Autor: da Redação

  • Meritocracia

    Meritocracia: eis uma palavra que temos ouvido bastante nos últimos tempos. Como conceito, a meritocracia tem sido usada, por um lado, para avalizar, no campo sociológico e ético, o neoliberalismo enquanto solução econômica e estrutural para o país; por outro lado, de forma complementar, a meritocracia surge ainda, reiteradamente, como argumento contra políticas públicas que almejem reduzir qualquer forma de desigualdade social.

    Convidado para participar deste ciclo sobre Língua, Literatura e Autoridade, considerei que seria interessante usar o termo como objeto orientador de nossas considerações, pois me parece que poucas palavras têm mais força hoje, no ideário conservador e neoliberal, do que a noção de meritocracia.

    Mas que noção é essa exatamente?

    Procurando por uma definição de meritocracia pelo senso comum, encontrei, no site do Instituto Mises Brasil, uma matéria escrita, em 2015, por Joel Pinheiro da Fonseca, mestre em Filosofia pela USP (2014). O artigo de Fonseca, “Não é a meritocracia; é o valor que se cria”, serve muito bem à nossa discussão, visto que não só expõe sua visão (neo)liberal sobre o assunto, mas, em adição, parte exatamente do senso comum para tentar explicar (no caso dele, elogiosamente) o que é a meritocracia.

    Fonseca inicia seu texto a partir de uma imagem, compartilhada nas redes sociais, em que se vê um homem velho sentado no chão, ao lado de uma bengala improvisada, pedindo dinheiro com a mão estendida. Nessa imagem, leem-se ainda os seguintes dizeres: “SEGUNDO A MERITOCRACIA QUE OS REAÇAS TANTO DEFENDEM ESSE HOMEM É POBRE PORQUE NÃO SE ESFORÇOU O SUFICIENTE”.

    Essa crítica, posta na imagem, Fonseca nos afirma que ocorre porque alguns liberais defendem a ideia de que o mercado é gerido por uma lógica meritocrática. A desconstrução desse argumento, como o próprio Fonseca mostra, é muito fácil de ser feita. Ele diz: “[…] será verdade que o mercado premia justamente o mérito? Se for, caro liberal, então você está obrigado a defender que Gugu Liberato e Faustão têm mais mérito do que um professor realmente excelente e que realmente ensine coisas úteis.”

    Para livrar-se desse problema, Fonseca defende duas ideias principais: (i) meritocracia não é algo inerente à lógica de mercado, mas, sim, um modelo de gestão (e não sem seus problemas e vícios internos, como o próprio autor admite); (ii) o mercado não premia o mérito, mas sim a geração de valor. Assim, um excelente professor é menos premiado do que Gugu ou Faustão pelo fato de que ele tem um alcance muito pequeno (algumas centenas de alunos por ano), ao passo que essas celebridades teriam um alcance muito maior e gerariam muitíssimo valor para seus empregadores.

    Apesar dessas distinções que Fonseca opera em seu texto, permanece uma confusão conceitual. Por um lado, ele diz que a lógica do mercado não é a de premiar o mérito, mas sim a de premiar a geração de valor. Por outro lado, usando uma comparação com a qual estamos dispostos a concordar (Gugu/Faustão vs algum ótimo professor), Fonseca faz um malabarismo com a noção do que é “mérito”, sem jamais definir o que seja. Ele inicia seu próprio texto exatamente nessa incerteza, dizendo: “Meritocracia é uma palavra bonita. Não. É uma palavra que remete a uma coisa bonita: que cada um receba de acordo com seu mérito, que em geral é igual a esforço, dedicação; às vezes se inclui a inteligência.”

    Como Fonseca jamais define o que entende por mérito ou meritocracia, devemos tentar abstrair uma definição a partir do exemplo por ele usado. Na comparação entre Gugo/Faustão e algum excelente professor imaginário “que realmente ensine coisas úteis”, ficamos dispostos a concordar, pela ideia de excelência e utilidade, que o professor é mais meritório, ainda que tenha um menor salário. Fonseca cria, desse modo, uma equação que pode ser resumida da seguinte forma: a geração de valor é igual à qualidade do serviço/produto multiplicado por seu alcance. Assim, ainda que concordemos que o professor seja mais meritório do que os apresentadores de TV, visto que o serviço que ele presta tem melhor qualidade do que o daqueles, precisamos concordar também que a geração de valor dos apresentadores, no sentido financeiro, seja superior à do professor, pois dão muitíssimo mais lucro em virtude de seu alcance.

    Com isso, Fonseca nos leva a crer que mérito, então, tenha a ver apenas com uma parte da equação, a qualidade do serviço ou do produto que oferecemos, sua excelência e utilidade. Se esse serviço ou produto não alcança ninguém (seja por indisponibilidade de oferta ou por falta de interesse em consumi-lo), nossa geração de valor será nula, mesmo que sejamos meritórios.

    Assim, somos levados fazer a seguinte substituição:

    de

    geração de valor = qualidade do serviço/produto x alcance,

    para

    geração de valor = mérito x alcance.

    Entretanto, com esse salto, ocultamos um problema conceitual, que também Fonseca oculta em seu texto. Explico.

    Pensemos no exemplo de um artista cujas obras ontem eram ignoradas, mas hoje são descobertas como verdadeiros tesouros. Ontem, ninguém tinha interesse em comprar um de seus quadros; hoje, todos querem. Cada um desses quadros, enquanto objeto passível de ser possuído individualmente, permanece com o mesmo alcance, 1. Entretanto, para quem vende esses quadros, sua geração de valor é imensamente maior. Se o alcance não mudou, teria mudado então a qualidade?

    Certamente não. O quadro permanece o mesmo. Suas qualidades são as mesmas. O que mudou foi o valor que atribuímos a essas qualidades. Logo, somos forçados a admitir que mérito não é idêntico à qualidade de um serviço ou de um produto, mas, sim, ao valor que se atribui à qualidade daquele serviço ou produto.

