Duilio de Avila Bêrni – Professor de economia política (UFSC e PUCRS, aposentado). Coautor de “Mesoeconomia” (Bookman, 2011) e “Teoria dos Jogos” (Saraiva, 2014).
Se tinha gente insatisfeita com as moderadas conquistas de posições igualitárias alcançadas pelo lulismo, só posso imaginar como estes falantes “estar-se-ão” sentindo com o temível governo Temer. Mas é precisamente esta a questão que desencadeou inúmeros golpes na ordem democrática alcançada no Brasil depois do impeachment do presidente Collor de Mello. Mais ou menos consensual, o impeachment de Collor nutriu-se precisamente da carência de capital político do presidente vencedor das primeiras eleições diretas depois do movimento político-militar que rompeu com a ordem institucional em 1964. Com pouco mais de 50 anos de deflagração da primeira, vemos agora a terceira ruptura na ordem institucional no país.
Visualizo um diagrama de árvore (dendograma) em que o nó inicial é o golpismo que, rapidamente, bifurca-se em dois troncos contendo atentados às liberdades políticas e socioeconômicas, ambas ramificando-se em variadas combinações. Sem falar nos atropelos já praticados na política externa, o primeiro tronco diz respeito às motivações políticas do golpe, cabendo ao Brasil a vivência de inúmeras variantes e, agora, uma tentativa de golpe parlamentar com a proposta do impeachment do mandato de Dilma Rousseff. No Brasil contemporâneo, uma forma disfarçada de golpe consiste na chamada judicialização das ações legislativas e impugnação judicial de medidas do poder executivo. Como foi referido por estes dias nas redes sociais, o Brasil não tem um poder judiciário, mas 17 mil juízes fazendo pelo menos 17 mil tipos de justiça…
Um dos troncos secundários é o chamado complô do quarteto promotores-juízes-polícia-imprensa. Novo tronco associa-se a uma tosca visão de neoliberalismo, ou melhor, a visão rasteira de libertarianismo, quando seus arautos, no final, esquecem a liberdade política e enfatizam apenas “a soberania dos mercados”. Estes golpes não são de hoje, como atestam as ações progressistas e a reação a elas que antecederam o golpe militar. Depois da renúncia de Jânio Quadros à presidência da república em 1961, uma junta militar vetou a posse de seu sucessor e negociou com o congresso nacional a instituição do parlamentarismo no Brasil. Depois de alguns meses da manutenção da instabilidade política, um plebiscito restaurou o presidencialismo, quando João Goulart lançou seu programa de “reformas de base”, despontando – e despertando furores de parte das referidas classes empresariais – a reforma agrária. Mas, além dela, falava-se na promoção de uma reforma na administração pública, da política tributária e do sistema bancário. Não é de surpreender que as forças conservadoras, em plenos tempos de guerra fria e emergência do regime revolucionário cubano, invocaram o apoio dos militares, os quais, afinal, tornaram-se os protagonistas do lamentável espetáculo.
Com duas décadas de duração, aos poucos, a ditadura militar foi vendo sua aceitação pela maioria da classe política corroer-se, culminando com a assembleia constituinte que determinou a realização de eleições diretas para a presidência da república em 1989. No ínterim entre as eleições que levaram Collor ao poder e às que dele afastaram os militares, vimos a eleição indireta de Tancredo Neves, carregando como candidato a vice-presidente o nome de José Sarney. Sarney veio a avalizar novo golpe ao livre exercício do poder popular, pois nunca foi empossado como vice-presidente. A nomeação do titular de sua chapa nunca ocorreu, uma vez que Tancredo Neves adoeceu antes da posse e, como tal, não foi ungido ao cargo. Sarney, que estava destinado a acompanhar Tancredo por um período de quatro anos, mas que – se Tancredo tivesse tomado posse por um minuto – seu vice teria apenas dois anos de mandato, devendo encaminhar a convocação de novas eleições. Pois ele conseguiu estender seu mandato para um quinquênio, sendo o único presidente civil a fazê-lo: os mandatos quadrienais voltaram, cabendo a Fernando Henrique mudar a constituição, dando-se guarida ao direito a uma reeleição. Antecessor de FHC, a quem Sarney – mal-humorado – não deu posse, Fernando Collor venceu uma eleição em que não faltaram de lado a lado manifestações de despreparo e prática da mentira. Aclamado no segundo turno eleitoral por uma frágil coalizão de partidos, o que chega a surpreender é que este arranjo tenha durado um par de anos. Em seu governo, a corrupção endêmica grassava em muitos segmentos do governo federal e contribuiu para que a norma institucional fosse rompida com um pedido de impeachment aprovado sem a participação do voto popular, eis que todo espetáculo ocorreu no congresso nacional.
Durante os governos que o sucederam, houve relativa calma, pelo menos no que diz respeito à sanha de golpes ou impeachment. Seguiu-se à surpreendente conversão de Fernando Henrique ao ideário neoliberal a triunfal entrada em cena de Lula, que governou na relativa paz compatível com a realidade de uma enorme população pobre e desassistida sequer de direitos civis. Tal foi o sucesso econômico do governo Lula que, em escolha idiossincrática, lançou como candidata a sucedê-lo e, como tal, preservação do lulismo, a Dilma Rousseff. A presidenta – o substantivo feminino foi incorporado desde que Dilma sucedeu Wrana Panizzi na presidência da Fundação de Economia e Estatística – fez um governo que amargou sérios tropeços econômicos, acarretando-lhe a corrosão do controle da máquina pública e o otimismo da população. De estonteantes índices de popularidade alcançados em pesquisas de opinião, este indicador passou a registrar queda, mergulhando a níveis baixíssimos, certamente auxiliados pela histriônica reação de Aécio Neves à própria derrota nas eleições de 2014. Abalado com a contundência do ódio de Aécio e sua ascenção a arauto das classes conservadoras, o governo Dilma passou a fazer-lhes concessões, contribuindo crescentemente para a perda de apoio por parte das classes populares. A tragédia prosseguiu, na eleição de 2014, com a sagração, nas duas casas, de um congresso nacional reacionário em termos políticos e econômicos, insatisfeito com a forma como o governo estava financiando medidas de efeito redutor da desigualdade econômica. Não surpreende que um político oportunista do porte de Eduardo Cunha tenha sido eleito presidente da câmara e desencadeado um pedido de impeachment do mandato de Dilma com raso conteúdo lógico, mas de agudo apelo ideológico.
Na mesma linha do golpe de Sarney, que não estava credenciado a assumir a presidência, Michel Temer carrega a ilegitimidade de, mesmo no período em que responde interinamente pela presidência, tenta impingir à economia um programa de governo de manifesto corte antipopular, eivado de tentativas de cortes de direitos sociais e econômicos. Precisamente sobre essa dimensão econômica é que assenta o segundo tronco do mundo golpista. Nesta região da árvore, os golpes são ainda mais frequentes, pois são perpetrados em resposta às pressões exercidas sobre os poderes executivo e legislativo por representantes da chamadas classes empresariais. Entusiasma-as, por exemplo, o sequestro de algumas conquistas sociais e econômicas alcançadas pela classe trabalhadora durante o lulismo. Mas esta, alquebrada por inúmeras derrotas, não deveria esquecer que um momento dramático a agitar este tronco ocorreu no pós-1964, quando a estabilidade no emprego conquistada durante a ditadura varguista, foi varrida e substituída pelo instituto do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. O FGTS é um fundo de poupança que assegurava direitos econômicos sobre a desvalorização do dinheiro, mas pagava um juro de modestos 3% a. a., quando as cadernetas de poupança pagavam 6% e os empréstimos habitacionais corriam a juros de 12% a. a. Bons tempos, infelizmente… Pois novos golpes foram-lhe assestados durante o governo FHC, mudando regras da aposentadoria para praticamente a mesma expectativa de vida ao nascer, isto é, criou-se direito à aposentadoria por idade para 75 anos, quando o brasileiro médio deverá estar… morto.
