Autor: da Redação

  • Documentários na programação da Sala Redenção em setembro

    Últimas Conversas, derradeiro longa de Eduardo Coutinho
    Últimas Conversas, derradeiro longa de Eduardo Coutinho

    Quatro documentários, de diferentes partes do mundo, realizados entre 2010 e 2015 no Cine Universitário de setembro, na Sala Redenção, com entrada franca.
    Últimas Conversas (2015) abre a programação. Neste que foi seu último longa, o diretor Eduardo Coutinho se debruçou sobre o universo de jovens entre 16 e 18 anos do ensino médio de escolas públicas do Rio de janeiro.
    Em função da trágica morte do realizador, o filme acabou sendo finalizado por dois de seus grandes colaboradores: João Moreira Salles e Jordana Berg.
    Também presente na programação, o média-metragem Jornada ao Oeste (2014), direção de Tsai Ming-liang, é mais um capítulo de uma série que o diretor realiza desde 2012, apresentando a performance de um monge tailandês que caminha pelas ruas de cidades movimentadas. Neste filme a cidade escolhida e Marseille, na França. Uma performance art sobre o encontro e o movimento de duas culturas com velocidades diferentes. Dois outros importantes documentários estão presentes na programação.
    A caverna dos Sonhos esquecidos (2010) do realizador alemão Werner Herzog, e Nostalgia da Luz (2010) do diretor chileno Patrício Guzmán. O filme de Werzog nos brinda com a possibilidade de conhecer a caverna de Chauvet, descoberta em 1994 no sul da França, que esconde no seu interior um verdadeiro tesouro arqueológico quase intocado. Poucos pesquisadores têm permissão para visitar a caverna, algo que Herzog e sua equipe conseguiram.
    Impossível ficar indiferente à beleza dos desenhos e formas geológicas de mundo à parte e de um ambiente praticamente intocável por milhares de anos. Uma pena não ser possível a versão em 3D que, nesse caso, se justifica pela sensação dada ao espectador de participar ativamente da visita à caverna. Nostalgia da luz fecha a programação. Neste filme, o realizador Patrício Gusman, importante diretor de vários documentários sobre a situação política do Chile (entre eles a trilogia A Batalha do Chile), vai até o deserto de Atacama para de lá desenterrar mais uma parte da história escondida da ditadura de Pinochet.
     
    Em cartaz: Documentários
    1 a 13 de setembro, na Sala Redenção – Cinema Universitário
    (Rua Eng. Luiz Englert, s/n., Campus Central UFRGS)
    Entrada Franca
    Últimas Conversas (Brasil, 2015, 87 min) Dir. Eduardo Coutinho
    01 de setembro- quinta-feira – 16h
    06 de setembro- terça-feira – 19h
    08 de setembro- quinta-feira – 16h
    13 de setembro- terça-feira – 19h
    Entrevistas com estudantes do ensino médio público do Rio de Janeiro, com perguntas sobre suas vidas e expectativas para o futuro.
     
    Jornada ao Oeste (Xi You, França/Taiwan, 2014, 56 min) Dir. Ming-liang Tsai
    01 de setembro- quinta-feira – 19h
    02 de setembro- sexta-feira – 16h
    08 de setembro- quinta-feira – 19h
    09 de setembro- sexta-feira – 16h
    Um monge vestido de vermelho caminha lentamente pelas ruas e praças de uma cidade.
     
    Nostalgia da Luz (Nostalgia de la Luz, França/Chile/Alemanha/Espanha/Estados Unidos, 2010, 90 min) Dir. Patricio Guzmán
    02 de setembro- sexta-feira – 19h
    05 de setembro- segunda-feira – 16h
    09 de setembro- sexta-feira – 19h
    12 de setembro- segunda-feira – 16h
    No deserto do Atacama, astrônomos de todo mundo observam as estrelas enquanto mulheres procuram seus parentes, desaparecidos na ditadura chilena.
     
    A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, Canadá/Estados Unidos/França/Alemanha/Reino Unido, 2010, 90 min) Dir. Werner Herzog
    05 de setembro- segunda-feira – 19h
    06 de setembro- terça-feira – 16h
    12 de setembro- segunda-feira – 19h
    13 de setembro- terça-feira – 16h
    Filmagens do interior da caverna Chauvet, no sul da França, onde, em 1994, foram encontrados centenas de desenhos rupestres, datados de cerca de trinta mil anos atrás.
                                   
    Após a sessão do dia 05 de Setembro, segunda-feira, às 19h, debate com Luis Edegar, professor de História da Arte do Instituto de Artes da UFRGS.
     
     

  • Fiergs prega otimismo apesar da queda na produção e emprego

    “Queda mais branda na produção faz expectativa dos empresários avançar”.
    Esse é o título da nota distribuida nesta quarta-feira pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul  com os últimos resultados da pesquisa mensal que a entidade faz sobre o desempenho do setor.
    O esforço para manter o otimismo, que substituiu o pessimismo desde que Michel Temer assumiu, é vísível:
    “Embora tenham apresentado queda na relação com o mês anterior, os índices de produção (47,5 pontos) e o de número de empregados (46,3), revelam que a expectativa dos empresários gaúchos para a economia avançou em julho”.
    A explicação: “Abaixo dos 50 pontos, esses valores significam retração, mas ainda assim são os mais altos para o mês em três anos”.
    Segue a nota:
    “Outro dado a indicar uma nova perspectiva é o do grau médio de Utilização da Capacidade Instalada (UCI), que foi a 66% em julho, um ponto percentual acima de junho. Em relação à usual, porém, a UCI registrou 36,3 pontos, o que mostra que a indústria gaúcha continua operando bem abaixo do normal. Já o índice de evolução de estoques chegou a 49,5 pontos no mês, um mínimo recuo em relação ao mês anterior. Em relação ao planejado pelas empresas, os estoques voltaram a mostrar excesso, apesar de muito pequeno: alcançaram 50,6 pontos, um pouco acima de junho (49,9)”.
    Sobre o semestre, diz a nota: “Com o cenário menos negativo, os empresários consultados na Sondagem Industrial mostram boa expectativa para os próximos seis meses. Os indicadores foram superiores aos de julho e aos dos três últimos anos para o mês de agosto. O avanço mais expressivo se deu nas perspectivas de demanda, 56,8, cujo índice apresentou o maior valor desde abril de 2014. Quantidade exportada (53,8) e compras de matérias-primas (53,7) também cresceram, mas a intenção de investir segue baixa, com apenas 39 pontos.

  • Sistema Único da Assistência Social em risco: tendência de uma agenda neoconservadora

