Autor: da Redação

  • Ocupação Demhab: juíza entende que não é caso de polícia

    A Justiça rejeitou o pedido da Prefeiura, de reintegração de posse do prédio do Demhab, que está desde ontem ocupado por uma centena de pessoas de movimentos sociais por moradia.
    Em vez disso, a juíza Karla Aveline de Oliveira, da 5ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre, marcou uma audiência de conciliação, na próxima segunda-feira, e convocou a Fundação de Ação Social e Cidadania (Fasc) a participar da mediação.
    Escreveu a juíza:
    “Das diversas matérias e reportagens juntadas com a inicial, verifica-se que os movimentos populares que ocupam a sede da parte autora possuem extensa lista de reivindicações. Ainda, a própria autarquia reconhece a legalidade ou pertinência do movimento. Assim, considero absolutamente profícua e pertinente a designação de audiência, oportunidade em que todos os envolvidos, com a mediação do Ministério Público e Defensoria Pública, poderão expor suas razões e pedidos.”

    Há cerca de 40 ocupações urbanas por moradia em Porto Alegre. No Demhab, estão o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e Movimento Nacional da População de Rua (MNPR). Hoje, entrou a ocupação Campo Grande, ameaçada de despejo na próxima terça-feira, 19.
    Entrevista coletiva
    Nota da Prefeitura foi foi respondida ponto por ponto. Foto: Pepe Martini/MTST
    Nota da Prefeitura foi foi respondida ponto por ponto. Foto: Pepe Martini/MTST

    De manhã, a Prefeitura publicou uma nota no seu portal na internet. À tarde, os manifestantes deram uma entrevista coletiva. Da calçada, no lado de fora da cerca do prédio, os poucos jornalistas que compareceram não puderam entrar, nem fizeram muitas perguntas.
    A nota divulgada pelos ocupantes responde ponto a ponto a nota da Prefeitura.