Mas esta derrota para o trabalhador médio resultou ainda no golpe misto que foi assestado contra, digamos, a “jovialidade” da composição do supremo tribunal de justiça do país, ao também a eles reformarem a tradicional aposentadoria do funcionário público de 70 anos. Com isto, naturalmente, os desígnios dessa suprema corte devem tornar-se mais conservadores, ainda que desalinhados dos interesses políticos imediatos.
Nos dias que correm, anunciam-se intenções de cortes abruptos nas despesas públicas, talvez recitados como nos teatros de marionetes, pois as reações e a própria “base aliada” levaram o governo provisório a rever o ímpeto das medidas anunciadas. Este foi o caso dos cortes e recomposição do programa de habitação popular “Minha Casa, Minha Vida”, do financiamento à educação superior pelos programas Pro-Uni, FIES e as mais infames propostas de reformulação do SUS. As próprias críticas endereçadas ao déficit público do governo afastado foram substituídas por uma espécie de reformulação imóvel, pois aceitou e até ampliou seu volume, já anunciando que os próximos anos também terão que conviver com esse promotor de um hiato inflacionário. No Brasil do “andar superior” tornou-se tabu falar em combate ao déficit com a ampliação da tributação. Descarta-se liminarmente com este tipo de reação que se daria por meio da adoção dos impostos diretos, como o imposto de renda progressivo, o imposto sobre grandes fortunas e de transmissão de bens por herança.
Nesse andar superior, meter o ombro na porta é, como observamos, ação rotineira. E nada o ilustra com cores mais vivas que a tragicomédia da tentativa de impeachment que hoje vemos contra o mandato de Dilma Rousseff. A acusação original, emergindo da iniciativa pessoal de três advogados, dois dos quais foram, no passado, figuras de proa, comprometidos com a cruzada antilulismo, com uma acusação de “operações de crédito indevidas” concernentes ao ano de 2014. A esta percepção enviesada, associou-se um crescente grupo de inconformados com os resultados da eleição desse ano.
Constatada a improcedência do pedido, rapidamente esses defensores de uma ordem legal conveniente, reciclaram seu pedido para as contas de 2015. Especialmente na preparação do julgamento do mérito da tese da prática de crime de responsabilidade ora em andamento no senado federal. por contraste a julgamentos semelhantes de todos os governos anteriores, inclusive dos estados, cuja recomendação era de “aprovar com ressalvas”, agora o exame ganha foros de discussão entre o lobo e o cordeiro: “Se não foi pedalada fiscal, foi algum outro ilícito ainda mais revoltante. E não se discute mais.”
Diferentemente de Michel Temer, outro paulista não se encantou com a tentação do poder: Amador Bueno. Com efeito, ao encerrar-se o Domínio Espanhol sobre Portugal, em 1640, a colônia de súditos da Espanha residente em São Paulo rebelou-se contra a assunção de Dom João IV ao trono português e intimou Amador Bueno a assumir o reinado da região que, desta forma, se tornaria independente do restante do Brasil Colônia. O incorruptível paulista recusou a honraria e, ao contrário do esperado, saudou de espada em riste a ordem institucional portuguesa. No presente momento, Temer faz um prejulgamento espetacular do julgamento a que Dilma Rousseff será submetida pelo Senado da república. Alardeia-se que ele sonha-se capaz de reestabilizar o Brasil nos dois anos e meio de mandato que talvez o aguardem. Aécio iniciou a desestabilização política. Temer conta com a desestabilização institucional. Amador Bueno está sepultado.
Autor: da Redação
Uma Árvore de Golpes
Lançamento marca o centenário de ”Antônio Chimango”
GERALDO HASSE
O professor Luiz Augusto Fischer, líder do ensino e da crítica de literatura do Rio Grande do Sul, acaba de lançar o que provavelmente será reconhecido como o maior lançamento editorial de 2016.
Luís Augusto Fischer. Foto Studio Clio
É uma requintada reedição de “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcellos, livreto lançado em 1915 para satirizar o poderoso presidente do Estado, Antonio Augusto Borges de Medeiros, apresentado então como “magro como lobisome, feio como o demônio”.
Por sua forma debochada, o poema em sextetos caiu no gosto popular e teve várias edições, tornando-se um clássico da literatura regional, comparado ao “Martin Fierro”, do argentino José Hernandez.
Em dois volumes, capa dura, somando 590 páginas, o trabalho de Fischer foi patrocinado pelo Banrisul, via Lei Rouanet.
Além do professor da UFRGS, que desde estudante, em 1979, se envolveu no estudo da terrível sátira de Ramiro Barcellos (médico da Santa Casa e senador), o livro coloca nas mãos dos leitores contemporâneos estudos antigos produzidos por Raymundo Faoro e Augusto Mayer; traz ainda artigos escritos agora por estudiosos como Fausto Domingues, do Instituto Histórico e Geográfico do RS; Gunther Axt, historiador; e José Francisco Botelho, tradutor; Sergio da Costa Franco, historiador; Michel Le Grand, estudioso da literatura gauchesca.
Enquanto o primeiro volume é todo ele dedicado ao Antonio Chimango, o segundo focaliza o restante da obra escrita de Ramiro Barcellos, autor de livros de história, discursos, artigos, poemas e ensaios.
Alguns textos são publicados com pseudônimos como Amaro Juvenal (“autor” do Chimango) ou “Dr. Raphael de Mattos”, usado em polêmicas sobre a prática da medicina e as políticas de saúde pública.
Como fecho de ouro, o livro apresenta em suas 28 páginas finais um estudo biográfico sobre Ramiro Barcellos.
Nesse ensaio, numa linguagem clara, muito mais para o jornalismo do que para a academia, Fischer mostra quem foi o autor de Antônio Chimango: culto e brigão, ele teve de esconder-se atrás de codinomes para fazer guerra aos gaúchos mais poderosos da época – Borges de Medeiros e Pinheiro Machado.
Quanto a isso, para tentar compreender por que eles brigavam, é bom mergulhar no levantamento (50 páginas) do historiador Gunther Axt, que focaliza as grandes obras públicas e privadas da época no Rio Grande do Sul: a exploração do carvão mineral, a ferrovia RS-SP e o porto de Rio Grande, entre outras.
Por jornais e no Senado, Barcellos envolveu-se em debates até com Ruy Barbosa, senador e ex-ministro da Fazenda.
Como político, parece que o pai de “Antônio Chimango” tinha conchavos com os grandes empreendedores da época, especialmente com o maior de todos, o norte-americano Percival Farqhar, que ganhou a concorrência para construir a ferrovia RS-SP e, após devastar a mata atlântica do oeste de Santa Catarina, deu origem à Guerra do Contestado (1912-1916).
Dmae não vai à reunião sobre o mau cheiro da água
Actinomiceto é o nome da bactéria que deixou a água com cheiro e gosto ruim em Porto Alegre. A explicação é da professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), microbiologista Sueli Van Der Sand, durante a reunião da Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) da Câmara de Vereadores, na terça-feira, 12.
Segundo ela, estas bactérias não oferecem riscos à saúde. “Essa alteração pode ter acontecido por causa da baixa quantidade de chuva nos últimos meses, mas isso também é resultado da poluição ambiental. Em todo o mundo a gente tem esse tipo de problema”, declarou.
A presidente da Cosman, vereadora Lourdes Sprenger (PMDB), leu uma avaliação do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), que não enviou nenhum representante à reunião. O texto apresentava três hipóteses como motivo do problema: a poluição, a reação de substâncias e condições de saneamento precárias.
Em 90 dias, foram registradas 1.003 reclamações sobre a qualidade da água na capital.O engenheiro químico da equipe de Vigilância Sanitária da Prefeitura, Rogério Ballestrin, disse que “o Dmae foi questionado pela Prefeitura, mas foi observado que a dosagem de cloro usada no tratamento do líquido permaneceu a mesma. Também foi feito um estudo sobre a toxicidade da água e também não foi constatada alteração”. Segundo Ballestrin,também houve uma alteração nos mananciais.
