O comboio da Força Nacional de Segurança que vai reforçar o efetivo da Brigada Militar no Rio Grande do Sul chegou na tarde deste domingo (28) a Porto Alegre. Ao longo da semana, virão mais 30 agentes da Força.
A chegada dos agentes atende à solicitação do governador José Ivo Sartori feita ao presidente da República em exercício Michel Temer sexta-feira (26). Vindo do Rio de Janeiro, de onde partiu na sexta-feira (26) em 30 viaturas, o grupo tem agentes de praticamente todos os estados brasileiros, com exceção do Rio Grande do Sul. Eles ficarão alojados no 9º BPM e em unidades vizinhas, como o 1º BPM e o Departamento de Logística e Patrimônio.
O comboio chegou sob a liderança do comandante da Força Nacional, tenente-coronel da BM Alexandre Aragon, que até julho era secretário-executivo do Gabinete de Gestão Integrada da Secretaria da Segurança Pública do Estado. O comando das operações, contudo, será da Brigada Militar.
Boina cor de vinho
O grupo é composto por homens e mulheres de praticamente todos os estados brasileiros, com exceção do Rio Grande do Sul. Eles ficarão alojados no 9º BPM e em unidades vizinhas, como o 1º BPM e o Departamento de Logística e Patrimônio.
Os agentes, que utilizam farda camuflada e boina cor de vinho, possuem treinamento rigoroso em direitos humanos, controle de distúrbios civis, policiamento ostensivo e gerenciamento de crise. Além disso, precisam ter longa experiência em policiamento ostensivo e grupamentos de operações especiais.
Os custos são responsabilidade da União. De acordo com o Ministério da Justiça e Cidadania (MJC), cada policial militar que atua na FNSP receberá diárias de R$ 212,40 durante a permanência no Rio Grande do Sul – valor padrão pago pelo governo Federal na condição de colaborador eventual, de acordo com o Decreto 5.992/2006.As viaturas e o combustível também são custeados pela União.
Autor: da Redação
O pelotão da Força Nacional estará nas ruas a partir de terça-feira
Dilma no Senado: "Um momento dramático na vida do país"
“Acho melhor esgotarmos a discussão até o tempo que for necessário”, recomendou Dilma aos senadores que são contra o impeachment, indicando que a sessão no Senado pode se estender pela noite e madrugada. A presidenta afastada terá 30 minutos para sua defesa em plenário.
Depois, cada senador inscrito, mais de 40, terá cinco minutos para fazer perguntas. “Perguntada se sentia confiante, ela respondeu que estava”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que participou da conversa
A presidenta afastada Dilma Rousseff, se reuniu na noite de domingo com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva e a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) no Palácio do Alvorada. Por telefone, ela conversou com senadores aliados, que estavam reunidos no apartamento da senadora Lídice da Mata (PSB-BA), em Brasília.
Dilma disse estar se sentindo segura e confiante, bem como disposta a responder sem restrição de tempo aos questionamentos dos parlamentares nesta segunda-feira, no Senado Federal.
Parlamentares indecisos
Os senadores contrários ao impeachment buscaram, ao chegar à reunião, demonstrar confiança em conquistar os votos dos parlamentares indecisos. Primeiros a chegar, a senadora Vanessa Grazziottin (PCdoB-AM) e o senador Paulo Paim (PT-RS) contabilizaram oito votos reversíveis, que podem chegar a 13.
“É possível reverter todos esses votos”, disse Vanessa. “Uma vez alguns votando, podemos chegar até a 32 (contra o impeachment)”, afirmou ela.
“Tem senador conversando com Dilma, tem senador conversando com Temer”, disse o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Ele afirmou ter confiança de que o discurso de Dilma será capaz de mobilizar a sociedade, sendo um “ponto de virada” no convencimento de senadores que ainda não declararam voto. “A sessão vai ser muito tensa, um momento dramático da história do país… a gente acha que vai ser um discurso de grande impacto na opinião pública.”
Perguntas
A reunião na casa de Lídice da Mata teve como objetivo afinar os questionamentos que serão feitos a Dilma pelos senadores contrários ao impeachment. O grupo deve deixar questões técnicas de lado e apostar no aspecto emocional da presidenta, fazendo perguntas “simples, mas abrangentes”, segundo Vanessa Grazziotin. “Pretendo perguntar como ela se sente diante de todo esse processo”, revelou Randolfe Rodrigues.
Num último empenho de negociação com a base governista do presidente interino, Michel Temer, o grupo de defesa de Dilma tenta fazer com que sejam intercaladas as falas de parlamentares favoráveis e contrários ao impeachment no momento em que terão oportunidade de fazer questionamentos à presidenta.
Pela ordem de inscrição, há um bloco de 12 senadores favoráveis ao impeachment em sequência antes que algum parlamentar contrário ao impedimento volte a falar. “Isso é ruim para nós e ruim para eles, acredito que será possível quebrar isso, intercalar, como é o costume no parlamento”, disse Vanessa Graziotin. (Com informações da Agencia Brasil).
Dilma rejeita "acordão"
Pinheiro do Vale
A presidente afastada Dilma Rousseff prepara-se para a última batalha. Nos bastidores trava-se um esforço derradeiro para o “acordão” que daria por encerrado o episódio político, distribuindo-se fatias de pizza a todos os famintos por poder. Falta o acerto final da teoria de Garrincha: combinar com os russos.
O plano fantasioso para dar por concluído o golpe está em gestação. O principal interlocutor, falando pelo PMDB, seria om presidente do Senado, Renan Calheiros. Como seria?
No seu pronunciamento de segunda-feira, diante do plenário do Senado, de viva voz, Dilma renunciaria à presidência, encaminhando a carta-renúncia irrecorrível. No dia seguinte, posta a votação, o Senado não completaria os 54 votos necessários à cassação.
Com isto o jogo ficaria empatado: Dilma não seria cassada, mas já teria renunciado. Portanto, o vice-presidente da República assumiria por vacância do cargo, e não por deposição da mandatária.
Em contrapartida lhe seria oferecida uma candidatura ao Senado em 2018.
Esta possibilidade já estaria negociada com o PDT, pois dificilmente o PT concordaria com a participação da, já aí, ex-presidente em sua chapa.