    Numa sociedade moldada pelo fetichismo, como a nossa, da noite para o dia, um produto ou serviço pode ter um enorme salto de valor, pois, mediante propaganda e manipulação da opinião pública, a percepção do que seja sua qualidade pode ser facilmente alterada. Ao mudar-se a percepção do que seja a qualidade desse produto ou desse serviço, muda-se também seu valor. A melhor acepção, portanto, que podemos dar à palavra mérito, dentro desse contexto, é a de valor.

    É interessante, aliás, notar que mérito vem do Latim meritum, um derivado do verbo mereo, que indica a ideia de ser digno de algo. A partir dessa ideia inicial, mereo passa a ter outras derivações de sentido, para expressar também o ato de receber algo ou mesmo de comprar algo. De mereo, herdamos a palavra meritum, que indica aquilo de que alguém é digno, por uma equivalência de valor. Você é digno de uma recompensa, de ter seu terreno, sua casa, ou o que for, por haver uma equivalência de valor entre sua pessoa e a coisa em questão.

    Na equação que encontramos dentro do discurso de Fonseca, dissemos que a geração de valor (ou seja, o quanto de dinheiro as pessoas lhe pagam pelo que você faz) equivale ao mérito de seu serviço ou de seu trabalho (ou seja, o valor que se atribui a esse serviço ou trabalho) multiplicado pelo alcance que ele tem (ou seja, quantas pessoas pagarão por ele).

    Ao dizer que a meritocracia é, na verdade, um modelo de gestão em que se premia o mérito de cada um, Fonseca parece dar a entender que ela é algo alheio à lógica do mercado. Devemos supor, então, que o mérito idealmente premiado na meritocracia seja diferente daquele encontrado na fórmula de geração de valor? Se é a geração de valor que orienta o mercado, como não seria também a geração de valor aquilo que a meritocracia premiaria? Mesmo quando se premia o mérito potencial de alguém, independentemente de seu alcance, não se faz esse prêmio justamente pensando no alcance que o trabalho desse indivíduo pode ter? Ou se um empregador premia um funcionário pelo alcance de seu trabalho, esperando qualificá-lo para melhorar a qualidade de seu serviço/produto, seu mérito, isso também não está inserido na mesma lógica descrita por Fonseca, que visa otimizar a geração de valor?

    Para além do senso comum, o que Fonseca não nos diz é que o termo meritocracia foi cunhado em 1958 por Michael Young, em seu livro The Rise of the Meritocracy, a partir do termo latino meritum, que em Português nos legou “mérito”, e o termo grego κράτος (krátos), “força”. Apesar da adoção positiva que a palavra teve tanto em Inglês como em Português, é importante notar que ela surge, no livro de Young, dentro de um ambiente satírico, ambientado em uma sociedade distópica obcecada em identificar e premiar, desde cedo, por meio de uma educação especial, as pessoas mais inteligentes e esforçadas.

    Pouco antes de morrer, em 2002, Young escreveu um artigo para o jornal The Guardian falando de sua frustração em ver como a ideia de meritocracia foi usurpada por pessoas como o então primeiro-ministro Tony Blair, que a usavam como um ideal a ser perseguido. A argumentação de Young nesse momento, já no fim da vida, era a de que, tomada da forma como foi, a ideia de meritocracia apenas serviu para fazer com que as pessoas que já detinham riqueza e poder se sentissem ainda mais legitimadas em recompensar-se tanto quanto possível.

    A ideia do sociólogo inglês, que já era distópica em sua forma original, foi aproveitada de forma parcial e ainda mais distopicizante: adotou-se a recompensa do mérito e passou-se a alienar cada vez mais as massas de um acesso à educação e aos processos que selecionariam os mais inteligentes e esforçados. Reitero: mesmo se tivesse sido adotada do modo que Young a descrevia, a meritocracia era algo reservado para um futuro distópico. Adotadas a palavra e a ideia como foram, a realidade se tornou pior do que o pesadelo ficcional.

    Sendo valor uma unidade subjetiva, dependente da opinião das pessoas, devemos entender a meritocracia simplesmente como o processo de reforço e manutenção de uma determinada ordem de valores. Os liberais, como Fonseca, acreditam que essa ordem de valores é imposta ao mercado por demandas racionais das pessoas, ignorando o poder que o mercado tem, por meio da publicidade, da propaganda, das formas de arte que ele próprio fomenta, de definir esses valores, bem como de levar as pessoas a tomar escolhas irracionais.

    A meritocracia como a temos nada mais é do que o foco extremo em premiar cada um pelo seu mérito, entendido como valor dentro de uma equação de geração de valor, ignorando os processos pelos quais definimos esses valores. Mais do que isso, ousaria dizer que a meritocracia é exatamente o domínio da determinação de valores. No mundo meritocrático, aqueles que conseguem dobrar a opinião dos outros, que conseguem alterar a ordem de valores a seu favor, são exatamente os mais poderosos.

    A meritocracia é o poder do valor.

    Epílogo

    A Grécia antiga foi um dos primeiros lugares no mundo em que alguém fincou uma pedra ou uma estaca no chão e disse: “este terreno é meu”. Esse acontecimento, aparentemente banal, dá origem a algo revolucionário: a partir disso, sugiram as primeiras cercas e a própria ideia de propriedade privada, ainda no neolítico, por volta de 9.000 anos atrás.

    Esse passo está intimamente ligado com o desenvolvimento da agricultura e com a necessidade de assentar-se em um lugar e protegê-lo, para cultivar a terra, em oposição à vida nômade de caça e coleta. Essa mudança de modo de vida, como aponta Joseph Campbell, ilustre estudioso de mitologia comparada, conduz também a uma mudança de modo de pensar, de concepção de mundo, de mitos e crenças que expliquem o funcionamento da realidade e o sentido da existência. Tais mudanças, como podemos esperar, efetuam-se no plano da linguagem, onde deixam marcas sensíveis.

