Diante da crise política que vivemos, colocamos a pergunta a respeito do que Marx e o marxismo têm a ver com isto? Já se escutou falar por aí que Marx seria o culpado pela crise que o Brasil atravessa no momento. Parece-nos evidente que Marx tem algo a ver com a crise global do capitalismo internacional, e com a crise brasileira em particular. Sem entrarmos nas distinções entre a filosofia do velho Karl Marx, marxismo e as causas marxistas que se concentram nas conhecidas esquerdas, tais como as questões vinculadas ao trabalho, à organização social, à luta de classes e à exploração do trabalho. Uma distinção entre estes vários aspectos levaria o texto longe demais, o que não é o propósito deste artigo.
A crise política é provocada pela onda conservadora do neoliberalismo cujos ventos voltaram a soprar forte sobre o território brasileiro. Sabe-se que este modelo econômico, fortemente reinstaurado no Brasil com a posse do poder central por um governo golpista e conspirador, tem na privatização da economia, no grande empresariado e na retirada dos direitos sociais os seus dogmas fundantes. Na contramão desta tendência, uma noção social de inspiração marxiana tem na valorização do trabalho, na constituição do sujeito social, na economia solidária e na igualdade social, na coletivização dos bens e na constituição do fundamento universal do bem comum os seus valores fundamentais.
Dada a radical antinomia entre os dogmas do neoliberalismo e os fundamentos sociais da filosofia de Marx, entre o privatismo e os fundamentos sociais de base, Karl Marx e os marxistas aparecem como um bando de demônios inimigos do desenvolvimento econômico e vagabundos que vivem do trabalho dos que detém propriedade privada. Para os neoliberais, a crise econômica é causada pela significativa margem de recursos e de capital aplicado nas questões sociais, numa massa de “vagabundos” que não produzem e que consomem a riqueza dos que trabalham e produzem. Nesta lógica, é preciso retornar ao capital e aos produtores de riqueza tudo o que lhes é de direito, e tirar dos “vagabundos” tudo aquilo que provoca desequilíbrios econômicos.
Facilmente se escuta dizer que Marx não serve de referência para a leitura crítica e interpretação da crise econômica e política que atualmente vivemos. Na contramão desta investida, sustentamos que depois da grande crise econômica que solapou as bases do capitalismo mundial em 2008 e a crise que afeta o Brasil atualmente, têm na filosofia marxista uma de suas bases mais profundas para a sua compreensão. O que vivemos na atualidade, numa simples palavra, pode ser resumido na usurpação do poder político por parte de uma elite capitalista que impõe o seu projeto econômico. O projeto econômico que os golpistas liderados por Cunha e Temer estão impondo ao Brasil é o mesmo que foi duramente criticado por Marx, que faliu em 2008 e que impõe ao mundo uma onda de destruição da natureza, do homem e de si próprio. Assim como denunciou Marx no século XIX, o capitalismo atual está sucumbindo à sua própria contradição interna, cujo preço está recaindo diretamente sobre os recursos naturais do Brasil e sobre o povo brasileiro.
O Capital, obra sistemática de maturidade do velho e barbudo Karl Marx, nos mostra suficientemente que não são os marxistas e trabalhadores os culpados pela crise atual, e que o seu pensamento é referencial para a compreensão de qualquer crise capitalista. Aqui, junto com o velho Marx, denunciamos a ação do governo golpista de fazer recair sobre os trabalhadores e a base social a responsabilidade, fazendo a classe trabalhadora pagar a conta dela. É evidente que o grande capital, cuja lógica Marx esboçou de forma sistemática e metódica em sua obra o Capital (das Kapital), apresenta o grande sujeito do capital que sobrevive à custa do trabalho explorado e da mais valia, expropriando a força física e espiritual do trabalhador. O grande capital somente sobrevive com o trabalho dos trabalhadores, cuja subjetividade é expropriada até as últimas consequências. Acontece sistematicamente aquilo que os golpistas impõem de forma clara: o grande capital expropria os trabalhadores, com a necessidade absoluta do fundamento que ele próprio nega. Os golpistas dizem que os pobres, a classe trabalhadora, os pequenos agricultores, as mulheres e os negros são vagabundos, justamente aqueles “vagabundos” que com o seu trabalho sustentam materialmente a posse material dos ricos e machos golpistas.
Ninguém reconstruiu a estrutura da lógica capitalista como Karl Marx, especialmente em sua obra o Capital. O grande capital, estruturado pelas determinações do capital industrial, do capital financeiro e do capital comercial, caracteriza um círculo de mediação no qual uma determinação do capital determina a outra, e todas se determinam reciprocamente na grande lógica da autodeterminação do capital. Mas o movimento de construção do capital é sustentado pelo trabalho dos trabalhadores, a grande força que coloca o capital em movimento. Os capitalistas, perfeitamente representados pelos golpistas, não gostam dos trabalhadores e negam a própria base que construiu o seu capital. Uma vez precarizado o trabalho, a tendência é de que o capital seja fragilizado.
Marx não apenas reconstrói a estrutura dialética das inter-relações entre as modalidades de capital dinheiro, capital produtivo e capital comercial, como a lógica da grande circularidade do capital global, mas critica outra configuração que consiste na separação entre a estrutura produtiva e a lógica especulativa e financeira. O grande causador da crise é a financeirização do mundo provocada pelas instituições financeiras que recolhem os recursos econômicos da base material da sociedade e os concentram em forma de capital financeiro. Este basta a si mesmo para se multiplicar, no melhor estilo autotélico de um deus absoluto e incondicional. Como alguns poucos se beneficiam desta lógica perversa e lucram com a crise, o sistema econômico material é explorado em seus fundamentos quando a carência econômica é sentida na indústria, no comércio, no consumo quotidiano e no trabalho, a financeirização pulveriza a estrutura material e a sua necessária circularidade de produção e consumo. Marx é um crítico contumaz desta lógica capitalista financeirista na qual o capital dinheiro adquire a configuração autotélica capaz de expropriar a realidade material e a estrutura social.
Pelo viés crítico fortemente marxista, a crise que vivemos evidencia uma radical desestruturação do tecido social pela coisificação das relações sociais fortemente impactadas pela lógica capitalista. Diretamente acompanhado dela, o sistema da natureza está sendo desintegrado, com a destruição dos ecossistemas, com a poluição do ar, das águas, dos rios, do desmatamento, da exploração predatória de recursos naturais, de aplicação de defensivos agrícolas em grande escala etc. O sistema capitalista dogmatizado e endeusado pelos golpistas não apenas desintegra a sociedade e a natureza em seus fundamentos, mas estabelece uma ruptura na relação fundamental entre o homem e a natureza.