A volta de Dilma ao PDT seria necessária por dois motivos: 1) – ela seria candidata numa coligação com o PMDB. Isto seria uma manobra necessária, pois é impensável, neste momento, PT e PMDB marcharem juntos no Rio Grande do Sul; 2) – uma candidatura puro-sangue no PT no Estado seria derrota certa.
Uma outra saída alternativa: Dilma transferir seu domicílio eleitoral e ser candidata em outro estado onde um acordo envolvendo o PT, PMDB e outros inteigrantes da antiga Base Aliada pudesse ser efetivado. É bom lembrar que ex-presidentes que concorreram ao legislativo foram por outros estados que não os seus: José Sarney no Amapá, Juscelino Kubitschek por Goiás. Sem contar que Getúlio apresentou-se em vários estados, como era permitido em 1945 (tomou posse pelo Rio Grande, mas também foi eleito por São Paulo).
Dilma, porém, não concordou. Segundo pessoas próximas, ela nem quis considerar a hipótese. Em primeiro lugar porque está firme no propósito de enfrentar seus algozes até o último tiro.
Em segundo porque não acredita nas garantias de que será retirado o quórum para sua cassação. Ou seja, se renunciar estará se entregando e depois, tal como aconteceu com Fernando Collor, o Senado rejeita a renúncia por inepta e vota a interrupção do mandato.
Assim, não ganha nada: perde os direitos políticos e se desmoraliza ao apresentar a renúncia.
Assim e por tudo isto Dilma rejeitou o “acordão”.
Entretanto, como dizia a velha raposa mineira José Magalhães Pinto, a política é como as nuvens do céu, que conforme os ventos tomam uma forma. Até segunda feira muita água pode passar por debaixo da ponte.
Se nada acontecer, Dilma vai limitar sua participação às primeiras 10 perguntas. Depois então pedirá desculpas, agradecerá, e vai ser retirar. Para isto a senadora Vanessa Grazziotin negociou um acordo para elaborar uma lista prioritária de perguntadores para evitar tumultos e grosserias provocados pela bancada golpista."Com cortes de investimentos, Sartori colhe aumento das mortes"
Reproduzimos, abaixo, reportagem de Luís Eduardo Gomes, no Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Luís Eduardo Gomes
A morte de uma mulher enquanto buscava o filho em uma escola na zona norte da Capital foi o estopim que faltava para o governo do Estado finalmente anunciar mudanças na condução da política de segurança pública do Rio Grande do Sul. Horas após o ocorrido, ainda na noite de quinta-feira (25), foi anunciada a exoneração do secretário Wantuir Jacini, que comandava a Secretaria de Segurança Pública (SSP) desde o início da gestão Sartori, a composição de um gabinete de crise e a viagem do governador para Brasília com o objetivo de negociar o reforço temporário de soldados da Força Nacional com o presidente interino Michel Temer – o que foi confirmado na manhã desta sexta-feira (26).
O caos na segurança, resultado do aumento no número de homicídios e da sensação de insegurança da população, já vem de longa data. Num intervalo de 24 horas, entre quarta e quinta-feira, duas pessoas foram decapitadas na periferia da Capital. No último Dia dos Pais, dois latrocínios, que tiveram como vítimas uma médica e um porteiro, já tinham gerado a comoção da população. O pedido pelo reforço da Força Nacional também já vinha sendo feito desde 2015, bem como vem do ano passado as críticas à condução de políticas para a área no atual governo. O Sul21 ouviu especialistas e profissionais da área para buscar as causas para o aumento da violência e propostas para o setor.
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-RS e estudioso do tema de Segurança Pública, Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo pondera que a questão da violência decorre de um problema estrutural do Estado e mesmo investimentos feitos na gestão Tarso Genro (PT) em recomposição salarial e no reforço da investigação de crimes contra a vida não foram capazes de reverter a tendência de crescimento no número de homicídios. Pelo contrário, estes casos mantêm uma tendência de crescimento pelo menos desde o início da década passada.
Wantuir Jacini deixou a SSP na quinta-feira | Foto: Guilherme Santos/Sul21
Segundo dados do Mapa da Violência divulgados nesta semana, o número total de homicídios registrados no Rio Grande do Sul atingiu a marca de 2.052 em 2014. Em 2004, tinham sido registrados 1.432. No mesmo período, o número de homicídios por arma de fogo em Porto Alegre subiu de 469 para 577. Em 2015, segundo dados da SSP, foram registrados 2.405 homicídios e latrocínios.
Ainda de acordo com o Mapa da Violência, em 2000, o Estado registrava a marca de 16,3 homicídios por 100 mil habitantes, sendo o 11º Estado mais violento do Brasil. Em 2014, ocupava a 19ª posição, mas registrou um aumento para 18,7 homicídios por 100 mil habitantes, o que demonstra que ocorreu uma tendência geral de crescimento da violência no país.
No entanto, os Estados que possuíam os maiores índices de criminalidade, Rio de Janeiro e Pernambuco, registraram fortes quedas no período após fazerem investimentos na área. No RJ, os homicídios por 100 mil habitantes caíram de 47 para 21,5, enquanto em Pernambuco de 46,6 para 27,5.
Ghiringhelli afirma que os problemas estruturais passam pelas questões de desarticulação das instituições envolvidos na prevenção da violência e no processamento judicial e também pela “delicada” situação carcerária do RS, com presídios superlotados e domínio de facções criminosas.
Por outro lado, ele afirma que, desde o início de sua gestão, o governador José Ivo Sartori tomou medidas que promoveram a desestruturação dos mecanismos de segurança do Estado. “O governo assume com um discurso de enxugamento do Estado e de falta de capacidade de investimento. Na área da segurança pública, a primeira iniciativa foi o corte das horas, que são úteis como mecanismos de remuneração de policiais, mas também na organização das corporações”, afirma.
Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo | Foto: Joana Berwanger/Sul21
Além do corte de horas extras, o decreto de contenção de despesas emitido por Sartori em janeiro de 2015 – e renovado semestralmente desde então -, também determinava a suspensão do pagamento de diárias e a redução da cota de combustíveis para viaturas. “Ou seja, desde o início ele assume com uma proposta de fragilização dos mecanismos de segurança e tenta fazer isso mantendo um discurso alheio a todas as manifestações de descontentamento da base de servidores”, diz o professor.
