Autor: da Redação

  • Tocha olímpica chega a Porto Alegre nesta quinta-feira

    A pouco menos de um mês do começo dos Jogos Olímpicos, Porto Alegre receberá nesta quinta-feira, dia 7, o revezamento da tocha olímpica. O evento que celebrará a passagem da tocha foi apresentado nesta manhã pelo prefeito José Fortunati. O início do revezamento está previsto para as 15h, no Parque Moinhos de Vento, o Parcão, e o encerramento para as 19h, no centro Histórico.
    Conduzirão a tocha 77 pessoas, cada uma percorrerá cerca de 200 metros. A partir das 11h, a Praça da Alfândega terá bandas de jazz e blues, feira de artesanato e gastronomia; o Parcão também terá programação entre 14h e 17h e a Redenção entre 14h e 18h. No Largo Glênio Peres, as atividades iniciam às 14h e se estendem até as 21h.
    Sessenta agentes da EPTC farão a interrupção momentânea das vias, durante o percurso de 15 quilômetros. Uma viatura da Brigada Militar vai acompanhar o comboio.
    Confira a programação cultural durante o evento e o trajeto da tocha Olímpica na capital:
    Cultura no Caminho da Tocha

    Praça da Alfândega
    – Banda Celta
    – Som Central
    – Blue Grass
    – Elias Barbosa Quinteto
    – Cartas na Rua
    – Charles Busker
    – Philipe Philippsen
    – Benhur Pereira – Rádio Poste
    – Feira de Artesanato e
    Gastronomia Local
    Cerimônia de Boas-Vindas no Parque Moinhos de Vento
    – Dj Rafa Santos
    – Orquestra de Brinquedos
    – Projeto Social Esporte Dá Samba
    – Grupo de Pernas de Pau
    – Oficinas Esportivas: judô, ginástica artística,
    atletismo, esgrima, vela e voleibol.
    – Sogipa, GNU, Veleiros e GFPA.
    Parque Farroupilha:
    – Grupo de Pernas de Pau
    – Grupo de Hip Hop/Street Dance
    Edson Ferraz
    – Grupo de Pagode Chocolate Branco
    – Grupo de Danças Tradicionalistas
    – Apresentação da
    Federação Gaúcha de Capoeira
    – Muro de escalada, Bubblesoccer,
    pista atlética
    – Colégio Militar e SESC
    Largo Glênio Peres:
    – Show Kleiton e Kledir.
    – Show Papas da Língua.
    – Guri de Uruguaiana.
    – Pernas de Pau.
    – Ativação dos patrocinadores.
    – Acendimento da Pira Olímpica.
    Trajeto da tocha:
     Divulgação/PMPA
    Divulgação/PMPA
  • Procuradora denuncia estratégias de criminalização de movimentos sociais no país

    Marco Weissheimer
    (matéria originalmente publicada no site Sul21)
    A subprocuradora-geral da República, Deborah Duprat, denunciou nesta segunda-feira (4), em Porto Alegre, que o Brasil está vivendo um cenário de crescente violência no campo e de criminalização de comunidades indígenas, quilombolas, de militantes do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e também de movimentos sociais urbanos. Segundo ela, uma das expressões institucionais deste processo de criminalização de movimentos sociais é a CPI Funai-Incra, presidida pelo deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), que já pediu o indiciamento de várias lideranças desses movimentos. O objetivo dessa CPI, disse Duprat, não é buscar a verdade ou reconhecer direitos, mas sim para suprimir direitos. “É uma CPI fraudada desde o início. O projeto de poder deles é ter um estoque de terras para o mercado”.
    Deborah Duprat participou de uma audiência pública promovida pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul para debater esse processo de criminalização dos movimentos sociais. Designada para ser a nova procuradora federal dos Direitos do Cidadão, para um mandato de dois anos, prorrogável por mais dois. Duprat está viajando pelo Brasil para discutir pautas relativas à atuação da Procuradoria dos Direitos do Cidadão. O tema não lhe é estranho, uma vez que trabalhou na 6ª Câmara da Procuradoria Federal, que trata de problemas envolvendo direitos de comunidades indígenas e povos tradicionais. O auditório da Procuradora Regional da República da 4ª Região ficou praticamente lotado com a presença de representantes de comunidades indígenas, de movimentos de luta por moradia, movimentos estudantes e outras entidades da sociedade civil.
    Cenário de retrocessos
    Na abertura do encontro, o procurador Domingos Dresch da Silveira destacou que ali estavam presentes aliados e lutadores na defesa dos direitos humanos. “O Ministério Público é plural e dentro dele vivem diferentes visões sobre temas relacionados à defesa da Constituição e dos direitos humanos”, assinalou. Procurador Regional dos Direitos do Cidadão no Rio Grande do Sul, Fabiano de Moraes disse que o país está vivendo um cenário confuso marcado por retrocessos na área dos direitos. Em sua fala inicial, a subprocuradora-geral da República pediu um voto de confiança aos representantes dos movimentos sociais. “Por maior que seja a desconfiança com o Ministério Público, e vocês têm razões para isso, peço que não desconfiem desse espaço que pode ser muito importante”. Duprat anunciou que decidiu, há cerca de três semanas, reinstalar o Fórum contra a violência no campo, para receber denúncias e debater iniciativas para enfrentar os crimes que estão acontecendo.
    Débora Duprat assinalou ainda que estratégias de criminalização vêm sendo adotadas em diferentes segmentos sociais e citou o caso de comunicações de militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), de São Paulo, que vêm sendo interceptadas pelo Gabinete de Segurança Institucional. A subprocuradora lembrou que, em 2009, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (OEA) condenou o Brasil pelo uso de interceptações telefônicas ilegais em 1999 contra associações de trabalhadores rurais ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná. O Estado brasileiro foi considerado culpado pela instalação dos grampos, pela divulgação ilegal das gravações e pela impunidade dos responsáveis.
    “CPI Funai-Incra terá o destino que merece”