Partindo do legado intelectual proporcionado por Marx, criticamos o projeto desencadeado pela elite golpista que está no poder. Este projeto já faliu o Brasil com o governo Fernando Henrique Cardoso na década de 90, quando o Brasil acumulou uma dívida externa impagável, com sucessivos empréstimos junto ao Fundo Monetário Internacional, com um déficit significativo na balança comercial durante os oito anos, e com diminuição do Produto Interno Bruto. O governo golpista está aplicando irrestritamente a cartilha econômica dogmatizada pela tradição neoliberal, que faliu a Europa e os Estados Unidos em 2008 e espalha estruturalmente os efeitos de sua decadência no mundo inteiro.
Apoiados no pensamento de Marx, criticamos radicalmente o modelo econômico representado pelo governo golpista que usurpou o poder. Ele representa um projeto econômico que retira direitos sociais assegurados pela Constituição de 1988. Isto representa uma contradição porque o próprio capital nega a sua força estruturante, o trabalho, destruindo-se a si mesmo. Os golpistas representam um projeto que já faliu o mundo, e está matando a natureza, está desintegrando a sociedade, provoca desequilíbrios econômicos, ecológicos e sociais globais.
Autor: da Redação
Crise política e marxismo
Audiência de conciliação pode dar fim às ocupações de escolas
Estudantes das escolas ocupadas e o secretário estadual da Educação, Luis Antônio Alcoba, terão uma audiência de conciliação na tarde desta terça-feira.
A reunião acontece as 14h, no Foro Central, com mediação da juíza Geneci Campos, do Cejusc (Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania).
O estudantes integram o Comitê das Escolas Independentes (CEI), que não se sentiu contemplado pelo acordo firmado entre Governo do Estado e entidades estudantis como a UBES (União brasileira dos Estudantes Secundaristas) e o grupo Juntos.
O acordo previa a desocupação das escolas, em troca, o executivo se comprometia a não encaminhar o Projeto de Lei 44/2016 este ano e a repassar R$ 40 milhões para melhorias na infraestrutura das escolas.
Nesta segunda-feira, o Infante Dom Henrique e o Santos Dummond, duas escolas ligadas ao CEI, foram desocupadas. A estimativa é de que 15 escolas permaneçam ocupadas em Porto Alegre.
No interior, onde a maioria das ocupações estava ligada às entidades estudantis, o movimento perdeu força.Rua Viva: negócios novos e tradicionais na avenida Venâncio Aires
A avenida Venâncio Aires começa na praça Garibaldi, na divisa entre Cidade Baixa e Azenha, margeia o Parque da Redenção, na divisa dos bairros Santana e Farroupilha, e vai até a avenida Osvaldo Aranha, na ponta do Bom Fim.
A história da Venâncio remonta ao ano de 1845, quando, motivado pela visita do Imperador Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina ao estado, o vereador Dr. Luiz da Silva Flores propôs à Câmara a abertura de duas vias: Rua do Imperador e Rua da Imperatriz. Com a proclamação da República, em 1889, estas ruas ganharam novos nomes: Rua da República e Venâncio Aires.
O nome homenageia o advogado e jornalista Venâncio de Oliveira Aires. Nascido em Itapetininga, São Paulo, foi um dos fundadores do Partido Republicano Riograndense e o primeiro diretor de redação do jornal republicano A Federação, impresso em Porto Alegre e que teve sua primeira edição lançado em janeiro de 1884.
A Rua da Imperatriz foi criada para cruzar a área da antiga Várzea, margeando o antigo matadouro público. Com o tempo, a Venâncio cresceu como uma rua predominantemente residencial. Há aproximadamente uma década, este perfil começou a se modificar, com o crescimento e a diversificação da atividade comercial.
Em maio, artistas da Casa Musgo fizeram um mural no muro da Casa dos Conselho / Ramiro Furquim/Jornal Já
Em janeiro de 2006, o Já Bom Fim Moinhos estampava em sua capa a manchete “A Venâncio que virou Osvaldo.” A matéria tratava das modificações que passavam naquelas rua. Em 2008, outra reportagem abordava a ampliação das opções noturnas na Venâncio.
Hoje a avenida Venâncio Aires apresenta uma grande diversidade de estabelecimentos comerciais. Ao longo de seus mil e duzentos metros, encontra-se diversos restaurantes, bancos, lojas e até estabelecimentos de diversão adulta. Além disso, a rua também conta com diversas instituições de ensino, como Senac, a Fadergs e escolas de idiomas.
Seu ponto inicial, junto à praça que já se chamou Concórdia, é um antigo reduto boêmio da cidade. Comenta-se pelas calçadas que um de nossos maiores compositores, Lupicínio Rodrigues, morador da Ilhota, passou ali algumas de suas noites de dor-de-cotovelo. Ainda hoje permanecem ali dois bares: Garibaldi e Eski Bar.
Na segunda quadra, há agências de quase todos grandes bancos: Banco do Brasil, Banrisul, Bradesco e Santander. Depois da esquina da João Pessoa começa a maior concentração de estabelecimentos gastronômicos, como por exemplo o Consultório Culinário, que se mudou recentemente da República, o Café na Paleta, a Pink Velvet e o recém inaugurado Venâncio, que fica no polinho gastronômico da esquina da Vieira de Castro.
Quando a Venâncio se aproxima do Hospital de Pronto Socorro, as atividades predominantes são ligadas à área da saúde, como consultórios odontológicos e farmácias. A Venâncio Aires tem seu fim no encontro com a Osvaldo. Um curioso edifício em formato de fatia de pizza, no número 1211, é o último imóvel da antiga Rua da Imperatriz.
Tablado comemora 25 anos
Andréa Franco fez uma reforma completa no imóvel para criar o ambiente do Tablado / Ramiro Furquim / Jornal Já
Em 1991, Andréa Franco criou o Tablado Andaluz, na época uma escola de dança Flamenca, localizada na Avenida Osvaldo Aranha. Mais tarde, a escola ganhou um restaurante especializado no mais famoso e tradicional da culinária espanhola, a paella.
