Higino Barros
O Comando de Greve do Cpers/Sindicato está reforçando o chamado para os professores da rede pública do Estado em greve participarem da plenária que será realizada na próxima segunda-feira, dia 30, às 10 horas, em frente ao Palácio Piratini.
O ato é para discutir o ensino e pressionar o governador Ivo Sartori a apresentar propostas concretas na nova rodada de negociação entre governo e grevistas, marcada para o dia 31.
À tarde, os professores participam da audiência pública sobre o PL 044, o qual prevê a privatização das escolas públicas, que será realizada às 14 horas na Assembleia Legislativa.
Nessa sexta-feira, os professores tomaram conhecimento da decisão do governo em parcelar novamente os salários dos funcionários do Estado. Os servidores que recebem até R$ 3 mil terão salários depositados na próxima terça-feira, dia 31 de maio. Mas a folha de pagamento de maio foi rodada com seis faixas e será zerada apenas no dia 13 de junho.
“Não podemos mais admitir esse desrespeito que se repete mês após mês. Pagar nossos salários em dia e na sua integralidade é o mínimo que esse governo tem a obrigação de fazer”, afirmou a presidente do Cpers, Helenir Schürer.
Para a dirigente sindical, a decisão do governo penaliza os professores, mas ao mesmo tempo fortalece a greve, já que aumenta o número de escolas paradas pelo movimento e pela ocupação de alunos.
A mobilização dos professores contra o governo obteve uma vitória significativa. O economista Flávio Comin, contratado pela Secretaria Estadual da Fazenda, por R$ 195 mil, para elaborar um estudo visando acabar com o Plano de Carreira dos Professores desistiu do trabalho.
Segundo Comin, os alertas do Cpers sobre os danos que a análise ia causar ao magistério e a pressão da sociedade em geral, o fizeram pedir rescisão do contra
Como ficou a folha de pagamento de maio:
Faixa 1: R$ 3 mil
Faixa 2: R$ 500
Faixa 3: R$ 750
Faixa 4: R$ 1,1 mil
Faixa 5: R$ 5 mil
Faixa 6: Saldo
Autor: da Redação
Professores em greve farão ato em frente ao Piratini
Licenciamento é tema da semana do meio ambiente
Abre quinta, 2 de junho a 32ª Semana do Meio Ambiente de Porto Alegre.
A primeira palestra, às 9 de manha, aborda Licenciamento Ambiental no âmbito dos Municípios – Aspectos Jurídicos e Práticos, no auditório da Famurs (rua Marcílio Dias, 574 – Menino Deus).
A palestra será dividida em duas partes. No período da manhã, serão abordados os aspectos jurídicos do licenciamento ambiental, com mediação da secretária adjunta do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável do RS, Maria Patrícia Möllmann, e do sup ervisor de Meio Ambiente da Smam, Alexandre Burmann.
Na parte da tarde, o foco estará nos aspectos práticos do licenciamento ambiental, apresentando as experiências positivas que ocorrem em Porto Alegre. A mediação será do químico e ex-secretário de Meio Ambiente de Porto Alegre, Mauro Moura, dos professores da Ufrgs, Júpiter Palagi de Souza e Andrea Loguercio, e da dra. Cíntia Schmidt, da OAB/RS.
Para mais informações e inscrições: www.eventos.famurs.com.br – (51) 3230-3150.
Programação do evento:
Licenciamento Ambiental no Âmbito dos Municípios – Aspectos Jurídicos e Práticos
Dia 2 de junho, no Auditório da Famurs – Rua Marcílio Dias, 574 – Menino Deus
Das 9h às 12h – Aspectos Jurídicos do Licenciamento Ambiental
Áreas de Preservação Permanente em zonas urbanas
Palestrante: Eleonora Braz Serralta – PGM
Fiscalização do Ministério Público e questões urbanísticas/ambientais
Palestrante: Alexandre Saltz – Ministério Público
Desastres Ambientais e Instrumentos Regulatórios
Palestrante: Délton Winter de Carvalho – Unisinos
Das 14h às 18h – Aspectos Práticos do Licenciamento Ambiental
Compensação Vegetal – A LC 757/15
Palestrante: João Roberto Meira – Ecos/Smam
Fauna silvestre no ambiente urbano
Palestrantes: Renata Cardoso Vieira e Soraya Ribeiro – Ecavs/Smam
Avaliação de Impacto Sonoro
Palestrante: Nara Schimitt – Eccops/Smam
Gestão de Àreas ContaminadasPalestrantes: Carlos Fabiano Rodrigues e Fernando Luiz Calza – Ecai/SmamA embriaguez midiática das massas, a omissão do STF e a orquestração do golpe no Brasil
Francisco Jozivan Guedes de Lima*
Antes de tudo, quero advertir que não usarei a terminologia “golpe político” porque, de um ponto de vista normativo e de sociedades democráticas bem-ordenadas que respeitam as instituições, golpe é algo infame, vil e de natureza apolítica; ele anda justamente na contramão da política: percorre caminhos abjetos, criminosos, ilegítimos do ponto de vista moral e jurídico.