    A subprocuradora apontou ainda a estratégia que vem sendo utilizada pelo Estado em ocupações urbanas para criminalizar os pais, retirando as crianças de perto deles. Duprat alertou ainda para os riscos do Decreto nº 8.793, editado dia 29 de junho, que fixa a Política Nacional de Inteligência e estabelece diretrizes para a atuação dos órgãos que compõem o Sistema Nacional de Inteligência. “Teremos problemas pela frente com esse decreto”, advertiu. “Nós estamos envolvidos em uma luta por sujeitos de direitos, que está definindo quem é sujeito de direitos”. Neste contexto, acrescentou, a CPI Funai-Incra tem o objetivo de suprimir sujeitos de direitos. Mas Duprat acredita que os articuladores dessa CPI não terão sucesso. “Essa CPI terá o destino que merece. Estamos relatando ao ministro Fachin, do STF, todos os casos de criminalização e indiciamentos que estão sendo feitos”.
    Duprat é autora de uma representação contra os deputados federais gaúchos Alceu Moreira (PMDB) e Luiz Carlos Heinze (PP), pelas declarações feitas pelos mesmos em uma audiência pública no interior do Rio Grande do Sul, onde, entre outras coisas, recomendaram aos agricultores que adotassem as medidas empregadas no Mato Grosso, envolvendo a contratação de milícias privadas. A representação foi arquivada sob o argumento que os dois deputados gozam de imunidade parlamentar o que garantiria o direito de dizerem o que disseram. A subprocuradora afirmou que esses casos mostram o quanto a questão indígena e do movimento negro no Brasil ainda está carregada de racismo. “Está faltando no Brasil uma justiça de transição para a população negra e indígena que não fique restrita ao período da ditadura”.
    “Lideranças indígenas estão morrendo todos os dias”
    Os procuradores ouviram vários depoimentos de representantes de movimentos sociais relatando casos de agressões, violação de direitos e criminalização a que vem sendo submetidos no Rio Grande do Sul. Eli Fidelis, da comunidade indígena caingangue do Lami, lembrou a recente audiência pública da CPI Funai-Incra na Assembleia Legislativa, promovida pelo deputado Alceu Moreira, que não convidou as lideranças indígenas para participar. “O deputado não quis nos receber e muito menos nos ouvir. A democracia ainda não chegou para nós no Brasil. Não temos sequer o direito de sermos ouvidos”. Maurício Gonçalves, do povo guarani, mostrou-se bastante preocupado com o atual momento político. “Lideranças indígenas estão morrendo todos os dias, mas isso não é noticiado. Vemos deputados falando o que bem entendem de nós, mas se nós falamos algo corremos o risco de ser presos. O bem viver do povo indígena é a demarcação de suas terras. O objetivo dessa CPI é revisar demarcações de terras já feitas e impedir novas demarcações”, assinalou.
    O advogado Onir Araújo denunciou a presença do racismo no Rio Grande do Sul. “Enquanto a sociedade não reconhecer a chaga do racismo seguiremos tentando curar um câncer com aspirinas”, afirmou. Araújo relatou a subprocuradora que quilombolas e indígenas seguem sendo tratados como vagabundos e lembrou que as denúncias encaminhadas contra os deputados Alceu Moreira e Luiz Carlos Heinze por conta das declarações destes contra essas comunidades até agora não tiveram consequência. “Nós seguimos não sendo encarados como brasileiros. Seguimos vivendo em uma República partida e a sociedade brasileira é conivente com isso”.
    Roberto Antônio Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ampliou historicamente o conceito de criminalização, destacando que ele é uma realidade para as comunidades indígenas há muito tempo. “Temos comunidades indígenas que são criminalizadas historicamente e seguem vivendo nas margens de rodovias. Temos lideranças indígenas que nasceram na beira de estradas e hoje estão cuidando de seus netos ainda na beira de estradas.” Liebgott citou um caso recente ocorrido no acampamento de Capivari, onde um fazendeiro lavou um trator que aplicava agrotóxicos no local do rio onde crianças indígenas tomavam banho. “Isso também é criminalização”, defendeu.
    “No passado a Justiça foi favorável à escravidão”
    Queops Damascendo, da Ocupação Lanceiros Negros, denunciou a conivência do Poder Judiciário com o processo de criminalização da pobreza. “No passado, a Justiça foi favorável à escravidão e à tortura de escravos que tentavam fugir da escravidão para a liberdade. Muitos anos se passaram e a Justiça segue sendo a favor da propriedade. No recente episódio da Secretaria da Fazenda, nós vimos policiais jogando spray de pimenta diretamente no rosto de estudantes e esses policiais seguem soltos, assim como seguem soltos os deputados Heinze e Alceu Moreira, mesmo após as declarações racistas que fizeram”.
    Bárbara, estudante presa na ação da Brigada Militar para desocupar a Secretaria Estadual da Fazenda, no dia 15 de junho, relatou à subprocuradora que os estudantes sofreram violência física e psicológica. “Fomos atingidos com spray pimenta a um centímetro de nossos olhos. Não tivemos em momento algum a possibilidade de negociar a nossa saída do prédio e tampouco foi permitida a entrada de nossos advogados. Aquela ocupação tinha um motivo que era tentar convencer o governador e o Secretário da Educação a abrir uma negociação”, disse a estudante.
    A promotora Ivana Battaglin, da Promotoria de Direitos Humanos do MP estadual, anunciou que há mais de um inquérito civil em curso investigando a ação da Brigada Militar contra movimentos sociais e manifestantes no Rio Grande do Sul. Segundo a promotora, as audiências de custódia estão recebendo muitas denúncias de violações de direitos por parte dos policiais, que serão investigadas.
    Matéria originalmente publicada no Sul21 http://www.sul21.com.br/jornal/procuradora-denuncia-estrategias-de-criminalizacao-de-movimentos-sociais-no-pais/
     