    Curiosamente, a mesma raiz de mereo, o verbo latino que nos legou mérito, também existe em Grego, onde dá origem, por exemplo, à palavra μέρος (méros), que designa a porção devida a cada um. Esse termo vem do verbo μείρομαι (meíromai), dividir. A mesma raiz dessas palavras origina também a palavra μοῖρα (moîra), que por vezes traduzimos por “destino”, “sorte”, “fado”, “quinhão” ou “lote”. A palavra μοῖρα refere-se à distribuição do destino individual dado a cada indivíduo. A tradução de μοῖρα por lote é especialmente interessante, por ligar a ideia de um destino dado também à ideia de posse territorial, pois chamamos um terreno cercado também de lote. Assim, lote pode se referir tanto à terra como ao destino que se tem. Essa tradução ajuda a evidenciar como o destino de uma pessoa está intimamente ligado à porção de propriedade que lhe é cabida, à sua μεριτεία (meriteía) – termo que designa a “distribuição de terra”. Quem não tem terra, por essa lógica, não tem destino.

    Se compreendêssemos meritocracia pela acepção grega, teríamos a ideia de poder da propriedade privada. Seria apenas uma terrível casualidade se essas duas ideias, mérito e propriedade, não tivessem sempre andado de mãos dados na história da civilização ocidental. Afinal de contas, quem detém a terra detém também o poder e a capacidade de atribuir valor a cada coisa.

    Referências

    FONSECA, Joel Pinheiro da. “Não é a meritocracia; é o valor que se cria”. Artigo de 20 de outubro de 2015 para o Instituto Ludwig von Mises Brasil. Disponível em http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2054. Acesso em 20/05/2016.

    YOUNG, Michael. “Down with meritocracy: The man who coined the word four decades ago wishes Tony Blair would stop using it”. Artigo de 29 de junho de 2001 para The Guardian. Disponível em http://www.theguardian.com/politics/2001/jun/29/comment. Acesso em 20/05/2016.

    __________. The rise of the meritocracy, 1870-2033: An essay on education and inequality. London: Thames & Hudson, 1958.

    Leonardo AntunesC. Leonardo B. Antunes Professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas do Instituto de Letras da UFRGS. Palestra proferida no Ciclo: Língua, Literatura e Autoridade: um revide ao golpe, em 08/06/2016, no Instituto de Letras.

  • Dez horas de carnaval esquentaram o sábado gelado

    MATHEUS CHAPARINI
    Logo na chegada à praça nossa equipe tomou sofreu uma abordagem: “Polícia, mão na cabeça!”, disse a moça de jaqueta dourada, calça preta, coturno e quepe. Mas se tratava de uma foliã, a farda era fantasia e a equipe foi liberada sem ser revistada.
    Era uma hora da tarde de sábado e até a lua crescente compareceu à praça Júlio Aragão Bozzano, no bairro Santana, onde começava a concentração do bloco Avisem a Shana que Sábado Vai Chover.
    carnaval de inverno 1
    Esta foi a segunda saída do bloco, que deve fazer ainda outras duas este ano, uma no inverno, outra na primavera. A troça surgiu de uma brincadeira nos ensaios da fanfarra Bate e Sopra. Os ensaios eram combinados por Whatsapp e a Shana era a única do grupo que não tinha acesso ao aplicativo, então sempre que surgia uma combinação era preciso avisar a Shana. Os ensaios eram sempre aos sábados e em locais abertos, daí o resto do nome.

    Shana, entre o casal de Fridos, com o estandarte do bloco / Léo Adalís
    Shana, entre o casal de Fridos, com o estandarte do bloco / Léo Adalís

    Blocos como este são comuns no carnaval carioca e nasceram a partir de um processo semelhante ao que vive Porto Alegre. O carnaval de rua cresceu, a Prefeitura interferiu para organizar, as cervejas colocaram patrocínio e ganharam exclusividade nas vendas. Surgiram daí os blocos piratas, que decidem a data em que vão pra rua e determinam o próprio trajeto, muitas vezes no improviso, pela rua, na contramão. Há pelo menos três integrantes que moraram no Rio de Janeiro e participaram de blocos lá.
    Entre as recomendações divulgadas no evento do facebook, ítens como cuidar do lixo, pedir desculpas caso esbarrar em alguém, usar calçados confortáveis e ir fantasiado. E o povo leva mesmo a sério a parte das fantasias. Foi organizado até um concurso, através da rede social. E os trajes eram os mais variados. Teve gente vestida de gif do John Travolta, Topogigio, Batman, fantasmas, piratas e teve até ciclistas e Shivas. A Gertie, do filme ET, levou o amigo extraterreno para passear em um carrinho de feira.
    As fantasias coletivas eram as melhores. Nos metais, os irmãos metralha. Um casal de Fridos Kahlos passeava de mãos dadas. Um cardume de peixes coloridos vinha “acompanhado” de um tubarão. E tinha ainda um pessoal de roupão e toalha, no estilo “tava no banho quando o bloco passou”.
    Bloco percorreu 5 km em um dos dias mais frios do ano / Léo Adalís
    Bloco percorreu 5 km em um dos dias mais frios do ano / Léo Adalís