Em relação ao ex-secretário Wantuir Jacini, Ghiringhelli afirma que este determinou como principal foco de atuação das forças de segurança o combate ao tráfico de drogas. No entanto, o professor salienta que mesmo com o aumento considerável no número de prisões efetuados nestes 20 meses, não foram produzidos resultados de diminuição da violência.
“A atuação mais focada no varejo da droga vai ter apenas como resultado a prisão de pequenos traficantes, que não vai ter impacto no mercado da droga, mas no aumento da população carcerária (em 20 meses saltou de 28 para 34 mil presos)”, diz.
Segundo o professor, esse foco na prisão de pequenos traficantes acaba tendo o efeito inverso do esperado, uma vez que as prisões teriam levado apenas ao aumento das disputas pelos territórios deixados por criminosos detidos, o que aumenta a violência dos confrontos entre facções do narcotráfico e, consequentemente, a violência geral na sociedade. “Não impacta na criminalidade de uma forma mais ampla, não reduz o tráfico, mas produz uma desestruturação do mercado e impacta na guerra pelo território”, diz.
Ghiringhelli pondera ainda que o governo manteve um quadro de apatia durante esse período de escalada da criminalidade e é apenas quando aumentam os latrocínios contra indivíduos da classe média que trata de tomar alguma iniciativa, como no lançamento do plano de segurança, mas sem um plano concreto para produzir efeitos de médio e longo prazo.
“O governador lançou o plano de segurança, que seria a chamada de policiais e contratação de viaturas, nada de novo, apenas a tentativa de mostrar para a sociedade que estava fazendo alguma coisa”, pondera.
Para Marcos Rolim, doutor Sociologia e membro fundador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o governo Sartori adota uma política de segurança “ultrapassada”. “O governo optou por conduzir a Segurança Pública com o mesmo padrão em que ela era pensada nos anos 50. Alguns dos nomes mais influentes em torno do governador e do ex-secretário compartilham uma visão autoritária e ultrapassada sobre segurança”, avalia.
Ele também cita o parcelamento dos salários como medida que contribui para desanimar as polícias e reduzir a produtividade. “Para agravar o quadro, Porto Alegre e a região metropolitana passaram a conviver com os efeitos mais graves de uma guerra generalizada entre as facções criminais. A resultante da incompetência do Estado e da ousadia do crime está nas ruas e já impacta o conjunto das atividades sociais, a começar pela economi”, diz.
Leonel Lucas, da Abamf| Foto: Caroline Ferraz/Sul21
Para Leonel Lucas, presidente da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho (Abamf), entidade que representa os servidores de nível médio da Brigada Militar (BM), o aumento da violência é resultado da falta de planejamento pelo governo do Estado e da falta de investimento em segurança pública. Ele avalia que a troca no comando da SSP não deve surtir efeito se não for acompanhada de outras medidas. “Tem que ser uma troca bem maior, não é simplesmente trocar o secretário e deixar tudo como está”, diz.
Isaac Ortiz, presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores da Policia Civil do RS (Ugeirm), também avalia que o aumento da criminalidade no Estado decorre do contingenciamento dos investimentos na segurança.
Ele ainda afirma que os sindicatos de servidores das polícias vem alertando desde o ano passado para o aumento da violência. “Temos dito que a criminalidade iria explodir no Estado. Em 2015, fizemos duas grandes marchas alertando a população que a coisa ficaria insustentável, não fomos ouvidos”, afirma.
Ortiz ainda questiona a justificativa do governo do Estado de falta de recursos para investir na área. Ele lembra que, em nome da crise econômica, o governo Sartori conseguiu aprovar o aumento de impostos, encaminhar a renegociação da dívida com a União, suspender o pagamento de precatórios e aumentar o uso de depósitos judiciais. “Mesmo assim, o dinheiro não existe”, diz. “Em 2016, continuou com a mesma política de contenção de gastos, cortando horas extras, cortando diárias, cortando combustíveis e, pior, não fazendo nenhum investimento social, porque a segurança pública não é só policiamento. Cortou tudo e o que ele achou que ia dar? Ia colher flores? Com essa economia que ele fez, colheu o aumento das mortes no Estado”, afirma Ortiz.
Servidores da área da segurança marcharam em 7 de julho de 2015 para denunciar “desmonte” | Foto: Guilherme Santos/Sul21)
O que fazer
Em um primeiro momento, o secretário Jacini foi substituído por um gabinete de crise, comandado pelo vice-governador, José Paulo Cairoli (PSD), e integrado pelo comando das entidades vinculadas, Brigada Militar, Polícia Civil, Instituto Geral de Perícias e Superintendência de Serviços Penitenciários.
Na manhã desta sexta-feira, após reunião do gabinete, o chefe da Casa Civil, Márcio Biolchi, afirmou que está sendo preparado um plano de ação para ser anunciado em breve e, apesar de valorizar o trabalho realizado por Jacini, reconheceu que haverá uma mudança de política para a segurança pública.
Ex-chefe da Polícia Civil (durante a gestão de Tarso Genro e no início do governo Sartori), Guilherme Wondracek pondera que é essencial aumentar imediatamente o efetivo das forças de segurança. “Se não tem dinheiro, dê-se um jeito”, afirma.
Além disso, ele defende o endurecimento da legislação penal, com o fim do regime semiaberto, e acabar com a cedência de brigadianos e policiais civis para outras secretarias. “Também tem um monte de servidores cedidos ao governo federal”, diz Wondracek.
Ele ainda afirma que é preciso reduzir a estrutura da Secretaria de Segurança, hoje contando como mais de 400 funcionários, e reforçar a autonomia das corporações. “400 pessoas dá dois batalhões da BM e mais de 15 delegacias de polícia”, afirma.