O status de legitimidade do impeachment no seu cerne normativo está respaldado pela Lei nº 1.079/1950 que foi recepcionada pela CF/1988. No Art. 4º da Lei nº 1.079/1950, há um rol de oito crimes de responsabilidade presidenciais tais como atentar contra (i) a existência da União, (ii) o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados, (iii) o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais, (iv) a segurança interna do país, (v) a probidade na administração, (vi) a lei orçamentária, (vii) a guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos, (viii) o cumprimento das decisões judiciárias.
O impeachment em si não é golpe; é uma ferramenta democrática que tem na sua base a pretensão de se opor a regimes despóticos. Dentro de sociedades liberais modernas, sua gênese histórica remete à desestabilização dos Estados nacionais absolutistas, desarticulação esta protagonizada pela burguesia – categoria que ainda não tinha no dado período uma conotação capitalista pós-Revolução Industrial. Tratava-se, dentro do referido cenário, de uma queda de braço entre as monarquias absolutistas versus os liberais, especialmente, como se observou a partir do século XVII na culminância da Revolução Inglesa e o consequente estabelecimento do parlamentarismo.
Se o impeachment em si não é um golpe, então qual o seu problema? No caso específico deste processo que vivenciamos no Brasil, ele é um golpe porque está sendo orquestrado mediante estratagemas de exceção; dizer que o impeachment atual é legítimo porque respeita um rito do Supremo Tribunal Federal é uma afirmação extremamente superficial e ritualística que não adentra às questões de fato relevantes para a sua legitimidade como o cumprimento do devido processo legal, o instrumento da ampla defesa, a imparcialidade dos relatórios eivados de tendenciosidades cujo relatores são declaradamente inimigos da figura em julgamento, contaminação partidarista da comissão ad hoc e do judiciário, desde juízes de instâncias mediadoras até o STF enquanto guardião da Constituição. Afinal, cabe aqui uma questão normativa: como entender o porquê do STF – sendo o responsável máximo pela Constituição – diante deste conflito se autoimpôs a incumbência de simplesmente traçar ritos ao invés de gerir o processo já que o impeachment constitui um instituto a fim de zelar pelos princípios constitucionais? Não há sentido em abandonar tal status decisório nas mãos de políticos inaptos do ponto de vista ético e/ou intelectual que instanciam suas decisões a partir de justificativas risíveis obliterando todo o potencial normativo de esfera público-democrática.
A obscuridade do processo com manipulações midiáticas com liberação de grampos telefônicos para dada emissora, o processo de votação dominical forjado como uma espécie de show que culminou no desmascaramento e na demonstração da realidade de parlamentares sem mínimas condições para o exercício do poder público, o fato de orquestradores do golpe serem réus em processos como Lava-Jato, os fortes interesses econômicos que injetaram e financiaram o afastamento da Presidenta Dilma, o atropelamento do processo e o voto-pronto independente da contra-argumentação da Advocacia-Geral da União, e todo um demais conjunto de fragilidades expostas, fortalecem a obviedade do Estado de exceção no qual foi forjado o processo de afastamento. Diante disso, o STF agiu como Pôncio Pilatos: “lavou as mãos”; atirou o rito no plenário e observou confortavelmente o seu desfecho. Num país com seriedade e harmonia institucionais, diante de processos parciais e suspeitos, os guardiões da Carta Magna não se isentam, mas assumem o ônus de zelar pela normatividade. Eis aí a sua máxima razão de ser.