    O Avisem a Shana iniciou a caminhada ao som de Bandeira Branca, marchinha composta por Max Nunes e Laércio Alves. Na saída, um pequeno impasse: o bloco esqueceu a Shana em casa. Volta-se alguns metros e aí sim, uma pequena cerimônia para receber a moça, que desce do seu prédio, com sua peruca azul e o estandarte com o símbolo do bloco: uma nuvem com dois raios.
    O bloco deu uma volta em torno da praça que desnorteou completamente o GPS da nossa equipe, de modo que informações sobre rotas e trajetos foram colhidas em sua maioria através de fontes bastante confiáveis, como John Travolta, um peixe azul e um cara de roupão de banho.
    Segue a caminhada pelas praças do bairro, rua Santana e Redenção. Eram certamente  mais de cem, mas provavelmente menos de duzentos. Até a chegada ao parque, o cronograma estava sendo cumprido com pontualidade, segundo o tubarão. O bloco entrou na Cidade Baixa pela rua Lopo Gonçalves ao som de Ana Júlia, clássico renegado da banda Los Hermanos. Marchinhas, sambas, axés, Tim’s, Ben’s e tals compõem o repertório executado em looping pela percussão e os metais – também pudera, dez horas de repertório inédito seria uma exigência descabida. A resposta da vizinhança à passagem do grupo é positiva.
    Esta foi a segunda saída do bloco / Léo Adalís
    Esta foi a segunda saída do bloco / Léo Adalís

    Da Lopo, o bloco faz o caminho mais longo e tortuoso possível para chegar até a praça Marquesa de Sevigné, no final da Lima e Silva, passando por João Alfredo, Sofia Veloso e outras ruas.Fica claro que o objetivo não é chegar a algum lugar, mas andar. E a troça andou. Cinco quilômetros.
    O bloco subiu a escadaria da Borges de Medeiros, seguiu pela Duque de Caxias até a Praça da Matriz, onde deveria encontrar o grupo que participava da Caminhada Iluminada, o que não aconteceu. Em frente ao colégio Paula Soares rolou um “Ocupar e resistir” em apoio ao movimento de ocupações escolares.
    Depois de algumas voltas pelo centro, finalmente, o Avisem a Shana que Sábado Vai Chover chegou ao largo Zumbi dos Palmares.
    Às onze horas da noite, o clima era de quarta-feira de cinzas, mas, mesmo dez horas depois do início dos trabalhos, alguns resistentes ainda sopravam trompetes e batiam surdos e taróis. Era o fim de uma maratona carnavalesca-fora-de-época que percorreu a região central da cidade em um dos dias mais frios do ano.
    Em meio a tantas e tão criativas fantasias, poucos foliões brincaram à paisana. Este que vos escreve escolheu a fantasia de repórter. A matéria tá escrita. Agora eu quero o prêmio.
    Caminha culminou no Largo Zumbi dos Palmares, onde a festa durou até em torno das 11h / Léo Adalís
    Caminha culminou no Largo Zumbi dos Palmares, onde a festa durou até em torno das 11h / Léo Adalís

  • Após a terceira denúncia, Cunha rebate Janot

    André Richter – Repórter da Agência Brasil*
    O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou hoje (10) ao Supremo Tribunal Federal (STF) mais uma denúncia contra o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Esta é a terceira denúncia apresentada contra Cunha na Operação Lava Jato. A petição foi apresentada sob sigilo.
    De acordo com inquérito, que tramita na Corte desde março, Cunha foi citado nos depoimentos de delação premiada dos empresários Ricardo Pernambuco e Ricardo Pernambuco Junior, da empreiteira Carioca Engenharia.
    Os delatores afirmaram à PGR que Cunha e Fábio Cleto, ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa, cobravam propina para liberar verbas do Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS ) para construtoras nas obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.
    Mais cedo, em outra decisão envolvendo Eduardo Cunha, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, liberou para a pauta do Plenário da Corte o julgamento da denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em um inquérito contra o presidente afastado. O pedido de investigação feito pelo PGR foi baseado em informações sobre contas na Suíça atribuídas a Cunha.
    Nota de Cunha
    Em nota, Cunha disse que nunca recebeu vantagem indevida e afirmou que o procurador-geral da República é “seletivo” na apresentação de denúncias contra ele.
    Em seis itens, Cunha contesta os argumentos de Janot:
    1) Não tenho qualquer relação com os fatos da denúncia e desminto, como já o fiz anteriormente, qualquer recebimento de vantagem indevida de quem quer que seja, assim como qualquer relação com as contas denunciadas e desafio a comprovarem.
    2) É estranha a seletividade do PGR com relação à mim, onde em nenhum dos três inquéritos que originaram as respectivas denúncias, não chegaram nem a tomarem a minha oitiva para ter a oportunidade de rebater os fatos, o que é anormal e não acontece em situações semelhantes.
    3) A estranheza aumenta, na semana que eu seria julgado no Conselho de Ética, uma verdadeira avalanche de vazamento criminosos e denúncias, contra mim e minha família, aparecem para criar o clima de pressão nesse processo.
    4) Mais estranho ainda é que 6 inquéritos foram abertos imediatamente após a votação da abertura do processo de impeachment e que outros agentes políticos não tem tido a mesma celeridade na apreciação dos seus inquéritos.
    5) Nesse inquérito específico que nada tem de conexão com a Lava Jato, foi requerida a redistribuição dele no STF, ainda pendente de apreciação.
    6) Continuo confiando no STF e assim que tomar ciência apresentarei a defesa com a convicção que provarei a minha inocência.
    *Colaborou Iolando Lourenço
  • Fora Temer: ato reuniu milhares no centro de Porto Alegre

    FELIPE UHR
    Nem ainda fez um mês de governo Temer e Porto Alegre presenciou mais um ato contra o governo interino. O último, realizado nesta sexta-feira (10), reuniu cerca de 10 mil pessoas na Esquina Democrática, de onde seguiram em marcha por ruas do centro e do bairro Cidade Baixa. Este foi o sétimo ato contra Michel Temer desde que Dilma foi afastada do governo federal.