Isaac Ortiz, da Ugeirm |Foto: Guilherme Santos/Sul21
Segundo Ortiz, da Ugeirm, o governo deve mudar urgentemente a política para a área de segurança. “O que ele tinha que fazer é reconhecer o fracasso dessa política de estado mínimo e realmente fazer investimentos em segurança, saúde e educação. O governo passado tinha, e não funcionava muito bem, políticas de territórios da paz. Ele terminou com isso e piorou. A gente tem que entrar para as áreas onde a violência está conflagrada não só com polícia, mas com políticas sociais”, afirma Isaac.
Lucas, da Abamf, avalia que é essencial colocar o salário dos brigadianos em dia para aumentar a motivação da corporação e abrir concursos para a recomposição de efetivo. Por outro lado, ele se diz contrário ao chamamento da Força Nacional afirmando que esta medida não resolve os problemas estruturais do Estado. “Tem que investir nas pessoas”, afirma.
Ele ainda ressalta que é preciso investir em tecnologia, na formação profissional, nos serviços de inteligência das corporações e no reforço do policiamento das fronteiras. “O RS hoje é o Estado pelo qual mais entra armamento e drogas na fronteira. Ele deve cobrar que a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal atuem nesse área.
Já para o professor Ghiringhelli, a vinda da Força Nacional, apesar de ser um paliativo, se justifica. “Numa situação emergencial, diante da sensação de insegurança, da comoção pública, começa a se justificar o chamamento da Força Nacional como uma medida emergencial. Agora, para médio e longo prazo, nós não temos um plano de segurança que contemple essas questões”, afirma.
A longo prazo, Ghiringhelli avalia que o quadro só poderá ser revertido com políticas de prevenção da violência, como a integração das ações do governo do Estado com os municípios, maior integração das polícias e melhoria das condições carcerárias.
“Seria necessário um pacto envolvendo toda a sociedade em políticas de prevenção, ações para jovens na periferia, empregabilidade de egressos do sistema penitenciário e controle de armas de fogo. Há muito poucas, para não dizer nenhuma, iniciativas do atual governo para que as armas sejam recolhidas”, diz.
Marcos Rolim | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
O professor diz ainda que muitas medidas com impactos a curto e médico prazo, inclusive, não necessitariam de grandes investimentos financeiros. Até mesmo para a área carcerária, em que há um grande déficit de vagas, ele pondera que uma mudança de foco do combate ao varejo da droga para o combate de crimes violentos e contra a vida poderia gerar resultados.
Marcos Rolim também compartilha da posição de que é necessário focar as ações nos crimes contra a vida. “É preciso, primeiro, estabelecer o foco na redução dos crimes dolosos que resultem em morte e desenvolver um programa aos moldes do “Fica Vivo” de Belo Horizonte. Isso envolve a fixação de policiais em áreas de concentração de violência (refiro-me às jornadas de trabalho, não à moradia dos policiais) e a disposição de desenvolver projetos consistentes com as juventudes das periferias. Há um número muito grande de adolescentes entre 12 e 16 anos que estão fora da escola e que precisariam ser atraídos de volta ao estudo. É preciso disputar cada um deles com as alternativas ilegais, especialmente com o tráfico”, diz.
Rolim ainda aponta que deveriam ser feitas mudanças profundas na política de segurança. “O governo deveria estimular seus policiais à apreensão de armas de fogo ilegais, inclusive com prêmios em dinheiro por apreensão, e deveria se investir em inteligência policial e perícia para a qualificação da prova nos casos de crimes dolosos contra a vida. Uma profunda reforma prisional deveria elencar estes esforços de emergência, para que seja possível enfraquecer o poder das facções, porque a forma como amontoamos presos é uma das principais formas de organização do crime no Brasil”, diz.
Ele defende ainda que, paralelamente, o governo deveria mobilizar a sociedade e suas instituições, especialmente as universidades, além dos demais poderes, para um esforço concentrado contra a violência e a definição de uma Política de Segurança amplamente pactuada. Além disso, é da opinião que deveriam ocorrer mudanças fundamentais na gestão das polícias. “É impressionante que o RS ainda não tenha sequer estabelecido um padrão de distritos comuns para as polícias. As chamadas Áreas Integradas de Segurança formam a base territorial imprescindível para a atuação conjunta das polícias, coisa que muitos estados já possuem há mais de uma década. A gestão das polícias no RS é folclórica e ninguém presta atenção nisso, muito menos os governos”, afirma.Sartori aguarda pelotão da Guarda Nacional para conter a violência
Chegam a Porto Alegre na segunda-feira 120 homens da Força Nacional, criada em 2004 com a elite das polícias estaduais – militar, civil e peritos, justamente para auxiliar os governos em situações de crise e de emergência. Com a crise na Segurança, o governador José Ivo Sartori, que vinha se negando a pedir reforço federal, afinal admitiu que estava errado e foi a Brasília formalizar o pedido ao presidente interino Michel Temer.
Temer primeiro disse que enviaria “cerca de 200” integrantes da Força Nacional para ajudar a conter a onda de violência que, nas últimas semanas, tem ocorrido na região metropolitana de Porto Alegre. Mais tarde, o portal do governo na internet informava que seriam 150, mais os 30 veículos.
Na reunião que teve com Temer, no final da manhã de hoje (26), Sartori pediu também a construção de uma penitenciária federal no estado, que registra superlotação dos presídios e nas delegacias.
Nos últimos dias, a violência, que é corriqueira na periferia, assustou a população de áreas nobres da cidade: uma médica foi assassinada na capital, um triplo homicídio ocorreu em Alvorada e um homem foi executado no Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). No final da tarde de ontem, uma mulher aguardava o filho sair da escola quando foi morta com um tiro na cabeça diante da filha mais velho.
“Não discutimos o tempo [que eles ficarão] porque consideramos que será o tempo necessário”, disse Sartori, ao negar que o governo do estado tenha demorado a pedir esse reforço.Sartori foi à reunião com Temer acompanhado do senador Lasier Martins (PDT). “Temer reconheceu que o problema de segurança é um dos mais graves do Brasil, e que todo mundo está pedindo a mesma coisa, mas que vai se reunir para pensar no pleito do governador gaúcho”, disse. O governador pediu também ajuda para fazer uma reforma no Presídio Central. Quanto a esse item, o presidente Temer disse que vai reunir a equipe e ver o que é possível atender”, informou o senador.