    Jucimeri Silveira*
     As primeiras iniciativas do Ministério de Desenvolvimento Social e Agrário do governo interino de Michel Temer demonstram reais tendências de desmonte do Sistema Único de Assistência Social, num cenário de redução de direitos, de investida neoliberal e de avanço de uma agenda conservadora na política, em detrimento das conquistas democráticas. Os discursos de manutenção do que se conquistou de forma deliberativa e republicana nos últimos 10 anos na Assistência Social, não encontram coerência com a prática de gestão e as propostas, algumas já anunciadas ou implantadas por Decreto, com destaque para:
     Anúncio de recursos financeiros relativos ao exercício de 2016 garantidos apenas até setembro, com orientação de articulação de emendas parlamentares como saída possível. A descontinuidade dos recursos fere a lógica do SUAS quanto aos repasses obrigatórios, regulares e automáticos fundo a fundo, para a manutenção e expansão de serviços continuados. Os bloqueios baseados apenas nos saldos em conta trazem absoluta insegurança aos municípios e prejuízos no planejamento e na manutenção da rede estatal em todo o Brasil. Coloca-se em risco o funcionamento das mais de 10 mil unidades públicas de referência e especializadas que atendem a população mais vulnerável e com direitos violados em todo o Brasil;
    Implantação de Visitadores Sociais vinculados ao programa “Criança Feliz”, voltado à primeira infância. O programa de governo desconsidera a rede de serviços implantada, o pacto federativo e a descentralização, a possibilidade de cofinancimento de serviços tipificados, como a Proteção Social Básica no Domicílio, e o acompanhamento das condicionalidades do Programa Bolsa Família. A contratação precarizada de 80 mil visitadores reforça a tendência de desmonte da gestão do trabalho, com evidente desqualificação do trabalho especializado na assistência social. Com isso, surgem, com novas roupagens, práticas da chamada medicina social, o que nos faz relembrar a implantação em 1920 da primeira Escola de Serviço Social para atendimento materno infantil, as primeiras iniciativas na década de 1930 no Brasil para controle materno infantil e dos pobres. A situação de maior pobreza na infância e juventude evidentemente requer atuação integrada das políticas públicas. Entretanto, devem compor a rede de serviços do conjunto de políticas sociais. A Assistência Social não pode reassumir funções de outras políticas públicas. Os municípios não podem sofrer com a sobreposição, a residualidade e sobreposição de ações;
    Rearticulação das ações solidárias em nível central desconsiderando a municipalização da política, especialmente no papel do município compor e cofinanciar direta e indiretamente a rede socioassistencial não governamental, com evidente tendência de retomada da primazia da atuação solidária da sociedade civil, em detrimento da manutenção e expansão qualificada da rede estatal. A atuação do terceiro setor é complementar e regulada no Vínculo SUAS, e, deste modo, não pode ser a “saída salvadora” para os contingenciamentos de recursos, ou servir de argumento para a organização das chamadas “portas de saída” do Programa Bolsa Família. O Programa Comunidade Solidária do governo Fernando Henrique demonstrou sua incapacidade em substitui os impactos dos sistemas estatais, orientados pelo princípio da universalidade, como o caso do SUAS, bem como da primazia estatal;
    Cristalização da agenda de pactuação de recursos e ações nas instâncias do SUAS. Sob os argumentos de insuficiência de recursos ou redirecionamento da gestão para uma perspectiva de maiores resultados e estudo de cursos, o que se percebe é um congelamento na agenda de pactuação de serviços para todo o Brasil. O Plano Decenal comanda a plena universalização da proteção social na assistência social (benefícios e serviços), com cobertura progressiva para as desproteções, devendo compor um conjunto de iniciativas que possibilitem a redução da desigualdade, das vulnerabilidades e assimetrias de poder;
    Rearticulação das Comunidades Terapêuticas e de políticas proibicionistas, segregadoras e higienistas, para o atendimento da população em uso de álcool e outras drogas. As perspectivas são de retrocessos na agenda integrada entre políticas públicas para a oferta de serviços de atenção e proteção, redutores de danos, com possibilidades maiores de interrupção da condição de rua ou outras situações associadas. A culpabilização dos indivíduos sociais por sua condição encontra total coincidência com a cultura conservadora que moraliza e criminaliza os pobres;
    “Focalismo” extremo nos mais pobres e redução do acesso à Segurança de Renda. As medidas anunciadas quanto aos controles “mais rígidos”, (sugerindo fraudes passadas) no acesso aos benefícios socioassistenciais (Programa Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada), demonstra a evidente tendência de progressiva redução de acessos, baseada na opção neoliberal por restringir políticas distributivas quanto à abrangência, permanência e escala. Maior focalização nos 5% mais pobres em relação ao Programa Bolsa Família ou adoção de critérios como maior grau de dependência, no caso de pessoa idosa e pessoa com deficiência, pode indicar no mínimo um “filtro” maior no acesso a um direito Constitucional. A subordinação da política social à política econômica, desconsiderando inclusive o papel de desenvolvimento das economias locais, coloca em risco a manutenção do vínculo do BPC ao salário mínimo, e a universalização de políticas distributivas, sendo que estas têm efeitos diretos na redução da desigualdade de renda. Expressa, ainda, uma total desconsideração do papel das políticas distributivas no desenvolvimento humano, que evoluiu positivamente 47,8% nos últimos 20 anos, com expressiva redução na última década da pobreza, da fome, da mortalidade infantil, entre outras dimensões que posicionaram o Brasil como referência mundial nas políticas sociais;
    Redução do papel das instâncias deliberativas. A implantação de medidas que não passaram por pactuação e deliberação ferem o pacto federativo construído no SUAS, e expressa um descumprimento da Lei Orgânica de Assistência Social e da própria Constituição Federal de 1988, que define novos dispositivos democráticos. Políticas de Estado respeitam o comando Constitucional da participação, implicam processos deliberativos e interfederativos, o que requer o recurso permanente do diálogo, da produção de consensos disputados nas arenas políticas na via institucional. Negar o processo democrático construído no SUAS combina com a cultura política conservadora, num cenário de golpe à democracia, já que anula o conflito como atributo da democracia, e impõe uma agenda de retrocessos no campo dos direitos humanos e das políticas públicas.
    O cenário político desafia os/as defensores/as de direitos humanos, e, particularmente da assistência social, a uma atuação vigilante, tanto nos espaços institucionalizados de participação, quanto, e, sobretudo, nos espaços políticos de resistência e luta coletiva em defesa da democracia e dos direitos.
     A atual conjuntura revela uma tendência que extrapola os retrocessos na assistência social. Coloca-se em prática nas diversas políticas públicas e sistemas específicos em direitos humanos, uma agenda regressiva, com evidente avanço do conservadorismo. Pautas como a redução da maioridade penal, são alimentadas por propostas que reforçam a face do Estado “gerente” para o mercado e “penal” para os mais pobres e os movimentos sociais.
     Além da subordinação da política social ao ajuste fiscal, outras medidas neoliberais afetam os/as trabalhadores/as, como a reforma na previdência social, a mercantilização da saúde, com o desmonte do Sistema Único de Saúde, a precarização do sistema público de ensino e o programa “Escola Sem Partido”, entre outras. As reformas planejadas afetam a soberania brasileira e as conquistas parciais em direitos humanos, e já sinalizam a volta da pobreza, o aumento da violência e o aprofundamento da desigualdade, em todas as suas dimensões (racial, de gênero, socioeconômica).
    É preciso reafirmar os direitos e as conquistas de nossa democracia recente, entre eles o direito à assistência social num projeto popular de defesa das reformas estruturantes. A conjuntura exige resistência, mobilização e luta coletiva, o que requer uma estreita aliança entre trabalhadores/as sociais e usuários/as dos serviços, com fortalecimento dos movimentos e organizações em defesa dos direitos e da democracia!

  • O Mestre Perguntador morre desencantado com o jornalismo

    Luiz Cláudio Cunha *
    Geneton Moraes Neto (1956-2016)
    O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago.
    Perdemos o Geneton.
    Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complicações de um aneurisma na aorta sofrido três meses antes. Na autoapresentação de seu blog, criado em 2004, ele já avisava: “Nasci numa sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul: Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei”.
    Bela mentira. Em quatro décadas de jornalismo, o Geneton do beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos nós, um exemplo de sucesso e uma referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.
    Ele começou como repórter em sua terra, no Diário de Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo¸ nos duros anos do Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou como camareiro do Hotel Mônaco e motorista de uma família rica enquanto estudava Cinema na Sorbonne.
    Voltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo Globo a partir de 1985. Ali, o repórter que se dizia fracassado foi chefe e mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional,  correspondente em Londres da GloboNews e do jornal  O Globo,  repórter e editor-chefe do Fantástico.
    Nenhuma mesa poderosa da burocracia da redação, porém, deslumbrou o ex-fracassado do beco: “Não troco por nada o exercício da reportagem — a única função realmente importante no jornalismo”, definia Geneton no seu blog. E foi na função seminal de repórter, não como executivo de redação, que Geneton imprimiu sua marca indelével na imprensa brasileira. As provas estão guardadas para sempre no seu blog, geneton.com.br, que devia ser tombado como patrimônio cultural e leitura obrigatória para estudantes, repórteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a inteligência e o conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu ofício de repórter exemplar e humilde diante da notícia e de gente que, como ele, fez História. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e cineastas, atletas e poetas, astronautas e políticos, cantores e compositores, jornalistas e repórteres, grandes repórteres como ele, passaram pelo crivo de sua inteligência e argúcia.
    Os bastardos
    As duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o promotor britânico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar Hitler, os três astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas montanhas de Bora-Bora, o professor do líder dos terroristas do 11 de Setembro, o homem que encarou o ‘Setembro Negro’ nas Olimpíadas de  Munique, o filho do carrasco nazista de Auschwitz que ataca o próprio pai, o guerrilheiro brasileiro que recrutou a mãe para a luta armada, o repórter de Watergate que derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da derrota na final da Copa de 1950 num Maracanã estufado com 10% da população do Rio de Janeiro na época, mais de 200 mil torcedores.
    Todos fazem parte deste universo mágico que Geneton esquadrinhou e trouxe para perto de nós, para nos recontar, com detalhes inéditos, a saga da espécie humana, nos seus bons e maus momentos. “Que se faça a louvação da reportagem. O papel de todo repórter é produzir informação a curto prazo. E memória, a longo prazo – de preferência, nas páginas de um livro, hoje transformado em espaço nobre a reportagem no Brasil”, escreveu Geneton na orelha do penúltimo de seus onze livros, Dossiê História (2007).
    Ali, Geneton se define modestamente como um “pequeno tarefeiro da memória porque, em última instância, a memória é a grande matéria-prima do jornalismo”. Nessa tarefa, ele seguia com devoção o mandamento de um velho jornalista do inglês The Times, que ensinava:
     
    Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta:
    ‘Por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?’
     
