Autor: da Redação

  • O golpe dos canalhas

    João Alberto Wohlfart – Filósofo e Professor universitário
    Consumado o golpe de Estado contra a Presidente Dilma Rousseff, vai se desenhando aos nossos olhos o cenário que está por vir. Trata-se de um conservadorismo neoliberal levado às últimas consequências. Está muito claro que se trata de uma gravíssima ruptura constitucional, a dissolução da Constituição Federal, um atentado à soberania popular e nacional e a implantação de um projeto que o povo não escolheu nas urnas. As consequências do golpe concentra-se num projeto neoliberal ultraconservador cujos componentes elencamos na sequência.
    – A podridão das instituições: As instituições foram criadas para cuidar da Democracia, da Constituição e da Soberania popular. Sempre pensamos que fosse assim, mas erramos rotundamente ao embarcarmos na certeza de que elas deveriam ser as vanguardas da nação brasileira agora estraçalhada por um governo golpista e assaltante. O supremo tribunal federal, o congresso nacional, o executivo federal, o judiciário, estão habitados por uma casta sacerdotal de assaltantes da Democracia que entregam o país aos caprichos do grande capital e da financeirização. Nestes poderes e nestas instituições habita uma elite patriarcal machista que dá o tom constitucional e jurídico para a eternização dos privilégios econômicos de uma pequena maioria.
    – O fim da Democracia e da Constituição: Os períodos democráticos da História do Brasil são curtos e sempre interrompidos por golpes e ditaduras. Tivemos a graça de viver num período de 31 anos de frágil e jovem Democracia e de uma jovem Constituição que foi brutalmente assassinada aos 28 anos de idade. A garantia da soberania popular, as políticas públicas, o projeto de nação escolhido livremente pelo povo através do voto direto, a Soberania Nacional, a preservação dos recursos naturais, a inclusão social das massas historicamente excluídas foram quebradas pela chamada “ponte para o futuro” e pelo governo usurpador. O golpe se confirma pela profunda ruptura entre os que assaltaram o poder e o povo que não votou neles.
    – Uma sociedade patriarcalista e patrimonialista: Desde os primórdios de nossa História nunca aconteceu uma ruptura social e política profunda capaz de estabelecer uma transformação estrutural radical no interior da sociedade. Esta elite sempre dominou e sempre mandou no país, sem abrir mão de um milímetro de seu poder e de seus privilégios. Com as manifestações de 2013, com a eleição do congresso mais conservador de nossa história e com o processo do fatídico golpe parlamentar esta elite ressuscitou com toda a força e está mostrando todas as suas garras. Ela sempre atuou de forma invisível, numa sutil manipulação ideológica, mas agora a violência é explicita e escancarada. O lucro sem medida, a grande propriedade privada e a acumulação patrimonialista são os grandes dogmas.
    – A perda dos direitos sociais: Os sinais evidentes do governo golpista consistem em quebrar com os direitos sociais adquiridos ao longo da história com sangue e suor de tantas gerações e de heróis lutadores. Os direitos trabalhistas e previdenciários são alvos de assaltos e cortes, com o rebaixamento da população à vulnerabilidade social. O desmantelamento do SUS é um dos capítulos desta prática golpista. O congelamento dos gastos em saúde e educação, conforme amplamente divulgado, é a faceta mais cruel deste golpe marcado com o selo do assalto das conquistas sociais. Tudo sustentado por uma hipocrisia capitalista neoliberal para a qual os gastos sociais diminuem os lucros das empresas e do capital financeiro.
    – A notícia padronizada: Os meios de comunicação social no Brasil estão em mãos de quatro ou cinco famílias bilionárias. Elas manipulam e massificam a opinião pública como elas querem. São o braço direito do judiciário para condenar seletivamente os críticos do projeto neoliberal e proteger os corruptos de investigação e condenação. Os meios de comunicação de massa imbecilizam a população e castram a capacidade de desenvolvimento de um pensamento crítico e emancipador. A incidência dos meios de comunicação no interior da estrutura social é tão intensa que a opinião se restringe a algumas frases de efeito, especialmente dirigidas contra algumas pessoas que defendem princípios democráticos.
    – A pirataria das privatizações: A pirataria privatista é a razão principal de ser dos tucanos e da grande direita. Sabe-se que as privatizações serão intensas e abrangentes. Querem entregar as riquezas naturais do país às grandes multinacionais, tais como o Pré-sal, a Petrobrás, as terras, os rios, os recursos energéticos, as florestas, os aquíferos, os espaços aéreos. Diante deste assalto, o povo brasileiro não será mais dono de seu espaço, de seu território, de suas riquezas, de seu patrimônio espiritual e de sua inteligência. O golpe na Presidente Dilma Rousseff não é porque cometeu algum crime, mas porque zelou pela soberania nacional. O golpe foi protagonizado pela podridão da máfia que habita os poderes do Estado, pelos marajás do judiciário, por grandes empresários nacionais e internacionais, pelos meios de comunicação para protagonizar o espetáculo das privatizações.
    – A subserviência internacional: Os governos Lula e Dilma proporcionaram para o Brasil uma soberania internacional e uma liderança global que nunca usufruímos nos 500 anos anteriores. Passamos de um país de fundo de quintal, obediente aos ditames do FMI e às grandes multinacionais, a um país soberano e senhor dos seus destinos. As relações bilaterais com a China, com a Índia, com a Rússia, com a África, com o MERCOSUL, com as nações latino-americanas representam uma significativa sistemática de horizontalização das relações internacionais lideradas pelo Brasil. Sabe-se da ruptura do governo golpista com este sistema e a volta da subserviência aos Estados Unidos e ao grande capital é o que nos espera. Depois da conquista histórica de superação da condição de colônia e da inserção soberana do Brasil no cenário geopolítico internacional, nos transformamos em objeto de exploração do grande capital. Pela tendência atual, seremos uma republiqueta de fundo de quintal.
    – A precarização do trabalho: Na agenda neoliberal ultraconservadora, os primeiros que pagam o preço são os trabalhadores. Acentua-se a antinomia entre trabalho e capital, onde os trabalhadores são explorados para sustentar a lógica do capital. A especulação financeira como mecanismo de enriquecimento de alguns e de empobrecimento de uma grande maioria, vai ser a sorte dos trabalhadores explorados pela transformação de seu trabalho em lucros dos magnatas do capital financeiro.
    – A financeirização da economia: Com o governo usurpador e golpista, o Brasil será epicentro da especulação financeira mundial. A tendência é a fragilização das estruturas econômicas, a degradação do sistema produtivo e a concentração dos recursos nas grandes instituições financeiras e megaempresas capitalistas. Recursos básicos que deveriam circular na economia real são deslocados das necessidades básicas da população e entregues à lógica da especulação como o grande meio de concentração de renda e exploração do povo. O resultado disto será o aprofundamento da crise econômica, o desequilíbrio social e ecológico.
    – O imperialismo do capital: Está em cima de nós o grande monstro do capital, cuja ação é invisível aos olhos do senso comum. Parece um deus absoluto e invisível que invade todos os espaços humanos e sociais e reduz tudo à sua lógica. Está pronto para roubar a força de trabalho e esvaziar o trabalhador transformado em objeto de exploração. Está pronto para roubar as nossas riquezas naturais, desintegrar os sistemas ecológicos brasileiros e dissolver tudo na lógica capitalista. É uma espécie de pandemônio com ramificações econômicas, políticas, ideológicas, jurídicas, e que tem no supremo tribunal federal, no congresso nacional, no poder central e no ministério público os seus braços políticos e instâncias de legitimação.
    – O fundamentalismo religioso: Hoje encontramos por aí fundamentalismos e conservadorismos dos mais reacionários e autoritários. É a faceta ideológica da ditadura parlamentar midiática. Os arquitetos do golpe estão revestidos da autoridade moral proporcionada pela bíblia e pela prática da religião, passando uma cortina de fumaça por cima do cinismo e da hipocrisia. A escola sem partido e o criacionismo são elementos religiosos e ideológicos deste fundamentalismo difundido para legitimar a nova ditadura. Os fundamentalismos são apoiados pelos Estados Unidos numa nova era de dominação norte/sul, com um doutrinamento místico-religioso para encobrir a sistemática da dominação econômica.
    Estes são alguns traços do golpe dos canalhas, dos assaltantes do poder e da Democracia. Esta é a faceta do projeto cujos arquitetos têm ódio do povo e da Democracia. Para impedir absurdos desta natureza, somente com uma intensa e contínua mobilização popular. A direita raivosa conseguiu aglutinar um conjunto de forças que produziu o golpe e há um vasto campo para a imposição de seu projeto cujos componentes básicos foram aqui citados.