    Prefeitura Municipal: Sobre a invasão da sede do Departamento Municipal de Habitação (Demhab) por integrantes de diversos movimentos sociais, a Prefeitura de Porto Alegre esclarece que:
    1) A tarde dessa quinta­-feira, 14, marcava um momento de diálogo entre o Município e entidades ligadas à moradia popular. Na reunião em questão, que demonstrava mais uma vez a disposição do Executivo em tratar do tema, participavam diversos órgãos municipais e o vice-­prefeito, Sebastião Melo.
    Ocupa Demhab: “No dia de ontem, 14, a Prefeitura se reuniu com o Movimento Nacional do Povo de Rua (MNPR). A reunião durou cerca de 3 horas. O vice-prefeito participou da reunião por 20 minutos e não apresentou qualquer alternativa às demandas do movimento e, sem qualquer consideração às pessoas presentes, se retirou da sala. Para nós, movimentos sociais urbanos, esta atitude não significa de forma alguma estar disposto ao diálogo.”
    Prefeitura: 2) Para surpresa de todos, o prédio do Demhab, onde ocorria o encontro, foi invadido e ocupado intempestivamente por movimentos ligados à habitação, que apresentam demandas ligadas, prioritariamente, a outras esferas de governo. É o caso dos Lanceiros Negros, que ocupam prédio do Governo do Estado no Centro Histórico, e de moradores da Vila Dique, área afetada por obra da Infraero, do Governo Federal;
    3) Mesmo com interface prioritária com outras instâncias, as reivindicações desses movimentos vêm sendo acompanhadas e tratadas seriamente no Município, tanto é assim que foi formado Grupo de Trabalho específico para os Lanceiros Negros, isso sem falar na construção de habitações mais dignas para a Dique;
    Ocupa: (resposta aos pontos 2 e 3): “A ocupação do prédio do Demhab é um ato político pacífico que tem por objetivo denunciar a falta de política habitacional na cidade de Porto Alegre. Temos pautas claras e específicas.”
    “No ano passado, a Prefeitura tentou remover a Escola Porto Alegre (que atende a população em situação de rua) alegando que nela precisariam construir uma creche e uma casa de acolhimento.”
    “Pois vejam, a ocupação Lanceiros Negros ocupa hoje um prédio no Centro da cidade, que permaneceu abandonado por mais de 10 anos. De fato o prédio é de propriedade do governo do Estado do Rio Grande do Sul, no entanto a política de assistência social e de moradia é de responsabilidade do Município.”
    “O governo estadual, de forma intransigente, diz que não negocia com os movimentos sociais e repassa a responsabilidade ao Município”.
    “Assim, o MLB revindica que a Prefeitura solicite ao Estado a cedência do prédio da ocupação Lanceiros Negros para uma casa de acolhimento, em conjunto com a creche que já existe no local, a fim de atender a demanda da população carente que trabalha e precisa deste equipamento disponível no Centro da cidade”.
    “No que diz respeito à Vila Dique, trata-­se de um processo de remoções forçadas que ocorreu em razão da duplicação da pista do aeroporto Salgado Filho, obra que até hoje não saiu do papel”.
    “Mais de 1.300 famílias foram removidas para o Porto Seco (as tais casas dignas a que a Prefeitura se refere), região em estado de guerra permanente, resultado de uma inconsequente guerra às drogas. Cerca de 300 famílias que permanecem na Vila Dique conseguem manter sua sobrevivência com a criação de animais, devido à característica rururbana da comunidade, e também graças à proximidade com a CEASA conseguem garantir o alimento de suas famílias”.
    “Não foram isolados os casos de mortes por inanição e depressão de idosos no novo empreendimento. Assim, as famílias que SIM, querem ter acesso às novas casas ofertadas pela Prefeitura, têm todo o direito de fazer essa escolha, no entanto, as famílias que não abrem mão de permanecer naquele território devem ter o direito de ficar. Querem reconstruir a vila com regularização fundiária, educação ambiental e construir na prática o sonho de uma comunidade rururbana autogestionária. Estudos feitos pela UFRGS já apontaram a viabilidade da realização desse projeto”.
    “A comunidade da Dique ocupou o Demhab para reivindicar que as casas dos que optarem pelo novo empreendimento não sejam demolidas, mas sim reaproveitadas por outras famílias sem teto ou por pessoas da própria comunidade que vivam em habitações extremamente precárias”.
    “Vale ressaltar que a Infraero declarou não ter interesse na área e as matrículas comprovam que trata­-se de uma área particular, cujo dono não requereu a propriedade em 40 anos, o que garante que a posse do terreno, segundo a MP 2220, seja desde já dos atuais moradores, e estes, junto com a Defensoria Pública do Estado, estão ingressando com ação de usucapião coletivo.”
    “Hoje a Vila Dique encontra­-se impactada por conta da obra de duplicação da Av. Severo Dullius. Diversas crianças estão sem acesso à escola, à saúde e ao trabalho! Estão sitiadas e isso é um violação extrema de direitos humanos.”
    “Quanto à interface citada pela Prefeitura, de Sebastião Melo, dizemos que é exatamente pelo descaso e o não cumprimento de acordos firmados com o Município em inúmeras ocasiões que estamos hoje radicalizando nossa ação. Chega de enrolação, queremos solução!”
    Prefeitura: 4) Infelizmente, a invasão e o bloqueio do prédio do Demhab trazem diversos prejuízos à população mais carente, que fica impedida, por exemplo, de tratar questões ligadas ao pagamento de aluguel social, bônus moradia ou de realizar cadastro no órgão, o que atrasa o atendimento de demandas e pode gerar grandes problemas às comunidades. Para garantir a retomada dos serviços, o Município está ajuizando ação que solicita reintegração de posse do prédio;
    Ocupa: “Durante o dia de hoje (15/7), realmente apareceram diversos cidadãos procurando o Demhab, todos eles com problemas exatamente iguais aos nossos! Por exemplo, dependentes de um aluguel social sendo pago há 7 anos para uma comunidade dizimada. E pasmem, foram tirados de suas moradias e hoje estão prestes a serem despejados pela falta de pagamento do aluguel social por parte da Prefeitura.”
    “Sete anos é mais do que tempo para dar uma solução definitiva para as famílias. O que atrasa o atendimento das demandas da população não é a ocupação do Demhab, mas sim a falta de vontade política do poder público em resolver o problema de habitação na nossa cidade e fazer valer apenas a vontade dos ricos e das empreiteiras que financiam suas campanhas eleitorais.”
    “Não nos digam que o problema das famílias estarem há mais de 9 anos na fila esperando sua moradia digna é nosso. São justamente os movimentos sociais que fazem pressão nos governos para que essa fila ande.”
    “Entre os cidadãos que vieram hoje ao Demhab, houve um apoio massivo à ocupação, com a vontade de alguns de se somar ao ato. Vizinhos dos prédios ao lado doaram comida e a solidariedade aumenta a cada hora que passa.”
    “Ressalva­-se que se somou ao Ocupa Demhab, na noite ontem, a ocupação Campo Grande, localizada no bairro Rubem Berta, que está com despejo marcado para o dia 19 do mês de julho. Comunidade esta, que na manhã de hoje recebeu inesperada visita da polícia militar, que, de maneira violenta, adentrou diversas casas, agredindo e desrespeitando moradores. Não toleraremos.”
    “O Ocupa Demhab reafirma, DESPEJO ZERO, MORADIA NÃO É QUESTÃO DE POLÍCIA.”
    Prefeitura: 5) Até que a Justiça se posicione, o prédio será mantido fechado para garantir a integridade física de todos: servidores, população e manifestantes;
    Ocupa: “Primeiramente agradecemos aos diversos servidores do Demhab, que desde o início da ocupação foram solícitos e apoiaram nossa ação. Com sorrisos, aplausos e palavras de solidariedade, vocês nos dão força.”
    “Agradecemos também ao Sindicato dos Municipários pelo apoio e dizemos ao vice-­prefeito que esse cordão de isolamento não nos desmotiva, pois tem efeito reverso: a cada hora que passa a solidariedade aumenta. Nós vamos resistir!”
    Prefeitura: 6) Mesmo diante dos fatos expostos, a Prefeitura mantém sua disposição ao diálogo com os movimentos em questão. Para isso se propõe a nova reunião, desta vez na Câmara de Vereadores, desde que haja a desocupação do prédio e que seja apresentada pauta específica de reivindicação, o que até o momento não ocorreu.
    Ocupa: “A intransigência é do governo, pois estamos desde o início dispostos e ansiosos pelo diálogo. No entanto, desta vez, as regras são nossas! Não vamos desocupar o prédio pela promessa de uma reunião: vamos desocupar se as nossas pautas forem atendidas.”
    “O Demhab tem diversas salas disponíveis para que a reunião de negociação se realize, no entanto, não temos problemas de deslocar uma comissão até a Câmara de Vereadores, mas de forma alguma desocuparemos o prédio antes que a reunião termine e nossas pautas sejam atendidas.”
    “Conhecemos as condições legais da Prefeitura de solicitar a reintegração de posse do imóvel, mas acreditamos que seria vergonhoso para Porto Alegre que o Município tratasse mais uma vez a questão habitacional como caso de polícia.”
    PAUTA DE REIVINDICAÇÕES
    Vila Dique
    ­ Permanência das famílias que não tem a solução definitiva encontrada no novo empreendimento. Regularização fundiária e construção e de uma comunidade rururbana.
    ­ Não demolição das casas das famílias que querem acessar a nova moradia ofertada.
    Imediata solução ao cerceamento do direito de ir e vir das crianças em período escolar e dos trabalhadores da reciclagem, que dependem da liberação da Av. Dique.
    Ocupação Progresso
    ­ Realização de estudo técnico para averiguar a denúncia do Ministério Público de contaminação do solo por metal pesado.
    ­ Responsabilização do Demhab pelo acordo firmado no CEJUSC do pagamento de aluguel ao proprietário da área, incluindo critérios no aluguel social.
    ­ Inclusão da comunidade no Projeto de Lei que será enviado pelo poder público municipal para demarcação da área como AEIS IV.
    Ocupação Lanceiros Negros
    ­ Solicitação de cedência do prédio ao Estado do Rio Grande do Sul ou de outro imóvel dentre os 6 mil abandonados para que seja efetivada a Casa de Acolhimento Lanceiros Negros e junto com isso a garantia da construção habitacional para as famílias.
    ­ Publicação da lista dos imóveis públicos abandonados em Porto Alegre, do Município, do Estado e da União.
    Aluguel Social
    ­ Critérios claros para estipulação dos valores e pagamentos em dia.
    ­ Aluguel social como ponte para política habitacional concreta.
    ­ Negociações coletivas para a designação dos aluguéis sociais.
    Cruzeirinho
    ­ Demarcação de AEIS III.
    ­ Negociação com a proprietária por parte da Prefeitura, conforme acordado durante a segunda ocupação da área, em novembro de 2015.
    MNPR (Movimentação Nacional de População de Rua)
    ­ A desvinculação do Programa Minha Casa Minha Vida voltado às pessoas em situação de rua (PSR) do Orçamento Participativo;
    ­ A retomada do pagamento em dia do programa de aluguel social em vigência na cidade de Porto Alegre voltados as PSR;
    ­ Programa de Aluguel Social vinculado à uma política habitacional inclusiva e permanente, considerando o acesso às áreas centrais de Porto Alegre.
    ­ A participação do Gestor da política habitacional de Porto Alegre, nas reuniões mensais do Comitê POP Rua, tendo em vista a péssima relação estabelecida com os atuais representantes do Departamento no referido Espaço;
    ­ Criação de um Setor onde as pessoas em situação de rua possam requerer quaisquer benefícios relacionados a habitação, diretamente no Demhab, desvinculado da FASC.
     

