Autor: da Redação

  • Sem maioria de votos Chapa 3 vence eleições para reitor da UFRGS

    Foi concluída esta madrugada do dia 17 a apuração que definiu quem será reitor e vice-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para o mandato 2017-2020.
    A chapa 3, composta pelo vice-reitor Rui Vicente Oppermann e pela professora Jane Tutikian, venceu mesmo não fazendo o maior número de votos.
    Ao todo a chapa teve 2857 votos.
    Com 3696 votos a chapa 1; do docente Carlos Alberto Saraiva Gonçalves e da professora Laura Verrastro Vinas, e  a chapa 2, professor Sérgio Roberto Kieling Franco  e pela professora Andrea Machado Leal Ribeiro com 831, foram as derrotadas.
    Apesar da inferioridade na contagem Rui e Jane são os vencedores porque na eleição da Universidade não há paridade de votos. Os votos de docentes valem mais que técnicos administrativos e estudantes e a contagem de votos é realizada pela divisão dos votos válidos pelo número de votantes habilitados.
    Com a fórmula a chapa 3 se elegeria, mesmo sem os demais votos, somente com os votos dos docentes.
    Confira abaixo a votação:
    Docentes (Peso 0,7):
    Chapa 1 – 629 votos
    Chapa 2 – 286 votos
    Chapa 3 – 1.112 votos
    Branco – 32 votos
    Nulo –53 votos
    TOTAL: 2.112
    Votantes habilitados: 2.872
    Técnico-administrativos (Peso 0,15):
    Chapa 1 – 994 votos
    Chapa 2 – 110 votos
    Chapa 3 – 465 votos
    Branco – 21
    Nulo–167
    TOTAL – 1.757
    Votantes habilitados – 2.656
    Discentes (Peso 0,15):
    Chapa 1 – 2.073 votos
    Chapa 2 – 435 votos
    Chapa 3 – 1.280 votos
    Branco – 22
    Nulo – 98
    TOTAL – 3.908
    Votantes habilitados – 37.323
    Cálculo da apuração

    Docentes

    Técnicos

    Discentes

    TOTAL

    Chapa 1

    0,153307

    0,056137

    0,008331

    0,217775

    Chapa 2

    0,069707

    0,006212

    0,001748

    0,077667

    Chapa 3

    0,271030

    0,026261

    0,005144

    0,302435

     

  • Vídeo revela que BM sabia da presença do jornalista

    Ao contrário do que afirma a nota da Secretaria de Segurança Pública (SSP), o jornalista Matheus Chaparini não só se identificou, como foi identificado por outras pessoas que monitoravam a desocupação. Em nenhum momento o repórter se comportou como manifestante como afirma a nota da SSP.
    Assista o vídeo:

  • Sartori faz apelo por desocupação do CAFF em vídeo nas redes sociais

    Agora pouco, o governador José Ivo Sartori, do PMDB, divulgou um vídeo em suas redes sociais apelando para que Cpers desocupe o Centro Administrativo do Estado. Sartori diz que o Governo nunca deixou de dialogar. Em seguida, solicita ajuda e postura cívica de deputados federais e estaduais da Oposição para convencer os professores da necessidade de se cumprir pacificamente decisão judicial.
    O governador promete que uma comissão do Piratini estará pronta para receber uma comissão do Cpers. Promete também uma retomada nas negociações para ampliar a discussão sobre o futuro da Educação.
    O Cpers reivindica no momento que o Governo mantenha a bonificação por Difícil Acesso enquanto não houver cumprimento da Lei do Piso. O sindicato também quer a retirada do PL 44/2016, que concede serviços públicos e Fundações à iniciativa privada, tal qual os estudantes que ocupam escolas públicas. A revogação da questão da Hora Atividade, que tirou o recreio de hora-aula para hora atividade também está na pauta do sindicato.
    Outra reivindicação é uma revisão no PLP 257/16, sobre a renegociação da dívida dos Estados: o Cpers quer que Sartori se comprometa a apresentar um calendário para pagamento do Piso, no plano de carreira, e incluí-lo no acordo com o governo federal. O atual texto engessaria possibilidades de investimentos e valorização do funcionalismo público estadual.