  • Ditadura golpista e apartheid social

    João Alberto Wohlfart – Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE.
    O regime político ditatorial que o Brasil vive atualmente tem gravíssimas consequências sociais. Não restam dúvidas de que a chegada dos golpistas ao poder representa a ruptura da Constituição, a dissolução da Democracia e o fim do Estado de Direito. Está instalada uma ditadura jurídico/parlamentar/midiática com a finalidade de impor ao Brasil um projeto econômico que segue rigorosamente a cartilha neoliberal. Como consequência desta nova ditadura, é visível que se estabeleceu no Brasil uma cisão social radical a que podemos denominar de apartheid social.
    Como ainda somos um modelo econômico capitalista, há em nossa sociedade uma elite dominante profundamente egoísta e concentradora de renda. Enquanto perdura o sistema capitalista de produção, o mundo estará cindido entre ricos e pobres, uma assimetria social distribuída em nível global e no interior dos países, particularmente de terceiro mundo. A elite burguesa capitalista não admite que os mais pobres ascendam socialmente e integrem os mais variados espaços da sociedade. A elite burguesa se considera dona do mundo diante da qual os mais pobres e as classes sociais excluídas são odiadas.
    Durante os anos do governo Lula e o primeiro de Dilma houve o fenômeno jamais visto e imaginado no Brasil da ascensão social, quando milhões de miseráveis saíram da miséria e outros milhões entraram na classe média. Esta gigantesca massa historicamente excluída começou a aparecer nas praças, nas lojas e supermercados, nas Universidades, nos aviões, nas ruas das cidades, nos espaços de trabalho etc. Começaram a ocupar os mesmos espaços da elite dominante e concorrer com os seus privilégios.
    Isto se torna ainda mais acentuado quando se trata de classes historicamente excluídas como os negros, os índios, as mulheres e grupos de outras opções sexuais. Além da divisão social provocada pelo modelo econômico capitalista, isto vem acrescido do racismo, como expressão de ódio e preconceito contra os negros e índios, do machismo, como o tradicional domínio do homem sobre a mulher. Estas formas de exclusão e rebaixamento ficam evidenciadas na configuração do governo golpista, que não tem mulheres e negros nos mais elevados escalões do governo.
    O apartheid social brasileiro é protagonizado pela elite burguesa dominante. Isto fica visível quando, por exemplo, pais ricos ficam enfurecidos quando seus filhos são obrigados a estudar nas escolas e Universidades nas mesmas salas onde se encontram negros. Os ricos ficam enfurecidos quando se deparam com a infelicidade de sentar ao lado de um pobre no avião, que jamais deveria pisar nestes espaços. A burguesia dominante fica furiosa quando são antecipados pelos mais pobres nas filas dos bancos e atrasam os seus compromissos em função dos vagabundos que só atrapalham. A classe rica branca fica enfurecida porque espaços como o trabalho, o protagonismo social, a posse da riqueza são ameaçados de divisão em relação àqueles que mais são odiados. A classe dominante vive o ódio porque as “riquezas produzidas pelo suor de seu trabalho e pela sua capacidade de gerenciamento são destinadas a uma massa vagabunda que não trabalha”.
    O apartheid social brasileiro fica visível em várias esferas, em várias áreas do saber e em múltiplas instâncias. Ainda não conseguimos avançar historicamente para que as distintas classes sociais tenham condições de convivência e de solidariedade. Em tempos de profunda crise econômica e política estas questões ficam explicitadas e se tornam claras como o dia. Para a sistêmica cisão social constituem forças determinantes a economia, a política e o judiciário. A economia capitalista é concentradora de renda com a cisão do mundo em ricos e pobres; a política atende aos interesses de uma minoria e o judiciário legitima o sistema econômico estabelecido. A atuação do judiciário é escandalosa porque se mostra seletiva, protege a direita política e criminaliza sistematicamente os movimentos sociais.
    Nos últimos tempos assistimos fatos e eventos que apontam para os interesses de uma pequena elite, em detrimento da grande população que tende a ser reduzida a uma massa informe e a uma força indiferenciada de trabalho. Quando em Universidades públicas é discutida a Democracia, as Instituições de Ensino Superior são objeto de repressões e de restrições jurídicas, quando uma sociedade democrática proporciona plena autonomia para realizar este tipo de discussão. Práticas radicalmente antidemocráticas de divisão social dizem respeito à criminalização dos movimentos sociais e à condenação de suas lideranças. Nas periferias de nossas cidades os negros e pobres ainda são objeto direto de perseguição policial, de cassetete, de prisão e de fuzilamento seletivo. Um modelo político ditatorial como o nosso não tolera manifestações democráticas, reprime movimentos sociais e enche as cadeias de gente oriunda do universo da exclusão social.
    A recente ocupação das escolas pelos alunos reforça a constatação da cisão social. Percebem o descalabro e o descaso com a educação, ocupam as escolas e o que lhes espera é a punição policial. A justiça pune e prende as lideranças populares, as lideranças de forças políticas de esquerda e inviabilizam o aprofundamento da Democracia. A justiça sustenta e protege um pequeno mundo social altamente elitizado, em detrimento da população que lhe foi negada a Democracia e rasgada a Constituição.
    O governo ilegítimo erigido pelo golpe branco é uma síntese de todas as expressões históricas de machismo, racismo, patriarcalismo, patrimonialismo, criacionismo, sexismo, autoritarismo, xenofobismo etc. Estes preconceitos sociais que atravessam a história brasileira retornaram com toda a força e estão presentes em todos os recantos da sociedade, quando teriam que ter sido superados com o advento do novo milênio. A sociedade está sistematicamente dominada por estas expressões protagonizadas por homens de bem, por brancos ricos, pela burguesia capitalista, por moralizadores do bem e por visões ultraconservadoras de mundo, de política e de religião. Vivemos um momento histórico no qual os ismos aqui citados ressuscitam com toda a força e são amplamente suscitados pela ditadura golpista, pelo judiciário, pela mídia e pela grande elite econômica.
    O apartheid social que vivemos atualmente é expresso no ódio social. Vivemos numa cultura de ódio e de intolerância radical. São objeto de ódio os negros que totalizam mais da metade da população brasileira. São objeto de ódio os índios outrora considerados pelos mesmos brancos religiosos homens de bem como selvagens e sem alma. São objeto de ódio as classes mais pobres rotuladas de vagabundos. Expressão de ódio sistêmico é o preconceito seletivo contra os nordestinos simplesmente rotulados de “vagabundos”. A pretensão de separar a Região Sul do resto do país é consequência da pretendida supremacia cultural e machismo. São objeto de ódio os estudantes e as suas organizações são reprimidas em meios judiciais simplesmente porque lutam por uma educação mais qualificada. São objeto de ódio os partidos políticos de esquerda e as suas lideranças, simplesmente porque proporcionaram uma sociedade mais democrática e porque promoveram uma inclusão social mínima. Os ataques midiáticos e judiciários são muito conhecidos.
    O governo golpista que usurpou o poder por meio do golpe legitimado pelo judiciário, pelo legislativo federal, pela grande mídia, pelo grande empresariado e por grandes corporações transnacionais tem como consequência uma cisão social jamais vista. O golpismo não tem nenhuma sintonia com os negros, índios, mulheres, trabalhadores, movimentos sociais, movimentos estudantis etc. A tendência atual é de que o ódio, a xenofobia e a mixofobia se intensificam e se disseminam pela sociedade inteira. O resultado disto seria uma estrutura social formada pela burguesia isolada nas instâncias políticas, nas propriedades particulares, nos negócios econômicos e a grande ralé objeto de ódio e exclusão social.
    A classe especialmente treinada para disseminar ódio na sociedade não está apenas em Brasília ou nos grandes centros de atividade econômica. Não são apenas os brancos, ricos, machos e barrigudos que integram as três esferas da república, mas estão presentes na base social. Eles vêm revestidos da condição de homens de bem, moralmente corretos, fiéis à bíblia e aos preceitos religiosos, são ricos pela graça de Deus e por seus próprios méritos, mas profundamente odiosos ao condenar os de outra cor e condição como criminosos, vagabundos, baderneiros, etc.
     

  • Congresso de professores declara Sartori "inimigo da educação"

    “Fora Sartori, inimigo da Educação” foi uma das propostas aprovadas no IX Congresso do Cpers/Sindicato, realizado em Bento Gonçalves, no fim de semana passado.
    Cerca de 1.800 delegados participaram do evento. O congresso foi realizado em meio à greve dos professores que, nessa segunda-feira, completou 51 dias sem perspectiva imediata de acordo entre o governo estadual e os professores.
    Além da discussão sobre a necessidade de unir forças para pressionar o governo Sartori e das moções específicas do universo educacional, foi aprovada a proposta de “construção de luta de toda a classe trabalhadora contra o governo Temer e todas as tentativas de retirada de direitos trabalhistas”.
    Igualmente foi aprovada a realização de um debate com a base da categoria sobre as centrais sindicais. Os congressistas encaminharam as questões sobre o Plano de Lutas da categoria para serem analisadas no Conselho Geral do CPERS, conforme acordado no Congresso.
     (Com informações da Assessoria de Comunicação do Cpers/sindicato).