  • A crise fiscal gaúcha e o irresponsável discurso do “dever de casa”

    Carlos Aguedo Nagel Paiva*
    Na crise em que vivemos hoje, muitos se perguntam se ainda faz sentido ter “orgulho de ser gaúcho”.
    Venho, provocativamente, afirmar que os motivos do tradicional e justificado orgulho são, de certa forma, os mesmos da crise e se encontram lá atrás, na transição republicana.
    Com o fim do Império, cada estado federado ganhou ampla autonomia. A partir de uma das guerras civis mais sanguinárias da história da humanidade — a Revolução Federalista —, criamos um estado moderno muito antes das demais unidades da Federação.
    O estado positivista de Júlio de Castilhos foi desenvolvimentista e redistributivo e deu as bases do programa industrialista de Getúlio Vargas, de Juscelino Kubitschek e dos próprios militares entre 1964 e 1980.
    A precocidade do RS, contudo, teve um preço alto: a burocracia gaúcha, constituída da década de 10 à de 30 do século passado, ampliada e consolidada entre os anos 40 e 60 do mesmo século, acabou por se aposentar e onerar, também precocemente, o nosso Tesouro.
    Esse peso não seria opressivo se a arrecadação pública crescesse a uma taxa superior à do passivo representado pelos inativos, mas a economia gaúcha apresentou uma discreta perda de dinamismo na segunda metade do século XX.
    Parte dessa perda se deveu à dificuldade em definir uma estratégia clara de desenvolvimento. O RS nunca curou plenamente as feridas da Revolução Federalista, e os custos disso são uma estrutural falta de unidade de ação.
    O potencial de desenvolvimento do RS é enorme. O Estado é uma espécie de “Nova Zelândia latino-americana”. Tem o mesmo tamanho, as mesmas características edafoclimáticas, produtivas, científico-tecnológicas e de inserção na divisão internacional do trabalho.
    Há, contudo, uma diferença importante: não temos unidade política! Aqui, a cada mudança de governo, tudo começa de novo.
    Não nos falta apenas projeto, mas, acima de tudo, confiança na possibilidade de um projeto baseado: (a) na nossa matriz produtiva; e (b) na continuidade de ações, construções e planos dos governos (usualmente opositores) anteriores.
    O resultado é que fizemos apostas erradas e abandonamos projetos pela metade. Esses projetos acabaram sendo adotados por catarinenses e paranaenses, cujas economias, de bases similares, vêm apresentando taxas de crescimento muito superiores às nossas nas últimas décadas.
    Entre 1986 e 2012, enquanto a economia gaúcha cresceu 80% em termos reais, Santa Catarina cresceu 142%, e o Paraná cresceu 160%. Isso, acima de tudo, porque eles fizeram a reconversão agroindustrial que nós ficamos devendo e se articularam à economia mundial, vendendo proteína animal.
    Enquanto isso, nós perseguíamos o sonho da reconversão industrial radical, pela atração de empresas de média tecnologia (petroquímica, automobilística) ou de alta tecnologia (microeletrônica, indústria bélica).
    No entanto, tudo o que obtivemos foi o fracasso previsível da guerra fiscal: menos arrecadação, serviços públicos de pior qualidade e crescente conversão em fornecedores de matérias-primas de baixo valor agregado.
    Como se isso não bastasse, o Plano Real atingiu o coração do dinamismo gaúcho. Porque o RS é um estado fronteiriço, nossa economia sempre apresentou uma abertura para o exterior (relação “exportações/PIB”) superior à média nacional.
    Ora, a principal âncora inflacionária do Plano Real é a cambial, de forma que, malgrado exceções, a nossa moeda tem estado sobrevalorizada ao longo dos últimos 20 anos, desestimulando as exportações. A expressão mais crua desse desestímulo foi a evolução da indústria calçadista do Vale do Rio dos Sinos.
    No entanto, ela também se expressou no baixo dinamismo exportador das nossas tradicionais indústrias de máquinas e implementos agrícolas e de material de transporte (ônibus e caminhões), que vêm privilegiando os investimentos fora do RS.
    Ao longo do tempo, o tabaco e a soja em grão ganharam expressão relativa na nossa pauta de exportações, traduzindo a desindustrialização do Estado.
    Até 2003, o RS respondia por quase 10% do Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria de transformação do País e ocupava o segundo lugar da produção nacional, após São Paulo. Em 2004, Minas Gerais nos ultrapassou, e nossa perda de participação tem sido contínua.
    É dentro dessa perspectiva mais geral que tem de ser pensada a crise das finanças estaduais. Tentar enfrentar esse quadro estrutural e de raízes seculares com corte de funcionários em atividade é, no mínimo, irresponsável, até porque isso já foi feito: o decréscimo do número de ativos nos últimos 20 anos é mais do que expressivo — é abusivo.
    Se tomarmos o conjunto dos serviços públicos básicos (educação, saúde e segurança), veremos que o número de profissionais em atividade caiu 12,91%, enquanto a população cresceu 18,27% nos últimos 19 anos. Isso ocorreu a despeito das insuficiências de qualidade e pessoal no início do período.
    Nesse quadro, pretender enfrentar a crise fiscal com cortes de pessoal em atividade e, por extensão, com piora da qualidade dos serviços públicos é puro diversionismo.
    O Governo parece haver acordado para esse fato e vem abandonando o discurso dos cortes em prol do questionamento do acordo da dívida de 1996, que comprometeu as finanças estaduais com amortizações pesadas e com um sistema de indexação e de juros escorchantes.
    Mais do que nunca, precisamos de unidade política para enfrentar a crise econômico-fiscal em que nos encontramos, e essa unidade só pode ser conquistada pelo abandono da ideia simplista e rasteira de que basta “fazer o dever de casa” e cortar salários e postos de trabalho para resolver o problema do RS.
    Quem afirma e divulga simploriedades como essa presta um enorme desserviço ao povo gaúcho.
    funciaonarios-graqfico
    *Carta de Conjuntura FEE, 2015

