Autor: da Redação

  • Não se administra um Estado como uma padaria

    Róber Iturriet Avila – Doutor em economia, diretor Sindical do SEMAPI, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos
    No segundo turno das eleições de outubro de 2014, os cidadãos gaúchos tinham duas opções para os rumos administrativos do estado do Rio Grande do Sul. Com mais informações ou menos das implicações de tal decisão sobre o seu próprio futuro, a maioria fez a sua escolha livremente.
    Já no primeiro dia, o governador José Ivo Sartori sinalizou que o mote de sua administração seria o corte de gastos e a redução dos serviços públicos. Por trás deste modelo administrativo, existe a concepção de que o Estado deve ter o menor número de funções possíveis, deixando para o setor privado a resolução de muitos dos problemas da sociedade. Essa visão não é nova e tampouco específica do governo gaúcho atual. Seus pilares filosóficos datam do século XVIII, embora esse paradigma tenha ganhado nova roupagem após a década de 1980, sendo convencionalmente referido como “neoliberalismo”.
    Os resultados de tais políticas têm sido quantificados na literatura internacional e nos principais organismos multilaterais do mundo: ampliação expressiva das desigualdades, perda de direitos, descompasso entre variação salarial e produtividade do trabalho, ampliação significativa da participação do 1% mais rico na renda, ao passo que reduz a participação dos salários. Além disso, cabe destacar a sedimentação do desejo de um estado policialesco dos grupos de renda mais elevados das sociedades que não enxergam que parte da violência tem relação com a perda dos direitos e das funções públicas dos Estados.
    O início da administração do governo Sartori foi nesta linha: redução de gastos públicos e das funções do Estado. Cortes de salários, intenção de fechar fundações e estímulo indireto para que os funcionários do estado se exonerem e se desloquem para o setor privado.
    Muitos dos quadros da administração pública são compostos por pessoas de alto nível de qualificação. Cabe a pergunta: é racional que os melhores quadros da sociedade deixem de servir à coletividade?
    Na área da segurança, houve o fim do pagamento das horas extras, fim do abono de R$ 1,5 mil que os policiais militares aposentáveis recebiam para continuar na ativa, além do congelamento das promoções e do cancelamento das nomeações de novos policiais. Desnecessário gastar argumentos sobre o desestímulo que o parcelamento de salários provoca.
    O resultado disso foi que em 2015, 2.247 policiais civis e militares se aposentaram ou se exoneraram, 48% mais do que em 2014. No primeiro semestre de 2016, 1.287 policiais militares se aposentaram e estima-se que chegue a 3 mil até o final do ano. Não é preciso tratar o resultado dessa política sobre a violência no Rio Grande do Sul.
    Ainda no pano de fundo ideológico dessa visão está a ideia de reduzir outras funções públicas e utilizar a “crise” nas áreas cruciais da administração para justificar a liquidação de setores tidos, a esta altura de calamidade, como “menos urgentes”.
    Por trás desse prisma, há um desinteresse nos segmentos de renda mais elevada da sociedade em financiar os serviços públicos, até porque eles não precisam deles, os quais têm servido para redistribuir a renda desde a década de 1940 nos principais países do mundo.
    O discurso raso que referenda essa visão de Estado é bem palatável a quem é leigo em economia e em política: “assim como na sua família, o Estado não pode gastar mais do que arrecada”. Essa é uma visão simplória, rasteira e quando não ingênua, tem má fé. Administrar um estado não é o mesmo que administrar o orçamento doméstico, menos comparável ainda a administrar uma padaria.
    Não apenas porque o gasto do governo faz parte do PIB e é a principal variável capaz de reverter um quadro de recessivo, o qual é caracterizado pela redução dos gastos de todos os demais agentes. Mas também porque muitas das funções do Estado dizem respeito a elementos fundamentais da vida minimamente pacífica em sociedade, como a segurança pública, mas também o reequilíbrio distributivo e o estímulo à vida produtiva e saudável dos cidadãos. Um dos argumentos simplórios bastante utilizados pelo discurso neoliberal é que caso o governo tenha déficit, a confiança do empresário reduz e a credibilidade do governo cai. Ora, o empresário decide com base em suas vendas e não a partir do déficit/superávit dos governos. Com demanda em queda, o investimento privado caminha no mesmo sentido. A redução da despesa pública apenas agrava o ciclo recessivo. Isso quer dizer: o parcelamento dos salários dos professores afeta o comércio de Porto Alegre.
    Os próximos passos do governo gaúcho são bastante previsíveis: será “necessário” extinguir órgãos públicos e vender o patrimônio para que haja recursos para investir em segurança e educação. Frente a um quadro de colapso nos serviços gaúchos, a sociedade facilmente referendará essa visão equivocada, rasteira, simplista e ardilosa. Está planejado, não sejamos ingênuos!
    Os resultados futuros serão aqueles já observados por organismos internacionais e por intelectuais que têm maior profundidade na compreensão de questões tão complexas: elevação da desigualdade e estado policial para reprimir revoltas dos crescentes excluídos.
    É triste ver que o estado do Rio Grande do Sul e agora também o Brasil caminham na direção de resolver problemas sérios e estruturais com discursos simplórios e repletos de má fé.
     