E o que dizer da embriaguez das massas? Por “massa” entende-se aqui o “vulgus”, aquela “massa de manobra”, isto é, aquela parcela da população que é facilmente cooptável, manipulável, que bate panelas, vai às ruas, põe camisa patriótica impulsionada por um discurso de anticorrupção ironicamente patrocinado por corruptos, ou seja, uma contradição explícita. Ela constitui, numa expressão nietzscheana, “o homem rebanho”. Ela não tem ciência de como o processo está sendo forjado, quem o forja, quem o financia nacional e internacionalmente, e como as informações são milimetricamente lhe endereçadas pela mídia que sedimenta a indústria cultural do golpe. Aí está a embriaguez.
Tudo é orquestrado a fim de que a grande massa – seja ela de camada social subalterna, alta ou mediana – acredite que o processo está sendo imparcial, justo e que com a deposição de uma dada figura, a corrupção será banida e tudo voltará à normalidade. Foi justamente em cima deste discurso de “higienização” que o nazismo ganhou força e chegou ao poder e se tornou o monstro tal qual sabemos. Dentro dessa ideologia massificadora, tipifica-se e encontra-se um bode expiatório para culpabilizar pela instabilidade e pela desordem. E a lavagem cerebral funciona sorrateiramente em tal direção. Isso gera uma despolitização da esfera pública forte e, ipso facto, os potenciais atores políticos são intencionalmente rotulados mediante uma luta desgastante e sem sentido sob os cognomes de “coxinhas” e “petralhas”, resultando daí discursos e ações de ódio, uma infantilização do processo democrático bem-vinda para aqueles que os manipula como meros fantoches.
Aos que defendem que tal massificação não aconteceu, cabem aqui algumas questões: por que este mesmo povo que foi às ruas, que bateu panelas no horário nobre, não o faz agora, neste exato momento em que a Operação Lava-Jato se recolhe do seu ímpeto voraz depois de ter cumprido seu papel estratégico de fulminar um partido político em específico? Por que as investigações não têm continuidade com o mesmo peso e rigor para os demais partidos e suspeitos? Por que não se bate panelas perante vazamentos de vídeos desmascarando o golpe? De um modo amplo, por que não ele não vai às ruas contra as injustiças que continuam a acontecer?
As doses funcionaram exitosamente: para a grande massa – manipulada pelas instâncias de poder – o momento é oportuno, tudo é apenas uma questão de tempo para a “perfect life” se instaurar no Brasil: “não vem ao caso” julgar, a Lava-Jato cumpriu sua tarefa, a economia irá crescer, nossos direitos estão preservados, em especial os sociais conquistados a dura penas, a previdência social e os mais velhos não serão atingidos pelas reformas, os remédios serão amargos, porém provisórios e necessários para equilibrar as finanças, não há mais corrupção e todos os partidos são julgados como o mesmo rigor. Trata-se simplesmente de uma ilusão, mera embriaguez ideológica verticalmente imposta, aceita e reproduzida acriticamente por indivíduos de várias regiões do país, sem polarizações se é somente em região X ou Y.
* Doutor em Filosofia pela PUCRS. Professor do PPG e da Graduação em Filosofia na UFPI.Manifestações pró-impeachment foram pagas por partidos
As manifestações a favor do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, organizadas pelo Movimento Brasil Livre, foram financiadas e apoiadas por diversos partidos políticos. Áudios divulgados pelo site UOL na manhã desta sexta-feira mostram a ligação entre PMDB, Democratas, PSDB e Solidariedade e manifestações de rua convocadas pelo MBL.
Em uma gravação disponibilizada pelo site, de fevereiro de 2016, Renan dos Santos, um dos coordenadores nacionais do MBL, explica a articulação: “O MBL acabou de fechar com o PSDB, DEM, PMDB e com a Força Sindical, o Paulinho, uma articulação para divulgar o dia 13 usando as máquinas deles também. Enfim, usar agora uma força que a gente nunca teve.”
O movimento foi criado em 2014 e se definia com apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas. Em suas páginas em redes sociais, faz campanhas permanentes para receber ajuda financeira das pessoas, sem ligação com partidos.
