Mais de 50 músicos de Porto Alegre vem se reunindo desde o final do ano passado para planejar a criação de uma associação em defesa da atividade. O edital convocando para a assembleia de fundação, que ocorre dia 25 de abril, foi publicado no Correio do Povo na sexta-feira passada (10).
“A criação da entidade está inserida em uma série de iniciativas que ocorrem desde os anos 2000 para organizar e fortalecer a atividade, como a criação dos fóruns permanentes, que não tiveram continuidade”, explica um dos idealizadores do órgão, Álvaro Santi.
A entidade se chamará Associação dos Músicos da Cidade Baixa e uma de suas bandeiras será garantir apresentações no bairro boêmio de Porto Alegre.
Ao longo dos últimos anos, um grupo numeroso de músicos vem protestando contra a redução de espaços para o exercício da profissão – como o fechamento de bares e as tentativas de barrar a realização de eventos como o carnaval de rua da Capital.
“Temos o maior respeito pelos moradores, entendemos que é preciso manter a vocação cultural do bairro sem inviabilizar a vida das pessoas. Queremos estabelecer um diálogo”, argumenta Santi.
Embora carregue o nome do bairro no título, o grupo quer defender direitos de músicos de toda a Capital. “As condições de trabalho do músico da noite não avançaram nada desde os anos 80”, denuncia.
Dez reuniões precederam assembleia
Uma dezena de reuniões realizadas entre dezembro e março precederam o encontro que vai formalizar a entidade – e que ocorre no Bar Ocidente (Osvaldo Aranha, 960). Na ocasião, será eleita a primeira diretoria e aprovado o estatuto.
Para participar da assembleia de fundação, com direito a voto, os interessados devem se credenciar no local no dia 25, a partir das 15h. Às 17h inicia a reunião. Também é possível fazer este procedimento de maneira antecipada, enviando e-mail paracomissaoeleitoralassomcb@ gmail.com.
A condição para participar é ser músico com atuação em Porto Alegre, o que poderá ser comprovado com registro fonográfico ou audiovisual, ou então por documentos como diploma de Música, carteira da Ordem dos Músicos do Brasil ou Sindicato dos Músicos do Rio Grande do Sul.
Já a regra para compor uma chapa para a diretoria é ter participado de ao menos duas das reuniões preparatórias.
Autor: da Redação
Músicos se articulam para defender atividade na Cidade Baixa
Ativistas propõem projeto alternativo para o Cais Mauá
No próximo sábado (18) o Coletivo Cais Mauá de Todos, formado por porto-alegrenses descontentes com a concessão do antigo porto da Capital à iniciativa privada, apresentará um projeto de intervenção arquitetônica e urbanística alternativo ao proposto pelo consórcio vencedor da licitação.
Em uma coletiva de imprensa, marcada para as 19h na avenida Sepúlveda – que desemboca diante do pórtico central do cais – o grupo ainda esclarecerá denúncias de irregularidades que identificaram no processo e que já foram encaminhadas à Defensoria Pública, que por sua vez solicitou explicações ao empreendedor e à Prefeitura Municipal.
Após a coletiva, o ato seguirá em ritmo festivo como em ocasiões anteriores. Entre as atrações, shows gratuitos de Nei Lisboa, Ian Ramil, Sopro Cósmico, Novo Circo, Cia De Dança, Bibiana Petek e Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense.
Objetivo é abrir debate
A intenção dos ativistas com o ato festivo e a coletiva de imprensa é provocar um debate público sobre o projeto previsto para a área, que ainda é pouco conhecido da população – em uma reunião na Câmara Municipal de Porto Alegre ocorrida ontem (14), o superintendente de Portos e Hidrovias, cuja sede fica dentro do espaço em discussão admitiu a desinformação.
“Não sou contra nem a favor do projeto, pois não o conheço suficientemente e estou procurando me inteirar. O que me preocupa é tomar uma decisão precipitada de qualquer natureza. Esse projeto é um desafio de todos nós”, declarou, segundo o registro da equipe de imprensa do Legislativo.
