Autor: da Redação

  • Repórter do JÁ e demais presos na ocupação da Sefaz são liberados

    FELIPE UHR
    Quase 14 horas depois de terem sido levados pela Brigada Militar, os 42 detidos durante a ocupação da Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), na manhã do dia 15, foram soltos. Os 32 menores foram liberados do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca) pouco depois das 18 horas, e os 10 adultos já na madrugada desta quinta-feira (16).

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Entre os maiores de idade, estavam dois profissionais da imprensa: o repórter Matheus Chaparini, do jornal JÁ, e o cinegrafista Kevin Darc, que gravava cenas para um documentário. Mesmo se identificando aos policiais, os dois foram presos e encaminhados como manifestantes para a 3ª DPPA.
    Na delegacia, até os advogados tinham dificuldade para entrar. A reportagem do JÁ foi expulsa duas vezes do local antes de conseguir falar com a delegada. No início da noite, todos os detidos foram encaminhados ao Presídio Central de Porto Alegre.
    Os dois confirmam que a todo momento, tanto na hora em que a BM entrou no prédio para retirar os estudantes quanto depois, já na delegacia, disseram que eram profissionais da imprensa e que estavam trabalhando, contrariando afirmação da delegada Andréa Nicotti. Nicotti disse à reportagem que soube da prisão de um jornalista por contato telefônico do Jornal JÁ.
     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

    A delegada relatou que a BM apresentou todos detidos na condição de manifestantes. Disse ainda que Matheus e Kevin não questionaram em nenhum momento a versão da Brigada Militar. Segundo Andréa, todos se mantiveram calados por orientação da advogada do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (Saju), da Ufrgs. Indagada se em algum momento foi perguntado ao repórter se era jornalista, a delegada disse que Matheus se manifestaria apenas em juízo.
    “Quando a delegada perguntou qual era a minha profissão, disse à ela que era a que estava exercendo na ocupação, cobrindo a pauta, jornalista”, desmente Chaparini. Nos vídeos do repórter do JÁ gravados pelo telefone, pode-se ver sua veemente identificação verbal junto ao Capitão Trajano, do BOE: “Pra mim tu tá junto” e “Lá embaixo tu te identifica”, respondia o oficial.
     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    Dentro da DPPA, soldado expulsa a reportagem | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Kevin também afirma que se identificou. “Nós nos identificamos para a Brigada e na delegacia, o Matheus como jornalista e eu como cinegrafista”. Os dois, como os demais manifestantes maiores de idade, responderão a cinco acusações: prejuízo a trabalho coletivo, corrupção de menores, organização criminosa, esbulho possessório, resistência à prisão e dano ao patrimônio qualificado. Matheus relata ter assinado apenas um documento declarando ciência dessas acusações.
    Por volta das 18 horas, todos foram transferidos ao presídio: as mulheres para o Madre Pelletier e homens para o Central. Dentro do furgão da Susepe, os homens seguiram algemados. Às 23 horas, já na prisão, ganharam pão, café e banana. Duas horas depois foram liberados por alvará de soltura concedido pelo juiz Felipe Keunecke de Oliveira.
     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

  • Jornalista do JÁ se identificou à BM: "Pra mim tu 'tá' junto"

    Atualizada às 10:20 de 16/06.
    Passava do meio-dia, o repórter do Jornal Já postava em seu perfil no facebook: “Acabo de ser preso pela Brigada Militar enquanto trabalhava cobrindo a ocupação da secretaria da Fazenda. Muita truculência com estudantes que queriam diálogo”.
    Logo depois, ligou para o editor do jornal e avisou que estava sendo levado para o DECA. Minutos antes o repórter tentou sair do prédio alegando que era da Imprensa. Ouviu do capitão Trajano: “Para mim tu tá junto”
    – “Estou cobrindo a pauta” respondeu. Foi ignorado
    Veja o vídeo.
    Depois disso o repórter ficou incomunicável pelo telefone celular. Foi autuado como manifestante. Já na 3ªDPPA onde foi encaminhado não falou mais nada seguindo orientação da advogada dos manifestantes para somente se manifestar em juízo.
    Por volta das 15h45 Chaparini foi levado ao DML no Palácio da Polícia, fazer o exame de delito, foi quando foi possível que pudéssemos conversar com ele. Matheus reafirmou que a ação da Brigada Militar foi muito truculenta. “Spray de Pimenta aos montes” relatou. Enquanto eram levados Matheus registrou imagens e vídeos. Ao sair do DML Matheus disse a todos em alto e bom som: “Estava trabalhando e ganhando meu sustento e fui preso.”
    Antes de ser detido na 3ªDPPA, Matheus entregou o celular para um advogada que estava acompanhando o grupo. O celular está com a família e o material está com o Jornal JÁ.
    Matheus foi acusado de 4 crimes, igual aos outros ocupantes: Corrupção de menores, organização criminosa, esbulho possessório e dano ao patrimônio público.
    Chaparini já foi encaminhado ao presídio central. Junto com ele estava um outro jornalista, Kevin, que fazia um documentário independente e também foi preso. Chaparini foi liberado por volta das duas da manhã desta quinta (16) e está em liberdade provisória.
     

