por vários estudos preparatórios.
    Trajetória da artista
    Zoravia Bettiol (Porto Alegre, RS, 1935) iniciou sua trajetória no campo das artes visuais em 1952, quando ingressou no Instituto de Belas Artes (IBA), atual Instituto de Artes da UFRGS. Esse é o marco da carreira de uma artista que transita por diversos gêneros e suportes: pintura (sua ênfase acadêmica), gravura, desenho, arte têxtil, criação de joias e de objetos, design de superfície, performances e instalações. Com obras em acervos de alguns dos mais importantes museus de arte do mundo, Zoravia já realizou 136 exposições individuais, tendo apresentado o seu trabalho em pelo menos 21 países.
    No grande-jardim, xilogravura da série Namorados (1965)
    No grande jardim, xilogravura da série Namorados (1965)

    Em 1956, ela começou o seu percurso na gravura, quando passou a frequentar o ateliê do escultor e gravador Vasco Prado (Uruguaiana, RS, 1914 – Porto Alegre, RS, 1998), com quem dividiu grande parte da sua vida artística e afetiva. Casou-se com Vasco em 1959, construindo com ele uma família que originou três filhos, em uma relação que perdurou por 24 anos. Administrou a carreira de ambos. Sua produção em gravura e, em especial, em xilogravura, valeu-lhe diversos prêmios e o reconhecimento nacional e internacional.
    Linguagem de uma geração
    No final dos anos 1960, encantada com as possibilidades da arte têxtil, lançou-se a essa técnica, instaurando uma linguagem que pautaria a produção de toda uma geração. O têxtil, por sua vez, a conduziria às joias e essas aos headdresses, costumes e performances. Apesar da pluralidade, há uma inconteste unidade, manifestada nos temas e nas linguagens, bem como no aspecto narrativo de suas obras.
    Ao lado de suas pesquisas formais e de sua intensa produção artística, impossível esquecer o ativismo. Os interesses ecológicos, sociais e a crença em um mundo mais justo e fraterno movem-na incansavelmente. Revelar toda essa energia, esse modo de ser, pensar e criar está na base conceitual da exposição, Zoravia Bettiol – o lírico e o onírico.
    Estandarte de Oxóssi (1988)
    Estandarte de Oxóssi (1988)

    Serviço
    Exposição ZORAVIA BETTIOL – O lírico e o onírico
    Curadoria de Paula Ramos e Paulo Gomes
    Visitação de 26 de outubro a 11 de dezembro de 2016
    Terça a domingo, das 10h às 19h
    MARGS Ado Malagoli  www.margs.rs.gov.br
    Praça da Alfândega, Porto Alegre/RS
     

