Autor: da Redação

  • "Escrever é reescrever", dizia Moacyr Scliar

    O Santander Cultural inaugura hoje, 16, a mostra “O centauro do Bom Fim”, sobre a vida e a obra de Moacyr Scliar (1937-2011).
    O jornal JÁ aproveita a oportunidade para publicar uma entrevista inédita realizada em 2007 com escritor, feita pelo jornalista Francisco Ribeiro. Naquela ocasião, Scliar, aos 70 anos, acabara de lançar “O Texto, Ou: A Vida. Uma Trajetória Literária”.
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    O seu último livro não é propriamente uma biografia. Seria uma poética, não da escrita, mas do escritor Moacyr Scliar, e do escritor em geral?
    Sim, na realidade essa ideia foi surgindo aos poucos porque, originalmente, era só para ser uma antologia de contos. Eu não me entusiasmei com isso, pois tenho várias antologias. Aí propus que fossem contos e outros textos. Eles concordaram, passei a procurar os outros textos e, então, me dei conta que aquilo ali, de alguma maneira, refletia a minha trajetória. Portanto, poderia encaixar comentários sobre as circunstâncias em que surgiram. Aí, foi nascendo, quer dizer, não é uma autobiografia. É uma reflexão sobre o processo de criação literária em geral e sobre o meu processo de criação literária em particular.
     E como é este processo?
    Cada vez, uma coisa, para mim, se revela mais verdadeira. A ideia que as pessoas têm é que o escritor é um cara que escreve com tremenda facilidade, que vai botando as palavras. Mas não é assim. O escritor tem essa facilidade, mas, ao mesmo tempo, ele tem um nível de exigência que o comum das pessoas não tem. Vejo pelos e-mails que escrevo. A pessoa escreve uma frase, pode não estar bem escrita, mas tudo bem, porque serve para transmitir o pensamento dela. O escritor não se contenta com isso. Ele quer transformar a palavra num instrumento de criação estética, e isso exige um esforço. Daí a necessidade de reelaborar. Garcia Marques, em O outono do patriarca, reescreveu 16 vezes o primeiro parágrafo.
    E eu mesmo, na Zero Hora o pessoal me conhece, reescrevo muito. Mando a minha matéria, aí releio e penso: isso aqui eu podia melhorar. Aí melhoro, mando de novo, e digo, vale essa, aí mando uma terceira vez. E eles já estão acostumados. Jornalista, geralmente, não faz isso, escreve e manda. Tem muitos editores que tiram as obras dos escritores: “chega de mexer”, dizem. Na verdade, escrever é reescrever.
    Profissionalmente – apesar de todo o reconhecimento regional, nacional e internacional da sua obra –, o senhor sempre se definiu, primeiramente, como médico. A atividade de escrever seria algo secundário?
    Bem, isso é uma regra, não ocorre só no Brasil. Em todo o mundo, escritores, frequentemente, têm uma outra profissão. Muitos deles são professores universitários, ou trabalham em publicidade. Mesmo na Europa são minoria os escritores que vivem só de literatura. No Brasil, duas dezenas. O Jorge Amado era um deles, e o Érico Veríssimo, a partir de uma certa época. O Jorge teve um negócio que alavancou muito, que foi o partido comunista, que o promovia no Brasil e na Europa. Qualquer livro dele era traduzido em dez, 15 idiomas.
    Eu não considero isso um problema. Escritor se julga por aquilo que ele escreve. O que ele faz para ganhar a vida, as ideias que ele tem, a maneira como vive, não faz a menor diferença. Tanto isso é verdade que tem alguns escritores que a gente só conhece o pseudônimo. Não sabe nada deles, e não interessa saber.
    Agora, a questão da profissionalização da literatura e do escritor tem um outro aspecto, porque o cara tem, obrigatoriamente, de pensar em mercado. Se o cara quer viver de escrever, deve, num determinado momento, se perguntar: bom, se eu quero viver de escrever, o que eu tenho de escrever para as pessoas gostarem? Essa é uma faca de dois gumes: de um lado pode significar que o escritor se torna mais acessível, mais democrático, abre mais a sua temática; de outro, pode significar que ele está fazendo concessões.