  • "A polícia está esgotada", avalia secretário de Segurança do Rio

    FELIPE UHR
    Não se trata apenas de um caso da polícia. Para o secretário José Mariano Beltrame, Segurança Pública é um problema muito maior.
    “O Estado perdeu a capacidade de fornecer um bom serviço público”, foi uma das frases de Beltrame durante sua palestra, nesta manhã de segunda-feira, no salão Ana Terra da Câmara Municipal de Porto Alegre.
    A palestra faz parte da terceira reunião que o Comitê Permanente de Segurança Metropolitano realiza na casa. Diante de policiais civis e militares, representantes de associações e sindicatos de segurança, Beltrame falou por pouco mais de duas horas.
    “Se vocês pegarem a constituição de 1988, quando se fala sobre segurança, é polícia do início ao fim. É a porta da cegueira”, defendeu.
    Beltrame afirmou que foi um grande erro ter deixado as políticas de segurança para os estados. Destacou que segurança é tão importante quanto educação e saúde, logo merecia espaço no orçamento. Para o secretário, a falta de planejamento é um dos grandes fatores para o aumento da insegurança. “Olhem a Rocinha, tem cem mil moradores e duas ruas, o resto é beco. Não teve projeto habitacional, homologaram a desordem”.
    “O meu telefone não funciona no presídio, o do bandido funciona”
    Entre os problemas atuais, Beltrame destacou a falta de uma pena mais severa, as brechas na lei que facilitam a vida dos bandidos e a estrutura do crime que, segundo o secretário, é maior e muito melhor organizada que a da Polícia. “O meu telefone não funciona no presídio, o do bandido funciona”, lamentou.
    O secretário destacou as mudanças também nas academias militares, que promoveu através do chamado “banco de talentos”. Qualquer um pode dar aula nas academias desde que passe por uma seleção técnica. Beltrame ressaltou que a Secretaria dá total autonomia para as instituições e que a maior parte dos recursos vai direto para os órgãos, apenas uma pequena parte fica a cargo da própria Secretaria. “Isso é planejamento estratégico” .
    Há quase 10 anos no comando da pasta de Segurança Pública, Beltrame citou como as UPP’S (Unidade de Policia Pacificadora) colaboraram para a diminuição dos índices de criminalidade no Rio e que os problemas como corrupção, efetivo, sistema prisional e planejamento ainda existem. Para ele, prevenir é o melhor jeito de combater a insegurança. “Onde há Upps, os lugares estão infinitamente melhores”.
    Sobre o esquema de segurança para as olimpíadas, Beltrame ressaltou que o maior cuidado é com relação ao terrorismo, mas que, desde 2007, trabalha-se na prevenção e na segurança para o evento. O secretário afirmou ainda que há 21 instituições, públicas e privadas trabalhando para isso e ressaltou quatro grandes eventos que serviram de teste para as Olimpíadas e que tiveram êxito na questão da segurança: “Tivemos o Pan, as Olimpíadas Militares, a Copa das Confederações e a Copa do Mundo”.
    Após a palestra, o secretário respondeu a questionamentos de representantes de entidades ligadas à segurança. Estiveram presentes o presidente da Câmara Municipal, o vereador Cássio Trogildo, e, representando a Assembleia Legislativa, o deputado estadual Mauricio Driziecki. O prefeito José Fortunati e o secretário de Segurança Pública do RS, Wantuir Jacini, também discursaram sobre o tema, mas não ficaram para ouvir o convidado do Rio de Janeiro.
     

  • Moradores reclamam falta de informação sobre projeto no Arado

    Moradores do bairro Belém Novo fazem histórico reclamando que  nunca tiveram informações sobre um grande empreendimento imobiliário na Ponta do Arado, onde há uma área de preservação ambiental.
    Eles vão promover um debate sobre o projeto dia 9 de julho, no CTG Piquete da Amizade.
    Eis o relato:
    “Em 20.10.2015 foi realizada uma reunião que trouxe o engenheiro, representante da empresa Dhma, Taufik Baduí Germano Neto, também conhecido como Pipa Germano. Ficou evidente a falta de interesse do engenheiro e da empresa em ouvir os moradores e suas dúvidas. No encontro o representante restringiu-se a apresentar de forma simplificada o projeto do empreendimento, sem nenhuma resposta quanto aos impactos do empreendimento dentro e fora da propriedade – nada foi respondido!
    Diante do projeto apresentado e das dúvidas e questionamentos não esclarecidos um GRUPO de MORADORES uniu esforços para buscar documentos e levar suas indagações ao Ministério Público.
    Tais apontamentos geraram dois inquéritos civis no Ministério Público Estadual (IC.01202.00105/2015 – área urbanística; IC.00833.00087/2015 – área do meio ambiente) e uma notícia de fato no Ministério Público Federal (nº 129000003496201594).
    Em 23.10.2015 foi realizada na Câmara de Vereadores de Porto Alegre a votação do projeto de lei que criou a Zona Rural do município (LC nº 775/2015). A luta pelo retorno da área rural em Porto Alegre mobilizou os produtores e moradores da região sul e de toda a cidade. A sua aprovação foi uma grande vitória, amplamente divulgada em todos os meios de comunicação.
    Contudo, ainda na euforia da conquista, a população de Porto Alegre foi surpreendida por uma votação na Câmara de Vereadores em total descompasso com o retorno da Zona Rural.
    Em 05 de outubro de 2015, foi votada a Lei Complementar nº 780/2015 de iniciativa do Prefeito, que estipulava a retirada da área da Fazenda do Arado da Zona rural recém-criada! A região correspondente à Fazenda Arado Velho voltou a ser área urbana, além disso foi alterado o índice construtivo na área, ou seja, mais casas poderão ser construídas no mesmo espaço!
    A população, ao mesmo tempo, está atenta aos chamados “projetos de urbanização” que vêm se instalando em Belém Novo e em toda a Zona Sul de Porto Alegre. Intitulado de progresso, este é mais um caso onde a especulação imobiliária está se sobrepondo às relações sociais, ao modo de vida próprio de existir, aos espaços que fazem parte da memória e nos quais se passa a vida e se constrói a história dos moradores e moradoras do bairro Belém Novo. Igualmente e tão importante quanto, está se sobrepondo ao DIREITO CONSTITUCIONAL de um AMBIENTE NATURAL e SAUDÁVEL.
    Permitir a transformação dessa área ainda tão preservada em urbana nos mostra que a nossa administração pública, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, não está disposta e preocupada em proteger uma região composta por Mata Atlântica e Pampa, seus bens naturais, o regime hídrico da Zona Sul da cidade, a existência de uma área de produção primária e a existência de fauna e flora raras e ameaçadas de extinção.
    A área em questão, Fazenda Arado Velho, mais conhecida por seus vizinhos e suas vizinhas pela antiga produção de leite na região e por seu proprietário Breno Caldas, possui 426 hectares, o que corresponde a uma área maior do que a região urbanizada do bairro Belém Novo. Por muito tempo era acessada pelos moradores e moradoras locais, desde a orla até o interior da fazenda. Porém hoje tornou-se um local de acesso proibido. Mesmo aqueles que tentam frequentar a orla da Ponta do Arado (área pública) são “convidados” a se retirar!
    A votação maciça dos Vereadores, que aprovou a alteração do regime urbanístico da Fazenda do Arado, nos mostra a força das manobras que repetidamente aprovam leis para alterar o Plano Diretor em prol dos grandes construtores, alimentando cada vez mais a especulação imobiliária.
    No que se refere às propostas de contrapartida, até o momento as apresentadas são na maioria deveres da Administração Municipal repassadas ao empreendimento. Outras, como doações de áreas para creche, posto de saúde e Dmae não contemplam a compensação equivalente e necessária ao impacto que será gerado pelas mais de 2300 economias. Por outro lado, já foi experimentada pelos moradores e moradoras do bairro Belém Novo situação semelhante, através do empreendimento imobiliário Terra Ville. Nesse caso retornou para a população alguns empregos de baixa renda e um centro onde são oferecidos cursos para a população. Independentemente de grandes empreendimentos na região a população deve estar respaldada por políticas públicas que partam do governo local, não por contrapartidas.
    Nossa proposta consiste na DEFESA e na PRESERVAÇÃO DA FAZENDA DO ARADO através da CRIAÇÃO de uma UNIDADE DE CONSERVAÇÃO naquela área. Uma área privilegiada que contempla RICA FLORA e FAUNA, extensa área de ORLA, PAISAGEM RURAL, CONSTRUÇÕES HISTÓRICAS, SÍTIO ARQUEOLÓGICO de ALTA RELEVÂNCIA PRÉ-COLONIAL, HISTÓRIA e CULTURA LOCAL.
    Assim, a reunião da comunidade local com setores das Universidades, Movimentos Ambientalistas e Técnicos das mais variadas áreas visa a CONSTRUÇÃO de um PROJETO elaborado tendo como base INTERESSES SOCIAIS DA REGIÃO EM CONSONÂNCIA COM A CIDADE COMO UM TODO, levando em conta o PATRIMÔNIO ÚNICO e PRESERVADO da região da FAZENDA ARADO VELHO.