Sartori solicitou a presença da Força Nacional para a guarda externa de presídios, para assim liberar liberar brigadianos para o policiamento ostensivo. Porém, nos noticiários do início da noite, a informação era que a Guarda Nacional atuará nesse policiamento. Sartori pediu também recursos para comprar armas, viaturas, coletes balísticos e equipamentos de monitoramento.
(Com Agência Brasil)
Um balanço crítico e político das Olimpíadas do Rio
Bruno Lima Rocha – Professor de ciência política e de relações internacionais
Terminados os Jogos Olímpicos do Rio em 2016, entendo que é chegado o momento de realizar uma série de balanços e posicionamentos após o grande evento. Para este texto, aporto duas considerações, uma de ordem territorial, observando o ordenamento da mancha urbana, suburbana e favelizada do Rio de Janeiro e o quanto a realização de eventos similares não modificou a situação de violência policial, abandono de populações inteiras e a prática de racismo institucionalizado, disfarçado de “caos urbano”. Na sequência, faço um debate a respeito do modelo de desenvolvimento do esporte brasileiro visando o desempenho nos Jogos do Rio. A ausência de uma institucionalização do esporte de base sempre foi a mais visível de nossas características, e como tal, infelizmente, continua sendo.
Os Jogos Olímpicos da distopia midiática e o “caos urbano” no Rio
Vivemos as Olimpíadas no auge de um anticlímax político, econômico e social. É como que ao fim de uma realidade fabricada, despertássemos todos diante do anunciado pesadelo da quebra do pacto de classes. Mais do mesmo, os conglomerados econômico-midiáticos que venderam a ilusão, agora vendem a resiliência, ao invés da realidade. Lembremos.
Quando no longínquo ano de 2007, o Rio de Janeiro sediou os Jogos Panamericanos, o país vivia um ambiente político diferente. O estado fluminense era governado pelo ex-tucano Sérgio Cabral Filho, homem vinculado a grupos empresariais arrivistas no período lulista, como a Delta Engenharia e o Grupo X, de Eike Batista. Como base da aliança de governo de Cabral Filho, a presença do PT local e a pavimentação da aliança com a legenda de Michel Temer. As realizações do Rio vieram acompanhadas do lado mais bárbaro e sinistro do Estado pós-colonial brasileiro. Nos meses anteriores ao Pan, que quebrara recordes de superfaturamento nas obras e contratos emergenciais, o número de mortos pela ação violenta da Polícia Militar ultrapassara os do Iraque em plena guerra civil. Uma parte razoável destes dados macabros à época podem ser conferidos no domínio Rio Body Count 2 (http://riobodycount2.blogspot.com.br/).
Em outubro de 2009, se verificarmos as imagens registradas na 121ª sessão do Comitê Olímpico Internacional, veremos discursos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presença do prefeito Eduardo Paes (o mesmo, já no PMDB), do governador Sérgio Cabral Filho, à época presidente do Banco Central e hoje ministro da Fazenda do governo interino-golpista Henrique Meirelles, e do então ministro do Esporte, Orlando Silva, hoje deputado federal pelo PC do B de São Paulo. Esta representação da aliança entre a centro-esquerda, oligarcas e financistas marcou o segundo mandato de Lula e a eleição da sucessora do ex-sindicalista, em outubro de 2010.
Logo após a primeira eleição de Dilma e Temer, o país assistiu a um espetáculo midiático chamado “A Guerra do Rio”, com as câmaras de TV projetando a ocupação do Complexo do Alemão, iniciando com a fuga de traficantes da Vila Cruzeiro, transmitida ao vivo pelas redes de TV líderes (neste link é possível compreender o momento: http://www.youtube.com/watch?v=PDPMPesOaQg). O impacto de ver centenas de homens armados de forma ilegal, em plena luz do dia, dá uma impressão de excepcionalidade. Longe disso, pois se trata simplesmente do cotidiano vivido por mais de três milhões de pessoas apenas da Região Metropolitana do Rio. A “exceção” não é o fato, e sim a transmissão.
Com o acionar coordenado de mídia, tecnocratas do mundo jurídico-policial e agências de marketing digital a serviço dos ultra liberais, a frágil aliança de classes entre ex-reformistas, oligarcas, industriais e financistas foi rompida. Junto desta, podem estar indo para o ralo, tanto a diminuta soberania popular, assim como a maioria de nossos direitos trabalhistas e sociais. Eis as Olimpíadas da distopia.
Apesar do bom desempenho, ainda não temos um modelo de desenvolvimento esportivo
Antes de escrever estas linhas e durante a exibição das Olimpíadas, as quais acompanhei com intensidade, revisei meus escritos a respeito do mesmo tema. A ausência do Estado na promoção do esporte escolar como base para o desenvolvimento olímpico nacional. Ou seja, buscando incessantemente as estruturas de Estado como garantidoras do direito ao esporte como parte fundamental da cidadania, especialmente como parte do direito à infância e a adolescência. Se formos levar em conta este absurdo e os poucos centros de excelência para o desenvolvimento esportivo brasileiro, veremos que os “resultados” em termos de competição, resultam em verdadeiro “milagre” nacional.
O Brasil fechou sua posição nos Jogos do Rio em 13º – mesmo levando em conta o absurdo que é a contabilidade de ouros coletivos como equivalentes a ouros individuais. À frente do país estão, em ordem decrescente, EUA, Grã Bretanha, China, Rússia (desfalcada do atletismo), Alemanha, Japão, França, Coréia do Sul, Itália, Austrália, Holanda e Hungria. Nas sete posições abaixo do Brasil estão, Espanha, Quênia, Jamaica, Croácia, Cuba, Nova Zelândia e Canadá. Nas dez posições sequentes estão: Uzbequistão, Cazaquistão, Colômbia, Suíça, Irã, Grécia, Argentina, Dinamarca, Suécia e África do Sul; nas posições de 31ª a 40ª, estão: Ucrânia, Sérvia, Polônia, Coréia do Norte, Bélgica, Tailândia, Eslováquia, Geórgia, Azerbaijão e Bielorússia. Assim, dentre os 40 primeiros países, verificamos sete Estados nacionais sem modelo de desenvolvimento desportivo, sendo estes: Brasil, Quênia, Jamaica, Colômbia, Argentina, África do Sul e Tailândia. Como o que vale para o Comitê Olímpico Internacional (COI) é o número de medalhas de ouro, alguns países, como Jamaica e Quênia, se especializam em determinadas modalidades ou provas específicas de atletismo e a partir desta base modelam seu desempenho. Proporcionalmente em termos de recursos, instalações e número de praticantes de base, o Brasil foi muito bem, dentro das quadras, deixando para o momento posterior a mesma situação de incerteza e desespero fora dos locais de competição.