    Então, nunca me preocupou isso, ficar pensando em como seria bom se eu fosse um escritor profissional. Na verdade, eu nem sei se ser escritor é uma profissão. Eu tenho uma profissão, sou médico. Um médico atende a uma necessidade concreta da sociedade. Mas qual é a necessidade concreta de  um escritor? Ele atende a necessidades emocionais, espirituais, etc. Mas, se a pessoa não tem o que ler, ela não vai morrer por causa disso. Por outro lado, a atividade de escritor não é desenvolvida como a de um operário, que tem horário de trabalho. Escritor escreve quando quer, quando dá.
    O que pode acontecer é que lá pelas tantas, a pessoa tenha tanta demanda que aí não pode fazer outra coisa. Que é o meu caso. Eu, atualmente, tenho tantos convites para viagens, palestras, solicitações para escrever coisas, que agora não poderia mais exercer a medicina. Mas isso, para mim, foi uma certa lástima deixar a medicina. Sempre gostei e enquanto pude conciliei as duas coisas. Agora não posso mais, simultaneamente veio à aposentadoria. Então, no meu caso, a coisa se resolveu ao natural. Mas acho que essa discussão, do ponto de vista literário, ela tem muito pouca importância. O que interessa no escritor é o resultado do trabalho dele.
    Alguma ideia sobre o seu próximo livro?
    Eu não tenho, digamos assim, um programa: primeiro escrever isso, depois vou escrever aquilo. Eu vou escrevendo as coisas que vão me ocorrendo, e nunca deixam de ocorrer. É uma coisa que, realmente, me dá satisfação, porque eu continuo escrevendo e com vontade de escrever, o que mostra que a noção de aposentadoria não existe no ofício literário. Agora, os meus projetos são em várias áreas: ficção, planos para um livro de contos, um romance, ensaio sobre medicina. Sem falar das solicitações: coletâneas de textos sobre saúde.
    Como vês a literatura gaúcha atual? 
    Durante muito tempo a literatura brasileira foi regionalista, tratava das vozes locais. O Brasil era um país rural. Não é mais. 80 por cento da população, hoje, vive em área urbana. Tivemos, no Rio Grande do Sul, três períodos: primeiro, o dos escritores nativistas, do qual Simões Lopes Neto é o exemplo maior. Um cara que usa o linguajar gaúcho e que, portanto, faz uma literatura para o Rio Grande do Sul porque ninguém entende, fora daqui, este linguajar. Sei por que escrevi um prefácio – numa coletânea do Simões Lopes Neto, publicada pela Ática –, que, quando vi o livro, fiquei espantado com o tamanho do glossário.
    Depois temos o Erico, que é um cara que capta a história do Rio Grande do Sul, sua tradição. Mas ele faz isso com um olhar urbano, e com um olhar brasileiro, porque ele pensava nos leitores.
    E aí, temos uma terceira fase, que é desses escritores como o Tabajara Ruas, o Faraco, o Assis Brasil, que têm um olhar crítico sobre o Rio Grande do Sul. Na verdade, eles estão mais vinculados ao Ciro Martins, do gaúcho a pé, do que ao Erico. Não é o épico gauchesco, mostra a outra face do Rio Grande do Sul.
    O Erico é um divisor de águas porque ele mesmo era descendente de proprietários de terra, criado naquela região. Mas ele era de uma família pobre. Então, era um homem de, digamos, esquerda moderada. Ele tinha uma dupla visão, ou seja, uma visão privilegiada.
    Hoje, nós temos, de um lado, esse fator da urbanização do Brasil, as cidades ficando cada vez mais parecidas, a linguagem cada vez mais homogeneizada porque todo mundo fala a linguagem da Globo, das redes de TV, as temáticas regionais praticamente desapareceram. Mas, temos novas vozes, e a presença do feminino é um exemplo disso.
    Também as temáticas, hoje, são diferentes. E outra coisa que colaborou muito pra isso foi à derrocada da esquerda. A geração de 30, da qual o Erico fazia parte, era uma geração militante: Dionélio, Cyro, Graciliano Ramos. Todos eram membros do Partido Comunista. Hoje, a presença de uma literatura engajada é uma coisa que tu não vê mais neste país. O que existe é o tema da violência urbana, caso do Rubens Fonseca; temas intimistas; a coisa das minorias sexuais; e uma outra temática, que é a do imigrante, que eu particularmente abordo. Mas não sou o único, há vários, no Rio Grande do Sul, e no Brasil, que fazem o mesmo.