Alfredo Ferreira, da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), destacou o desaparelhamento dos órgãos públicos que cuidam do meio ambiente na cidade. “Por um lado, usa-se o Guaíba para lançar dejetos. Por outro, houve falta de chuvas, por isso a maior concentração de poluentes. Mas a poluição, em Porto Alegre, não tem sido mais examinada”, afirmou.
O engenheiro civil do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), Paulo Napoli, compareceu à reunião da Cosman para dizer que a responsabilidade pelo tratamento da água potável na cidade é do Dmae. A Cosmam convidou o Dmae, mas ninguém apareceu.
O presidente do Movimento Menino Deus Sustentável, Ivo Krauspenhar, disse que a falta de equipamentos e o sucateamento dos órgãos públicos interferem nesse descuido com a água, que vem apresentando cheiro “muito forte” na região do Menino Deus.
Ao final da reunião, foram feitos encaminhamentos ao Ministério Público, que está realizando um inquérito sobre o caso. Também estiveram presentes Sérgio Celia, dermatologista do Hospital São Lucas, e os vereadores Jussara Cony (PCdoB) e Paulo Brum (PTB).
Enquanto isso, a Fepam continua aguardando laudo da análise de amostras da água, que está sendo feita em São Paulo, cujo resultado é esperado para esta semana.
(Com informações da Câmara de Vereadores)
Uma incógnita no horizonte
Cândido Grzybowski – Sociólogo, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)
Estes últimos tempos foram de muita angústia e estresse político no Brasil. Difícil foi ficar de fora, como se não fosse com a gente. Não só foi algo rápido e impactante em termos de decomposição de verdades e certezas, de revelações de um sistema político profundamente corrompido, como tendeu a nós por em diferentes polos, profundamente separados. E ainda não dá para ver bem onde isto vai dar, quem dos representantes que temos poderá reivindicar alguma legitimidade para ser o governo do Brasil. Por enquanto continuamos nos atolando cada vez mais numa grande crise que, a essas alturas, já depende muito pouco do desfecho do impedimento da presidenta Dilma. Quaisquer das possibilidades legais possíveis só aprofundam a crise de hegemonia, de falta de rumos legítimos, de direções como expressão democrática de sonhos e desejos de amplos setores da sociedade, capazes de agregar e viabilizar propostas de uma nova onda de democratização. Aliás, o mais provável é entrarmos num processo mais ou menos longo de crise larval, de idas e vindas, de desmanche sem reconstrução, de perda de direitos de cidadania conquistados, de desemprego e instabilidade, de uma rápida expansão da miséria e pobreza, com enorme esgarçamento do tecido social. Terreno fértil para que prosperem demagogos e oportunistas, como já temos alguns, que transformam a diferença e a insatisfação com tudo que está aí em intolerância e ódio de uns sobre outros. O fenômeno de Trump, nos EUA, deve nos fazer pensar, assim como outros exemplos de ascensão de direitas fascistas pelo mundo, coisa que está à nossa porta. Quem pensa que o Brasil está livre disso se engana profundamente. O autoritarismo está cravado fundo no nosso DNA como país. A democracia ainda é uma tenra planta, no momento sofrendo por falta de seiva vital dos que defendem seus valores e princípios éticos, a água que vivifica as democracias sempre. Existem, sim, democratas convictos e radicais entre nós, mas estamos encurraladas pela situação brasileira e mundial, pelo capitalismo neoliberal sem pejo, do poder do dinheiro tout court.
Escrevo tudo isto porque a vida segue e não podemos parar, mas o bicho pode nos comer… Estamos de olho em Brasília, naquelas pequenas personagens que tomam a cena no Congresso Nacional e no governo provisório, mais à feição e ao serviço dos que financiaram as suas campanhas, do que da diversa cidadania brasileira. E esquecemo-nos de priorizar o nosso entorno. Em menos de três meses teremos eleições municipais, uma primeira etapa no calendário político de resistência e reconstrução de outro Brasil. Em sã consciência, quem pode afirmar que está levando a sério as eleições municipais de outubro? Os territórios em que moramos, trabalhamos, vivemos, enfim, como os verdadeiros pilares do refazer a democracia brasileira de baixo para cima, representam a possibilidade de começar desde já a tarefa de construir um novo amanhã. Temos claro, vagas ideias de articulações de bastidores, de tomadas de posição, de figuras que se dizem e se lançam como candidatos a prefeitos e vereadores. Por quem? Por quê? Para que projeto? O que significa a constelação de partidos, no geral de ocasião, atrás deles e delas?
Estou aqui nesse Rio de Janeiro, cidade maquiada para o espetáculo olímpico, mais para turistas e o negócio dos jogos do que para nós, moradoras e moradores daqui. Algumas das obras até encantam e irão marcar o amanhã deste maravilhoso e mal tratado bem comum que é a nossa cidade. Cidade de encantos mil, tanto pelo azul do mar, baía e praias, pelos morros e florestas, como pelo seu jeito de ser, humor e cultura vibrante, do samba, da rap, do funk. Este é seu lado resistente, mesmo nas maiores adversidades. Hoje discutimos, no cotidiano, mais a violência em ascensão do que as Olimpíadas que acontecerão em menos de um mês, mais o descalabro dos serviços públicos como educação e saúde e o caos que se instalou nos transportes públicos, mesmo com o saudado VLT (novo nome, maquiado, do conhecido bonde!) na área central, as linhas de BRTs e a extensão do grande linhão do metrô. A cidade ficou muito, muito mais difícil! Não dá para esperar solução lá do Planalto. Afinal, vivemos na planície, como lembrava o Betinho. E aqui estamos com um estado na UTI.
Minha outra vivência de cidade, nesta etapa da vida, é Rio Bonito, a 90 km do Rio e parte da Região Metropolitana. A 6 km da cidade, construí com minha companheira um pequeno paraíso de preservação da biodiversidade, a Chácara Iru, onde ainda pratico técnicas de agricultura orgânica, aprendidas desde o berço familiar em Erechim (RS). Lá está a minha biblioteca dos meus mestres e inspiradores. A cidade de Rio Bonito, pequena, é a décima em número de carros per capita do Brasil! De bonito sobra pouco, pois o riozinho que está no centro é uma verdadeira vala de esgoto, onde qualquer chuva gera a tragédia de inundação. A Serra do Sambê, que contorna a cidade pelo Norte, tem seu encanto e uma vegetação de Mata Atlântica que ainda resiste. Imagino que quando Darwin lá esteve na sua famosa vista ao Brasil, 200 anos atrás, viu outra coisa e muito se inspirou para a sua teoria de evolução das espécies. Lá nasceu, viveu e morreu o jornalista Astrojildo Pereira Duarte Silva (1890-1965), o fundador do PCB, em 1922, e seu primeiro presidente, expulso depois. Pois bem, hoje Rio Bonito é um quase desastre em termos políticos. A prefeita atual da cidade é a Solange do Amaral, aquela aliada nas falcatruas do Cunha, envolvendo propina. A cidade é parte da base eleitoral do deputado estadual Marcos Abraão, que nem merece comentários. Um desastre em termos de democracia e cidadania! Quem vai disputar a eleição municipal em outubro? Sei lá! Nos últimos anos o Ibase desenvolveu um trabalho em Rio Bonito, e outros 14 municípios da área de influência do Comperj, que resultou na criação de uma rede local de cidadania. Espero que algo diferente aconteça por lá, mas meu voto é ainda como cidadão do Rio de Janeiro.
