Matheus Chaparini
Um cortejo do movimento Cultura pela Democracia movimentou a região central de Porto Alegre na manhã deste domingo (17). Cerca de duas mil pessoas saíram da frente do auditório Araujo Vianna, passaram pelo Brique da Redenção e caminharam até a Praça da Matriz, local que abriga o Acampamento da Legalidade e da Democracia.
É lá que se concentram os que se posicionam contra o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Dois telões foram instalados para acompanhar a votação da comissão de impeachment na tarde deste domingo.
A concentração começou às dez da manhã, com cerca de cem pessoas abrigadas nas poucas áreas de sombra em frente ao Auditório Araújo Vianna, protegendo-se do sol que já era forte àquela hora.
No rádio, os comentaristas políticos especulavam sobre o resultado da votação, afirmando que o governo está se desmobilizando e dando como quase certa a vitória do impeachment.
O principal fator de dúvida era o deputado Waldir Maranhão (PP-MA), uma informação vinda de uma reunião na última madrugada dava conta de que o deputado, que já havia mudado seu voto em favor do governo, teria mudado novamente de ideia, levando seu voto e de seus apoiadores pra o lado da oposição, o que foi negado mais tarde.
O público foi crescendo mais perto da hora da caminhada. Às 11h20, quando o cortejo partiu, mais de mil pessoas seguiam a bateria e a charanga pela Osvaldo Aranha gritando “fascistas, golpistas, não passarão”. O grupo passou pelo Brique da Redenção aos cantos de “não vai ter ódio, vai ter arte.”
Megafone humano: impeachment é golpe
Na esquina da José Bonifácio com a João Pessoa, o movimento organizou um megafone humano. O coro defendia que “este impeachment é golpe” e seguiu a manifestação: “Este impeachment quer retirar direitos dos trabalhadores, quer vender a Petrobras, quer privatizar o SUS, quer acabar com o Prouni. Não ao golpe contra os trabalhadores.”
No local, a marcha encontrou o carro de som e seguiu em direção à Praça da Matriz, passando pelas avenidas João Pessoa, Salgado Filho e Borges de Medeiros. O canto puxado ao microfone, acompanhado pela bateria e pelas vozes dizia “ai, com jeito vai, a Dilma Fica, o Cunha cai.”
Perto da uma da tarde o movimento chegou à Praça da Matriz, cantado “vem, vamos embora que esperar não é saber.”
Ataques à Dilma são machismo
Militante da Articulação de Mulheres Brasileiras, Carla Batista acredita que há um componente de machismo por trás do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Ela aponta como exemplo a linguagem utilizada pelos opositores da presidente, que segundo ela muitas vezes é desrespeitosa. “Se assemelha à fala dos homens quando querem diminuir, achincalhar uma mulher.”
“A Dilma é competente. Criticam características nela que não apontam nos políticos homens, como o fato de ser carrancuda ou de não ser boa em falar o público”.
Carla defende a presença das mulheres da política, “espaço que durante muito tempo foi interditado para as mulheres.”
A militante diz ainda que está acompanhando as especulações sobre o resultado da votação na Câmara e que acredita que o impeachment não passa. “Está mudando muito nas últimas horas, mas eu acredito que não vai ter golpe.”
Críticas ao Partido dos Trabalhadores
Em frente ao Araújo Viana, durante a concentração para o cortejo, Marcelo Rocanto montou uma pequena banca e vendia bandanas com o já clássico bordão “não vai ter golpe, vai ter luta”.
Ele procurou fazer um material que defendesse a democracia mas que não falasse do partido. “Minha intenção é barrar o golpe, não militar pelo partido.”
Sua principal crítica é a falta de participação da militância nos últimos anos. “O partido chegou ao poder e achou que poderia governar sozinho”, afirma Marcelo, que já foi militante do PT.
Ele fez crítica também ao que chamou de “alinhamentos com a direita” principalmente nas políticas em relação ao agronegócio e ao meio ambiente.