    O blog de Geneton se define como ‘jornal de um repórter’ e tem até uma padroeira, uma tal de ‘Nossa Senhora do Perpétuo Espanto’. Ele explicava:
     
      Para que possam contribuir com esse ‘mundo real’, os jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser ‘levantadores’, não ‘derrubadores’ de matéria.
    É aí que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do Perpétuo Espanto. Quando criou esta ‘entidade’, Kurt Vonnegut [1922-2007, escritor, EUA] não estava se referindo ao jornalismo, mas essa ‘santa’ deveria ser proclamada padroeira plenipotenciária da nossa profissão.
    O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas florestas interiores, aquela chama, aquela faísca, aquele espanto que se vê no brilho dos olhos de um estagiário – ou de uma criança.
    Quando você se guia pelo entusiasmo das pessoas que estão fora da redação, o resultado do trabalho é melhor do que se você se guiasse pelo tédio dos que estão dentro.
     
    Geneton ensinava que o mundo real é mais interessante do que o mundo dos jornalistas: “Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. Não estou falando de algo abstrato, mas de uma situação real, palpável, comprovável no dia a dia dos jornais. Cansei de ver em redações um clima de tédio total entre os jornalistas. Se você atravessar a rua, for à padaria e comentar que entrevistou uma velhinha que foi passageira do Titanic, provavelmente os ‘ouvintes’ farão perguntas e se interessarão pelo assunto, enquanto muitos jornalistas dirão, com os olhos semicerrados de tédio: ‘Ah, mas já faz 100 anos que o Titanic afundou…’.”
    Esse diagnóstico levou Geneton à descoberta de uma terrível doença que ataca as principais redações brasileiras: a SFG, a ‘Síndrome da Frigidez Editorial’, que ele batizou e, com ar divertido, ameaçava registrar na Organização Mundial da Saúde. Definição da síndrome, segundo Geneton: “É a doença do jornalista que, depois de anos de profissão, perde a capacidade de se espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de profissão”.
    E jornalista que não se espanta, é claro, nem pergunta mais.
    O crédito do general
    Perguntar é o que Geneton sabia fazer como ninguém na imprensa brasileira.  Como já se disse[*], “o jornalismo é a atividade humana que depende essencialmente da pergunta, não da resposta. O bom jornalismo se faz e se constrói com boas perguntas”.
    Inimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro blusão de gola rolê que fazia contraste com o branco da barba branca e dos cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabeça, Geneton não se intimidava diante das luzes e câmeras da GloboNews, muito menos diante de seus entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele não descuidava nunca do conteúdo, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em letras grandes, em folhas de papel almaço que brandia e consultava sem constrangimentos em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que preservou até o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas — rápidas, incisivas, cirúrgicas —, repelindo as mentiras com outras perguntas que conduziam à verdade.
    Quando o notório Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador, Geneton disparou:
    — O sr. nega então que este Paulo Maluf, aqui, seja o senhor?
    — Nego.
    — Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?
    — Nego.
    — Então, existe outro Paulo Maluf?
    O Maluf à sua frente ficou em silêncio.
    Como todo bom repórter, Geneton era teimoso. Tentou uma, duas, três vezes, até convencer o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015), ministro do Exército do Governo Sarney, a lhe dar uma histórica entrevista em 2010. Nos créditos da telinha, supreendentemente, o general não aparece identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe da repressão da finada ditadura, a quem Leônidas serviu com espartana e rígida fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general é creditado apenas como ‘chefe do DOI-CODI, 1974-1977’.
    O general falou com uma fluência inédita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a arrogância.  Ironizou as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura”) e duvidou até do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”.
    Leônidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do Estado-Maior durante quase três anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. ‘Não houve tortura na minha área’, garantiu Leônidas.
    Devia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I Exército, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e março de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo. Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da afamada rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Exército, comandado pelo notório major Adyr Fiúza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, fantasiava o general Leônidas, e a paz dos anjos se instalou.
    Sem arrogância, Geneton enfrentou o general Leônidas com perguntas precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a história e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repressão política que se orgulhava de seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edição do programa na TV, Leônidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:
    — Que minhas ideias não sejam suprimidas na edição. Se houver um corte, você me deixa mal — avisou o general, esquecido de que o regime de força que ele defendeu se esmerava em cortes sistemáticos pela censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras. Geneton não cortou, e ainda assim o general Leônidas ficou muito mal pelas ideias que exprimiu, livremente.
    Sempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a exótica versão do general de que líderes do regime deposto – como Arraes, Brizola, Jango, Prestes – saíram do Brasil, a partir de 1964, ‘porque quiseram’. Leônidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterrâneo de Geneton, pregando:
    – Ele [Arraes] podia ter ficado em casa…
    – Deposto – emendou Geneton.
    – E qual é o problema? – admirou-se o general.
    – Todo – encerrou Geneton, com a sintética sabedoria que o general, já nos seus 90 anos, ainda não apreendera. – Não havia condições de exercer a política no Brasil, naquela época, general.
    O ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arbítrio e violência, dizendo que o país não teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas ‘fugitivos’.
    – Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justiça – pregou Leônidas.
    – General, num regime de exceção, a justiça não é confiável – replicou o repórter, com a altivez e a dignidade devidas.
    Eu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Leônidas num texto — A arte de perguntar —, publicado pelo site Observatório da Imprensa em 7 de abril de 2010, quatro dias após a exibição do programa pela GloboNews, num sábado.
    Geneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo carinhoso título de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto com o bom humor de sempre:
    Olá. Com um cabo eleitoral como você aí, considero-me eleito para o Comitê Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil. Obrigado!
    No dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma mensagem do diretor da GloboNews, César Seabra, que redistribuiu pelo correio interno o meu texto do Observatório a toda a equipe da TV, com a seguinte determinação:
    Caros,
    o texto do link abaixo faz elogios merecidíssimos ao nosso Geneton. Mas também nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir uma entrevista. É leitura obrigatória para todos – apresentadores, repórteres, editores, produtores, chefes… Aproveitem.  Beijo e bom dia,
    César
    <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=584FDS016>
    Bolt da garotada
    O incansável Geneton não desistiu do general, que ficou satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas, como cabe numa democracia. “Devo ter recebido uns 400 telefonemas…”, disse o eufórico Leônidas a Geneton, num encontro casual num final de manhã de junho de 2014 num shopping do Leblon. Em março de 2015 Geneton pensava num lance mais ousado. Colocar o general da repressão no estúdio diante de um guerrilheiro da luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. “Vou dizer uma coisa que você não sabe: o Cid foi prisioneiro meu”. O encontro épico sonhado por Geneton nunca aconteceu: Leônidas morreu três meses depois, aos 94 anos, exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.
    Geneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta é a missão central do repórter: “Não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público”, repetia ele ao público, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universitário promovido pela Famecos (Comunicação Social) da PUC de Porto Alegre. É o mais longevo (29 anos em 2016) evento de comunicação do sul do país, atraindo gente da Argentina, Uruguai e outros países. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.
    Mesmo diante da crise econômica que vive a indústria da comunicação e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princípios. Fidelidade absoluta à reportagem e ao seu ídolo maior, Joel Silveira (1918-2007), “o maior repórter brasileiro”, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia, até a sua morte, com a reverência de um fã.
    Joel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Diários Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:
    — O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor, senhor Silveira: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!
    Joel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de Chateaubriand, morreu um pouco.
    — Fui para a Itália com 27 anos, passei dez meses e voltei com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos — confessou o ídolo Joel ao fã Geneton, que a partir desses 20 anos de convivência e confidências, juntando fitas K7 e imagens amadoras, acabaria produzindo um documentário fundamental de 90 minutos sobre o maior repórter brasileiro: Garrafas ao mar — A víbora manda lembranças, exibido pela GloboNews em 2013.
    Geneton se divertia contando as relações de seu ídolo com os magnatas da mídia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de ‘víbora’. De Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, onde Joel publicou suas últimas reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu repórter a Jerusalém e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradição judaica, numa das frestas do Muro das Lamentações, acompanhado de um pedido. Joel cumpriu a pauta do patrão, que lhe perguntou na volta:
    — E aí, Joel, fez o pedido?
    — Fiz, Adolpho. Pedi para você me dar um aumento de salário…
    O porta-estandarte
    Um dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira — “Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda” — reproduz bem a visão que seu fã pernambucano tinha de boa parte da mídia atual, em que o jornalismo cede espaço ao partidarismo, a razão é acuada pela paixão, a isenção é atropelada pela facção. Geneton também deplorava o engajamento até de jornalistas experientes em uma ou em outra banda partidária, no calor de uma luta político-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e mútuo xingamento, tão estridente que nem dava para ouvir a banda passar.
    Geneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar nessas bandas, definia:
    — Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulha ideológica.
    Geneton via em Joel o seu ideal cada vez mais romântico do repórter que sobreviveu à ‘ditadura da objetividade’, imposta para combater pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu à maldição dos tempos atuais, com textos áridos, chatos, anêmicos, soporíferos, iguais. “Lástima, lástima, lástima”, lamentava Geneton.
    Geneton sonhava com alguém pichando os muros da cidade, proclamando: “Chega de objetividade! As notícias eu já vi na internet e na TV! Quero vivacidade, imaginação, arrebatamento, ousadia!”. No seu devaneio, Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de jornalismo, segundo ele exilado para a Sibéria.
    — A luta por um jornalismo mais vívido, mais atraente, mais iluminado faz parte da luta por um Brasil menos medíocre. Por que não? — perguntava-se Geneton, mais uma vez.
    Para sustentar sua teoria, ele usava a prática inigualável de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Colômbia de 1948 que se seguiu ao assassinato de um candidato liberal da oposição, Jorge Gaitán, abatido na rua com três tiros. Os protestos, desordens e a repressão desatada em Bogotá, num único dia, deixaram um saldo de 500 mortos só na capital. Trecho do texto de Joel:
    Estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de repórter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela explosão popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos tão mortos. Somente aquele menino – não mais de oito anos – morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os olhos vazios fixavam o céu de chumbo. As mãos de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de um pequeno barco. Um funcionário qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.
    Geneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:
    — Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: ‘Onde escondeste o verde clarão dos dias?’. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clarão?
    Geneton, sempre amigo e solidário, acompanhou solitário o final de vida dos últimos 20 anos da víbora da reportagem. Ninguém mais frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembranças, história e Joel Silveira.
    — Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! — suspirava o velho repórter, que já não saía de casa e já não tinha amigos. Só Geneton. Joel desprezou o tratamento de um câncer na próstata para morrer em casa em 2007, na amarga mansidão de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu último amigo.
    Um dissidente
    O fim melancólico de Joel Silveira, que Geneton definia como precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay Talese e Truman Capote, explica um pouco a visão cada vez mais pessimista que Geneton tinha do próprio jornalismo na atualidade.
    Geneton criava, produzia, executava, editava e apresentava suas próprias reportagens na GloboNews, com a doída convicção de que, como Joel, ele se tornava uma avis rara do jornalismo, um exemplar de dinossauro condenado à extinção imposta pelo cometa brilhante da inevitável modernidade tecnológica. Geneton parecia, agora, uma víbora que já não confiava nem na peçonha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.
    Aqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua melancolia, fazia vazar sua desilusão.
    Na véspera do réveillon de 2010, ele publicou em seu blog uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um ‘Teste para Seleção de Jornalistas’. Era uma azeda reflexão sobre o jornalismo:
    Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos a vagas nas redações.
    O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três minutos, diante de um fiscal da empresa.
    Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão jornalística.
    Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado.
    Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo.
    Cinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa definição de Winston Churchill para a União Soviética de Stálin (“É uma charada envolvida num mistério dentro de um enigma”), Geneton voltou a filosofar com amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o título ‘Entrevista de Emprego’, que seria cômica, se não fosse trágica:
    Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com toda sinceridade:
    ‘Depois de décadas na estrada, tenho a nítida, nitidíssima sensação de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi um equívoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora é tarde para voltar atrás. Bola pra frente, então! Faz de conta que é a melhor profissão do mundo!
    E é – para os que se descobrem tecnicamente incapazes de fazer alguma coisa que seja de fato útil ao avanço da humanidade!.
    Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os candidatos.
    Eu ouviria o aviso de dispensa sumária, me levantaria, cumprimentaria o dispensador e diria: ‘Parabéns! Você nunca tomou uma decisão tão acertada!’.
    Cinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em que me agradecia pela louvação à sua ‘arte de perguntar’, o e-mail privado de Geneton traía sua desilusão já na linha seguinte, com uma inesperada autodefinição em tom de confissão:
    Pode parecer pretensão, mas acho que realmente o jornalismo se mediocrizou. 
    O exibicionismo toma o lugar da substância, especialmente na TV. 
    Modestamente, considero-me um dissidente.
    O dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker, nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto diáfano de desencanto, deixando no ar uma última pergunta, que cabe a todos nós responder:
    — Por quê?
    *Luiz Cláudio Cunha é jornalista, autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. L&PM, 2008).
    cunha.luizclaudio@gmail.com
     