  • Dilma está na moita

    PINHEIRO DO VALE
    Em boca fechada não entra mosca. A presidente afastada Dilma Rousseff está para lá de cautelosa.
    Está evitando, com todas as desculpas, encontros com parlamentares, temendo que alguém deles possa estar com um gravador escondido e pinçar uma frase descontextualizada para comprometê-la, por conseguinte, livrar-se de alguma maldade dos promotores de Curitiba.
    Ela está escolada desde as gravações dos telefonemas para Lula nos tempos do convite para a Casa Civil.
    Isto tem razão de ser. Com raríssimas exceções, todos os políticos que participaram as últimas eleições seriam suspeitos, pois receberam contribuições para suas campanhas por doações de empresas.
    Captar dinheiro com empresas não era ilegal. No entanto, todos são suspeitos até provarem que não fizeram Caixa 2. Em segundo lugar, precisam demonstrar que os doadores não tiveram nenhum contrato ou benefício dos órgãos públicos, federais, estaduais ou municipais.
    Melhor evitar situações confusas. Em tempo de eleição todo o cuidado é pouco e outubro está aí na frente.
    Por isto Dilma botou as bochechas de molho. Com isto, procura se resguardar de cascas de banana. Depois do que Sérgio Machado fez com seus amigos do peito, boca fechada é a regra.
    Apesar do pessimismo na sua base, Dilma não se entrega. Sempre pode advir um fato novo que mude o rumo dos acontecimentos.
    Até o momento ela contabiliza uma votação insuficiente. A bancada golpista alardeia ter 60  senadores na gaveta. No entanto, faltam poucos votos para os 28 e barrar o impeachment.
    Na comissão especial não se espera novidades. A bancada legalista, embora aguerrida, não está conseguindo avançar. O relatório do senador Antônio Anastasia já está escrito.
    Dilma terá de derrubar o processo no plenário. Por suas ações, admite-se que ela pretende reverter o quadro com a pressão das ruas, pois quase não tem realizado nenhuma ofensiva junto às bancadas adversárias para reverter posições hostis.
    Em contraposição, o presidente interino Michel Temer age intensamente nos parlamentos. No último domingo conversou com 18 líderes de bancadas, só na hora do almoço. Faz o que o governo provisório chama de semiparlamentarismo. Dilma usa outras armas.

  • Senador alerta para o risco de extinção do Mais Médicos

     
    O senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) responsabilizou o presidente Michel Temer e o ministro Ricardo por mortes eventualmente causadas pelo fim prematuro do Programa Mais Médicos (PMM).
    O líder da REDE no Senado anunciou que vai denunciar o risco de ‘genocídio” à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), juntamente com o senador Cristovam Buarque (PPS-DF).
    Randolfe apresentou uma questão de ordem ao presidente do Senado para instalar imediatamente a comissão especial para aprovar a MP 723 que prorroga o Programa Mais Médicos (PMM).
    Dias antes de ser afastada, a presidente Dilma Rousseff editou a MP que renovaria o programa. Se a MP não for aprovada até 2 de julho, o Mais Médicos será simplesmente extinto.
    “Não cometa mais este crime, presidente Temer!”, apelou o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), ao discursar nesta terça-feira, da tribuna do Senado, em defesa do Programa Mais Médicos (PMM) , ameaçado de extinção pelo governo provisório. Baseado nas afirmações do ministro da Saúde, Ricardo Barros, de que poderá reduzir drasticamente o número de médicos estrangeiros do programa — de 13 mil para apenas 3 mil —, Randolfe atacou: “Só uma visão obtusa, fria e economicista poderia banir do Brasil um programa dedicado, essencialmente, a atender brasileiros nunca antes assistidos ou alcançados pelo Estado nos rincões mais remotos da Pátria”.
    O líder da REDE no Senado lembrou que o PMM hoje atua em 4.058 cidades, 73% dos municípios brasileiros, e em 34 distritos dedicados às comunidades indígenas, hoje atendidas por 300 médicos do programa.  Pesquisas independentes, segundo o senador, mostram que a maioria de 86% dos entrevistados afirma que a qualidade da atenção melhorou após a chegada dos profissionais do Mais Médicos e 60% destacaram a presença constante do médico e o cumprimento da carga horária.
     