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Cantos como “ai ai ai ai, derruba o Temer que ele cai!” ou “Golpistas, fascistas, não passarão” foram ouvidos com frequência. Cartazes pedindo a volta de Dilma também foram vistos. Os manifestantes ficaram na Esquina Democrática por volta de uma hora, depois deram uma volta na quadra e retornaram ao ponto de encontro. Dali os movimentos tradicionais, que organizaram os manifestos em todo país de Dilma como a Frente Brasil Popular Frente Povo sem Medo, previam um ato cultural que acabou não acontecendo.
     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Quem puxou o resto da marcha, que caminhou pelas ruas do bairro Cidade Baixa, foi a Frente de Lutas Contra o Golpe levando a frente uma grande faixa escrita “Fora Temer, Cunha na cadeia”. O grupo marchou pela Borges, entrou na avenida Loureiro da Silva, depois na João Pessoa. A frente da sede do PMDB Municipal, situado nesta avenida, teve sua entrada pixada por palavras como “golpe” e “ratos golpistas” por alguns manifestantes que participavam do ato.
     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

    As avenida Venâncio Aires, Aureliano de Figueiredo Pinto e a rua João Alfredo foram o caminho final da caminhada, que se dispersou no Largo Zumbi dos Palmares. A Frente de Lutas Contra o Golpe convocou novo ato para a próxima quarta-feira (15). Será a oitava manifestação contra o governo provisório de Michel Temer e a terceira do mês de junho.
     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
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     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
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     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
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     | Ramiro Furquim/Jornal Já
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     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
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  • Servidores municipais decretam greve para a próxima terça

    A partir da próxima terça-feira, 14, quem precisar dos serviços da Prefeitura de Porto Alegre terá que esperar. Em assembleia geral realizada na tarde dessa quinta-feira, os servidores municipais aprovaram greve geral a partir desta data.
    Nas negociações, a proposta da Prefeitura desagradou profundamente os trabalhadores: reposição da inflação, de 9,28% em quatro parcelas, terminando em janeiro de 2017, e aumento do vale refeição de R$ 20 para R$ 22. Os trabalhadores reivindicam 15% de aumento salarial e o vale refeição de R$ 25.
    Ficou marcada uma nova assembleia para o dia 16, mas se o governo apresentar nova proposta, ela será antecipada. Nessa quinta-feira, na parte da manhã, os servidores municipais fizeram caminhada pelo centro da capital que terminou na Casa do Gaúcho,  onde foi realizada a assembleia que decidiu pela greve.

  • Dilma abre proposta de consulta popular

    PINHEIRO DO VALE
    A presidente afastada Dilma Rousseff em pouco tempo deverá ser a última estrela de primeira grandeza do firmamento nacional que não foi tragada pelo buraco negro da Operação Lava Jato. Com isto, acrescenta-se uma nova possibilidade para seu retorno à chefia do executivo.
    Os últimos acontecimentos que estão envolvendo os grandes caciques do PMDB que foram, na última eleição, fatores decisivos para a vitória da presidente no Norte-Nordeste, expõem os últimos redutos da conspiração que levou Michel Temer ao poder.
    Ainda vão aparecer outros nomes. Estes vindos de todos os lados, desde a esquerda partidária até a direta fisiológica. Parte deles já presos e condenados, deixam à presidente como a estrela solitária, uma vez que nada substantivo apareceu envolvendo sua pessoa física.
    Pedir apoio não é crime. Mais legal ainda quando o captador apresenta-se dentro da lei vigente. Seria este o caso apontado nos vazamentos da delação de Marcelo Odebrecht.
    O jovem empresário baiano teria dito que a candidata Dilma pediu-lhe certa quantia para financiar sua campanha eleitoral.
    O fato em si revela apenas o ativismo da candidata, principalmente se os valores solicitados estivessem dentro dos limites estabelecidos pelo TSE para os níveis de resultado da empresa abordada, o que, de resto, não diz respeito à captadora, mas ao doador, que deve saber até quanto pode ir.
    A distorção que se aponta na Lava Jato é que esses valores captados tiveram uma parcela desviada para contas pessoais dos acusados no exterior, não declaradas nem tributadas.
    Este é o crime criminoso a que depois os promotores penduraram uma série de agravantes decorrentes, como sua origem e seu destino.
    Definitivamente: essa acusação é de fato anterior à data da posse.
    Daí a importância do bordão brandido por Dilma afirmando não ter contas no exterior. Não têm por onde pegá-la. Se sua chapa for cassada, não será por improbidade pessoal da candidata, mas pela gestão de suas contas operadas por funcionários e dirigentes partidários.
    Nem isto foi comprovado nem apresentado como acusação na Lava Jato nem no processo de impeachment, por inépcia de tais denúncias.
    É nesse contexto da Lava Jato que o procurador Rodrigo Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB nordestino. Sérgio Machado, o delator, teria dito que essas pessoas seriam donas de quotas de fundos administrados por seus filhos no Exterior.
    Entretanto, argumenta-se que tais fundos não estariam em nome dos acusados, depositados em confiança. Negando a titularidade, perdem-se os depósitos e se vai a garantia do fio de bigode.
    Então, sendo verdadeiras as denúncias, para se verem livres as pessoas teriam de assistir impassíveis aquelas fortunas entrarem pelo ralo esvaindo-se sem dó nem piedade.
    Melhor negar, se for verdade, o que não se comprova e os acusados negam de pés juntos.
    Dilma está fora desta embrulhada. Diz que não sabia e com certeza ignorava tais tramoias. A esta altura, se alguém tivesse um menor indício a apresentar em sua defesa envolvendo à presidente afastada, já teria posto as cartas na mesa, tal como o delator Sérgio Machado.
    Estes fatos projetam a cada dia o ausência da presidente nesses fatos que estão explodindo as lideranças de todos os matizes e implodindo o sistema partidário da Nova República.
    Na entrevista a Luís Nassif, que foi ao ar quinta-feira pela TV Brasil, a presidente afastada põe na mesa uma proposta de profunda reforma política. Isto saiu numa frase curta, mas que ainda está retumbando em Brasília.
    Nesta entrevista aparece uma Dilma segura e cordata. Analisa as causas da derrocada que levou à crise econômica com segurança acadêmica. Apresenta o processo político como uma manobra exitosa do PMDB para tomar-lhe o poder, valendo-se do enfraquecimento de suas bases parlamentares.
    Citou poucos adversários, destacando-se seu arqui-inimigo, o presidente da Câmara Eduardo Cunha. Também emitiu palavras duras a seus adversários nas duas eleições, José Serra e Aécio Neves, e queixas ferozes contra os caciques paulistas, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, o presidente interino.
    Na formulação política, defende o presidencialismo como melhor modelo político para liderar as reformas. Disse que isto é comprovado pela História, pois ao longo de todo o período republicano o executivo sempre foi mais avançado que o legislativo.
    Ela diz que os presidentes chegam ao poder com proposta concretas, enquanto os congressos se perdem diluídos por interesses variados, impossíveis de serem conciliados para grandes consensos.
    Ela não se referiu a nenhuma grande reforma, mas deixou implícito de que foram os presidentes que sempre estiveram à frente dos grandes passos à frente no Brasil.
    Com isto ela chegou a um apelo às urnas. Não deixou claro, mas deu a entender que poderia ser um plebiscito, uma constituinte, algum outro mecanismo originário de uma consulta popular que produzisse os efeitos necessários à reorganização institucional do País.
    Neste caso, sua legitimidade como chefe do executivo seria essencial para arbitrar e conduzir o processo eleitoral nessa consulta.
    Dilma não mencionou os embates no Senado Federal em torno do impeachment.
    Ali se produz um confronto de personalidades jogando numa mesa de cartas marcadas.
    Transmitidos ao vivo pela televisão, os debates empacaram num diálogo de surdos. Cada lado parece ter uma agenda própria, no caso a exposição de futuros candidatos aos governos estaduais em 2018.
    A bancada legalista apresenta seus nomes: Lindemberg Farias, Vanessa Grazziotin, Gleise Hoffmann, Telmário Motta, Humberto Costa, Fátima Bezerra; na bancada golpista despontam Aloysio Nunes Ferreira, Ronaldo Caiado, Simone Tebet, Ana Amélia de Lemos, Antônio Anastasia.
    Nessa arena parlamentar, também se pode esperar novos momentos. Em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, assume o primeiro vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre.
    Caracterizado como um parlamentar sereno nos momentos em que assume o comando do plenário da Câmara Alta, Jorge Viana, em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, poderá ser a antítese de seu par da Câmara dos Deputados, o vice-presidente em exercício Waldyr Maranhão. Este manipulou o regimento e usou seu poder para atropelar o andamento da Comissão de Ética que julga o comportamento do presidente afastado Eduardo Cunha.
    O respeitado senador acreano poderá fazer cumprir estritamente o regimento interno da Casa e os preceitos da Constituição e do Código de Processo Penal apagando o motor da patrola da bancada golpista majoritária, dando as garantias para os reclamos da bancada legalista, impugnando manobras e procedimentos da mesa da comissão do impeachment.
    Uma varredura dessa tramitação poderia levar o processo à extinção por falta de provas e de objeto.