  • MPC confirma irregularidades no contrato do Cais Mauá

    Naira Hofmeister
    Um parecer do Ministério Público de Contas (MPC) sobre a revitalização no Cais Mauá, emitido na semana passada, derruba a tese de que não há irregularidades no cumprimento do contrato de concessão da área à iniciativa privada.
    Segundo o procurador do MPC, Geraldo da Costa Da Camino “não há comprovação de que tenham sido aportados ou garantidos recursos suficientes para a execução das obras, o que resulta na conclusão do descumprimento de cláusula contratual”.
    Foi a primeira manifestação de um órgão de controle reiterando que o consórcio Cais Mauá do Brasil S.A não cumpre o determinado pelo contrato, depois que um grupo de trabalho (GT) integrado pelo Governo do Estado e Prefeitura Municipal concluiu, em março deste ano, que o consórcio estava em dia com suas obrigações.
    O relatório do GT – que levou mais de um ano para ser elaborado – era uma resposta a uma inspeção especial promovida pelo Tribunal de Contas do Estado a pedido do MPC, que concluíra que havia sim motivos para pedir o rompimento de contrato.
    A intenção era colocar fim aos questionamentos, que abriam caminho para uma eventual rescisão do contrato. O MPC, entretanto, não acatou as conclusões do trabalho.
    “Em que pese o referido grupo estar contribuindo para dirimir os principais entraves relativos ao contrato de arrendamento, verifica-se que decorridos mais de cinco anos da assinatura do contrato, permanecem sem resolução questões com significativo potencial para comprometer a viabilidade do empreendimento”, alerta Da Camino em seu parecer.
    O procurador salienta ainda que o recente pedido de tombamento do armazém A7, protocolado na Câmara Municipal pela vereadora Sofia Cavedon (PT), pode interferir no planejamento financeiro do negócio. Segundo um estudo da Faculdade de Administração da PUC-RS, encomendado pelo consórcio, o shopping que seria construído sobre o terreno do A7 – e que iria até a lateral da Usina do Gasômetro – seria responsável pela metade das receitas do complexo, quase R$ 500 milhões ao ano, de um total de quase R$ 1 bilhão.
    Cláusula visa garantir a execução da obra
    Com seu parecer, o MPC voltou a polemizar a cláusula 13º do contrato de arrendamento, que trata da exigência de assinatura de um contrato de financiamento entre o consórcio e uma instituição financeira para garantir as obras no Cais Mauá. O patrimônio líquido desse agente financiador deveria somar, pelo menos, R$ 400 milhões.
    Levantada por moradores da cidade organizados em coletivos – que defendem um modelo alternativo para a exploração do espaço, sem shopping, estacionamentos e espigões – e encampada por parlamentares que pedem ao Estado o rompimento contratual por irregularidades, a ideia foi rechaçada pelos representantes das administrações municipal e estadual no GT.
    A interpretação dos governos era de que a cláusula tem uma redação dúbia, que pode ser interpretada não como uma obrigação, mas como algo facultativo. “Este dispositivo se mostra inócuo, vez que sua redação remete à liberalidade da arrendatária (em acordar ou não um financiamento para a obra)”, expressa o relatório do GT.
    Em seu recente parecer, entretanto, Da Camino rebate essa afirmação, salientando que independente da forma como foi escrita, o que importa é a intenção da norma, que é garantir a efetiva realização das reformas prometidas.
    “Nesses casos, as cláusulas devem ser interpretadas como um todo e não individualmente, colocando-as em harmonia. Isso nos remete à ideia de que a intenção do Estado do Rio Grande do Sul, quando decidido pela revitalização do Cais Mauá, considerando a complexidade da obra e sua importância econômica e social, era a de assegurar que a licitante vencedora apresentasse as garantias financeiras imprescindíveis à concretização do projeto”, sublinha Da Camino, mencionando um parecer anterior dos auditores do TCE.
    Nova mudança acionária pode ser pulo do gato
    O procurador solicitou ao TCE uma medida cautelar que impeça a execução de qualquer obra no terreno enquanto a dúvida sobre as garantias financeiras à obra não for dirimida. A iniciativa ainda precisa ser validada pelo conselheiro Alexandre Postal, que era líder do governo Sartori na Assembleia Legislativa até julho, quando foi nomeado para o cargo no órgão de controle.