  • Resposta da Redação à nota da Secretaria da Segurança

    A Secretaria de Segurança do Estado emitiu, nesta  quinta,16  uma “nota com “esclarecimentos”  sobre a prisão do repórter  do jornal JA, Matheus Chaparini, “ocorrida em virtude da invasão do prédio da Secretaria da Fazenda, na última quarta-feira.
    Diz a nota:
    “A prisão em flagrante foi efetuada porque, durante todo o tempo, ele estava dentro do prédio invadido, agindo como integrante do grupo militante que praticou a invasão”.
    Nota da Redação: Os vídeos e as fotos feitos pelo repórter não deixam dúvida: ele estava fora da cena, registrando os fatos. O fato de estar dentro do prédio é mérito dele, como repórter:  foi o único jornalista a registrar o que ocorreu no interior da Secretaria depois da entrada da BM.  
    Diz a nota:
    “Ele se identificou como jornalista quando já estava consumada a prisão pelo ato de invasão”.
    Nota da Redação: O repórter não tinha porque se identificar, mesmo assim falou que era jornalista antes de sua prisão. Sua atividade era ostensiva: ele filmava e tomava notas. No momento necessário ele se identificou devidamente, reiteradamente.  Os vídeos mostram isso.
    Diz a nota:
    “Na Delegacia de Polícia, quando da lavratura do auto de prisão em flagrante, negou-se a falar, permanecendo em silêncio e optando por falar somente em juízo”.
    O repórter contesta essa afirmação. Diz que identificou-se para a delegada Andréa Nicotti, da 3ª.DPPA.      
    Diz a nota:
    Portanto, a prisão se deu em virtude do ato individual de invasão, do qual ele foi parte ativa, e não do exercício da atividade profissional de jornalista…”
    Nota da Redação: O repórter não tomou parte na invasão. Quando ele chegou, os estudantes estavam invadindo o prédio, ele entrou junto. Que repórter não entraria?  O exercício da atividade jornalística exige muitas vezes, que o profissional de imprensa esteja numa posição inconveniente do ponto de vista da autoridade, mas absolutamente necessária do ponto de vista do interesse público. Era esse o caso.   
    Diz a nota:
    “Os profissionais de imprensa presentes na ocorrência em questão, respeitando o trabalho da polícia, tiveram garantido o exercício de sua atividade profissional”.
    Pode ser louvável essa obediência, mas se ela fosse seguida por todos, o público provavelmente não tomaria conhecimento dos fatos que ocorreram no interior da Secretaria da Fazenda, num dia fadado a ficar na história.   
    Diz a nota:
    A Brigada Militar e a Polícia Civil cumpriram suas obrigações funcionais, resguardadas no princípio constitucional de que todos são iguais perante a lei. Eventuais equívocos serão apurados nos termos da legislação em vigor.
    Ao Poder Judiciário, no momento oportuno, caberá decidir sobre a responsabilidade penal dos adultos presos e indiciados no ato, garantido o contraditório e a ampla defesa.
    Nota da Redação: Nossa obrigação é registrar os fatos.
     

  • A saúde e nós: um processo e várias escolhas políticas

    A saúde, ou a dinâmica do processo saúde-doença, é tema permanente em nossas vidas, do berço à sepultura. Não podendo evitar a morte, queremos viver com o maior bem estar possível, com autonomia, com força e potência criativa. O conceito da Organização Mundial da Saúde é muito mais um horizonte, uma busca, do que uma realidade: “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.” (OMS).