  • Permuta com Zaffari envolve apenas parte da área na Praia de Belas

    A área de propriedade do Estado que vai ser permutada com o grupo Zaffari no bairro Praia de Belas não é toda a gleba contígua à Praça Itália, que separa o terreno do Shopping Praia de Belas e que tem mais de 40 mil metros quadrados.
    Parte da área já é da empresa. O que será permutado, de acordo com a lei 24.397, de 2013, é o terreno onde está o prédio da Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos.
    Pelo que está descrito no projeto o terreno é um quadrilátero irregular com 112 metros na face norte, 97 metros na face sul, 287 metros na face oeste e 214 metros no lado leste (de frente para o parque da  Harmonia).  Seriam pouco mais de 26 mil metros quadrados.
    Segundo uma fonte do governo, há pressa em  concluir a negociação, já aprovada no governo anterior mas empacada porque a autorização saiu em nome da FDHR, quando o verdadeiro proprietário da área é o Estado.
    O novo projeto já enviado por Sartori à Assembleia corrige esse equívoco burocrático e também muda a finalidade da permuta: pelo projeto original a contrapartida do grupo Zaffari seria uma nova sede para a Fundação, a ser construída em terreno já  designado no bairro Teresópolis.
    Agora, a contrapartida será em “vagas prisionais”.  O Zaffari terá que financiar mil vagas em locais ainda não designados.
    O governo incluiu esse projeto no pacote de emergência  do sistema prisional, mas dificilmente conseguirá atender a expectativa dos empreendedores de começar ainda em 2016 a construção na área, que comportaria um novo Bourbon e uma torre residencial, segundo fonte do governo. (Não conseguimos confirmar essa informação com o grupo Zaffari.)
    Esse é o primeiro de um lote ainda não dimensionado de imóveis que o governo quer incluir no projeto emergencial para obter recursos para a  construção de presídios. Um grupo de trabalho vai selecionar os imóveis. O caráter de emergência permite que sejam transferidos sem licitação.
    Negociação começou em 2011
    Em outubro de 2011, o diretor-superintendente do Grupo Zaffari, Cláudio Zaffari, e o gerente de incorporações da construtora Melnick, Marcos Colvero, registraram interesse em adquirir a área do Estado, em reuniaão com a direção da Fundação. O Grupo já era proprietário do terreno que circunda a FDRH, na Av. Praia de Belas

    Na época, a contrapartida seria o Grupo Zaffari construir uma nova sede para a Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos.
     
     
     

  • Marcha "Fora Temer" no dia em que Dilma voltou para casa

    Todo o final de tarde tem sido a mesma coisa: desde o dia 31 de agosto, quando o Senado cassou o mandato de Dilma Rousseff, as manifestações pelo “Fora Temer” e “Diretas JÁ” no  início da noite no Centro Histórico de Porto Alegre.
    Nesta terça-feira (6), em que Dilma deixou o Palácio da Alvorada, em Brasília, e voltou para a sua casa na zona Sul de Porto Alegre, o número de manifestantes aumentou.
    Depois de se reunirem na Esquina Democrática, subiram pela avenida Borges, passando ao lado do Centro Administrativo do Estado, e seguiram em direção à à Ipiranga, que estava bloqueada. Perceberam e, para evitar confronto, tomaram a rua João Alfredo.
    As convocações vem sendo feitas em nome da Frente de Luta contra o Golpe, que

    A cavalaria seguiu a manifestação de longe
    A cavalaria seguiu a manifestação

    abriga diversos grupos, ligados a partidos políticos ou a movimentos sociais suprapartidários.
    A polícia acompanhou de longe, com um helicóptero que sobrevoou o centro o tempo todo, com viaturas, soldados a pé e até parte da cavalaria.
    A manifestação de ontem seguiu pacífica, mas logo depois houve um momento de tensão na Cidade Baixa. Foi quando a marcha já havia acabado que começou a confusão. Não mais de 50 pessoas, destoando do clima geral, derrubaram contêineres de lixo e puseram fogo em alguns, na esquina da Loureiro da Silva com a Lima e Silva e nos arredores.
    Moradores dos prédios se dividiram, protestaram contra a arruaça, alguém jugou um ovo do alto, discussões entre gente que tentava desvirar os contêineres na rua e gente revoltada com o barulho, nas janelas dos prédios residenciais.
    O tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do policiamento da Capital, foi pessoalmente liderar os policiais e abrir caminho para o caminhão do Corpo de Bombeiros que viera apagar o fogo nos contêineres. “Atiraram pedras”, justificou Ikeda a um repórter.
    Na praça Marquesa de Sevigné, onde funciona um trailler de lanches, dezenas de jovens ali reunidos entoaram um “Fora Temer” que acabou como um simples “Foraaaaaa”, e o grupo de civis foi avançando em direção ao grupo de policiais, até que se se retiraram, logo que os bombeiros acabaram o serviço.