  • O cinismo social

    João Alberto Wohlfart – Professor de filosofia
    Pouco a pouco ficam claros aos nossos olhos a abrangência, os componentes, a estrutura e as intenções do golpe aplicado na Presidente Dilma Rousseff. O pano de fundo deste imenso espetáculo é um determinado modelo de racionalidade que se construiu ao longo destes últimos séculos e que na atualidade se tornou hegemônico e dominador. Trata-se do calvinismo social, do subjetivismo moderno, do individualismo burguês e da racionalidade econômica tecnocrática.
    Estes componentes racionais se corporificam no sistema econômico capitalista que está adentrando em nova fase. Soma-se a isto uma onda global de reviravolta conservadora neoliberal, de fundamentalismos religiosos e políticos, de espetacularização da mídia e de judicialização da sociedade. Parece que se trata de uma reação do capitalismo internacional diante da última grande crise econômico-financeira que solapou as economias do primeiro mundo.
    O que se vê na atualidade é de que o primeiro mundo e o centro geográfico do capitalismo mundial esgotaram as suas reservas naturais, minerais, aquáticas e energéticas. Soma-se a isto a soberania internacional e a condição de ator internacional que o Brasil construiu ao longo dos governos de Lula e de Dilma que assustou as nações hegemônicas do planeta, especialmente os Estados Unidos.
    Estamos assistindo a uma nova fúria dominadora e conquistadora do capitalismo internacional. Trata-se de uma espécie de neocolonialismo, de neocapitalismo, de neoimperialismo no qual o território brasileiro está no epicentro deste movimento geopolítico global. Este movimento capitalista consiste simplesmente no roubo e no assalto das nossas riquezas naturais, como sabidamente o são o Pré-sal, o Aquífero Guarani, as águas da Amazônia, os solos agrícolas, os recursos energéticos etc.
    Esta onda dominadora e conquistadora tem as suas representações internas. Há forças políticas e religiosas poderosas que favorecem a entrega de presente do país a esta fúria capitalista norte-americana, tais como o congresso nacional, o judiciário, os meios de comunicação social, os partidos de direita, as religiões neopentecostais, as alas conservadoras e fundamentalistas da Igreja Católica, o grande empresariado etc.
    O golpe branco foi comprado por grandes corporações econômicas e por países do primeiro mundo. Esta é a razão pela qual a grande farsa nos é dogmaticamente passada como verdade absoluta. O que assusta neste golpe que avança de forma avassaladora e galopante é de que a sua ideologia penetrou na interioridade da estrutura social. O imaginário social está possuído e radicalmente dominado por esta mentalidade. O interesse capitalista avassalador penetra nas relações sociais de forma sutil e imperceptível, por um lado, e de forma extremamente violenta e dominadora, por outro. Na absoluta intensidade e totalidade, o que as pessoas pensam e falam entre si é o reflexo subjetivo da ideologia dominante. As conversas interpessoais representam uma espécie de vulgarização dos fundamentos filosóficos da racionalidade vigente e uma legitimação do interesse dominante. Parece que o povo está agradecendo a Deus por uma dádiva divina salvadora.
    O cinismo social é uma das ramificações do golpe. Ele é necessário para dar legitimidade a todas as ações porque o povo precisa ficar anestesiado diante delas. O cinismo social se expressa em alguns jargões que se universalizaram e se dogmatizaram, o que revela a extrema superficialidade da opinião pública. Sabemos muito bem o que se fala contra Lula e contra o PT é a expressão da mentalidade antipetista induzida massivamente pelos meios de comunicação na mentalidade popular.
    É muito comum que as pessoas falem contra a corrupção. O povo em geral quer ver estirpada a corrupção em nosso país. Mas esta postura é uma reprodução do discurso da televisão como o principal meio de informação das massas. Como a opinião pública apresenta aspectos contraditórios, os discursos contra a corrupção a reforçam e a absolutizam. O discurso contra a corrupção legitima os grandes assaltos capitalistas à nação brasileira e ao povo brasileiro. Neste movimento contraditório, o povo condena o que a televisão mostra como corrupção, e nisto legitima uma estrutura de corrupção infinitamente maior e mais complexa.
    Este fenômeno contraditório pode ser mostrado com exemplos concretos. As intensas manifestações de 2013 seguiram com a eleição do congresso nacional mais corrupto e mais conservador no ano seguinte. Nas eleições municipais recentemente consolidadas foram eleitos traficantes de drogas, empresários com representativos patrimônios, defensores de regimes monárquicos etc. Venceu a negação da política, o que significa dizer que seremos comandados por empresários, por marqueteiros da comunicação e por um poder econômico invisível. A pretensão dos gaúchos de formar uma república rio-grandense é uma das expressões cínicas de orgulho e autossuficiência.
    O cinismo social tem outro componente fundamental. Como expressão do liberalismo burguês, vemos hoje uma burguesia dominante que atribui a si mesma o mérito, a perfeição, a condição de sujeito social, os donos das riquezas, do território, das terras e do trabalho. Isto lhes dá o direito de odiar as classes excluídas, como os negros, os índios, as mulheres, os nordestinos, os trabalhadores e os que integram outras opções sexuais. Estes seres humanos absolutos e perfeitos, que nasceram isentos do pecado original, com a salvação eterna assegurada, com uma santidade implícita que não precisa do reconhecimento do Vaticano, são os eternos escolhidos e predestinados por Deus para gozar de sua beatitude. São eternos e absolutos santos na terra e nos céus. São os únicos não manchados pelo pecado, muito mais santos que os mártires e as virgens.
    Esta santidade tem um paradoxo. Estes mesmos santos produziram e difundiram o ódio social atualmente infiltrado em toda a estrutura social. Este ódio social está dissolvendo e acabando com o povo. As ações do governo golpista de congelar os gastos em saúde e educação, de reduzir os salários e arrochar a previdência, de entregar as riquezas ao demônio, representam um massacre contra o povo brasileiro.
    Entre o território brasileiro e os seus ecossistemas naturais, a nação brasileira e o povo, por um lado, e o sistema capitalista e o governo golpista, por outro, há uma cortina de fumaça que impede o conhecimento da realidade e estende sobre o país uma absoluta cegueira epistemológica. Ela é produzida pelos meios de comunicação social que imbecilizam e mediocrizam a população pela difusão do ódio contra Lula e o PT. Os meios de comunicação falsificam tudo ao dizer uma coisa, quando a realidade é completamente outra. O que duplica a cortina de fumaça, a absoluta cegueira e anestesia social, são as religiões neopentecostais e as tradicionais, inclusive a Católica.
    Diante do desdobramento do golpe, é preciso questionar o papel da religião durante a história e na atualidade. A religião legitimou o patriarcalismo e o escravagismo ao invocar as bênçãos divinas sobre esta estrutura social. Batizou as castas sociais brancas e duvidou da dignidade da filiação divina aos negros e índios. As múltiplas ações de transformação histórica e social foram objeto de perseguição de todos os lados, nomeadamente pelo papado romano, pela elite capitalista, pelas alas conservadoras do catolicismo brasileiro etc. O nome comum às ações históricas libertadoras é conhecido muito bem na expressão “padres comunistas”.
    O povo está cego. Não há mobilizações sociais diante de um conjunto de assaltos que se desenham aos nossos olhos. Na atualidade, ou se organizam intensas manifestações, ou será tarde para sempre. Depois que o país estiver entregue ao bandido, depois de vendermos a alma ao diabo, o povo será corroído até os ossos. Não teremos mais mínimas condições de convívio social, nem condições econômicas mínimas de sobrevivência. Enquanto isto, o povo é cínico, debocha ironicamente contra o seu próprio destino, e a fala contra Lula e o PT resulta na alienação social e na cegueira epistemológica que legitima o atual estágio de expropriação capitalista.
    Diante deste cenário, as esquerdas estão esfaceladas e desorganizadas. No momento, não sobra mais nenhuma força de organização e transformação social. Na mesma direção, o povo brasileiro está petrificado, envolvido numa névoa ideológica de dominação capitalista, sem racionalidade e base política de ação coletiva. Enquanto isto, a suprema força de organização capitalista é sustentada por forças geopolíticas internacionais, pelo supremo tribunal federal e judiciário, pelo congresso nacional e ministério público, pela grande mídia e pela cegueira epistemológica do povo. De onde virão as forças de reação?
    http://youtu.be/bjMzASRWFP0