Segundo o UOL, Renan foi filiado ao PSDB entre 2010 e 2015. Através de nota, ele afirmou que o movimento “não criminaliza a política nem os políticos. A aproximação com as lideranças foi fundamental para pavimentar o caminho do impeachment.”
PMDB: “uma campanha nossa, nós encampamos”
As gravações mostram que o PMDB financiou a impressão de 20 mil panfletos com a frase “esse impeachment é meu”.
O presidente da Juventude do PMDB, Bruno Júlio, confirmou ao site que solicitou ao presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, que custeasse os panfletos. A assessoria de Moreira Franco nega.
“O MBL auxiliou na logística, distribuindo os panfletos e colando cartazes, mas a Fundação Ulysses Guimarães pagou porque se tratava de uma campanha nossa, da Juventude do PMDB, que nós encampamos”, afirmou o presidente da JPMDB.
PSDB ofereceu lanche e hospedagem
Em outra gravação, feita no dia 5 de maio, o presidente da Juventude do PSDB no Rio de Janeiro, Ygor Oliveira, fala da parceria entre o partido e o MBL. O partido daria hospedagem e alimentação para os manifestantes que se deslocassem até Brasília, no dia 11, para a votação do impeachment no Senado. A parte do movimento era arrecadar com seus colaboradores o valor referente ao ônibus.
No áudio, Oliveira afirma que a parceria não saiu porque o Movimento Brasil Livre não conseguiu captar o dinheiro do transporte dos manifestantes. Ele confirmou ao UOL a autenticidade da mensagem. Ele disse ainda que este foi a primeira tentativa de aproximação entre as duas entidades.
Solidariedade deu carro de som e divulgação
O Solidariedade se manifestou por meio nota enviada através de sua assessoria de imprensa ao UOL. No texto, o partido afirma que prestou seu apoio ao movimento “com a convocação da militância para as manifestações do impeachment, carro de som nos eventos e divulgação dos atos em nossas redes.”
Democratas: “Apenas uma união de forças”
O Democratas negou qualquer tipo de ajuda financeira ao MBL e informou que se uniu aos movimentos de rua a favor do impeachment, dentre eles o MBL. “Não houve nenhum tipo de apoio financeiro, apenas uma união de forças com os movimentos de rua, dentre eles o MBL”, respondeu o partido.Técnicos contestam zoneamento para extração de areia do Guaiba
A divulgação de um estudo “coordenado pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema)” esta semana deflagrou uma nova polêmica envolvendo o Guaiba.Uma notícia no jornal Zero Hora com o título: “Estudo defende exploração de areia no Guaíba”, informou que a atividade, suspensa há dez anos por razões ambientais, está para ser retomada.Segundo o jornal a Sema concluiu um zoneamento que “defende que cerca de 30% dos 490 km² do Guaíba podem ser explorados para extração de areia”.
Com informações da Rádio Gaúcha, o jornal afirma que “durante um ano as equipes realizaram um zoneamento ambiental que aponta onde é possível ou não realizar a mineração, suspensa há 10 anos”.“Ele é assinado por técnicos do Departamento Nacional de Produção Mineral, da Fundação de Economia e Estatística (FEE) e pesquisadores da UFRGS ligados ao Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica e ao Instituto de Pesquisas Hidráulicas”.
“A secretária estadual do Meio Ambiente, Ana Pellini, explica que, para a elaboração do zoneamento, foram retiradas todas as áreas que se mostravam críticas e com alguma restrição:
– Isso resultou em uma área de 30% que poderá ser estudada. Não quer dizer que tudo isso vai ser liberado. Nós poderemos estudar caso a caso”.
“A área que o estudo mostra como possível de extração abrange os municípios de Porto Alegre, Eldorado do Sul, Guaíba e Barra do Ribeiro”.
“A proposta ainda precisa ser aprovada pelo Comitê do Lago e entrar em votação no Conselho Estadual do Meio Ambiente”.
“O Comitê do Lago pretende colocar o tema em votação em 15 dias. ONG ambientalistas que participam do comitê defendem que o zoneamento deveria ter sido debatido pelo grupo”.