Em janeiro de 2012, o Tablado Andaluz se mudou para a nova sede, na Venâncio. Andréa conta que quando adquiriu o imóvel, ele era apenas um terreno com as paredes laterais e fez uma reforma completa. Hoje, o tablado junta a escola de dança com o bar flamenco formando um centro integrado de arte, cultura e gastronomia espanhola.
Rua de comércios tradicionais em constante renovação
Ronaldo, à direita, está à frente do negócio fundado por seu pai em 1952 / Ramiro Furquim/Jornal Já
A Casa Moraes foi inaugurada em 27 de outubro de 1952, na última casa da João Alfredo, onde hoje é Aureliano de Figueiredo Pinto. Em 1967, a loja de sapatos se mudou para a Venâncio. Após o falecimento de seu pai, Antônio, Ronaldo Moraes assumiu o negócio. Ronaldo garante que a loja permanece igual há quase meio século atrás. Até a caixa registradora é a mesma.
Ronaldo nasceu em 1954, no imóvel que abrigava a sapataria e também a residência da família. Professor de matemática aposentado, foi o único filho que se interessou a dar continuidade aos negócios do pai.
Batista está à frente do Bar do Beto há 27 anos / Ramiro Furquim/Jornal Já
Os estabelecimentos noturnos são tradicionais. Batista está à frente do Bar do Beto há 27 anos. Daquele tempo permanecem o Pedrini e o Fontana, que já se chamou Cerilo.
Nídia, da Grão e Essência Armazém Natural / Ramiro Furquim/Jornal Já
Sempre tem negócio novo abrindo na rua. A Grão e Essência Armazém Natural se mudou da Zona Sul para a Venâncio no final de abril.
Outra recém chegada é a Mademoiselle, loja especializada em moda feminina.
Simone, da loja Mademoiselle / Ramiro Furquim/Jornal Já Feiras Ecológicas sob cerco da fiscalização
Matheus Chaparini
Marcelo Giffhorn comercializa sua produção de mel na feira da José Bonifácio há 28 anos. Ele afirma nunca ter tido problemas burocráticos neste período. Entretanto, há algumas semanas, sua banca, a Apiários Adams, recebeu uma vistoria da SMIC (Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio.) e perdeu o direito ao espaço que ocupa há quase três décadas.
Marcelo é do tempo da Feira do Mel, na década de 80, ainda antes da chegada dos orgânicos / Acervo pessoal de Marcelo Giffhorn
Agora, sua banca é uma das mais de dez que atravessaram a rua e ocupam parte da área da Redenção. Essa foi a solução encontrada pela secretaria para que os produtores possam continuar vendendo enquanto regularizam sua situação. Além de Marcelo, outros produtores reclamam que a SMIC está exigindo questões que nunca antes haviam sido exigidas. “O poder público nunca influenciou na feira, que sempre foi iniciativa dos produtores”, reclama o apicultor.
Feirantes que estão se regularizando não podem permanecer na área da feira, precisam atravessar a rua / Ramiro Furquim / Jornal Já
Ministério cobra Lei dos Orgânicos
Os produtores ficaram meio sem entender o que motivava as batidas da Secretaria na feirinha ecológica. “Até porque em ano eleitoral eles nunca aparecem”, comentou um feirante. O secretário da Produção, Indústria e Comércio, Antonio Kleber de Paula, nega que a presença da SMIC na feira seja uma novidade e garante que a fiscalização é feita desde que a feira existe, “com mais ou menos intensidade, conforme a demanda e o pessoal disponível”.
Entretanto, de Paula reconhece que há um fato novo: em abril deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) notificou formalmente a Prefeitura para que faça cumprir a Lei dos Orgânicos.
A lei 10.831 foi criada em 2003 e dispõe sobre a produção de alimentos orgânicos. Em 2007, a lei foi regulamentada através de um decreto, mas somente em 2011 passou a vigorar. A partir daí, iniciou-se uma discussão entre feirantes, consumidores, Ministério e Prefeitura que resultou na resolução 03/12, de dezembro de 2012, que disciplina a realização de feiras ecológicas no Município.
Em 2014, o Ministério considerou que a Prefeitura não estava fiscalizando adequadamente a aplicação da lei e retomou o debate. Agora, em abril deste ano, o MAPA encaminhou um ofício à Prefeitura, cobrando a execução efetiva da legislação. A partir daí, a SMIC intensificou a fiscalização nas feiras.
Da lavoura ao guichê da burocracia
Odair reclama da burocracia que dificulta a produção dos orgânicos / Ramiro Furquim / Jornal Já
Quem comercializa produtos como farinha de milho, erva mate de carijo e até aipim descascado, que são processados, está enfrentando problemas. Pela legislação, para comercializar estes produtos é necessário possuir uma agroindustria própria e constituir uma empresa.
Alguns feirantes afirmam que há aí outro empecilho, pois, se tornando empresário, eles acreditam que o feirante perca os incentivos a que tem acesso como produtor rural, como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), por exemplo. O secretário da SMIC nega e afirma que há inclusive linhas de crédito específicas para a pequena agroindústria.
Quem produz farinha de milho, por exemplo precisaria ter um moinho próprio, o que não depende só de dinheiro, mas de questões práticas como ter um rio na propriedade e conseguir uma roda de moinho, artigo raro hoje em dia. A clientela também reclama. “Para comprar o produto orgânico é essa dificuldade, mas se eu quiser ir no mercado e comprar um transgênico não tem burocracia”, disparou uma cliente que foi à feira comprar farinha e saiu de mãos vazias.
Há ainda um terceiro caso, das famílias que têm o alvará da banca e a certificação de orgânico em nomes diferentes. É o caso da banca de José Odair Justin, que está funcionando provisoriamente na área do parque. A certificação está no nome de uma de suas filhas, Luciana, e a empresa, no nome de Odair. Além disso, há outros empecilhos, como a falta de algumas informações no rótulos dos produtos. Odair afirma que já encaminhou as providências e espera retomar seu posto na feira já nas próximas semanas.
Certificação do mel custa caro
Marcelo vende mel há quase 30 anos e nunca havia tido problemas com a fiscalização / Ramiro Furquim / Jornal Já
Outro problema é o custo da certificação. Há duas modalidades de certificação de orgânicos: paga ou participativa. Na participativa, são os próprios produtores que fiscalizam uns aos outros, o que barateia, mas demanda mais tempo, em reuniões e visitas. Na outra, o produtor paga uma organização habilitada para a certificação.