  • Os desafios do sindicalismo na conjuntura atual

    O desafio, portanto, é redobrado. Ou o movimento social e sindical forma gente, se comunica melhor e combina a resistência com alternativas, ou ser apenas contra e reivindicar não dará conta de impedir os retrocessos. Mãos à obra.
    Antônio Augusto de Queiroz
    Jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap
    Os movimentos sociais e sindicais têm três desafios pela frente, em curto e médio prazos: 1) promover formação política, 2) melhorar sua comunicação institucional e interpessoal, e 3) ter sempre alternativa ao que critica ou se opõe.
    O primeiro desafio é o de qualificar os militantes, ativistas e dirigentes para o enfrentamento da agenda do Consenso de Washington, que esteve suspensa no Brasil durante os 12 anos de governos do PT.
    O passo inicial nessa direção é conscientizar os cidadãos-trabalhadores, mediante cursos, seminários e oficinas, sobre o papel de cada um dos três setores do sistema social: o Estado, como primeiro setor; o mercado, como segundo setor, e a sociedade, como terceiro setor.
    As cartilhas editadas pelo DIAP sobre “Noções de Cidadania no Brasil”, “Análise de Conjuntura”, “Relações Institucionais e governamentais” e “Políticas Públicas e Ciclo Orçamentário” dão uma boa base para entender esses processos.
    O segundo desafio diz respeito à forma de comunicação. As forças neoliberais desenvolveram uma tecnologia que força o disparo do “gatilho mental” dos cidadãos contra determinadas ideias, especialmente se elas conflitarem com os interesses do mercado e dos rentistas.
    A comunicação política no Brasil passou para a fase da pós-verdade, em que o fato e a verdade ficam em segundo plano e são explorados os comportamentos e reações, com o objetivo de dizer ao cidadão “sobre o que pensar” e não “sobre como pensar”.
    A tática é simples. Criminaliza-se os defensores dessas ideias, associando-os a desvios de conduta (corrupção, ilegalidade, irregularidade, etc) ou a agressão a valores (familiares, religiosos, etc) e as pessoas automaticamente deixam de analisar as ideias e passam a condenar seus autores. Isso tem sido feito com partidos e também será feito com os movimentos sindical e estudantil ou qualquer outro que seja visto como de esquerda.
    Nesse particular, os movimentos sociais, em geral, e o sindical, em particular, precisam se qualificar e — sem abrir mão um milímetro sequer em relação as suas convicções e visão política e ideológica — focar o debate no conteúdo do que propõe ou rechaça, de tal modo que as pessoas possam perceber o que de fato está acontecendo.
    Evitar o esquema “petralhas” versus “coxinhas” é a melhor alternativa, porque desinterdita o diálogo. Por exemplo: muitos dos que foram a favor do impeachment de Dilma são contrários às reformas em bases neoliberais de Michel Temer. Entretanto, se insistirmos na tese de que todos são “golpistas”, isso interdita o debate e o diálogo.
    Se as lideranças dos movimentos sociais não tiverem tolerância, capacidade e disposição para persuadir, pelo conhecimento, pelos argumentos e fatos, mostrando os malefícios de parte dessas reformas, vai persistir a polarização e muitos que são aliados potenciais, e poderiam cooperar nessa batalha de resistência à supressão de direitos, permanecerão impermeáveis ao diálogo.
    O terceiro desafio consistirá em montar equipes e assessorias para formular e propor, com a agilidade que os novos tempos exigem, alternativas às propostas patronais e governamentais.
    O movimento sindical, no período pós-64, passou por duas fases que foram muito eficazes: a de ser contra, em plena ditadura militar, e a de reivindicar, após a derrota da ditadura. E ingressou na terceira fase em que não basta ser contra nem reivindicar: é preciso formular, ter alternativas.
    Esta terceira fase, que coincide com a chegada ao Brasil da agenda neoliberal, não estava suficientemente clara para o movimento sindical por ocasião dos governos Collor e FHC, quando houve alguns importantes retrocessos, exatamente porque o movimento insistiu nas táticas anteriores: apenas ser contra e reivindicar.
    A investida em bases neoliberais — que esteve suspensa no Brasil, pelo menos por parte do Poder Executivo, nos 12 anos do governo do PT — agora volta com força total e sob a liderança de um governo cuja sobrevivência depende de sua implementação.
    O desafio, portanto, é redobrado. Ou o movimento social e sindical forma gente, se comunica melhor e combina a resistência com alternativas, ou ser apenas contra e reivindicar não dará conta de impedir os retrocessos. Mãos à obra.