Os organizadores do ato consideram a reflexão da população sobre a obra e suas consequências “imprescindível” e sugerem realizá-la “a partir de um modelo de desenvolvimento que tenha como princípios norteadores a manutenção da paisagem cultural como bem coletivo, assim como a revitalização e a requalificação de áreas degradadas”.
No site do consórcio vencedor da licitação, há uma ilustração da área atual com textos que sugerem intervenções como a construção de torres comerciais e hotéis, centro de eventos, estacionamentos para 4.340 vagas e um shopping center ao lado da Usina do Gasômetro.
O empreendedor também se compromete a restaurar 11 armazéns tomados pelo município – um será demolido, o A7 – a instituir 10 praças ao longo do cais e a manter aberta a vista para o Guaíba.
O grupo critica ainda a falta de transparência no processo e afirma que o planejamento urbano precisa levar em conta “novos modelos de gestão da parceria público privada que contemplem os interesses da coletividade, o usufruto do bem público, o direito de ir e vir e não apenas os planos de negócios impostos pelo setor privado”.
Na coletiva de imprensa estarão a jornalista Katia Suman, a advogada Jacqueline Custódio, o sociólogo João Volino Corrêa e a arquiteta e urbanista Helena Cavalheiro, autora do projeto “Manifesto Cais Mauá”.
O presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil no EStado (IAB-RS), Tiago Holzmann também fará sua análise.
Além do IAB/RS, fazem parte do coletivo o sindicatos, entidades ambientalistas e de defesa do patriômio histórico, grupos de mobilização urbana, associações comunitárias e empreendimentos culturais como o StudioClio, a Rádio Elétrica, a Editora Libretos e o Bar Ocidente.Nova audiência sobre transporte coletivo terá segurança reforçada
A Prefeitura de Porto Alegre está convidando os cidadãos interessados em fornecer “subsídios para a licitação de concessão da prestação de serviço do transporte coletivo por ônibus em Porto Alegre” para uma nova audiência pública, nesta quarta-feira (15), no Ginásio Tesourinha, das 19h às 22h.
O texto publicado no site do Executivo é sintético, mas faz questão de ressaltar que a lotação máxima é de 1,5 mil pessoas e que “haverá esquema de segurança no local”.
A primeira audiência pública sobre o tema, realizada em 2014, precisou ser cancelada devido a uma confusão entre manifestantes e representantes da prefeitura e das empresas de ônibus.
O novo edital de licitação, que será elaborado com as contribuições apresentadas no encontro será publicado no dia 6 de maio (quarta-feira) e focará na modalidade de concorrência internacional.
As duas tentativas anteriores de licitar o sistema não tiveram interessados.Cais Mauá convoca acionistas para assembleia
Um edital publicado no Jornal do Comércio nesta terça-feira (14) convoca os acionistas da Cais Mauá do Brasil S.A.para uma assembleia geral no dia 23 de abril de 2015. A pauta da reunião inclui temas ordinários – examinar, discutir e votar as demonstrações financeiras do grupo, fixar a remuneração dos dirigentes – e extraordinários.
Neste último item, os acionistas deverão deliberar uma proposta de “adaptação da redação do objeto social da companhia” e analisar a composição e manutenção do Conselho Consultivo tendo em vista a renúncia apresentada por um dos integrantes do colegiado, José Carlos Medeiros de Britto Pereira – que tambpem deverá ser aprovada pela assembleia.
O encontro ocorre a partir das 11h na sede da companhia, na Avenida Mauá, 1050/1º andar. Só podem participar acionistas que comprovem sua condição ou procuradores dos mesmos que apresentem documentação até três dias antes do encontro.
A Cais Mauá do Brasil S.A. é detentora da concessão de revitalização e modernização do cais central de Porto Alegre, cujo projeto defendido pelo consórcio inclui a construção de três torres e um shopping center em meio à área tombada pelo município, que será recuperada pelo empreendedor.