No mesmo dia o professor Elírio E. Toldo, da UFRGS, divulgou o seguinte esclarecimento:“A imprensa vem noticiando informações sobre a participação do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica – CECO/UFRGS, em projetos de pesquisa sobre a atividade da mineração de areia no Rio Guaíba, inclusive na Zero Hora de hoje na página 30.Comunico que se trata de uma informação NÃO verdadeira, pois não desenvolvemos projeto de pesquisa sobre a mineração no Rio Guaíba, nem possuímos convênios com a SEMA.Desenvolvemos estudos sobre a circulação das águas e o transporte de sedimentos, mas não possuímos nenhum projeto voltado a mineração da areia.Esta informação ERRADA foi comunicada hoje a Direção deste Centro, bem como ao Diretor da Unidade para as providências.Inclusive já alertamos a necessidade da realização destes estudos para que sejam evitados problemas de impactos desse tipo de obra na orla e no canal do rio,
em Nota publicada na Revista do CREA (em anexo).Elírio Toldo, da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul – Instituto de Geociências
Centro de Estudos de
Geologia Costeira e OceânicaO ambiente do golpe: o Brasil midiatizado e colonialista e dois filmes atuais
Guilherme Castro*
O ambiente cultural em que prosperou o golpe mostra o Brasil altamente conectado nas mídias de hoje, mas alienado. Um país tão ‘dentro’ do mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, ainda colonialista.
O papel e os efeitos da mídia na crise política brasileira vão além e são mais profundos do que a manipulação direta e generalizada pró golpe das grandes empresas de comunicação. Uma das maiores estranhezas desses dias é perceber nas próprias redes sociais, entre debates e mesmo em manifestações de rua, os efeitos do que está sendo chamado de ‘a bolha midiática’. Os espaços de contato e debates entre diferentes são mínimos, e conversamos sempre entre iguais. A sociedade midiática é radical ao dar forma ao Brasil de hoje: atua um estranho e contemporâneo efeito de impermeabilidade e transparência da diferença. É o que explica o prof. Gelson Santana em Representação e formas da diferença na cultura midiatizada de hoje (2016): “a experiência do saber desaparece no fluxo incessante de informação” e, complementa, a estratégia é “sermos encapsulados pela midiatização da cultura”. Esses traços sensíveis marcam o Brasil e a crise atual: a espécie de ‘revolução de direita’ que pretendem em pleno 2016 se ampara na ampla massificação e alienação. É presente, por exemplo, que a maioria dos alunos chegue à graduação com quase total desconhecimento da história e da realidade brasileira, por mais próxima que esteja.
A resistência, por isso, é também e sobretudo entender os acontecimentos históricos e ter memória – papel e valor centrais da produção artística. Dois filmes recentes, O mercado de Notícias (Jorge Furtado, 2014) e Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015), nos ajudam a entender o ambiente cultural e midiático da crise política que o Brasil atravessa.
Expressão do estilo e modo de pensar de Furtado, O Mercado de Notícias mistura documentário, ficção, gêneros e ironias ao tema de fundo: o filme procura desvendar o papel do jornalismo na sociedade brasileira atual. Há duas linhas narrativas principais: a série de entrevistas com grandes nomes da imprensa, e a representação e ensaios da peça teatral O Mercado de Notícias (The staple of News), escrita pelo inglês Ben Jonson, que em 1626 já ironizava e criticava as mazelas do incipiente e recém surgido jornalismo.
O filme O Mercado de Notícias vai ao ponto: qual o poder político e como operam o jornalismo e a grande mídia no Brasil? Narrando casos conhecidos de erros ou manipulações grosseiras da mídia (exemplos do falso Picasso na repartição do INSS, em Brasília, e da Escola Base de São Paulo) e com as entrevistas sobre o dia-a-dia da profissão, o longa traça um quadro em que vigora o mau jornalismo, cujo resultado notável é uma massa de pessoas desinformadas. A apuração, a difícil busca da certeza, da objetividade e da isenção, o compromisso ético com os envolvidos e com o público, tornam a profissão do jornalismo altamente pulsante no dia-a-dia. Mas essas práticas profissionais, que já eram raras, desaparecem das grandes mídias. Fica evidenciada a crise da profissão. Quando o jornalismo mercadoria abandona qualquer disfarce e se joga ao golpe, hoje, dois anos após o lançamento, O Mercado de Notícias se torna uma obra essencial, um excelente filme sobre o nosso tempo.