  • O rendoso comércio das armas

    MARIANO SENA
    Em um mundo rendido às meias verdades e discursos invertidos, um olhar mais atento aos detalhes é sempre revelador.
    Na Alemanha, pujante potência exportadora de armas (recorde de 8 bilhões de euros em 2015), a indústria bélica ganha cada vez mais espaço. Mas não só no orçamento militar do país (40 bilhões de euros anuais).
    A justiça alemã acaba de agraciar os “deslizes” de um fabricante com uma sentença intrigante. Mesmo não sendo inédita, a decisão oferece uma janela para o jogo comercial dentro da principal economia européia.
    A disputa iniciou há cinco anos e envolve o uso do rifle de assalto G36 pelo exército alemão. A arma, produzida pela empresa Heckler & Koch (HK – http://www.heckler-koch.com/en.html), foi acusada de apresentar um defeito.
    Testes em laboratório mostraram que em temperaturas acima dos 30 graus, ou em situações de uso extremo (combate prolongado), a precisão dos disparos é reduzida significantemente.
    O rifle usado em missões no Afeganistão seria inapropriado para países com grandes variações climáticas e insegura para situações de luta real. Expertos de uma comissão do Ministério da Defesa decidiram perguntar a 200 soldados a sua opinião.
    Os praças alemães acostumados em sua grande maioria apenas a situações de treino responderam que gostavam da arma. Ela é leve, fácil de usar e confiável, mostrou a enquete.
    Mesmo assim, a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen (CDU), anunciou a substituição de centenas de milhares de rifles por novos, ainda por serem contratados. “Nao há futuro para a G36 no exército alemão”, declarou a ministra.
    Ela também mandou o ministério pedir indenização para a HK por “defeitos” no material vendido ao governo.
    A empresa reagiu com uma acão de declaração negativa na justiça. Isso mesmo, a empresa entrou na justiça antes mesmo de negociar com o governo o pagamento da tal indenização, que no fim das contas custaria um ínfimo percentual de suas vendas para o exército. Segundo analistas, o objetivo era salvaguardar o prestígio da fabricante, um dos líderes mundiais na produção de armas militares leves.
    Na sexta-feira, dia 02 de setembro o tribunal regional de Koblenz, no Sul da Alemanha onde fica a matriz da empresa, deu ganho de causa à HK. O juiz Ralph Volckmann deixou claro que a arma, em uso no exército alemã desde os anos 90, cumpre o seu papel contratual. “Se houve mudanças nas necessidades e exigências da corporação, então houve falha do Ministério da Defesa em informar tais mudanças à fabricante”, declarou o juiz.
    Apesar da derrota, a ministra Ursula mantém a sua posição. Ela prometeu apresentar nas próximas semanas mais um relatório comprovando os defeitos da G36. Também estão mantidos os planos do seu Ministério para a compra de 200 mil exemplares de um novo modelo de rifle de assalto até 2018 e 2019.
    O afair da G36 confirma acima de tudo o estilo de gerência da ministra. Em 2014, menos de um ano após assumir o posto, ela apresentou os resultados de um estudo de especialistas externos comprovando problemas em diversos projetos do Ministério.
    Encabeçados por consultores e advogados da KPMG, o documento de apenas 50 páginas sugeria mudanças gerenciais e estratégicas em projetos de desenvolvimento de armamentos da Alemanha e da União Européia. Na época os jornais saudaram a iniciativa com manchetes tipo: “Atestado miserável para a política armamentista”.
    O estudo serviu especialmente para justificar o aumento do orçamento militar da Alemanha. E isso inclui, claro, a propaganda. Em 2015 o exército gastou mais de 35 milhões de euros em publicidade, 20% a mais que no ano anterior.