  • Vivendo na caverna de Platão

    Marília Veríssimo Veronese –  Professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UNISINOS.
    Acho que todos os leitores e leitoras do Jornal Já conhecem o mito/alegoria da caverna de Platão. Dicotomias platônicas à parte, ele servirá aqui como uma metáfora para a leitura do nosso tempo. Na clássica obra “A República”, o filósofo grego (428 aC. – 347 aC.) descreve uma caverna onde prisioneiros – desde o nascimento – viam apenas sombras projetadas pela luz de uma enorme fogueira, na entrada da caverna. As sombras eram os personagens do seu mundo; eram tudo que eles conheciam e com elas se relacionavam em seu universo simbólico. Um deles, porém, conseguiu escapar da prisão cavernosa e, cego a princípio com tanta luz, acabou com ela se acostumando e enxergando as coisas, as pessoas, os animais, as cores, o movimento, a diversidade… voltou correndo para contar aos ex-companheiros o que havia lá no mundo “real”, animado com o teor e o potencial de suas bombásticas revelações!
    Coitado! Ridicularizado a princípio, depois ameaçado – e como insistisse na declaração que eles viviam na ignorância e havia muitas coisas para além de seu mundo -, acabou morto pelos prisioneiros da caverna. Pois eu sustento que hoje boa parte dos cidadãos brasileiros está vivendo na caverna de Platão. As sombras projetadas são as “verdades” e o “real” produzidos pelos mais diversos agentes (no sentido de “ter agência”, agir, fazer, realizar); estes são geralmente midiáticos, e sua versão do “real” é legitimada como sendo a expressão exata da verdade. Se alguém questiona veículos midiáticos considerados “de referência”, “consagrados” – ou até mesmo boatos amalucados que circulam nas redes sociais – é defenestrado tal qual o sujeito que saiu da caverna e voltou para contar o que viu.
    Tive um exemplo, há uns três anos atrás, quando circulou um hoax que utilizava uma imagem de um prédio público no interior de São Paulo – uma escola técnica pertencente à USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz) – dizendo que era a fazenda do filho do Lula e tinha sido adquirida com dinheiro público. Tratava-se de um prédio luxuoso, que passava por uma fazenda de alto luxo. Logo saíram os desmentidos, o site e-farsas colocou o link da escola e viu-se que era apenas uma mentira inventada por algum mentecapto. Contudo, a versão factual pouco importou para quem difundia o boato. A sombra bruxuleante na parede da caverna à brazileira já havia se espalhado e era tomada como a mais certa e comprovada realidade. Uma pessoa que era meu contato no Facebook divulgou a postagem, que foi comentada imediatamente por uma legião de “pessoas de bem”, indignadas com os desmandos do “lulo-petismo”. De boa vontade (juro!), postei nos comentários que se tratava de um hoax, acrescentei o site da escola e esclarecimentos diversos sobre a falsidade do boato1. Fui “xingada” de epítetos muito pouco amigáveis, e que se eu não ia ajudar a divulgar, pelo menos que não atrapalhasse. Bloqueei aquela gente louca e me perguntei: estarei tendo o mesmo destino do habitante que fugiu da caverna?
    Muitas outras situações vieram a provar que sim. Hoax passaram a ser “notícias” da mais profunda veracidade, boatos mentirosos motivaram decisões em câmaras de vereadores – vide situação bem recente que ocorreu na cidade de Feira de Santana, na Bahia (distante 100 km de Salvador, mais ou menos). Cidade esta que visitei em março deste ano e que tem uma universidade federal com um corpo docente extremamente qualificado, que tive oportunidade de conhecer durante um congresso ali realizado. Lamentavelmente, os vereadores do simpático município não lhes fazem jus. Esses nobres representantes municipais utilizaram a tribuna da Câmara para protestar contra um projeto de lei – inexistente! – que seria de autoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) para retirar “textos considerados homofóbicos da Bíblia”. O boato na internet dizia que ele pretendia alterar a Bíblia… e os vereadores acreditaram!!!
    Nas redes sociais
    Quem é mais bitolado: esses “nobres” políticos (eleitos pela população!) ou os habitantes da imaginária caverna de Platão? Decida você mesmo, caro/a leitor/a! Quem deu início à discussão foi o vereador Edvaldo Lima (PP), que cogitou dar entrada em uma moção de repúdio contra o deputado federal. Na tribuna, ele criticou duramente o “projeto para alterar a bíblia”2. Meu último texto aqui foi sobre a tragicomédia brasileira. Pois é, ela continua firme, a desenrolar-se diante de nossos olhos incrédulos, talvez desde o ano de 1500 dC.
    E não só no campo da política que as sombras projetadas nas paredes criam realidades e autorias indevidas. Um texto que circulou muito há algum tempo atrás, atribuído a Luis Fernando Verissimo, dizia lá pelas tantas que “dar é bom pra caramba”. Alguém que já tenha lido uma linha do que LFV escreve acha mesmo que ele escreveria isso!? Pois mesmo assim, lá passava o texto de mão em mão, com elogios ao autor por ser tão certeiro em suas assertivas sobre relacionamentos amorosos. Verificando sem dificuldade na internet, logo se descobria que o texto era de uma blogueira que escrevia na revista TPM, mas depois que caiu na rede, virou peixe sem mãe nem pai definidos. Por que as pessoas não verificam aquilo que postam?
    E por que, ao verem que não é verdade, não admitem o erro e procuram a versão mais próxima da realidade? Talvez porque um Hampty-dumpty3 arquetípico tenha morada dentro de todos nós. O personagem utilizado por Lewis Carrol, no livro “Alice através do espelho”, dizia para Alice que dava às palavras o sentido que ele queria dar. Pouco importa a legitimidade desse sentido, o que importa é que ele era o dono do sentido, e assim manipulava-o à vontade.
    Parte da imprensa faz exatamente isso, como ilustra bem o excelente documentário de Jorge Furtado, “Mercado de noticias”. Uma vez que a falsa versão, sem nenhuma verificação mais séria e responsável passa a circular e ser apropriada pela miríade incrivelmente variada de receptores…, pronto, está feito: a sombra da caverna não é mais questionada. Quem ousar fazê-lo sofrerá as consequências. Ela se impõe porque simplesmente é. E a força desse ser tem um poder incrível de mobilização das subjetividades. Não se trata simplesmente de “formar opinião”, mas sim de conformar subjetividades, modos de ser/estar no mundo, ideias e afetos diversos, dentre eles o ódio e o preconceito. Ou seja, se trata de produzir sujeitos, de produção de subjetividade no sentido de Deleuze e Guattari, autores conhecidos não só na filosofia como nos demais campos das humanidades e das ciências sociais. Quem não é desses campos deveria procurar conhecê-los, compreendê-los.
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    Seja por sedimentação – martelar certo conteúdo dia após dia, durante anos, para solidificar um determinado viés da percepção de alguma coisa –, seja por fratura – “opa, parem tudo, não é nada daquilo, vejam só!”, através de uma “notícia” (na verdade interpretação viesada de algo) que dá novo sentido ao mundo, a parcela hegemônica da mídia brasileira não para. Simplesmente não para: ela age diuturnamente. Utiliza todas as ferramentas disponíveis da comunicação para produzir e sustentar seus interesses e a visão de mundo que defende.
    É dessa forma que o “mensalão” vira o maior escândalo de corrupção de toda a história do Brasil. Sabemos que isso não é verdade, pois ao comparar o estrago feito por todos os lamentáveis escândalos de corrupção das últimas décadas, temos que ele ocupa um “modesto” décimo lugar. Vejamos:
    Os dez maiores crimes de corrupção do Brasil4