O mérito para tais resultados vêm das políticas de alto rendimento (incluindo a polêmica dos atletas “militares”, da abnegação de atletas dedicando-se ao profissionalismo e dos raros exemplos de confederações que têm centros de excelência, ligas profissionais e planejamento. Como modelo fechado, neste sentido, temos apenas a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), não sendo à toa a presença do cartola Carlos Arthur Nuzman na Presidência do Comitê Olímpico Brasileiro e que um dos seus dois sucessores na CBV , Ary Graça Filho, ocupe a Presidência da Federação Internacional de Voleibol (FIVB).
Sendo a CBV o modelo para o desenvolvimento de modalidades olímpicas no país, ressaltando que os esportes coletivos têm outra dinâmica dos individuais (como por exemplo, a necessidade de tipos e atributos físicos pré-condicionados para os coletivos), nota-se que o desporto se desenvolve apesar da ausência do Estado como formulador e implantando as políticas necessárias.
O ciclo de qualquer modalidade com ambições olímpicas é difusão, participação e competição (o que na gíria denomina-se no amadorismo ou nas divisões inferiores como “atleta federado”); partindo dos resultados desta última selecionam-se o alto rendimento e daí os programas de incentivo e permanência no desempenho ranqueado internacionalmente. Sem esta base, fazer do esporte brasileiro um direito de todas e todos é simplesmente uma missão em vida de treinadores abnegados, como o técnico de boxe da comunidade do Vidigal – zona sul do Rio de Janeiro -, Raff Giglio. De seu projeto, além das centenas de crianças que atendem aos treinamentos ao longo de mais de duas décadas, saiu um medalhista olímpico e outros dois selecionados em 2016. Já o aluguel de seu ginásio, após haver sido despejado, é pago com o mecenato de um ator global! Histórias como estas e absurdos institucionais correspondentes, mais que justificam o choro e a raiva de atletas de alto rendimento e os técnicos de base.
Apontando duas conclusões
Aponto, por fim duas conclusões deste texto. A primeira aponta para a injustiça estrutural da mancha urbana do Rio como um espelho das distorções do país. Cada cidade brasileira e sua correspondente Região Metropolitana; acostumaram a organizar grandes eventos e trabalhar com a possibilidade de atração turística sem com isso modificar a injustiça e a pobreza espacialmente dividida.
Já o modelo do esporte de base, ou pior, a ausência deste, simplesmente exaure as forças dos difusores das modalidades desportivas. Como resultado, além das narrativas típicas do capitalismo, onde se destacam os empenhos e valores individuais de superação, temos mais do mesmo. O Estado opera como modelo de acumulação e também atende, parcialmente, a alguns direitos sociais, todos incompletos. Como o direito ao esporte, infelizmente, trata-se do mesmo abandono e injustiça estrutural.
(www.estrategiaeanaliseblog.com / blimarocha@gmail.com para e-mail e Facebook)
Sartori cria "gabinete de crise" após assassinato na saída de escola
Nem o secretário de Segurança aguentou. Depois de meses de crescentes índices de criminalidade, o fracasso da política de Segurança do governo Sartori ficou evidente.
Às 23h16 da quinta-feira, saiu no portal do governo uma nota informando que “o dr. Wantuir Jacini pediu exoneração do cargo de Secretário da Segurança Pública” e que “o governador José Ivo Sartori acabou de constituir um Gabinete de Crise, que será coordenado pelo vice-governador José Paulo Cairoli”.
Foi preciso que uma mulher loira, jovem, bonita, fosse assassinada dentro do próprio carro, na presença da filha de 17 anos, na saída de uma escola num bairro de classe média alta.
Foi diante da escola Dom Bosco, no bairro de Higienópolis, no final da tarde desta quinta-feira (25). A vítima chamava-se Cristine Fonseca Fagundes.
Dez dias antes, no dia 15, Sartori havia sido desmentido após uma declaração desastrosa, de que os latrocínios haviam “diminuído muito”, contrariando levantamento da própria Secretaria de Segurança, que registrava aumento de 35% nesse tipo de crime no primeiro semestre.
O governador convocou todo o comando da Segurança Pública para uma reunião amanhã, sexta-feira (26), às 8h, no Palácio Piratini.
Depois da reunião, o governador anuncia que fará “uma manifestação à população”.
E que “a equipe da Segurança atenderá à imprensa”.
Impeachment: testemunha da acusação é rebaixada a informante
No julgamento do impeachment de Dilma Rousseff, que começou na tarde de hoje (25), a primeira testemunha de acusação foi rebaixada à condição de informante. O que ele disse, portanto, não terá o mesmo peso. O presidente da sessão, ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, acatou em parte o argumento do advogado da presidente Dilma, José Eduardo Cardozo, de que o procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) Júlio Marcelo de Oliveira, arrolado como testemunha de acusação, estaria sob suspeição.
Segundo Cardozo, Júlio Marcelo de Oliveira participou de ato político pela rejeição das contas da presidenta Dilma pelo TCU, inclusive com manifestações nas redes sociais.
A Constituição impede manifestações políticas a membros do Tribunal de Contas. Oliveira também se reuniu com membros do PSDB e outros partidos defensores do impeachment. Lewandowski decidiu desqualificar Oliveira como testemunha e permitiu sua fala apenas como “informante”, de acordo com termo do Código de Processo Civil.
De acordo com a interpretação de Lewandowski, ao responder o questionamento de Cardozo, Júlio Marcelo de Oliveira “confessou” ter participado da convocação do ato pelo Facebook.