  • Requião propõe "deficit produtivo" para melhorar economia e emprego

    Em artigo postado nas redes sociais, o senador Roberto Requião apresenta uma plataforma de candidato em que o ponto principal é uma mudança radical na política fiscal do país.
    Em vez do ajuste, com corte nos gastos do governo, proposto pelo governo Temer e por todas as receitas neoliberais, Requião filia-se à escola keynesiana e propõe uma expansão dos investimentos públicos para estimular a economia e retomar o emprego.
    A dívida aumentaria, mas o crescimento da economia no momento seguinte compensaria. O ajuste, como está proposto, só vai penalizar os mais pobres, aumentar o desemprego, segundo o senador paranaense, dissidente do PMDB, único que se manteve na defesa de Dilma Rousseff.
    “Com déficits produtivos, diz ele, poderíamos a curto prazo recuperar o emprego, o investimento e o crescimento econômico. Basta coragem para confrontar a ortodoxia com seus slogans de suposta responsabilidade fiscal”.
    Sem chance de ser candidato por seu partido, Requião terá que buscar nova sigla para levar adiante seu projeto para 2018, que pode ter o apoio do PT se Lula ficar inviabilizado.
    Em seu longo artigo, o senador faz uma análise da conjuntura mundial e da América Latina, onde os ventos do neoliberalismo vem derrubando governos populares. Eis a íntegra:
    “O cenário internacional no qual se movem nossas economias e nossas políticas, abrangendo igualmente a América Latina e a Europa Ocidental, está dominado por nuvens excepcionalmente densas de ameaças com raros precedentes na História.
    Esse cenário tende a afastar ainda mais as possibilidades de retomada do desenvolvimento econômico em grande parte do mundo, pondo em risco, por outro lado, a própria a paz mundial.
    Devemos, como políticos, assumir a responsabilidade pelas raízes dessa crise e pelo imperativo inadiável de buscar saídas. Do contrário todos, e sobretudo os pobres, serão submetidos a sofrimentos ainda maiores do que os que lhes tem sido impostos.
    O Brasil, como sabem, passou por uma experiência política dramática, com o afastamento de uma Presidenta sem que ficasse provado qualquer crime de responsabilidade por parte dela, pré-requisito de impeachment segundo nossa Constituição. Entretanto, não me alongarei aqui a respeito dessa questão política interna, ainda em pleno desdobramento.
    Acontece que a crise brasileira deve ser vista no contexto de crises similares em outros países da América Latina onde, por artifícios diversos, presidentes democraticamente eleitos foram apeados do poder. Não deve ser surpresa que todos esses presidentes afastados fossem do campo progressista. Não é surpresa que todos, sem exceção, tentaram evitar se submeterem às regras explícitas do neoliberalismo, como é o caso da privatização de bens públicos em larga escala.
    A crise pela qual passam América Latina e Europa Ocidental tem uma dupla origem:
    (1) a derrocada prática e da credibilidade do capitalismo neoliberal a partir de 2008, do qual a maioria dos países ocidentais não se livrou, e
    (2) a insistência com que a maioria dos países desenvolvidos insistem em salvar o neoliberalismo na marra pela imposição do credo neoliberal a si mesmos e a outros Estados mais fragilizados economicamente.
    É preciso ressaltar, a esse respeito, que o Governo norte-americano não tomou o veneno que receitou, através do FMI, do Banco Mundial, do BID e da OCDE, tanto para as nações europeias quanto para as nossas nações sul-americanas.
    Adotaram, sim, uma política tipicamente keynesiana no campo fiscal e monetário, com déficit de 1,4 trilhão de dólares em 2009, 1,3 trilhão em 2010, 1,2 trilhão em 2011, 1,1 trilhão em 2012, 1,0 trilhão em 2013. Só a partir de 2014 o déficit ficou abaixo da casa do trilhão de dólares, assim mesmo em nível elevado. Como resultado os Estados Unidos recuperaram algum crescimento, embora não muito grande, mas de qualquer forma suficiente para uma melhora sensível do mercado de trabalho.
    A Europa, ao contrário, mergulhou fundo no receituário neoliberal. Seus sacerdotes, sediados sobretudo na Alemanha, em torno do BCE, obrigaram os países do sul do continente a trocarem a salvação de seus bancos superendividados como consequência da orgia financeira pré-crise de 2008 pelo estrangulamento fiscal.
    O Banco Central Europeu ofereceu crédito a zero por cento, sim, aos bancos dos países mais desenvolvidos. “Em contrapartida”, a esses pacotes de refinanciamento da dívida bancária, o Banco Central exigiu uma contenção fiscal extrema aos países mais pobres. Isso contrai o setor estatal e impediu novos investimentos públicos.
    Nega-se, assim, o que o mundo sabe desde os anos 30, com John Maynard Keynes, ou seja, que a curto prazo nenhuma nação capitalista pode romper uma crise de demanda sem recorrer a investimento público deficitário. É o que fizeram os EUA para sair da crise mais rápido que a Europa. Mas os EUA não deixam que outros o façam.
    O desemprego atingiu níveis catastróficos em alguns países da Europa Ocidental, e, agora, também no Brasil. O Estado do bem estar social, símbolo do mais elevado estágio de civilização do planeta, está sendo corroído velozmente pelas políticas neoliberais.
    Ouvi, espantado, há anos, do presidente do BCE – um burocrata, claro, sem mandato popular – que para sair da crise a Europa teria de liquidar com seu Estado de bem estar social.
    Surpreende-me que nenhum líder político, representante do povo do continente, tenha reagido a essa declaração. Há uma capitulação geral ao neoliberalismo, uma espécie de “consciência pesada” dos capitalistas e políticos pelo que se concederam de forma supostamente excessiva, no passado, a trabalhadores, pobres e minorias. Os ricos, beneficiários da maior concentração de renda dos últimos 40 anos, dos quais 1% já detém a maior parte da riqueza do mundo, querem mais, muito mais.
    Esse tipo de economia política nos faz pensar que a Europa, mãe de revoluções, está apenas dormindo, inconsciente de sua própria tragédia. Em breve, vamos descobrir que foi rompido, em razão da avareza do capital, o pacto social básico que possibilitou, durante décadas, a convivência do capitalismo com o Estado de bem estar social. A hegemonia definitiva de Mamon – o dinheiro, como lembrado pelo Papa Francisco – nós levará a um novo ciclo de convulsões sociais alimentas por uma luta de classes refundada, alastrando-se pelo mundo.
    Na América Latina, a tragédia tem uma peculiaridade: a crise econômica toma logo formas políticas, e uma das indicações é fazer da crise um simulacro de razões legais para derrubar presidentes da República legitimamente eleitos.
    A crise recomeça quando Europa e EUA descartam G20
    Não precisava ser assim. Em 2008, logo na eclosão da crise, o G-20 se reuniu em Washington e a decisão unânime dos líderes mundiais foi no sentido de expandir vigorosamente as políticas fiscais e relaxar as políticas monetárias. A mesma orientação comum foi tomada nas reuniões seguintes de Londres e Pittsburg, ambas em 2009.
    Não havia nenhuma surpresa. Todos sabiam que, com a economia em depressão, era fundamental ampliar os gastos públicos deficitários para reverter a queda da demanda agregada e estimular o crescimento do investimento, do emprego e da renda. Entretanto, com a mudança do governo na Grã-Bretanha e a reconversão da França ao neoliberalismo, a Alemanha, junto com ambos, impôs aos países do euro uma contração geral da política fiscal sob a legenda metafórica de “exit strategy”, ou estratégia de saída das políticas expansivas.
    É importante assinalar por que a Alemanha pôde tomar esse rumo sem ferir os próprios interesses. É que a Alemanha é uma economia chamada “export led”, ou seja, comandada por exportações. Tem anualmente gigantescos superávits comerciais e na balança de conta corrente, já que o euro, para ela, representou uma desvalorização. Isso significa que a ação comercial externa alemã supre as necessidades de liquidez para o financiamento da expansão da economia sem necessidade de políticas fiscais expansivas.
    Entretanto, como é óbvio, isso não se aplica aos demais países do euro, submetidos, além disso, às duras restrições do Pacto de Estabilidade e Crescimento. São economias externamente deficitárias. E seus grandes déficits comerciais, sem dúvida contracionistas internamente, são justamente em relação à Alemanha.
    O comércio é um jogo de soma zero. Se um país tem superávit, outro deve ter déficit para compensá-lo. É um absurdo lógico recomendar que todos os países tenham superávits comerciais ao mesmo tempo. A recomendação – diria, a imposição – alemã para os demais países do euro recorram a políticas de melhora de eficiência e de produtividade para superarem a crise através do aumento de exportações é um contrassenso.
    Na verdade, alguém tem que bancar a saída: no pós-guerra, foi o Plano Marshall, do qual a Alemanha foi a grande beneficiária. Agora caberia a ela, como líder econômica da Europa, fazer sua parte.
    Contudo, ela não faz sua parte. Ela é um centro de formulação ideológica da regressão econômica e política do mundo, dados os efeitos que a crise na Europa irradia para o resto do planeta. O resultado da “exit strategy”, formalmente apoiada pelo BCE, pela Comissão Europeia e pelo FMI, foi a recidiva da crise em toda a Europa, particularmente nos países do sul. E a situação continua ainda hoje.
