Autor: da Redação

  • Por que é tão difícil tirar dinheiro dos ricos

    Sergio Lagranha
    Por que é tão difícil tirar dinheiro dos ricos?
    Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia em 2001, 72 anos, esteve no Brasil no início de novembro para participar do Fronteiras do Pensamento, em São Paulo. Professor da Universidade de Columbia, em Nova York, Stiglitz é autor de trabalhos fundamentais como “Rumo a um novo paradigma” e mais recentemente “O preço da desigualdade”, sobre a mais nova crise do capitalismo, que começou com a quebra dos mercados em 2008.
    Juntamente com o francês Thomas Piketty (O Capital), é uma das principais vozes que entende que a questão distributiva está no cerne da análise econômica. Os vultosos desequilíbrios que se manifestaram nos mercados financeiros, na cotação internacional do petróleo e nos mercados imobiliários durante as últimas décadas puseram em xeque a ideia de convergência inexorável para a trajetória de crescimento equilibrado.
    Joseph Stiglitz foi o entrevistado do Espaço Público, da TV Brasil, apresentado pelos jornalistas Paulo Moreira Leite e Florestan Fernandes Júnior. Abaixo, partes fundamentais de sua entrevista:
    Conselho à presidente Dilma Rousseff
    Acho que o Brasil deveria se comprometer com as políticas desenvolvidas nos últimos 20 anos, que começaram com o presidente Fernando Henrique Cardoso e continuaram o presidente Lula. Melhorar a educação, expandir o Bolsa Família, combater a fome. O Brasil é um exemplo de combate eficaz às desigualdades. Vê-se pelas estatísticas. É surpreendente.
    Em um curto período, percebe-se uma grande redução na desigualdade. É uma grande conquista. A questão é como dar continuidade. Segundo vocês, uma das razões para o sucesso foi a redução do desemprego. Com a gente não foi diferente. Porém, o que me preocupa hoje é que vocês estejam impondo políticas de austeridade, com cortes que sem dúvida aumentarão a taxa de desemprego e aumentarão as desigualdades.
    Há um aspecto da economia brasileira que deveria ser investigado mais a fundo. Refiro-me ao setor financeiro. O Brasil é uma exceção. Talvez não de uma forma para se orgulhar. O Brasil tem sim umas instituições muito boas, que são respeitadas no mundo inteiro como o BNDES, um dos primeiros bancos de desenvolvimento, que é usado em toda parte como modelo do que vale a pena imitar. O novo banco de desenvolvimento dos BRICS, o AIIB (Asian Infrastructure Investment Bank), todos usam o BNDES como modelo.
    No entanto, as entidades privadas do setor financeiro cobram as maiores taxas de juros do mundo. As taxas de juros sufocam a economia e acabam com o orçamento, tiram dinheiro que poderia ser usado para o crescimento, para combater desigualdades, para resolver diversos problemas.
    Quero tentar colocar isso em uma perspectiva histórica. Voltemos aos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, a dívida pública em relação ao PIB era de 130%. Provavelmente mais que o dobro da dívida do Brasil. A maioria das pessoas veria nisso um desastre. Mas nós não encaramos como um desastre. Dissemos: Alcançaremos a sustentabilidade não com cortes em investimentos, mas aumentando os investimentos, para fazer o PIB crescer. Se o PIB cresce, a dívida pública diminui. Usamos essa estratégia.
    Demos educação gratuita, a todos que lutaram na guerra. Não durante dois ou quatro anos, mas até que estivessem qualificados. Não nas escolas ruins, mas nas melhores e mais caras. Em Harvard, Columbia e de graça. Queríamos a economia crescendo com oportunidade para todos. Criamos um programa nacional de rodovias. Precisávamos do pais unido.
    As ferrovias foram feitas no meio do século 19. Criamos programas de tecnologia, para garantir que teríamos a tecnologia mais avançada do mundo. O ponto-chave é: não fizemos cortes, gastamos. Mas parte do sucesso em reduzir a dívida pública deveu-se à queda das taxas de juros. Não permitimos que o nosso governo pagasse as taxas exorbitantes que o governo brasileiro paga.
    No Brasil os ganhos de capital não são taxados
    É revoltante. Nos EUA, debatemos a criação de um sistema tributário mais justo, segundo o qual a renda de todos deve ser tributada da mesma forma. Por que taxar mais a renda de um trabalhador que a de quem junta cupons ou herdou dinheiro dos pais, que especula no setor imobiliário? Por que pagam menos impostos de quem trabalha para viver? Não há justificativa. Então, devemos nos perguntar: podem ao menos nos livrar dessa distorção e dessa desigualdade? Quando ouço falar de países como o Brasil, que não cobram nenhum imposto, não consigo entender.
    Força dos bancos nas campanhas políticas
    Essa é uma luta em todo lugar. Lutamos muito nos EUA para regular os bancos, acabar com os empréstimos predatórios, com a exploração. Foi uma grande luta. A sociedade civil engajou-se bastante. Vale dizer que tínhamos um projeto de lei forte, o Dodd-Frank (fez alterações no ambiente regulatório financeiro americano) aprovado no governo Obama, em 2010. Havia um equilíbrio de poder entre 350 milhões de cidadãos e 10 bancos. Era basicamente igual. Mas tínhamos um trunfo.
    Olhando para nossa história a de vocês é diferente. Houve dois períodos no passado, quando o interesse corporativo fugiu do controle, quando a desigualdade fugiu do controle. Nesses dois momentos, os eleitores americanos ergueram-se e disseram: ‘Ainda somos uma democracia. Ainda.’ Eles foram às urnas. E após a Era de Ouro no final do século 19 instaurou-se uma legislação progressista, bipartidária, que abriu a concorrência e reduziu o poder monopolista. Funcionou por um tempo.
    Após a loucura dos anos 20, com a quebra da Bolsa, a grande depressão, aprovamos a Glass-Steagall e o Wagner Act que dava direito de negociação aos trabalhadores. Aprovamos a Previdência Social que protegia os idosos. Demos uma nova cara aos Estados Unidos. A questão é: o Brasil precisa de um eleitorado indignado que diga: Olha não há porque o Brasil ser diferente de qualquer outra economia de mercado ou mista. Por que as taxas de juros são exorbitantes? Por que o governo tem que pagar esta taxa?
    Há diversas formas de reagir nesse cenário. Ao mudar as regras e os controles mudamos o funci0namento do mercado financeiro. Se me pergunto o que minou a confiança nos Estados Unidos. Foi o nosso sistema financeiro que provocou a crise global. Depois da crise, o dinheiro voltou para os Estados Unidos. Por que? Foi porque confiavam no nosso sistema bancário? Não. Nosso sistema bancário se mostrou incompetente na gestão de risco. Seu único ponto forte era a exploração de gente comum na concessão de empréstimos predatórios, créditos de risco, coisas assim. O dinheiro voltou porque confiavam no nosso governo. Sabiam que o governo apoiaria o sistema financeiro.
    Basicamente o Brasil precisa mudar as regras que supervisionam os bancos. Por exemplo: se vocês exigissem que os bancos recolhessem mais depósitos e os mantivessem em reservas e essas reservas fossem emprestadas ao governo. Isso reduziria o custo da dívida para o governo brasileiro. É uma mudança de regra simples. A maioria dos países exige que o sistema bancário mantenha grandes reservas no Banco Central e emprestam esse dinheiro ao governo, a juros muito baixos ou nulos. Assim, o governo arrecada fundos a juros muito baixos. Ou seja, tudo depende de como definimos as regras do jogo.
    O que funciona no mercado financeiro do Brasil é o BNDES
    O fato das taxas de juros do Brasil serem tão altas deixa as empresas do país em desvantagem competitiva em relação ao resto do mundo. Vocês tiveram resultados bons até demais, considerando as desvantagens competitivas impostas pelo mercado financeiro. Mas precisam reconhecer que há algo errado com o mercado financeiro que põe toda a economia do país em tamanha desvantagem.