    Por essa definição, não teria ninguém completamente saudável. Mas a busca ativa de bem estar, em todas as esferas da vida de nós humanos, esses seres biopsicossociais complexos, nos levará para mais ou menos perto desse ideal inatingível (ou atingível apenas em alguns momentos da vida). Saúde seria o resultado de um processo social que expressa a maior ou menor qualidade de vida de uma população. É algo a ser pensado no âmbito do político, não somente individual. Daí o termo saúde coletiva, pois não há como ser saudável sozinho.

    Os determinantes sociais da saúde, como acesso a trabalho e renda, à terra, à segurança alimentar, ao lazer, à educação, aos serviços em todos os níveis de complexidade, ao transporte público etc. são tomados como produto da ação humana em sociedade, a partir de sua perspectiva política, ideológica, cognitiva, econômica, organizativa e cultural.

    O Sistema Único de Saúde foi uma conquista cidadã após muita luta, fruto de uma emenda popular na constituição de 1988. Ou seja, o povo conquistou a implementação legal da universalização da saúde, a partir da luta das bases comunitárias (associações de mães, de comunidades, movimentos sociais etc.), que se uniu aos intelectuais da área da saúde, como David Capistrano, ou Sérgio Arouca, que foi Secretário Estadual de Saúde do Rio de Janeiro e presidente da Fundação Oswaldo Cruz, e tantos outr@s.

    De lá para cá, aumentamos a expectativa de vida*, diminuímos a mortalidade infantil, programas como a Estratégia de Saúde da Família entraram interiores adentro, melhorando os índices de saúde do país a cada ano. O SUS abrange desde o simples atendimento ambulatorial até o transplante de órgãos (cerca de 95% desse tipo de procedimento é feito pelo SUS, porque coisa cara os planos privados não gostam de bancar, não!) garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a população do país. São milhões e milhões de procedimentos em todos os níveis de complexidade, e sabemos que uma atenção básica universal bem feita previne que as pessoas cheguem aos níveis mais altos que são mais caros e exigem tecnologia pesada dentro do hospital.

    O SUS tem muitos problemas, evidentemente, como o sub-financiamento e profissionais despreparados e não identificados com seus princípios filosóficos; mas sempre foi boicotado, atacado, só se ouve falar mal dele na mídia. Nesse exato momento, temos um ministro interino da saúde cuja campanha política foi financiada pela Amil, um plano privado!

    Segundo a revista Época, que não prima pelo apoio aos interesses públicos, mas até ela admitiu que o maior doador individual da campanha de Ricardo Barros (recém-nomeado ministro da Saúde) para deputado federal pelo Paraná em 2014 foi Elon Gomes de Almeida, sócio do Grupo Aliança, administradora privada de benefícios de saúde. E aos planos privados não interessa um SUS bem financiado e forte.

    O SUS é uma política de Estado, não de governo: é constitucional, qualquer governo que entrar tem de mantê-lo em funcionamento. Cada governo desenvolve os seus programas e projetos, as políticas de governo; mas as políticas de Estado são contínuas e como exemplos temos a merenda escolar, o ensino fundamental obrigatório, o sistema de saúde pública. Ah, claro que Ricardo Barros é investigado por corrupção, todos os “quadros” do governo interino o são. Parecem escolhê-los pela ficha corrida, não pela competência ou identificação com as áreas de atuação.

    O ex-ministro da saúde, médico sanitarista José Gomes Temporão, disse em entrevista à Carta Capital que em um país desigual como é o Brasil, com 80% da população dependendo do SUS, é totalmente irreal imaginar cortes ou que uma medicina privada possa substituir o sistema público.

    Eu pessoalmente acredito que uma gestão pública responsável trataria de pensar em como financiar o SUS, e não em deixar de financiá-lo por falta de recursos. Mortes evitáveis acontecerão em massa se isso for levado a cabo, constituindo um crime de enorme gravidade. Infelizmente, no Brasil, o preconceito/ódio de classe é tanto, que se as mortes forem entre os pobres e periféricos, parece que isso “importa menos”. Os estratos socioeconômicos mais baixos, tidos como “classes perigosas” (êita país cheio de mitos irreais, esse nosso!