    Caso seja aceita pelo agora conselheiro do TCE, a cautelar não modifica de imediato o atual cenário envolvendo o Cais Mauá porque a prefeitura ainda não emitiu as licenças necessárias para dar início a revitalização – sem a qual, não é possível fazer qualquer intervenção no terreno.
    Porém, coloca mais um entrave à concretização da obra. Às vésperas da aprovação do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU), o último passo antes da emissão das licenças, a Cais Mauá do Brasil S.A já tem protocolado pedido de informação sobre como proceder para registrar uma nova mudança acionária na composição do consórcio.
    A venda do controle acionário do consórcio pode ter sido a saída encontrada pelo consórcio para levar adiante a revitalização, uma vez que o grupo atual está sem recursos, como revelou em primeira mão o Jornal JÁ em maio: o consórcio acumula dívidas não pagas a prestadores de serviços terceirizados que cobram o calote na Justiça.
    Na ocasião o Cais Mauá do Brasil S.A suspendeu inclusive os contratos com empresas de vigilância que guardavam a área, que é pública e tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Em nota, a empresa admitiu as dificuldades financeiras: “A Cais Mauá do Brasil (CMB) atravessa um momento de aperto de liquidez e restrição orçamentária”.
    A situação preocupa o procurador do MPC: “Dentro do contexto geral traçado, que evidencia a inércia na execução do projeto, suscita-se a insuficiência financeira como uma de suas possíveis causas determinantes, o que eleva o apontamento em nível de criticidade e relevância”.
    Procurador também questiona validade dos índices construtivos
    Geraldo Da Camino também toca em outro ponto polêmico, fruto de outro embate entre os movimentos contrários ao modelo de revitalização proposto e a administração pública: os índices construtivos que permitem que o consórcio construa torres de até 100 metros de altura na área das docas (que ficam entre o edifício da Federasul e a Rodoviária) e um shopping center de até 32 metros de altura ao lado do Gasômetro – o equivalente a aproximadamente 33 e 11 andares, respectivamente.
    A autorização para que a iniciativa privada densificasse a área e erguesse novas edificações foi aprovada na Câmara Municipal em 2010, mas estava condicionada à ratificação, pelo mesmo legislativo, no primeiro trimestre de 2013, o que não ocorreu.
    O Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais da Prefeitura de Porto Alegre garante que há um parecer jurídico que mantém os índices válidos apesar do não cumprimento dos prazos, embora esse documento nunca tenha sido foi trazido à público.
    “Esclarecer o regime urbanístico aplicável à área é aspecto fundamental para determinar a viabilidade do empreendimento”, conclui o procurador.

  • Bancários em greve acusam bancos de forçar abertura de agências

    Os bancários do País que estão em greve há 11 dias denunciaram nessa sexta-feira que os banqueiros mudaram de postura nas negociações do reajuste salarial da categoria e estão forçando a abertura das agências fechadas pela paralisação.
    Acusam a Fenaban de ter desencadeado um “movimento sincronizado” para constranger dirigentes sindicais e tentar impor outro modelo de negociação. “As reuniões em São Paulo, dias 13 e 15 passados, foram só pra discutir o modelo”, reclamam.
    Na área do SindBancários de Porto Alegre e Região foram fechadas 292 agências, totalizando 959 agências em todo o Rio Grande do Sul. Diante da tentativa dos banqueiros de tentar abrir agências, a assembleia dos bancários em Porto Alegre seguiu a decisão nacional, de resistir e fortalecer o movimento a partir da segunda-feira, 19/9.
    Para o presidente do SindBancários, Everton Gimenis, os bancos tentam atacar o modelo de negociação que legou aos bancários 14 aumentos reais consecutivos nos últimos 14 anos. “A nossa greve está de parabéns. Os banqueiros atacaram o movimento forçando a abertura de agências. Vamos continuar fortalecendo o movimento na próxima semana. Estamos num momento decisivo. Precisamos arrancar um aumento decente na mesa da Fenaban.”, avaliou Gimenis.
    O diretor da Contraf-CUT e do SindBancários, Mauro Salles, também participou das mesas de negociação em São Paulo. “Os bancos tentam impor a tese de discutir o futuro. Chegaram a alegar que a oferta de 7% de reajuste é ganho. Nós insistimos que ganho para os trabalhadores é repor as perdas. Não abrimos mão de recuperar nosso poder de compra. A nossa greve está consolidada. Precisamos fortalecer, resistir e avançar”, afirmou Mauro.
    (Com Imprensa de SindBancários de Porto Alegre e Região)