    A única parte do mercado financeiro que está funcionando, de certa forma, são os bancos desenvolvimento, como o BNDES. Eles emprestam com juros razoáveis. Alguns dizem que são subsidiados. Não são subsidiados. São taxas de juros normais. São taxas de juros praticadas em qualquer economia normal. A taxa dos títulos do Tesouro dos EUA ajustadas à inflação está em -2%. Ou seja, temos uma taxa de juros negativa, enquanto a taxa real de juros no Brasil é bem positiva e elevada. É uma concorrência desleal. As taxas negativas nos livraram de um desempenho econômico ainda pior do que teríamos de outra forma.
    A economia dos Estados Unidos continua frágil sobretudo a dois fatores: Primeiro, nossa enorme desigualdade, que significa falta de demanda. Quando há muito dinheiro no topo e muito pouco na base, ocorre falta de demanda e isso enfraquece a economia. O segundo fator é político. Temos uma espécie branda de austeridade. Mais branda que a da Europa, Grécia, Espanha e Portugal, mas ainda assim ela existe, e a maioria das pessoas não percebe.
    Temos hoje cerca de meio milhão de funcionários públicos a menos do que tínhamos antes da crise. Com uma expansão regular da nossa economia, teríamos em média dois milhões de funcionários públicos a mais. Uma lacuna de 2,5 milhões. É um grau sério de austeridade. Mesmo dissimulado, tem debilitado nossa economia. Vemos essa fraqueza refletida em aumentos salariais. Os salários estão quase estagnados. Faz parte da história, da enorme luta travada pela classe média americana.
    Ninguém constrói a vida do zero
    Algo que chama a atenção na sociedade de hoje é que muitas pessoas que estão no topo creem que sua superioridade econômica é uma recompensa justa pelo trabalho que fazem. Um candidato à presidência dos EUA disse que construiu a vida do zero, um self made man. Só que ninguém constrói a vida “do zero” por definição. Há um problema fundamental: todos nós nos beneficiamos com a sociedade em que vivemos.
    Vejo gente que trabalha muito, gente muito talentosa, em outros países, e que não tem dinheiro. Se conseguimos conquistar alguma coisa é graças a sociedade em que estamos; como o governo fiscaliza a aplicação as leis, o usufruto das rodovias públicas, todas essas coisas quem nem paramos para pensar, mas são fundamentais para nosso bem-estar. As pessoas precisam entender que não existe prosperidade “do zero”. Somos todos parte da sociedade. É por isso que ser solidário é tão importante.
    Um voto para cada dólar
    Essa é uma das principais questões que discuto no meu livro “O preço da desigualdade”. Há uma conexão muito forte entre a desigualdade econômica e política. Gostamos de pensar em democracia como “um voto para cada pessoa”. Pois eu digo que na democracia americana, e em outros países também, tem-se visto, cada vez mais, “um voto para cada dólar”.
    Nos Estados Unidos somos muito abertos, permitimos que as empresas façam doações ilimitadas às campanhas. E o dinheiro fala mais alto na política. Nos Estados Unidos, por exemplo, e também em outros países, vocês sabem do Brasil mais do que eu, quem está no topo paga menos impostos que aqueles mais abaixo.
    Até Warren Buffett, um dos maiores magnatas dos EUA, chegou a dizer: ‘Isso está errado.’ Ele achava errado pagar menos impostos que a secretária dele. Mas embora tenha dito isso, e ele é uma das vozes honestas que pedem reformas, não mudamos nada.
    Ou seja, ainda é verdade que os especuladores fundiários, que são muito ricos, pagam a metade dos impostos de quem trabalha para viver. Dei um depoimento no Congresso há pouco tempo em uma comissão de republicanos, democratas e independentes e um dos senadores pediu que eu explicasse para ele, para um de seus eleitores, que é encanador, por que paga mais impostos que um especulador fundiário. Especulação fundiária não gera mais terras. Não há nenhum aumento da oferta. Ele diz que não é justo e pediu uma explicação. Ninguém conseguiu explicar e, ainda assim, o Congresso não muda isso. Nem mesmo o Presidente propõe uma mudança.
    Nos EUA os salários dos pobres estão mais baixos do que há 60 anos
    Cerca de 30 anos atrás, os Estados Unidos começaram uma experiência. Se diminuirmos os impostos no topo, acabamos com os controles, a economia cresce mais rápido. A desigualdade aumentaria, mas o crescimento seria tão grande, que até a classe média ou baixa se beneficiaria. Mais de 30 anos se passaram desde esse experimento, e ele está falido. Só serviu para uma coisa: criar desigualdade. E tornar os Estados Unidos, entre os países desenvolvidos, com maior desigualdade e um dos países com menor igualdade de oportunidades.
    Infelizmente, a economia na realidade cresceu mais devagar do que nas décadas após a Segunda Guerra com a riqueza mais distribuída. Como resultado, quem está no meio piorou de situação de 25 anos para cá. Quase todo o crescimento de um terço do século foi direcionado aos 10% do topo. Nas camadas mais baixas os salários estão mais baixos do que há 60 anos. Imaginem 60 anos sem aumento para os mais pobres!
    Infelizmente os republicanos comprometeram-se ao chamado doubling dow, que significa duplicar uma aposta em uma estratégia malsucedida. Colocar mais dinheiro. O plano não dá certo há mais de 30 anos? Então, não fizemos o suficiente. Reitero a minha análise, que está no livro: se continuarmos assim a desigualdade só vai aumentar e o crescimento diminuir. O argumento que defendo no livro “O preço da desiguaçdade” é: estamos pagando caro pela desigualdade, pela nova lógica “um voto para cada dólar” e ainda enfraquecemos nossa economia, que está ficando mais lenta, mais imediatista.
    A desigualdade no centro da discussão
    Esta não é uma noção da esquerda. O FMI, que não é de esquerda, já divulgou pesquisas que mostram que países mais desiguais apresentam desempenho mais baixo, crescem mais devagar, com menos estabilidade. Há muitas razões para isso, que minha pesquisa, a do FMI e a da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) tentam investigar.
    A primeira é a seguinte: Quando a desigualdade é grande, sobretudo em termos de oportunidades, isso significa que as camadas mais baixas estão ficando abaixo do potencial. Não tem uma educação adequada. Na realidade ocorre um mau uso, um subaproveitamento do recurso mais importante: o humano. Não é aproveitado ao máximo. É claro que isso reduz o crescimento.
    Há outras razões que têm a ver com o crescimento da desigualdade na maioria dos países e com distorções da economia, como o poder no monopólio, quando presidentes de grandes empresas conseguem ficar com uma fatia tão grande da renda da empresa que não sobra nada para investir. Se não há investimento, não há crescimento.
    O setor financeiro, uma das maiores fontes da desigualdade, tem tirado dinheiro das empresas em vez de investi-los. Assim surgem as distorções desses monopólios que, na verdade, reduzem o crescimento. Existem ainda outros problemas. O sistema financeiro, fonte de tanta desigualdade, e imediatista e, portanto, não investe em tecnologia, em gente e, como consequência, a economia não se sai muito bem.
    Mas há ainda uma razão muito importante, que nos leva de volta à questão da solidariedade. Para que uma sociedade funcione, é necessário que haja um consenso. É necessário que haja apoio ao investimento público em infraestrutura, tecnologia, educação, tudo que faz a sociedade funcionar. Vivemos numa sociedade urbana e quem vive nesse meio interage muito. Precisamos de água, saneamento, pavimentação. Se não há solidariedade social, se não há coesão, não haverá apoio político para os investimentos públicos, que são essenciais.