    O que tem de bandido realmente perigoso em classes abastadas…) afinal, são consideradas descartáveis. Nas favelas, nas periferias, moram os sub-humanos na opinião de boa parte dos brasileiros. Tão distantes do povo estão, que passam a ter medo dele. Vivem entre shoppings centers altamente vigiados (onde os pobres não são bem vindos, como vimos no recente fenômeno dos rolezinhos), restaurantes caros, suas casas e seus locais de trabalho.

    Andam pouco na rua, e jamais nas periferias. Apavoram-se cada vez que eu conto que subo favelas, visito periferias, faço pesquisa e participo de festas em bairros periféricos. E, pasmem, nunca me aconteceu nada de ruim nesses lugares, sabem por quê? Porque 99% das pessoas que lá residem são honestas, trabalhadoras e inacreditavelmente resilientes. Sempre fui bem acolhida e tenho bons amig@s nesses lugares.

    Mas voltando à saúde, nosso tópico central nesse texto, continua o ex-ministro Temporão, na entrevista publicada em 23/05/2016, a falar que todos os brasileiros usam o sistema público de saúde. Seja para transplantes, tratamento de doenças crônicas, medicamentos de alto custo, vacinas, vigilância sanitária e epidemiológica, atendimento de emergência (SAMU), entre outros, os serviços de saúde pública chegam a todos nós.

    Uma política nacional de saúde vista com olhar integrador e global, deveria dar conta dos dois subsetores: o público e o privado. Trazer a racionalidade do mercado para o SUS seria o seu fim: saúde não é mercadoria, é patrimônio de bem estar de uma população, de indivíduos e coletivos! Cortes de financiamento do SUS nesse momento trarão um impacto terrível na oferta de serviços e acessos, justamente em uma recessão econômica, em que aumenta a vulnerabilidade social e mais gente precisa utilizar o sistema. Sim, é assassinato: pessoas vão morrer de mortes evitáveis, por decisão política de gente irresponsável e criminosa. Dando uma de Émile Zola, eu acuso os irresponsáveis que querem acabar com o SUS de crime de lesa-pátria, de crime contra a humanidade.

    Urge formar profissionais da saúde com sensibilidade social, com visão de amplo alcance, com foco na saúde pública. Urge incluir Medicina de Família e Comunidade na estrutura acadêmica dos (geralmente conservadores) cursos de medicina. Procuro fazer a minha parte com a atuação nas graduações de saúde da UNISINOS, na disciplina de Saúde na América Latina.

    Num trabalho em aula, com estudantes de várias graduações da saúde, propus trabalharmos com nossos conceitos próprios de saúde, nossa visão pessoal do que ela significa. Também elaborei o meu, para estimular os estudantes. Ficou mais ou menos assim: O meu conceito de saúde, no âmbito individual, é sentir-se forte o suficiente para enfrentar a vida e seus desafios; é não ter dores físicas, mas se tiver alguma crônica, é saber lidar com elas do modo mais natural possível; é manejar com sabedoria as dores emocionais ou da alma; é não ficar indiferente ao sofrimento de ninguém; é ter capacidade de empatia com o outro, ajudar e ser ajudada, vivenciando a reciprocidade; é não desistir de tentar construir uma vida melhor, um mundo melhor, de lutar pela justiça; é não perder a capacidade de se indignar com a injustiça; é amar e ser amada; é ter um corpo que interage de modo sensível com o mundo e com as pessoas que ama, sabendo “ouvi-lo” e respeitá-lo (incluindo seus limites).

    Viver numa comunidade forte, solidária e constituída sobre bases de justiça social, também me parece vital para sentirmos que estamos saudáveis e bem integrados com as alteridades de convívio. Disso faz parte um modelo de cidade inclusivo, no qual impere a valorização da cultura e a ocupação democrática dos espaços públicos.