  • Proposta do governo vira fogueira em frente ao Piratini

    RAMIRO FURQUIM
    Em nova manifestação na noite desta quinta-feira (9), os estudantes secundaristas do Rio Grande do Sul queimaram a proposta final do governo de José Ivo Sartori. O secretário da Educação Luís Alcoba de Freitas afirma que o diálogo só será restabelecido quando o acesso às escolas estiver liberado, na próxima segunda-feira, para o reinício das aulas.

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal Já

    A caminhada contou com cerca de três mil jovens e um carro de som. Os cânticos contra o governador Sartori ecoaram pelas ruas do Centro Histórico.
    Um dos atos da manifestação foi um “escracho” contra a União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Porto Alegre (Umespa), que gerou desentendimentos e trocas de empurrões entre os integrantes de diferentes movimentos envolvidos na marcha.
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    Comissão de Segurança da marcha evitou mais confusão | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Houve relatos de que uma menina foi agredida por um rapaz. Outros amenizaram dizendo que se tratou apenas acidente envolvendo a abertura da porta do carro de som, seguido de mal entendidos.
    Na frente do Palácio Piratini, outro boneco do governador foi queimado. A segunda Carta de Compromisso foi para a fogueira logo em seguida.  Ainda jogaram cópias da proposta rejeitada para a porta da sede do Executivo, de onde surgiu a tropa de choque da BM. Os estudantes entoaram gritos contra a lógica militarizada da guarda gaúcha e seguiram a marcha – acompanhados de longe pelo batalhão de Choque, descendo a lomba do colégio ocupado Paula Soares para o largo Zumbi dos Palmares onde finalizaram o protesto.
    Governo mudou pouco da primeira carta
    Alcoba formalizou uma segunda proposta de desocupação das escolas estaduais. Dentre as iniciativas, abertura de fórum permanente e mensal denominado Farol do Futuro, assegurando apenas uma comissão de estudantes; e também acena liberação de até 150 mil reais por escola em um montante de R$ 40 milhões para obras de infraestrutura. Pelo orçamento previsto neste ano é de 230 milhões de reais.
    Os estudantes querem a retirada do PL 44, mas o governo abre mão apenas do regime de urgência. Outra pauta dos estudantes, o não parcelamento dos salários dos professores, também não é garantido pela Carta-Compromisso do Palácio Piratini. A questão dos valores da merenda por aluno, o Piratini diz que é fruto de programa federal com valores defasados e apenas complementados pelo Estado em casos específicos. Sobre qualidade da merenda, a proposta é que “Os cardápios elaborados pelas nutricionistas da Seduc devem ser seguidos”.
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  • A conjuntura do impeachment e o (des)governo Temer