Igualmente revelador, embora de forma muito diferente, é Que horas ela volta?, de Anna Muylaert. O filme narra a situação de conflito que se cria quando a filha da empregada doméstica Val/Regina Cazé é recebida e se hóspeda na casa dos patrões (a família de Dona Bárbara/Karine Teles). O filme teve grande repercussão porque o público se identifica com as personagens do microcosmo social que a narrativa constrói, muito típico e revelador do Brasil de hoje. Na família burguesa, a empregada doméstica convive no dia-a-dia, numa relação de trabalho que possivelmente só exista nesse país e envolve fortes vestígios do servilismo típico das sociedades coloniais – situação difícil de explicar a um estrangeiro, mas que todos aqui conhecem. Entre os conflitos do filme, a filha de Val, vinda do interior do Nordeste, é inteligente, curiosa, focada, e, por isso, passa no difícil vestibular que faz, em contraste à falta de motivação e infantilidade do jovem filho dos donos da casa. Que horas ela volta? mostra o que talvez seja a maior de todas as novidades trazidas pelas políticas sociais: a possiblidade de ascensão entre classes, e o desgosto que causa nos que se apegam, mesmo que simbolicamente, a privilégios arcaicos.
O filme constrói o ponto de vista raro da cozinha da casa; pelo olhar simples, mas sábio, da doméstica Val, conhecemos o vazio de afetos em que se tornou a família burguesa de Bárbara. É um drama social, profundo e até difícil de digerir, por certeiro na crítica que faz, mas o tom é jocoso, irônico e leve.
A diretora Muylaert apreendeu algo que infelizmente constitui um traço muito atrasado do Brasil. A personagem Bárbara tem o rei na barriga, expressão de uso corrente, que expressa um comportamento típico. Revela um estranho vestígio material do tempo do Império, ainda um pensamento escravocrata, que ficou em nossa cultura com grandes consequências também na política.
Um dos motivos do golpe, a rejeição, por parcela importante, de qualquer ação de Governo que diminua a enorme desigualdade social histórica do país está ligado também a esse traço pré-republicano ainda tão marcante.
O Brasil entrou no contemporâneo, está inteiro no mundo midiático, tomado e fortemente constituído por um novo tipo de sociedade e cultura. Ao mesmo tempo e de modo paradoxal segue colonialista, no âmago. Essa força do passado tenta se sobrepor ao presente. Que seja espécie de último suspiro, e que a superação do golpe, que acontece sobretudo nas ruas e nas mídias, traga avanços muito maiores na construção da Democracia. Há essa chance.
[avatar user=”X-CDD – Guilherme Castro” size=”thumbnail” align=”left” /]* Guilherme Castro é cineasta e jornalista, professor na ULBRA, e doutorando em cinema na Universidade Anhembi Morumbi/SP. Presidiu o Conselho Estadual de Cultura e a Associação de Cineastas do RGS (APTC-RS).
A Globo e o golpe
Em 1964 também diziam que não era golpe. Era “intervenção preventiva”.
O jornal o Globo (a Rede ainda não existia) saudou a “Democracia restaurada” quando o senado declarou vaga a presidência e empossou Rainieri Mazzilli, presidente da Câmara, no lugar João Goulart, o “presidente afastado”.
Um governo de salvação nacional seria instalado, eleições seriam convocadas, a normalidade democrática seria restabelecida.
O Globo era o porta voz desse discurso. A crise militar se seguiu, a linha dura se impôs, a ditadura mostrou a sua cara. A Globo se cevou à sombra desse descaminho. Foi a rede oficial do regime, enaltecendo-lhe os feitos, mascarando os mal feitos.
É o papel que assume hoje em relação ao impeachment e ao governo Temer. Até agora parece bem sucedida e é clara sua aposta no governo Temer para voltar a florescer à sombra do oficialismo.
O problema é que estamos em 2016. E, segundo dizem alguns, a história só se repete como farsa.