    A cultura judaica continua a ter um papel importante na sua obra?
    É uma identidade forte, expressiva. Não é um fundamentalismo. É um sentido de pertencimento que corresponde a várias coisas. Em primeiro lugar, a experiência da imigração é muito marcante. E ela se faz presente nos filhos dos imigrantes, nos netos, com essa consciência que eles são diferentes: em casa eles comem um tipo de comida, ouvem um tipo de idioma, seguem um tipo de tradição, e na rua, no clube, na escola, são outras coisas.
    Tem coisas (ninguém mais fala ídiche) que estão sendo superadas pelo processo de assimilação, incorporando a cultura brasileira, e deixando de lado a outra.
    A questão da tradição judaica é uma coisa muito forte, milenar, e culturalmente muito rica, nas artes, na filosofia. Não há uma área do conhecimento onde não tenha um nome judaico. No caso dos escritores ela é mais forte ainda porque é uma tradição que gira muito em torno da palavra escrita, desde a antiguidade. Os judeus são os inventores do livro sagrado.
    Nos Estados Unidos, por causa de escritores como Saul Below, Piliph Roth, Norman Mailer, criou-se a expressão: “a literatura judaica é um novo regionalismo, que não tem a ver com geografia”. Tem a ver com identidade cultural. Houve uma época em que a literatura judaica nos Estados Unidos estava no auge, porque esses escritores pontificavam. Mas, o tempo vai passando e as coisas vão mudando. A literatura tem modelos que surgem e desaparecem.
    O realismo mágico, por exemplo, ninguém fala mais, e foi uma coisa importante. Hoje está morto, é uma lembrança. O realismo mágico, além de ser um estilo literário,  era um instrumento político. Ele surgiu numa época em que toda a América Latina era, praticamente, formada por ditaduras. Então, era uma forma de literatura que consistia em dizer as coisas de uma maneira enigmática, desafiando os censores, a polícia, etc. Isso tinha uma enorme repercussão. Foi numa época em que muitas pessoas simpatizavam com a luta contra as ditaduras na América Latina. Daí se explica o sucesso de escritores como o Garcia Marques, que ganhou o prêmio Nobel, de Vargas Llosa, Cortazar.
    Agora, voltando ao universo judaico, quero salientar que ele compreende, no mundo, uma população de 14 milhões de pessoas. Ou seja, uma população um pouco maior do que a do Rio Grande do Sul. Já foi mais forte, enquanto elite cultural. Houve muitos momentos, desde o final do século XIX, em que os intelectuais judeus lideravam.
    Enfim, o processo de assimilação é muito grande, porque o holocausto mostrou o que a intolerância pode conduzir. Então, hoje as pessoas não se atrevem mais a demonstrar esse anti-semitismo. Isso facilitou enormemente a assimilação do judeu.
    Fostes criado no Bom Fim, como vês a Porto Alegre de hoje?
    Porto Alegre é uma cidade que cresceu e se descaracterizou. Ela era, na minha infância, uma cidade de porte médio. Claro que não é uma cidade com características do Rio ou Salvador, nem com a história de Ouro Preto, mas tinha uma certa identidade. As pessoas se conheciam, a cidade era provinciana. Ela tinha um clima próprio, seu folclore próprio, suas histórias, seus personagens. Agora a cidade se descaracterizou. Se perguntarem como é que a gente caracteriza um porto-alegrense, acho que seria muito difícil. E considero que vai ficar cada vez mais difícil caracterizar um carioca, um paulista, um recifense, porque, realmente, esse processo de homogeneização é muito intenso. Isso não é, necessariamente, uma coisa ruim, é uma coisa que acontece e estamos conversados.
    (*Entrevista concedida a Francisco Ribeiro, em julho de 2007, em  Porto Alegre).