Marcelo conta que já trabalhou produzindo material de campanha para o PT. Havia largado a serigrafia, mas retomou a atividade de forma caseira, especialmente para fazer as bandanas.
Em duas noites, produziu 250 unidades, que vendia por R$ 5, “um valor simbólico”, afirmou.
Além do bordão contra o impeachment, estampavam o pano vermelho imagens representativas dos movimentos de mulheres, de Che Guevara, Zumbi dos Palmares, além de uma imagem defendendo os direitos humanos e o programa Mais Médicos, “duas coisas que se o governo cair acabam no mesmo dia”, afirmou.
Contrários demonstraram bom humor

Durante a caminhada foram registradas algumas manifestações contrárias. Foram poucos episódios, todos pacíficos e respondidos de forma bem humorada, como o da moradora de um edifício na Salgado Filho que, em lugar da panela, batia em uma forma de pudim.
Na marquise de um prédio na avenida João Pessoa, um homem batia com uma colher em uma panela, com uma bandeira do Brasil e uma camiseta preta nas mãos.
No prédio ao lado, um morador protestava na janela com uma grande bandeira de Portugal e a camisa da seleção brasileira de futebol. A inusitada manifestação gerou diversos comentários irônicos entre os participantes de cortejo. Um senhor concluiu com um grito: “larga, colônia!”.
Autor: da Redação
Cortejo reuniu duas mil pessoas contra o impeachment na Capital
Caminhada enfrentou o sol forte dessa atípica manhã de abril em Porto Alegre | Matheus Chaparini/jÁ As críticas à grande imprensa também fizeram parte do discurso Carla veio de Cachoeira do sul com um grupo de 50 pessoas Marcelo: “deixa eu tirar a foto com o Leonardo, um gremista e um colorado pela democracia” Morador da Salgado Filho fez protesto inusitado com a bandeira de Portugal Empresários emprestam jatos para levar parlamentares à votação
A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, publica, neste domingo (17), a informação de que empresários colocaram jatinhos à disposição de parlamentares para que votem a favor de impeachment.
A colunista confirmou a informação com o ex-ministro Eliseu Padilha (PMDB-RS), um dos principais articuladores do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP).
Segundo Mônica, Padilha não teme baixas entre a oposição, pois o grupo pró-impeachment estava organizado “para resolver imprevistos”.
Um dos principais problemas (o desculpas), o atraso ou mesmo o cancelamento de voos a Brasília, foi solucionado, segundo ele, graças a empresários que colocaram aeronaves executivas à disposição para buscar parlamentares onde fosse necessário.
“Nós temos aviões para buscá-los”, assegurou, para logo complementar:
“Mas até agora não tivemos nenhum caso”.
Segundo os cálculos de Padilha, o impeachment já tinha 370 votos seguros.Ás 10h da manhã o impeachment estava aprovado na Gaúcha
P.C. de Lester
Às 9h43 deste domingo histórico, os ouvintes da Rádio Gaúcha podiam ter certeza que o impeachment da presidente Dilma Rousseff seria aprovado na votação da tarde.
Desde o início da cobertura especial, às 9h04 a emissora, que é cabeça da maior rede de rádio na região Sul, com alcance no país inteiro, dava garantias aos seus ouvintes que “o governo perdera a confiança dos deputados” e isso explicava o “cenário desfavorável” que seus repórteres observavam nos bastidores do Congresso.
Uma campanha intensa, que incluía inclusive comissões da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e federações de empresários, captavam os últimos votos a favor do impedimento da presidente.
Até a ausência dos deputados governistas era interpretada como um sinal da derrota. “Realmente só chegaram até agora os defensores do impeachment. Talvez por estar tranquilos já estão chegando, enquanto os adversários estão ainda trabalhando votos”.
“O que se diz aqui é que eles já tem 368 votos”, informou a repórter.