No Rio – penso que o mesmo se passa nas grandes e médias cidades brasileiras – existem tramas em curso que vão acabar nos dando o dilema de escolher o de sempre, sem novidades reais. Serão provavelmente, muitos candidatos, mais do que reais propostas para a cidade. Tudo deverá ser decidido no segundo turno, entre os dois candidatos melhor colocados. Financiamento empresarial, que tudo distorce, deixou de ser legal. Mas alguém acredita que novas formas de financiamento ilícito não serão inventadas? E a questão mais importante: a agenda de cidade está posta na mesa para que a cidadania decida, pensando mais na cidade do que nas pequenas e corporativas agendas de candidatos, prometendo vantagens e favores para correligionários?
Não registro, no Rio ou em outros municípios, nenhum candidato ou força política levantando o debate da cidade como bem comum. Isto num momento em que os ventos políticos dominantes, no país e fora, voltam a priorizar uma agenda conservadora de mais liberalização, mais mercado, e menos público e regulação política, menos políticas para garantir direitos coletivos. O debate estratégico de resistência possível é resgatar a centralidade do comum na cidade para uma vida coletiva que faça sentido para todas e todos. Isto está presente nas lutas, em favelas, nas resistências a remoções, na luta por educação pública e saúde de qualidade, na luta por segurança pública como direito, na luta por mobilidade urbana para todo mundo, nos pontos de cultura e mídia alternativa. A lista é grande e inspiradora, basta olhar, querer e valorizar. São as sementes que vejo podendo anunciar outro amanhã para a cidade.
A incógnita que está no horizonte continuará incógnita enquanto não for decifrada com técnica, sem dúvida, mas, sobretudo, com imaginação, com esperança e determinação democrática, de direitos de cidadania, com nossa participação no antes, durante e após eleições. Ou seja, depende de nós mesmos mudar tal equação, ao seu modo bastante simples. Participemos desde já e exijamos o que não nos é revelado. Termino com a canção que se tornou o símbolo no combate à ditadura, de Geraldo Vandré. Penso que olhando para nossos lugares, nosso territórios locais, e para as possibilidades reais de ativismo cidadão que aí estão presentes, no aqui e agora, nosso engajamento pode começar a fazer a hora.
“Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer”João Pedro Stédile: “Os capitalistas sequestraram o sistema eleitoral no Brasil e elegem quem eles querem”
Do site Bafafá
O coordenador nacional do MST, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, João Pedro Stédile faz uma consistente análise do quadro político brasileiro. Em palestra no Sindicato dos Engenheiros do Rio e em entrevista ao Bafafá, ele afirma que a conciliação com a burguesia é um casamento desfeito que não adianta insistir. “Nós, como forças progressistas da sociedade, temos que debater e pensar em um novo projeto. O carro de som como forma de mobilização não serve mais”, garante.
Para Stédile, o neodesenvolvimentismo da era Lula e Dilma esgotou. Caso o impeachment seja rejeitado, ele defende que Dilma venha a público com uma carta compromisso com a sociedade. “Não basta ela voltar. Tem de voltar com outro programa, outro ministério e esquecer esses partidos de merda do Congresso”, fuzila.
Sobre o papel do parlamento, Stédile fuzila: “Os capitalistas sequestraram o sistema eleitoral no Brasil e elegem quem eles querem. Essa história de que todo poder emana do povo é uma falácia”.
Como está vendo o momento que estamos vivendo?
A classe dominante brasileira, ao longo de nossa história, sempre recorre a esses golpes militares ou institucionais para recompor o seu projeto. Nós fazemos uma leitura que a sociedade brasileira está vivendo uma grave crise nesse período de sua história. Uma crise que não é de corrupção, não é apenas uma crise política. Ela eclodiu em meio a uma crise econômica, em meio a uma crise política de gestão do estado e uma crise social com os problemas se agravando. Temos ainda uma crise ambiental fruto da ganância do capital como nunca vimos em outros períodos de nossa história. Isso é decorrência da vários fatores: da crise do capitalismo internacional, da dominação do capital sobre o estado e a produção, da falência da democracia representativa. Os capitalistas sequestraram o sistema eleitoral no Brasil e elegem quem eles querem. Essa história de que todo poder emana do povo é uma falácia! O povo nem sequer lembra em quem votou. Na votação do impeachment da Dilma só 36 deputados tinham votos próprios para se eleger, o resto entrou de carona. A crise é mais ampla do que apenas possíveis erros do governo Dilma.
O MST foi crítico ao governo Dilma?
Nós criticamos e denunciamos o governo Dilma porque ele foi eleito com um programa em 2014 e imediatamente montou uma equipe que nada tinha a ver com este programa, com o Levy à frente. Em 2015, foi um desastre porque ela adotou um programa neoliberal que tirou o apoio popular dela. Nós sempre fomos críticos, sobretudo no segundo mandato. Porém, temos que entender que a causa principal não são os erros do governo. Diante dessa crise histórica, que só aconteceu antes em 1930, 1960, 1964 e 1980. Para sairmos da atual precisamos de um novo projeto com nova hegemonia na sociedade. A burguesia, diante da crise, soltou seus cachorrinhos na rua. Embalados pela Globo com a fantasia que o problema era a corrupção, fizeram todo aquele latido nas ruas. Ai veio o golpe e agora estão envergonhados. Nunca se viu tanta corrupção num só governo como o atual. Três ministros já caíram e tem mais sete arrolados em processos de corrupção. Como disse o Ciro Gomes, o governo Temer é um sindicato de ladrões.
O impeachment é golpe?
A burguesia deu um golpe institucional porque quer aplicar um plano neoliberal que atenda o capital financeiro e as grandes corporações internacionais. Esse governo provisório já prega o realinhamento com os Estados Unidos, a flexibilização da CLT e liberação da terceirização. Vai ser um ataque frontal ao direito dos trabalhadores. O pior vai ser a apropriação de R$ 220 bilhões em recursos que eram destinados às camadas populares, em todas as áreas, saúde, educação, moradia, reforma agrária. Isso para recompor o seu processo de acumulação. Tem ainda a apropriação dos bens da natureza. No Brasil ainda temos em oferta a energia elétrica e o petróleo. O minério de ferro não falo, pois já é deles! Eles precisam se apropriar do Pré Sal, a nossa grande riqueza natural. Eles precisam se apropriar, pois é a maior reserva conhecida do mundo. O Temer, em nome da burguesia, quer fazer esse trabalho. Seu governo golpista tem muitas contradições. O projeto neoliberal dele não é um projeto de nação, ao contrário. É um programa antinacional e antipopular. Os problemas só irão se agravar.
Quem afinal comanda o golpe?
A direita brasileira está desunida, não tem um núcleo. Tem o bloco de interesse do poder econômico representado pelo Meirelles, o bloco dos partidos conservadores como PMDB, PP, PPS, tucanos e o bloco ideológico comandado pela Globo, o Moro e o Ministério Público. Contradições destes três blocos, por falta de unidade política, podem nos ajudar.
E a classe trabalhadora no meio disso?
A classe trabalhadora tem enfrentado diversos desafios diante da crise. Apenas os setores organizados estão nas ruas, as manifestações não tem o povão que está atônito diante da luta de classes. Por que isso? Pelo fracasso ideológico dos partidos que pararam de fazer formação política, na incompetência dos governos Lula e Dilma de fazer aliança com a Globo ao invés de enfrentar o poder econômico. Hoje nós temos uma massa amorfa que está em casa vendo televisão. Nós temos que cutucar essa massa. O nosso desafio agora é trabalhar firmemente não só nos sindicatos, mas também nos movimentos populares, no sentido de uma greve geral. Se a classe trabalhadora não parar não terá força para sinalizar para a burguesia que é contra o arrocho. Esse é o desafio: a classe trabalhadora que produz sinalizar para o Temer que ela é um ator importante para o futuro da sociedade. Ai cabe uma autocrítica da esquerda de reconhecer que desaprendeu de fazer trabalho de base e de conscientização.
E os militares, são legalistas ou golpistas?
Os militares golpistas estão de pijama embora circulem nas redes sociais com discursos fascistóides. Os militares da ativa estão atônitos e receosos de ter um protagonismo maior. Cabe nos criarmos pontes com eles na defesa da democracia.