  • Lei da Repatriação incentiva a sonegação fiscal, diz auditor da Receita Federal

    Patricia Fachin / IHU ON LINE
    A lei de repatriação de dinheiro mantido no exterior sem declaração à Receita Federal, que irá anistiar as pessoas que fizerem a declaração até o dia 31 de outubro deste ano, “é desnecessária” do “ponto de vista da arrecadação, da administração tributária e da fiscalização de tributos”, diz Mauro José Silva, auditor da Receita Federal, à IHU On Line. Segundo ele, não há necessidade de o Estado anistiar aqueles que mantêm dinheiro não declarado no exterior porque, a partir do próximo ano, o Brasil terá acesso às informações financeiras dessas pessoas, por conta de uma série de acordos bilaterais e multilaterais assinados com outros países, de modo que poderia tributá-las sem conceder anistia aos crimes cometidos.
    Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Mauro José Silva expõe suas principais críticas à lei e argumenta que esse tipo de legislação “abala a moral do contribuinte e o desestimula a recolher voluntariamente suas obrigações tributárias. Além disso, essa lei faz com que o contribuinte fique sonegando, esperando uma nova repatriação”. E adverte: “Você acha que, dada essa cultura dos parcelamentos especiais, o contribuinte não vai entender que pode acontecer a mesma coisa com a chamada lei de repatriação? Estão criando uma cultura de lei de repatriação que vai acabar jogando a arrecadação para baixo”.
    O auditor fiscal diz ainda que a estimativa é de que atualmente a sonegação de impostos seja da ordem de 500 bilhões de reais, mas não existe nenhuma campanha federal para evitar esse tipo de prática. “Vemos alguma notícia na imprensa sobre isso ou vemos o governo querendo combater a sonegação? Enquanto isso, fala-se em PEC 241 e em lei de repatriação, mas o governo não se envolve no combate à sonegação. Qual seria a alternativa? Combater a sonegação”, frisa. De acordo com Silva, se 25% da sonegação fosse combatida, seria possível arrecadar 92 bilhões de reais. “Poderíamos ainda fazer isso em três anos, mas o problema é que o combate à sonegação é algo de uma vez só, ou seja, é para sempre, porque isso eliminaria a sonegação”, diz.
    Mauro José Silva é graduado e doutor em Direito pela Universidade de São Paulo – USP e mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É auditor fiscal da Receita Federal do Ministério da Fazenda e exerce a função de julgador na Delegacia de Julgamento de São Paulo.
    Confira a entrevista:
    IHU On-Line – Como avalia a Lei da Repatriação e Securitização de Créditos Tributários, que anistiará o crime daqueles que não declararam o dinheiro no exterior e declararem o dinheiro até o final do mês?
    Mauro Silva – Em primeiro lugar, o nome que deram à lei – Lei de Repatriação – é equivocado, porque não há uma exigência de que os recursos que foram enviados para fora do país sem o conhecimento do fisco sejam trazidos de volta; trata-se de uma regularização apenas. Então, essa é uma questão semântica importante, porque o nome dado à lei acaba atraindo certa simpatia ao se referir à “pátria” ou ao termo “repatriação”.
    Em segundo lugar, essa lei surgiu em um contexto no qual o Brasil está assinando acordos bilaterais e multilaterais para ter acesso às informações de brasileiros no exterior, de forma que, no próximo ano, já será possível ter acesso às informações das pessoas que enviaram dinheiro para o exterior sem prestar contas ao fisco. Ou seja, a lei surge no contexto que chamo de globalização dos fiscos; portanto, sob o ponto de vista da arrecadação, da administração tributária e da fiscalização de tributos, essa lei é desnecessária, uma vez que o fisco teria acesso às informações dos brasileiros, de modo que seria possível alcançar essas pessoas de outro modo.
    Uma das críticas que fazemos a essa lei diz respeito à sua justificativa. Ao ser enviada ao Congresso pelo Poder Executivo, a lei se justifica, segundo o então ministro Joaquim Levy, pela possibilidade de arrecadar um montante equivalente a 100 a 150 bilhões de reais. No entanto, essa informação não tem nenhuma base empírica. Tanto é assim que, recentemente, o ministro Henrique Meirelles concedeu uma entrevista afirmando que não há como avaliar esses recursos. Com isso, a conclusão a que chegamos é a de que o projeto de lei foi enviado ao Congresso com uma falsa motivação. Hoje se estima que será possível arrecadar entre 18 e 30 bilhões de reais, então esse número é bastante diferente do valor estimado anteriormente.