    No Brasil, o presidente Lula tomou inicialmente a sábia decisão de seguir as recomendações de expansão fiscal do G-20 logo no início da crise. Através do BNDES, o governo brasileiro injetou na economia, em 2009 e 2010, R$ 180 bilhões para investimentos. Ao lado disso, aumentou os valores do salário mínimo e da Bolsa Família, o que teve, conjuntamente, grande impacto favorável na demanda agregada e o investimento. Em consequência, a economia cresceria 7,5% em 2010, depois de contração no ano anterior.
    Infelizmente, em fins de 2010, seguindo a linha da “exit strategy” do FMI, as autoridades econômicas brasileiras se curvaram à ortodoxia neoliberal, como aconteceu com a Europa, e a economia voltou ao ritmo lento.
    O resto da América Latina padece da mesma doença neoliberal. Como exportadora de commodities agrícolas e minerais, sua economia segue o compasso da economia chinesa, a qual mantém um ritmo ainda forte de crescimento do produto, a despeito de pequena queda nos últimos anos.
    Entretanto, no campo do emprego, todos estamos impondo a nossas populações sofrimentos terríveis, sem necessidade. Se rompêssemos com a ditadura da austeridade fiscal, recorrendo a déficit produtivos, poderíamos a curto prazo recuperar o emprego, o investimento e o crescimento econômico. Basta coragem para confrontar a ortodoxia com seus slogans de suposta responsabilidade fiscal.
    Permita-me uma rápida divagação sobre isso, citando o pensamento de Randall Wray, um notável economista norte-americano que escreveu o clássico “Understanding Modern Monday”. As economias, qualquer delas, avançam sempre em ciclos. Ora estão em expansão, ora em recessão. Isso se reflete nos orçamentos públicos, que nunca estão exatamente equilibrados. Nas fases de expansão, é razoável que o governo retire da economia mais dinheiro, na forma de impostos, do que lhe devolve, sobre a forma de gastos e investimentos, a fim de controlar a expansão monetária e a inflação. Nessa fase, com o excesso de dinheiro, paga alguma coisa da dívida pública. Entretanto, em recessão, o governo deve retirar da economia menos do que lhe devolve sob a forma de gastos públicos deficitários, a fim de expandir o poder de compra da sociedade e favorecer o investimento e o emprego. É o gasto autônomo do governo. Nesse momento, a dívida pública aumenta, mas logo ela cairá, em relação ao PIB, por conta do crescimento deste e do aumento da receita pública.
    Recorro a esse argumento técnico para confrontar o principal argumento político de economia da ortodoxia neoliberal: “nunca, jamais e em circunstância alguma, o governo deve gastar mais do que arrecada.” Isso é um absurdo. Na verdade, em recessão, não existe nenhuma possibilidade de retomada do crescimento econômico a não ser pela via do investimento público deficitário. Isso ficou evidente no New Deal do presidente Roosevelt e na retomada da economia brasileira por Getúlio Vargas. Mas ficou evidente também no Novo Plano alemão dos anos 30, feito por quem foi considerado posteriormente como o mago de Hitler, Hjalmar Schacht. Qual foi a mágica desses governos? Investimentos públicos fortemente deficitários que depois se pagaram com o crescimento econômico.
    No que se refere à economia política, o nazismo teve mais consideração com a população de desempregados do que nossos governos. Dessa forma, não é de se estranhar a imensa popularidade dos políticos de extrema direita e até de fascistas na Europa e mesmo no Brasil.
    O Brasil conseguiu manter uma baixa taxa de desemprego até 2014, mas desde então ela aumenta aceleradamente. Ainda sob o comando da presidenta Dilma, sofremos o duplo impacto da chamada operação Lava Jato e do ajuste fiscal do ministro neoliberal Joaquim Levy, inacreditavelmente nomeado pela presidenta.
    Com isso fomos à depressão inédita de 3,85% do PIB, que deve repetir-se este ano e se projeta forte para 2017. Nossa saída é, insista-se, o investimento público deficitário, mas o governo usurpador faz a política oposta de mais contração, propondo inclusive o congelamento em termos reais do orçamento público por 20 anos.
    Vivemos na América Latina e no resto do Ocidente uma situação perturbadora. Não aprendemos as lições de 2008. A legislação para a regulação de derivativos e para separar bancos comerciais de bancos de investimento, apontada como essencial para a maioria dos especialistas a fim de impedir as crises ou suavizar uma nova depressão, tornou-se uma falácia, dada a profusão de possibilidades de exceções e vazamentos. Os Estados Unidos não estão cumprindo suas responsabilidades como líderes da economia mundial; em última instância, é Wall Street que governa o mundo, o que coloca o mundo sob o governo da ganância e da soberba.
    Admiro a nação norte-americana. Admiro seus líderes históricos, como Washington, Hamilton e, sobretudo, Lincoln e Roosevelt. Admiro também Kennedy e Carter. Mas como todo cidadão do mundo fico apreensivo quando a nação mais poderosa da terra decide intervir em outros países para mudar regimes políticos a partir de um conceito de bom e mau regime por ela própria forjado.
    As intervenções militares dos Estados Unidos nas últimas décadas resultaram em desastre político e levaram – na verdade, tem levado – sofrimento a muitas populações, multidões de refugiados, fome e desabrigo. Destruíram o Iraque, destruíram a Líbia, estão destruindo o Afeganistão, virtualmente dividiram a Ucrânia, quase destruíram o Egito, e tem provocado extrema instabilidade na Síria. Nesse caso, a intenção explícita de mudança de regime, suportada por bilionários em conluio com o Departamento de Estado, chega ao ponto de colocar em risco a própria paz mundial tendo em vista a posição da Rússia, favorável ao governo legítimo de Assad.
    Respeito, sim, os Estados Unidos. Entretanto, cito uma frase de Vladmir Putin, o presidente da Rússia, em entrevista recente: “Os Estados Unidos são uma grande superpotência. Talvez sejam a única superpotência do mundo. Mas não podem continuar com essa mania de intervir em nossos países.”
    Felizmente, há uma luz no fim do túnel no jogo econômico e geopolítico. Ela se chama China. Dada a forte interação entre a economia norte-americana e a chinesa há esperança para a paz. Além disso, a China se aproxima da Rússia, Índia, África do Sul e Brasil para estabelecer uma nova rede de relações econômicas e financeiras pacíficas que não passam por Wall Street, através do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos BRICS. E isso é bom para o mundo inteiro. Para a Europa, África e América Latina e para o próprio EUA, porque mais pluralidade implica em mais tolerância, mais democracia, menos arrogância, mais liberdade e mais criatividade.
    O aspecto mais relevante do banco dos BRICS é romper, nos financiamentos de infraestrutura, com as condicionalidades impostas pelo Banco Mundial e pelo FMI na tomada de recursos multilaterais e privados. Ou seja, é uma carta de alforria para as políticas monetária e fiscal vinculadas ao desenvolvimento, e não à ideologia neoliberal.
    Infelizmente há fundadas suspeitas de que os Estados Unidos e as forças internas brasileiras com eles alinhadas estiveram por trás do golpe do impeachment no Brasil. Com seu apego à hegemonia absoluta, Washington considera um desafio inaceitável a aproximação econômica e, finalmente, geopolítica do Brasil com a China e a Rússia. Para eles, não importa as vantagens efetivas para o Brasil nessa aproximação. Como dizem os pais da diplomacia: “países não tem escrúpulos”, e os Estados Unidos, que não tiveram escrúpulos em promover as revoluções coloridas que levaram à destruição de mais de uma nação. Eles não têm demonstrado limites na busca de realização dos próprios interesses, inclusive no campo do domínio do pré-sal brasileiro.
    Aos países da América Latina, e a meu próprio, meu conselho é: busquem atender aos interesses dos mais fracos. Se fizermos isso, a despeito de recuos circunstanciais, consolidaremos a democracia, que é o que importa na política. Pela democracia, chegaremos a uma economia justa e protegida do domínio de potências pretensamente hegemônicas.
    Embora não possamos ficar de costas para os EUA, a China tornou-se também nosso parceiro fundamental na economia. Muitos temem a China por sua força comercial, impondo perdas concorrenciais a seus parceiros. Se prestarem atenção, a China mudou. Na visita que fez ao Brasil, o premiê chinês, Li Keqiang, anunciou os quatro princípios que, enfeixados sob o propósito explícito da cooperação, passaram a pautar as relações econômicas externas chinesas: “orientação empresarial, manejo comercial, participação social e promoção governamental”. Creio que ninguém se oporia a tais princípios. E notem, finalmente, que cooperação foi a palavra mais repetida nos comunicados das três reuniões do G-20 depois da crise de 2008. Infelizmente, nos encontros seguintes, ela quase desapareceu dos comunicados.
    A arrogância neoliberal vai novamente retroceder em razão dos seus reiterados fracassos. Chegará a hora em que todos nós, o Planeta inteiro perceberá que a cooperação econômica, a solidariedade e a busca da paz deverão e serão as linhas mestras das relações internacionais.
    1] Roberto Requião, PMDB, é senador em segundo mandato. Foi governador do Paraná três vezes, prefeito de Curitiba e deputado estadual. É graduado em Direito e Jornalismo com pós-graduação em Urbanismo e Comunicação. É oficial da reserva no Exército.
    (Do Conversa Afiada)