Segundo Marcelo Giffhorn, não há organizações habilitadas para a certificação no Brasil e a certificação para apicultores custa entre R$ 15 e 20 mil ao ano, que refletem diretamente no preço final dos produtos orgânicos. “Não é o produto que é caro, é que o produtor tem que pagar a certificação. Será que vale a pena eu gastar essa grana pra vender na feirinha ou vou ter que me render à exportação? Porque lá fora o pessoal valoriza…”
Marcelo teve que optar pela certificação paga, pois suas caixas de abelha estão espalhadas por mais de 10 municípios do estado, o que dificultaria a avaliação participativa. O apicultor afirmou que já encaminhou a documentação necessária para dar início à certificação. Após concedido o certificado, há ainda um período de transição de quatro meses. Marcelo espera poder voltar para o outro lado da rua em meados de novembro.
Para Marcelo, o pior efeito deste processo é gerar um certo “ranso” entre os feirantes, ele também contesta a ideia de que na feira sejam vendidos apenas alimentos. “Isso aqui é muito mais que uma feira de orgânicos, é uma feira cultural, um cartão de visitas pra Porto Alegre.”
Já Odair reclama da burocratização para a produção de orgânicos. “Eu sou agricultor, eu entendo é de plantar, mas cada vez mais para plantar nós temos que entender da burocracia.” Ele defende a criação de organismos de acompanhamento nos municípios. “Seria melhor orientar antes do que punir o agricultor depois. A gente não tem a intenção de fazer nada errado.”
Marcelo defende que a feira é mais que um local de comercializar alimentos, é uma feira cultural / Ramiro Furquim / Jornal Já Nota sobre o acordo negociado entre o governo do Estado e estudantes que ocuparam a AL
O movimento Mães e Pais Pela Educação respeita a decisão das escolas e das entidades estudantis que se reuniram com o governo estadual, negociaram um acordo e irão desocupar as suas escolas. Igualmente, respeita a decisão dos(as) estudantes que não concordam com a decisão e por isso tomaram a decisão de manter suas escolas ocupadas.
Neste sentido, enquanto mães, pais e apoiadores(as) da luta de nossos(as) filhos(as) por uma educação de qualidade, salientamos que este acordo não contempla a totalidade dos(as) estudantes.
Reconhecemos a importância das entidades estudantis e a sua legitimidade em representar os interesses daqueles que se sentem por elas representados, mas reconhecemos também os que por ela hoje não se sentem representados e se organizam de maneira independente das mesmas. Infelizmente, verificamos que o Comitê das Escolas Independentes (CEI), formado por estudantes de dezenas de ocupações, sequer foi convidado a participar das negociações e, por esse motivo, nao pode apresentar suas reivindicações e muito menos opinar sobre o referido acordo.
Por tudo isso, reiteramos a necessidade de que o mesmo NÃO SEJA HOMOLOGADO sem que essa significativa parte do movimento estudantil gaúcho tenha suas reivindicações atendidas. Caso contrário, corremos o risco de não vermos as escolas desocupadas e nem a volta da normalidade das aulas em dezenas de escolas gaúchas.
Isto posto, passamos à análise de alguns termos do acordo.- FÓRUM PERMANENTE: Consideramos a criação de um fórum permanente “para acompanhamento das reivindicações estudantis em geral, especialmente das obras nas escolas, merenda e quadro de professores nas escolas” um avanço, pois vai ao encontro da abertura de um canal de diálogo que nós tanto reivindicamos. Contudo, a descrição de sua composição é genérica, algo que permite excluir a participação de boa parte dos interessados. Quem seriam os representantes da sociedade com assento nesse fórum? Para que esse fórum tenha um caráter plural e, realmente, destine-se à melhoria da qualidade do ensino no Rio Grande do Sul postulamos que ele seja constituído por representantes do Conselho Estadual da Educação, do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente, do Conselho Tutelar e do Movimento Mães e Pais Pela Educação, sem prejuízo de outras organizações da sociedade civil. Quanto à representação dos(as) alunos(as), requeremos que metade dela seja composta por estudantes do Comitê das Escolas Independentes (CEI), a fim de que esses também possam ter suas demandas debatidas e atendidas.
- MERENDA NAS ESCOLAS: A promessa de aumento da verba estadual para a merenda escolar é uma falácia do governo estadual, pois, para muitas escolas, ele sequer vem destinando verbas para a complementação dos R$ 0,30 repassados pelo governo federal, fazendo com que muitas delas tenham que oferecer uma merenda que caiba no orçamento de R$ 0,30/aluno. Uma proposta séria passa pelo comprometimento do governo em regularizar os repasses da complementação à verba federal para todas as escolas.
- AUTONOMIA FINANCEIRA: Reconhecemos o avanço em relação às duas primeiras propostas, pois, ao menos para o mês de junho, foi estipulada uma data para a integralização da verba de autonomia financeira. Todavia, o governo segue tratando a educação e, especificamente, as estruturas das escolas com descaso, pois só se compromete a repassar essa verba após o pagamento do salário do funcionalismo estadual, que vem sendo parcelado ao longo do mês.
- PL 44/2016: Na verdade não houve NENHUM avanço com relação à sua tramitação. O governo está manipulando a sociedade em geral que desconhece os detalhes do processo legislativo. Como o referido PL não foi encaminhado em Regime de Urgência, o mesmo seguirá a tramitação normal como já estava ocorrendo. Ou seja, segue para apreciação do Parecer da Relatora na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Em caso de rejeição do seu parecer pelos membros da Comissão, é designado novo Relator que dará novo Parecer a ser apreciado. Em caso de aprovação do Parecer, o PL segue para a próxima Comissão. Somente após apreciação do Parecer em três comissões temáticas é que o líder do governo no parlamento pode pedir a sua priorização para que ele entre em pauta para votação. Somente nesse processo, pelo menos seis meses são necessários para que ele chegue ao Plenário. Chegando ao Plenário, após priorização pela liderança de governo, ele só entrará para votação após acordo de líderes, os quais definem com a Presidência da Casa a ordem de votação de projetos. Portanto, nada muda para o governo nesse sentido, visto que em nenhum momento foi pedida a urgência para a votação do tal PL. Será mesmo isso um acordo vitorioso ou a continuidade da tramitação prevista pelo governo desde o início? Ao nosso ver, uma vitória dos(as) estudantes seria conquistar que o mesmo fosse retirado do parlamento por parte do governo Sartori.