    Mortes serão responsabilidade do Governo Temer 
    Mais de 11% dos quase 25 milhões de brasileiros atendidos pelo programa Farmácia Popular, entre 2013 e 2015, trazem receitas médicas firmadas por profissionais do Mais Médico, destacou Randolfe: “Dessa multidão, mais de um milhão de brasileiros receberam medicamentos pela primeira vez. Prova de que o atendimento e o acompanhamento dos pacientes ampliou o acesso à saúde. Saúde salva vidas. Sem ela, vidas são condenadas à morte”.
    Randolfe Rodrigues relatou que gestores e agentes de saúde do Ministério, em todo o País, “já sofrem com a falta de remédios e as torneiras fechadas pelo rigor matemático” do ministro Ricardo Barros, “um engenheiro civil transformado no governo provisório em ministro da Saúde”, na observação crítica do senador da REDE.
    Randolfe Rodrigues lembrou que, graças ao Mais Médicos, “63 milhões de brasileiros, os mais pobres e os mais desamparados, enfurnados nos cantos mais remotos do País, tiveram pela primeira vez um atendimento médico constante”. A nação dos Yanomami, que registrou apenas 490 atendimentos em 2013, ganhou mais de 7 mil atendimentos médicos em 2015 graças aos 15 médicos cubanos que atendem exclusivamente a comunidade indígena.
    O senador disse que um dos fatos marcantes do trabalho dos médicos cubanos é o resgate da Medicina Tradicional, baseado na utilização de plantas e ervas da grande floresta: “Na aldeia Kumenê, no município do Oiapoque, no Amapá, extremo norte do Brasil, o médico Javier Lopez Salazar, pós-graduado em Medicina Tradicional, trabalha para recuperar a sabedoria local na utilização de plantas e ervas medicinais, abandonada por imposição de seitas religiosas que tentam sufocar suas tradições tribais”.
    Randolfe encerrou denunciando o ‘viés de desassistência contra o povo” que se percebe “com a chegada da tropa insensível de Michel Temer ao poder”, com um apelo final ao presidente provisório: “Não ceda, não retroceda em nenhuma medida de amparo social e de proteção aos brasileiros. Nada será mais trágico, mais criminoso, mais funesto do que o fim anunciado do Programa Mais Médicos. Se alguém morrer, será responsabilidade do presidente Temer e do ministro Barros”.

  • Estudantes independentes rechaçam acordo

    Desde a madrugada desta quarta-feira (15), o Comitê de Escolas Independentes (CEI) articula a continuidade das ocupações de escolas estaduais. O grupo é contrário ao acordo firmado na Assembleia Legislativa (AL) pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), União da Juventude Socialista (UJS) e Juntos! com a presidente da AL Silvana Covatti, do PP, e com o líder do governo Sartori na AL Gabriel Souza, do PMDB, por não atender as necessidades dos estudantes da rede pública.
    O CEI classifica o pacto a ser formalizado hoje, às 10h, no Núcleo de Conciliação e Mediação (CEJUSC), como “indevido, imoral e ilegítimo”. Em nota, acusa as dirigentes da Ubes de não submeterem a proposta apresentada na reunião à uma assembleia com representantes de todas escolas para ficarem com os louros da luta. “As [escolas] independentes não vão aceitar aquele acordo e vão seguir ocupando, independente do que tenha sido debatido em gabinete”, disse fonte em contato com o Jornal Já.
    A divisão do movimento dos secundaristas não é novidade para o Governo, que elaborou respostas e propostas baseadas em ofícios de dois grupos diferentes: um de estudantes de escolas independentes e outro ligado aos movimentos estudantis. Outro episódio que demonstrou as divergências, foi o desentendimento em frente a sede da Umespa, onde os independentes realizaram um escracho surpresa durante caminhada. Houve relatos de agressões antes das trocas de empurrões generalizados na subida da marcha para a praça da Matriz, momentos antes da proposta do Governo virar uma fogueira.
    O termos aceitos pelo grupo ligado aos movimentos estudantis de partidos não mudam muito se relacionados com a proposta queimada em frente ao Piratini, na sexta-feira (10): o PL 44/2016 não foi retirado, fica em debate até 2017, sem maiores especificações de datas; não houve aceno de valores nem datas para aumento de verba para merenda por aluno, tudo vai depender das finanças do Estado;  fórum Farol do Futuro especificou agora mínimo de 10 estudantes presentes; sobre Obras nas Escolas, governo repetiu o valor imediato de R$ 40milhões e deixou confusos outros valores; e nas nomeações de professores, a proposta de 08/06 reconhecia eventuais faltas de docentes e falava em nomeações imediatas, que passaram para o condicional de concurso ainda aberto.
     