E a comentarista postada na entrada do Salão Verde, completou: “A oposição chega mesmo ao dia decisivo em vantagem. O trabalho nas regiões foi intenso; na Bahia, por exemplo foi importantíssimo revertendo votos…”. Em seguida, quase sem transição: “Se aprovado aqui na Câmara, é quase impossível que o Senado não acolha”.
Então foi chamado um especialista em Direito Constitucional para “ajudar os ouvintes da Gaúcha a entender os próximos passos”.
Quando o sinal deu 10 horas, o deputado Mauro Pereira, do PMDB, falava em “varrer esse governo para o bem do Brasil” e, aproveitava para tentar defender Eduardo Cunha.
Os números que o governo divulgara na madrugada anterior, de que teria 200 votos para barrar o impeachment, não foram sequer lembrados.Comandante do impeachment, Cunha recebeu propina em 36 parcelas
O Estado de S. Paulo deste domingo publica uma reportagem assinada pelos jornalistas Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo na qual eles revelam o código utilizado por empresários para referir a propina paga ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
Cunha, que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de corrupção, conduz a seção que pode acatar o processo de impeachment da presidente Dilma Roussef.
A matéria foi feita com base em informações da delação premiada do empresário Ricardo Pernambuco Júnior, da Carioca Engenharia, à Procuradoria-Geral da República, no âmbito da operação Lava Jato.
Segundo o depoimento, uma mensagem cifrada trocada entre o delator e seu pai era a senha dos repasses propina para o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ): “Enviei para nosso amigo um livro de 181 páginas sobre túneis suíços”.
Segundo o empreiteiro, a propina total ‘devida’ a Cunha era de R$ 52 milhões, que deveriam ser divididos pela Carioca – R$ 13 milhões -, OAS e Odebrecht, sobre contratos do Porto Maravilha, no Rio.
O empresário entregou aos investigadores uma tabela que aponta 22 depósitos somando US$ 4.680.297,05 em propinas supostamente pagas pela Carioca a Eduardo Cunha entre 10 de agosto de 2011 e 19 de setembro de 2014.
Há um e-mail com o assunto “túneis”, em que o pai do depoente, no dia 26 de abril de 2012, escreve:
“Enviei para nosso amigo um livro de 181 páginas sobre túneis suíssos (sic). Convém ele confirmar se recebeu o livro e se gostou das fotos”; que se tratava de uma mensagem cifrada enviada por seu pai”, contou.
“A pessoa de ‘nosso amigo’ fazia referência ao deputado Eduardo Cunha e a menção ‘181 páginas’ referia-se ao valor de 181 mil francos suíços e, ainda, ‘túneis suíssos (sic)’ fazia referência ao país do depósito, ou seja, a Suíça.”
Pernambuco Júnior deu detalhes aos procuradores. “Inclusive, relacionado a este e-mail, já foi identificada uma transferência ocorrida no dia 24 de abril de 2012 – ou seja, dois dias antes do e-mail – na qual consta repasse de valores de 181 mil francos suíços (equivalentes na época a US$ 198.901,10, conforme tabela), para a conta da offshore Penbur Holdings, provavelmente no banco BSI.”
Pagamentos foram feitos no exterior
O delator entregou à Procuradoria-Geral da República ‘múltiplos registros de agenda outlook, relativos a encontros seus com Eduardo Cunha, referindo inclusive ao endereço do escritório político dele no Rio de Janeiro’.
“Nestes registros, Eduardo Cunha é identificado pelas iniciais de seu nome, ‘EC’.”
Em 14 páginas de depoimento, o empresário Ricardo Pernambuco Júnior narrou com detalhes o primeiro encontro que teve com o presidente da Câmara para combinar como seriam feitos pagamentos no exterior. A reunião teria ocorrido no escritório político de Cunha, no Rio, início de agosto de 2011.´Nessa época, o peemedebista ainda não exercia a presidência da Casa.