    TopCrime/EscândaloAnoRombo
    10ºMensalão2005R$ 55 milhões
    Operação Sanguessuga2006R$ 140 milhões
    Sudam2001R$ 214 milhões
    Operação Navalha2007R$ 610 milhões
    Anões do Orçamento1993R$ 800 milhões
    TRT/SP1999R$ 923 milhões
    Banco Marka1999R$ 1,8 bilhões
    Vampiros da Saúde1998R$ 2,4 bilhões
    Banestado2003R$ 42 bilhões
    Privataria Tucana1997R$ 100 bilhões

    E entender isso não tem nada a ver com defender os corruptos envolvidos no esquema do mensalão, que, aliás, eram oriundos de vários partidos políticos e de grandes corporações privadas. Cadeia neles! Agora, por que só neles?! Por que tanta seletividade? Ao querer que se diga a verdade dos fatos, não se está defendendo este ou aquele partido político. Apenas se quer refletir sobre a informação verdadeira em termos factuais! Entretanto, se a gente tenta argumentar com alguém que incorporou profundamente a inverdade em seus afetos e “certezas”, pode esquecer. Agressões e insultos- ou uma resistência obstinada – serão a resposta, jamais a reflexão crítica diante de fatos objetivos. Sim, porque o fato objetivo existe! Apesar de eu estar mais para Guattari do que para Durkheim (!), eu acredito que há uma factualidade em andamento que, embora contraditória e muitas vezes ambígua, possui uma concretude e uma existência que se desenrola objetivamente. Que pode ser demonstrada e provada, utilizando-se esses fatos e os dados decorrentes deles de forma objetiva.
    O que a mídia faz é atribuir sentidos a esses fatos; o sentido que ela quer dar. É o Humpty-dumpty em ação. São os regimes de luz de Deleuze: onde a gente joga luz, ali há existência. O que se deixa no escuro, invisível, ali não há existência! Assim eu produzo a realidade do jeito que eu quiser, manipulando as luzes (acabo de ter um rompante de autoritarismo agudo, meu próprio Humpty-dumpty emergindo?).
    Concluo que todos nós, homens e mulheres contemporâneos, estamos à mercê de nosso próprio personagem autoritário e manipulador, introjetado. A mercê das sombras das nossas cavernas de Platão existenciais. O que poderá fazer a diferença é o esforço consciente de nos informarmos em várias fontes, de refletirmos criticamente, de forçarmos o pensamento a pensar – e buscar- mais e melhor diversidade de análise do mundo, correndo sempre para fora da caverna e vendo a pluralidade que existe para além dela.
    1 http://www.e-farsas.com/filho-de-lula-compra-fazenda-avaliada-em-47-milhoes-de-reais.html
    2 http://g1.globo.com/bahia/noticia/2016/07/vereadores-repudiam-pl-inexistente-de-jean-wyllys-para-mudar-biblia.html
    3 “When I use a word,” Humpty Dumpty said in rather a scornful tone, “it means just what I choose it to mean — neither more nor less.”.
 “The question is,” said Alice, “whether you can make words mean so many different things.”.
 “The question is,” said Humpty Dumpty, “which is to be master— that’s all.” (Through the Looking Glass, by Lewis Carroll). Disponível em: http://definitionsinsemantics.blogspot.com.br/2012/03/humpty-dumpty-principle-in-definitions.html
    4 http://www.endodontiaclinica.odo.br/os-10-maiores-escandalos-de-corrupcao-do-brasil/