    Leia a nota do CEI abaixo, na íntegra:
    CEI – Comitê Das Escolas Independentes
    A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (dirigida pela UJS) GOLPEOU os estudantes que ocupam as escolas no Rio Grande do Sul.
    Hoje, que era para ser um dia histórico, a Entidade conseguiu jogar no lixo um mês inteiro de luta.
    A conhecida face hipócrita e de não diálogo com as bases se fez presente de novo.
    Os estudantes que conhecem a maneira como a UBES/UJS age a repudiam.
    E por isso o CEI foi criado.
    Há mais de 10 anos, a UJS dirige a UBES em uma eleição forjada, recrutando novos militantes analfabetos-político que só servem para votar na chapa da UJS e aplaudirem as falas dos dirigentes da Entidade.
    Há 10 anos a UJS faz o perfeito trabalho de MANCHAR a história dessa importante Entidade.
    E mais uma vez o fez.
    As dirigentes da UBES sentaram para negociar com o governo, e com a comum vontade de querer ficar com o louro de uma luta que não a pertence, aceitaram uma negociação QUE NÃO TEM LEGITIMIDADE, POIS NÃO DIALOGA COM A REAL NECESSIDADE DOS ESTUDANTES DA REDE PÚBLICA DE ENSINO DO RIO GRANDE DO SUL.
    A UBES/UJS E O JUNTOS!, HOJE, CUSPIRAM NA CARA DOS ESTUDANTES E FECHARAM UM ACORDO INDEVIDO, IMORAL E ILEGÍTIMO.

     | Captura de Tela/Jornal Já
    | Captura de Tela/Jornal Já

  • Repórter do jornal JÁ é preso em ação da BM na Fazenda

    O repórter Matheus Chaparini, do jornal JÁ foi preso na manhã dessa quarta-feira (15) durante ação truculenta da Brigada Militar para desocupar o prédio da secretaria da Fazenda, no Centro.  Mais de 40 estudantes foram presos na operação.
    Chaparini acompanhava os estudantes de escolas públicas estaduais que ocuparam o orgão para negociar melhores propostas para desocuparem as escolas estaduais.
    imageO relato que chega até a redação é que foi uma ação muito violenta, com muito spray de pimenta no rosto dos manifestantes. Matheus disse que um dos brigadianos tentou pegar seu telefone por conta dos registros que fazia. Mais informações em instantes.