E qual é o desafio para as forças progressistas?
Temos que pensar num novo projeto para o país. O neodesenvolvimentismo da era Lula e Dilma esgotou. Não adianta achar que Lula 2018 vai resolver o problema apesar dele ainda ser o maior líder popular que nós temos. Se não tivermos um programa por trás não avançaremos. A conciliação com a burguesia é um casamento desfeito, não adianta insistir. Nós, como forças progressistas da sociedade, temos que debater e pensar em um novo projeto. O carro de som como forma de mobilização não serve mais.
É possível barrar o golpe?
Sim, temos chance. Tudo é possível diante do caráter golpista e antinacional do governo Temer. É preciso um intenso trabalho de mobilização em diferentes setores da sociedade como da saúde, da educação, da moradia, do campo. Temos ainda a perspectiva de uma greve geral como necessidade de mobilizar as massas. Nos dias 19 e 20 de julho vamos realizar um Tribunal Internacional para julgar os golpistas no Teatro Casagrande. O júri será formado por sete personalidades do mundo, entre eles Andrés Peres Ezquivel. O veredito será levado ao STF e aos senadores. Queremos ainda organizar uma grande marcha no dia 05 de agosto na abertura das Olimpíadas aproveitando que estarão na cidade mais de 20 mil jornalistas. Vamos ainda imprimir milhões de folhetos didáticos explicando a natureza do golpe. Existe também a possibilidade de entrarmos com um recurso no STF questionando o mérito do impeachment se vier a ser aprovado. Temos que associar o golpe ao STF para mostrar à sociedade que ele é conivente com o golpe.
E Dilma nisso tudo?
Ela tem de vir a público e divulgar uma carta compromisso com a sociedade. Não basta ela voltar. Tem de voltar com outro programa, outro ministério e esquecer esses partidos de merda do Congresso. Isso é urgente. É besteira ela sinalizar a direita com um plebiscito sobre a continuidade ou não de seu mandato. Até porque juridicamente é inviável.
E se o impeachment for aprovado?
Se for aprovado temos duas alternativas: recorrer ao STF para julgar o mérito da questão e paralelamente a isso lutar por um plebiscito que convoque uma Assembleia Constituinte para fazermos uma reforma política. Sem mudar o sistema eleitoral não teremos democracia representativa no país.
E um eventual governo Temer como será?
Não conseguirá governar uma semana do ponto de vista de ação política porque vai ser contra os trabalhadores. Vai aprofundar a crise e será instável.
Junho de 2016Repórter e estudantes são indiciados por quatro crimes
O delegado Omar Abud, titular da 17ª Delegacia de Polícia, já concluiu o inquérito policial que tratava da ocupação da Secretaria da Fazenda, ocorrida no dia 15 de junho.
Na ocasião, foram detidas 43 pessoas, sendo dez maiores de idade. O delegado indiciou os maiores por quatro crimes: dano qualificado ao patrimônio, resistência, associação criminosa e obstrução ao trabalho.
Entre os indiciados estão o repórter do Jornal Já Matheus Chaparini, preso enquanto trabalhava, fazendo a cobertura da ocupação, e o cineasta independente Kevin D’arc, que está produzindo um filme sobre as ocupações escolares em vários estados brasileiros.
O processo tramita na 9º Vara Criminal, a cargo da juíza Cláudia Junqueira Sulzbach e do promotor Luis Felipe Tesheiner. O processo está com vistas ao MP, que vai analisar as conclusões do inquérito e oferecer ou não a denúncia. Da lista de crimes citados no auto de prisão em flagrante, foram retirados pelo delegado corrupção de menores e esbulho possessório.
O delegado Omar Abud falou por telefone à reportagem do JÁ e confirmou o indiciamento. No entendimento do delegado, Chaparini e D’arc não estavam trabalhando, mas participando da manifestação. “Estavam todos com o mesmo intuito”, declarou.
Abud disse ter assistido a todos os vídeos publicados sobre o episódio. Um destes vídeos mostra Chaparini se identificando como jornalista aos policiais pelo menos três vezes.
Encontro pelo Arado contesta mudança no Plano Diretor
RAMIRO FURQUIM
No meio da tarde do chuvoso último sábado (9), no CTG Piquete da Amizade, zona sul de Porto Alegre, aconteceu o Encontro pelo Arado. Cerca de 80 pessoas entre comunidade, políticos, ativistas, técnicos e ambientalistas estavam presentes. Muitos dos presentes formam o movimento Preserva Belém Novo.

| Ramiro Furquim/Jornal Já
Ainda houve show com músicos locais, exposição fotográfica, exposição de peças guaraniticas de antes da colonização do Brasil e um abaixo-assinado contra a construção de outro grande condomínio de luxo na Zona Sul. Esse novo mega empreendimento quer se instalar na Fazenda do Arado Velho, uma ampla área verde nativa e alagadiça.
sítios arqueológicos serão soterrados
Buscando ouro nas margens do Guaíba e da Lagoa dos Patos, o morador Uilbor Xavier e seu pai encontraram diversas peças em sítios arqueológicos intocados. Dentre cerâmicas e porcelanas, há um machado Guarani, encontrado em 1966. Esses objetos encontrados pela família Xavier, se juntam ao registro da fazenda como área arqueológica de 500m2, anotada no Iphan como Ponta do Arado desde 2008. Uilbor chegou a doar os achados ao Museu José Joaquim Felizardo, que não buscaram por falta de combustível, diz.
Parte das peças encontradas às margens do Guaíba, no Arado | Ramiro Furquim/Jornal Já
Fabrício Rocha foi como acompanhante de amigos para a festa julhina e acha absurda a informação – descoberta por ele no encontro – de que a especulação imobiliária quer aterrar quase 500 hectares (sic) de área naturalmente de preservação ambiental para construir mansões: “O mais absurdo, como eles estão fazendo isso? Com uma Lei feita pelo atual prefeito [José Fortunati, do PDT]”, exaltou-se. “São 125 mil caminhões de terra para poder construir em cima! Não pode ser um lugar para habitação!”, finalizou, falando dos cálculos feitos e apresentados pelos técnicos do movimento.
tirar o arado da zona rural foi iniciativa do gabinete do prefeito
Integrante do movimento Econsciência, Felipe Viana já está há um tempo trabalhando contra a aprovação do projeto do condomínio no local: “Esse evento se cria a partir da apropriação da informação. A Zona Rural voltou e depois foi diminuída para urbanização da Fazenda do Arado. Mais do que dobrou o direito deles [dos proprietários] de construir casas. A partir de então, criou-se esse movimento para questionar tecnicamente esse empreendimento, questionar os estudos de viabilidade e impacto deles”. Viana acredita que com os estudos técnicos bem feitos, há possibilidade de comprovar que a área não é adequada para urbanização.
Poucas pessoas favoráveis ao empreendimento falaram. Houve gente que disse ser difícil o movimento barrar o Capital. Teve quem questionou a indenização que a Prefeitura devia dar ao proprietário em troca de um parque e não haver dinheiro.”A Prefeitura tem um fundo que é oriundo de Lei recente, Lei de Conversão de Mudas em dinheiro. Foi feita uma lei para que 80% desse dinheiro seja usado para comprar área para Unidade de Conservação. Esse fundo arrecada R$ 5 milhões por ano. A Smam tem recursos!” falou Viana.
A Câmara Municipal de Porto Alegre (CMPA) recriou a Zona Rural, porque a nomenclatura anterior Rururbana dificultava aos produtores da Zona Sul acesso a políticas públicas rurais, tais como Política Nacional de Crédito Rural, licenciamentos ambientais pelos órgãos governamentais e linhas de crédito para as diversas atividades de produção primária. Viana contesta a retirada somente da área do Arado da Zona Rural: “Não poderia ter mudado a Lei do Plano Diretor”.