    Programa Entrevista Coletiva, na Rádio da Universidade (UFRGS), com Benedito Tadeu César, cientista político e coordenador do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito, sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o governo interino de Michael Temer.
    http://soundcloud.com/benedito-tadeu-c-sar/entrevista-coletiva-d09-06-16
    O Programa Entrevista Coletiva é um programa feito pelos alunos (neste foram todas alunas) da cadeira de Radiojornalismo III, do curso de Jornalismo, sob a coordenação da professora Sandra de Deus. Contou com a participação das alunas: Débora Sander, Mariana Somariva, Marihá Gonçalves e Nathália Lazzarin.
    A Rádio da Universidade é a pioneira das rádios universitárias brasileiras e a pioneira na transmissão ao vivo pela internet. Opera na frequência AM 1080 e pelo site http://www.ufrgs.br/radio/

  • Apoio a Moro e Lava-jato reúne cerca de 30 pessoas em frente à PF

    Cerca de 30 pessoas estiveram, no final de tarde desta quinta-feira, na avenida Ipiranga em frente a sede da Polícia Federal em Porto Alegre, manifestando-se a favor do Juiz Sérgio Moro, e da Operação Lava-Jato: a “Morofestação”, conforme foi chamado o ato.
    A maioria carregava cartazes com a foto do Juiz, mas algumas faixa eram contra Dilma, Lula e a corrupção. Jorge Colares, prefeito do antigo acampamento Sérgio Moro, era um dos manifestantes. “Vamos voltar com tudo”, referindo-se a volta do grupo a favor do impeachment de Dilma que, desde a votação da Câmara que aprovou a continuação do processo de Impeachment da Presidente Dilma, não ia para as ruas.

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    Nos ônibus, somente olhares curiosos | Ramiro Furquim/Jornal Já

    No trânsito, muitos carros manifestavam-se a favor do movimento buzinando. De dentro dos ônibus o apoio foi praticamente zero. Alguns integrantes da Banda Loka Liberal também estavam presentes, mas de forma independente. Foi o caso de Rafael Albani.
    Desde o afastamento de Dilma, Albani vinha afastado da política: “Estou trabalhando muito agora, acompanho de fora”, afirmou o rapaz. Para ele, este primeiro mês de Temer mostrou que toda classe política é um conluio de hipocrisia e é importante a pressão do povo nas ruas. “Devemos permanecer alertas e continuarmos exigindo uma mudança de postura e respeito às nossas instituições”, concluiu.
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    Jorge Colares, prefeito do acampamento Sérgio Moro no Parcão | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Antônio Gornati, outro organizador do ato, também deu sua opinião. Para ele, Temer não resolve a situação mas também não quer que Dilma volte. “O PMDB é o pior de todos. Apoiou o PT, que é o mentor dessa corrupção, para não sair do poder “, argumentou. Porém, Gornati acha que o principal objetivo é tirar o PT, através do afastamento definitivo de Dilma.
    O Movimento Brasil Livre (MBL) está organizando para o dia 31 de julho um grande ato a favor do impeachment de Dilma. Em uma roda, já no final do ato, o grupo via a possibilidade de outros pequenos atos, até mesmo em frente a outros lugares.
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    Gornati organizou o ato | Ramiro Furquim/Jornal Já

    Até mesmo a Esquina Democrática foi sugerida, ao que rebateram – Esquina Democrática não!
    – Por que não, só eles podem ir lá? Rebateu o outro.
    Os locais de novos atos ainda serão definidos. Um outro manifestante observou, inclusive fez um vídeo para divulgar nas redes sociais: “Esse é o ponto de partida que estamos iniciando para o grande ato do dia 31”, exclamou.
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  • A Cultura do estupro está no Congresso: bancadas conservadoras e os mitos ligados ao feminino