  • Coleção particular de obras de arte em breve exposição

    Oportunidade única para os amantes da arte, a partir deste sábado, na zona Sul de Porto Alegre – tanto para os que conhecem e podem comprar, quanto aos que querem só apreciar as peças antes que alguém as compre.
    O casal de atores Nora Prado e Gabriel Guimard aproveita as férias em Porto Alegre com a família para expor cinquenta peças da sua coleção particular, formada ao longo de décadas. Trouxeram miniaturas, desenhos, gravuras e esculturas.
    São obras de artistas como Vasco Prado, Luiz Solari, Carlos Scliar, Marcelo Grassmann, Trindade Leal, Glênio Bianchetti, João Bez Batti, Floriano Teixeira, João Luiz Roth e Ana Luiza Alegria, entre outros. São desenhos, gravuras, esculturas e miniaturas.
    MARIANA 4 - fundo transparente - foto da Nora (1)Nora é filha da artista visual Zoravia Bettiol e do escultor Vasco Prado, falecido em 1998. Gabriel Guimard é paulista, estudou na Escola Nacional de Circo da França, tem importante trajetória na arte mímica. Juntos, formam a Companhia Megamimi desde 1995, quando ele voltou da Europa.
    A obras estarão expostas no estúdio de Zoravia Bettiol, na Vila Assunção. Estarão todas à venda, e poderão ser adquiridas à vista ou em pagamento parcelado (cheque). Abaixo, imagens de algumas das cinquenta peças da mostra:

    Jogo de Infância ou a Solidão de Tope, bico-de-pena do brasileiro João Luiz Roth. Peça única.
    Jogo de Infância ou a Solidão de Tope, bico-de-pena de João Luiz Roth. Peça única.

    03 Luiz Solari - Uruguaio - Marioneta Azul - Década de 80 - Gravura em Metal - H 42 X L 35 cm - R$ 4.000,00
    Marioneta Azul, gravura em metal da década de 1980 do uruguaio Luiz Solari. Mede 42 cm por 35 cm, cotada a 4 mil reais

    Vasco Prado precisou apenas de lápis e papel para fazer Penumbra, de 1977. Mede 66 cm por 96 cm. À venda por 4.500 reais
    Vasco Prado precisou apenas de grafite e papel para fazer Penumbra, de 1977. Mede 66 cm por 96 cm. à venda por 4.500 reais

     
    Serviço:
    MOSTRA: Obras da Coleção Nora Prado e Gabriel Guimard
    LOCAL: Estúdio Zoravia Bettiol – Rua Dr. Possidônio da Cunha, 272 | Vila Assunção | Fone: (51) 3354-2456 e (51) 9351-8143.
    INAUGURAÇÃO: Sábado, dia 16 de julho de 2016, das 15 às 19h.
    VISITAÇÃO: dias 18, 19 e 20 de julho, das 10 às 12h e das 14 às 18h.
     

  • Clube de Cultura tem festa julina neste sábado

    O Clube de Cultura promove sua festa julina neste sábado, 16. O Arraial do Clube começa às 18h, na sede do Clube, Ramiro Barcelos, 1853. O evento terá discotecagem com músicas típicas e palco aberto para os artistas que quiserem se apresentar. Pipoca, quentão e pinhão também não poderiam faltar. O evento é aberto à comunidade e a entrada é franca.

  • Sai a primeira pesquisa eleitoral para a Prefeitura: Luciana na frente

    O Instituto Methodus e o jornal Correio do Povo divulgaram hoje a primeira pesquisa eleitoral para prefeito de Porto Alegre. O universo pesquisado é pequeno (600 eleitores) e a margem de erro admitida pelo Instituto é larga: 4 pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados obtidos em um intervalo de confiança de 95%.
    No primeiro cenário montado para a pesquisa, citando nomes para o primeiro turno, a candidata do PSol, Luciana Genro, lidera com 20,8% das intenções de voto. A seguir vem Raul Pont, do PT, com 14,5%, e Sebastião Melo, do PMDB, com 13,7%. Vieira da Cunha, do PDT, foi o escolhido por 11,0%; Nelson Marchezan Jr, do PSDB, 6,5%; Mauricio Dziedricki, do PTB, com 1,7%. Carlos Gomes, do PRB, e Wambert Di Lorenzo, do Pros, ganharam 0,8% das intenções de voto. Quase um terço dos eleitores ouvidos entre 7 e 10 de julho (30,1%) não têm candidato – é a soma dos votos brancos e nulos (15,3%), e dos indecisos (14,8%).

    Na segunda simulação de primeiro turno, a pesquisa citou apenas quatro candidatos. Luciana Genro cresce para 22,3%, Raul Pont para 16,7%, seguido por Sebastião Melo, arredonda em 14,0%. Vieira da Cunha sobe quase 3 pontos, chegando a 13,8% das intenções de voto. Nesta simulação, brancos e nulos somam 18,8% e indecisos (não sabe) 14,3%.