  • Sete centrais sindicais convocam para mobilização dia 22

    A convocação das centrais sindicais para a mobilização no próximo dia 22 foi formalizada hoje também no Rio Grande do Sul em reunião, no centro de Porto Alegre, com a presença do senador Paulo Paim.
    Sindicatos e federações empenham-se na organização do dia nacional de lutas – atos, greves, protestos e paralisações na próxima quinta-feira (22) são apontados como “um esquenta” para uma greve geral contra a retirada de direitos – terceirização do trabalho, privatização de serviços de saúde e educação, benefícios trabalhistas e sociais.
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    Claudir Nespolo, presidente da CUT gaúcha / Foto CUTRS

    “A história é implacável com quem se acovarda”, lembrou o presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo. Ele disse que o futuro irá mostrar que “estamos lutando muito contra o roubo de direitos da classe trabalhadora”.
    Participaram dirigentes da CUT, CTB, UGT, Força Sindical, Nova Central, Intersindical e CSP-Conlutas. Além do senador Paim, compareceu o deputado estadual Adão Villaverde.
    Nespolo chamou a atenção para os projetos, medidas provisórias e emendas constitucionais, que estão na pauta no Congresso Nacional, como a PEC 241/16, que institui um novo regime fiscal, limitando gastos públicos e essenciais por 20 anos. “Eles botam nome bonito – equilíbrio fiscal -, mas a intenção é tirar os pobres do orçamento, já que essas medidas prejudicam a parcela mais pobre da população, o que é muito grave e danoso para a sociedade e o pior é que já está em vias de votação”, protestou.
    Ele criticou principalmente as propostas ventiladas pelos ministros de Temer para a reforma da Previdência e os ataques à CLT e à Justiça do Trabalho, como o PLS 030/15 que prevê ampliação da terceirização.
    “Não temos que pagar essa conta”, afirma Paim
    “O negociado sobre o legislado é a volta para o período anterior ao governo Getúlio Vargas e é só mais uma covardia desse atual governo que entrou pela porta dos fundos”, disse o senador Paim.
    Quanto à reforma da Previdência, que aponta para uma idade mínima de 65 anos para homens e mulheres se aposentarem, Paim questionou “o que será dos jovens que estão entrando agora no mercado no trabalho? Terão que contribuir 50 anos para se aposentarem?”
    “Eles querem também acabar com a política de valorização do salário mínimo, só que não somos nós que temos que pagar essa conta. São eles que deram um golpe na democracia”, afirmou o senador.
    Unidade para barrar os ataques
    A defesa da unidade para conter “ataques do governo Temer e das federações empresariais e a denúncia da manipulação da mídia golpista” foram destacadas pelas centrais.
    O presidente da CTB RS, Guiomar Vidor, disse que as centrais se uniram para dar uma resposta à altura do ataque que os trabalhadores estão sofrendo. “Estão privatizando a CLT e precisamos demonstrar neste momento que não vamos aceitar essa reforma nefasta”, afirmou.
    Ressaltando a união da classe patronal,  o presidente da Nova Central, Oniro Camilo, frisou que “esses são tempos históricos em que a CLT está sendo jogada no lixo”. Para ele, os trabalhadores precisam se mobilizar unificados para enfrentar a ganância dos  empresários.
    “Dia 22 daremos os sinais da nossa revolta e da nossa união. Vamos lutar contra as reformas trabalhista e da Previdência”, garantiu o presidente da UGT, Paulo Back. Ele lembrou a  necessidade de  conscientizar os trabalhadores sobre a importância desse dia.
    Para a representante da CSP-Conlutas, Vera Guasso, esse é o maior ataque que os trabalhadores já sofreram e apenas com unidade será possível barrá-lo. “Vamos parar o país nos dias 22 e 29 (dia nacional de luta dos metalúrgicos) e não vamos parar por aí. Esse é apenas o começo da grande greve geral que vamos construir”, enfatizou.
    Lembrando a resistência de países da Europa e do Chile contra o avanço das políticas neoliberais e a reforma trabalhista, a representante da Intersindical, Neiva Lazzarotto, lembrou que as centrais não têm uma tarefa fácil.
    O diretor da Força Sindical, Claudio Correa, reforçou a importância da unidade das centrais. “Por mais divergências que haja entre nós, sempre haverá unidade quando mexem com os direitos da classe trabalhadora”, disse.
    Paralisações na Capital e no Interior
    Em Porto Alegre, haverá concentrações nas garagens dos ônibus, em apoio aos rodoviários, a partir da madrugada, seguidas de colunas que se deslocarão depois em caminhada para o centro da cidade.
    Também serão realizados atos e manifestações nas cidades da grande Porto Alegre e no interior do Estado.
    “Precisamos orientar a população a não sair de casa no dia 22, a menos que seja para participar das manifestações em defesa dos direitos da classe trabalhadora”, sugeriu Nespolo, da CUT.
    Milhares de panfletos das centrais sindicais serão distribuídos nos próximos dias, e até o dia 22 carros de som também circularão divulgando as paralisações e pedindo à população: “só saia de casa para participar dos atos, protestos e paralisações”
    As centrais também definiram que os sindicatos filiados não abrirão as portas no dia nacional de lutas e que explicarão aos associados os motivo.
    O panfleto abaixo foi apresentado hoje pela CUT-RS:
    greve-geral-dia-22-paim
    greve-geral-dia-22-panfleto-verso
    (Com informações da CUT RS)
  • Temer autoriza a importação de papel e metal para imprimir dinheiro