    Uma das razões para essa falta de apoio é que quem está no topo não precisa de escola pública. Não precisa de transporte público. Eles já têm até helicópteros. Não precisam de parques, nem de outros serviços públicos. Eles têm medo de que, se o governo for forte demais vá usar o poder para distribuir renda. Não percebem como essa visão é estreita porque a única prosperidade sustentável e real é a prosperidade compartilhada. Quando a sociedade tem mais coesão e igualdade até o 1% mais rico se beneficia.
    Derrocada nos processos democráticos de Grécia e Portugal
    O que está muito claro é que as políticas econômicas que a troika – FMI, o banco central europeu e Comissão Europeia – impuseram sobre Grécia, Portugal e outros países foram um desastre. A consequência veio em forma de depressões. Essa austeridade é inaceitável. 62% da população dos dois países votaram contra a austeridade. Mas o que se passa na Europa é preocupante porque corrói a democracia.
    No caso da Grécia, após as eleições, a troika disse: ‘a escolha da política econômica não cabe a vocês. Vocês devem nos obedecer.’ Ao entrar na zona do euro, abriram mão da autonomia econômica. Em Portugal o presidente se recusa a instalar uma coligação que tinha a maioria dos votos. Alega que são contra a zona do euro. Estamos presenciando uma verdadeira derrocada dos processos democráticos nos dois países.
    Em linhas gerais o euro era um projeto político, mas a solidariedade não era forte suficiente para criar instituições que o fariam funcionar. Por causa disso, desenvolveram um projeto econômico, mas a integração econômica sobrepujou a política. Desde a criação do euro vemos o resultado que, ao meu ver, foi um desastre tão econômico quanto político. Portanto, eles perderam a soberania econômica.
    Outro aspecto preocupante é que há muita desonestidade e hipocrisia. O FMI foi bem claro: A dívida da Grécia precisa ser restruturada. Ela não pode ser paga. Não dá para tirar dinheiro de onde não existe. O princípio de dar a uma empresa, família ou país a chance de recomeçar é um princípio básico da economia. A ONU tem seguido esse princípio, mas a Alemanha se recusa a reconhecê-lo.
    O desfecho que prevejo é uma espécie de hipocrisia linguística. Farão uma ‘remodelagem’ da dívida. E qual a diferença entre remodelagem e renegociação ou redução da dívida? É tudo a mesma coisa, mas os alemães não admitem que não serão pagos. E não serão pagos pelo que a Alemanha fez com a Grécia. Se a Alemanha tivesse criado um programa que permitisse o crescimento da Grécia, a Grécia teria condições de pagar. A Alemanha, na verdade, matou a Grécia. E agora vai pagar o pato, porque a Grécia não tem dinheiro para pagar a dívida. Tudo isso aumenta a desigualdade entre os países da Europa e dentro da Europa.
    Se você faz parte do 1% mais rico, vá para os EUA
    Para mim o ponto-chave é que a Guerra Fria acabou; a guerra entre o comunismo e a economia de mercado acabou e agora precisamos reformular a discussão. Que tipo de sociedade é esta que temos? Sabemos que, para que uma economia prospere, o mercado precisa ser valorizado. Pode ser uma economia de mercado, mas também sabemos que, em toda a economia bem-sucedida, o governo desempenha um papel importante.
    Quem incentiva os investimentos dos Estados Unidos na Internet? Todas as grandes inovações nos EUA tiveram o suporte do governo. Depois as empresas chegam e colocam no mercado, mas foi o governo que fez a pesquisa básica. Portanto, temos o governo, temos o mercado, e temos ainda a sociedade civil. Quais são as instituições mais fortes dos Estados Unidos? São as universidades. Não visam ao lucro nem são governamentais. Harvard, Columbia, nenhuma tem fins lucrativos. Não são nem governo nem mercado. São parte do que eu chamo sociedade civil.
    Precisamos pensar como equilibrar os três. Se houver desequilíbrio, chegamos a uma situação em que a sociedade não funciona bem. Foi o que aconteceu nos EUA antes da crise de 2008. Perdemos o equilíbrio, deixamos os mercados livres demais. Todos sofremos as consequências. Ainda sofremos as consequências.
    Há diversos tipos de economia de mercado. Os países escandinavos têm conseguido um equilíbrio maior. Têm crescido com mais força e todos os setores da sociedade sentem essa prosperidade. É um modelo econômico possível, uma alternativa ao americano, e acho que, sob muitos aspectos, tem funcionado bem melhor para a maioria dos cidadãos.
    Se você faz parte do 1%, vá para os EUA, é o melhor lugar. Ainda mais se você faz parte do primeiro décimo desse 1%. Mas se você é pobre, não é o melhor lugar para nascer. Escolha outro lugar para nascer. Esta é uma discussão importante para o Brasil e outros países: que tipo de sociedade, que tipo de equilíbrio entre essas três partes da sociedade almejamos.
    Período no Conselho Econômico de Bill Clinton
    É claro que o primeiro mandato do presidente dos EUA Bill Clinton (1993-1997) foi um período muito bom, quando começamos a reduzir a desigualdade, em parte graças ao nosso trabalho, mas graças também ao que ocorria na economia mundial. Uma das coisas que fizemos foi ajudar a planejar uma economia voltada ao pleno emprego.
    Quero salientar como isso é importante, tanto para o crescimento como para a prosperidade partilhada. Porque quando reduzimos a taxa de desemprego – hoje considera-se aceitável 5% a 6% de desemprego – cria-se pressões para aumentar os salários da base. Isso ajuda as pessoas que estão na base. Vimos de forma clara que somente neste período que os grupos sociais marginalizados como os afro-americanos, latinos, começaram a ter aumentos salariais.
    Essa é uma das principais razões para a redução da desigualdade. Justiça seja feita, eu era chefe do Conselho de Assessoria Econômica (de 1995 a 1997), e impedimos que certas coisas ruins acontecessem. Depois que saí, no segundo mandato de Clinton (1997–2001), alguns erros foram cometidos.
    E houve, a meu ver, um número considerável de erros, isto é, a desregulação do setor financeiro, a revogação da lei Glass Steagall, que separava os bancos comerciais dos de investimentos. A lei que proibia controlar derivativos, produtos de risco que levaram contribuintes a pagar US$ 180 bilhões para salvar uma única empresa, a seguradora AIG. Foi inacreditável. Combati esses problemas quando era chefe do conselho.
    Bastidores do governo Clinton
    Na verdade, tivemos uma discussão interna no governo de Bill Clinton. O secretário do Tesouro era a favor de revogar a Lei Glass Steagall, mas como economista, não como executivo de Wall Street. Ele veio de Wall Street e voltou para lá. Eu adotava o ponto de vista da economia, da sociedade como um todo, e disse que aquilo não eram bom, nem para a economia, nem para a sociedade. Eu expliquei os motivos e conseguimos revogar a lei. Mas, no final, as forças desregulação cresceram demais. Aquelas mudanças foram feitas e pagamos um preço muito alto, por esse tipo desregulação do setor financeiro.
    Outra coisa aconteceu, enquanto eu ainda chefiava o Conselho de Assessores Econômicos. Foi uma batalha que lutei e perdi. Ganhamos algumas, perdemos outras, faz parte da política. Refiro-me à batalha de reduzir os impostos sobre os ganhos de capital. Nossa análise no conselho era bastante clara. Reduzir os impostos sobre os ganhos de capital não gera mais investimento. Menos impostos para a especulação fundiária não gera mais terra. Gera apenas mais gente rica. Então, os ganhos de capital não resultaram em bons incentivos. Geraram incentivos distorcidos, estimulando a especulação. Mas isso criou ainda mais desigualdade. Clinton reduziu os impostos sobre ganhos de capital, mas o problema piorou na gestão de presidente Bush, quando foram reduzidos ainda mais. O que acabou gerando mais desigualdade nos EUA.