    O risco de retrocesso de décadas que estamos vivendo nesse momento é imenso, preocupante e mesmo desesperador para quem, como eu, tem lutado para avançar ainda mais, e não ter de lutar pelo que já é e já foi conquistado. Fica muito claro como Ernst Bloch, o filósofo utópico ligado à escola de Frankfurt, tinha razão: “Junto a cada esperança, há sempre um caixão à espera”, dizia ele. O caixão carregado pelos machistas, misóginos, reacionários, moralistas, cínicos, tolos, inocentes úteis, todos descompromissados com os valores da justiça, da igualdade e da solidariedade.
    Exemplo disso – em meio a uma enxurrada de exemplos, especialmente depois que o interino assumiu através de um golpe na democracia – é a posição da nova secretária das mulheres, Fátima Pelaes, do PMDB, convertida a uma religião conservadora desde um naufrágio no rio Amazonas, em 2002 (típico, aliás, que a pasta que já teve status de ministério “caia” de posição para uma secretaria “subordinada” a um ministério chefiado por homens). Ela apoia o Estatuto do Nascituro e brada, aos prantos, que “nasceu de um estupro”. Ela e sua mãe têm direito a viver como bem entenderem, a terem filhos concebidos no horror da violência, se assim o desejarem; qualquer pessoa tem direito de viver segundo suas crenças e disposições pessoais. Mas ela não tem o direito de impor tamanho retrocesso a quem quer que seja.
    Além do Estatuto do Nascituro, estão em tramitação no Congresso Nacional outros projetos de lei que afetam diretamente a todas as mulheres do país. O PL 5069/2013, por exemplo, proposto pelo trevoso e sabidamente corrupto Eduardo Cunha, coloca obstáculos ao atendimento das vítimas de estupro nas instituições de saúde. Tal projeto obriga uma mulher agredida, fragilizada, violentada e machucada a primeiro ter de registrar boletim de ocorrência na delegacia, passar pelo exame de corpo delito para só então poder ter o direito a ser atendida em uma unidade de saúde! Estou falando de casos onde a interrupção da gravidez é legal, como nos casos de estupro, anencefalia do embrião ou risco de vida da grávida por condições de saúde desta. Por isso trata-se de um retrocesso, de tornar a legislação mais restritiva.
    A concepção de mulher que está por trás desse tipo de formulação é misógina, pois a toma como potencial mentirosa, ladina e que tenta “enganar” as autoridades mentindo que foi violentada quando na verdade teria tido um “comportamento promíscuo” e “depravado” (como já li em um comentário nas redes sociais), além de descuidado, que resultou em gravidez. E o descuido é sempre dela, o homem que a engravidou sempre desaparece da equação.
    A Lilith perigosa e demoníaca, ou a serpente pérfida do mal, são mitos que emprestam sentido a certas representações da mulher, até os dias atuais. O real, meus caros e caras, é arquetípico. Nessa perspectiva, existe uma estrutura psíquica universal, presente em qualquer lugar ou cultura, em diferentes contextos sociais. O que se repete são os conteúdos, uma vez que as formas mudam conforme variam as formações culturais. Carl Gustav Jung, o grande psicanalista, escreveu que partilhamos no inconsciente coletivo “imagens primordiais”, conteúdos recheados de sentidos que a humanidade desenvolveu em milhões de anos, e vamos acessá-las conforme nossas circunstâncias existenciais e pessoais. Essas imagens e figuras podem remeter a temas mitológicos, aparecer em contos e histórias, lendas populares e crenças: são os arquétipos.
    Aparecem nas cartas do tarô, bem como estão presentes em nossos sonhos e devaneios. E sustentam nossas crenças: a morte é um arquétipo poderoso e assustador, e passamos a vida assombrados por ele. A santa, a ‘puta’, a virgem, a bruxa, a fada, a sereia (arquétipos ligados à figura feminina), o herói, o sábio, o ditador, o mago, o louco (ligados à masculina) etc. A lista de arquétipos é grande e cada um deles tem a sua carga e o seu poder. Talvez, em algum momento da vida, nos identifiquemos com muitos deles. Lembrando que, para Jung, todos têm uma dimensão feminina e uma masculina, pois no inconsciente do homem existe a presença da anima (o sentido feminino) e no inconsciente da mulher existe o animus (o sentido masculino), portanto os arquétipos todos nos habitam, independentemente do gênero sentido e praticado. Toda essa riqueza criativa determinou, aliás, sua ruptura com o mestre Freud, por incompatibilidade teórica!
    Mas voltando ao nosso assunto, muitos mitos são tomados como definidores reais das mulheres, em sociedades conservadoras que tentam avançar nas transformações culturais emancipatórias e voltadas à igualdade. A Lilith ladina e perigosa, que “seduz” o “pobre” homem que cai nos seus encantos… ela é um demônio ligado à noite e aos ventos, nas tradições judaica e islâmica, tida também como a primeira mulher de Adão, inclusive sendo acusada de ser a serpente que levou Eva a comer a maçã (mas mesmo Eva, feita de uma costela, mais dócil e dependente, leva a pecha de ter desencaminhado Adão…). A prostituta usável, mas pouco confiável e descartável; a “mulher de Atenas”, Amélia que tudo suporta calada (esta foi cantada por Chico Buarque); a mãe santificada, assexuada e que é puro afeto, doação e nutrição: nomeie aqui seu arquétipo feminino predileto!
    As religiões são todas povoadas de mitos e arquétipos, e não há a princípio nada de mal nisso; mas começa a haver quando elas se misturam com a política e se infiltram no Estado. Por isso o Estado tem de ser laico, ou seja, assegurar a liberdade de crença e prática religiosa, mas ele mesmo não pode ter nada a ver com religião! Nenhuma crença baseada em religião deve se misturar na gestão do Estado. Este precisa assegurar serviços básicos como saúde, educação, assistência social e segurança, todos baseados em critérios humanitários, filosóficos (bioéticos), científicos e políticos.
    Portanto, para embasar políticas voltadas à saúde da mulher, há que levar em consideração campos como a epidemiologia, a psicologia e demais ciências sociais, a medicina, a enfermagem etc. Jamais arquétipos religiosos tomados como realidade política, isso é o mais completo absurdo e fere o princípio da laicidade do Estado. Este é uma instituição política, no sentido de gestão da Polis, a sociedade que regula e gere. Cidadãs e cidadãos precisam participar dessa gestão na esfera pública democrática, eleger seus representantes para câmaras, conselhos e senados, em todos os níveis, controlando como esses legislam e implementam políticas públicas que beneficiem a população. Esta é sua obrigação, aliás; o resto é obscurantismo, ignorância e fanatismo, sendo impostos de cima para baixo em uma sociedade aturdida – como a nossa hoje.
    A mulher agredida e estuprada precisa ser acolhida com competência, humanidade, respeito e se possível carinho (algo que ela vai precisar), mas se impossível, apenas os três primeiros itens serão suficientes. Projetos no sentido contrário têm o meu mais completo repúdio e irei às ruas contra eles tantas vezes quantas forem necessárias, até derrubá-los. Nossas antepassadas sufragistas comeram o pão que o diabo amassou nas ruas, com a polícia misógina em cima delas; não vamos ter medo agora que as coisas já avançaram um pouco. Pouco mesmo, deviam ter avançado muito mais, mas pelo menos hoje temos mais respaldo das leis (e da intelectualidade que não desistiu de melhorar o mundo).
    São cinco mil mulheres mortas por ano, treze por dia, segundo dados da cartilha lançada pelo PSOL “A Luta das Mulheres Muda o Mundo”, publicação da Assembleia Legislativa de Porto Alegre (disponível aqui). A cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil. Muitas vítimas não denunciam por medo, vergonha, solidão… Um crime sempre sem testemunhas, se a palavra da vítima não vale nada, tende a ser cada vez menos denunciado e mais subnotificado, levando à impunidade que o retroalimenta. Ou seja: esses projetos misóginos são mais um crime contra as mulheres no Brasil. Convido a todos e todas, para dizermos NÃO! Para gritarmos em uníssono, BASTA DE VIOLÊNCIA! Nos encontramos nas ruas e nas redes, espero vocês por lá.