    O Banco Central poderá encomendar a fornecedor estrangeiro a confecção de cédulas e moedas para abastecer o meio circulante nacional. A autorização está na Medida Provisória 745/2016, enviada ao Congresso Nacional e publicada no Diário Oficial da União desta sexta-feira (16).
    As aquisições obedecerão a cronograma fixado pelo Banco Central para cada exercício financeiro, observadas as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional. O banco deverá realizar as contratações em conformidade com a Lei de Licitações (Lei 8.666/1993).
    Para baixar a medida, o governo alegou “inviabilidade ou fundada incerteza” quanto à capacidade da Casa da Moeda do Brasil de atender a demanda por meio circulante. Para o governo, isso caracteriza “situação de emergência” prevista na Lei de Licitações.
    Situação semelhante aconteceu em 1994, quando foi lançado o Plano Real.
    O governo alega que o comércio enfrenta dificuldade de troco, devido à falta de cédulas e moedas. Mas circula em Brasília que o Banco Central deixou para a última hora para encomendar mais dinheiro à Casa da Moeda, e só o fez depois que Temer assumiu. Até agora ninguém desmentiu.
     
     

  • Defensores públicos declaram-se relegados a segundo plano por Temer

    Michel Temer enviou uma mensagem ao presidente do Senado, Renan Calheiros, para informar que decidiu vetar integralmente o projeto de Lei nº 31, que autoriza um reajuste de 67% aos defensores públicos federais, por contrariedade ao interesse público. Na véspera, a informação da Presidência era de que o veto seria parcial. Em vez de reajuste, daria aumento de 7%.
    A Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais (Anadef) repudiou a decisão.  “Não há interesse do Executivo Federal em fortalecer o órgão responsável pela defesa judicial e extrajudicial de 143 milhões de brasileiros em situação de pobreza”, diz a nota abaixo, na qual descrevem um pouco da sua rotina de trabalho.
    Nota de Repúdio da Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais – ANADEF
    A Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais – ANADEF vem a público repudiar a decisão do Presidente da República pelo veto integral ao PLC 32/2016. O Projeto, que dispõe sobre o reajuste salarial dos membros da Defensoria Pública da União, corresponde a apenas 0,15% do impacto total dos reajustes aprovados pelo Congresso Nacional e, posteriormente, sancionados pela Presidência. Não obstante o percentual ínfimo, o Governo Federal elegeu justamente essa categoria, que exerce função de implementação de direitos individuais e sociais em favor da parcela mais vulnerável da sociedade brasileira e que não tem condições de contratar um advogado, para ser penalizada em nome do ajuste fiscal.
    É importante destacar que o Presidente da República Michel Temer sancionou recentemente projetos de lei aprovados pelo Congresso Nacional que concederam reajustes a 16 categorias do Serviço Público Federal. Nesse curso, a negativa do Governo Federal teve como alvo unicamente a Defensoria Pública da União.  A Carreira foi, portanto, a única excluída de um tratamento remuneratório justo e compatível com a vocação da instituição comprometida com o acesso à cidadania e passa à condição de carreira jurídica federal com a pior remuneração e estrutura.
    Vale ressaltar que a Defensoria Pública da União, que conta com apenas 620 Defensores Públicos Federais em todo o território nacional, padece com a evasão média de 40% de seus membros. Apenas para ilustrar, nos próximos três meses, a previsão é de que 60 Defensores Públicos Federais deixem a Carreira para compor os quadros da Magistratura e Ministério Público.
    A DPU foi instalada pela Lei 9.020/95, em caráter precário e emergencial em 1995, e assim permanece até os dias atuais.  Os Defensores não recebem pela contraprestação de atividades administrativas, nem pela execução de atividades extras, sobretudo pelo trabalho em regime de plantão diário noturno nos finais de semana e feriados. Ademais, a DPU não possui quadro próprio de servidores.
    O veto ao Projeto de Lei que representa parcela insignificante no quadro geral dos reajustes apenas denota o retórico discurso de ajuste fiscal. Na verdade, o Presidente Michel Temer deixou claro seu recado: não há interesse do Executivo Federal em fortalecer o órgão responsável pela defesa judicial e extrajudicial de 143 milhões de brasileiros em situação de pobreza.  Os Defensores Públicos Federais receberam o veto com o sentimento de indignação, incompreensão e irresignação. O Governo acaba de dar mais passo ao sucateamento da DPU. Os Defensores Públicos Federais não sucumbirão.

  • Prefeitura vai vender índices para construir acima do limite em 16 bairros

    A Prefeitura de Porto Alegre vai leiloar mais 31 mil metros quadrados de “solo criado” em 16 bairros – Praia de Belas, Centro Histórico, Menino Deus, Petrópolis, Bela Vista, Auxiliadora, Higienópolis, Navegantes, Farrapos, São Geraldo, Três Figueiras, Partenon, Teresópolis, Cristal, Tristeza e Agronomia.
    “Solo criado” é um artifício pelo qual o Município permite a empreendedores a construção na capacidade máxima permitida pelo Plano Diretor.
    O leilão será realizado presencialmente, nos dias 21 e 22 de setembro, no auditório da Loja de Atendimento da Secretaria Municipal da Fazenda, na rua Siqueira Campos, 1.300, 1º andar – Centro Histórico.  O edital com todas as informações está publicado no site da Secretaria Municipal da Fazenda.
    Este é o terceiro leilão presencial realizado pela Secretaria Municipal da Fazenda. Somados aos realizados on-line totalizam seis leilões. Os trabalhos são conduzidos pela Central de Licitações da Secretaria Municipal da Fazenda – Celic.
    A alienação por meio do leilão possibilita a aquisição antecipada, sem a necessidade de projeto do empreendimento no momento da compra. Segundo a Prefeitura, os recursos arrecadados nos leilões são aplicados nas desapropriações e nas obras de infraestrutura e de mobilidade urbana da cidade.