A condição de “informante é a mais justa”, disse a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). “A testemunha se obriga pela verdade e ele não, ele apenas informa. Ele teve participação central em todo esse processo”, acrescentou.
Antes da decisão do ministro do STF e presidente do processo no Senado, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) contestou a defesa de Oliveira. Ela mostrou uma chamada para o ato de que Oliveira teria participado, pela rejeição das contas de Dilma, e perguntou: “A chamada para o ato dizia ‘ato para rejeição das contas presidenciais’. Gostaria que a ele fosse perguntado se chamou algum ato para aprovar contas”.
O senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) protestou, dizendo que Gleisi, com sua intervenção, estaria usando “artifício e artimanha” para evitar o bom andamento do processo e afirmou que sua “paciência” está acabando. “Rogo a Vossa Excelência para que mantenha a ordem dos trabalhos”, pediu a Lewandowski.
(Com RBA e Agências)Mitos, história e sabores de uma feijoada completa
Higino Barros
Que prazer mais um corpo pede/ Após comido um tal feijão?/ Evidentemente uma rede/ E um gato para passar a mão…( Feijoada à minha moda- Vinicius de Morais)
País de dimensão continental, o Brasil tem em suas diversas regiões culturas, linguajar, costumes, tipos humanos, geografia e culinárias diferentes, entre tantas outras peculiaridades. No entanto, um prato é definido como típico do País, o que melhor nos representa, a feijoada. Embora não seja bem assim.
Existe a crença, difundida pela cultura oral popular, que feijoada é um prato de origem africana. Teria sido criada nas senzalas dos escravos, com sobras menos nobres- rabo, orelha, língua e pé- da carne de porco comida pelos senhores portugueses.
Acontece que essas partes do porco são muito valorizadas na culinária europeia, inclusive a portuguesa. Assim, não seriam destinadas aos escravos. E feijão preto era um alimento distante da culinária dos escravos no Brasil colonial, embora seja de origem sul-americana e só integrado aos hábitos alimentares da população a partir do século XVIII.
Representação de brasilidade
Como observa o historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo, sendo boa parte dos africanos seguidora do islamismo, como poderiam ter incluído a carne de porco no prato, já que a religião interdita seu consumo? Cascudo indica que a feijoada como a conhecemos, composta de feijão, carnes, hortaliças e legumes, seria uma combinação criada pelos portugueses, apenas no século XIX, em restaurantes frequentados pela elite escravocrata do Brasil.
Sua difusão teria se dado mais tarde em hotéis e pensões populares, principalmente a partir do Rio de Janeiro. E teria se tornado o símbolo culinário do País graças ao Movimento Modernista de 1922, interessado em constituir uma identidade nacional brasileira, segundo Carlos Alberto Dória, em Formação da Culinária Brasileira.
O certo é que o prato sempre fascinou os intelectuais brasileiros. No filme Macunaíma o diretor Joaquim Pedro promove o último encontro do herói picaresco do romance de Mário Andrade com o gigante Piamã, Venceslau Pietra, comedor de gente, numa feijoada. Macunaíma é convidado para uma feijoada em comemoração ao casamento da filha de Venceslau. A iguaria é servida dentro de uma grande piscina, onde a carne humana dos próprios convidados substitui as carnes típicas. A cena, no filme, é memorável e teve como locação um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro, o Parque Lage.
Outro artista que se apropria do tema feijoada é o compositor Chico Buarque de Holanda, autor do samba Feijoada Completa, composta em 1977, canção que nos tempos do politicamente correto de hoje não seria aprovada, já que em sua letra o homem avisa para a mulher, de última hora, que está levando um bando de amigos para almoçar. E recomenda colocar mais água no feijão.
Consta também que o compositor erudito Heitor Villa- Lobos, certa ocasião, depois de longa temporada europeia, foi às lágrimas em Paris, ao ser homenageado por amigos com uma autêntica feijoada brasileira.
Independente dessas questões, o prato foi adotado em todas as regiões do País, variando pouco em sua receita. Há lugares em que se usa feijão mulatinho ao invés do preto, outros usam carnes frescas no lugar de carnes maturadas.
Versão vegetariana
No Rio Grande do Sul, como nos outros estados sulistas, o hábito da feijoada está vinculado ao inverno, enquanto no resto do País ele é consumido em todas as estações do ano. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro há um dia especial na semana em que é item obrigatório no cardápio dos restaurantes.
Antes que o inverno termine e dando continuidade ao Projeto Cultural Memória Alimentar, realizado mensalmente no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, o cozinheiro Daniel Ninov promove uma feijoada completa no próximo domingo, dia 28, com direito a uma versão vegetariana. A ideia é promover encontros gastronômicos em local que remete à cultura, como o Centro CEEE Erico Verissimo.
Na feijoada clássica, vão carnes suínas e charque bovino, acompanhado por farofa, couve e laranja. Entram na versão vegetariana feijão preto orgânico, usado também na clássica, cebola, tomate, berinjela, batata doce, moranga, nabo, pimentões, ervas frescas, tofu defumado e salsicha vegana.
Como a previsão do tempo para domingo é de sol, almoçar no Centro Histórico, visitar os equipamentos culturais próximos, na Praça da Alfândega e Rua da Praia, até o Gasômetro, é um programa recomentado. Depois, se deitar numa rede e passar a mão num gato, como sugere Vinicius de Morais.

Estratificação de renda e de patrimônio dos declarantes de IR no Brasil – a desigualdade é ainda maior do que se imaginava
Róber Iturriet Avila – Doutor em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística e diretor sindical do SEMAPI.
João Batista Santos Conceição – Graduando em ciências econômicas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos e bolsista FEE/FAPERGS.
A ampliação da transparência das declarações de imposto de renda à Receita Federal do Brasil facilitou a mensuração das disparidades no rendimento e no patrimônio dos brasileiros. Anteriormente, os dados disponíveis advinham de surveys como a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) ou a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF). Sabidamente, a renda dos mais ricos está subestimada nessas pesquisas, uma vez que esses tendem a omitir sua receita quando questionados.