O PL do gabinete do prefeito Fortunati diz que o empreendimento tem estudos ambientais aprovados e utilizará cerca de 50% da área para habitações, 215 hectares: mais de dois milhões de metros quadrados, com previsão de casas de até quatro andares. Há previsão de Reserva Particular do Patrimônio Ambiental de 91 hectares. Outros 50 hectares são de área de Proteção do Ambiente Natural. A Lei aprovada ganhou na Câmara por 28 votos favoráveis a 5 contrários. “Foi um canetaço”, critica Viana. “O vizinho dele tem uma marina e planta arroz. Por que ele pode fazer um condomínio? E por que o vizinho não pode? Conhece o efeito “Já Que”? “Já Que” o vizinho fez… Quem barra o vizinho?”.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Fernando Costa, da ong Amigos da Terra, diz que a mobilidade no local não está sendo levada em consideração: “Filmamos aqui as paradas de ônibus pela manhã. Isso aqui é uma loucura”, refere-se à quantidade de gente que sai do local para outras partes da cidade. “O Estado não protege mais as pessoas”, diz Fernando. “Onde não alagava, está alagando. Essa cota de 3,2 metros de aterro acima do nivel do Guaiba que o Dep (Departamento de Esgotos Pluviais) arbitrou para ter uma garantia contra essas catástrofes [cheia do Guaíba] agora. As pessoas daqui, estão em outra cota. Então, cada rua que tu fecha é um dique, represa”, argumenta. “O desenho natural do fluxo de água não existe mais, áreas ainda não regularizadas das pessoas mais antigas estão sendo removidas por essa cota da água”.
ações no Ministério Público
Felipe destaca que dentre os atuais grupos do movimento de moradores, os estudantes do Ambiente Crítico conseguiram achar o erro do estudo do empreendimento e que já estão em andamento no Ministério Público: “É uma área que tem muito mais a ver com uma área de conservação.” “Que essa área se torne pública, se torne um Parque Urbano e Unidade de Conservação e uma área de produção [primária]”.
criador do Arado se considerava fazendeiro
Comprada pouco a pouco durante cerca de 30 anos pelo empresario Breno Caldas, os atuais 426 hectares da fazenda já foram cerca de 900. Breno construiu um sobrado amplo no alto do morro, de frente para o Guaíba. Ele gostava de cavalos e de coisas do campo. Quando começou a trabalhar no jornal da família, buscou “um campinho para aventurinhas campeiras”:
“Queria algo aqui perto de Porto Alegre, pra poder usar bastante, […] que proporcionasse aquilo que eu gostava, que era água – que fosse perto de um rio -, que tivesse morro, porque eu sempre gostei de olhar as coisas mais de cima, que tivesse também uma várzea, porque as várzeas são mais férteis que as partes elevadas, e que tivesse mato… Andei procurando por vários lugares e acabei me fixando aqui em Belém Novo, no Arado.”, disse Breno Caldas a Luis Antônio Pinheiro Machado, trecho da página 150 do livro Meio século de Correio do Povo.
Havia uma marina para o veleiro de Breno Caldas, que plantava arroz e criava gado. Caldas também montava. Construiu cocheiras e começou a criar cavalos de corrida. Considerava-se um fazendeiro. Parte da fazenda foi entregue ao fornecedor de papel para seguir imprimindo o Correio por seis meses mais. Afundado em dívidas, Caldas teve que vender a Rádio Guaíba, a TV Guaíba e o jornal Correio do Povo. Morreu em 1989. A fazenda foi vendida à Arado Empreendimentos Imobiliários, cujo presidente é Iboty Brochmann Ioschpe.Setor de pesquisas está fechado no Museu de Comunicação
O Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, guardião do maior acervo jornalístico do Estado, está fechado para a pesquisa. Um cartaz foi colocado na porta de entrada informando que o atendimento ao público está suspenso por problemas estruturais e retorna somente quando o telhado da área de Imprensa for consertado.
O diretor do Museu , jornalista Yuri Vitorino, foi afastado pela Secretaria de Estado da Cultura há cerca de duas semanas. O jornalista Ayres Cerutti fez o registro do Museu interditado.
O site do jornal Extra Classe publicou reportagem sobre o assunto, que reproduzimos abaixo.
http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2016/06/museu-de-comunicacao-sob-suspeita/Gestão do Museu de Comunicação sob suspeita
Historiadores apontam uma série de irregularidades cometidas pela atual administração e incompatibilidade do atual diretor com o cargo
Por Cleber Dioni Tentardini
Historiadores gaúchos estão preocupados com o valioso acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. Eles apontam uma série de irregularidades cometidas pela atual administração. Citam, por exemplo, a interdição total do Setor de Imprensa, sem justificativa, a desorganização dos arquivos e a incompatibilidade do arquivologista Yuri Victorino da Silva em exercer o cargo de diretor da instituição, ao mesmo tempo em que é o diretor responsável pelo Centro de Memória e Informação Pessoal (CEMIP), empresa comercial desse mesmo segmento cultural.
Depois de esgotarem as tentativas de reunião com o secretário de Estado da Cultura, Victor Hugo, no dia 11 de maio os pesquisadores encaminharam ao Ministério Público do Rio Grande do Sul um pedido de afastamento imediato do diretor do Museu Hipólito.
Enviaram um ofício, também, com pedido de providências ao Conselho Regional de Museologia – COREM 3ª Região. A presidente do órgão, Jeanice Ramos, argumentou que não era competência do Conselho intervir na decisão da instituição em manter seu Setor de Imprensa fechado, assim como julgar um possível conflito de interesses envolvendo o diretor do Musecom “já que o mesmo não é museólogo registrado nesse Conselho e a ele não poderíamos aplicar os princípios do Código de Ética Profissional.”
As promotoras de Justiça Ana Maria Marchesan e Josiane Camejo, e o promotor Alexandre Saltz, da Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, que é responsável também por zelar pelo patrimônio cultural, promoveram uma audiência com o titular da Sedac. Orientaram o secretário pelo afastamento do diretor, tendo em vista o conflito de interesses. Porém, não houve quaisquer mudanças, segundo os historiadores.
No dia 10 deste mês de junho, uma pessoa que não é funcionária foi vista na portaria do Museu saindo com duas malas. Detalhe: eram por volta das 19h30 e as portas já estavam fechadas. Ela estaria de posse de uma autorização com assinatura do diretor. As informações são de fontes que preferem não ser identificadas.
Os historiadores entraram novamente em contato com a Sedac e com o Ministério Público para informar o ocorrido, e decidiram levar ao conhecimento público porque estão ainda mais apreensivos.
“Preocupa-nos o fato de não saber o que está acontecendo lá, ninguém sabe o que havia nas malas, não temos nada pessoal contra o diretor, mas há no mínimo uma questão antiética, um conflito de interesses do senhor Yuri como diretor”, argumenta a coordenadora do Curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Zita Possamai.
O promotor Alexandre Saltz esteve reunido novamente com o titular da Cultura. Victor Hugo informou que iria consultar a Procuradoria Geral do Estado (PGE) a fim de verificar alguma ilegalidade na nomeação do diretor do Museu Hipólito.
Uma consulta feita em maio ao site da empresa CEMIP constava a negociação de bens culturais, entre os quais, peças do mesmo gênero daquelas pertencentes ao acervo do Hipólito. Logo depois da audiência com as promotoras de Justiça foi apagado do site da empresa o link “sala de negócios” e a opção para o comércio de bens culturais, entre os quais as peças da coleção Hardy Vedana. Os historiadores mostraram às promotoras a documentação comprovando a disponibilidade dos dados e opções anteriormente à sua exclusão do site da empresa.
Em pesquisa mais recente verificou-se que o link ‘sala de negócios’ voltou ao ar, mas a opção para o comércio de bens culturais foi substituída por setor de trocas. Houve mudanças também nos bens antes disponíveis para venda, deixando apenas fotos de moedas, objetos que o Hipólito não possui na sua coleção.