Pernambuco Júnior descreveu para os investigadores o escritório do presidente da Câmara. “Indagado sobre a descrição do escritório político de Eduardo Cunha, respondeu que se trata de um escritório com decoração mais antiga, que tem uma antessala, com uma recepcionista; que, além disso, havia dois sofás, em seguida um corredor, com duas salas; que nestas salas havia uma secretária mais alta e um assessor do deputado; que este assessor era uma pessoa mais velha, com cerca de 60 anos, acreditando que fosse um pouco calvo, possuindo cabelo lateral; que nunca conversou, porém, nenhum assunto com tais pessoas; que mais à esquerda tinha a sala do deputado Eduardo Cunha, com uma mesa antiga, de madeira maciça, com muitos papeis em cima; que acredita que o escritório fique no 32.º andar.”
A assessoria de imprensa de Eduardo Cunha enviou a seguinte mensagem à redação do Estadão sobre a informação: “É a quarta vez que sai matéria sobre mesmo assunto. O presidente já repudiou os fatos que não tem prova alguma”.Movimentos sociais encenam 'julgamento da mídia golpista' na Matriz
Naira Hofmeister
Em meio a uma movimentação de centenas de acampados, churrasqueiras, ambulantes com isopores cheios de bebidas e tendas que vendem produtos da reforma agrária, a Praça da Matriz serviu de palco, na noite de sábado (16), para uma curiosa encenação.
Conduzida pelo jornalista Ayrton Centeno, no papel de juiz, a brincadeira foi intitulada “julgamento da mídia golpista” com direito a testemunhas de acusação e um desajeitado advogado de defesa.
O debate era sobre o papel da imprensa na crise política atual, mas não faltaram testemunhas para lembrar que inflação aumentou antes nas páginas de jornais do que nas prateleiras do supermercado, que a mídia silenciou durante a ditadura, que as novelas mercantilizam o corpo da mulher e reduzem o papel dos negros ao de subalternos, que no noticiário, favela só produz violência…
“A imprensa brasileira é a principal responsável pelo atraso no avanço democrático do país”, resumiu o ex-deputado (PT) Raul Pont, que falou na condição de “sequestrado pela Operação Bandeirante (Oban)”, durante a Ditadura Militar.
De Santa Maria veio um depoimento inesperado. Uma jovem lembrou a cobertura frenética que os veículos de comunicação fizeram da tragédia da boate Kiss, quando morreram 242 pessoas, sobretudo jovens.
“Passaram um mês mostrando a dor e o sofrimento 24 horas por dia na televisão. Mas quando ocupamos durante uma semana a Câmara de Vereadores para cobrar uma investigação séria sobre os responsáveis pelo incêndio, rodaram uma matéria de 30 segundos em rede nacional”, surpreendeu-se.
Alternativas de mídia
A maioria das críticas era sobre a distorção que a imprensa faz das ações de movimentos sociais – cuja versão atual é o ataque ferrenho ao governo federal, cuja base são esses movimentos.
No “vácuo” dessa cobertura ausente é que trabalha há 12 anos o jornalista Gustavo Turck, do Coletivo Catarse. “Há muitos excluídos da imprensa”, recordou.
Ele fez uma defesa das pequenas iniciativas de imprensa que há no Brasil, mas pediu: “Parem de nos chamar de mídia alternativa, nós somos alternativa de mídia”.
Seu colega de Catarse, Marcelo Cogo, lembrou que a grande imprensa se sustenta basicamente de publicidade – grande parte dela, proveniente de fontes oficiais.
“É justo que governos coloquem diariamente milhões de reais nessas empresas, mantendo essa mídia que os golpeia”, condenou.
Jornalistas explorados
O jornalista Wálmaro Paz, que fez carreira ao longo de 45 anos nos grandes conglomerados como Diários Associados, Caldas Júnior e RBS, recordou a fragilidade das relações trabalhistas nessas empresas.
“Elas vivem da exploração dos nossos colegas, seus donos enriquecem graças ao nosso suor”, lamentou.