  • Zoravia Bettiol mostra arte que reflete a realidade conturbada

     

    O Golpe Veste Toga, pintura acrílica sobre papel, 2016
    O Golpe Veste Toga, pintura acrílica sobre papel, 2016

    Sempre inquieta e ativa, a artista multimídia Zoravia Bettiol abre nesse sábado, dia  mais uma exposição. “Foi uma imposição da realidade conturbada que está atingindo o Brasil há tempo e me senti motivada, como artista e cidadã”, resume.
    A exposição “Opressão / Libertação – O Eterno Confronto”, montada no seu estúdio, na Zona Sul de Porto Alegre, é composta por 41 obras. A polarização opressão/libertação é um eixo temático que perpassa a sua obra e subdivide-se em cinco áreas: Comportamental (6 obras), Política (24 obras), Ecológica (4 obras), Mítica (mais 4 obras) e Religiosa (3 obras).
    Abaixo a Terceirização do Trabalho, pintura acrílica sobre papel, 2016
    Abaixo a Terceirização do Trabalho, pintura acrílica sobre papel, 2016

    Agressões à democracia como as que ocorrem no País atualmente, como a ruptura da ordem constitucional, deixam Zoravia perplexa, indignada e ainda mais produtiva.
    É ela quem conta: “A instalação intitulada Artes na Rua Pela Democracia, criada por mim foi utilizada em apresentações e manifestações politicas em Porto Alegre. Essa instalação teve a colaboração do Marco Fronckowiak e do ator e diretor Marcelo Restori, e integrantes dos grupos Comitê Pela Democracia e o Estado Democrático de Direito, Cultura Pela Democracia e Artes na Rua Pela Democracia. A tendência positiva e negativa dos trabalhos que criei se alternam nas imagens e algumas vezes há o equilíbrio destas forças, como em algumas obras que estarão expostas”.
     
     
    Abertura sábado, 17 de setembro de 2016 das 15 às 19h.
    Visitação de 18 de setembro até 17 de outubro, de segunda a sexta-feira, das 10 às 17h.
    ESTÚDIO ZORAVIA BETTIOL : Rua Dr. Possidônio da Cunha, 272 | Vila Assunção | Porto Alegre
    Demarcacao de Terras, Urgente!, pintura acrilica sobre papel, 2016
    Demarcação de Terras, Urgente!, pintura acrílica sobre papel, 2016

    Parem de Ameaçar o Prouni, pintura acrílica sobre papel, 2016
    Parem de Ameaçar o Prouni, pintura acrílica sobre papel, 2016

     