    A uma semana do início das convenções partidárias para definição das candidaturas, simulações de segundo turno continuam apontando a candidata do PSol na liderança. Entre Luciana Genro e Vieira da Cunha, do PDT, ela recebe 30,8% das intenções de voto e ele, 25,5%.
    Na segunda simulação de segundo turno, entre Luciana Genro e o atual vice-prefeito, Sebastião Melo, do PMDB, ela fica com 30,3% e ele, com 26,7% das intenções de voto.
    Num eventual segundo turno entre o petista Raul Pont e o peemedebista Sebastião Melo, Pont ganharia de Melo (29,3% e 25,3%, respectivamente).
    Para a quarta estimulada de segundo turno entre Luciana Genro, do PSol, e Nelson Marchezan Jr, do PSDB, as intenções de voto são, respectivamente, de 34,2% e de 18,2%.
    Na quinta questão estimulada de segundo turno, desta vez entre Sebastião Melo, do PMDB, e Vieira da Cunha, do PDT, as intenções de voto são, respectivamente, 24,7% e 24,2%.
    Para o sexto levantamento estimulado de segundo turno, entre Luciana Genro, do PSol, e Raul Pont, do PT, as intenções de voto são, respectivamente, de 31,0% e de 22,3%.
    No sétimo e último levantamento estimulado de segundo turno entre Vieira da Cunha, do PDT, e Raul Pont, do PT, as intenções de voto são, respectivamente, 26,8% e 26,2%.

    Rejeição
    A pesquisa do Instituto Methodus também avaliou a rejeição aos candidatos. Na rejeição múltipla, onde o entrevistado pode rejeitar mais de um candidato, Raul Pont, do PT, aparece com 24,5%; Luciana Genro, do PSol, tem 22,2%; Vieira da Cunha, do PDT, 17,0%; Sebastião Melo, do PMDB, 16,8%; Nelson Marchezan Jr, do PSDB, 16,2%; Carlos Gomes, do PRB, 12,5%; Mauricio Dziedricki, do PTB, 12,2%; e Wambert Di Lorenzo, do Pros, 10,8%. Não rejeitaram nenhum dos candidatos 31,2%, e disseram não saber, 12,2%.
     

  • Imprensa e jornalismo em transição: a contradição das Agendas

    Agemir Bavaresco – Filósofo, professor e coordenador do Programa de Pós Graduação da PUCRS.
    A movimentação dos cenários da imprensa e do jornalismo nos últimos anos registrou contradições e mudanças que apontam para a transição de modelos de empreendimento, causados pelo avanço da tecnologia que tem implicações na teoria da Agenda.
    1 – Concentração empresarial em tempo digital
    A primeira constatação é a convergência digital que permitiu a reunião de grupos jornalísticos, mídia, telecomunicações e Internet. Estes grupos passam a intervir no mercado oferecendo vendas virtuais, montando portais, explorando nichos de acesso à Internet, criando provedores de serviços, num emergente shopping digital. Somado a esses fatos, as novas tecnologias desencadearam um processo de concentração global de empresas e a consequente desnacionalização do setor.
    a) Mídia Global X Mídia local: Uma cadeia produtiva de mídia é formada, grosso modo, por anunciantes, agências de publicidade e veículos de comunicação. O que tivemos no Brasil, nos últimos anos, foi uma desnacionalização de empresas anunciantes, porque as empresas estrangeiras além de adquirirem as agências de publicidade trocaram o comando de tomada de decisões, focado na matriz e com alinhamento de interesses. Junto com essa concentração empresarial global está o enfraquecimento da mídia nacional. Há, de um lado, o modelo de jornal impresso de faturamento tradicional a custos elevados e, de outro, o modelo de negócios incipiente de edição digital que não conseguiu ainda se implementar.
    b) Modelo de negócio tradicional X Modelo de negócio digital: O modelo de negócios da imprensa tradicional entrou em crise com a entrada no mercado brasileiro do Google e do Facebook, absorvendo o faturamento publicitário através da interação direta com o usuário pelo preenchimento de dados, perfil e ouvindo suas opiniões e interesses. A publicidade tradicional funcionava com as seguintes estratégias: a publicidade popular usava as redes de televisão nacional para estimular o consumo de bens de massa; e a publicidade segmentada usava os jornais e revistas para atingir um público mais homogêneo e mais refinado nos hábitos de consumo de produtos e de opiniões. Este modelo dissolveu-se com a emergência da Internet e as redes sociais, sobretudo com o ingresso, por exemplo, do Google e do Facebook que articularam um modelo de negócio digital, ágil e versátil, baseado na segmentação e o acesso online do banco de dados instantâneo.
    c) Empresas jornalísticas X Jornalismo: A rigor na origem das sociedades democráticas a liberdade de imprensa e de opinião são qualificadas de públicas, isto é, trata-se de um serviço público, independentemente, de ser estatal ou privado. A transição de modelos em curso atingiu, especialmente, o jornalismo. Cabe distinguir entre as empresas jornalísticas de imprensa da atividade jornalística, pois, isto explicita um conflito histórico entre os objetivos públicos do jornalismo e os interesses comerciais dos grupos de imprensa. O que se constata é uma perda do papel do jornalismo, pois este torna-se subordinado aos interesses privados das empresas jornalísticas, por exemplo, os jornais não expressam mais ideias, mas tornam-se instrumento de propaganda dos interesses corporativos das elites financeiras ou industriais em nível nacional ou internacional (Esta parte baseia-se em matéria de Luis Nassif. Xadrez da crise da imprensa e do jornalismo. GGN, 12/07/16). Face a estes cenários de transição da imprensa e do jornalismo coloca-se o problema da teoria da Agenda.
    2 – Agenda da Mídia Tradicional X Agenda das Redes Sociais
    O que faz com que as pessoas pensem determinados temas e deixem de lado outros? O que influencia ou forma a opinião pública? Conforme a Agenda Setting, teoria elaborada por Maxwell McCombs, a pauta das conversas e debates é provocada pelos jornais, televisão e rádio (meios tradicionais). Esses meios têm a força de mudar a realidade social, ou seja, informam os fatos a serem pensados ou debatidos pelo público. Eles estabelecem a pauta dos assuntos e o seu conteúdo em nível local, nacional e internacional.
    Porém, em face da agenda da mídia tradicional surge a agenda das redes sociais: A internet e as redes sociais permitem que os cidadãos expressem opiniões e interesses, sem o filtro dos meios de comunicação tradicionais. Através das redes sociais muitas pautas foram estabelecidas, protestos e insurreições foram organizados. A esfera pública encontrou nas novas tecnologias uma forma de expressão direta de sua opinião, a tal ponto que alguns especialistas constatam um novo fenômeno: a formação de uma nova opinião pública.
    De um lado, temos a opinião pública tradicional, agendada pelos meios de comunicação tradicionais e controlada por interesses privados e pelas regulações e poderes estatais. De outro, a nova opinião pública diferenciada pela participação inclusiva, pela autonomia, velocidade e transparência, que tem como agentes os cidadãos protagonistas e descentralizados, com mobilidade instantânea e articulados em redes sociais.
    A esfera pública foi transformada pela internet que alterou o ecossistema comunicacional, criando uma nova opinião pública. O sociólogo Manuel Castells chama este fenômeno de autocomunicação de massas. Às ações coletivas em rede, como a construção colaborativa da Wikipédia, juntam-se milhares de pequenas comunidades que desenvolvem expressões de inteligência coletiva, articulando uma esfera pública autônoma e em rede.
    Por isso, o controle da opinião pública, pautado pela agenda tradicional está sendo mudado pela agenda das redes sociais. As grandes corporações e agências internacionais de comunicação que detêm o poder de disseminar sua versão dos fatos e de estabelecer a agenda pública confronta-se com a agenda das redes sociais que expressam opiniões opostas, instaurando uma opinião pública contraditória com força de expressão plural e ação democrática.
     