     
     
     
     
    [*] Todos temos que lembrar. Discurso proferido na diplomação do autor com o título de ‘Notório Saber em Jornalismo’, outorgado pela Universidade de Brasília (UnB), em 9 de maio de 2011. http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/todos-temos-que-lembrar/
     

  • Lava Jato: após omitir-se, o Supremo se assusta. Vai acordar?

    Marcelo Auler – Reporter

    Em sua coluna de terça-feira (23/08) na Folha de S. Paulo, a farejadora Mônica Bérgamo – a quem devo parte do Prêmio Esso que recebi em 1992 quando estávamos na Veja -, traz a público a indignação do ministro Gilmar Mendes – logo ele – com o vazamento de informações – Vazamento de citação a Toffoli em delação abre crise entre STF e  MPF. Referia-se ao provável vazamento por procuradores da República de informações reveladas por Veja em sua última edição. Foi uma tentativa direta de queimar o ministro Dias Toffoli como, aliás, Luís Nassif  comentou em oportuno artigo no  próprio sábado (20/08) – A vingança torpe da Lava Jato contra Dias Toffoli. Tanto que viralizou.
    No transcorrer do dia, Mendes voltou a se manifestar, ampliando suas críticas às 10 Medidas Contra a Corrupção, apresentadas pelo Ministério Público Federal, com mais de dois milhões de assinaturas coletadas em todo o país. Segundo o UOL, o ministro do Supremo Tribunal Federal, referindo-se aos procuradores da Lava Jato, sem citá-los comentou que os “cemitério está cheio desses heróis“.
    Bateu firme na proposta de “que prova ilícita, obtida de boa fé, deve ser validada”. Para ele, “a priori, tem que ser muito criticada e se negar trânsito. Imagine, agora, um sujeito que é torturado, ah, mas foi de boa fé”.
    Avançando, criticou os procuradores e foi citar seu velho arqui-inimigo, o ex-delegado federal Protógenes Queiroz, da Operação Satiagraha – deflagrada em 2008 -, expulso da Polícia Federal por violação de sigilo funcional.
    “Isso lembra o nosso delegado herói, que fazia interceptação telefônica sob o argumento de que agia com bons propósitos. Ora, espera aí. A autoridade se distingue do criminoso porque não comete crime, senão é criminoso também! Aí vira o Estado de Direito da barbárie (…) Estado de Direito tem que ser Estado de Direito. Não se combate crime com a prática de crime. É preciso moderação, que os procuradores calcem as sandálias da humildade”.
    Acostumado a lidar com procuradores da República desde os anos 90, com muitos dos quais desenvolvi amizade, eu lamento que dentro do Ministério Público Federal, que sempre assumiu o seu papel constitucional de fiscal da lei, tenha hoje um grupo – pequeno, é verdade – que se destaque pela defesa de métodos que ferem a Constituição e o Estado de Direito, Pior ainda, o próprio juiz Sérgio Moro defendeu algo parecido na Câmara dos Deputados, mas naquela vez não se ouviu qualquer voz do STF criticá-lo.
    Alerto para um comentário postado aqui no blog pelo leitor Ramirez Gonzaga, que certamente já é o que muitos começam a defender. Se acontecer, entendo que será um retrocesso, mas plenamente justificado aos olhos de uma parcela da sociedade, pela ação deste pequeno grupo que age sob o silêncio da maioria. Diz o leitor Gonzaga:
    “Com todo respeito ao Ministério Público, vejo que os poderes investigatórios desse órgão deve ser revisto e seus membros devem se ocupar apenas com sua função acusatória. Esse negócio da Liga da Justiça formada entre um juiz, procuradores e policiais federais se mostrou perniciosa ao País”.
    Silêncio sobre o grampo na cela – Não sei se a opinião de Mendes é compartilhada pelos outros dez ministros . Geralmente não é. Mas, ao que parece, o Supremo está despertando muito tarde para um problema que vem sendo apontado na Lava Jato há anos. Aqui neste blog, desde agosto de 2014. E não só pela questão dos vazamentos, mas também pelo uso de métodos heterodoxos adotados nas investigações que acabaram sendo validados, ainda que indiretamente, pelos tribunais superiores, inclusive o próprio STF.
    Para citar um exemplo clássico, basta refazer uma pergunta muitas vezes repetida aqui: O que foi feito pela Polícia Federal – e pelo Ministério Público Federal, que deve exercer o controle externo do DPF – da sindicância sobre o grampo ilegal encontrado na cela da Alberto Youssef?
    O resultado desta sindicância, lembre-se, foi prometida pelo corregedor do DPF, delegado Roberto Mario da Cunha Cordeiro, em ofício ao próprio juiz Moro, para o final de novembro de 2015 (veja ao lado), como noticiamos em novembro na reportagem Grampo da Lava Jato: aproxima-se a hora da verdade.
    Passaram-se nove meses e ela não veio a público.E o pior, por todas as informações que se tem, ela está concluída e deverá atingir pesos pesados da Força Tarefa da Lava Jato. Mas não é tornada pública. Medo de serem obrigados a punir membros da Força Tarefa?
    Afinal, como o agente da Polícia Federal Dalmey Werlang confessou, foi ele quem instalou o grampo a mando dos delegados Rosalvo Ferreira Franco, superintendente do DPF no Paraná, Igor Romário de Paulo, coordenador regional da Delegacia de Combate ao Crime Organizado (DRCOR) e Marcio Anselmo Adriano, que comandava as investigações na época.
    Sindicância engavetada – É algo semelhante com o que aconteceu com a sindicância para apurar o grampo mandado instalar no fumódromo.
    Desde agosto de 2015, na primeira reportagem nesse blog sobre a força tarefa de Curitiba –  Lava Jato revolve lamaçal na PF-PR – noticiamos que, através  do depoimento do Agente de Polícia Federal (APF) Dalmey Werlang, que o grampo no fumódromo partiu de uma ordem da delegadas Daniele Gossenheimer Rodrigues, chefe do Núcleo de Inteligência Policial (NIP) da Superintendência, coincidentemente, esposa do delegado Igor.
     A responsabilidade dela pela colocação do grampo foi confirmada pela Sindicância realizada, mas a corregedoria e a direção-geral do DPF decidiram que ela e Werlang só responderão a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), tal como informamos em Para o DPF, grampo ilegal na Superintendência do PR é transgressão disciplinar, Esqueceram que o uso de grampo ambiental sem autorização judicial é considerado crime?
  • Prefeitura restringe informações sobre projeto Cais Mauá

    Naira Hofmeister
    Uma notinha sem fonte, na coluna de Tulio Milman, na ZH desta terça, 23, informa que a qualquer momento a prefeitura de Porto Alegre pode dar sinal verde para o início das obras do Cais Mauá.
    A tramitação do Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU), último passo antes da emissão das licenças, está na fase final.
    Há mais de um mês o Jornal JÁ está em contato diário com as pastas responsáveis pelo licenciamento: a Secretaria Municipal de Urbanismo (Smurb) e o Gabinete de Desenvolvimento e Assuntos Especiais (Gades) para atualizar o processo. Não tem obtido sucesso.
    A Smurb argumenta que, embora tenha concluído a sua parte na análise do EVU, não pode se manifestar porque faltam os pareceres de outras áreas do Executivo municipal, como a Secretaria de Meio Ambiente (Smam), o Departamento Municipal de Águas e Esgotos (Dmae) e Empresa Pública de Transportes e Circulação (EPTC).
    Ao Gades, o JÁ solicitou uma entrevista com o secretário Edemar Tutikian, que apenas hoje pediu que fossem enviadas perguntas por e-mail.
    A reportagem tampouco obteve retorno aos sucessivos pedidos para acessar um parecer da Procuradoria Geral do Município (PGM) validando os índices construtivos que caducariam, segundo a legislação, em dezembro de 2012.
    Projeto entra na pauta da Cauge
    Uma reunião nesta tarde, na sede do EdificaPOA, pode acelerar o processo. É o encontro semanal da Comissão de Análise Urbanística e Gerenciamento (Cauge), que poderá colocar o projeto em pauta.
    Desde que entregou o Estudo de Impacto Ambiental, nos últimos dias letivos de 2015, o consórcio Cais Mauá do Brasil aguarda a autorização para o início das obras. Na ocasião, o grupo acreditava poder iniciar os trabalhos na área histórica em março deste ano.
    Mas já na primeira análise do projeto na Smurb, os técnicos apontaram a necessidade de alterações importantes para adequá-lo à ideia original, ampliando o espaço para o transporte coletivo e os pedestres e qualificando a relação das novas construções com o entorno do Centro Histórico e do Quarto Distrito.
    Os arquitetos do empreendimento trabalharam nessas sugestões e já devolveram o projeto à Prefeitura, que agora avalia se pode ou não conceder as licenças ao consórcio. Como o projeto já passou no Conselho do Plano Diretor, essa deve ser a última etapa a ser vencida.
    Empreendedores preveem nova alteração societária
    Ao Governo do Estado, o consórcio Cais Mauá solicitou recentemente informações sobre como proceder para registrar uma nova alteração no controle acionário. Segundo o diretor geral da Secretaria Estadual de Transportes, Vanderlan Frank Carvalho, trata-se apenas de uma consulta preventiva: “Eles não chegaram a pedir a alteração societária, mas sim qual procedimento deve ser adotado quando essa alteração ocorrer”.
    A atual formação do consórcio está sem recursos em caixa – os empreendedores não tem dinheiro sequer para pagar fornecedores, que estão cobrando as dívidas na Justiça. Porém, com a licença para obras em mãos, são aguardados novos investidores e o controle do grupo pode ser modificado novamente.
    Um dos problemas mais graves da descapitalização do consórcio foi a suspensão do pagamento da vigilância da área, que é tombada pelo patrimônio público, o que levou as empresas a interromperem o serviço. O Estado precisou assumir essa responsabilidade, mas segundo Frank essa situação durou menos de um mês. “Notificamos o empreendedor e eles retomaram o controle da área”, assegura.

  • Vídeo: Confira palestra seguida de debate com o economista Róber Ávila

    Ocorreu na Alergs, nesta quarta, 24 de agosto, a palestra “A estratégia de aniquilamento do PT e o risco de disruptura”. O professor Róber Iturriet Ávila, doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, expôs durante cerca de trinta minutos um histórico dos dados macroeconômicos do país que contradizem o cenário de terra arrasada propalado tanto pela imprensa, como pelo grupo político que assumiu o executivo com o afastamento de Dilma Rousseff.
    Encerrada a exposição do professor Ávila foi aberto espaço para debate, que foi intenso. Houve grande participação dos presentes, que expuseram diversos pontos de vista, revelando, em diversas ocasiões, relações entre o golpe de 64 e o atualmente em curso.
    Confira a integra do evento clicando aqui.

  • Cem dias do afastamento de Dilma: nove livros denunciam golpe

    A edição de domingo do jornal argentino Pagina/12 distribuiu, em sua edição de domingo (21), o livro Golpe en Brasil (Golpe no Brasil – Genealogia de uma Farsa).
    A publicação de 184 páginas traz textos do escritor Frei Betto, do jornalista uruguaio Raúl Zibechi, e do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, entre outros, além de uma entrevista com a presidente Dilma Rousseff.

    Dilma foi afastada do cargo no dia 12 de maio, após o Senado admitir o processo de impeachment, encaminhado pela Câmara dos Deputados sob o comando de Eduardo Cunha. Os artigos do livro foram escritos entre abril e junho.