Serra e a não ideologia ideológica
[avatar user=”X-CDD – Ricardo F Leaes” size=”thumbnail” align=”left” /]
Ricardo Fagundes Leães*
No momento em que o governo provisório tomou posse, já era de conhecimento geral que o Ministério das Relações Exteriores seria chefiado por José Serra (PSDB), ex-governador, prefeito e Ministro de Estado. Serra, que substitui o diplomata Mauro Vieira, é o primeiro político a assumir o comando do Itamaraty desde Fernando Henrique Cardoso, ainda no governo de Itamar Franco. Tão logo assumiu sua nova função, Serra tratou de imprimir sua digital, patrocinando duas duras notas contra os governos de Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua e contra o Secretário-Geral da UNASUL, Ernesto Samper, que questionaram a legitimidade do impeachment de Dilma Rousseff. Em resposta, o Itamaraty repudiou as declarações “bolivarianas” e reafirmou que o impedimento da presidente se deu conforme os ritos legais estabelecidos pela Constituição Federal. Além disso, qualificou como “falsas” e “equivocadas” as críticas que lhe foram dirigidas.
Imediatamente, não faltaram elogios por parte da grande imprensa brasileira à atitude patrocinada por Serra: Folha de São Paulo, O Globo, Estadão e Exame – além, é claro, de Veja e Istoé – aplaudiram, em seus editoriais, as atitudes do novo ministro, que estaria devolvendo o protagonismo e a isenção que historicamente caracterizariam o Itamaraty, desde os tempos do Barão do Rio Branco. Nos dias subsequentes, quando de sua posse oficial, Serra asseverou que o Itamaraty não mais representaria os interesses de um partido político, mas seria um delegado dos interesses e valores legítimos da sociedade brasileira. Após críticas às gestões anteriores – vistas como estatistas, anacrônicas e partidarizadas –, Serra anunciou que daria atenção especial aos acordos de livre-comércio (em sua visão, negligenciados pelo PT) e que, como chanceler, não permitiria uma ideologização do Itamaraty.
Não é do escopo deste texto analisar a política externa brasileira sob os governos do PT ou a conveniência de relações estreitas com os Estados Unidos ou com países dirigidos por governos de esquerda. Trata-se, sim, de entender e problematizar a polêmica envolvendo a ideologização do Itamaraty e o porquê do crescente apelo desse discurso em prol da neutralidade e do apartidarismo. Com efeito, observamos, cada vez mais, manifestações contra o que se convencionou chamar “ideológico”: seja nos governos, nas escolas ou nas instituições públicas, é reprovável que se encontrem vestígio de uma determinada visão de mundo. Seria preferível, então, que predominasse nesses locais um pensamento isento, imparcial e independente, de modo a não privilegiar uma concepção de mundo em relação às demais. Pululam, no Brasil, projetos de leis nos moldes de “escola sem partido”, como os sugeridos pelo deputado estadual Marcel van Hattem (PP), no Rio Grande do Sul, e pelo vereador Valter Nagelstein (PMDB), em Porto Alegre.
Ocorre que é possível encontrar um padrão nas críticas que são feitas à ideologia: quase sempre, são pessoas ou instituições de viés conservador que reprocham tomadas de posição com um sinal ideológico contrário. Por isso, os movimentos feminista e LBGT são acusados de preconizar uma “ideologia de gênero”, os professores que problematizam as mazelas sociais são tachados de “politicamente ideológicos” e os governos que não se curvam aos interesses dos Estados Unidos são responsabilizados por encampar uma “ideologia partidária”. Vê-se, com esses exemplos, que os grupos conservadores não se limitam a rejeitar e contrapor as ideias de seus opositores, mas procuram desqualificá-las como se só elas representassem uma parte e não o todo de uma sociedade. Assim, a perspectiva em consonância com um matiz conservador e que rechaça grandes transformações se pretende como neutra, apartidária racional e objetiva, ao passo que as interpretações distintas são ideológicas, partidárias, emocionais e subjetivas.