Um grupo de cidadãos contrários ao uso privado da área pede a rediscussão da concessão e já acionou a Defensoria Pública para prestar auxílio jurídico na empreitada.
Câmara Municipal pautou tema
No mesmo dia em que o edital da assembleia dos acionistas foi publicado, a Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) da Câmara Municipal realizou reunião aberta ao público para tratar do projeto de revitalização da área.
O encontro contou com a participação de representantes da prefeitura, vereadores e cidadãos, além de órgãos do Judiciário, sindicatos e entidades ambientalistas.Prefeitura cede e vai ampliar debate sobre mobilidade urbana
Naira Hofmeister
A urgência de enviar o Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Porto Alegre para a Câmara de Vereadores – motivada pelo prazo dado pelo Ministério das Cidades sob o risco de congelamento dos repasses federais – não foi suficiente para encerrar o debate sobre o documento.
Na única audiência pública convocada ao longo dos três anos em que esteve em elaboração e agendada na data limite para sua realização – 13 de abril, três anos e três meses depois da promulgação da lei 12.587, que determinava prazo máximo para o encaminhamento ao Legislativo – técnicos da EPTC apresentaram diretrizes para a elaboração de um plano e nenhuma sugestão concreta de medida que atenda aos princípios expostos, o que gerou inúmeras críticas dos participantes.
“Fiquei muito decepcionada porque esperava ouvir as propostas dos técnicos para a nossa vida na cidade”, reclamou a ativista Vanessa Melgare.
“É uma carta de intenções genérica, cheia de promessas como estudar, avaliar, diagnosticar”, corroborou a radialista Kátia Suman.
A população questionava ainda a falta de diálogo e de transparência na elaboração do documento – que sequer era conhecido de arquitetos da própria prefeitura que se manifestaram no evento.
“Sequer cumpre um dos principais itens da lei, que é garantir a ampla participação social no debate. A prefeitura quer que a gente se manifeste em três minutos sobre algo que teve três anos para elaborar e não conseguiu”, bradou o ciclista Rodrigo Marenco.
As críticas foram unânimes – inclusive entre os dois vereadores que compareceram à audiência pública, Marcelo Sgarbossa e Carlos Comassetto, ambos do PT.
“Há questões importantes como privilegiar meios de transporte não motorizados que impõem uma decisão política”, sublinhou o primeiro.
“É um conjunto de diretrizes que não serve como plano executivo de uma cidade como a nossa”, completou o segundo.
O clamor foi tanto que o vice-prefeito Sebastião Melo não teve escolha. Garantiu a realização de novas audiências públicas em conjunto com a Câmara de Vereadores e de estudos mais aprofundados antes que o projeto seja votado no parlamento. “Se a cidadania entender necessário, enviaremos um substitutivo”, prometeu.
estudo prometido não foi feito
Segundo Melo, umas das razões para a apresentação pouco consistente feita na noite dessa segunda-feira foi a falta de um estudo prometido pelo Governo Federal que não se concretizou. “É impossível pensar o sistema de mobilidade sem saber onde se originam e onde terminam as viagens diariamente”, exemplificou.
O vice-prefeito garantiu que o Executivo municipal vai pressionar a União para que tal estudo seja realizado. Ele também garantiu suporte de técnicos de diversas secretarias para que a Câmara possa levar adiante um debate amplo sobre o assunto.
Por outro lado, Melo também manifestou pontos importantes a serem acrescentados à discussão antes de o plano ser publicado. “Queremos pedágio urbano? Rodízio de placas? Operações consorciadas para subsidiar transporte coletivo?”, enumerou.
Cronograma não será alterado
Apesar da determinação do vice-prefeito Sebastião Melo, o cronograma de tramitação do Plano Diretor de Mobilidade Urbana não será alterado. Há um compromisso do município com o Ministério das Cidades com o envio do projeto ao Legislativo antes do fim do mês.