    Outro ponto que chama a atenção é que o Poder Executivo justifica a legislação afirmando que as pessoas que têm dinheiro não declarado no exterior foram praticamente obrigadas a enviar esses recursos para fora porque, nos últimos anos, o Brasil teve vários planos econômicos e passou por um momento de instabilidade. Então a lei garantiria a possibilidade de reverter essa situação, permitindo que as pessoas declarassem o dinheiro até então não declarado. Essa justificativa é algo que me espanta muito, pois estamos em um país no qual o ministro de Estado permite que uma lei conceda anistia a pessoas que cometeram crimes e o Estado faz a defesa de quem cometeu esses crimes, porque ninguém concede anistia se não há crime.
    IHU On-Line – Se a justificativa da lei é falsa, por que ela foi promulgada? A lei visa simplesmente anistiar essas pessoas ou arrecadar mais nesse momento em que o país vive uma crise fiscal?
    Mauro Silva – É a soma de tudo isso. O Brasil vive uma crise fiscal profunda e de fato precisa de recursos, mas não sejamos ingênuos, porque os políticos sabiam que o país iria alcançar essas pessoas a partir dos dados de acesso à informação no próximo ano. E justamente por isso que fizeram pressão para que a lei fosse aprovada, para que eles pudessem trazer esses recursos em condições vantajosas. No entanto, como estavam sendo pressionados pela Lava Jato, por exemplo, ao aprovarem a lei, os políticos incluíram o artigo 11, segundo o qual eles e seus familiares não podem se aproveitar dos benefícios da lei. Essas “soluções mágicas”, como a repatriação, a regularização, a securitização ou os parcelamentos especiais, são uma ilusão, porque abalam a moral do contribuinte e o desestimulam a recolher voluntariamente suas obrigações tributárias. Além disso, essa lei faz com que o contribuinte fique sonegando, esperando uma nova repatriação.
    IHU On-Line – Inclusive algumas pessoas ainda não declararam o dinheiro que têm no exterior, aguardando uma possível modificação na lei ou ainda a ampliação do prazo para fazer a declaração. As pessoas começarão a enviar o dinheiro para fora, porque é mais vantajoso, dado que depois eles poderão ser anistiados
    Mauro Silva – Sim, porque ainda está em pauta a possível modificação da lei. Essa vontade de modificação ocorre em relação a alguns pontos: esticar o prazo para a repatriação, retirar o limite que impede os políticos de serem anistiados, e a outra questão envolve a data limite da declaração. O valor a ser declarado deve corresponder à data de 31 de dezembro de 2014 para frente, mas alguns advogados dizem que esse ponto da lei gera algumas inseguranças porque, ao se limitar a questão tributária em cinco anos, há uma preocupação de que a pessoa que irá declarar esses recursos tenha que pagar tributos referentes aos últimos 16 anos.
    Alguns dos defensores da lei afirmam que ela é positiva do ponto de vista cambial, porque permitirá o retorno dos recursos. Entretanto, a lei não tem essa obrigação, pelo contrário, ela induz a saída de recursos. Veja que quem remeteu o dinheiro para o exterior, agora poderá regularizá-lo e pagará 15% de imposto, mais 15% de multa, ou seja, 30%, mas dado o valor do dólar em 31 de dezembro de 2014, esses 30% viram 24%. Por outro lado, aquele sonegador que manteve o dinheiro no Brasil pagará 27,5% de alíquota máxima da tabela progressiva do Imposto de Renda, pagará mais 20% de multa e mais uns 24% de juros de mora, ou seja, algo em torno de 40% sobre o valor sonegado. Então, se a pessoa tivesse sonegado e mantido o dinheiro no Brasil, hoje, comparecendo espontaneamente à Receita, ela pagaria 40% e não seria anistiada de nenhum crime; mas aqueles que remeteram o dinheiro ao exterior pagarão menos – 24% – e serão anistiados de todos os crimes que cometeram. O que você acha que os sonegadores vão fazer daqui para frente? Começarão a enviar o dinheiro para fora, porque é mais vantajoso, dado que depois eles poderão ser anistiados.
    IHU On-Line – Mas a lei não corresponde somente às declarações feitas até 31 deste mês?
    Mauro Silva – As pessoas terão que fazer a declaração até dia 31 deste mês, mas isso não significa que a lei será única. Em 2000, quando o Programa de Parcelamentos de Débitos Tributários Federais – REFIS surgiu, ele era único e todo mundo jurava que só teria aquele, mas não foi isso que aconteceu. O Estudo dos impactos dos Parcelamentos Espaciais, que é um relatório oficial da Receita Federal, recentemente divulgado, demonstra a quantidade de parcelamentos especiais que ocorreram desde 2001; é um negócio assustador.
    Então, você acha que dada essa cultura dos parcelamentos especiais, o contribuinte não vai entender que pode acontecer a mesma coisa com a chamada lei de repatriação? Estão criando uma cultura de lei de repatriação que vai acabar jogando a arrecadação para baixo.
    IHU On-Line – Esse cenário que você descreve tende a se manter mesmo que o Brasil tenha acesso aos dados de brasileiros que têm dinheiro no exterior, a partir do próximo ano?
    Mauro Silva – Acho que sim, porque se trata de uma vontade política. Mesmo sabendo que a Receita poderá consultar esses dados, poderá haver uma mobilização no Congresso para aprovar outra lei que possibilite uma nova repatriação. No Congresso existem aqueles que se movem não só por interesses escusos, mas que se deixam levar por essa ilusão do recurso, porque querem que esse dinheiro vá para os estados e municípios.