Essa manifestação é perigosa e ilusória, na medida em que parte de um pressuposto não democrático sobre a natureza da política e da sociedade. Segundo essa linha de pensamento, haveria uma vontade geral teórica e disfarçadamente acima dos grupos de interesse, que apenas atuariam em benefício próprio e com o fito de desvirtuar a lógica das relações normais de poder. Na verdade, a sociedade jamais é um todo uniforme e uníssono, sendo seus interesses e objetivos distribuídos em classe, gênero, partidos e instituições. A natureza da democracia é justamente reconhecer que há divisões, fraturas e disputas no seio de cada sociedade, e que essas são canalizadas por meio da política: eleições, manifestações, votações, etc. Em última instância, a afirmação de que somente o outro é ideológico é um apego dissimulado ao status quo, travestido como “bem maior”. Ao invés de admitirem que advogam o que lhes é favorável, alguns grupos travestem seus interesses particulares como se fossem universais, e denunciam seus rivais por agirem de forma análoga.
No caso concreto da política externa, causa espanto que um político tarimbado como José Serra afirme que seu intento maior é desideologizar o Itamaraty, que supostamente teria sido sequestrado pelos propósitos – ilegítimos, porque partidários – do PT. Ora, o partido democraticamente eleito tem a prerrogativa, senão o dever, de aplicar o programa com o qual sagrou-se vencedor. A política externa é, por óbvio, também política, razão pela qual está sempre sujeita ao conflito dos mais diversos grupos de interesse. O próprio Serra demonstra esse fenômeno ao adotar um discurso ríspido em relação aos “bolivarianos”, ao propor relações estreitas com os Estados Unidos e ao priorizar acordos comerciais. Benéficas ou não, essas medidas são tão ideológicas quanto todas as atitudes dos governos anteriores. Salta aos olhos, então, a inconsistência lógica de quem patrocina uma política externa alinhada aos Estados Unidos ao mesmo tempo em que pedem neutralidade e pragmatismo.
Não vivemos em um mundo neutro. Em política, ainda mais, nada é mais ideológico do que o apelo à não ideologia.
* Doutorando em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador em Relações Internacionais da FEERBS quer punição de quem atirou pedras
Durante os protestos contra o governo interino de Michel Temer, que aconteceram na noite desta terça-feira, 24, manifestantes atiraram pedras na sede do grupo RBS, localizada na avenida Ipiranga, em Porto Alegre.
No local, funcionam os jornais Zero Hora e Diário Gaúcho, os estúdios da Rádio Gaúcha e as operações administrativa e comercial da empresa de comunicação. A ação aconteceu em um horário em que os profissionais do grupo exerciam suas atividades.
Em entrevista ao Coletiva.net, o vice-presidente Editorial do Grupo RBS, Marcelo Rech, contou que os manifestantes queimaram pneus e jornais na esquina das avenidas Erico Verissimo e Ipiranga e lamentou o ocorrido. “Foi um ato violento, uma manifestação nada pacífica. E queimar jornais simboliza a tentativa de eliminar os fatos narrados nas publicações e suas opiniões”, falou, acrescentando que providências já foram tomadas. “Fizemos o registro oficial na polícia e esperamos que os responsáveis sejam punidos”, disse.
Em repúdio, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) publicou uma nota em seu site em que “rejeita toda e qualquer forma de violência contra jornalistas ou veículos de comunicação”. No texto, a entidade diz que entende que manifestações pacíficas em frente a qualquer empresa são legítimas em uma democracia, “porém não concorda com atos que coloquem em risco a integridade física e a vida das pessoas”.Dilma incluirá gravações de Jucá e Renan em sua defesa
A presidente Dilma Rousseff vai anexar à sua defesa no processo de impeachment o áudio em que Romero Jucá defendeu, em conversa com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, “resolver essa porra” e “estancar a sangria” da Operação Lava Jato com a troca de governo.
“Estas gravações deixam mais claro aquilo que estamos afirmando desde o início, que esse processo de impeachment foi realizado com desvio de poder, ou seja, buscando-se finalidades totalmente estranhas à lei”. declarou Dilma em um novo bate papo pelo Facebook, desta vez com o ex-advogado Geral da União, José Eduardo Cardozo.
Questionada se está confiante sobre “uma modificação” do resultado do processo e do seu retorno ao mandato de presidente, ela respondeu que sim. “Os fatos são muito fortes, comprovando que todo este processo de impeachment foi uma grande armação”, afirmou; “Quando se tem a razão do lado, nunca se perde a confiança. E nós estamos do lado certo da história”, acrescentou a presidente.
As gravação com o senador Renan Calheiros, divulgada nesta quarta também será anexada como prova de que houve um golpe.