- DIÁLOGO E RESPEITO: Quando o governo declara que atos de represália que incluem “transferências compulsórias, serão avaliados pelas escolas e revistos pelas Coordenadorias de Educação respectivas, conforme normativas em vigor”, ele não proíbe as direções de escolas e as CREs de penalizarem os(as) estudantes, apenas de rever suas decisões. Sabemos que esse processo de revisão não é tão simples e não faltarão motivos “alheios ao ato de ocupar” como justificativas para tais transferências, Na prática, então, os(as) estudantes poderão sair prejudicados por terem exercido a sua cidadania.
Porto Alegre, 15 de junho de 2016.
MOVIMENTO MÃES E PAIS PELA EDUCAÇÃOEntidades se unem em defesa de repórter preso e enquadrado em quatro crimes
Num sábado gelado em que, às dez da manhã, o centro de Porto Alegre ainda estava coberto pela neblina, cerca de quarenta pessoas compareceram ao debate na Associação Riograndense de Imprensa sobre a prisão do repórter Matheus Chaparini, do jornal JÁ.
Vilson Romero, diretor da ARI, fez um breve relato dos atentados à liberdade de imprensa no Brasil e no mundo e apresentou os integrantes da mesa – o próprio repórter, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre, Milton Simas, o editor do jornal JÁ, Elmar Bones, e o coordenador da comissão da direitos humanos da OAB, Dani Rudnicki.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
O vídeo de seis minutos com as cenas chocantes que Chaparini registrou com seu celular dentro do prédio da Secretaria da Fazenda, na hora em que 42 estudantes foram retirados à força, introduziu o assunto.
Em seguida, o repórter reconstituiu seu dia de trabalho. Explicou que acompanha desde o início as ocupações de escolas por estudantes. Na quarta feira, 15, pouco depois das oito da manhã, foi avisado que havia uma nova ocupação.
Chegou ao local quando alguns estudantes ainda estavam entrando. Ele entrou junto. Começou a fazer entrevistas, em seguida chegou a Brigada Militar ele passou a filmar.
Representante da OAB, Dani Rudnicki | Ramiro Furquim/Jornal Já
Gravou 11 minutos de vídeo, registrando a retirada à força dos estudantes. Mesmo tendo se identificado como jornalista, foi levado junto. Foi metido num camburão e, depois de um roteiro por duas delegacias, parou no Presídio Central, de onde saiu em liberdade provisória, por volta das duas da madrugada.
O inquérito, feito pela polícia com base nos elementos fornecidos pela Brigada Militar, também não registra sua condição de jornalista e determinou sua prisão em flagrante, pedindo à Justiça que o enquadre em quatro crimes: esbulho possessório, corrupção de menores, dano qualificado ao patrimônio e associação criminosa. Libertado por liminar, o repórter disse que não sabe ainda dos desdobramentos desse processo.
O editor Elmar Bones disse que o repórter “estava na hora certa, no lugar certo” cumprindo seu dever profissional. Explicou que as invasões de escolas por estudantes configuram um “fato novo” e que por isso o jornal JÁ procura acompanhar o movimento de perto, desde o início.
Jornalista Elmar Bones | Ramiro Furquim/Jornal Já
Segundo Bones, a prisão do repórter é um fato extremo num contexto de discriminações que cercam o jornalismo independente. “O mais chocante, disse o editor, foi a reação de alguns jornalistas, que tentaram desqualificar o repórter por ele estar entre os estudantes, como se o jornalista, para ser isento, tenha que se manter distante dos fatos”.
Bones, de 72 anos, que foi preso três vezes durante a ditadura, contou que não esperava mais ter que passar um dia ao telefone para resgatar um colega preso. “Fiquei com a sensação de que nada mudou. Em certo sentido, parece até que piorou. Na ditadura, por força da necessidade, criou-se uma rede de proteção em que instituições da sociedade civil, como OAB, CNBB e outras se somavam às entidades de classe. Através dela, apesar do arbítrio vigente, chegava-se à autoridade para evitar o pior. Agora, confiados de que estamos numa democracia, não temos isso e a autoridade parece impermeável”.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
O editor contou que ouviu no rádio às 9 horas a informação de que um grupo de estudantes havia invadido o prédio da Secretaria da Fazenda, no centro da cidade. “Mandei uma mensagem aos repórteres e logo veio a resposta do Matheus: “Estou aqui dentro”. O Furquim (fotógrafo) taí? “Só eu”, foi a resposta.
Meia hora depois um telefonema. Em voz abafada, o repórter falava que estava no camburão com os estudantes e ouvira um militar dizer que iriam para o Presídio Central. Em seguida, com medo que lhe confiscassem o celular com as imagens, Matheus passou-o para um dos advogados e ficou sem contato.
Matheus Chaparini dentro de um dos microônibus que levaram os detidos na Sefaz | Ramiro Furquim/Jornal Já
O representante da Ordem dos Advogados do Brasil, Dani Rudnicki, respondeu ao questionamento do debate: Liberdade de Expressão Ameaçada?
“Sim, disse ele, existe ameaça, com consequências para todos, pois só existe garantia de direitos humanos com jornalismo livre e este quadro está piorando”. Matheus Chaparini, segundo Rudnicki, foi “vítima da arbitrariedade policial e do sistema carcerário, inclusive porque não podia ficar em cela comum”.
| Ramiro Furquim/Jornal Já
O advogado lembrou que “há uma forte tendência de criminalizar os movimentos sociais e, por isso, as implicações desse processo que envolve o repórter não devem ser negligenciadas. Ele vai precisar de bons advogados e apoio político para evitar consequências, que podem ser graves”.
O presidente do Sindicato dos Jornalistas, Milton Simas, começou informando que a Brigada Militar foi convidada para o debate, mas não se dispôs a mandar um representante. Mencionou o evento promovido pelo sindicato que, no dia anterior, reuniu mais de 70 profissionais na frente do Palácio Piratini para protestar contra o silêncio do governo estadual sobre o caso. Simbolicamente, canetas e blocos de anotações foram colocados na porta de entrada da sede do governo. Lembrou que em 1987, quando um jornalista foi preso arbitrariamente pela BM (o repórter Alfredo Daudt, do Jornal do Comércio, ficou quatro horas detido), o governador Pedro Simon chamou-o ao Palácio Piratini para pedir desculpas. “Agora nem o Secretário de Comunicação Social se manifesta”.