  • Cenas de um linchamento que quase aconteceu

    P.C. DE LESTER
    Cerca de 60 clientes que faziam suas compras no Zaffari da rua Fernando Machado, num dos pontos mais movimentados de Porto Alegre, viveram uma hora de tensão e medo nesta quinta-feira, 14.
    Eles assistiram ao que seria um linchamento, não fossem os dois seguranças do supermercado, que evitaram o crime.
    Foi por volta de 18 horas, num dos horários de bom movimento desta loja que atende a uma populosa região do centro.
    Um homem, com falha de dois dentes na frente, entrou correndo e gritando no supermercado. Teria uns 20 anos, vestia um moleton verde.
    Atrás dele entrou um grupo de uns 20 jovens armados de guarda-chuvas, tijolos, canos… o teriam massacrado não fosse o segurança que estava na entrada.
    O segurança levou socos e pontapés, mas impediu o linchamento até que chegassem outros funcionários. Mesmo assim, a violência parecia incontrolável, e mesmo depois, já passados quarenta minutos ou mais, quando apareceu o primeiro brigadiano.
    Acossado entre dois caixas, protegido pelos seguranças, mas mesmo assim recebendo golpes de guarda-chuva, socos, pontapés, o fugitivo não se intimidava: “Tu já era meu, te marquei”, dizia para um rapagão que lhe aplicou um soco no rosto.
    A situação só voltou ao controle quase uma hora depois, quando chegou uma viatura com três brigadianos. Mesmo assim, não foi fácil dissolver a turba que queria linchar o perseguido. “Tem que matar, se ele vai preso em dez minutos tá na  rua”, gritava um homem que se dizia da Polícia do Exército. Já dentro da viatura, o preso trocava insultos com seus agressores. “Tu vai morrer. Tu vai ser mulherzinha lá no Central”, gritavam uns rapazes através dos vidros fechados da viatura.
    Os relatos que ficaram eram desencontrados. O perseguido teria agarrado uma jovem na altura da Reitoria, no parque da Redenção. Segundo uns, teria roubado sua mochila; segundo outros, teria abusado dela. Uma frase que os pretensos linchadores gritavam para as pessoas que queriam impedir o massacre, era: “Queria ver se fosse sua filha”.
    Um senhor no caixa, depois que todos já haviam saído, comentou: “A violência está aí, só falta um estopim”.
    O caso foi para a 1a Delegacia.
     