  • Crimes da ditadura: quatro brasileiros em julgamento na Itália

    A III Corte di Assise di Roma ouve, nesta quinta-feira, 16, o brasileiro Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, como testemunha em julgamento que envolve três coronéis e um delegado de polícia, todos gaúchos.
    Eles estão denunciados no processo aberto na Italia pelo procurador Giancarlo Capaldo, para apurar crimes da chamada Operação Condor, montada para perseguir e eliminar dissidentes políticos das ditaduras do Cone Sul  (Brasil, Uruguai, Paraguai e Chile).
    Dos quatro acusados, os três coronéis ainda estão vivos: Leivas Job(secretário de Segurança do governo Amaral de Souza), Carlos Alberto Ponzi (chefe da Agência de Porto Alegre do SNI durante o sequestro dos uruguaios) e Attila Rohrsetzer (chefe da extinta DCI, Divisão Central de Informações), que fazia o link entre o DOPS e a repressão do CIE e do III Éxército.
    O delegado Marco Aurélio Reis, morreu há 15 dias, no dia 2 de junho. Ele era  diretor do DOPS, em 1978, quando ocorreu o sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Dias.
    Se condenados, os militares brasileiros podem pegar prisão perpétua. Ao todo são 33 os réus no processo  que  julga crimes cometidos no âmbito da Operação  Condor.
     Montoneros
    Os brasileiros serão processados na Itália pelo assassinato do cidadão ítalo-argentino Lorenzo Vinãs Gigli, cometido durante o período de atuação da Operação Condor.
    O juiz Alessandro Arturi, do Tribunal de Roma, aceitou a denúncia do procurador Giancarlo. Os citados não reconhecem a denúncia.
    Lorenzo Viñas era militante da organização Montoneros, que lutou contra a ditadura na Argentina. Desapareceu em Uruguaiana, na Fronteira Oeste, em 26 de junho de 1980.
    Segundo a denúncia do Ministério Público italiano, na data em que Viñas foi sequestrado, Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Ponzi chefiava a agência do SNI (Serviço Nacional de Informações) em Porto Alegre; Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul; e Silva Reis, delegado de polícia, exercia o cargo de diretor do Dops (Departamentos de Ordem Política e Social) do Rio Grande do Sul.
    Rohrsetzer mora em Florianópolis, Leivas Job e Ponzi vivem em Porto Alegre.
    Capaldo reafirmou que é clara a participação brasileira na rede repressiva sul-americana. “O Brasil foi parte operativa do Plano Condor, tendo exercido papel importante na atuação repressiva e punitiva contra os movimentos que se opunham aos regimes militares da América do Sul. Não é possível que as autoridades brasileiras não fossem cúmplice do que estava acontecendo”, afirma o procurador italiano.
    Quando o processo principal foi aceito pela Justiça Italiana em dezembro de 2007, a juíza responsável pelo caso emitiu ordens de prisão preventiva contra 146 pessoas, incluindo os quatro brasileiros.
    Por meio de carta rogatória enviada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) em 2011 os quatro denunciados defendiam-se da notificação judicial: Leivas Job, além de “insurgir-se contra o fato” de o documento italiano não ter sido traduzido por profissional juramentado, afirmou ser “inepta” a denúncia, alegando “ilegitimidade passiva” e invocando a Lei de Anistia brasileira.
    Ponzi afirmou que não era o chefe da agência do SNI em Porto Alegre na data indicada; Rohrsetzer declarou que “não se submete à jurisdição italiana, por entender absurdas as acusações”; e, sobre Silva Reis, não consta manifestação no documento.
    A justiça italiana vai julgar, ainda este ano, dezenas de sul-americanos envolvidos com a Operação Condor. Eles são acusados de sequestro, massacre e homicídio qualificado de 25 ítalo-argentinos e ítalo-uruguaios, durante as ditaduras militares, nas décadas de 1970 e 1980. Entre os investigados estavam treze brasileiros, mas a maioria deles já falecidos — entre eles até o ex-presidente João Baptista Figueiredo.
    O caso ganhou certa evidência na imprensa brasileira em 2007, quando a Justiça italiana expediu ordem de captura internacional aos investigados. Depois, foi esquecido.
    Na ocasião, a Itália pediu a extradição dos réus e ficou aguardando informações dos países sul-americanos. Ao todo, entraram na lista de procurados da Interpol 146 pessoas: 61 argentinos, 32 uruguaios, 22 chilenos, sete bolivianos, sete paraguaios, quatro peruanos, além dos treze brasileiros.
    O número de pessoas que serão julgadas será bem menor, porque boa parte destes 146 já faleceu. O procurador italiano Giancarlo Capaldo, responsável pelo inquérito, cansou de esperar pelas poucas informações que têm recebido de países como Brasil e Argentina, e vai concluir a investigação para que os réus sejam julgados.
    A previsão é ter a sentença ainda neste ano, afirma.
    A investigação da Itália começou após denúncia de familiares de vítimas das ditaduras que tinham cidadania italiana, em 1998, já que em solo sul-americano as leis de anistia dificultavam a punição dos culpados.
    Giancarlo Capaldo recolheu documentos e ouviu testemunhas em todos os países da América do Sul envolvidos com a Operação Condor. Capaldo procurou entender como funcionavam os aparelhos de repressão de cada país para indiciar os responsáveis pelas mortes.
    No Brasil, ocorreram dois desaparecimentos de ítalo-argentinos. Horacio Domingo Campiglia foi visto pela última vez no dia 12 de março de 1980, no aeroporto Galeão, Rio de Janeiro (atual aeroporto Tom Jobim).
    Lorenzo Ismael Viñas foi capturado quando atravessava a ponte que liga Uruguaiana à cidade argentina de Paso de los Libres, no dia 26 de junho de 1980. Os dois teriam sido entregues por órgãos repressores brasileiros à repressão argentina, e desapareceram.
    O procurador buscou os responsáveis diretos pelos atos e também a cadeia de comando.
    No Brasil, só foi possível mapear os comandantes dos aparelhos repressores, já que o país nunca investigou profundamente os crimes da ditadura militar.
    Assim, no caso de Horácio Domingo Campiglia, que ocorreu no Galeão, foram consideradas responsáveis autoridades nacionais, como o então presidente João Baptista Figueiredo e o então ministro do Exército, Walter Pires de Carvalho e Albuquerque, ambos já falecidos, além de autoridades dos órgãos das polícias e do Exército no Rio de Janeiro.
    Já o caso de Lorenzo, ocorrido em Uruguaiana, envolve as mesmas autoridades nacionais e inclui autoridades gaúchas.
    A Itália deve julgar tanto aqueles que foram capturados, quanto os que estarão ausentes, caso dos brasileiros ainda vivos. “A Itália julga na ausência. Os que estão presos serão ouvidos”, afirma Jair Krischke.
     