  • Manifesto Frente Gaúcha Escola Sem Mordaça

    A Frente Gaúcha Escola sem Mordaça, composta por entidades representativas de educadores e educadoras, estudantes, comunidade escolar, profissionais atuantes na cultura, na pesquisa, na comunicação, no direito, em ações comunitárias e por movimentos sociais, constitui-se como um espaço coletivo suprapartidário e plural, em defesa da democracia e da justiça social, repudiando os projetos de lei Escola sem Partido, a terceirização e a privatização da Educação Pública.
    A Frente considera fundamental o processo de escolarização da população brasileira, intensificado a partir da democratização do país, e posiciona-se em defesa das conquistas dos movimentos sociais inscritas na Constituição Federal de 1988 e na legislação subsequente, e que visam reparar um processo histórico socialmente excludente, bem como prevenir a violação aos direitos humanos.
    A Frente defende a manutenção e o respeito à Constituição Federal, que em seu Art. 5º garante a liberdade de expressão e no Art. 206 estabelece, dentre outros, os seguintes princípios para a Educação no país: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino. Defende-se também o cumprimento integral do Art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê que “a criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”. Além disso, propõe a consolidação de processos educacionais democráticos que incluem:

    • a liberdade de expressão dos professores, dos servidores e dos estudantes no ambiente escolar e no espaço público;
    • o estudo de temas relacionados às desigualdades socioeconômicas, à sustentabilidade socioambiental e às violações dos direitos humanos, tais como as discriminações e violências étnico-raciais e de gênero;
    • a implantação e a ampliação de políticas de ações afirmativas para a promoção da equidade étnico-racial e de gênero nas instituições de ensino e na sociedade;
    • o oferecimento de matérias científicas associadas à saúde sexual e reprodutiva, bem como à evolução biológica, de forma a promover o conhecimento necessário à sustentabilidade socioambiental e à transformação de uma realidade desigual, injusta e excludente;
    • uma escola pública, gratuita e laica, bem equipada e com equipe profissional capaz de promover o desenvolvimento pleno dos educandos, aprendizagens, acesso ao patrimônio científico-cultural e tecnológico, bem como o exercício pleno da cidadania;
    • a constituição de ambiente de respeito mútuo e de promoção de relações interpessoais de confiança visando a saúde nas instituições educacionais;
    • a gestão democrática das instituições de ensino por meio de eleição das equipes diretivas pelas comunidades de professores, servidores, estudantes e seus responsáveis.