O prazo já foi estendido, uma vez que a data determinada em 2012 era o dia 13 de abril de 2015. As cidades que não tiverem seus planos já em debate nas Câmaras Municipais antes de maio poderão perder recursos de financiamento para ações de mobilidade.
Com isso, a Prefeitura deixará aberto o processo para receber sugestões da cidadania até o dia 17 de abril – o e-mail para o encaminhamento é planomobilidadepoa@eptc.prefpoa.com.br. Depois disso, as opiniões serão compiladas e enviadas em formato de Projeto de Lei para o Legislativo antes do dia 22 de abril.Eduardo Galeano, nosso homem de mãos mágicas
Cinco textos inéditos distribuídos na contracapa da edição número zero marcaram o início da colaboração de Eduardo Galeano com o jornal JÁ, em 1985. O uruguaio faleceu nesta segunda-feira (13).
A compilação de crônicas, que abordavam um pouco da vida de mestiços bolivianos, artistas indígenas e anjos mulatos contava, de certa forma, a história da América Latina “retomada pelo ângulo dos vencidos, dos que tiveram a fala proibida, dos que não puderam se expressar senão pelo símbolo e pela metáfora”, conforme explicava o comentário do jornal sobre os textos.

O título da página hoje pode ser lido como uma metáfora: “Homens de mãos mágicas”. Se referia aos artistas como o índio boliviano Holguín, que pintou a rica Potosí, cuja montanha que lhe dá nome foi toda esburacada para extrair metais preciosos pela coroa espanhola na época colonial; ou ao brasileiríssimo Aleijadinho e seu assistente Ataíde, cuja tarefa era preencher com cores e ouro as “maravilhas de madeira ou pedra” do escultor mineiro.
Mas bem poderia ser uma ilustração do próprio autor: mãos mágicas. Foi com elas que desenhou, escrever e assinou um bilhetinho que, logo após o lançamento do jornal desejava: “Longa e alegre vida para o JÁ”.
Foi uma dedicatória feita no Bar do Beto, no Bom Fim, em uma noite que sucedeu sua palestra na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul promovida pelo recém-lançado periódico – entre as aspirações de jornalistas e intelectuais à frente do projeto estava a possibilidade de discutir a América Latina, que saía de um longo período sob regimes ditatoriais em diversos países.
Bilhetinho de próprio punho foi feito após palestra na AL | Reprodução JÁ
Uruguaio foi inspiração para o JÁ
Galeano foi um dos inspiradores da publicação, que tinha como referência a revista argentina Crisis e o jornal uruguaio Brecha, nos quais ele colaborou.
“Nossa ideia era recriar um jornal nessa linha, ou seja, uma publicação voltada para a seara latino-americana”, explicou um dos fundadores do JÁ, o professor de literatura e ex-secretário municipal de Cultura, Sergius Gonzaga, em uma entrevista em 2007 – por ocasião do lançamento do número zero da Revista JÁ, que segue em circulação.
O primeiro editor do jornal, Ney Gastal, recordou na oportunidade que Galeano era “uma espécie de coordenador latino-americano” do JÁ. “Foi um apoio muito importante. Era uma recomendação automática”, reconheceu.
Site vai republicar textos do escritor
Para relembrar a parceria de Eduardo Galeano com o JÁ, que se estendeu por três anos, de 1985 até 1988, o site do jornal republica, a partir desta terça-feira, textos enviados com exclusividade à publicação na época.Reação de empresários esquenta segunda audiência do Pontal
Naira Hofmeister
A segunda audiência pública para apresentar à população de Porto Alegre o projeto do Parque do Pontal – antigo Pontal do Estaleiro, a ser construído no bairro Cristal – foi marcada por ânimos exaltados, discussões e até ameaças.
O grupo favorável ao empreendimento reagiu após amargar uma derrota no primeiro encontro, quando contou com apenas três oradores entre mais de uma dezena de manifestantes que foram à tribuna, embora a plateia do Jockey Club estivesse dividida.