    A publicação contou com produção e organização do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), Octubre Editorial e Universidade Metropolitana para a Educação e Trabalho (Umet), e já possui uma versão digital.

    “Brasil, o país de todos, convertido agora em um laboratório de experimentos para um novo tipo de golpe institucional que pode se estender por todo o continente”, afirma Pablo Gentili, secretário-executivo da Clacso, no prefácio da obra.

    Golpe no Brasil é, e não poderia ser de outra maneira, um livro de luta. Um livro em que o conhecimento, a análise crítica e as reflexões pretendem contribuir com os movimentos sociais, as forças políticas que resistem, se articulam e lutam contra algo que é muito mais grave do que abuso de poder e uma farsa na democracia por parte das oligarquias locais, dos meios de comunicação dominantes e de setores do poder Judiciário. Este livro quer contribuir e entender o que aconteceu no Brasil para garantir o legítimo retorno de Dilma”, completa o prefácio.

    Quando se completaram cem dias do afastamento da presidente Dilma Rousseff, dia 19, já se contavam diversos livros sobre o processo de ruptura democrática no Brasil, além de registros de resistência na sociedade. Desde então, a velocidade dos retrocessos legais surpreendeu a maioria da população.

    Neste breve período, diversos autores publicaram livros sobre a ruptura democrática que o país experimenta. Pensando nisso, o Blog da Maria Frô reuniu uma bibliografia sobre o tema. A RBA aproveitou a ideia e acrescentou alguns títulos:

    Golpe 16.jpg

    Organizado por Renato Rovai, a obra traz textos de blogueiros, jornalistas e ativistas que denunciaram o golpe antes dele ser consumado. Além dos artigos analíticos, o livro traz uma entrevista com Dilma Rousseff. O prefácio é assinado pelo ex-presidente Lula. Editora Fórum, R$ 42.

    Democracia, direitos humanos e mídia

    Democracia, direitos humanos e mídia.jpg
    De autoria do jornalista e deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), o livro reúne artigos publicados em jornais, revistas, blogs e sites sobre ataques à democracia e aos direitos conquistados durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. A obra ainda conta com análises sobre as coberturas e o papel da mídia no golpe.

    A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganadoA radiografia do golpe.jpg

    Neste título, o sociólogo Jessé Souza apresenta uma análise acadêmica contundente do processo de impeachment que levou ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Jessé aponta como os ataques jurídicos, políticos e midiáticos reverteram o processo de hegemonia no governo brasileiro, colocando o país nas mãos dos interesses financeiros e políticos de uma pequena elite. Editora Leya, R$ 34,90.

    A resistência ao golpe de 2016

    A resistência ao golpe.jpgO livro reúne textos de advogados, professores e operadores do direito, cientistas políticos, jornalistas, filósofos, economistas, políticos, escritores, todos comprometidos com a resistência ao golpe, ainda que não necessariamente alinhados política ou partidariamente. Editora Canal 6, R$ 55.

    A Classe Trabalhadora e a Resistência ao Golpe de 2016A resistência da classe trabalhadora ao golpe.jpg

    Obra reúne 69 artigos de 87 autores de diferentes áreas de atuação. “São artigos curtos, de até cinco páginas, portanto, convidativos à leitura, mas que se propõem a fazer análises, seja política, seja econômica, seja jurídica ou seja análise social e política”, explica um dos coorganizadores da obra, o advogado Gustavo Ramos. A obra é o segundo livro de uma trilogia sobre o golpe em curso no Brasil. O primeiro livro é A Resistência ao Golpe de 2016.

    A resistência internacional ao golpe de 2016

    A resistência internacional ao golpe.jpgNo terceiro livro que dá sequência ao A resistência ao golpe de 2016, acadêmicos, juristas, advogados, juízes, personalidades do mundo do direito, além de alguns nomes conhecidos da política internacional, dos mais diversos países, contribuíram com artigos, opiniões e entrevistas para criticar o processo de violência contra a democracia brasileira.

    Por que gritamos golpe?por que gritamos golpe.jpg

    Com subtítulo Para entender o impeachment e a crise política no Brasil, a obra apresenta textos de mais de 30 autores, entre eles: Luíza Erundina e Boaventura se Souza Santos, com charges da cartunista Laerte Coutinho. Editora Boitempo Editorial, R$ 15.

    O Brasil que queremos

    O Brasil que queremos.jpgOrganizado pelo sociólogo Emir Sader, o livro conta com prefácio de Luiz Inácio Lula da Silva e textos de autores como o teólogo Leonardo Boff, o economista Marcio Pochmann, o médico Alexandre Padilha e a filósofa Márcia Tiburi. A obra define caminhos e utopias para um Brasil melhor, pensando em políticas progressistas em diferentes campos. Editora LPP UERJ.

  • As múltiplas desigualdades e sua reprodução: seremos mesmo o "lobo" uns dos outros?