    Precisamos de participação da população nas decisões do poder público, na saúde, na educação, cultura e demais esferas. Tivemos, a partir de 1988, um momento político de ampliação de direitos; contudo, esta jamais foi unanimidade no Brasil. Forças conservadoras sempre agiram contra a implementação dos direitos civis e cidadãos, que sequer são os do socialismo, mas sim os do liberalismo dos séculos XVIII / XIX / XX: liberdade, igualdade, fraternidade.

    Direitos civis, direitos sociais, econômicos e culturais. Direito a votar e ser votado/a, à livre expressão e manifestação; direito a trabalho e renda dignos, à saúde e educação; direito à autodeterminação dos povos, a viver em paz e ter o meio-ambiente preservado. Portanto, precisamos ainda lutar pela organização e mobilização da sociedade civil, fazendo a defesa do SUS nos conselhos de saúde e pressionando por mais democracia e mais direitos sociais!

    Lamentavelmente, com o quadro político que se instaurou no país, precisamos lutar pelo que já é, para não perdermos direitos a duras penas conquistados. Lembrando os versos da Marselhesa, mas adaptando-os ao pacifismo que me caracteriza, convido @s amig@s a formar batalhões de defensores das políticas públicas cidadãs, da reforma sanitária, da educação de qualidade. Nossas “armas” são a livre e pacífica manifestação pública, as ocupações e a pressão contínua aos usurpadores do poder. Não passarão! Aux armes citoyens! Formez vos bataillons! Marchons! Marchons!

    *Diferença de expectativa de vida, em 2016, por estado brasileiro (as desigualdades percebidas nesses dados ficam para uma próxima coluna): Rio Grande do Sul: 75 anos; Santa Catarina: 75,3 anos; Paraná: 74,1 anos; São Paulo: 74,2 anos; Rio de Janeiro: 73,1 anos; Goiás: 71,4 anos; Mato Grosso do Sul: 73,8 anos; Mato Grosso: 73,1 anos Maranhão: 67,6 anos; Piauí: 68,9 anos; Ceará: 70,3 anos; Rio Grande do Norte: 70,4 anos; Paraíba: 69,0 anos; Pernambuco: 68,3 anos; Alagoas: 66,8 anos; Sergipe: 70,0 anos. (Fonte: FREITAS, Eduardo De. “Expectativa de vida dos brasileiros”; Brasil Escola, baseado em dados do IBGE. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/brasil/expectativa-vida-dos-brasileiros.htm>. Acesso em 13 de junho de 2016).

  • Manifestação estudantil pacífica e a violência da Brigada Militar – Nota de Repúdio

    O Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito vem a público repudiar a ação repressiva da Brigada Militar do Rio Grande do Sul durante o processo de desocupação da Secretaria da Fazenda, no dia 15 de junho.
    Nesse processo, foi utilizada violência desmedida contra um grupo de jovens estudantes, que se manifestavam de forma não violenta contra a política educacional do governo do Rio Grande do Sul.
    É de conhecimento público – através de vídeos, fotos e depoimentos divulgados nas redes sociais – o tratamento utilizado pela Brigada Militar, que, inclusive, empregou, no espaço interno da Secretaria, jatos de spray de pimenta contra adolescentes que se encontravam sentados e sem expressar qualquer intenção de reação.
    O Comitê está aguardando audiência com o Sr. Governador e outras autoridades públicas, solicitada por três vezes desde o dia 30 de maio, para expressar sua posição de defesa de soluções pacíficas para a resolução dos conflitos sociais que têm ocorrido neste período de crise institucional no país.
    Reiteramos que, entre os direitos fundamentais da cidadania, estão o respeito à integridade física, à organização e à livre manifestação das opiniões – pilares do processo de construção da democracia.
    Porto Alegre, 16 de junho de 2016