    IHU On-Line – Segundo a lei, quais crimes serão anistiados?
    Mauro Silva – Crime contra a ordem tributária, sonegação fiscal, sonegação de contribuição previdenciária, falsificação de documento público e particular, falsidade ideológica, uso de documentos falsos, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
    IHU On-Line – Quais são as brechas da lei?
    Mauro Silva – A questão é que nem todos os recursos que serão regularizados têm origem lícita, mas, segundo a lei, a comprovação da origem dependerá somente da declaração. Ou seja, a pessoa pode declarar que a origem do dinheiro é lícita, sem prová-la, e isso só poderá ser contestado por outros elementos que demonstrem que a origem não foi lícita. Então a lei poderia ter exigido não a simples declaração, mas provas que demonstrassem que o dinheiro teve uma origem lícita, mas, ao formular a lei, inverteram a situação.
    IHU On-Line – O que seria uma alternativa a essa lei? Considerando que o fisco terá acesso aos dados dos brasileiros que têm dinheiro no exterior, o ideal seria ter aguardado para tributar essas pessoas?
    Mauro Silva – Sem dúvida, porque para efeitos de cidadania fiscal e justiça fiscal, não deveria existir lei de repatriação. Ao contrário, deveria se fazer uma grande operação no próximo ano para buscar essas pessoas.
    Atualmente, existe uma sonegação de aproximadamente 500 bilhões de reais em todos os níveis e de 372 bilhões somente no nível federal. Considerando esse fato, vemos alguma notícia na imprensa sobre isso ou vemos o governo querendo combater a sonegação? Enquanto isso, fala-se em PEC 241 e em lei de repatriação, mas o governo não se envolve no combate à sonegação. Qual seria a alternativa? Combater a sonegação. Se combatêssemos 25% da sonegação, teríamos 92 bilhões. Poderíamos ainda fazer isso em três anos, mas o problema é que o combate à sonegação é algo de uma vez só, ou seja, é para sempre, porque isso eliminaria a sonegação.
    IHU On-Line – Que Brasil poderia ser construído se houvesse de fato a taxação desse dinheiro que é sonegado?
    Mauro Silva – Seríamos um país onde o bom contribuinte não se sentiria enganado pelo próprio poder público e teríamos mais cidadania e justiça fiscal. O problema é que hoje as pessoas até se sentem envergonhadas de pagar os tributos, coisa que em outros países é completamente diferente. Por que as pessoas se sentem assim? Porque quem paga fica com cara de bobo, porque quem enviou o dinheiro para fora, depois receberá vantagens para declará-lo. Temos que construir um país em que as pessoas paguem o tributo com orgulho, porque veem que o dinheiro é investido nas questões sociais. Um país que combate a sonegação não precisa da PEC 241.
    IHU On-Line – Como você entende a relação do brasileiro com o pagamento de tributos, visto que há uma reclamação geral, entre ricos e pobres, quando se trata de pagar impostos no país?
    Mauro Silva – É um conjunto de fatores que contribui para isso, e a corrupção que existe também mina essa capacidade, porque ver os recursos sendo mal utilizados abate a moral do contribuinte. Mas, faz parte do programa de combate à sonegação, o programa de educação fiscal, e aReceita desenvolve esse tipo de trabalho através de palestras nas escolas, por exemplo. Precisamos criar nas próximas gerações o pensamento de que pagar tributos é uma questão de cidadania.
    IHU On-Line – Há um movimento internacional para barrar a circulação do dinheiro que não tem uma origem declarada?
    Mauro Silva – Há uma tendência, sem dúvida, para que haja uma transparência em relação à circulação dos recursos no sentido de criar obstáculos a essas práticas que acabam não só prejudicando os próprios Estados, mas as empresas que concorrem internacionalmente, ou seja, o próprio capitalismo se vê prejudicado. Então, há um movimento internacional em busca da globalização do fisco e da transparência fiscal. Só que o Brasil, às vezes, importa algumas ideias internacionais e as distorce, basta ver as vantagens dadas aos brasileiros que têm dinheiro no exterior.
    IHU On-Line – Como está a discussão sobre a lei de repatriação? Há mais apoio ou críticas a essa lei?
    Mauro Silva – Majoritariamente há uma ilusão, porque o nome repatriação dá a entender que estão trazendo de volta para o país recursos que estão no exterior, o que não é verdade. Além disso, uns dizem que esse é um recurso que jamais alcançaríamos, o que também não é verdade, porque há condições de alcançar esses recursos. As pessoas que se manifestam favoráveis à lei estão iludidas, então temos que discutir a lei abertamente para mostrar que ela foi criada para beneficiar algumas pessoas que brevemente seriam alcançadas.