    Marília V. Veronese – Psicóloga Social e Professora
    Costumamos ignorar, ou não dar a devida atenção, às desigualdades – grandes/estruturais ou pequenas/cotidianas -, que presenciamos constantemente e que fazem nossas sociedades injustas e indignas. A norma sob a qual vivemos é branca, cis (identidade sexual igual à designada), heterossexual, masculina e rica/classe média, adulta (mas jovem), “saudável” e sem deficiências. O que acontece com quem não preenche tais requisitos? Negros, índios, mestiços (não-brancos em geral), gays/lésbicas, transgêneros e travestis, pobres, periféricos, portadores de alguma deficiência, crianças e velhos?
    Bom, esses terão muito mais chance de experimentar as agruras de uma sociedade estruturalmente injusta, cindida entre quem é plenamente cidadão e quem não é, quem acessa as benesses da civilização e quem fica de fora. Tendem a ser expulsos – ou nem sequer incluídos – do contrato social. Esse pacto foi o que fundou o Estado moderno, com o objetivo de organizar a sociedade numa forma viável, pacífica e justa de vida coletiva, na qual o mais forte não esmagasse o mais frágil.
    Nas aulas sobre contratualismo, quando eu “testava” meus alun@s do curso de economia pra ver quem era mais hobbesiano ou mais rousseauniano, sempre havia quem achasse que o homem é mesmo o lobo do homem e não tem jeito. Thomas Hobbes postulava que a natureza humana era violenta e todos se matariam uns aos outros, caso o Estado não centralizasse o poder e terminasse de uma vez com a bagaça, ficando conhecido pela expressão “o homem é o lobo do homem”. Já Jean Jacques Rousseau acreditava numa natureza humana pacífica e bondosa, mas achava que a ganância por acumular mais do que o semelhante corrompia o homem, vivendo em sociedade em regime de propriedade privada. Nesse caso, caberia ao Estado garantir a justiça e a igualdade entre os humanoides. “Deixa a Bangu pra ver o que acontece!” disse um aluno uma vez, certo do caos completo e aniquilação geral sem a repressão do Estado.  Em gradientes variáveis, cada um/a deles/as tinha uma posição, mais próxima ao pessimismo de Hobbes ou ao otimismo de Rousseau, em relação à natureza humana.
    Poderemos viver juntos?, perguntava-se o sociólogo Alain Touraine. Seremos mesmo os piores inimigos uns dos outros? Iguais, mas diferentes; juntos, mas separados. “O inferno são os outros”, já dizia o existencialista Sartre. Esse tema foi e é objeto das mais variadas interpretações e mais apaixonadas impressões.
    Conforme se combinem as vulnerabilidades citadas anteriormente, mais a situação fica difícil para o sujeito em sociedade. Se for mulher, pobre e negra, os piores trabalhos e as menores remunerações serão as delas (conforme mostra a pesquisa do IPEA[1]). Se for travesti, ou preto e periférico, a expectativa de vida é bem menor do que a média da população em geral. Se for negro, pobre, gay e morador de rua… melhor seria fugir pras montanhas e viver de mel silvestre e gafanhotos, como aquele cara cabeludo que viveu há uns 2000 anos atrás e mandou todo mundo se amar e viver solidariamente, sem julgar ninguém (alguns não souberam interpretar sua mensagem – ou são mesmo muito canalhas e manipuladores – e preferem dizer que ele mandou “dar pancada em gay”, estimulando violência e ódio).
    A chamada constituição cidadã de 1988 visou incluir mais gente no contrato ou pacto social. Aquela combinação que diz assim, “Olha, pra viver pacificamente em sociedade tem de ter maior igualdade, mais gente deve ser incluída nas benesses da civilização, nessa invenção moderna chamada de cidadania”. O direito a ter direitos, individuais e coletivos.  O direito a sair da condição de “inferioridade” produzida e legitimada, de não mais vivenciar conflitos sociais que causam privações, dor, sofrimento e humilhação cotidiana, aquilo que a psicóloga social Bader Sawaia chama de “sofrimento ético-político”.
    Agora que o projeto democrático-constitucional iniciado em 1988 está sob forte e virulento ataque, corremos o risco de aprofundar ainda mais as desigualdades, e não somente mantê-las intocadas (o que já seria terrível). No que consistia esse projeto? Na ampliação da democracia, dos direitos sociais, da participação popular, através de comitês, conselhos, mecanismos pluripartites de gestão das políticas públicas e universalização de direitos como saúde e educação básica.
    Os direitos sociais, econômicos e culturais são aqueles vinculados ao trabalho e renda, à educação e à saúde, chamados direitos de segunda geração, ligados à ideia de igualdade. A primeira geração de direitos, ligada à ideia de liberdade, refere-se ao direito de ir e vir, votar e ser votado, não ser preso arbitrariamente… e a terceira geração, ligada à ideia de fraternidade, são os direitos ao meio ambiente saudável, à autodeterminação dos povos, patrimônio comum da humanidade e livre comunicação. Liberté, egalité, fraternité! Ideias liberais iluministas. Será que os que são contra os direitos humanos – trogloditas de internet! – mas colocam bandeira da França no perfil das redes sociais sabem que os ditos cujos nasceram lá? Quer dizer, há controvérsias, há origens variadas e mais antigas, mas deixemos essa discussão para outro texto! Modernamente, o lema da revolução francesa é a gênese da tradição de direitos humanos.
    A ampliação de direitos e a justiça social nunca foram, contudo, uma unanimidade entre os brasileiros (nem em nenhum lugar do mundo). As elites nacionais sempre quiseram manter a senzala servindo a casa grande, e morrem de medo da revolta “dos de baixo”. Já eu, sonho com o dia em que eles finalmente acabarão com a festa dos canalhas, parando de eleger para o legislativo pastores picaretas, gastadores de dinheiro público e grileiros do PP; se recusando a ser o saco de pancada geral e parando de servir às elites por migalhas. Quando o morro descer pro asfalto fora da época de carnaval, disposto a exigir seus direitos, talvez os ideais de Rousseau e o lema da revolução francesa finalmente se concretizem. Mas de verdade e para tod@s, não só para os de sempre numa enganação muito típica das democracias modernas ocidentais, que exploram e oprimem a vontade longe de suas fronteiras.
    Para debater as origens da legitimação das desigualdades aqui no Brasil, recorro a Jessé de Souza. Cito, pois é um “vício” de todo pesquisador acadêmico a citação; cito porque Jessé disse com muita propriedade aquilo que penso: “O economicismo liberal, assim como o marxismo tradicional, percebe a realidade das classes sociais apenas ‘economicamente’, no primeiro caso como produto da ‘renda’ diferencial dos indivíduos e no segundo, como ‘lugar na produção’. Isso equivale, na verdade, a esconder e tornar invisível todos os fatores e precondições sociais, emocionais, morais e culturais que irão constituir a renda diferencial, confundindo causa e efeito. Esconder os fatores não econômicos da desigualdade é, na verdade, tornar invisível as duas questões que permitem efetivamente compreender o fenômeno da desigualdade social: a sua gênese e a sua reprodução no tempo”. Mas que fatores são esses aos quais Jessé alude?
    As múltiplas disposições culturais que as pessoas trazem dos seus contextos de nascimento e desenvolvimento. As oportunidades brutalmente desiguais de estudo, formação, experiências enriquecedoras.  Sofrer racismo na infância. Ter de trabalhar muito cedo e não ser socializado visando o aprendizado e ensino formal avançados.
    Corroborando a leitura bourdiana de Jessé, o cientista estadunidense Karl Hart fez uma pesquisa e constatou que uma criança de ambiente sociocultural elevado, já aos 3 anos, terá um léxico muito mais variado do que uma que se cria em ambientes de pobreza, privação e pouca escolarização. As brutais desigualdades, porém, são camufladas e tudo se resumirá ao esforço pessoal – ou a ausência dele. A igualdade formal – letra morta da lei – é tomada como real, o que não é verdade.
    A isso Jessé chama de “economicismo”, uma ideologia nefasta e que está na base da naturalização das desigualdades. Cito novamente: “Apesar de ‘invisível’, esse processo de identificação emocional e afetiva já envolve uma extraordinária vantagem na competição social seja na escola, seja no mercado de trabalho em relação às classes desfavorecidas. Afinal, tanto a escola quanto o mercado de trabalho irão pressupor a ‘in-corporação’ (tornar ‘corpo’, ou seja, natural e automático) das mesmas disposições para o aprendizado e para a concentração e disciplina que são ‘aprendidas’, pelos filhos das classes privilegiadas, sem esforço e por mera identificação afetiva com os pais e seu círculo social. ”
    O brasileiro médio ainda é racista, homo e transfóbico, tem muito preconceito de classe e ajuda a reproduzir a sociedade injusta e perversa em que vivemos. Nega o massacre da juventude negra e pobre e tem uma bestial sede de vingança dos que considera “bandidos”, volta e meia se envolvendo em linchamentos por aí. Nega tudo isso, obviamente: afirma que o importante é se esforçar, que gente vagabunda não tem as coisas porque é vagabunda. Comete assassinatos lógicos ao abstrair completamente as pessoas de seu ambiente social e achar que todos têm iguais condições e predisposições, ignora o processo social opaco, como diz Jessé, de produzir “indivíduos nascidos para o sucesso” de um lado e outros “nascidos para o fracasso” de outro. As exceções a essa regra só a confirmam, pois são exceções. E a condição de exceção já é a confirmação do caráter geral da regra.
    Precisamos de uma ampla reforma no pensamento social, na ação de cada um/a em sociedade, na compreensão mais profunda e complexa da gênese da desigualdade e da evitabilidade de sua reprodução, mediante ações combinadas do Estado e da sociedade civil. Os privilégios de alguns diante da ausência de direitos de outros são vergonhosos. A ostentação é ridícula. Mudar a forma de vida é essencial, tendo a solidariedade e senso de justiça como guias. E o lobo, aliás, nem merece a má fama que tem, ele é um belo animal. Só ataca se realmente precisar: Hobbes estava enganado, e nós podemos ser lobos, digo, humanos bem melhores do que temos sido.
    [1] http://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf
     