  • Movimentos ocupam Demhab pedindo solução para a falta moradia

    Militantes dos movimentos dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e da População de Rua, decidiram ocupar o  saguão do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), no final da tarde desta quinta-feira.
    Foi depois de uma reunião com  o vice-prefeito e pré-candidato à Prefeitura, Sebastião Melo, e a diretora do Demhab, Luciane de Freitas, da qual saíram sem uma solução.
    As reivindicações vão desde o pagamento do aluguel social, concedido no início do ano passado, até a criação de novas Áreas Especiais de Interesse Social (AEIs) na cidade. A ocupação foi a forma que encontraram para pressionar o Executivo a definir uma política de habitação mais abrangente.
    Na terça-feira, moradores das ocupações urbanas Marcos Klasmann e Campo Grande (esta com reintegração de posse marcada para o dia 19), na  região Nordeste da Capital, já tinham ido à Câmara de Vereadores reclamar discriminação no atendimento básico de Saúde e pedir a suspensão da ordem de reintegração de posse.
    As pautas são muitas, reflexo da carência de políticas habitacionais em Porto Alegre, onde o andamento do programa federal Minha Casa Minha Vida empacou por falta de integração entre o agente financeiro (a Caixa Econômica Federal) e a Prefeitura nos últimos anos.
    Ao amanhecer de hoje, os movimentos anunciaram pelas redes sociais que resistiriam caso a Brigada Militar agisse para que desocupem o prédio. Mas, por volta das 7 horas, veio a notícia: “Dia de Expediente Popular: enfim o DEMHAB do lado do povo!”.
    Montaram uma barraca em frente o Demhab para fazer um cadastro de famílias sem-teto. “Se você mora de favor, em área de risco ou não consegue aguentar o aluguel, venha se cadastrar com a gente. Traga seu documento de identidade.” Também estão pedindo contribuições à população em geral: água, comida, material de limpeza e divulgação. 
    Ontem, no início da ocupação, divulgaram uma nota oficial apontando os objetivos da mobilização:
    O MTST, o MLB e o MNPR acabam de ocupar o Departamento Municipal de Habitação de Porto Alegre. A ação é pra denunciar a política de remoções da prefeitura, e exigir o cumprimento da pauta de negociações:
    -Volta do pagamento do aluguel social e moradia definitiva para as famílias em situação de rua. O Movimento Nacional de População de Rua havia conseguido, como resistência à política higienista da Copa do Mundo, o pagamento de aluguel social. Há 4 meses esse valor foi suspenso e as pessoas estão sendo despejadas.
    – Que a prefeitura reivindique junto ao governo do estado as alternativas para a Ocupação Lanceiros Negros do MLB. Essa ocupação tem dado função social a um edifício abandonado há mais de dez anos, e visa transformar o prédio em uma casa de acolhimento para a população mais pobre.
    – Cumprimento dos acordos com o MTST: A imediata desapropriação do terreno ocupado no Morro do Santana em 2015; a criação de novas AEIS; o cumprimento dos acordos com a Ocupação Progresso; e uma solução negociada para as famílias da Vila Dique!
    – Pela continuidade do programa Minha Casa Minha Vida
    – Despejo Zero, o povo quer casa, não remoção.
    MTST, MLB e MNPR

  • Trensurb vai parar dia 21

    Higino Barros
    Os metroviários da Trensurb que compareceram à assembleia geral realizada hoje à tarde na sede do Sindimetrô/RS, no bairro Humaitá, aprovaram a paralisação da categoria por um dia, em sinal de advertência. A greve parcial foi marcada para próxima quinta- feira, dia 21.
    Até lá, no entanto, os funcionários da empresa esperam que a direção da estatal atenda o pedido de reposição da inflação medida pelo IPCA nos salários ( 9,28%). A Trensurb oferece 8,28%. Os trens que servem a população de Canoas a Novo Hamburgo transportam, diariamente, cerca de 220 mil passageiros.
    A Comissão de Negociação da reposição salarial vem negociando com a direção da Trensurb desde o início de março. “ Eles bateram o pé nos 8, 28% e não arredam dessa proposta desde o início. Assim não resta outra alternativa para os trabalhadores a não ser cruzar os braços”, explicou Luis Henrique Chagas, presidente do Sindimetrô/RS.
    Troca de comando
    Entre os metroviários há a crença que a especulada troca no comando da empresa possa atrapalhar as negociações. A partir do governo Lula e prosseguindo no governo Dilma, a Presidência da estatal e outros cargos de chefia, com altas remunerações, foram divididos entre integrantes do PT e do PP. Agora, no governo interino de Temer, anuncia-se que a Presidência será entregue ao PTB.
    O receio dos trabalhadores é que a atual direção não ceda nas negociações salariais, para criar dificuldades aos possíveis novos gestores da Trensurb. A direção da empresa atribui a negativa da reposição pedida pelos metroviários gaúchos a ordens de Brasília, enquanto os empregados da estatal consideram que a decisão é local mesmo.
     

  • Servidores temem privatização do IPE, que tem R$ 1 bilhão a receber

    FELIPE UHR
    “O que está em jogo é uma forma de privatizar o IPE”, afirmou o presidente da Federação Sindical do Servidores Públicos do Rio Grande do Sul, Sérgio Arnoud, em coletiva de imprensa convocada pela entidade.
    O Instituto de Previdência do Estado tem mais de R$ 1 bilhão a receber do poder público. Ao lado do Diretor de Saúde do IPE, Alexandre Escobar, Arnoud informou que somente o Tesouro do Estado deve mais de R$ 893 milhões.
    A dívida vem se acumulando desde 1997. Somando o que é devido também pela Defensoria Pública, Assembleia Legislativa, Ministério Público Estadual, Tribunal de Contas e Tribunal de Justiça do Estado, o valor chega a R$ 992 milhões referentes a repasses que não foram recolhidos.
    A contribuição patronal dos pensionistas aumenta esse valor em R$ 186 milhões. “O IPE tem déficit porque não recebe o que deveria”  apontou.
    Arnoud vê uma mobilização para privatizar a autarquia. A reunião dos ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Osmar Terra (Desenvolvimento Social e Agrário) e Ricardo Barros (Saúde) com o governador Sartori seria um indicio. “Querem privatizar o IPE, por isso criam esse ambiente”, apontou.
    Segundo ele, o governador Sartori não repassou valores, levando o IPE a recorrer ao Fundo de Assistência à Saúde. “Essa proposta do ministro da Saúde, dois dias atrás, de criar um plano de saúde popular ‘para aliviar o SUS’ mostra que a ideia não se aplica só ao Rio Grande do Sul”, afirmou.
    Abaixo, a dívida que o IPE tem a receber de cada órgão:
    Tesouro do Estado…………………….. R$ 893.158.995,00
    Defensoria Pública ……………………..R$ 6.571.361,92
    Assembleia Legislativa ………………..R$ 20.172.194,02
    Ministério Público Estadual ………….R$ 11.829.521,78
    Tribunal de Contas do Estado ………R$ 6.625.594,34
    Tribunal de Justiça do Estado ………R$ 53.757.648,12
    Dívida da Contribuição Patronal dos Pensionistas
    Todos os órgãos…………………………. R$ 186. 800.000,00