O presidente da seção gaúcha da Associação Nacional de Professores Universitários de História (ANPUH), José Iran Ribeiro, cita que a legislação que denomina “conflito de interesses” é a Lei 11.904 – Estatuto de Museus. O Art. 16 do capítulo que trata dos Museus Públicos diz que: É vedada a participação direta ou indireta de pessoal técnico dos museus públicos em atividades ligadas à comercialização de bens culturais. Quem fiscaliza o cumprimento da lei é o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).
A reportagem entrou em contato na terça-feira, 14, com a Secretaria da Cultura e com o Museu Hipólito. As assessorias dos dois órgãos públicos informaram que o secretário de Cultura e o diretor do Hipólito não comentariam o assunto.
Yuri assumiu a direção do Museu no dia 2 de junho de 2015, a convite do secretário Victor Hugo. Ele é formado em Arquivologia pela UFRGS e funcionário publico concursado da TVE, onde ingressou em 2002 como repórter cinematográfico. Está cedido da Fundação Piratini para a Secretaria da Cultura.
Sem acesso à pesquisa
Outra questão que preocupa os historiadores, além da permanência do atual diretor, é o Setor de Imprensa, fechado desde fevereiro. “Não há justificativa. Disseram que haveria obras, mas não há. Estão privando o trabalho dos pesquisadores e estudantes, que dependem do acervo dos jornais e revistas”, afirma a historiadora Alice Trusz.
O portal do Museu Hipólito informa que “Devido aos trabalhos técnicos desenvolvidos na Hemeroteca (Jornais e Revistas), Fotografia, Publicidade e Tridimensionais, ficam suspensos os atendimentos para pesquisas (exceto ações educativas). As ações em andamento fazem parte do planejamento de reestruturação da instituição. As mudanças são necessárias para garantir de forma responsável a acessibilidade aos conteúdos das coleções. As áreas de exposições continuam em funcionamento. A previsão do retorno ao atendimento é no final de julho.”
O ex-diretor do Musecom, no último ano da gestão Tarso Genro, Luiz Vieira Inda, disse que a Secretaria de Cultura havia obtido recursos do Governo Federal – via PAC Cidades Históricas, para a restauração do prédio. E que o maior problema do Setor de Imprensa seria o telhado, com problemas de infiltração. “Quando chovia muito, alagava parte do setor, um problema crônico, de muito tempo. A previsão era iniciar a obra em 2016, mas não sei se está sendo feito”, explica Inda.
O historiador José Iran Ribeiro, da ANPUH-RS, reclama também das dificuldades de dialogar com a Secretaria de Cultura. “Desde que assumi a presidência da Associação, há quase dois anos, solicitamos audiência para tratar da situação deplorável do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS), mas não fomos recebidos. Depois, o Museu do Carvão, em Arroio dos Ratos, foi fechado por falta de pessoal. E, agora, esses problemas graves no Hipólito. Isso demonstra que não existe política de cultura do governo do RS e o secretário nem ao menos se dispõe a conversar com os segmentos profissionais interessados nestas instituições que guardam patrimônio público inestimável.”, completa.
Referência em comunicação
O Museu é subordinado à Secretaria de Estado da Cultura. Foi criado através de decreto em 10 de setembro de 1974 com a finalidade de guardar, preservar e difundir a memória dos meios de comunicação no Rio Grande do Sul.
Possui o maior acervo jornalístico do Rio Grande do Sul, referência como centro de guarda e pesquisa documental sobre imprensa, cinema, fotografia, televisão, rádio e publicidade, e atrai pesquisadores locais, de outros estados e países. Seu Setor de Fotografia, por exemplo, conta parte da história política, econômica e social do Rio Grande do Sul. Preserva o acervo oficial, como os do Palácio Piratini, além de coleções particulares, como dos gaúchos Miguel Castro (1924) e Salomão Scliar (1925-1991), e retratos de estúdios famosos da cidade, como Otto Shönwald, Irmãos Ferrari e Vírgilio Calegari. As imagens sobre Porto Alegre e o Rio Grande do Sul abrangem o período desde 1880 até os dias atuais.Internet em discussão em Porto Alegre
Começou hoje em Porto Alegre (RS), um amplo debate sobre a governança da Internet no Brasil e no mundo. É o VI Fórum da Internet no Brasil (Pré-IGF Brasileiro), que segue até quarta-feira. Realizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o evento acontece no Centro de Eventos FIERGS, com inscrições gratuitas e aberto todos os interessados.
No sítio do evento, os usuários também poderão acompanhar ao vivo a transmissão das atividades realizadas.
“Assim como nas edições anteriores, o caráter multissetorial do CGI.br irá conduzir este encontro. É um espaço único para ouvir, interagir e refletir em conjunto com representantes do governo, empresários, acadêmicos, membros de organizações da sociedade civil, técnicos, estudantes e demais usuários sobre os desafios e as oportunidades inerentes à Internet”, diz Virgilio Almeida, ex-coordenador do CGI.br.
“A contribuição da sociedade é fundamental para o CGI.br. Este ano, vamos levar as discussões de cada Câmara de Consultoria para o encontro. É uma oportunidade para que os participantes do Fórum forneçam subsídios aos debates”, reforça Lisandro Granville, coordenador da 6ª edição do Fórum. O evento também será preparatório para o IGF (Internet Governance Forum), que acontecerá de 06 a 09 de dezembro, em Guadalajara, no México.
Trilhas
Universalização e Inclusão Digital, Segurança e Direitos na Internet, Conteúdos e Bens Culturais, Inovação e Capacitação Tecnológica são os temas das trilhas desta edição do Fórum, que também compõem as Câmaras de Consultoria do CGI.br. As trilhas acontecem de forma paralela durante a manhã e tarde do primeiro dia do evento, 11 de julho (segunda-feira).
A revisão do modelo de prestação de serviços de telecomunicações dará o tom da trilha Universalização e Inclusão Digital. Debates sobre as políticas de universalização, a prestação de serviços nos regimes público e privado e os respectivos contratos de concessão, assim como o desenvolvimento da infraestrutura de banda larga para o acesso à Internet serão abordados durante a discussão.
Já a trilha Segurança e Direitos, com o tema ambiente legal e regulatório da Internet, irá analisar o impacto de projetos de lei em discussão na Câmara dos Deputados sob a ótica dos princípios para a governança e uso da Internet (o Decálogo do CGI.br), entre outras questões.
A agenda para o desenvolvimento da economia da cultura no Brasil e a lei de direitos autorais será considerada na trilha Conteúdos e Bens Culturais. Tópicos como direitos autorais, compartilhamento de conteúdos e bens culturais e desenvolvimento inclusivo do mercado de aplicações serão fios condutores para as discussões.
A trilha Inovação e Capacitação Tecnológica, por sua vez, apresentará um mapeamento das iniciativas existentes no país para a formação e capacitação de profissionais de tecnologias da informação, no que se refere ao desenvolvimento da Internet. Esta pesquisa foi realizada pela Softex – Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro – e demandada pelo CGI.br.
Seminários e desconferências
Acompanhando as discussões do IGF com a perspectiva de promover o desenvolvimento sustentável e inclusivo, haverá um debate sobre como a Internet contribui para alcançar os objetivos do desenvolvimento sustentável estabelecidos pelas Nações Unidas. Estão previstos ainda seminários sobre temas de grande repercussão, como tolerância e diversidade na Internet, planos franqueados e zero rating, big data e privacidade, além de discussões organizadas pelo setor empresarial com foco no mercado de pequenos e médios provedores na implementação de acesso à Internet em localidades remotas.
Além dos assuntos listados na programação, participantes inscritos previamente também poderão articular seus próprios debates por meio das desconferências.
Workshops e documentários
Os interessados em ampliar conhecimentos poderão participar gratuitamente dos workshops: como funciona a Internet; implementação do IPv6; o desafio da inclusão digital no Brasil; gerenciamento de redes de computadores; recomendações para navegar na Internet com segurança; técnicas de acessibilidade na Web; conteúdos com DRM (Digital rights management) na Web e a especificação EME (Encrypted Media Extensions) do W3C.