  • Governo não negocia enquanto continuar ocupação do CARF

    O governo do Estado rompeu as negociações com os professores em greve na rede pública, segundo correspondência enviada à presidente do Cpers/Sindicato, Helenir Schürer na tarde desta terça, 14. “Estão suspensas as negociações com o Cpers/Sindcato até que ocorra a completa desocupação das dependências do Centro Administrativo Fernando Ferrari”, diz o documento.
    O professores alegam que só deixarão o local depois que o governo atender suas reivindicações.“A nossa permanência no local, é consequência do silêncio do governo às nossas reivindicações”, diz nota do sindicato.
    A Procuradoria Geral do estado, no entanto, requereu concessão de liminar com pedido de reintegração de posse do Centro Administrativo, prevendo aplicação de multa no caso de descumprimento. O Comando de Greve promete resistir à qualquer tentativa de desocupação e convocou os professores para apoiarem o movimento.

  • O posicionamento ideológico de Dilma Rousseff e de Michel Temer visto por meio dos discursos de posse

    Embora os posicionamentos ideológicos da Presidenta Dilma Rousseff e do presidente interino Michel Temer já não sejam novidade para a maioria, nem sempre se faz uma análise acurada, do ponto de vista linguístico, dos elementos que comprovam esses posicionamentos. Neste artigo, buscamos contrastar o discurso de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff, em 2015, e o de Michel Temer, em 2016, salientando alguns aspectos que situam esses atores políticos, a partir da identificação dos seus interlocutores.
    O texto de Dilma Rousseff foi pronunciado no Congresso Nacional em 1º de janeiro de 2015 e apresenta as propostas de governo para o novo mandato. O discurso de Temer foi pronunciado ao assumir como presidente interino e dirigido a um conjunto de convidados no dia 12 de maio de 2016.
    Neste artigo, escolhemos apenas um dos aspectos possíveis de serem analisados nos dois discursos: a quem eles se dirigem e de que forma o fazem. Aparentemente, são formas simples, como brasileiros, brasileiras e amigos. Mas uma análise mais aprofundada revela o real significado dessas palavras neste contexto.
    Após dirigir-se ao público presente – presidentes do Senado e da Câmara, vice-presidente, ministros, governadores e representantes de delegações estrangeiras, entre outros –, Dilma Rousseff inicia seu discurso utilizando a forma meus queridos brasileiros e brasileiras; as variações desse vocativo (queridas brasileiras e queridos brasileiros, queridas e queridos brasileiras e brasileiros) repetem-se quatro vezes ao longo do texto. A Presidenta também utiliza duas vezes a forma amigos e amigas.
    Michel Temer, por sua vez, ao cumprimentar os ministros empossados, governadores, parlamentares, familiares e amigos, utiliza a expressão meus amigos, repetida oito vezes ao longo de seu discurso. Temer não faz menção aos brasileiros e brasileiras.
    Mas a quem, de fato, fazem referência as formas brasileiros e brasileiras e amigos? Como podemos ler esse endereçamento?
    No discurso de Dilma Rousseff, é possível verificar, pela sequência da informação apresentada após o uso do vocativo, que brasileiros e brasileiras referem-se ao país, ao conjunto da população ou à parcela pertencente às classes sociais mais desfavorecidas, como se pode ver nos exemplos abaixo, indicados em itálico:
    Queridas e queridos brasileiros e brasileiras,
    O Brasil vai continuar como o país líder, no mundo, em políticas sociais transformadoras. Aos beneficiários do Bolsa Família continuaremos assegurando o acesso às políticas sociais e a novas oportunidades de renda.
    Queridos brasileiros e queridas brasileiras,
    O Brasil não será sempre um país em desenvolvimento. Seu destino é ser um país desenvolvido e justo, e é este destino que estamos construindo e buscando cada vez mais, com o esforço de todos, construir.
     