  • Maconha: bilionários de olho nos lucros que ela pode dar

    O norte-americano Warren Buffett, de 84 anos, entrou na lista dos homens mais ricos do mundo, graças a refrigerantes, balas e sorvete.
    Agora, decidiu investir na plantação da maconha nos Estados Unidos.
    A informação foi divulgada neste fim de semana pelo site Bloomberg, especializado em economia.
    O empresário segue o exemplo de outro milionário, George Soros, que apóia a liberação da erva no Uruguai.
    Uma subsidiária de sua empresa Berkshire Hathaway, chamada Cubic Designs que faz plataformas para maximizar o espaço útil em armazéns, enviou nas últimas semanas cerca de mil panfletos a dispensários de maconha, oferecendo assistência a produtores para expandir o número de plantas cultivadas.
    “Dobre seu espaço de cultivo”, afirma o panfleto em letras maiúsculas, sobre uma imagem de um unidade interna de cultivo de plantas. Em outra página diz: “Dobre seus lucros”.
    O deputado federal Osmar Terra comenta:
    – Estão enganados aqueles que pensam que Buffett apóia a plantação de maconha por razões humanitárias. Esta é uma prova que o grande capital não se preocupa com a nossa saúde ou a saúde de nossos filhos. Warren Buffett, assim como George Soros, não é um hippie dos anos 1960 e 1970. Trata-se de um dos maiores especuladores financeiros do mundo. Ele só visa lucro, a qualquer custo.
    O objetivo de Buffett e Soros é legalizar as drogas ilícitas e trazer ao mercado formal centenas de bilhões de dólares que circulam clandestinamente no narcotráfico:
    – Isso aumentará seus lucros de quem especula neste mercado – prossegue Terra -. Pouco importa se essa legalização vai multiplicar o número de doentes crônicos da dependência química e destruir milhões de família.

  • Preço do transporte preocupa mais que água, luz ou telefone

    Estopim das manifestações de junho de 2013, a tarifa do transporte coletivo nas grandes cidades continua no centro das preocupações da população, apesar.de ter sumido do noticiário, novamente.
    Uma pesquisa divulgada no início de setembro revela que o aumento do ônibus é, para a maioria, mais estressante do que os aumentos de luz, água, telefone.
    Eis um resumo da pesquisa (Luisa Zottis/TheCityFixBrasil):
    “O aumento na tarifa de ônibus traz mais dor de cabeça ao cidadão brasileiro do que nas contas de luz, água ou telefone. O dado foi revelado em pesquisa inédita da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) apresentada no Seminário Nacional NTU 2014.
    A Associação perguntou, e 91 personalidades ligadas ao setor de transportes, entre formadores de opinião, gestores públicos, empresários, jornalistas, especialistas, parlamentares, representantes de conselhos municipais e acadêmicos, responderam: quais as soluções para as demandas sociais sobre o transporte público?
    As inúmeras soluções apontadas pelo grupo de participantes baseiam-se em três queixas centrais dos brasileiros:
    Preço
    Qualidade
    Transparência
    Conheça, a seguir, as soluções propostas por eles:
    TARIFA
    “Não é por 20 centavos”. A frase marcou a onda de protestos no ano passado, desencadeados pelo aumento de 20 centavos na tarifa dos ônibus em Porto Alegre. Embora os pleitos fossem por direitos sociais como um todo, fato é que o gasto com a passagem é uma grande preocupação que pode ser justificada, na opinião dos respondentes, por dois motivos principais. Um, porque pesa diariamente no bolso do brasileiro, e não por mês, defendem 56,8% dos entrevistados. Em segundo lugar, porque o transporte é o serviço público considerado mais relevante às pessoas (28,4%). Como então, resolver de vez a questão?
    Na visão da maioria dos entrevistados (39,6%), a resposta é a tarifa social justa, que não comprometa a renda do trabalhador. Em seguida, 23,1% deles defenderam o subsídio integral da tarifa pelo Governo Federal, precedido pela tarifa social conforme a renda, citada por 18,7% dos respondentes. A tarifa universal, por outro lado, foi defendida pela minoria: 8,8%.
    A subvenção dos custos do transporte público também foi defendida pela maioria dos entrevistados: 92,3% deles é a favor da cobrança de estacionamentos públicos e 85% defende a taxação da gasolina; 85,9% defende o pedágio urbano nas áreas centrais; e 51% apoia o aumento do IPTU de imóveis mais caros.
    QUALIDADE
    A qualidade do serviço do transporte coletivo é crucial para que as pessoas optem pelo ônibus em vez do carro no deslocamento urbano. Segundo os entrevistados da pesquisa da NTU, entre os fatores para um transporte de qualidade estão o cumprimento de horários (78,8%), agilidade no tempo total de viagem, incluindo espera (72,5%); e segurança nos ônibus, pontos e terminais (57,1%). A informação ao usuário também foi citada por boa parte dos respondentes (53,8%), seguida de limpeza e iluminação (50%), entre outros fatores. Investir nas vias dedicadas ao ônibus e sistemas de alta capacidade, como o BRT (Bus Rapid Transit), é uma estratégia que pode levar ao sucesso, apontam. Os fatores para qualidade dos sistemas BRT foram debatidos em painel do Seminário Nacional NTU pelo diretor-presidente da EMBARQ Brasil, Luis Antonio Lindau, e você pode ler aqui.
    TRANSPARÊNCIA