  • O repórter cumpriu seu papel

    Elmar Bones
    O repórter Matheus Chaparini, de 26 anos, era o único jornalista dentro do prédio da Secretaria da Fazenda do Estado, no centro histórico de Porto Alegre, às 9h da manhã, da quarta-feira, 15 de junho de 2016.
    Há quase uma hora, o prédio estava “ocupado” por mais de 40 estudantes, que exigiam uma audiência com o governador Ivo Sartori.
    Do lado de fora, um comando especial da Brigada Militar preparava a invasão do prédio para desalojar os invasores.
    Chaparini há um mês faz cobertura do movimento de estudantes que ocupam escolas.
    Ficou sabendo pelo face que um grupo dissidente, contrário ao acordo firmado com o governador, decidira ocupar a Secretaria da Fazenda.
    Correu para lá, quando chegou os estudantes estavam entrando, ele entrou junto.
    Filmou, fotografou e anotou toda a operação para retirar os estudantes. Foi punido com a prisão e a imputação de quatro crimes,  inclusive corrupção de menores.
    Pior: muitos colegas tentaram desqualificá-lo, por sua militância. Mas, a verdade é que só ele estava lá e se portou como um repórter. As imagens e seu relato dizem tudo.

  • A truculência da Brigada Militar para desalojar 42 jovens

    O Batalhão de Operações Especiais (BOE) da Brigada Militar foi convocado para desalojar cerca de quarenta estudantes do ensino básico público do Rio Grande do Sul que ocuparam dependências da Secretaria de Estado da Fazenda na manhã e tarde da quarta-feira, dia 15 de junho.
    Foram utilizados spray de pimenta  contra os manifestantes na rua, que se solidarizavam com a ocupação, e contra os estudantes que resistiam, sentados e de forma não violenta, no interior da secretaria.
    As imagens falam por si.


     
    Depois de desalojados à força, os jovens foram conduzidos ao Presídio Central, considerada a prisão em piores condições do país, e ao Presídio Feminino Madre Pelletier, para triagem. Só foram liberados após as 23h, mais de 18 horas depois das prisões.
    Jornalista do Já Porto Alegre foi detido juntamente com os manifestantes, mesmo após ter se identificado como um profissional de imprensa no desempenho do seu trabalho.
    Os alunos que ocuparam a Secretaria da Fazenda constituem um grupo dissidente das organizações estudantis que negociaram com o governo a desocupação das escolas até a próxima segunda feira, dia 20 de junho, após assembleias a serem realizadas até o final desta semana.
    De acordo com o grupo dissidente, a negociação ocorreu antes da consulta ao conjunto dos estudantes e representa capitulação à política educacional do Governo Sartori, o que não é aceito pelos demais estudantes.
    A ação da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul revela, no mínimo, despreparo das forças policiais para abordar manifestantes.
     
     