Fotógrafo Naian Meneghetti ficou 36h preso ao cobrir ocupação de escritório do consulado dos EUA, em 2013 | Ramiro Furquim/Jornal Já
A primeira intervenção da plateia foi o fotógrafo Naian Meneghetti. Ele relatou sua prisão, por 36 horas, e a retenção do seu equipamento (até hoje não devolvido), enquanto fotografava um protesto em 2013, diante do consulado dos Estados Unidos em Porto Alegre. “Também acabei no presídio central. Lá eles pegaram o megafone dos manifestantes e passaram a noite apertando o botão do alarme para impedir que pudéssemos dormir”. Disse que seu processo está agora no STF.
Wálmaro Paz, repórter free-lance, ironizou as insinuações de que o repórter seria militante por estar junto com os estudantes: “Nas cobertura das ocupações de terra, a gente dava carona ao líder do MST no carro de O Globo, ninguém via problema nisso. Se estava cobrindo, tinha que estar junto”.
Jornalista Wálmaro Paz| Foto: Ramiro Furquim/Jornal Já
André Pereira relembrou que a última prisão de jornalistas por causa do seu trabalho no RS durante a Ditadura foi em 1982, quando quatro jornalistas do Coojornal, Bones entre eles, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, foram encarcerados por 14 dias, por uma reportagem baseada em documentos do Exército. “Naquela época não se admitia vazamentos”
André Pereira mencionou também o caso do repórter Alfredo Daudt que em 1987, chegou a ser detido por 4 horas durante cobertura da greve dos professores, mas o então governador Pedro Simon, ao saber, o chamou para pedir desculpas.
Sugeriu um contato com lideranças na Assembleia Legislativa, como os deputados Adão Villaverde e Ibsen Pinheiro, dispostas a apoiar um movimento para acompanhar não só o caso do jornalista mas, também, dos 42 estudantes, a maioria menores, presos e enquadrados nos mesmos crimes no inquérito policial.
Representante da Fenaj José Nunes | Ramiro Furquim/Jornal Já
José Nunes, representante da Fenaj, falou dos riscos para os jornalistas num momento de fragilidade política por que passa o Brasil. Chamou atenção para o “absurdo o que o Judiciário está fazendo no Paraná”, referindo-se aos jornalistas da Gazeta do Povo, de Curitiba, acossados por mais de 30 processos em comarcas diferentes por reportagens sobre os altos salários de promotores e juizes.
Ramiro Furquim, fotografo colaborador do jornal JÁ, protestou contra a cadeira cativa de jornalistas com crachás de grandes empresas e uma série de perguntas para emissão de crachá emitido pela Assembleia Legislativa, não reconhecendo a carteira da Fenaj, válida em todo território nacional. “Pra entrar na Casa do Povo, minha identidade de Jornalista não é reconhecida”. O presidente do Sindicato prometeu providências.
O presidente da Associação dos Jornais de Bairro de Porto Alegre, Paulo Bittencourt, reclamou da discriminação dos pequenos jornais e da falta de políticas públicas que estimulem essas iniciativas, que são pequenas do ponto de vista financeiro mas são importantes do ponto de vista social, da vida das comunidades. “A gente faz o diferente, aquilo que a grande mídia não faz, mas o poderio econômico sufoca os pequenos”. Deu como exemplo a lei que destina 20% das verbas publicitárias do governo estadual para os pequenos veículos, que foi aprovada pelos deputados, sancionada pelo governador Tarso Genro e barrada pela PGE, por inconstitucional.
Batista Filho, presidente da ARI | Ramiro Furquim/Jornal Já
O presidente da ARI, Batista Filho, encerrou o debate reafirmando o histórico envolvimento da entidade na defesa intransigente dos profissionais. “As imagens mostram que Chaparini estava ali soberanamente fazendo o seu trabalho”. Disse que ao longo desta semana, junto com outras entidades, a associação estará mobilizada para que o inquérito lavrado contra o repórter seja anulado. “Não podemos esquecer que há outras 42 pessoas, a maioria menores de idade, que foram alvo de violência e são acusadas dos mesmos crimes”.No rastro da nova-velha direita e o giro reacionário do senso comum brasileiro – 2
Introdução da segunda parte da série
Neste segundo artigo da série da nova-direita, desenvolvo a ideia de como o senso comum foi sendo colonizado por ideias reacionárias, que terminam sendo um modo reativo diante das tímidas e, por vezes, pífias políticas de reconhecimento promovidas pelo governo temporariamente afastado e o pacto lulista iniciado em 2003. Na esteira deste reacionarismo social e de âmbito na cultura e na religião, vemos espetáculos dantescos de misoginia, de homofobia e um rechaço “medieval” aos avanços obtidos dentro da Constituição Federal de 1988. Insisto na tese de linha chilena, ao menos até 1981, quando o pau de arara e as máquinas de moer carne humana das forças repressivas de Augusto Pinochet e cia. eram complementadas pelo asqueroso preceito dos Chicago Boys, doutores e mestres em economia na Universidade de Chicago, para onde foram às dezenas por duas décadas a soldo de bolsas do Império.
Não são apenas viúvas da ditadura, mas viúvos da linha dura aliados aos neopentecostais
Vamos por partes e seguindo a verdade dos fatos. Entendo que é preciso resgatar a figura de Dilma Vana Rousseff, guerrilheira, e da mandatária afastada. A presidenta Dilma Rousseff foi capturada como presa política e barbaramente torturada. Isso aconteceu. O crime de tortura não costuma prescrever em nenhum direito no mundo, no direito internacional está previsto como crime de guerra, mas no Brasil a tortura aos opositores do regime ditatorial prescrevera como acordo (espúrio a meu ver) de saída do regime de exceção. É importante ressaltar que esta opção de seguir os “vasos comunicantes” de Golbery foi escolha da então centro-esquerda e oposição liberal hegemônica no final da década de ’70.
Os governos dos generais Ernesto Geisel (1974-1979) e João Baptista Figueiredo (1979-1985) derrotaram politicamente a linha dura (identificada pelo braço repressivo do DOI-CODI) na interna do regime, processo cujo auge foi a tentativa de golpe do general Sylvio Frota – em outubro de 1977 – e na sequência com o chamado terror de direita no país. A ação de “viúvas” da ditadura, como o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) – embora sua faixa etária seja outra – manipulam termos e desígnios do período da Guerra Fria e de forma caluniosa associam todas as esquerdas aos governos de tipo stalinista, como na antiga URSS, ou na versão chinesa do maoísmo até 1971.