  • Barrados no cais

    Os integrantes do movimento Cais Mauá de Todos foram impedidos pelos segurança de acessar a área do porto, no centro de Porto Alegre.
    O movimento realizou na tarde desta sexta-feira o debate “A cidade que queremos”, no Santander Cultural.
    Mais de cem pessoas lotaram a Sala Leste do Santander Cultural. Outros tanto ficaram  do lado de fora.
    Ao final, os participantes fizeram uma caminhada que deveria ser encerrada na beira do Guaíba. Esbarraram no guarda no portão principal que já foi porta de entrada e saída de Porto Alegre.
    O segurança alegou que o espaço está aberto a visitação durante o período da Feira do Livro, mas somente das 8h às 18h. Segundo Rafael Ferretti, integrante do movimento, o horário de visitação era até as 19h nos demais dias da Feira.
    A atitude do guarda confirmou o relato feito pouco antes pelo jornalista Rafael Guimaraens, autor do livro Águas do Guaíba.  Rafael contou no debate no Santander que, em companhia de um fotógrafo,  tentou entrar no cais para fotografar, mas foi barrado pelos seguranças. “Aqui não pode entrar, é área privada”, disse o guarda.

    Evento lotou a Sala Leste do Santander Cultural / Foto Sabrina Ortácio
    Evento lotou a Sala Leste do Santander Cultural / Foto Sabrina Ortácio