  • Da ocupação ao Presídio Central: o relato do repórter

    MATHEUS CHAPARINI
    É uma espécie de caixote de lata, todo pintado de preto pelo lado de dentro. Num dos lados, um banco, do outro, uma barra para prender algemas. Cabem ali duas pessoas, talvez três. Mas quando fui encaçapado na parte traseira do camburão da Polícia Civil, já eramos quarto.
    Assim que a porta fecha, o ar fica escasso e quando a viatura anda, cai a total escuridão sobre os detidos. Ao todo, éramos dez, em três espaços do mesmo veículo.
    Da Secretaria da Fazenda, no centro de Porto Alegre, fomos para a Delegacia da Criança e do Adolescente (DECA), onde ficaram os menores de idade. Dali, seguimos para a 3ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento, onde me identifiquei como jornalista e informei meu veículo. Em seguida fomos novamente embarcados.
    Após uma parada de meia hora no presídio feminino Madre Pelletier para deixar as três jovens presas, seguimos para o Presídio Central, o lar gelado que nos aguardava no final de uma longa quarta-feira.
    Na chegada, o clima é de pressão psicológica, como imaginávamos nós, os presos, quase todos em sua primeira visita a uma cadeia. Braços cruzados na altura do peito e cara na parede é o procedimento padrão.
    Enquanto isso, soam ao fundo algumas piadas homofóbicas, comentários sobre uma briga violenta que estaria ocorrendo no presídio, o que não se confirmou, e o torturante ruído de um faca sendo raspada na parede por um brigadiano, como se a afiasse para alguma tarefa vindoura.
    Fomos os sete identificados, revistados nus e encaminhados a uma cela do Jumbo, como os presos chamam o setor de triagem do Central, a “recepção do casarão”.
    Nossa presença gerou um alvoroço entre os vizinhos da cela ao lado, mas o policial que nos conduzia esclareceu: “Não é duque!”
    Duque treze é como são chamados os estupradores dentro do sistema carcerário. Estes presos costumam ficar separados dos demais. Havia dois “duques” na cela que nos aguardava, um espaço muito frio, de 3m X 4m, incluindo banheiro e um cheiro constante de merda e mijo.
    Fomos presos pela Brigada Militar durante a ocupação da Secretaria da Fazenda por estudantes. O movimento queria uma reunião com o governador José Ivo Sartori, que, na véspera, havia fechado acordo de desocupação das escolas com um dos movimentos, integrado pela UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e pelo “Juntos”.
    O Comitê das Escolas Independentes (CEI) não reconhece o acordo. “Foi mais uma rasteira da UBES”, afirmou um rapaz, “não nos representa”, definiu uma moça.
    A intenção do grupo era conseguir uma reunião para negociar com o chefe do executivo. A intenção deste repórter que vos escreve era apenas noticiar este acontecimento.
    O saldo foi a prisão de mais de 40 pessoas, a maioria menores de idade, quase todos estudantes, além deste repórter e do cineasta Kevin Darc, que prepara um filme sobre as ocupações escolares Brasil afora.
    A ocupação foi decidida em reunião no início da manhã no Colégio Estadual Júlio de Castilhos.Os estudantes ocuparam o prédio em torno das 8h.
    Às 9h chegou ao prédio o secretário adjunto da Fazenda, Luiz Antonio Bins. Vinte minutos depois, o secretário entrou no prédio acompanhado pelo comandante do policiamento da capital, Mário Ikeda, para uma reunião.
    A reunião aconteceu na parte do prédio voltada para a rua Siqueira Campos. Apesar de os estudantes ocuparem somente a parte da Mauá, as duas entradas estavam fechadas. Conversei pela janela com uma funcionária terceirizada, que trabalha na faxina.
    Ela contou que trabalha das 6h40 até as 16h50, tem 4 filhos estudando em escola estadual em Viamão. Ela considera que o ensino estadual está “péssimo”, mas não tem posição em relação às ocupações.
    Rapidamente chega o Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar. Inicialmente eram oito viaturas e cerca vinte homens, vários mascarados e sem identificação na farda. Os agentes isolaram uma larga área ao lado do edifício, onde  comandante do 9º BPM, tenente-coronel Marcus Vinicius Oliveira. falou com a imprensa.