O problema societário está na capacidade de massificação desta postura – existe, não seria majoritária, mas tolerada, e fazendo muito barulho – e os confrontos inevitáveis daí advindos. O problema estrutural está no chamado entulho autoritário, notadamente no modelo brasileiro de polícia, e no alto índice de violência estatal praticado no país. Logo, o discurso reacionário pode calar fundo na população mais desassistida, desesperada por algum grau de segurança pública (defesa da vida e do patrimônio) e muitas destas pessoas manipuladas pelos mercadores da fé alheia, como os pastores neopentecostais, como os líderes Edir Macedo (Igreja Universal), Silas Malafaia (Assembleia de Deus), RR Soares (Igreja Internacional da Graça de Deus), Valdomiro Santiago (Igreja Mundial) e outros concorrentes.
http://youtu.be/6MvADsjEnO4
Ainda não há uma vinculação direta de todos estes pregadores com as propostas neoconservadoras da extrema direita, mas sim da linha neoconservadora e da chamada da Teologia da Prosperidade. Logo, há uma vinculação, ainda indireta, entre a postura neoliberal radicalizada e a defesa de uma espécie de democracia limitada pelos agentes de mercado; e muito pressionada pela direita religiosa.
A linha chilena no Brasil pode se concretizar com Jair Bolsonaro para presidente em 2018
O que temos no Brasil são os efeitos de décadas semeando o padrão do neoliberalismo e também uma histeria frenética e mentecapta contra a representação do pacto de classes do lulismo. O ex-presidente propôs um jogo do tipo ganha-ganha, onde o empresariado ganhava com apoio do Estado e o crescimento econômico faria a redistribuição através do aumento do emprego e da renda. Acontece que não houve uma tentativa de distribuição de poder, o que viria através da mudança das regras eleitorais – ao menos a tentativa desta mudança – e a criação de um novo setor social mobilizado através dos beneficiários destas políticas.
Assim, a maioria pode estar mais assistindo a crise política do que se engajando, o que aumenta a penetração da falácia gerencialista, da mentira estruturante da “eficiência do capital privado sobre o Estado” ou quaisquer outras baboseiras de legitimação. Como este conjunto de ideias detém, de forma maior ou ainda meio tímida, a hegemonia das linhas editoriais dos conglomerados midiáticos, terminam por indicar para a população o caminho falacioso como válido. O elogio ao indivíduo cala fundo no individualismo que atravessa as relações sociais, e encontra terreno fértil junto da demência coletiva conservadora que circula por internet.

Outro fator importante é o preconceito ao outro, para a diversidade, para as ideias igualitárias, na defesa das populações originárias e quilombolas, terminam ganhando um sentido mais amplo daqueles que acusam servidores de “viverem nas tetas do Estado”, parasitas sociais, ou outros termos ofensivos. É este conjunto de ideias retrógradas que está ganhando uma vertente de linha chilena e que pode representar a candidatura de Jair Bolsonaro. O que pode impedi-lo de ser candidato é o risco da perda da imunidade, pois há um risco real de Bolsonaro receber uma infinidade de processos, até em função de seus discursos. A declaração de voto do ex-capitão de infantaria paraquedista, homenageando ao notório torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015, coronel do Exército Brasileiro, e ex-comandante do II DOI-CODI, de São Paulo), é uma demonstração do quanto a língua ferida e fascista do deputado necessita de imunidade parlamentar para seguir fazendo sua propaganda de extrema-direita.
Talvez a estratégia de longo prazo seja a de Bolsonaro “emprestar” sua credibilidade, já que tem eleitorado cativo no estado do Rio de janeiro, e operar como cabo eleitoral de quem ele apoiar como concorrente presidencial. Mesmo não sendo candidato, se ele colar a sua imagem a algum candidato, podem receber estes 8% de votos, 10% talvez e bastando organizar dez por cento de seus eleitores como recursos mobilizados e teremos uma massificação do neofascismo no Brasil.
As bancadas de representação transversal no Congresso e o lobby reacionário no Parlamento
Sem querer fazer alarmismo, o Brasil viu na Câmara dos Deputados o voto de 367 parlamentares, sendo que destes, ao menos 298 têm algum tipo de ato pendente com a Justiça ou no mínimo algum tipo de processo. É um número muito elevado, mas é o padrão brasileiro. Se sobrepusermos as bancadas conservadoras por interesse direto, como a do Boi (o latifúndio e o agronegócio), da Bíblia (dos pastores neopentecostais e pentecostais mais agressivos), da Bala (dos que defendem o desrespeito aos direitos humanos na ação do Estado contra a delinquência) e mesmo da Bola (da cartolagem e as estruturas de poder do futebol brasileiro), teremos a maior representação política brasileira.
Atravessa o sentido de crenças da religiosidade através de instituições conservadoras estas bancadas por interesse, sendo que as “igrejas” aqui já citadas defendem e propaga o comportamento conservador, o elogio para as iniciativas individuais e tudo baseado na chamada Teologia da Prosperidade. O volume da adesão da pobreza brasileira a estas empresas religiosas é enorme, e obviamente isto implica em vinculação de voto e possibilidade de alianças afins, tais como a narrada acima.
No momento em que vivemos, o pouco de avanço simbólico que houve durante os governos de Lula e Dilma – insisto, nas tímidas políticas de reconhecimento, como a de cotas, por exemplo – atiçou a ira das várias alas da direita conservadora. Contrapor o reconhecimento dos direitos de quilombolas, povos originários, além das escolhas LGBT, direitos reprodutivos (como a legalização do aborto), direitos humanos em geral, motivam o pensamento conservador desorganizado a estar atado através da internet, sendo alvo de convocatória pelas empresas religiosas como as neopentecostais, assim como a mobilização da juventude de direita pelas empresas start-ups como o MBL e grupos afins ou concorrentes.

É necessário demarcar que qualquer “governabilidade” terá de contar com uma parcela razoável das oligarquias brasileiras e setores representantes do agente econômico e ideológico mais à direita. Logo, é da posição deste analista que qualquer teoria absurda de retomar pactos internos com quem sequer quer acumular excedentes de poder no Sistema Internacional implica em simplesmente repetir os mesmos erros do lulismo e não são válidas. Para gerar um novo consenso hegemônico à esquerda é preciso retomar o protagonismo das lutas populares e manter como princípio sagrado de unidade a independência de classe e o respeito às decisões soberanas das bases organizadas.