  • Vlado Vitorioso, a obra de Andreato nos 41 anos do assassinato do jornalista

    A Câmara Municipal de São Paulo inaugurou hoje (25), no centro da cidade, uma estátua em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, morto nas dependências do DOI-CODI durante o regime militar. A cerimônia ocorre 41 anos após o assassinato de Vlado, morto sob tortura no dia 25 de outubro de 1975 por agentes da ditadura militar.
    A praça que recebeu a escultura de bronze de mais de 2 metros de altura foi revitalizada e teve o nome mudado em 2013, após um encaminhamento da Comissão da Verdade instalada na Câmara Municipal. Antes, se chamava Praça da Divina Providência.

    São Paulo - Câmara Municipal de SP inaugura escultura em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog (Rovena Rosa/Agência Brasil)
    Elifas Andreato é o responsável pela concepção da obra que mostra Vlado olhando para o alto e com os braços levantados / Foto Rovena Rosa/Agência Brasil
    Em seu discurso, o artista plástico Elifas Andreato, responsável pela concepção da estátua, se disse orgulhoso de poder prestar essa homenagem a Vlado, como era chamado. A obra foi desenhada originalmente sob encomenda da Organização das Nações Unidas para um prêmio especial, distribuído em 2008, em comemoração aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

    Olhando para cima e com os braços para o alto, Andreato denominou a obra de Vlado Vitorioso. “A nossa geração foi vitoriosa contra a ditadura e o Vlado foi um mártir dessa geração. Então, eu precisava fazer algo que fosse a celebração dessa vitória contra o regime militar que o matou”, afirmou o artista.
    O filho de Vlado e diretor do Instituto Vladimir Herzog, Ivo Herzog, destacou a importância de disputar os espaços públicos, trazendo a memória da luta contra ditadura e removendo homenagens àqueles que participaram da repressão. “As novas gerações estão sempre chegando e elas precisam conhecer essa história. Não podemos ficar cometendo os mesmos erros do passado. A gente tem que se preocupar com novas agendas e não ter de retomar agendas, lutas do passado. Temos que preservar as conquistas. E a maneira de fazer isso é a memória, através do conhecimento da nossa história”, ressaltou.
    Assassinato
    Herzog trabalhava como diretor do telejornal Hora da Notícia, na TV Cultura, quando foi procurado por agentes da repressão em casa e no trabalho. O jornalista se prontificou a comparecer no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) para prestar esclarecimentos. Ao se apresentar, foi preso e torturado até a morte.

    São Paulo - O artista plástico Elifas Andreato, Clarice Herzog e Ivo Herzog participam da inauguração da escultura em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, realizada pela Câmara Minicipal, na Praça Vladimir Her
    O artista plástico Elifas Andreato, autor da obra, Clarice Herzog, viúva de Vlado, e o filho, Ivo Herzog / Foto Rovena Rosa/Agência Brasil
    Semanas antes, o então deputado estadual José Maria Marin havia pedido na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para que as autoridades tomassem providências contra militantes de esquerda que, segundo ele, estavam atuando na TV Cultura.

    Os agentes da repressão divulgaram uma falsa versão sobre a morte de Herzog, apresentando inclusive uma foto falsa para mostrar que ele teria se enforcado dentro da cela. Com base em depoimentos e inconsistências nas evidências apresentadas pelos militares, a história foi desmentida ainda à época. Mas foi somente em 2013 que a família do jornalista recebeu o novo atestado que aponta como causa da morte lesões e maus-tratos sofridos por Herzog durante interrogatório no DOI-CODI.
    (Texto de Daniel Mello, da Agência Brasil)