Dessa vez, apesar do número de participantes ser visivelmente menor, houve quase o dobro de inscrições e diversas falas em apoio ao projeto, quase todas provenientes de arquitetos.
Ainda assim, as manifestações contrárias dominaram o encontro: foram 17, contra as 6 favoráveis à construção, que compreende torre comercial de 82 metros, shopping center e uma praça pública.
Apresentação foi cautelosa
Desde os primeiros momentos o esforço de organização dos empreendedores ficou claro. Na apresentação do projeto, por exemplo, a arquiteta Clarice Debiagi reiterou diversas vezes o caráter público da praça: “Não haverá cancela ou portão, o acesso será livre”, repetiu.
Ela também foi cuidadosa ao explicar que, segundo o cálculo utilizado no Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima), o terreno junto à avenida Padre Cacique ficará acima da cota mínima para evitar inundações, o que havia sido questionado na noite anterior.
O engenheiro Mauro Jungblut, coordenador da equipe que realizou o EIA-Rima através da empresa Profill, também se dedicou a esclarecer temas que polemizaram o encontro na véspera, como a viabilidade de erguer um edifício de 22 andares em um solo arenoso.
“Quatro, cinco ou seis metros abaixo da superfície temos o maciço granítico, que, por óbvio, é onde irão se assentar as bases do empreendimento pois tem plenas condições de construção”, garantiu.
identidade da bm par é questionada
A primeira manifestação da cidadania foi uma das mais polêmicas. O coordenador do movimento de Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho, Cesar Cardia, provocou uma discussão ao perguntar quem eram os proprietários da BM Par, empresa que se apresenta como empreendedora do Parque do Pontal, ao lado da rede francesa de lojas de materiais de construção, Leroy Merlin.
“É estranho que uma empresa com capital suficiente para uma obra deste porte não tenha site ou qualquer outro empreendimento conhecido na cidade”, argumentou.
Como ele se excedeu no tempo determinado de três minutos por orador – o que não foi respeitado por quase nenhum dos manifestantes – uma senhora sentada na plateia pediu que lhe cortassem a palavra, alegando que a pergunta não era pertinente. “E daí? E daí?”, repetia ela, exaltada.
Também da plateia veio a resposta. Um dos diretores da BM Par, Rui Carlos Pizzato pediu a palavra e sentenciou: “É uma empresa genuinamente gaúcha, com dois sócios, que tem por objetivo construir empreendimentos”.
Parte da plateia insistiu para que Pizatto revelasse a identidade dos proprietários da empresa, mas ele tergiversou enquanto outros aliados do projeto discutiam com quem questionava, alertando que no registro na Junta Comercial constam os nomes.
Na audiência pública da noite anterior, quem se apresentou como representante dos empreendedores era Marcos Colvero, diretor de incorporações da Melnick Even.
Discussões elevaram o tom
Desde que Cesar Cardia abriu as manifestações ao microfone até o último inscrito encerrar sua intervenção, quase quatro horas depois, a tensão foi uma constante e mais de uma vez o presidente da mesa, Mauro Gomes de Moura, supervisor de meio ambiente da Smam, precisou intervir.
“Isso não é um debate. Não haverá réplica nem tréplica”, lembrava quando a confusão se instalava.
Entre as manifestações favoráveis ao Pontal o argumento era – seguindo a linha apresentada pelos empreendedores – de que o projeto vai permitir o acesso à orla do Guaíba, hoje inviabilizado naquele local.
“Não entendo porque tanto barulho! Temos 72 quilômetros de orla e esse projeto representa menos de 1% desse total, o impacto será mínimo! Além de tudo, a empresa vai entregar à população 56% da área”, reclamou o arquiteto Roberto, debaixo de vaias que vinham da plateia.
O reforço maior do time favorável veio do ex-secretário municipal Clóvis Magalhães, que trabalhou na gestão de José Fogaça, acompanhando toda a tramitação inicial do projeto. “Naquela época houve muita polêmica e dela incorreram uma série de avanços apresentados agora. Tudo o que o poder público exigiu do empreendedor foi assimilado”, defendeu.