(www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@gmail.com para E-mail ou Facebook)O último bastião da legitimidade
PINHEiRO DO VALE
Dilma espera pelos templários de Curitiba. Ela começa a admitir a seus fiéis que os jovens juízes, promotores e procuradores da Justiça Federal estão produzindo uma limpa tão profunda nos quadros da política tradicional brasileira que ainda antes do fim do ano os cenários serão outros.
Por ser uma outsider da política, erguida como um poste pronto e acabado, como gostam de dizer seus detratores, ela acredita que será dessa distância de todos os fragmentos e remendos que formam o estado brasileiro sairá sua força para derrubar o impeachment.
Começando pelo fim: o golpe não é uma simples figura de compêndios de ciência política. No Brasil de hoje esse vocábulo se inseriu na cabeça da classe média letrada como a expressão da ilegitimidade.
Essa versão corre o mundo e cristaliza a imagem do Brasil. Portanto, a volta de Dilma será um desmentido categórico à comunidade das nações da reconversão do País à “república de bananas”. Mesmo abalado, o Brasil ressurge como um estado-estável, uma figura que separa os países do mundo segundo o vigor de suas instituições democráticas.
Cientistas políticos (que ainda refutam a palavra golpe por inadequada à letra dos manuais) já consideram que a volta de Dilma é essencial para a estabilização política e econômica. Começam a perceber que o Brasil mudou e que somente a legitimidade assegura a estabilidade (incluindo aí a econômica e a jurídica, essenciais para os negócios).
Essas análises começam a chegar numa conclusão surpreendente, neste momento.
Dizem que com todo o sistema político-partidário em decomposição, totalmente putrefato virando carniça, o reduto final para a sobrevivência do estado democrático será recorrer a seus fundamentos, que é a legitimidade original do voto. Nesse bastião está Dilma Rousseff.
Os partidos políticos, as corporações, as organizações da sociedade civil, os interesses legítimos e ilegítimos, todos afundam no mesmo barco. Com os quatro ex-presidentes vivos sob suspeição ( a LavaJato se aproxima de FHC), com o presidente interino entrando nesse mesmo barco, só vai restar a eleição de 2014 para conferir legitimidade a qualquer mandato.
Dilma foi vítima desse sistema deteriorado. O PT uniu-se com o PMDB, aliando as duas forças majoritárias do Brasil e juntos tomaram o poder. Segundo muitos cientistas políticos especializados em analise de eleições, o PT deu a Dilma 30 milhões de votos, o PMDB 25 milhões.
Uma boa parte, decisiva, dessa votação veio do Norte-Nordeste captados nas clientelas dos grandes caciques regionais, alimentados por recursos federais. Se isto compromete Dilma, esvazia a contribuição do Michel Temer.
Sendo paulista, não teve ação direta na região que decidiu o pleito.
Rapidamente, o parceiro da esquerda, o PMDB, viu a brecha para tomar-lhe as rédeas.
Acenando com o expurgo do PT, o partido aliado cooptou a oposição derrotada para uma revanche.
Não valeu de nada: o sistema político eleitoral está tão corrompido que não escapa ninguém do conluio com os interesses econômicos. Todos os partidos captaram dinheiro de empresas.
Conta-se nos dedos vereadores, deputados estaduais, federais, senadores, governadores ou presidentes que não beberam destas fontes.
Todos devem ser chamados a responder no confessionário dos templários de Curitiba. Eles estão puxando o fio da meada e já criaram um movimento que não há mais como deter.
As forças desencadeadas no Judiciário ganharam moto próprio e vão levando tudo por diante. É uma corrida contra o tempo. Em 180 dias tudo pode ruir, sobrando apenas Dilma com seus 54 milhões de votos e o Supremo Tribunal Federal na superestrutura do poder.
Estes analistas asseguram que Dilma Rousseff, com sua legitimidade, será a última trincheira da democracia e da credibilidade do Brasil. Sem outra saída à mão, o establishment tomará juízo para botar a carreta nos trilhos.Professores: desocupação abre caminho para o fim da greve
Os professores da rede pública estadual que ocupavam o Centro Administrativo Fernando Ferrari deixaram o local na manhã de sexta-feira. À tarde o Comando de Greve do Cpers/Sindicato reuniu-se com o secretário da Educação, Luis Alcoba, e tudo indica que o fim da greve pode ser decretado na próxima semana.
Segunda-feira haverá reunião do Comando de Greve para avaliação do movimento e possível convocação de assembleia geral da categoria.
As duas partes reconhecem que houve avanço nas negociações. O governo assumiu o compromisso de revogar a portaria do Difícil Acesso e não descontar os dias de greve dos professores e funcionários de escola, desde que as aulas sejam recuperadas.
“Nossa pauta não foi contemplada em sua totalidade, mas reconhecemos que houve avanços. Pedimos um voto de confiança em relação à recuperação das aulas, já que não houve proposta de reajuste. Que seja pago o salário dos dias parados, porque nós recuperamos as aulas, como sempre fizemos”, explicou a presidente do Cpers, Helenir Schürer.
No encontro com o secretário da Educação, o Comando de Greve também exigiu que o governo apresente um calendário para o pagamento do Piso Salarial e dos reajustes de 13,01% (2015) e 11,36% (2016), além de apresentar proposta para repor a defasagem de 69,44%.
O governo ficou de responder a esses pedidos por escrito.Jornalismo em debate na Associação Riograndense de Imprensa
Um debate aberto ao público avalia a prisão do jornalista Matheus Chaparini, junto com 42 jovens retirados a força do prédio da Secretaria da Fazenda do Estado pela Brigada Militar. É na Associação Riograndense de Imprensa, a partir das 10h deste sabado, 18.
Chaparini fazia cobertura da ocupação para o jornal JÁ e conseguiu entrar no prédio, mas teve sua condição de jornalista ignorada pela Brigada Militar, embora tenha se identificado várias vezes, como provam os vídeos que ele fez.Serviço
HOJE às 10h, no salão nobre da ARI (Borges de Medeiros, 915 – 8º andar).
Ele foi levado com os estudantes e acabou no Presídio Central, com outros dez que eram maiores de idade. Obteve liberdade provisória na madrugada do dia 19 e vai responder a processo por quatro crimes: esbulho possessório, dano ao patrimônio, corrupção de menores e associação criminosa.
Participam do debate, além do jornalista Matheus Chaparini e do diretor do jornal JÁ, Elmar Bones, o presidente do Sindicato dos Jornalistas, representantes da OAB e do Ministério Público.