    No primeiro exemplo, segue-se a referência ao Brasil, às políticas sociais e aos beneficiários do Bolsa Família em particular. No segundo, ela menciona novamente o país, qualificando-o como desenvolvido e justo, construído com o esforço de todos. Essa referência fica mais evidente ainda quando correlacionada a outras partes do discurso, como no trecho a seguir, em que se faz menção a toda a população sem exclusão de nenhum tipo:
    Só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero. Democratizar o conhecimento significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis, da creche à pós-graduação. Significa também levar a todos os segmentos da população dos mais marginalizados, aos negros, às mulheres e a todos os brasileiros a educação de qualidade.
    Mesmo quando a Presidenta emprega a forma “amigos e amigas”, trata-se de um “chamamento” a seus interlocutores, mas o conteúdo do texto refere-se ao coletivo (sociedade, movimentos sociais e povo), como vemos na passagem seguinte:
    Amigos e amigas,
    Tudo que estamos dizendo, tudo que estamos propondo converge para um grande objetivo: ampliar e fortalecer a democracia, democratizando verdadeiramente o poder. Democratizar o poder significa lutar pela reforma política, ouvir com atenção a sociedade e os movimentos sociais e buscar a opinião do povo para reforçar a legitimidade das ações do Executivo.
    Além do estabelecimento dessas correlações, que indicam um endereçamento ao coletivo, a Presidenta sempre utiliza conjuntamente a forma feminina (brasileiras, amigas) e a forma masculina (brasileiros, amigos), nunca exclusivamente a forma masculina. Isso revela sua preocupação por incluir as mulheres em seu discurso. Essa perspectiva inclusiva é clara no trecho reproduzido abaixo:
    Sinto alegria por ter vencido os desafios e honrado o nome da mulher brasileira. O nome de milhões de mulheres guerreiras, mulheres anônimas que voltam a ocupar, encarnadas na minha figura, o mais alto posto dessa nossa grande nação.
    É exatamente essa perspectiva que o presidente interino busca suprimir ao vetar recentemente a forma de tratamento “presidenta” na televisão e na agência de notícias Brasil.
    Posse de Michael Temer
    No discurso de Michel Temer, não há uma única referência a brasileiros e brasileiras. Quando emprega a forma amigos, sempre no masculino, dirige-se aos seus correligionários de partido e apoiadores (colegas parlamentares, senhores governadores) e decorre da longa convivência ao longo do tempo. Isso pode ser visto no trecho a seguir:
    Amigos,
    Senhoras e senhores,
    Eu pretendia que esta cerimônia fosse extremamente sóbria e discreta, como convém ao momento que vivemos. Entretanto, eu vejo o entusiasmo dos colegas parlamentares, dos senhores governadores, e tenho absoluta convicção de que este entusiasmo deriva, precisamente, da longa convivência que nós todos tivemos ao longo do tempo.
    Ele fala também aos investidores, aos empresários e ao setor privado, como se vê abaixo:
    Eu quero, também, para tranquilizar o mercado, dizer que serão mantidas todas as garantias que a direção do Banco Central hoje desfruta para fortalecer sua atuação como condutora da política monetária e fiscal. É preciso, meus amigos, – e aqui eu percebo que eu fico dizendo umas obviedades, umas trivialidades, mas que são necessárias porque, ao longo do tempo, eu percebo como as pessoas vão se esquecendo de certos conceitos fundamentais da vida pública e da vida no Estado.
    Ao Estado compete – vou dizer, aqui, o óbvio -, compete cuidar da segurança, da saúde, da educação, ou seja, dos espaços e setores fundamentais, que não podem sair da órbita pública. O restante terá que ser compartilhado com a iniciativa privada, aqui entendida como a conjugação de ação entre trabalhadores e empregadores.
    Mesmo quando faz menção ao povo brasileiro ou à sociedade, esses não são seu foco, pois sempre aparecem referidos em último lugar numa enumeração de vários atores, como vemos a seguir:
    Reitero, como tenho dito ao longo do tempo, que é urgente pacificar a Nação e unificar o Brasil. É urgente fazermos um governo de salvação nacional. Partidos políticos, lideranças e entidades organizadas e o povo brasileiro hão de emprestar sua colaboração para tirar o país dessa grave crise em que nos encontramos.
    Ninguém, absolutamente ninguém, individualmente, tem as melhores receitas para as reformas que precisamos realizar. Mas nós, governo, Parlamento e sociedade, juntos, vamos encontrá-las.
    E é por isso que hoje nós estamos na fase da democracia da eficiência, com o que eu quero contar com o trabalho dos senhores ministros, do Parlamento e de todo o povo brasileiro.
    Por meio desta breve análise aqui apresentada, as expressões brasileiros e brasileiras e amigos e seus contextos já são suficientes para evidenciar a presença de duas posições antagônicas. Por um lado, a da Presidenta Dilma Rousseff, que se dirige ao povo brasileiro, à nação brasileira sem distinção de gênero, raça ou posição social. Seu pronunciamento se endereça ao povo e indica que ela pretende governar com ele. Por outro, o discurso de Michel Temer é endereçado diretamente aos amigos, todos do sexo masculino, o que também se comprova pela escolha de apenas homens para os ministérios. E mesmo que essa forma linguística possa incluir as mulheres, pragmaticamente a referência é a um grupo seleto, os amigos presentes em sua posse, do mesmo que quando emprega senhoras e senhores. Constata-se ainda que, embora faça referência ao povo brasileiro e à sociedade, em primeiro lugar são sempre mencionados outros setores, como os investidores, o setor privado, os empresários.
    Por fim, salientamos a individualidade expressa no pronunciamento do presidente interino – que se contrapõe à expressão de coletividade manifesta no da Presidenta – por meio de seu lapso do pronome meus em um dos trechos finais do discurso:
    Farei muitos outros pronunciamentos. E meus ministros também. Meus ministros é exagerado, são ministros do governo. O presidente não tem vice-presidente, não tem ministro, quem tem ministro é o governo.
    Em que pese a retomada imediata – “meus ministros é exagerado” –, palavra pronunciada é como flecha lançada… Esse fato é indício concreto de que, assim como a linguagem pode nos libertar, ela também pode nos trair. Esse lapso evidencia que, ao invés de se posicionar como mandatário, a quem cabe governar em nome do povo e para o povo, ele se coloca na posição de dono do poder, ou seja, a res publica é algo que lhe pertence – a ele e a seus amigos.
    Fontes:
    Discurso de posse de Dilma Roussef no Congresso Nacional, 2015 Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-o-planalto/discursos/discursos-da-presidenta/discurso-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-durante-compromisso-constitucional-perante-o-congresso-nacional-1 Acesso em 06/06/2016
    Discurso de posse de Michel Temer, em 13 de maio de 2016. Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/presidente-interino/discursos/discursos-do-presidente-interino/discurso-do-presidente-da-republica-michel-temer-durante-cerimonia-de-posse-dos-novos-ministros-de-estado-palacio-do-planalto Acesso em 06/06/2016
    Cleci BevilacquaCleci Regina Bevilacqua: professora do Departamento de Línguas Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Letras do Instituto de Letras.
    Patrícia ReuillardPatrícia Reuillard: professora do Departamento de Línguas Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Letras do Instituto de Letras.
     