Ele fez um apelo para que o trabalho dos profissionais da imprensa fosse respeitado. “Antes podíamos recorrer à cláusula de consciência para rejeitar uma pauta, mas hoje, isso é impossível”, revelou, fazendo uma referência ao enxuto mercado para jornalistas no Brasil.
Essa não foi a primeira atividade crítica à cobertura da imprensa no acampamento ao longo dessa última semana. Na quarta-feira à noite foi pendurado um varal dos cartunistas que teve a mídia como alvo. Também houve uma palestra da professora e doutora em Comunicação, Christa Berger e do presidente do Sindicato dos Jornalistas, Milton Simas, sobre o “papel da mídia no golpe”.Acampamento Sérgio Moro se despede do Parcão antes do prometido
Felipe Uhr
Quase um mês depois de se instalar no Parcão, o símbolo da vigília a favor do impeachment, o acampamento Sérgio Moro chegou ao fim.
No sábado (16), véspera da votação que decide pelo prosseguimento ou não do processo de afastamento da presidente Dilma, restava apenas uma barraca ao final da tarde. As outras foram sendo desmontadas ao longo da semana que passou. Parte dos ocupantes, como os integrantes da Banda Loka Liberal, estão em Brasília, de onde irão acompanhar a votação.
Eles prometiam vigília até a queda de Dilma caísse, mas decidiram pela retirada dias antes da votação acontecer. “Motivos de segurança”, segundo o prefeito do acampamento, Jorge Colares.
Colares disse que estão atendendo um pedido das autoridades da segurança. Como não quer conflito, estão indo embora.
A última atividade do espaço foi uma palestra cujo tema era Dom Pedro II e o liberalismo, que atraiu cerca de vinte participantes na tarde de sábado.
Mas ocuparão o espaço novamente neste domingo, a partir das 14h, quando um telão será instalado para transmitir ao vivo a votação.
O sentimento é de certeza de vitória da oposição. “Estamos confiantes” disse uma das organizadoras do MBL (Movimento Brasil Livre), Paula Cassol, que não viajou para Brasília e comandará os microfones esta tarde no Parque Moinhos de Vento.Carlos Araújo exclusivo: "Ninguém sabe como vai terminar isso"
Elmar Bones
Carlos Araújo está se recuperando de uma pneumonia. Move-se com dificuldade e ainda mantém no nariz o tubinho de plástico para receber oxigênio quando sente falta de ar.
Mas quando o assunto é política nada parece incomodar o ex-deputado do PDT, que voltou à cena nacional com a chegada de Dilma Rousseff na presidência da República – eles foram casados e mantém até hoje uma relação muito próxima, de amizade e aconselhamento.
Ele se acomoda na cadeira e nem espera uma pergunta:
“Esse processo é uma vergonha, quase inacreditável. O mundo inteiro está perplexo. O presidente da Câmara, um corrupto, comandando um processo contra uma presidente que não está implicada em nada”.
Ele não tem dúvidas: tudo decorre do medo dos conservadores de perder mais uma eleição.
“Se o Lula morresse hoje, terminava tudo. Tudo é por causa da eleição de 2018. Eles já perderam quatro eleições seguidas. Não suportam a ideia do Lula vencer de novo, pois não tem liderança e nem unidade para enfrentá-lo. Aécio e Alckmin disputam no PSDB. A Marina é fracote, não é para chegar lá, é pra fazer meio de campo. Eles não tem parelheiro para correr esse páreo”.
Araújo tinha 16 anos quando Getúlio Vargas se suicidou para não ser destituído da presidência da República, em 1954. Já era militante do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, que fazia oposição a Vargas.
“Estávamos reunidos decidindo uma passeata contra Vargas, quando vimos a massa tomando as ruas e quebrando tudo porque o presidente tinha se matado. O povo estava certo e nós estávamos errados”.
Hoje ele vê, “do lado de lá”, a mesma “fração da elite” querendo derrubar Dilma. Primeiro, investiram contra Vargas e, depois, contra João Goulart, derrubado por um golpe militar em 1964. “É uma fração golpista, é um comportamento histórico deles”.