  • Restauração Oligárquica e as Contradições da Retomada Neoliberal no Brasil Pós-Golpe

    Marcelo Milan – Economista, professor de economia na UFRGS.

    As classes dominantes no Brasil têm o golpismo inscrito em seu DNA. O mais recente golpe, em vias de se consolidar, mesmo ficando cabalmente comprovado que não houve nenhum crime de responsabilidade por parte da presidenta eleita que o legitime juridicamente, comporta muitos adjetivos que qualificam seus agentes imediatos e permitem diferenciá-lo de outros golpes do passado: clepto-parlamentar, manipulativo-midiático, iníquo-judiciário, farsesco-policialesco e pato-empresarial. A ruptura institucional ainda apresenta elementos mediatos de aumento do fanatismo religioso, fundado em novas denominações que combinam ascetismo e comércio, remetendo diretamente às trevas da Idade Média da intolerância e da venda de indulgências. O assincronismo se reflete também na semelhança entre a burguesia nativa com o papel dos barões ladrões do século XIX nos EUA. Cabe também lembrar a influência do nacionalismo de corte protofascista de segmentos das classes médias que, na ausência de massa encefálica suficiente, insistem em querer pensar utilizando o fígado. O golpe representa a manifestação deste autoritarismo atávico, suprimido apenas durante curtos intervalos quando foram permitidas, pela mobilização popular, farsas eleitoreiras com resquícios distantes de democracia. Todas as manifestações características do atraso político, social e cultural mais primitivo, gestadas por séculos aqui e alhures, ressurgem unificados na atual conjuntura política nacional (embora, de formas aparentemente diferentes, cada vez mais também nos países de maior tradição eleitoral).

    Emprega-se neste artigo, como tentativa de síntese desse processo, o termo restauração oligárquica, como oposto à renovação democrática restrita que, por ser restrita, nunca avançou de forma a alcançar sua plenitude, e que precisa ser renovada de tempos em tempos, na forma justamente de interrupções da dominação oligárquica. A presente “pausa democrática” é, assim, um eufemismo para a restauração oligárquica, que tem sido a norma e não a exceção no Brasil e na América Latina. Os curtos períodos em que há respeito às eleições e ao veredito das urnas são, na verdade, “pausas autoritárias”. A oligarquia golpista apresenta marcadas diferenças setoriais e de interesses econômicos, envolvendo estamentos burocráticos do Estado e elites econômicas do setor privado. Contudo, o golpe demonstra uma unidade de propósito destes setores. E este objetivo tem sido uma característica constante no conflito estrutural entre capitalismo e democracia, no Brasil e no mundo (como mostram recentemente os casos da Grécia e de Portugal): destruir ou tornar irrelevantes os mecanismos de participação popular na vida política, por um lado, e ampliar a dominação dos canais de representação dos interesses pecuniários da minoria no Estado. É claro que este propósito não é um fim em si, mas um meio para amealhar o máximo possível da riqueza nacional e impedir que essa possa ser compartilhada por todos aqueles que contribuem para sua produção e por aqueles impedidos por diversas razões.

    Um outro elemento importante, mas não discutido nesse texto para não complexificar em demasia a discussão, é o papel do capital e do poder político internacional no presente golpe, outra característica permanente das relações entre economias subdesenvolvidas e as economias de elevada renda per capita com objetivos geopolíticos agressivos. A estratégia de tomada de poder sem apelo, ainda, à violência estrutural aberta, exige um trabalho por dentro das instituições políticas, jurídicas e midiáticas que requer uma inteligência estratégica dificilmente disponível entre os segmentos golpistas imediatos. Uma rápida observação do ministério interino é evidência mais que suficiente. Por fim, o termo oligarquia capta melhor a composição destes segmentos do que a expressão “plutonomia”, cunhada pelo Citibank em dois memorandos internos vazados para denominar os donos do poder político e econômico. Ou seja, a plutonomia presume um grau de sofisticação ausente entre o golpismo local.

    Para além da dinâmica política, o golpe não pode ser entendido sem sua dimensão econômica. Todas as forças políticas derrotadas nas últimas eleições, proporcionadas pelo mais recente interstício eleitoral, voltaram ao governo pela porta dos fundos do golpe, desta vez para aplicar um programa econômico que envolve a retomada neoliberal que, por força do fracasso político das hostes golpistas, não tem nem teria respaldo eleitoral. E as derrotas eleitorais são explicadas em parte pela própria memória popular dos efeitos da aplicação do programa econômico neoliberal nos anos 1990 e início dos anos 2000. O neoliberalismo aberto das forças conservadoras derrotadas, agora reunidas no golpe, foi brevemente interrompido pelo social liberalismo da coalizão política que se fragmentou e acelerou a restauração oligárquica. Mas no que consiste esse programa econômico de retomada neoliberal? Ele possui três grandes vetores estruturais, além de medidas mais conjunturais, voltadas a reestruturar o capitalismo brasileiro por meio do aumento da lucratividade do capital: modificação no papel do Estado na economia, mudança na relação capital-trabalho e mudança na forma de inserção da economia brasileira na economia mundial. Todos estes elementos representam uma volta ao período pré-1930, se estendendo ao período colonial, reforçando a existência de uma restauração oligárquica.

    Com relação ao primeiro vetor, embora muitas vezes se associe o neoliberalismo com um Estado mínimo, na verdade ele representa uma mudança no papel do Estado para reforçar mecanismos competitivos em toda a sociedade. Isso pode exigir inclusive um Estado forte e mesmo autoritário. Por exemplo, o economista estadunidense Paul Samuelson se referia ao regime de Pinochet como ‘fascismo de mercado’. No caso brasileiro, fica clara a reorientação pretendida: retirar o Estado dos setores tradicionais de educação, saúde e previdência e transferência destes serviços para instituições privadas voltadas para o lucro, ampliando o espaço de valorização do capital. Outras atividades devem ser esvaziadas gradualmente, até se tornarem irrelevantes, como no caso da cultura, da ciência e da tecnologia (incompatível com o fundamentalismo religioso de cunho comercial que respalda o golpe), das políticas fundiárias para a agricultura familiar e das políticas de direitos mínimos às minorias. Além das privatizações de empresas e dos bancos estatais, serviços de segurança pública, inclusive o serviço prisional, devem ser transformadas crescentemente em atividades lucrativas. A principal mudança que compõe este primeiro vetor é o congelamento do orçamento federal por 20 anos (o chamado nominalismo) para as despesas com bens e serviços e liberdade para expansão do orçamento para os juros e as amortizações da dívida pública. Assim, a proposta de desvinculação dos gastos da arrecadação, liberando 30% das receitas para uso livre pelo governo golpista, representará redução no montante gasto com serviços públicos em saúde, educação e previdência e disponibilidade para transferências para o serviço da dívida, por exemplo. Com a consolidação do golpe, impostos mais regressivos deverão ser majorados.