    Debate foi ampliado para além do Cais
    O evento começou às cinco da tarde com a manifestação de integrantes do movimento Cais Mauá de Todos.
    A arquiteta Lena Cavalheiro destacou a importância de ver a cidade com um espaço de reflexão e debate. Para ela, o que o movimento está buscando é a construção de um espaço público para discutir a cidade.
    “Ainda estamos engatinhando, mas foi engatinhando que o ser humano aprendeu a correr. Então estamos no caminho certo.”
    A arquiteta levantou ainda a necessidade de se desmistificar o termo ‘iniciativa privada’, que geralmente é compreendido no sentido de projetos de grandes empresas.
    Para ela, qualquer iniciativa de cidadão pode ser considerada uma iniciativa privada.
    A educadora Nazareth Hassen criticou o “esquadrinhamento” das cidades, gerado pelo processo de urbanização. “Existe um lugar para as crianças, outro para os velhos, outro para os doentes mentais. Tem um tipo de galho para cada tipo de macaco.”
    Narazeth encerrou sua fala brincando com as críticas dirigidas aos apoiadores do movimento, chamados de caranguejos pelos opositores. “Caranguejo, em uma ferrovia, é uma plataforma que desloca um vagão de uma linha para outra. Nós queremos colocar o trem de volta na linha certa. Neste caso, somos duplamente caranguejos.”
    O historiador e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Francisco Marshall, anunciou a recente criação de um comitê na Universidade para reunir profissionais de diversas áreas em torno do assunto.
    Rafael Passos, vice-presidente do IAB-RS (Instituto de Arquitetos do Brasil), trouxe para o debate outros temas que estão em questão em Porto Alegre, como o uso das Áreas Urbanas de Ocupação Prioritária e o chamado Conselho do Plano Diretor (Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental), que, segundo ele, vive um dos seus piores momentos. “Até na ditadura o Conselho tinha mais poderes do que hoje,” afirmou.
    Rafael Passos, vice-presidente do IAB-RS / Foto Sabrina Ortácio
    Rafael Passos, vice-presidente do IAB-RS / Foto Sabrina Ortácio

    Passos defendeu a importância do amplo diálogo e afirmou que “em uma boa gestão democrática, ninguém fica completamente satisfeito, justamente para que ninguém fique completamente insatisfeito.”
    O sociólogo Milton Cruz questionou a permanência do muro. “Separou a cidade do rio durante gerações. Recentemente ele foi necessário e não funcionou completamente, pois vazou água. O muro da Mauá vale mesmo a pena?” Cruz criticou a postura da classe política que, segundo ele, usa o planejamento como argumento de campanha, mas esquece do discurso quando se elege.
    Uma proposta: serrar o muro ao meio
    Após as falas dos integrantes da mesa, foi aberto espaço para perguntas e colocações do público.
    O arquiteto Paulo Leônidas criticou a forma como foi realizado o evento. Para ele, não se tratava de um debate, pois não havia a presença de ideias divergentes, todos estavam “do mesmo lado”.
    Leônidas sugeriu que o muro da avenida Mauá fosse cortado pela metade, mantendo a barreira contra enchentes sem bloquear a vista e o acesso ao Guaíba.
    Antes que ele concluísse sua fala, foi interrompido pela mediadora do debate, a radialista e integrante do movimento Cais Mauá de Todos, Kátia Suman.
    Fernando Barth, delegado pela região 1 do Conselho do Plano Diretor, também fez críticas ao movimento. “Eles reclamam que o outro lado está escondendo o projeto, mas eles também não estão apresentando nenhuma alternativa”.
    Lena Cavalheiro rebateu dizendo que a ideia não é apresentar um projeto fechado e sim possibilitar um debate com a sociedade para se chegar a um projeto democrático. Barth levantou ainda um questionamento sobre o que será feito com a linha férrea do Cais.
    Fernando Barth, delegado da região 1 do CMDUA criticou falta de projeto/ Fotos Ramiro Furquim/Jornal Já
    Fernando Barth, delegado da região 1 do CMDUA/ Fotos Ramiro Furquim/Jornal Já

  • Ataque na França: o mais ousado depois do 11 de setembro

    Seis ataques simultâneos deixaram pelo menos 128 mortos em Paris e 250 feridos;
    houve três explosões próximas ao Stade de France, onde a França disputou uma partida amistosa contra a Alemanha;
    presidente François Hollande estava no estádio e deixou às pressas o local;
    O Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pelos ataques.
    Em declaração oficial, o grupo disse que seus combatentes presos a cintos com explosivos e carregando metralhadoras realizaram os ataques “cuidadosamente estudados” em vários locais no centro da capital francesa.
    “Oito irmãos com explosivos na cintura e fuzis fizeram vítimas em lugares escolhidos previamente e que foram escolhidos minunciosamente no coração de Paris, no estádio da França, na hora do jogo dos dois países França e Alemanha, que eram assistidos pelo imbecil François Hollande, o Bataclan onde se estavam reunidos centenas de idolatras em uma festa de perversidade assim como outros alvos no 10º arrondissement e isso tudo simultaneamente. Paris tremeu sob seus pés e as ruas se tornaram estreitas para eles. O resultado é de no mínimo 200 mortos e muitos mais feridos. A gloria e mérito pertencem a Alá”, diz o comunicado.
    O presidente da França, François Hollande, disse em declaração à nação que os atentados “são um ato de guerra do Estado Islâmico contra a França”.
    Os ataques, segundo Hollande, foram organizados “no exterior da França” e que contaram com “cúmplices no interior” do país.
    O chefe de polícia de Paris, Michel Cadot, afirmou que, quando a polícia invadiu o local, quatro terroristas se suicidaram, detonando explosivos tinham em seus cintos. Ele afirmou ainda, que antes de entrar no local os homens dispararam tiros de metralhadoras em cafés que ficam do lado de fora do Bataclan.
    Agências internacionais de notícias informam que 8 terrositas morreram, dos quais 7 se suicidaram.
     
    Por volta da 1h30 (22h30, em Brasília), o presidente francês François Hollande chegou ao local, onde permaneceu por cerca de meia hora. “Há muitos feridos, feridos graves, feridos chocados com o que viram”, disse o presidente, ao justificar porque quis ir ao local. “Quando os terroristas estão dispostos a cometer tais atrocidades, eles devem saber que irão encarar uma França determinada”, acrescentou. “Iremos conduzir a luta (contra os terroristas), e ela será implacável”, garantiu.
    A casa fica no boulevard Voltaire, no 11º arrondissement, tem capacidade para 1.500 pessoas e era palco de um show da banda Eagles of the Death Metal.
    A banda, que na hora do início do ataque terminava o show no palco do Bataclan, escapou do palco pelos bastidores e está a salvo. Os músicos chegaram a ver os atiradores, mas encerraram o show quando notaram o ataque e fugiram.
    Corpos de mortos em ataque a tiros no restaurante La Belle Equipe são vistos entre mesas, com sangue na calçada em frente ao estabelecimento em Paris (Foto: Anne Sophie Chaisemartin via AP)
    declarado estado de emergência em toda a França e que os controles nas fronteiras seriam reforçados. A presidência também anunciou que 1.500 soldados serão enviados a Paris.
     