Manifestantes pedem anulação da audiência
Do lado contrário, a justificativa seguiu a mesma linha da noite anterior: além de criticar o modelo proposto – que exige a construção de um espigão para justificar a entrega de uma área verde à população – houve questionamentos sobre a legalidade do leilão do terreno, ocorrido em 2005, e quanto à precisão do EIA-Rima apresentado.
Para esse grupo, a área onde pretendem erguer o Parque do Pontal não poderia ter sido vendida à empresa, uma vez que sua origem é pública. Por outro lado, apontam inconsistências na análise da Profill, como a falta de estudo de construção do dique de proteção contra cheias, previsto na lei que aprovou o projeto na Câmara Municipal.
Com base nesses apontamentos, um grupo pediu a anulação das audiências públicas através de um abaixo assinado que foi incluído no processo da Smam. “Solicitamos encarecidamente que essa secretaria, representante do poder executivo, entenda que não se pode apresentar à população um estudo incompleto e que foge do enquadramento legal”, diz o documento.
A atitude foi provocada pelo militante pela reforma urbana, Júlio Alt, cuja acusação de que a prefeitura teria um “conluio” com os empreendedores tirou o presidnete da mesa de seu prumo. “O senhor sabe que está sendo gravado?”, questionou, sugerindo cuidado com um eventual “processo administrativo”.
A plateia entendeu a fala como uma ameaça, mas ao final da audiência, recomposto depois do inconveniente, ele garantiu aos repórteres: não tem nenhuma intenção de ajuizar qualquer queixa contra o ativista.
A Smam estima que mil pessoas tenham comparecido às audiências públicas. Nos próximos sete dias, a pasta receberá por escrito questionamentos sobre o projeto que serão encaminhados e respondidos obrigatoriamente pelo empreendedor.Críticos foram maioria na primeira audiência do Pontal
Naira Hofmeister
A primeira audiência pública sobre o projeto Parque do Pontal, o repaginado empreendimento previsto para a área do antigo Estaleiro Só que outrora chamou-se Pontal do Estaleiro, teve o microfone dominado por representantes críticos à iniciativa.
Os mais de 12 oradores que foram ao palco do auditório – improvisado em um salão do Jockey Club, localizado em frente à área onde se pretende erguer o projeto – apenas três defenderam o empreendimento: o líder comunitário Michel Santos e os vereadores Airto Ferronato (PSB) e Márcio Bins Ely (PDT), que foi secretário do Planejamento Urbanona gestão de José Fogaça, quando o tema entrou em pauta na cidade.
As demais manifestações foram todas contrárias: não apenas criticando o conceito do projeto, mas questionando a legalidade da iniciativa e defendendo que o uso da área – às margens do Guaíba – seja totalmente público.
A plateia, entretanto, parecia dividida: participantes com camisas bem alinhadas e suéteres nas costas aplaudiram a apresentação dos empreendedores, enquanto os movimentos comunitários, ambientalista e pela reforma urbana vaiaram. Moradores de vilas da região também participaram para reclamar contrapartidas sociais mais relevantes.
O Parque do Pontal prevê a construção de um shopping center, edifício de escritórios com 82 metros de altura e uma praça de 3,6 hectares.
Prefeitura não enviou representantes
A condução da audiência pública foi feita por funcionários da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam), já que o Executivo Municipal não enviou representantes. A ausência do vice-prefeito Sebastião Melo foi sentida entre os participantes.
Após uma introdução que abordou as regras da audiência, a apresentação dos contornos da nova versão do Pontal ficou a cargo da arquiteta Clarice Debiagi, filha do idealizador do projeto, Jorge Debiagi, que preferiu observar da plateia e não se manifestou publicamente.
As ilustrações levadas ao telão pela arquiteta incluíram um vídeo publicitário – com direito à vistas aérea panorâmica da área verde do futuro Pontal e trilha sonora feliz. Mas os contornos do projeto parecem ter mudado mais uma vez, já que Clarice mostrou imagens de uma única torre ao invés das duas que aparecem no Estudo de Impacto Ambiental (EIA).