    A Frente Gaúcha Escola sem Mordaça adere à luta da Frente Nacional Escola sem Mordaça, que repudia e solicita o arquivamento de projetos de lei no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, protocolados por defensores do Movimento Escola sem Partido:  Projeto de Lei nº 7.180/2014 (e demais projetos a ele apensados) e do  Projeto de Lei do Senado nº 193/2016; Projeto de Lei nº 1.411/2015, que tipifica assédio ideológico. Na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a Frente Gaúcha Escola sem Mordaça solicita o arquivamento do  Projeto de Lei nº 190/2015, que representa no Estado o programa Escola sem Partido; solicita também o arquivamento dos projetos municipais correlatos.
    Tais projetos de lei, inconstitucionais, buscam produzir uma escola sem reflexão crítica sobre a realidade, impedir a formação para a cidadania e a liberdade de expressão no exercício profissional, incentivando a delação anônima de professores por estudantes e familiares e a coação por meio de notificações extrajudiciais, que ameaçam os docentes com processos de perda do direito ao exercício profissional, perda patrimonial e prisão. Esses projetos pretendem constituir uma única forma de pensar, impedindo a pluralidade de ideias própria à educação pública.
    EDUCAÇÃO PLURAL NA CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA
     

  • Agricultores deixam sede do Incra na Capital gaúcha

    Daniel Isaia – Correspondente da Agência Brasil
    Os camponeses que estavam na sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Ministério da Fazenda, em Porto Alegre, desocuparam os pátios onde estavam acampados desde segunda-feira (5). Os militantes são integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Atingidos por Barragens e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).

    O grupo desmontou o acampamento após participar da marcha do Grito dos Excluídos na capital gaúcha. A desocupação ocorreu após dois dias de negociações entre camponeses e o governo federal, em Brasília, que pautou a situação da reforma agrária. Uma das principais queixas dos militantes é a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU), que pediu que o Incra cortasse o auxílio de cerca de 500 mil famílias beneficiárias da reforma agrária por considerá-las irregulares.
    “Esta foi mais uma etapa importante da luta pela terra no país. Neste primeiro diálogo com o governo, encaminhamos várias reuniões para continuar tratando das nossas reivindicações. Enquanto isso, permaneceremos atentos e mobilizados para cobrar ações que realmente possam mudar para melhor a vida das pessoas”, avaliou Cedenir de Oliveira, da direção estadual do MST.
    Com a desocupação, o expediente nos prédios do Incra e do Ministério da Fazenda, que estavam suspensos, devem ser retomados amanhã (8).

    Edição: Wellton Máximo
  • Marcha dos Excluídos protesta contra reforma da Previdência em Porto Alegre

     

    Daniel Isaia – Correspondente da Agência Brasil
    A marcha do Grito dos Excluídos na capital gaúcha partiu da sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que desde segunda-feira (5) está ocupada por camponeses do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Por volta das 9h30 da manhã, os militantes saíram em caminhada pela Avenida Loureiro da Silva, acompanhados por policiais da Brigada Militar (BM).
    A maioria dos participantes era composta por integrantes do MST. A marcha foi composta, também, por membros da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e por movimentos negros, feministas e de pessoas LGBT. Representantes dos bancários, que estão em greve nacional desde ontem, também acompanharam a caminhada.
    Durante o percurso, os militantes carregaram cartazes e entoavam gritos de ordem que pediam a saída do presidente Michel Temer. “A pauta da marcha deste ano está dialogando com a conjuntura que está aí. Já estamos prevendo as medidas desse novo governo, que certamente vai enfrentar a classe trabalhadora, seja pela [reforma da] Previdência, seja pela redução de direitos, seja pelo impedimento de grandes programas que dialogam com as nossas necessidades”, disse Cedenir de Oliveira, representante da direção nacional do MST.
    A representante da Frente Brasil Popular, Vitalina Gonçalves, ressaltou que a luta está na natureza dos grupos oprimidos da sociedade. “O Grito dos Excluídos de hoje tem esse tom especial, mas sempre estivemos resistindo. Até porque a burguesia nunca aceitou nossas conquistas nesse país”, afirmou.
    A marcha seguiu pela Avenida Edvaldo Pereira Paiva, que contorna o rio Guaíba, e se aproximou do local onde acontecia o desfile cívico de 7 de setembro. O Exército, então, formou um cordão humano com soldados para impedir que o desfile fosse interrompido pelos militantes.
    “O itinerário foi combinado com os organizadores da marcha, e ficou acertado que eles viriam até esse local. Tudo o que foi combinado, eles estão cumprindo”, declarou o tenente-coronel Mário Ikeda, comandante da BM gaúcha.
    Os participantes do Grito dos Excluídos permaneceram nas proximidades do Anfiteatro Pôr-do-Sol durante cerca de uma hora. Perto do meio-dia, os militantes deram meia-volta e retornaram pelo mesmo percurso à sede do Incra, acompanhados por brigadistas militares.