  • Agência suspende 43 planos de saúde: Unimed Rio a mais atingida

    A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) suspendeu a comercialização de 43 planos de saúde de 16 operadoras pelo não cumprimento dos prazos máximos de atendimento e de queixas sobre negativas indevidas na cobertura hospitalar.
    A medida entra em vigor a partir da próxima quinta-feira (19).
    As operadoras ficam impedidas de receber novos consumidores nesses planos até comprovarem melhoria da assistência.
    O atendimento permanece normal para quem já é cliente dos planos.
    A mais atingida foi a Unimed do Rio de Janeiro, com vendas bloqueadas de 15 modalidades de planos.
    As operadoras que negaram indevidamente cobertura aos clientes, além da interrupção na venda, podem receber multas que variam de R$ 80 mil a R$ 100 mil.
    O diretor-presidente da ANS, José Carlos Abrahão, disse que o monitoramento feito pela agência procura induzir as operadoras a mudarem o comportamento, com melhorias na assistência prestada aos usuários.
    “A medida funciona em dois sentidos. Por um lado, obriga as operadoras a melhorar o atendimento para voltar a comercializar esses planos para novos clientes. Por outro, protege os beneficiários desses planos, já que evita a entrada de novos consumidores enquanto não houver comprovada adequação da assistência”, disse.
    Paralelamente à suspensão, 38 planos de saúde de 14 operadoras, que estavam com a comercialização interrompida, poderão voltar a operar, já que comprovaram melhoria no atendimento ao cidadão.
    Confira a lista dos planos de saúde que terão a comercialização suspensa e os que serão reativados.

  • A Revolução Eólica (55) – Leilão de energia solar e eólica teve deságio de 15,35%

    O segundo Leilão de Energia de Reserva de 2015 terminou com deságio de 15,35%. O preço médio da energia negociada ficou em R$ 249 por MWh (megawatt-hora). O leilão é destinado à contratação de energia elétrica proveniente de novos empreendimentos de geração a partir das fontes solar fotovoltaica e eólica.
    Foram contratados 2.626 lotes de energia eólica, o que movimentou mais de R$ 2,4 bilhões. Os empreendimentos que venderam energia estão localizados na Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte, totalizando 20 projetos. A potência total ficou em 46,03 milhões de MWh.
    Já a energia solar fotovoltaica movimentou mais de R$ 4,3 bilhões. Foram contratados 2.453 lotes em empreendimentos localizados no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais, Paraíba, Bahia e Tocantins, totalizando 33 projetos. A potência total ficou em 43 milhões de MWh.
    O início do suprimento está previsto para 1º de novembro de 2018 e a energia elétrica gerada será objeto de Contrato de Energia de Reserva (CER), na modalidade por quantidade de energia com prazo de suprimento de 20 anos.
    O leilão foi feito via internet, com operacionalização da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), em São Paulo. O Preço Inicial do Produto Quantidade para empreendimentos fonte solar fotovoltaica era R$ 381/MWh, e R$ 213/MWh para fonte eólica. O resultado do leilão está disponível em www.ccee.org.br. (Agência Brasil)
     

  • Vila Liberdade: terreno garantido, projeto a executar

    O Estado cedeu ao município de Porto Alegre uma área de 43.800 metros quadrados para a construção de um loteamento com 700 casas na Vila Liberdade, no bairro Hmaitá, entorno da Arena do Grêmio. O termo de cessão foi assinado na manhã desta sexta-feira, 13. A transferência, firmada pelo prefeito José Fortunati e pelo secretário estadual de Obras, Saneamento e Habitação, Gerson Burmann, era aguardada desde o incêndio que atingiu a vila, em janeiro de 2013.
    O Departamento Municipal de Habitação (Demhab) está encarregado dos estudos de sondagens para a conclusão do projeto de infraestrutura, que embasará a seleção pública para escolher a empresa que executará as obras. “Poderemos, agora, construir as moradias que a Vila Liberdade necessita”, disse o prefeito. Ele lembrou o engajamento histórico da comunidade nas assembléias do Orçamento Participativo. “A plenária realizada aqui é uma das principais da cidade, sempre com grande participação e envolvimento das lideranças”, observou.
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    A assinatura do documento contou com a presença de moradores. O incêndio de 2013 atingiu 90 casas, desalojando 194 famílias, sendo que a maioria encontra-se amparada pelo aluguel social viabilizado pela prefeitura em residências próximas. “Só tenho a agradecer, esta é uma conquista com que sonhamos há muito tempo. A prefeitura enxergou a nossa causa e levantou essa bandeira junto conosco”, destacou o presidente da Amovil, Erlon Nogueira de Lima.
    Atualmente, o departamento constrói 82 unidades habitacionais na avenida Frederico Mentz, para algumas famílias da Liberdade. Moradora há 22 anos do local, a aposentada Adiles Pereira, que hoje conta com o aluguel social, não escondia o sorriso ao falar das perspectivas futuras. “Ter um apartamento aqui será a felicidade máxima”, imaginou. Também participaram do ato o vice-prefeito Sebastião Melo, o secretário de Direitos Humanos, Luciano Marcantônio, o vice-presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Mario Fraga, e gestores do Centro Administrativo Regional (CAR) Humaitá-Navegantes.
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  • Procon interdita loja de móveis em Porto Alegre

    O Procon Porto Alegre interditou nesta sexta-feira, 13, a loja Loop’s Móveis, localizada na rua Albion, esquina com avenida Ipiranga, pelo acúmulo de denúncias da falta de entrega dos produtos. Com mais de vinte reclamações registradas no Procon municipal de consumidores que compraram móveis, pagaram a mercadoria e não conseguem receber o produto e nem o dinheiro de volta, o estabelecimento já havia sido notificado várias vezes, entretanto nenhum comunicado do órgão foi respondido pela loja.
    “Considerando que no final do ano aumenta o volume de vendas no comércio, suspendemos as atividades do estabelecimento com o objetivo de evitar danos futuros aos consumidores de Porto Alegre, protegendo os novos compradores”, diz o diretor excecutivo, do Procon Porto Alegre, Cauê Vieira. “A perspectiva de reabertura somente será possível após serem  resolvidas todas as demandas registradas no Procon, de forma que a loja  devolva o dinheiro ou entregue o produto escolhido e pago pelo cliente”, avalia Vieira.
    Atendimento – Vinculado à Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic), o Procon Porto Alegre atende o público na Rua dos Andradas, 686, das 10h às 16h, ou no site www.portoalegre.rs.gov.br, ou pelo aplicativo gratuito para celulares Procon App. Informações podem ser obtidas no telefone 3289-1774.