  • Crise na imprensa: Abril acumula prejuízos de 350 milhões em dois anos

    Os prejuízos acumulados nos dois últimos anos de operação da Editora Abril (2015 e 2014) já acumulam cerca de R$ 350 milhões e as obrigações da empresa (dívidas e contas a pagar) já superam o valor dos seus bens.
    Nesse período, a empresa que tem como carro chefe a revista Veja, viu suas receitas cairem 25%, o que torna difícil uma recuperação, segundo análise do contabilista Marcelo de Oliveira Dias, feita para o blog Conversa Afiada. Eis a íntegra da análise:
    À espera de um milagre
    O grupo empresarial detentor da revista VEJA é o grupo Abril Comunicações S.A., registrado na receita federal do Brasil sob o CNPJ 44.597.052/0001-62, conforme demonstrado em documento abaixo:
    O grupo Abril, por ser uma empresa constituída sob a forma de sociedade anônima (S/A) está obrigada por força de lei a anualmente publicar as suas demonstrações financeiras, documento esse que reúne a sua posição financeira no encerramento do exercício sob análise (direitos e obrigações) e o resultado das suas operações realizadas no ano (receitas e despesas), além de uma série de informações adicionais a título de “notas explicativas” para possibilitar um melhor entendimento das informações financeiras reportadas.
    Esse é um documento público, disponível no site da empresa, e pode ser localizado no seguinte endereço: http://grupoabril1.abrilm.com.br/AbrilComunicacoesBalanco2015.pdf
    OBJETIVO
    O objetivo desse estudo é analisar a situação financeira atual do grupo Abril.
    RELATÓRIO DOS AUDITORES INDEPENDENTES
    As demonstrações financeiras publicadas são acompanhadas de parecer emitido por auditor independente. O objetivo é atestar a veracidade e acuracidade das informações apresentadas.
    As demonstrações financeiras do grupo Abril foram auditados e validadas por uma das 4 maiores empresas de auditoria do mundo, atualmente a PWC (a mesma empresa de auditoria da Petrobrás atualmente).
    O relatório emitido pelo auditor independente possui um parágrafo de “ênfase”. Essa situação se faz necessária quando o negócio da empresa auditada possui alguma situação que possa afetar a habilidade dos usuários dessa informação realizarem a melhor avaliação das informações apresentadas ou no caso de alguma situação relacionada a riscos na continuidade operacional do negócio da empresa auditada.
    No caso da Abril, a ênfase existente no relatório diz respeito aos prejuízos anuais sucessivos apurados pela empresa, situação que pode indicar problemas relevantes no modelo de negócio da empresa, podendo levar ao encerramento das operações da empresa caso nenhuma providência seja tomada.
    Em suma, o parágrafo diz que os prejuízos acumulados nos dois últimos anos de operação da empresa (2015 e 2014) já acumulam cerca de R$ 350 milhões em prejuízos e que as obrigações da empresa (dívidas e contas a pagar) já superam o valor dos seus bens.
    Realizado uma análise das informações disponíveis, podemos chegar as seguintes conclusões:
    OBS: Vamos sempre nos ater aos valores apresentados na coluna “CONSOLIDADO”, que diz respeito ao somatório do desempenho de todas as empresas que fazem parte do “grupo” Abril.
    RECEITAS
    Em relação as receitas verificamos uma queda de R$ 433 milhões de reais de 2014 para 2015, o que em termos percentuais representa uma redução de 25% (ou ¼) do total de receitas do grupo. Enquanto os negócios buscam o crescimento contínuo de suas receitas (seja por aumento de preços, aumento de vendas e/ou combinação dos dois) o grupo Abril viu as suas receitas despencarem e encolherem 25% apenas no período de um ano para o outro.
    CUSTOS E DESPESAS
    Em relação aos custos de vendas e despesas operacionais, verificamos uma redução de R$ 229 milhões de reais, equivalente a 12% dos gastos totais. Essa redução é basicamente reflexo da queda das vendas (redução dos custos diretos relacionados as vendas) e demais esforços da administração para redução de custos.
    GERAÇÃO DE CAIXA
    Se tratando de análise de informações contábeis, existem diferenças entre as receitas e despesas contábeis e as efetivas entradas e saídas de caixa. Em função disso, existe um demonstrativo que tem o objetivo de apresentar o comportamento dos fluxos de caixa de uma empresa. A seguir as informações do Grupo Abril:
    Podemos verificar que o grupo Abril, nos últimos dois anos, está consumindo mais caixa do que é capaz de gerar.
    Essa informação diz respeito apenas as atividades operacionais da empresa (os resultados do negócio em si) aqui não vemos efeitos por exemplo de compra/venda de bens e tomada e pagamento de empréstimos e nem pagamentos e recebimentos realizados com os sócios da empresa.
    De uma forma clara e objetiva, podemos verificar que a empresa, nos últimos dois anos, não consegue gerar caixa suficiente nas suas atividades para manter a sua operação normal e já acumula R$ 158 milhões de reais em prejuízos realizados.
    ENDIVIDAMENTO
    A empresa faz uso de empréstimos e financiamentos na sua gestão operacional.
    Conforme informações apresentadas na nota explicativa 14, a empresa possui empréstimos e financiamentos a pagar no curto prazo (com vencimento até dezembro de 2016) no montante de R$ 338 milhões de reais. O endividamento de logo prazo (a ser pago de 2017 até 2019) é de R$ 531 milhões de reais. O endividamento total do grupo monta o impressionante valor de R$ 889 milhões de reais. Esses valores ainda estão sujeitos a correção (aumento) de juros, até o prazo final do pagamento. O valor da dívida corrigida por juros supera a marca de R$ 1 bilhão de reais.
    Os credores principais da dívida da empresa (equivalente a R$ 719 milhões de reais) são grupos privados, detentores das Debentures emitidas pela empresa. O restante (R$ 125 milhões de reais) está nas mãos de bancos nacionais de primeira linha (BRADESCO, ITAÚ, HSBC).
    AVALIAÇÃO DA CONTINUIDADE OPERACIONAL DO NEGÓCIO
    Com base nas informações reunidas acima, podemos chegar a algumas conclusões:
    O grupo encerrou o ano de 2015 com um caixa disponível de R$ 20 milhões de reais, e recebíveis no valor de R$ 282 milhões de reais, o que totaliza um recurso (sujeito a realização) de R$ 300 milhões de reais. Os passivos da empresa (excluídos os empréstimos e debêntures) formado por contas a pagar de fornecedores, impostos, salários etc, monta o valor de R$ 492 milhões de reais, ou seja, a empresa já tem um déficit (falta de caixa) de R$ 190 milhões de reais para pagamento das suas obrigações correntes.
    Adicionalmente, verificamos que a atividade da empresa não vem gerando caixa nas suas atividades operacionais nos últimos dois anos e já acumula R$ 158 milhões de reais em prejuízos realizados.
    Acrescentamos a esse cenário a necessidade de pagamento de R$ 338 milhões de reais de empréstimos de curto prazo (até o final de 2016), além dos R$ 551 milhões devidos a partir de 2017.
    Com base nos dados analisados do desempenho do grupo Abril nos últimos 2 anos e com base na sua situação patrimonial e financeira no encerramento do exercício de 2015, podemos concluir que existem 3 alternativas para a continuidade do negócio nos próximos anos:
    1 – Aumento de capital por parte dos sócios acionistas;
    2 – Obtenção de linhas de financiamento com juros subsidiados e longo prazo de pagamento;
    3 – Alguma reviravolta que gere uma retomada no desempenho das receitas operacionais.
    COMENTÁRIOS DO AUTOR
    Com base na análise dos dados disponíveis, fica claro e evidente as dificuldades financeiras que o negócio vem enfrentando. Dificilmente negócios conseguem suportar a uma queda de 25% das suas receitas de um ano para outro. Redução de receitas normalmente precisam vir acompanhadas de redução do negócio como um todo, e uma reestruturação nesse sentido, no período curto de um ano, dificilmente consegue ser bem-sucedido.
    Em relação as alternativas apresentadas:
    1 – Aumento de capital por parte dos sócios acionistas:
    Os sócios estão dispostos e/ou possuem capital disponível para investir no negócio. Sem uma mudança brusca no plano de negócio da empresa, quais as chances desse capital ser recuperado? Dificilmente o acionista irá realizar uma capitalização nessa situação sem que exista um horizonte no mínimo claro que demonstre uma mudança nos rumos do negócio, caso contrário, será jogar dinheiro pelo ralo. Em situações desse tipo, os acionistas normalmente procuram proteger o seu capital e deixar as dívidas em nome da “pessoa jurídica”, no caso a empresa, e “rolar” essa dívida, tornando ela de difícil cobrança. Importante ressaltar que, ao final do ano de 2015, os acionistas realizaram aumento de capital em dinheiro no valor de R$ 215 milhões de reais. Esse valor foi integralmente consumido nas operações da empresa e não foi suficiente para reequilibrar as finanças. Dificilmente os acionistas terão “folego” ou disposição para realização de novos aportes.
    2 – Obtenção de linhas de financiamento com juros subsidiados e longo prazo de pagamento:
    Os bancos de fomento estão autorizados, via de regra, a conceder financiamentos para negócios em áreas estratégicas e que possuam modelos de negócio sólidos, que realmente demonstrem grandes chances de recuperação dos valores financiados. Empresas endividadas e com modelos de negócio problemáticos são conseguem obter recursos.
    3 – Alguma reviravolta que gere uma retomada no desempenho das receitas operacionais.
    O negócio do grupo tem no seu “core” o seguinte:
    Diante dessas atividades, apenas mudanças significativas nos hábitos de consumo dos leitores ou eventos extraordinários poderiam gerar uma retomada nas vendas de publicações ou aumento do interesse na aquisição de publicações impressas. Parte relevante das receitas do grupo são oriundos das atividades de publicidade e propaganda nos seus diversos canais de comunicação.
    Os gastos com publicidade do governo federal têm apresentado uma tendência de redução nos últimos anos. Conforme tabela abaixo, podemos verificar uma redução de 34% nos últimos dois anos (2013 e 2014) nos gastos com publicidade do governo no principal veículo de comunicação do grupo Abril.
    A queda do interesse dos consumidores em adquirir materiais impressos e no “jornalismo” abordado nas publicações do grupo tem contribuído significativamente para a queda no desempenho da empresa.