  • Escola sem partido e o sistema de museus

    JORGE BARCELLOS
    A educação brasileira recebeu a colaboração de diversas instituições que em seu interior criaram ações educativas. Fundações assistenciais, órgãos públicos descentralizados, sociedades de economia mista e principalmente museus, desde a década de 80, tomaram consciência da importância da educação e começaram a ofertar inúmeros programas e serviços, inclusive com traduções para turistas e atividades próprias para portadores de necessidades especiais.
    Fundações de Assistência Social e Comunitária, seja em seus centros comunitários ou mesmo em instituições de recuperação de menores, incorporaram educadores em suas equipes; diversos órgãos públicos desenvolveram atividades de formação escolar, seja para criar vivências de aprendizagem sobre a correta destinação do lixo urbano (DMLU) ou os cuidados necessários com a água e o meio ambiente (SMAM) e  museus públicos e privados ampliaram iniciativas educacionais com suas exposições. É o que se chama de Educação em instituições não escolares, realizada por centenas de educadores que acompanharam em seu meio o esforço legal que a democratização do pais promoveu com a Constituição Federal, de 1988,  e foram capazes de incluir em seus programas e ações objetivos do Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996.
    Nesse contexto, educadores de museus colaboraram com a fixação do aluno no sistema de ensino pela produção de ações educativas fora do ambiente escolar incorporadas pelas escolas. E fizeram isso na maior parte das vezes sem qualquer investimento direto do poder público, sem fundo algum governamental a não ser os próprios recursos de suas instituições. Esse trabalho era muito importante para as escolas para aprimorar conteúdos de ensino, mas não era incomum que, frente a inexistência de quadros, muitos diretores tomassem a iniciativa de incluírem em seus programas atividades extra classe, incluindo visita à museus ou apelando para a prestação de serviços de profissionais de instituições públicas para suprir carências de carga horária de professores que não eram contratados pelo Estado.
    Em meados de 2016, a ocupação de escolas públicas estaduais promovidas por estudantes que reividicavam melhorias na educação e nomeação de professores terminou por interromper o afluxo de estudantes em muitas instituições públicas. Parte destas reivindicações, como lembra a pesquisadora Russel Dutra da Rosa, pedia o arquivamento do PL 44/2016 que pretende transferir recursos públicos para Organizações Sociais privadas realizarem a gestão escolar, incluindo a contratação de diretores e professores sem concurso público e o PL 190/2015 do programa Escola sem Partido (ESP).
    Boa parte dos professores não se deram conta nesta luta que os profissionais da educação que desenvolviam projetos longe do ambiente escolar também eram afetados pelo  PL 190/2015. O projeto ESP ataca diretamente o trabalho não apenas de professores das escolas mas  educadores de diversas instituições públicas, principalmente de museus, porque visam limitar a liberdade de expressão de qualquer  professor. É o caso de muitos museus da cidade, que tem entre sua programação cultural a promoção de exposições de caráter “politico”, versando sobre Direitos Humanos, questões de gênero, etc. Segundo a proposta da lei, estes profissionais de ensino também podem ser afetados: é  um erro conceber o projeto “escola sem partido” como um projeto voltado unicamente para escolas, ele quer atingir um tipo de educação critica desenvolvida em diversos espaços. A escola é apenas um deles. Não se trata apenas de afetar o trabalho de professores: ora,  nossos museus contam com “monitores”  cumprindo papel similar a de um professor pelo qual recebem treinamento, ou mesmo professores formados, geralmente em história, responsáveis pelas visitas. Por ser um espaço educativo, todo o trabalho de museus coloca-se sob o horizonte e alvo do projeto ESP. Diz Rosa: “O movimento atua em todas as esferas do governo, já tendo protocolado quatro projetos na Câmara dos Deputados e um no Senado, no âmbito federal. Na esfera estadual, são 12 projetos protocolados até o momento com um aprovado no estado do Alagoas. E na esfera municipal 2 projetos foram aprovados em Santa Cruz do Monte Carmelo-PR e Picuí-PB.”(Jornal Já, 2/08/2016).
    O universo dos museus está em expansão no Brasil. Segundo dados do Ministério da Cultura, compreende 3.025 museus onde cerca de 48,2% possui área educativa própria encarregada de fazer exposições. Isso significa setores e equipes que produzem materiais educativos que podem se tornar alvo do programa ESP: textos de exposição, catálogos, informativos e material didático oferecido por professores e pesquisadores a outros professores. Se o projeto ESP veda conteúdos que estejam em conflito com as convicções religiosas e morais da família, uma exposição como “Os segredos da anatomia”, promovida pelo Museu de História da Medicina em 2015, pode ser considerada ofensiva às convicções morais da família por mostrar o corpo humano; o mesmo poderia se dizer da exposição “22 anos de Nuances”, realizada no Memorial do Rio Grande do Sul em 2013, que jamais poderia ter sido realizada porque tratar da luta pelos direitos LGBT em Porto Alegre, e, segundo os defensores da ESP, ofenderia (sic) as convicções de saúde sexual da família. O que ocorreria com as direções desses museus e seus professores? Seriam notificados extrajudicialmanete e coagidos através de penas e ameaças para a retirada de suas exposições como propõem o site do ESP? Seriam objeto de delação anônima de professores e monitores de museus visando cercear a livre iniciativa de programação de museus? Está claro o caráter fascista de tal iniciativa: eles violam o principio de autonomia tanto do pesquisador como do professor.
    A própria forma de interpretar conteúdos de exposição seria posto em questão. O movimento ESP já demonstrou que, em qualquer situação, seu pressuposto é de que o capitalismo não se fundamenta em uma lógica que produz exclusão já que gera empregos. Como então explicar os processos de história dos mais diferentes níveis, seja história politica, econômica ou cultural sem tomar uma perspectiva de análise critica? Nesse sentido, toda a linha do tempo da exposição História do Rio Grande do Sul, do Memorial do Rio Grande do Sul precisaria ser revista.  Nenhum pesquisador sério de nossas instituições de memória faz uma exposição sem uma pesquisa detalhada, aproximando perspectivas sociológicas, econômicas e políticas. Na concepção dos defensores da ESP,  uma exposição que mencionasse o genocídio de populações indígenas seria considerada doutrinadora, assim como uma exposição sobre Direitos Humanos. Qualquer atividade que promovesse um debate na semana do negro que apontasse as diferenças quanto a taxas de desemprego também seria considerado ideológico.
    O Movimento ESP está construindo o caminho para afetar não apenas o trabalho do professor em sala de aula, mas a programação e a pesquisa de exposições de diversos museus porque já retirou do Plano Nacional de Educação as metas e estratégias de promoção de equidade étnico- racial e de gênero. Se o ESP já chegou a processar o INEP, órgão responsável pelo ENEM por incluir o tema da violência contra a mulher na redação e  considerar o critério de avaliação a respeito aos direitos humanos como doutrinação de esquerda, o que resta as instituições museológicas e aos profissionais dedicados em instituições como o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo ou as atividades de recuperação de menores promovidas pelo CASE POA 1 da da FASE?
    A questão é que os educadores que trabalham fora da escola também são protegidos pelo Art. 5 da Constituição Federal: tem direito a livre manifestação do pensamento (inciso IV); tem direito à livre expressão intelectual (inciso IX) e tem direito ao exercício de sua profissão se atendidas as exigências legais (inciso XIII). A ESP critica conteúdos que são necessários a formação cidadã promovidas por várias outras instituições que não apenas as escolas: aspectos de cultura afro-brasileira e indígena são temas frequentes de exposições em museus. Os defensores da ESP estão contra as metas do PNE que buscam a superação das desigualdades educacionais pelo fim da discriinação e defesa da diversidade e dos direitos humanos, justamente temas retratados em diversas atividades dos museus que integram o Sistema Estadual dos Museus do Rio Grande do Sul.
    Tanto como nos professores da rede pública, o projeto ESP produz insegurança e desconfiança entre profissionais de educação.  Por isso precisamos incorporar na Frente Nacional Escola Sem Mordaça, criada na última quarta-feira na UFRGS, os profissionais de Educação de instituições não escolares, pois  num pais onde professores não são livres, nenhum educador o será.