  • Ministra Cármen Lúcia exige respeito ao Judiciário

    Em resposta o presidente do Senado, Renan Calheiros – mas sem citá-lo -, a presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, abriu a sessão plenária do Conselho, na manhã desta terça-feira (25), exigindo respeito aos magistrados e ao Poder Judiciário.
    Ontem (24), Renan Calheiros (PMDB-AL) criticou o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara da Justiça Federal, por autorizar as prisões do chefe da polícia do Senado, Pedro Ricardo Carvalho, e mais três policiais legislativos, suspeitos de prestar serviço de contrainteligência para ajudar senadores investigados na Lava Jato e em outras operações. Renan também fez críticas ao ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que criticou a Polícia Legislativa pela suposta obstrução da Lava Jato.
    Renan chamou o juiz federal de “juizeco” e disse que Moraes não se comporta como um ministro de Estado, mas, “no máximo”, como um “ministro circunstancial de governo, um chefete de polícia”.
    A ministra Cármen Lúcia defendeu o equilíbrio entre os poderes da República e disse que os juízes são essenciais para a democracia e o equilíbrio entre esses poderes. Afirmou que quando alguém destrata um juiz, qualquer que seja o juiz, está destratando a ela própria. “Não é admissível aqui, fora dos autos, que qualquer juiz seja diminuído ou desmoralizado. Como eu disse, quando um juiz é destratado, eu também sou”, afirmou a ministra, no início da 240ª Sessão Ordinária do CNJ.
    A presidente do Conselho e do Supremo argumentou que o CNJ e os demais órgãos do Poder Judiciário cumprem sua missão da melhor forma possível, sempre respeitando os demais poderes – Legislativo e Executivo –, que deveriam guardar o mesmo respeito em relação ao Judiciário. “Respeito nós devemos e guardamos com os Poderes e, evidentemente, exigimos de todos os poderes em relação a nós. O juiz brasileiro é um juiz que tem trabalhado pela República. Somos humanos, temos erros, por isso existe este CNJ, para fortalecer o Poder Judiciário, coerente com os princípios constitucionais, com as demandas e as aspirações do povo brasileiro”, disse a ministra. “Mas, por isso mesmo, nós nos comportamos com dignidade com relação à Constituição”, reforçou.
    A ministra recorreu à Constituição Federal para lembrar da relevância da harmonia entre os Poderes da República e citou juízes brasileiros como essenciais para esse equilíbrio. “Numa democracia, o juiz é essencial, como são essenciais os membros de todos os outros poderes, repito, que nós respeitamos. Mas exigimos também o mesmo e igual respeito para que a gente tenha uma democracia fundada nos princípios constitucionais, nos valores que nortearam não apenas a formulação, mas a prática dessa Constituição”, ressaltou a presidente do CNJ e do STF.
    Legalidade
    A ministra Cármen Lúcia disse ainda que, numa convivência democrática livre e harmônica, não há necessidade de qualquer tipo de questionamento que não seja no estreito limite da constitucionalidade e da legalidade. “Todas as vezes que um juiz é agredido, eu e cada um de nós juízes somos agredidos. O poder judiciário forte é uma garantia para o cidadão”, disse, completando: “Este Conselho Nacional de Justiça, como todos os órgãos do Poder Judiciário, está cumprindo a sua missão da melhor maneira sabendo que seus atos são questionáveis – os meus no Supremo, o do juiz do Tribunal Regional do Trabalho, o do juiz da primeira instância. Somos todos igualmente juízes brasileiros querendo cumprir nossas funções”, disse.
    Em nome do respeito mútuo entre os poderes, a ministra Cármen Lúcia disse que espera “compreensão geral” e “respeito integral” ao Poder Judiciário, “o mesmo respeito que nós dedicamos a todos os órgãos da República”. Para a presidente do CNJ e do STF, essa é a condição para que os poderes sigam independentes, mas que busquem a harmonia em benefício do cidadão brasileiro. “Espero que isso não seja esquecido por ninguém, porque nós, os juízes, não temos esquecido disso”, reforçou a ministra.
    (Com Agência CNJ de Notícias e Agência Brasil)
    Íntegra do discurso de Cármen Lúcia na abertura da 240º sessão ordinária do CNJ
    “Declaro aberta esta sessão do CNJ, órgão do Poder Judiciário brasileiro, constitucionalmente constituído para o fim específico de não apenas velar e zelar pelas melhores práticas do Poder Judiciário, como para garantir a força, a independência e autonomia e o respeito do Poder Judiciário. Respeito que nós devemos e guardamos com os poderes e, evidentemente, exigimos de todos os poderes em relação a nós. O juiz brasileiro é um juiz que tem trabalhado pela República, como trabalhou pelo Império. Somo humanos, temos erros. Por isso existe este CNJ, para fortalecer o Poder Judiciário, coerente com os princípios constitucionais, com as demandas e as aspirações do povo brasileiro.
    Mas por isso mesmo nós nos comportamos com dignidade com relação à Constituição. Nós juramos a Constituição, todos nós juízes brasileiros, e nesta Constituição, em seu artigo 2º, são os poderes independentes e harmônicos — o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Numa democracia, o juiz é essencial, como são essenciais os membros de todos os outros poderes, repito, que nós respeitamos. Mas exigimos também o mesmo e igual respeito para que a gente tenha uma democracia fundada nos princípios constitucionais, nos valores que nortearam não apenas a formulação, mas a prática dessa constituição. Todas as vezes que um juiz é agredido, eu e cada um de nós juízes somos agredidos.
    Não há a menor necessidade, numa convivência democrática livre e harmônica, de haver qualquer tipo de questionamento que não seja nos estreitos limites da constitucionalidade e da legalidade. O Poder Judiciário forte é uma garantia para o cidadão. Todos os erros jurisdicionais ou administrativos que eventualmente venham a ser praticados por nós juízes, humanos que somos, portanto sujeitos a erro. No caso jurisdicional, o Brasil é pródigo em leis que garantem que qualquer pessoa possa questionar e questione pelos meios recursais próprios usados. O que não é admissível aqui, fora dos autos, é que qualquer juiz seja diminuído ou desmoralizado. Como eu disse, quando um juiz for destratado, eu também sou. Qualquer um de nós juízes é.
    Este Conselho Nacional de Justiça, como todos os órgãos do Poder Judiciário, está cumprindo a sua missão da melhor maneira, sabendo que seus atos são questionáveis — os meus no Supremo, os do juiz do Tribunal Regional do Trabalho, os do juiz da primeira instância. Somos todos igualmente juízes brasileiros querendo cumprir nossas funções.
    Eu espero que isso seja de compreensão geral, de respeito integral. O mesmo respeito que nós, do Poder Judiciário, dedicamos a todos os órgãos da República. Afinal, somos sim independentes, mas estamos buscando a harmonia em benefício do cidadão brasileiro. Espero que isso não seja esquecido por ninguém. Porque nós, os juízes, não temos esquecido disso.“