O Fórum também reserva espaço para a exibição de documentários, sucedidos por mesas de debates. Integram a programação os filmes “The Computers” e “Freenet?”. O primeiro destaca o protagonismo feminino na programação do primeiro computador eletrônico de uso geral. O segundo discute a inclusão digital e suas implicações para o exercício da cidadania, e foi produzido com o apoio do CGI.br. Ambos são centrais para os debates mais recentes sobre Internet no Brasil e no mundo.
Agenda
VI Fórum da Internet no Brasil
11 a 13 de julho
Horário: 9h às 19h30
Local: Centro de Eventos FIERGS
Av. Assis Brasil, 8787 – Bairro Sarandi, Porto Alegre − RS
Inscrições gratuitas: http://forumdainternet.cgi.br/
Programação: http://forumdainternet.cgi.br/#programacao
Sobre o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br
O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR — NIC.br (http://www.nic.br/) é uma entidade civil, sem fins lucrativos, que implementa as decisões e projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil. São atividades permanentes do NIC.br coordenar o registro de nomes de domínio — Registro.br (http://www.registro.br/), estudar, responder e tratar incidentes de segurança no Brasil – CERT.br (http://www.cert.br/), estudar e pesquisar tecnologias de redes e operações — Ceptro.br (http://www.ceptro.br/), produzir indicadores sobre as tecnologias da informação e da comunicação — Cetic.br (http://www.cetic.br/), implementar e operar os Pontos de Troca de Tráfego — IX.br (http://ix.br/), viabilizar a participação da comunidade brasileira no desenvolvimento global da Web e subsidiar a formulação de políticas públicas — Ceweb.br (http://www.ceweb.br), e abrigar o escritório do W3C no Brasil (http://www.w3c.br/).
Sobre o Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br
O Comitê Gestor da Internet no Brasil, responsável por estabelecer diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da Internet no Brasil, coordena e integra todas as iniciativas de serviços Internet no País, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados. Com base nos princípios do multissetorialismo e transparência, o CGI.br representa um modelo de governança da Internet democrático, elogiado internacionalmente, em que todos os setores da sociedade são partícipes de forma equânime de suas decisões. Uma de suas formulações são os 10 Princípios para a Governança e Uso da Internet (http://www.cgi.br/principios). Mais informações emhttp://www.cgi.br/.
(Com informações do GCI.br)Lanceiros Negros: presente em construção, futuro incerto
FELIPE UHR
No colo do pai, Samuel dorme. Com pouco mais de um mês de vida, ele já tem história que poderá contar aos netos. Com apenas três dias, Samuel já estava vivendo na Ocupação Lanceiros Negros.
No encontro entre as ruas General Câmara e Andrade Neves, está o prédio pertencente ao Ministério Público onde hoje vivem cerca de setenta famílias.
No dia 23 de maio, o Estado havia obtido um mandado de reintegração de posse do prédio, que seria oficializada no dia seguinte, com a chegada do oficial de Justiça.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Os moradores da ocupação ficaram sabendo da operação, agentes da Brigada Militar falavam com comerciantes próximos ao prédio apontando para a ocupação. Um tempo depois, a confirmação oficial: a garagem Ladeira, vizinha ao prédio, teria seu acesso bloqueado devido à desocupação do imóvel.
O bloqueio das ruas do entorno, previsto para a meia-noite, ocorreu antes, por volta das 21h30. Advogados e alguns moradores foram impedidos de entrar no prédio. Do lado de fora, simpatizantes e jornalistas também vigiavam o prédio. Do lado de dentro, as famílias estavam calmas, mas ninguém conseguia fechar o olho. “Fizemos duas reuniões para avaliar a situação”, conta Priscila Voigt, moradora da Lanceiros Negros e integrante do MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas).
| Ramiro Furquim/Jornal Já
A primeira assembleia aconteceu por volta das 22h e reuniu quase todas as famílias. Todos concordaram em resistir: não sairiam do prédio, ocupado há 6 meses. Foi acertado como seria o esquema de resistência e de segurança. “Tínhamos medo por causa das crianças”, conta Priscila.
Às 4h, com o cerco policial reforçado pela chegada da Tropa de Choque da Brigada Militar, foi realizada a segunda audiência, já acertando os últimos detalhes de como agiriam após a entrada da polícia.
De suas casas, alguns advogados redigiam pedidos da suspensão da liminar de reintegração. Outros buscavam recurso junto ao desembargador de plantão. Com o Choque às ordens do Comandante Ikeda, e a ROCAM (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas) vigiando os manifestantes que prestavam apoio à ocupação, a operação parecia irreversível.
O sol mal raiava quando a cautelar que suspendia a reintegração de posse foi obtida. Com o dia já claro, o documento chegou e a Brigada Militar teve de sair. “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro”, era o canto entoado com força, do lado de fora e de dentro do prédio. A porta foi aberta e a comoção tomou conta.
Prédio ganhou cores e vida
Pouco mais de um mês depois, esta noite ainda é lembrada pelos que vivem na Ocupação. O canto entoado na manhã do dia 24 está gravado em uma das escadas do prédio.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
O imóvel abandonado há 12 anos pelo poder público vem ganhando formas e cores. Em junho, foi inaugurada a creche para as crianças de 0 a 4 anos. O restante está matriculado nas escolas e creches do centro. A ocupação também tem oficinas de teatro, ioga, aulas de judo e boxe.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Nos andares de cima, tapumes de madeira dividem os mais de 50 quartos construídos pelos próprios moradores da ocupação. Além disso, a ocupação conta com uma pequena biblioteca com cerca de 500 livros disponíveis. A cozinha tem 3 geladeiras, 2 fogões, microondas e demais utensílios. Os moradores devem seguir o regimento do MLB, instituído na Ocupação. Entre algumas regras, é proibido o consumo de bebidas alcoólicas, como também ingressar no edifício após a meia-noite ou embriagado.
Movimento fez proposta para o Governo
Aos poucos a vida vai fazendo sentido para as pessoas que até meses atrás viviam na zona do tráfico ou regiões perigosas ou tiveram de sair de onde estavam por não terem condições de pagar o aluguel.
Foi o caso de Carlos Santana, 43 anos, pai de Samuel e de Luís. Morando de favor no bairro Partenon, até março ele e a família não tinham pra onde ir. Soube da Ocupação por uma conhecida e após duas reuniões foi aceito. O ingresso de cada família passa por uma comissão. “Não são todos que conseguem viver em comunidade” explica Voigt.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Outro caso foi o de Patricia Moraes, que está desde o começo da Ocupação. Desempregada, hoje ela vende bolo e cafés para pessoas no centro.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Apesar do sentimento de vitória com a permanência no local, as famílias não se iludem, nem estão satisfeitas: querem um local só delas para morar. Para o local, uma solução inovadora: transformar o prédio em uma casa de acolhimento. Famílias na mesma situação ficariam ali provisoriamente, até conseguirem uma habitação.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
O projeto foi apresentado em duas reuniões do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania – (CEJUSC), quando estiveram presentes representantes da Ocupação Lanceiros Negros, Prefeitura e Governo do Estado. A proposta foi rechaçada pelo Estado, que reiterou o pedido de reintegração de posse o mais breve possível, e garantiu que nenhum dos seis mil e quinhentos imóveis desocupados que pertencem ao Estado possam servir de sede para casas de acolhimento.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Na reunião, o Estado não apresentou nenhuma alternativa para as 70 famílias que hoje habitam o prédio. Foi prometido um estudo de viabilidade para a casa de acolhimento. O próximo encontro será no dia 15 de agosto.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
Enquanto isso, os moradores esperam um lugar onde possam morar de forma definitiva. “Queremos políticas públicas de habitação”, cobra Priscila.