Até o núcleo ideológico que arregimenta forças contra Dilma é o mesmo, liderado pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). “Ali está entranhado o golpismo anti-popular”.
Seus instrumentos são também os mesmos. O jornal O Estado de São Paulo, da família Mesquita, o jornal O Globo, dos Marinho e, mais recentemente, a Folha de São Paulo.
“O Estadão é quase pré-capitalista. Parou em 1932 e não consegue sair dali. É um fazendeiro que não enxerga nada além da sua porteira. A Folha é um jornal de origem fascista. Os Frias são fascistas. O Globo… bem aí é o banditismo, o capitalismo selvagem”.
E vai dar certo de novo, contra Dilma?
“Olha, é uma jogada muito perigosa dessa fração das elites. A gente sabe como vai começar essa história, ninguém sabe como vai terminar. Não digo nem por luta armada, essas coisas, não estou falando isso, mas o processo histórico é que vai cobrar. Ninguém sabe como vai se desdobrar esse golpe”.
‘dialoguei até com torturadores’
Em 1964, Carlos Araújo se engajou na luta armada, na mesma organização de Dilma Rousseff. Conheceram-se e casaram na militância clandestina contra a ditadura.
Preso e torturado, ele não abandonou uma conduta: não se deixar levar pelo ódio. “Sempre mantive o diálogo, mesmo com os torturadores”.
Sempre manteve, também, a disposição de ver aspectos positivos, mesmo nas situações mais terríveis. Como agora:
“Vejo aspectos interessantes nesse processo. O mais importante deles é a volta da política à ordem do dia. Vejo meu filho e vejo uma gurizada que não queria nada com nada, agora estão discutindo política. Isso é muito importante”.
E o processo de impeachment que a Câmara está votando neste domingo?
“Eu acho que a Dilma pode ganhar ainda. Mas vai ser bigode a bigode, ali…uma parada muito dura. Ainda mais com um cara sem escrúpulos como o Cunha comandando o processo”.
Economia pode dar louros a Temer
Ele admite até que um governo Temer pode-se se dar bem num primeiro momento, se a situação econômica melhorar.
“A situação econômica é de extrema dificuldade e foi agravada pela oposição política que paralisa do governo. Mas as condições para retomar o desenvolvimento estão mais ou menos dadas… já começam a surgir os primeiros sinais de aquecimento, ainda tímidos, alguns setores da indústria voltam a crescer, a inflação começa a ceder, os investimentos afloram… Quer dizer, pode ser uma ironia…se derrubarem a Dilma, podem fazer o Brasil crescer no ano que vem e sair com esses louros…”
O problema será a reação dos setores organizados, como os sindicatos e as centrais de trabalhadores. “Para fazer a política que eles querem, vão mexer em direitos, a CLT vai acabar praticamente…Isso não vai passar sem muita resistência”.
Segundo Araújo, Dilma acha que vai ganhar. “Ela está confiante”. E ele?
“Sou mais reticente…O bombardeio negativo, na televisão, rádio, jornais é prolongado e intenso. Me dizem que temos 249 votos, não sei. O certo mesmo vai se ver na hora. Tem sempre essa faixa cinzenta dos que não se definem”.
Como será o dia seguinte, caso a Câmara aprove o impeachment
Bem, ela já disse que vai resistir até o fim. A Dilma terá que se preparar para resistir por 180 dias, caso o Senado inicie um processo de impeachment. A expectativa é que o ajuste fiscal de Temer, a pressão dos grupos de esquerda, as tentativas de esvaziar a Lava Jato, tudo isso crie um ambiente para que ela volte.
A Lava Jato corre risco?
Bem, o Moro anunciou ontem que Lava Jato vai terminar em dezembro. Já terá cumprido seu papel?.
E se a Dilma for mantida, enfraquecida por uma quase derrota?