    Anseios da Sociedade
    Anseios da Sociedade | Fonte: NTU, 2014

    O acesso à informação também é uma demanda da sociedade, sobre a qual os respondentes da pesquisa – formadores de opinião e tomadores de decisão – estão atentos. Em se tratando de transparência, eles elencaram o que julgam ser os principais anseios da população:
    Em linhas gerais, a pesquisa reforça a visão de que garantir um serviço prioritário nas vias urbanas, com eficiência na operação, transparência de dados e, principalmente, que ouça e atenda às demandas dos seus usuários, faz toda diferença para que o transporte cumpra com seu papel efetivo de não apenas transportar pessoas, mas assegurar o direito de ir e vir e o acesso aos serviços de saúde, educação, lazer e empregos – de forma mais sustentável que o carro.

  • Marina Silva, aquela que mudou de lado

    Leonardo Boff *
    (*Carta Maior)
    Já vai acalorada a campanha presidencial com uma disputa aberta entre Dilma Rousseff, atual Presidenta e a pretendente Marina Silva. Trata-se, na verdade, do confronto de dois projetos: a manutenção por parte do PT de um projeto progressista, marcado por fortes políticas públicas que permitiram integrar uma Argentina inteira na sociedade organizada. A prática política, imposta pelas elites, era de os governos fazerem políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres. Mas aconteceu uma viragem em nossa história. Alguém do povo chegou ao centro do poder e conferiu outra direção ao Estado. Não se pode negar que o Brasil numa perspectiva geral, especialmente na ótica dos pobres, melhorou muito. Negá-lo é mentir à realidade.
    A este projeto progressista se opõe o que a candidata Marina chama de “nova política”. Quando observada de perto, porém, não passa de um projeto conservador e velho que beneficia os já beneficiados e que alinha o país à macroeconomia voraz que faz com que 1% dos americanos possua o equivalente ao que juntos 99% da população ganha. Esse projeto visa a conter o processo progressista, evidentemente, sem anulá-lo, porque haveria, sem dúvidas, uma rebelião popular.
    As opções do PSB e de Marina Silva representam um retrocesso do que havíamos ganhado em 12 anos. A centralidade não será o Estado republicano que coloca a “coisa (res) pública” em primeiro plano, o estado dinamizador de mudanças que beneficiam as grandes maiorias a ponto de ter em 12 anos diminuído a desigualdade social em 17%. Agora com Marina, o foco é o Estado menor para conceder maior espaço ao mercado, ao livre fluxo de capitais sem lei, reafirmando as teses neoliberais: o aumento do superávit primário, que se faz com corte dos gastos públicos, com arrocho salarial e desemprego para assim controlar a inflação e finalmente impondo a autonomia do Banco Central. Especialmente este último ponto é grave porque um presidente foi eleito também para gerenciar a economia (que é parte da política e não da estatística) e não entregá-la às pressões dos capitais, dos bancos e dos rentistas. Seria um atentado à soberania monetária do país.
    Este projeto velho, foi aplicado no Brasil pelo governo do PSDB, não deu certo, quebrou a economia da União Europeia e lançou o mundo numa crise da qual ninguém sabe como sair. O efeito imediato será, como referimos, o arrocho salarial e o desemprego com o repasse de grandes lucros para os donos do capital financeiro e dos bancos.