  • Comitê aprova mapa de áreas inundáveis da Bacia do Rio dos Sinos

    O mapeamento da Planície Inundável do Rio dos Sinos foi aprovado nesta tarde, em plenária do Comitesinos (Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos). A votação aconteceu na Unisinos e teve 26 votos a favor e 4 contra. O mapeamento é uma das ações do projeto VerdeSinos, encabeçado pelo Comitê formado por diversas entidades representantes dos produtores rurais, dos associações de moradores, do poder público e de ongs ambientais, além das universidades Unisinos, Feevale e Ufrgs.
    Com a aprovação, o mapa será encaminhado ao Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CRH), onde, se ratificada, ganhará força de lei. Neste caso, os municípios da região do Sinos terão de levar o mapa em consideração em seus Planos Diretores.
    Os estudos foram coordenados pelo pesquisador do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, Carlos André Bulhões Mendes. O principal objetivo é evitar construções em áreas inundáveis do Rio dos Sinos. Já existem projetos para constução de condomínios residenciais em terrenos inundáveis entre Canoas e Esteio. Além dos riscos oferecidos aos moradores destas áreas, as construções podem impactar os município vizinhos.
    Através de mediação do Ministério Público Estadual e Federal, o Comitê firmou convênio com a Caixa Econômica Federal, que se comprometeu em não oferecer financiamento para construções realizadas nestas áreas.
    O supervisor regional da Emater/RS, Nelson Baldasso, defendeu a importância das áreas verdes nos bordos dos rios e o uso das áreas alagáveis para a produção de alimentos. Ele frizou o prejuízo dos moradores que investem em um imóvel em uma área inundável e os custos que o poder público tem q cada nova cheia.
    “Nos interessa não destruir essas áreas e mantê-las para a agricultura ou pastagens. Se esta água cair no calçamento, ela volta para o rio. Com os espaços verdes, ela infiltra e se mantem o ciclo da água”, afirmou o supervisor. Segundo Baldasso, a planície de inundação do Rio dos Sinos apresenta uma produção bastante diversificada com destaque para a pecuária, o plantio de arroz e a produção de hortaliças.

  • Cais Mauá: grupo internacional desistiu de participar da licitação

    Naira Hofmeister
    O tempo escasso para a produção do projeto e a exigência de que o arrendatário do Cais Mauá possuísse um patrimônio mínimo de R$ 400 milhões levaram um grupo de arquitetos residentes em Miami a desistirem de participar da licitação pública de revitalização da área.
    “Estávamos muito empolgados e chegamos a avançar em pactos e parcerias, porém, eram apenas três meses entre o lançamento do edital e a apresentação das propostas e não houve tempo hábil para formalizar os contratos e detalhar os projetos”, lamenta a engenheira civil e hoje professora de arquitetura na Miami Dade College, Adriana Schönhofen Garcia.
    Leia também: JÁ aposta no financiamento coletivo para viabilizar edição sobre Cais Mauá
    Natural de Belém do Pará, Adriana se “considera gaúcha”, já que a família é do interior e ela mesma morou durante muitos anos na Capital do Rio Grande do Sul. Entre idas e vindas dos Estados Unidos, onde cursou arquitetura (após a conclusão da graduação em Engenharia Civil na Ufrgs), ela estava em Miami em 2010, quando a licitação para revitalização do Cais Mauá foi lançada pelo governo do Estado.
    “Soube pelos jornais e decidi participar. Achei o modelo proposto ruim e queria mostrar uma alternativa. Consegui o apoio de um arquiteto norte-americano muito reconhecido – Bernard Zyscovisch, que já ganhou a medalha de ouro do Instituto dos Arquitetos dos Estados Unidos (AIA, na sigla em inglês). Ele se entusiasmou com as possibilidades que via para o espaço”, rememora.
    Adriana falou ao JÁ por videoconferência, porém esteve recentemente em um ato do coletivo Cais Mauá de Todos na abertura da 61ª Feira do Livro de Porto Alegre.
    A primeira dificuldade para convencer o colega e sua equipe a ingressarem na disputa foi o idioma. Embora fosse considerada uma licitação internacional todo o material disponível estava em português. “Eu pensei: meu deus, como vou fazer para traduzir tudo isso sozinha?”, revela.
    Superada a passagem à língua estrangeira, Adriana anteviu um problema de tempo: entre o lançamento do edital e a entrega das propostas havia apenas três meses, no qual seria preciso fazer o projeto arquitetônico. “Apesar de ser curto, avaliamos que seria possível detalhar tudo em dois meses para em seguida, sair atrás de parceiros”, explica.
    Esse, aliás, outro entrave na concepção da arquiteta: o vencedor do certame precisaria demonstrar um patrimônio de R$ 400 milhões – coisa que o escritório de arquitetura, embora famoso, não possuía. Ela garante que conseguiu vender a ideia a grandes empresas com tal capital: uma construtora com sede em São paulo e até uma gerenciadora de imóveis. “O problema é que era preciso apresentar os contratos e isso foi impossível”, lamenta.
    Regras favoreceram vencedor
    Adriana acredita que esses itens favoreceram a vitória do consórcio Cais Mauá do Brasil, que atualmente tenta dar prosseguimento às obras, embora venha sofrendo críticas e até questionamentos do Tribunal de Contas do Estado.
    Ela explica: a licitação de revitalização foi feita a partir de um conceito desenhado anteriormente por pessoas que depois formaram o grupo Cais Mauá do Brasil, como o arquiteto curitibano Jaime Lerner e as empresas espanholas Gis Trade Center e Spim (que depois, abandonariam o consórcio em uma operação investigada pelo Tribunal de Contas do Estado).
    Isso significa, na análise de Adriana, que enquanto os demais concorrentes tiveram apenas três meses para pensar um projeto que guardasse semelhanças com o modelo proposto pelo Estado – e desenvolvido pelo grupo de Jaime Lerner – o Cais Mauá do Brasil trabalhava com a ideia havia quase três anos, já que a primeira licitação, do modelo de negócio, foi lançada em julho de 2008.
    “É injusto”, assevera, para logo explicar: “Eles não apenas tiveram mais tempo para experimentar possibilidades, como puderam sair em busca de parceiros com toda essa antecedência”.
    Tem mais: o edital de arrendamento da área previa que o consórcio vencedor deveria ainda pagar os custos do projeto desenvolvido na primeira etapa, de R$ 700 mil. “Só que sabendo que o mesmo escritório que criou o conceito estará concorrendo, ninguém vai querer utilizar o que eles projetaram como base, pois é evidente que as melhores soluções seriam as deles, que já estavam há anos trabalhando nelas”, observa.
    Trocando em miúdos: seria dinheiro posto fora por qualquer outro grupo que vencesse a licitação.
    Consórcio não cumpre exigências
    O que mais incomoda Adriana é ter abandonado a licitação por não poder cumprir os requisitos técnicos e dar-se conta de que o grupo vencedor tampouco os apresentou. É o que diz um relatório do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul (TCE-RS), cujo conteúdo foi levado pelo coletivo Cais Mauá de Todos ao Ministério Público.
    Recentemente, o jornal Zero Hora detalhou as irregularidades apontadas pelo órgão. Entre elas estão justamente a “falta de garantias financeiras”, ou seja, a comprovação de um patrimônio mínimo de R$ 400 milhões e a falta de apresentação dos projetos executivos em um prazo de 120 dias após o certame. Essa falta gerou uma multa aplicada ao consórcio de R$ 2,7 mil.
    Adriana, que tem um olho treinado para avaliar projetos porque é professora de arquitetura no Miami Dade College – a maior instituição de Ensino Superior dos Estados Unidos – se surpreende com os esboços conhecidos publicamente.
    “Tem qualidade inferior a de trabalhos de alunos do primeiro semestre; não tem conteúdo, só imagens enfeitadas”, lamenta a profissional.