Terá que governar com minoria, não tem problema. Esses episódios todos provam que essa aliança com o PMDB esgotou-se. Terá que buscar aliança com setores minoritários. Se houver alguma melhora na economia, os caras vem correndo, temos aí um ano eleitoral…Renascer das cinzas
Pinheiro do Vale
Rei morto, rei posto, é o ditado.
Isto para dizer que os elementos mais pragmáticos do núcleo duro do Palácio do Planalto, os fiéis soldados da presidente Dilma Rousseff, os que não abandonarão a trincheira, resistindo até a última gota de sangue, já estão traçando cenários para estudar as variadas possibilidades dos fatos novos que podem se produzir a partir desse domingo, 17 de abril.
Há planos para todo o tipo de futuro. Um dos mais interessantes é que sendo cassada num processo nitidamente viciado, internacionalmente reconhecido como fraudulento e conduzido por um conluio de políticos suspeitos, para dizer o mínimo de seus algozes, Dilma surpreendentemente para muitos pode ressurgir como uma grande liderança popular.
É por isto que estes cenaristas estão estudando, com seus juristas, as várias hipóteses de afastamento da presidente relativamente a seus direitos políticos.
Neste caso ela não poderia ser punida com a cassação de oito anos previstos para políticos depostos em crimes de responsabilidade.
A reportagem do New York Times é uma pista a ser seguida: a matéria acendeu os holofotes do sistema de internacional de apoio a movimentos sociais brasileiros ou estrangeiros sustentados por essas grandes organizações humanitárias que tanta ajuda deram às esquerdas brasileiras no passado.
Deposta, Dilma pode se converter numa estrela da esquerda internacional. O problema é que este desdobramento não lhe interessa muito, neste momento.
É isto que explica sua frase até hoje incompreendida: “Se cair serei uma carta fora do baralho”. Ou seja: “já fiz minha parte, agora me deixem envelhecer em paz”.
Dilma não terá esse descanso. O quadro político é muito favorável a ela nas duas hipóteses. A mais obvia é vencer o processo político ou derrubar o impeachment na Justiça e continuar presidente.
Não é só disto que se fala nos bastidores. Também da outra possibilidade, qual seja: relançado o processo eleitoral, caso por algum motivo pessoal (desencanto), familiar (pressão de mulher e filhos), de saúde, ou legais, Lula desista de 2018.
Neste caso, uma vez mais Dilma será o melhor nome e mais evidente expressão da esquerda para enfrentar o quadro fragmentado que se espera para o próximo pleito nacional.
Rápida análise da imagem que projeta seu desempenho nos últimos meses: mulher honesta, pessoa de reputação pessoal irretocável, lutadora, enérgica e, principalmente (para efeito de marketing eleitoral), vítima de uma conspiração.
Como isto chega no “povão”, no lado positivo: ela bradou que está sendo vítima de um “golpe”, expressão de fácil compreensão, associada à desonestidade.
No jargão popular golpe está, no mínimo, ligado à esperteza negativa. Golpe do vigário, golpe do baú… Mesmo golpe de sorte é suspeito, pois vem mais do acaso que do esforço.
Assim, golpe político é um bom slogan facilmente compreensível para tipificar uma violência, um roubo.
Se cair Dilma terá sido abatida por uma crise incontornável. É verdade que sua derrocada se daria numa baixa de popularidade. Entretanto, assim como ela não pode vencer a própria esquerda e implementar seu programa econômico, também a direita estará de mãos atadas para levantar os recursos necessários para ajustar as contas do Estado.
Sem um choque fiscal não há como regularizar o caixa da União. Não se esqueça de que tucanos e a FIESP fizeram do pato amarelo do imposto seu símbolo de luta. Seus algozes serão assombrados pela mesma maldição.
Em dois anos a crise pode relançar a esquerda e, também, o próprio PT, hoje estigmatizado. O Lavajato se conclui em dezembro, soltando o pé do partido das garras da mídia conservadora.
Se conseguir os meios para manter acesos os movimentos sociais, as ruas não darão trégua à direita, mantendo a pecha de golpismo carimbado na testa dos novos governantes.