  • Se cai o Cunha, quem vai cair com ele?

    P.C. DE Lester
    Eduardo Cunha, o presidente afastado da Câmara Federal, é quase uma unanimidade nacional: as pesquisas de opinião registram que mais de 90% dos brasileiros o consideram que ele deve ser cassado por corrupto.
    Mas na Comissão de Ética da Câmara ele perdeu por apenas dois votos. Onze votaram pela cassação, seguindo o parecer do relator, que examinou as provas e concluiu que não há dúvidas quanto às contas  no exterior. Nove defenderam Cunha.
    Uma derrota, mas tudo indica que Cunha  mantém sua estratégia de ganhar tempo – e ele já ganhou quase oito meses.
    A surpresa foi a deputada Tia Eron, aliada de Cunha,  que votou pela cassação.
    Mas pode ser uma estratégia. Em vez de expor um quadro importante como Tia Eron, sob forte pressão das bases, Cunha liberou seu voto, o que lhe confere independência para a batalha no plenário que será decisiva.
    Nessa batalha, Cunha vai cobrar fidelidade da bancada majoritária que sustenta o governo Temer,  que, na saua avaliação, só é governo porque ele botou para andar o processo de impeachment de Dilma Rousseff.
    Os  noticiários tem registrado, escassamente, algumas declarações de Cunha. Ele diz que não cairá sózinho.
    Então, a pergunta que fica no ar é esta: Cai o Cunha?  E  mais esta: Quem vai cair com ele?