    Ao fim das perguntas dos jornalistas, um estudante ponderou: “Não podemos esquecer que são menores de idade, né?”, ao que o comandante respondeu: “Só sei que são invasores”, e um mascarado exaltado encerrou o assunto: “Eu sei que são menores, ninguém aqui é retardado!”
    Às 10h20, os estudantes pintavam uma faixa com o texto “Sem violência, lutamos pela educação”, quando escutaram apitos e tambores se aproximando da entrada da avenida Mauá. Eram estudantes, professores e militantes que vieram prestar apoio à ocupação. “O meu! Os nossos professores são muito foda, eles estão trancando a Mauá por nós”, exclamou uma menina”.
    Até aí, tudo transcorria relativamente bem, apesar da presença cada vez maior do choque. Neste momento, já havia mais policiais do que estudantes.
    Às 10h25, os estudantes se reuniram com o tenente-coronel Mário Ikeda. O diálogo foi rapido e os estudantes ganharam um prazo de dez minutos para desocuparem o local. E foi aí que começou o problema.
    Os estudantes decidiram ficar no prédio. Eles questionavam a falta de uma reintegração de posse e exigiam a presença de advogados e do Conselho Tutelar no local, o que só foi permitido depois de iniciada a ação da Brigada Militar. Os jovens sentaram no chão e se deram as mãos, como forma de defesa.
    Os brigadianos arrancaram um por um os estudantes, carregados pelas pernas, braços ou pela roupa. O spray de pimenta tomou o ar no saguão da Secretaria da Fazenda. A cada investida da tropa, os gritos de desespero das meninas e meninos se faziam ouvir. O capitão Trajano, que orientava a remoção dos ocupantes, chegou a esgotar um tubo inteiro, direcionado para o rosto dos estudantes, e solicitou mais um.
    Os policiais estavam bastante exaltados e o capitão precisou conter seus homens pelo menos duas vezes.
    Os relatos de agressões são diversos. Além de lançar o spray diretamente no rosto dos adolescentes, uma menina teve o pé pisado por um policial, um rapaz relata que levou dois socos na cabeça e outro disse que foi arrastado na escadaria de saída do prédio. Há um caso mais grave, de uma moça que relata que um grande hematoma no seu peito foi ignorado no exame de corpo de delito. Outro problema era a ausência de uma mulher para a realização dos exames.
    Permaneci na secretaria até a retirada do último estudante, quando decidimos, eu e o cineasta Kevin Darc, sair do prédio e acompanhar o movimento do lado de fora. Neste momento, também fomos presos. Nos identificamos como profissionais de imprensa e a resposta do capitão foi: “Pra mim tu tá junto.”
    Na saída, um homem vestido à paisana e com o rosto escondido por uma toca ninja semelhante à dos policiais arrancou o celular da minha mão. Ali estavam todas as fotos e vídeos que eu havia feito durante a cobertura, além de informações pessoais e profissionais.
    Insisti em reaver meu telefone, enquanto brigadianos tentavam me empurrar para fora do prédio. Consegui pegar o aparelho, mas não evitar a prisão.
    Ao meio dia teve início uma peregrinação que foi até a sede do Deca (Departamento Estadual da Criança e do Adolescente), 3ª DPPA, no bairro Navegantes,  depois Palácio da Polícia, 3ª DPPA novamente, Madre Pelletier e, por fim, Presídio Central.
    Os maiores de idade foram conduzidos algemados até a cadeia, de onde só puderam sair em torno das 2h da madrugada. Mas o caso não acaba aí.
    Os presos, incluindo este repórter, receberam liberdade provisória e vão responder a processo por dano qualificado em patrimônio público, associação criminosa e esbulho possessório. Os maiores de idade responderão ainda por corrupção de menores. É o caso deste repórter, preso durante o exercício profissional.

  • Exclusivo: vídeo mostra a ação da BM dentro da Sefaz

    Foram 11 vídeos feitos pelo repórter Matheus Chaparini, do Já enquanto cobria a ocupação, na quarta-feira realizada por estudantes, na Secretaria da Fazenda. A edição de pouco mais de 6 minutos mostra  quando a Brigada entrou no prédio e como agiu na retirada dos estudantes.
    Durante vários momentos o repórter se identifica como sendo da Imprensa e é ignorado. 1) 3:50 – o repórter diz: “Sou jornalista não sou policial”
    2) 4:48 -(dá para começar ouvir antes) ele diz: “é o meu trabalho, estou num prédio público cobrindo a pauta”
    3) 6:10 – Representante do conselho tutelar diz: “ele é jornalista vem com a gente”