Já as declarações de imposto de renda são mais precisas. Há que ponderar que, em muitos casos, os bens imóveis declarados possuem defasagem de avaliação. Além disso, uma parcela do patrimônio está contabilizada em pessoas jurídicas. Por fim, a renda e o patrimônio podem não ser plenamente declarados. De todo modo, esses são os melhores dados disponíveis, mesmo que se restrinjam as 27 milhões de pessoas que declaram imposto de renda.
A partir desses dados, foram estabelecidos intervalos decílicos e centílicos. Ou seja, as análises abaixo utilizam o universo dos dados em intervalos de cem partes iguais, fragmentação centílica, ou em dez partes iguais, análise decílica. Isso quer dizer que o 1º centil se refere ao 1% com menores dados e o 8º decil se refere ao intervalo entre os 70% inferiores e os 20% superiores.
Outro esclarecimento metodológico relevante, antes de observar os resultados, se refere às tipificações de renda. Os rendimentos das pessoas físicas recebem tratamentos tributários diferenciados. Os “rendimentos tributáveis” são majoritariamente compostos por rendimentos do trabalho, embora tenha também rendimento de propriedade, como por exemplo, alugueis. Já os “rendimentos tributados exclusivamente na fonte” e “rendimentos isentos” são compostos majoritariamente por rendimentos do capital, como aplicações financeiras, lucros, dividendos, embora esteja incluso também rendimento do trabalho, como o 13º salário. A soma desses três tratamentos tributários será chamada de “rendimento total” neste texto.
No gráfico abaixo é possível observar que a média de rendimentos se eleva de maneira expressiva nas últimas faixas, sobretudo a partir do 96º centil, cuja taxa de variação do rendimento médio em relação ao imediatamente anterior é de 11,12%, chegando a 20,69% no 98º centil e 148,87% no último centil, enquanto nas faixas intermediárias a taxa de variação fica em torno de 4%. Cabe destacar que o último centil se refere aos mais ricos entre os declarantes e não em relação à população total. Como o gráfico está em R$ 1.000,00; a última faixa retrata renda média acima de R$ 1 milhão.
Gráfico 1 – Rendimento médio total dos declarantes por intervalos centílicos – R$ mil – Brasil – 2014

Fonte: Receita Federal do Brasil
Assim como na segmentação centílica, a repartição decílica do 1% mais rico entre os declarantes passa a elevar de forma mais significativa a partir do 6º decil, com uma taxa de variação de 12,31%, chegando a 30,91% no 9º decil e a 226,63% no último decil, cujo rendimento médio de cada declarante chega a R$ 3.879.300,00. Embora os declarantes permaneçam anônimos, é possível identificar que o declarante que obteve o maior rendimento em 2014 informou ter recebido R$ 1.071.215.915,10 (um bilhão) entre rendimentos tributáveis, dividendos e rendimento sujeito à tributação exclusiva.
Gráfico 2 – Rendimento médio total dos declarantes por intervalos decílicos do último centil – R$ mil – Brasil – 2014

Fonte: Receita Federal do Brasil
A exposição das declarações de bens e direitos é também importante para um entendimento mais acurado do Brasil. Embora muitos desses bens não sofram atualização na base de dados da Receita Federal, como os imóveis, outros são atualizados anualmente, como as aplicações financeiras, por exemplo. Esses dados podem servir como proxy de riqueza. Embora não haja apenas um indicador de riqueza, a consideração do acúmulo pregresso de bens móveis e imóveis, dinheiro, companhias entre outros bens declarados no imposto de renda pessoa física conformam a estimativa mais exata que existe. No que concerne aos bens e direitos, é possível observar uma elevação acentuada nos quatro últimos centis. Na repartição decílica do último centil, a variação mais acentuada se dá nos últimos dois: 54,12% e 241,14%, respectivamente.
Gráfico 3 – Média patrimonial dos declarantes de imposto de renda por centis – R$ milhões – Brasil – 2014

Gráfico 4 – Média patrimonial do último centil dos declarantes de imposto estratificada por decis- R$ milhões – Brasil – 2014

Antes de 1995, o País tributava os dividendos de forma linear e exclusiva na fonte, com uma alíquota de 15%, independentemente do seu volume. Em 1996, com a aprovação da Lei nº 9.249, os lucros ou dividendos passaram a ser isentos. Na medida em que os dividendos são isentos de impostos, os segmentos mais elevados da sociedade contribuem menos ao erário. Os rendimentos isentos de 2014 alcançaram R$ 733,6 bilhões, enquanto o imposto devido total de todos os declarantes foi de R$ 128,83 bilhões, ou seja, bastante abaixo do valor dos rendimentos isentos. Cabe destacar que as isenções de dividendos beneficiou 2,1 milhões de pessoas, dentre elas as 20,9 mil mais ricas do Brasil (0,01%), as quais possuem patrimônio médio de R$ 40 milhões.
Chama atenção também, nas declarações de imposto de renda, o volume de subsídio existente aos gastos privados em saúde e em educação. No mesmo ano em análise, as despesas declaradas chegaram a R$ 76,78 bilhões, 59,6% do imposto devido total, ponderando-se que a dedução não é integral. Adicionalmente, verifica-se que as alíquotas de imposto brasileiras são relativamente menores, seja na comparação com os países desenvolvidos, seja com os demais países da América Latina, conforme já exposto em textos anteriores.
Os dados acima explicitam que a desigualdade no Brasil é maior do que se imaginava, com uma discrepância grande daqueles declarantes que figuram entre o 1%, o que corresponde a 0,13% mais ricos da população total. Ressalta-se ainda que esses declarantes possuem expressivos rendimentos isentos de impostos, ou seja, lucros e dividendos. Desde as primeiras sistematizações mais acuradas sobre o funcionamento da economia, ainda no século XVIII, se preconiza que os tributos devem ser proporcionais à renda dos indivíduos. No Brasil há muito a avançar nessa temática.








Como observa o historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo, sendo boa parte dos africanos seguidora do islamismo, como poderiam ter incluído a carne de porco no prato, já que a religião interdita seu consumo? Cascudo indica que a feijoada como a conhecemos, composta de feijão, carnes, hortaliças e legumes, seria uma combinação criada pelos portugueses, apenas no século XIX, em restaurantes frequentados pela elite escravocrata do Brasil.