  • Com preços menores, Feira mantém o nível de vendas

    Foi divulgado nesta terça-feira o balanço dos dez primeiros dias da Feira do Livro de Porto Alegre. Segundo o balanço, foram vendidos 209.814 publicações, um aumento de 7% em relação ao mesmo período do ano passado, e para um movimento de 854 mil visitantes somando os dois primeiros finais de semana do evento. Entretanto, nem todos os livreiros estão vendo este aumento.
    Andando pela Feira, pode-se notar as consequencias da redução do orçamento que caiu de R$ 3,8 milhões no ano passado, para R$ 1,8 milhão este ano. A área central, que é dedicada aos estandes institucionais e geralmente fica cheia, tem cerca de metade dos espaços vazios. Os veículos de imprensa também têm menor presença em relação aos anos anteriores. Apesar do balanço, os comentários nos corredores apontam para uma feira com menos vendas, menos movimento e menos atrativos.

    O vendedor Rodrigo Nunes, da Martins Livreiro, riu da notícia sobre aumento nas vendas em relação ao ano passado / Fotos Ramiro Furquim
    O vendedor Rodrigo Nunes, da Martins Livreiro, riu da notícia sobre aumento nas vendas em relação ao ano passado. Fotos Ramiro Furquim

    Ivo Almansa, proprietário da Martins Livreiro, tem 38 anos de Feira e garante que o movimento deste ano está menor do que a média. Ele calcula uma redução de cerca de 10% nas vendas em relação a 2014. O vendedor Rodrigo Nunes concorda que as vendas estão em baixa. “O movimento aqui começou mesmo no feriado. Até tem circulação de gente, mas as vendas não se comparam com o ano passado.”  Segundo o vendedor, os exemplares que estão tendo mais saída na banca são reedições de livros que estavam esgotados.
    Não são só os livreiros que percebem o pouco movimento. Varceli Freitas trabalha com fotografia lambe-lambe há 50 anos, há 14 faz seus retratos na Feira do Livro. Freitas afirma que aos finais de semana o movimento é bom, mas durante a semana “é uma porcaria.” “Segunda-feira eu nem trabalhei. Hoje, durante toda a tarde, fiz só três retratos”, diz o fotógrafo.
    O Último Lambe-Lambe do RS, Varceli Freitas, relata movimento fraco para seus retratos durante a semana, no final de semana há melhora / Fotos Ramiro Furquim
    O Último Lambe-Lambe do RS, Varceli Freitas, relata movimento fraco para seus retratos durante a semana, no final de semana há melhora. Fotos Ramiro Furquim

    Para o engraxate Paulo Lopes, a Feira é sempre sinônimo de pouco movimento. “Olha em volta, quantas pessoas estão de sapato?  A Feira muda muito o público da Praça da Alfândega. O pessoal que trabalha no centro, não quer passar por dentro da Feira.” O freguês que estava sendo atendido até brincou: “Todo ano alguém tira foto do Paulo, este ano nem foto teve.”
    Para o engraxate Paulo Lopes, a Feira é a pior época de movimento em seu negócio pela mudança de público, em sua maioria usuários de tênis / Fotos Ramiro Furquim
    Para o engraxate Paulo Lopes, a Feira é a pior época de movimento em seu negócio pela mudança de público, em sua maioria usuários de tênis. Fotos Ramiro Furquim

    Na Rua da Praia as vendas vão bem
    Mas esta impressão de redução nas vendas não é compartilhada por todos. Daice Fuhr, responsável pela banca da editora L&PM, tem 35 anos de experiência na Feira e garante que as vendas deste ano estão melhores que as de 2014. “Estou super contente”, afirma. Os livros para colorir, em promoção, e os autores gaúchos são os mais buscados, além das edições de bolso, carro-chefe da empresa. Este ano a banca está localizada na Rua da Praia, no ano passado, ficava no corredor da rua Sete de Setembro. A mudança ajudou nas vendas. “Aqui pega o movimento da feira mais o movimento normal do centro. Os pocket books atraem quem está passando.”
    A banca em frente, da Livraria Provincia, apostou nos saldos e o resultado agradou. “Existe a vontade de comprar, mas as pessoas estão com pouco dinheiro”, afirma Neiva Piccinini. Para ela, a Feira deste ano está sendo semelhante à do ano passado, em termos de faturamento. A quantidade de unidades vendidas cresceu, mas os leitores estão buscando livros de menor valor e negociando o preço. Quanto ao fluxo de visitantes, Neiva ve vantagem em estar na Andradas apenas de segunda a sexta. “Durante a semana, o movimento maior é aqui, sábados e domingos é na Sete de Setembro.”
    Daice Fuhr, gerente da L&PM Editores, comemora aumento nas vendas com a troca de local da banca, que no ano passado era no corredor da rua Sete de Setembro, para a Rua da Praia / Fotos Ramiro Furquim
    Daice Fuhr, gerente da L&PM Editores, comemora aumento nas vendas com a troca de local da banca, que no ano passado era no corredor da rua Sete de Setembro, para a Rua da Praia. Fotos Ramiro Furquim