Algumas dessas fotografias foram também ampliadas e fixadas nas paredes do salão sob holofotes, ao lado das mesas onde havia sanduíches, café e suco de laranja para os participantes.
Imagens ampliadas foram fixadas nas paredes próximas ao cofee brake | Naira Hofmeister/JÁ
Responsável pelo EIA-Rima defende projeto
Após a intervenção dos criadores do projeto, o engenheiro civil Mauro Jungblut, que coordenou a equipe de 33 profissionais que elaboraram o Estudo de Impacto Ambiental e seu respectivo relatório (EIA-Rima) – um dos pré-requisitos necessários para a solicitação das licenças para o empreendimento – fez sua apresentação.
Ele elencou os impactos positivos e negativos da construção e apresentou sugestões de medidas mitigadoras. Ao final, exibiu a conclusão da equipe de que o Parque do Pontal “é passível de licenciamento desde que atendidas todas as medidas propostas”.
Não apenas durante o momento em que explicou as etapas e procedimentos do EIA-Rima, mas ao longo de toda a audiência pública – quando, por diversas vezes retornou ao microfone para dar explicações sobre o empreendimento – Jungblut defendeu os benefícios do projeto.
Propagandeou, por exemplo, a ciclovia de 3.570 metros que será feita como contrapartida à construção (não necessariamente no entorno do Pontal, onde há a obrigatoriedade de fazer apenas 400 metros), lembrou que 0,5% do total do investimento deverá ser destinado às Unidades de Conservação do entorno, e sublinhou as mudanças viárias que, acredita, trarão mais fluidez ao trânsito na região.
No próprio EIA-Rima – que seguirá à disposição da população na biblioteca da Smam – a empresa, por diversas vezes defende a implantação do empreendimento sob o argumento de que o terreno não permite acesso público à beira do Guaíba atualmente. “Essa é a grande premissa do Parque do Pontal: retomar a relação entre a cidade e o lago. Dessa forma, o empreendimento se justifica por si só”, aponta o Rima, em sua página 07.
Ativistas pedem interferência da justiça
Já na primeira fala permitida à cidadania na audiência pública, o engenheiro Henrique Witler acusou o EIA-Rima de falho. “Há inúmeras leis que são negligenciadas em sua elaboração”, criticou.
Entre as irregularidades encontradas pelo engenheiro estão o desrespeito à lei federal que determina recuo de 500 metros para construções às margens de cursos d’água (no Parque do Pontal a área construída fica à 60 metros, conforme determinou uma emenda do vereador Airto Ferronato quando da votação do projeto na Câmara); a inexistência do estudo de construção de um dique de proteção contra cheias, também previsto na lei do Pontal através de uma emenda do ex-vereador João Dib; a proibição de parcelamento do solo em terrenos inundáveis, conforme o Código de Meio Ambiente e a impossibilidade de realizar “aterros ou movimentações de terra” na orla, que consta na Lei Orgânica do município.
“Peço que a Defensoria Pública, a Promotoria, os órgãos de Justiça abram um processo criminal contra o secretário que permitiu que esse EIA-Rima fosse apresentado com tantas falhas e à própria Profill que fechou os olhos para estas leis”, atacou.
Já o advogado Caio Lustosa defendeu na tribuna que o processo de privatização da área estava eivado de irregularidades jurídicas, na medida em que o terreno, por ser originalmente público, não poderia ter integrado a massa falida do Estaleiro Só – e portanto, não poderia ter sido vendido à empresa para pagar dívidas trabalhistas, que ainda não foram saldadas. Lustosa também advertiu sobre a preferência do Estado para recomprar a área, o que foi ignorado no processo.
A segunda audiência pública sobre o Parque do Pontal ocorre nesta quinta-feira, 9, às 19h, na Igreja Sagrada Família, na Cidade Baixa.