É claro que, limpidamente, o candidato é Lula. Mas ele tem tantas barreiras que, como em2008, acossado pela maldição da sucessão em seu gabinete, escolheu um nome improvável, Dilma Rousseff, pode voltar à mesma solução.
Dilma não é maquiavélica. Pelo contrário, é uma pessoa de mente limpa. Entretanto, nos corredores do Palácio fervilham ideias e hipóteses. Em primeiro lugar é preciso contornar a inelegibilidade, não deixando o caldo entornar.
Em segundo articular uma resistência heroica e produtiva.
Em terceiro, manter-se na mídia, nacional e internacional, atraindo simpatias.
Em tal hipótese, Michel Temer é um sucessor sob medida: impopular, não controla seu partido e, mais ainda, terá de administrar um fracasso anunciado, por mais técnicas que sejam as medidas que seu governo tomar. Com a reeleição em vigor, ele viverá às portas do inferno, no mesmo barco dos demais candidatos.
Dilma poderá ressurgir triunfante das cinzas. Preste-se atenção aos próximos passos, pois ela poderá pular não fora do baralho, como gostaria. O importante é preservar seus direitos políticos. Dilma 2018, quem diria?
Prefeitura publica lista dos dez terrenos públicos que serão vendidos
A prefeitura de Porto Alegre divulgou o endereço dos dez imóveis que serão vendidos em um pregão no dia 17 de maio.
A lista está no site da prefeitura.
As vendas serão feitas por meio de licitação e a prefeitura espera arrecadar em torno de R$ 4 milhões. A abertura do certame, com entrega dos envelopes com as propostas, está marcada para as 14h30.
Entre os imóveis, está um terreno localizado na avenida Érico Veríssimo, 631, com valor mínimo de R$ 1,1 milhão.
A medida faz parte de um decreto de contenção de despesas em todos os setores e autarquias da prefeitura, lançado pelo prefeito Fortunati em março. Além da venda de imóveis, o decreto suspende a realização de concurso público, as nomeações e a contratação de serviços terceirizados.
Um segundo lote já está sendo preparado. A princípio, serão mais oito terrenos, que podem render cerca de R$ 7 milhões aos cofres da prefeitura. Entretanto, esta fase depende ainda da aprovação Câmara de Vereadores.UFRGS cobra audiência pública para debater manifestações de ódio
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul se manifestou por meio de nota em relação aos “cartazes com discursos machistas e ofensivos” que apareceram colados em paredes da instituição de ensino superior na última segunda-feira.
No texto, a universidade repudia a atitude e afirma que já solicitou à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa a realização de uma audiência pública para discutir o considera “manifestações de ódio e intolerância”.
A nota afirma ainda que a universidade está tentando identificar os responsáveis, através de imagens das câmeras de segurança.
A universidade lamenta o ocorrido e reafirma seu compromisso “com os direitos humanos, a diversidade e a respeitosa pluralidade de ideias.”
Leia a íntegra da nota
“A Universidade Federal do Rio Grande do Sul reitera seu repúdio à divulgação de cartazes com discursos machistas e ofensivos em espaços acadêmicos e esclarece que, desde que tomou conhecimento do ocorrido, está adotando as devidas providências. A UFRGS reafirma seu compromisso com os direitos humanos, a diversidade e a respeitosa pluralidade de ideias.
Na tentativa de identificar os responsáveis por essa atitude condenável, as imagens de câmeras próximas aos locais onde foram afixados os cartazes estão sendo analisadas pela Coordenadoria de Segurança da Universidade, para que sejam tomadas as medidas cabíveis.
Com a finalidade de discutir as manifestações de ódio e intolerância, a UFRGS, por meio do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e do Departamento de História, propôs à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado a realização de uma audiência pública.
Lamenta-se profundamente o ocorrido e espera-se que a sociedade como um todo saiba rejeitar com veemência ataques à dignidade humana.”