    Ainda com relação ao primeiro vetor estrutural, há também medidas de caráter conjuntural, como a aprovação de um elevado déficit orçamentário (excesso de gastos sobre receitas) para 2016. Esse déficit deve ser empregado como justificativa para cortes progressivos em programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida, e para acelerar a reforma da previdência. Por outro lado, em uma economia em recessão o déficit é uma medida que minimiza a queda na atividade econômica e evita um aprofundamento da crise, dando algum fôlego econômico ao golpe. Dentro das forças políticas que apoiam a ruptura eleitoral, há também uma outra explicação para a ampliação do déficit. Discute-se muitas vezes a necessidade de coordenação entre a política monetária, que compreende a determinação da taxa básica de juros, o gerenciamento da liquidez e as condições de expansão do crédito e de evolução da taxa de câmbio, e a política fiscal, que compreende a definição dos gastos do governo, incluindo transferências, e as principais fontes de arrecadação. A diferença entre as duas se traduz, em parte, pela evolução da dívida pública, cuja taxa de expansão depende também da taxa de juros definida pelo Banco Central. Se há uma política de contenção de despesas e o Banco Central eleva a taxa de juros, exigindo maiores desembolsos financeiros pelo governo, então a contenção inicial de gastos (em geral com bens e serviços públicos), será parcialmente neutralizada, elevando o chamado déficit nominal. As duas políticas precisam, portanto, estar coordenadas para evitar ambiguidades. Por outro lado, quando o presidente do Banco Central, agora transformado em sucursal de um banco privado, anuncia que não há espaço para cortes nas taxas de juros, que no Brasil têm estado continuamente entre as maiores do mundo, ele sinaliza que a nova dívida pública gerada pelos déficits ampliados será remunerada a taxas “escorchantes”. Trata-se de um enorme programa de transferência de renda para a parcela mais rica da população, além dos detentores externos dos títulos da dívida, em detrimento da população mais pobre. Exatamente como esperado de uma oligarquia que tem no rentismo um grande aliado.

    A autorização de expansão do déficit é uma decisão política, como praticamente tudo mais em economia. O economista britânico Abba Lerner afirmou que a economia ganhou o status de rainha das ciências sociais por assumir um programa de pesquisa que tinha como questões centrais racionalizar problemas políticos resolvidos. Tentativas de reversão do déficit em uma economia em recessão levam a riscos de colapso econômico completo, como demonstrado no caso dos Estados Unidos no chamado penhasco fiscal. O congresso conservador não autorizou a ampliação dos limites da dívida pública (embora esse limite tenha sido ampliado continuamente durante os períodos em que o executivo era comandado pelos conservadores), e serviços públicos essenciais (para a maioria da população) foram interrompidos, levando o congresso a reverter sua decisão. No Brasil, do ponto de vista do ciclo recessivo atual, o governo golpista é portanto pragmático ao expandir o déficit primário. A austeridade é um programa fracassado, como reconhece o próprio FMI e cada vez mais outras instituições do establishment. Essa decisão apresenta diversos aspectos que convergem para a consolidação político-jurídica do golpe, por um lado, e da consecução de seus objetivos econômicos de curto e longo prazo, de outro. Os reajustes salariais para segmentos privilegiados do estamento burocrático, que tem papel fundamental em garantir a legalidade do golpe, são financiados com emissão de dívida remunerada a taxas elevadas, garantindo o consenso entre o rentismo.

    O segundo vetor envolve uma mudança nos parâmetros institucionais do conflito capital-trabalho, isto é, mudanças na legislação trabalhista que aumentam a barganha dos trabalhadores por salários e benefícios. Aqui há um amplo pacote de medidas contra os trabalhadores, incluindo a terceirização, e mudanças nas regras de correção do salário mínimo. A mais importante medida é a proposta de tornar redundante as regras legais de proteção ao trabalhador na barganha com os patrões. A proposta de mudança que privilegia o negociado pelo legislado representa um enorme retrocesso e que aponta para mecanismos formais próximos à escravidão (que deve ter uma forte expansão nos próximos anos). A existência de uma legislação trabalhista garantindo contratos de trabalho com um mínimo de equidade jurídica é uma das características de uma economia capitalista moderna em comparação com uma economia arcaica. Essa ofensiva não acontece apenas no Brasil, e na França tem levado a confrontos campais entre os trabalhadores e a repressão estatal, com a proibição de manifestações na cidade de Paris. No Brasil os sindicatos parecem não estar muito engajados no confronto a esse enorme retrocesso no sentido de uma economia de corte semi-escravista em que direitos trabalhistas são facilmente ignorados pela necessidade de manter o emprego. Com a provável compressão salarial, e a interpretação econômica dos economistas do golpe é que os salários cresceram desnecessariamente nos últimos anos, e isso é inaceitável para uma República de Bananas, as condições de ampliação da lucratividade ficam asseguradas, mesmo que isso implique restrição de demanda para adquirir os bens produzidos com uma lucratividade potencial maior em função da maior compulsão ao trabalho em condições degradantes de trabalho proporcionadas pela inobservância “consensuada” da lei.

    Do ponto de vista das propostas estruturais que incluem o primeiro e o segundo vetor, a reforma da previdência é central. Em primeiro lugar, os reajustes dos vencimentos foram desvinculados do salário mínimo, implicando perdas reais potenciais nos próximos anos para que se crie espaço para o pagamento de mais juros aos rentistas. Além disso, as mudanças demográficas permitem ampliar o período de venda da força de trabalho, mesmo que em condições desfavoráveis pelas mudanças proporcionadas pelo segundo vetor. Com a redução do Estado como absorvedor de parte da mão de obra nacional, resta a exploração no setor privado, já que se trata de força de trabalho qualificada, ou a marginalização, com a justificativa ideológica da punição por “falta de mérito ou esforço” (o que não é totalmente falso para alguns segmentos da burocracia estatal). A ampliação da oferta de trabalho amplia a competição entre os trabalhadores, em linha com o ideário neoliberal, em um contexto de reforma dos parâmetros da barganha salarial (e dos benefícios trabalhistas da Era Vargas – que devem desaparecer progressivamente), com o “negociado” (outro termo para chantagem patronal na maioria dos setores produtivos) prevalecendo (na verdade eliminando) sobre o legislado (os parâmetros legais referidos acima), haverá forte compressão salarial e uma forte expansão da lucratividade.

    O terceiro e último vetor estruturante é a mudança da orientação do Brasil na economia global. A diversificação das parcerias comerciais do país nos últimos anos serão revistas e o Mercosul deve ser solapado aos poucos. As mudanças na legislação ambiental permitirão acelerar a reprimarização da economia e completar a restauração oligárquica. O Brasil tenderá a ocupar novamente o seu papel tradicional na divisão internacional do trabalho, como produtor de mercadorias primários e insumos produtivos de baixo valor agregado. Nem mesmo com o segundo vetor plenamente desenvolvido o Brasil poderá competir com a China e os novos espaços de acumulação de capital na Ásia (Vietnã, Camboja etc.) em termos de custos trabalhistas. A estratégia de exploração extensiva da oferta de trabalho semi-escravo, que se encontra em transformação pela própria dinâmica da rápida acumulação chinesa, com expansão das greves e dos salários, não poderia ser facilmente emulada no Brasil sem uma forte repressão dos sindicatos e partidos de esquerda. Além disso, as empresas chinesas, sendo que as maiores e mais importantes são estatais, investem em inovação, introduzindo forte progresso técnico na economia. A burguesia industrial brasileira não investe em quantidade e em qualidade. Sobram os serviços, que sofrem competição internacional restrita, e o agronegócio, que ainda é competitivo em função da própria aceleração chinesa, mas que encontrará dificuldades com o rebalanceamento da China, o menor crescimento mundial e a expansão da fronteira agrícola na África e a manutenção do protecionismo agrícola dos países de renda elevada. O BRICS, enfraquecido estrategicamente pelos EUA, perderá espaço na agenda externa do governo golpista em sua estratégia de submissão incondicional aos ditames de Washington. Por fim, a estratégia de transferência dos ativos nacionais para o capital internacional representa a canalização da renda potencial interna para o exterior, contribuindo ainda mais para reduzir o dinamismo endógeno da acumulação de capital.