    Edição: Wellton Máximo
  • Justiça proíbe evento sobre eleições em universidade pública do Rio

    Do blog de Fernando Rodrigues, do Uol

    O juiz Marcelo Oliveira da Silva, da 123ª Zona Eleitoral, concedeu liminar (decisão provisória) na tarde desta 3ª feira (6.set.2016) que proíbe a realização de um debate na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. O evento contaria com a participação de candidatos do PT e do PC do B.
    A razão da proibição é a presença de candidatos de apenas uma única coligação entre as que disputam as eleições municipais na capital fluminense. Segundo o juiz, a ausência de outros concorrentes implica em ”conotação exclusiva de manifestação política eleitoreira”, o que é vedado em locais sob responsabilidade da administração pública.
    ”O debate exigirá sempre a ideia de contraposição de pensamento, ou seja, é um modelo de contestação baseado na argumentação onde duas, ou mais, ideias conflitantes são defendidas ou criticadas com base em argumentos”, escreve o juiz em sua decisão.
    Todos os convidados para o debate integram a coligação ”Rio em Comum”, formada por PC do B e PT. Falariam no evento a convite do Diretório Central dos Estudantes da Unirio. Participariam da mesa a candidata do PC do B à prefeitura do Rio, Jandira Feghali; os candidatos a vereador Vivi CDD (PC do B) e Mitã Chalfun (PT); e Leonardo Guimarães, presidente da UEE-RJ (União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro) e filiado ao PC do B.
    O debate estava marcado para esta 3ª (6.set), às 18h. Caso a determinação não seja cumprida, cada participante pagará multa de R$ 20 mil.
    As informações são da repórter do UOL Gabriela Caesar.
    representação eleitoral contra o debate na Unirio foi apresentada pelo candidato a vereador Pedro Duarte (PSDB) na tarde de 2ª feira (5.set.2016). No documento, o tucano citou o artigo 73 da lei 9.504/1997, que proíbe o uso ou a cessão de ”bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta em benefício de candidato, partido político ou coligação”.
    Segundo o candidato a vereador, candidatos de outros campos ideológicos não foram procurados para diversificar a mesa do debate.
    ”Meu objetivo com essa representação é a busca pela isonomia e igualdade entre os candidatos como dita a Constituição e a legislação eleitoral. [Os candidatos] Não podem se valer do aparelhamento do movimento estudantil de universidade para realizar comícios em vez de debates”, disse o candidato a vereador pelo PSDB.
    Jandira Feghali (PC do B) afirmou que ”foi convidada pela organização do evento para apresentar suas propostas e desconhece a dinâmica em relação aos outros candidatos”. O DCE da Unirio preferiu não se manifestar porque ”não recebeu nenhuma notificação sobre o processo”.
    O candidato a vereador Mitã Chalfun (PT) disse que reprova iniciativas que restringem o debate político e que tem o interesse em conversar com ”o maior número possível de pessoas”.
    Procurados pela reportagem, a candidata a vereadora Vivi CDD (PC do B) e Leonardo Guimarães, da UEE-RJ, não enviaram suas versões sobre o caso.

    Evento no Facebook convida para debate com Jandira Feghali e candidatos de PT e PC do B

    Pedro Duarte também foi o autor de uma representação, protocolada na 6ª feira (2.set), contra um evento que reuniria candidatos do Psol nesta 3ª feira (6.set) na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
    Ao lado de Marcelo Freixo, estariam apenas integrantes do mesmo partido: a candidata a vice-prefeita Luciana Boiteux e o candidato a vereador Tarcísio Motta, além do reitor da UFRJ, Roberto Leher.
    O chamado ”Debate pela Juventude e Cidade com Marcelo Freixo” foi cancelado por liminar expedida na tarde de sábado passado (3.set).

  • Em Brasília, protesto contra o governo Temer pede novas eleições

    Mariana Tokarnia, da Agência Brasil
    Manifestantes fazem ato contra o governo de Michel Temer na Esplanada dos Ministérios, do lado oposto ao desfile que marca o Dia da Independência.
    A concentração foi marcada para as 8h30, pouco antes do início das celebrações de 7 de setembro, agendadas para as 9h. Os manifestantes reuniram-se no Museu Nacional, fizeram cartazes e começaram a gritar palavras de ordem por volta das 9h. A expectativa da organização é que 5 mil pessoas participem do ato. Após o desfile, os manifestantes seguirão em caminhada até o Congresso Nacional.

    A movimentação era tranquila no início da manhã. Um grupo estendia quatro faixas com os dizeres: “Fora Temer, eleições já”, deixando-as visível para quem descia o Eixo Monumental em direção ao Congresso Nacional. Mais tarde, outros movimentos também estenderam suas faixas de protesto. Ao todo, mais de 90 entidades se posicionam contra o governo Temer e questionam a legitimidade da tomada de poder, que classificam como golpe.
    “O ato faz parte de uma série de ações contra o governo. Não concordamos com as propostas para diversas áreas, como educação, comunicação”, diz Breno Lobo, integrante do movimento Juntos – Juventude em Luta.
    Militantes do PT estenderam uma faixa verde e amarela de 150 metros já usada no 7 de Setembro do ano passado. O “Não vai ter golpe” de 2015 virou “Fora Temer”, escrito em vermelho.
    O protesto foi convocado pelas redes sociais, recebeu mais de 4 mil confirmações e 4,6 mil manifestaram interesse no ato pelo Facebook, em Brasília. Ações semelhantes foram convocadas em outras cidades do país. A manifestação “Fora Temer”, une-se, este ano, ao Grito dos Excluídos, protesto tradicional de 7 de Setembro, que reúne movimentos sociais em busca de visibilidade e melhores condições de vida.
    “Neste ano, o nosso lema é Fora Temer, nenhum direito a menos. Vamos deixar claro que não sairemos das ruas”, diz Wilma dos Reis, uma das organizadoras do ato. Em frente a um cartaz do coletivo #Mulherespelademocracia, ela diz que os direitos das mulheres estão ameaçados por diversas medidas do atual governo. “É um governo de homens, héteros e brancos, onde a mulher é vista apenas como decorativa nos altos cargos”.
    Por volta das 11h, a Polícia Militar estimava 600 pessoas em frente ao Museu da República. Para os organizadores, o ato reunia 5 mil manifestantes.

    Edição: Lílian Beraldo