    A restauração oligárquica e a retomada neoliberal é, pela própria dinâmica que instaura, eivada de contradições que apontam para seus limites de sustentação econômica. O congelamento dos gastos públicos e os ataques aos trabalhadores, refletidos em rebaixamento salarial, reduzirão o mercado interno. Elementos de entreguismo ampliam a canalização da renda e da riqueza doméstica para o exterior, a troco de comissões e posições nas direções das empresas transferidas para o controle externo. A elevação de impostos que virá com a consolidação do golpe deve ampliar o caráter regressivo da tributação no Brasil, restringindo ainda mais o mercado interno. Esse movimento aprofunda ainda mais a desigualdade de renda e riqueza, típico de sociedades com dominação oligárquica, restringindo as possibilidades de dinamismo endógeno. Nesta situação, apenas a ampliação do mercado externo se torna factível para realizar os maiores lucros proporcionados pela nova configuração do conflito entre capital e trabalho e em menor medida pela ocupação do espaço público pelo setor privado que busca o lucro (principalmente via estatais com elevado grau de internacionalização).

    Todavia, a situação externa não parece apontar para a rápida expansão da economia mundial que seria necessária para esta estratégia de reestruturação capitalista no Brasil se consolidar de forma sustentada. A China, principal parceira comercial do Brasil, se encontra em processo de desaceleração. A economia chinesa também se encontra em meio a um processo de transição (o chamado rebalanceamento), reduzindo o papel das exportações e dos investimentos e ampliando o papel dos gastos públicos e do consumo interno. O sistema bancário paralelo chinês é outra incógnita que aponta para uma maior fragilidade financeira e a possibilidade de uma crise internacional de grandes proporções. Os EUA apresentam uma trajetória ambígua, com sinais de retomada intercalados por indicadores pessimistas. De qualquer forma, os problemas estruturais que levaram à crise e ao seu aprofundamento, a crescente desigualdade de renda e riqueza ou brazilianização da sociedade, permanecem intocados. O sistema financeiro segue livre para proporcionar instabilidade e fragilidade ao resto da economia. A Europa, após a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, deve aprofundar sua espiral deflacionária e estagnacionista. O Mercosul, um dos poucos mercados que absorvem a produção industrial do Brasil, será esvaziado na estratégia geopolítica dos golpistas, assim como os parceiros comerciais construídos na África no último período. Ao mesmo tempo, a política monetária, terceirizada à banca privada, com a manutenção de taxas de juros recordes, também reforçam a trajetória recente de apreciação da moeda brasileira e impõem uma dificuldade maior de retomada da atividade econômica via setor externo. Aparentemente apenas o agronegócio conseguiria minimizar estas barreiras, o que poderia atrair capitais para a agroindústria e proporcionar alguma expansão da acumulação de capital no Brasil, estabilizando a sociedade pós-golpe. Mas essa transformação não seria suficiente para consolidar um período de crescimento elevado e sustentado generalizado, como sugere a desapontadora história econômica do Brasil e da América Latina nos longos períodos de dominação oligárquica.

    Ou seja, com a oclusão das demais fontes de realização dos lucros potenciais gerados na produção, em função do favorecimento político do capital frente tanto ao trabalho como ao Estado, a própria acumulação sustentada de capital fica comprometida, e com ela o dinamismo da própria economia capitalista por meio dos efeitos indiretos que o investimento gera e que são necessários para manter a expansão da atividade econômica sem sobressaltos. Ao mesmo tempo, a capacidade ociosa ampliada pela recente crise e os estoques não vendidos em níveis elevados em alguns ramos industriais sugerem que o investimento não deve decolar de forma sustentada nos próximos trimestres. Ainda que haja uma leve recuperação do investimento, ele pode simplesmente reproduzir o padrão anterior, em que a burguesia compradora nacional simplesmente investe de forma quantitativa mas não qualitativa, com diferente tipos de apoio estatal. O investimento que amplia a competitividade no capitalismo do século XXI é feito de forma diferente, intensivo em conhecimento e tecnologicamente sofisticado, o que é incompatível com o fundamentalismo religioso abrigado no governo golpista. Se mesmo com o apoio do Estado o padrão de investimento não parece ter conduzido a um progresso técnico significativo, sem o apoio Estatal, de acordo com o cânone neoliberal, as possibilidades são ainda menores (e nesse sentido a restauração oligárquica e a retomada neoliberal podem bem representar o prego no caixão da burguesia industrial, com o pato sendo devidamente pago pelos trabalhadores). E mesmo as multinacionais aqui instaladas nunca conduziram o país à fronteira tecnológica por razões óbvias de competição interestatal. A retomada do padrão de privatizações dos anos 1990 também não será capaz de proporcionar avanços técnicos mais densos. Há nesse caso apenas transferência de propriedade, e alguns casos apropriação dos reduzidos espaços de inovação técnica criados no Brasil, como no caso das construtoras e da extração de petróleo em águas profundas pela Petrobrás. Os supostos ganhos de eficiência da transferência de propriedade não são claros, e mesmo que ocorram seriam incapazes de proporcionar um salto em termos de crescimento econômico. As privatizações na área da infraestrutura podem expandir os investimentos, mas novamente se coloca a questão: como esta infraestrutura poderá ser utilizada se os demais setores que a utilizam se encontram estagnados? A resposta parece apontar para as consequências da manutenção da taxa de juros em patamares elevados. Isto sinaliza um aprofundamento da financeirização das empresas no Brasil, com as condições favoráveis para o capital produtivo em seu conflito com o trabalho existindo apenas como condição necessária para a retomada da acumulação, mas não suficiente. O governo golpista está enredado em uma retomada neoliberal fadada ao fracasso, agora como nos anos 1990. As contradições são geradas portanto pelas próprias opções políticas e econômicas gestadas pela restauração oligárquica. Sem a legitimidade que o crescimento econômico proporciona (mas que nem sempre este é o caso, como mostra o momento golpista anterior ao atual). A sustentação de um governo ilegítimo e de uma estratégia econômica que tem tudo para fracassar exige uma forte repressão por parte do governo central e dos governos estaduais aliados ao golpe. Mas a restauração oligárquica já deu mostras de que esse é justamente o propósito.

     

  • Venda do morro Santa Teresa está de novo em discussão

    O arquiteto Vinicius Galeazzi, representante do Senge (Sindicato dos Engenheiros do RS) e coordenador do Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa, está lançando um alerta: a idéia de vender a área para projetos imobiliários, como pretendeu a governadora Yeda Crusius, voltou a ser cogitada no governo Sartori.
    O sinal, segundo Galeazzi, é o decreto 53.084, assinado pelo governador, que muda o objetivo e os integrantes do Grupo de Trabalho criado em 2012, para “propor projetos e ações para “regularizar a situação das vilas que ocupam parte do morro, a criação do Parque Morro Santa Teresa, mantendo os prédios públicos no local”.
    O novo decreto, datado de 21 de junho, tem por finalidade “avaliar estudos já realizados em relação ao imóvel”.
    O Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa nasceu, há seis anos, exatamente em reação a “um estudo já realizado” no Governo Yeda Crusius que visava transferir a área para uma empresa  privada.
    O objetivo da permuta seria viabilizar um projeto de descentralização da FASE, instituição que abriga menores infratores e que ocupa grande parte da área do morro, exatamente a mais valiosa, diante do Guaíba.
    Em troca,  o governo receberia nove imóveis em vários pontos da região metropolitana, para instalar unidades pequenas, que abrigariam os menores em conflito com a lei.
    A justificativa era a necessidade de manter esses menores o mais perto possível  das famílias.
    O decreto de Sartori, que não mereceu notícia, retira do Grupo de Trabalho o principal ator da regularização fundiária – a Secretaria de Obras, Saneamento e Habitação.
    O secretário Gerson Burmann, quando assumiu, manifestou apoio ao Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa e afirmou, inclusive,  que o Governador Sartori pedira prioridade para a regularização.
    Agora houve uma reviravolta, segundo Galleazzi. Em abril, um ofício do Governador no Diário Oficial, suspendeu o Grupo de Trabalho.
    E agora, a 21 de junho, editou o decreto que altera o objetivo do GT para “avaliação de estudos anteriores”.
    São 74 hectares, no coração de Porto Alegre, de frente para a orla do Guaíba maravilhosa, que já foram inclusive avaliados em R$ 92 milhões, isto é, R$ 1,2 milhão/hectare.
    Segundo Galleazzi, o atual presidente da FASE, Robson Luiz Zinn, em reunião com lideranças comunitárias, tem sido explícito: “A Governadora Yeda estava certa em querer vender a área”.
     

  • Esquema especial de segurança para audiência sobre o Uber no Gigantinho

    Uma audiência pública nesta terça-feira, 5 de julho vai discutir o projeto de lei do executivo 014/16, que regulamenta o serviço de transporte de passageiros por meio de aplicativos como o Uber.
    Marcada para 23 de junho, na Câmara Municipal, a audiência teve de ser adiada e transferida para o Ginásio Gigantinho, por  questão de espaço.
    Devido à polêmica que cerca o assunto, um esquema especial de segurança foi montado,  envolvendo Guarda Municipal, Brigada Militar, Corpo de Bombeiros, Empresa Pública de Transportes e Circulação (EPTC) e a empresa Código Vigilância Privada, contratada para fazer a segurança do evento.
    O evento deve ter tons de grenal. Os cinco mil lugares do ginásio serão divididos ao meio, de um lado ficarão os apoiadores dos aplicativos, de outro, os taxistas.
    A entrada dos dois grupos será por acessos diferentes: os taxistas terão a entrada liberada no portão 5, situado junto à Avenida Padre Cacique, enquanto os motoristas de aplicativos terão o acesso pelo portão 3, próximo ao Centro de Eventos do Beira Rio, no lado que tem acesso pela Avenida Edvaldo Pereira Paiva.
    Audiência Pública
    Não será permitida a entrada de instrumentos musicais, faixas ou bandeiras que contenham mastros de qualquer tipo. Durante o evento, 20 pessoas terão direito a falar, sendo 10 a favor e 10 contrárias ao projeto em debate.
    O Sintaxi espera pelo menos 5 mil taxistas na audiência. O sindicato está convocando toda a categoria a comparecer para a concentração a partir das 16h. O Sintaxi é contra o projeto. “Queríamos banir o projeto. Mas já que talvez não consigamos, queremos emendas que garantam a mesma regulamentação dos táxis, limitando número de veículos e cadastrando os motoristas, por exemplo.”
    A empresa Uber informou que não costuma realizar mobilizações deste tipo e que não vai se manifestar em relação ao projeto enquanto ele ainda está em discussão. Entretanto, motoristas que trabalham através do aplicativo se organizam em grupos do WhatsApp para comparecerem à audiência.

  • Desagravo a advogados denuncia ação da polícia e revela racha na OAB

    A Ordem dos Advogados do Brasil foi alvo de um protesto no final da tarde de quinta-feira, 30/6. Uma centena de pessoas, a maioria advogados, reuniu-se em frente à sede da OAB  para contestar a posição – ou omissão – da Ordem diante das dificuldades que os profissionais vêm enfrentando para trabalhar, sempre que atuam em situações de conflito social.
    Ele integram o Movimento de Advogados e Advogadas pela Legalidade Democrática. Estão revoltados com a omissão da Ordem, ao terem tido negadas pela polícia estadual suas prerrogativas profissionais quando quiserem ver seus clientes em manifestações e ocupações ocorridas recentemente em Porto Alegre, em escolas, órgãos públicos e prédios abandonados.
    Além de cerca de 70 advogados, ali estavam professores, cientistas políticos, sindicalistas e representantes de movimentos sociais.
    “Alguém perguntou se queremos derrubar o presidente da OAB. Não, porque não somos golpistas. Queremos que a Ordem cumpra seu papel”, disse o advogado Mário Madureira, ao abrir o ato chamado de Desagravo Público em Defesa da Advocacia e da Cidadania. “O presidente chegou a dizer que advogado não tem que se envolver com baderna”.
    Jorge Garcia reclamou que há quinze dias a Ordem sabe que profissionais estão tendo seus direitos violados e sendo tratados pela Brigada Miliar como se estivessem “acumpliciados com baderneiros, e não trabalhando na defesa de clientes em busca de direitos sociais, como moradia e educação”.
    “Em 1964, a OAB foi das primeiras entidades a apoiar o golpe, mas a história não guardou os nomes dos que a dirigiam na época. Agora será igual, esqueceremos os nomes deles”, disse Garcia.
    Empurrada por policiais e impedida de ter acesso aos clientes que participaram da ocupação da Assembleia Legislativa, Jucemara Beltrame entende que a omissão a OAB legitima a ação violenta da BM nessas ocasiões. “O presidente da OAB vive noutra realidade, pois o que a Brigada fez com os estudantes na Secretaria da Fazenda foi tortura.”
    Para Benedito Tadeu Cesar, do Comitê em Defesa da Democracia, é “estarrecedor” e “inadmissível” que a BM continue reprimindo com tanta violência as manifestações e ocupações, e a OAB não pode se omitir.
    “Levei gás de pimenta na cara quando mostrava minha carteira da OAB a um policial durante a ocupação da Secretaria da Fazenda pelos estudantes”, denunciou o advogado Jeferson Alves. “A comissão de defesa de prerrogativas da Ordem é uma piada”. Nenhum advogado conseguiu entrar na Assembleia, dia 14, nem na Sefaz, dia 15, quando até um jornalista e um cinegrafista que estavam trabalhando foram presos.
    “Estou renunciando à Comissão de Direitos Humanos da  OAB porque estão preocupados apenas em manter seu status de poder”, anunciou o mais jovem advogado a falar, Ramiro Goulart. Seu pai, Luiz Goulart Filho, já falecido, foi o primeiro presidente da Comissão no Estado.
    Ramiro integra o Comitê de Apoio às Ocupações, criado logo que começaram as ocupações nas escolas estaduais. Embora indignado, provocou risos ao relatar que, além de ser repreendido pelo presidente da entidade por defender direitos humanos, ouviu dele  que “onde há conflito, a Ordem não tem que estar, porque a Ordem é apartidária”.
    O Estatuto a Advocacia prevê o Desagravo Público quando há violação a direito e a prerrogativa dos advogados no exercício da profissão ou em função dela. “É exatamente o que vem se dando, sistematicamente, no Rio Grande do Sul, com os advogados do movimentos sociais e populares. E como a OAB, infelizmente, se omite, cabe a nós desagravarmos nossos colegas ofendidos no exercício da profissão”, diz o manifesto lido pelo advogado Leonardo Kauer, no final do ato.
    “O Movimento dos Advogados e Advogadas pela Legalidade Democrática  vem a público desagravar, também, os cidadãos que foram ofendidos e atingidos em sua liberdade de manifestação, que deveria ser protegida por nossa entidade no lugar de, miseravelmente,  apoiar o Golpe em curso no país.”