    Marina quer governar com os melhores da sociedade e dos partidos, por cima das alianças inevitáveis no nosso presidencialismo de coalização. As alianças se farão, provavelmente, com o PSDB e com o PMDB e terá assim que engolir José Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor que ela tanto abomina. Sem alianças, Marina corre o risco de não ver passar no parlamento, os projetos que propõe, por falta de base de sustentação.
    Quem a escuta e lê seu programa parece que fez um passeio pelo Jardim do Éden: tudo é harmonioso, todos são cooperativos e não há conflitos por choques de interesses. Esquece que vivemos num tipo de sociedade de mercado (e não apenas com mercado) que se caracteriza pela competição feroz e por parca cooperação. Estimo que Marina, religiosa como é, se inspira no sonho do paleo-cristianismo dos Atos dos Apóstolos onde se diz que “a multidão era um só coração e uma só alma; ninguém considerava sua a propriedade que possuía; tudo entre eles era comum”(At 4,32).
    Estas opções mostram claramente que ela mudou de lado. Antes quando estava no PT do qual é uma das fundadoras falava-se na opção pelos pobres, por sua libertação e se denunciavam os faraós de hoje. Construía no canteiro dos explorados e injustiçados. Agora ela constrói no canteiro dos seus opressores: os endinheirados, os bancos, o capital financeiro e especulativo. Leva a eles o tijolo, o cimento e a água. Seus assessores na economia são todos neoliberais. Os seringueiros do Acre rechaçaram o fato de Marina colocar entre as elites a figura de Chico Mendes, pois sabem que foram agentes dessas elites que o assassinaram; por isso, protestaram veementemente e reafirmaram a tradição do PT apoiando a candidata Dilma.
    Minha suspeita é de que Marina persegue o poder e visa a alcançar a presidência, por um projeto pessoal, custe o que custar. Diz-se por ai, que uma profetiza de sua igreja evangélica, a Assembleia de Deus, profetizou que ela, Marina, seria presidenta. E ela crê cegamente nisso como crê no que, diariamente lê na Bíblia, passagens abertas ao acaso, como se aí se revelasse a vontade de Deus para aquele dia. São as patologias de um tipo de compreensão fundamentalista da Bíblia que substitui a inteligência humana e a busca coletiva dos melhores caminhos para o país.
    Sou duro na crítica? Sou. E o sou para alertar os eleitores/as sobre a responsabilidade de eleger uma presidente com tais ideias. Já erramos duas vezes, com Jânio e com Collor. Não nos é mais permitido errar agora em que a humanidade passa por uma grave crise global, social e ambiental e que reverbera em nosso país.
    Não devemos desistir do que deu certo e avançou. Mas devemos cobrar que se inaugure um novo ciclo que aprofunde, enriqueça e inove para além do que já foi incorporado pela população. Creio que o projeto do PT com Dilma, não obstante os erros e as decaídas que aconteceram e que podem e devem ser resgatadas, é ainda o mais adequado para o povo brasileiro. Por isso apoio Dilma Rousseff.

  • FEE debate a concentração da riqueza

    A Fundação de Economia e Estatística (FEE) realiza na tarde desta terça-feira (16/9/2014) mais uma sessão-debate em sua sede na R. Duque de Caxias, 1691, em Porto Alegre.
    O palestrante é Antonio Cattani, professor de Sociologia da UFRGS. Ele vai falar sobre os mecanismos de concentração e manutenção da riqueza (no Brasil, claro). Retoma-se assim um debate que esteve no auge nos anos 1970, quando o ministro da Fazenda, economista Antonio Delfim Netto, dizia que “antes de dividir o bolo, é preciso fazê-lo crescer”.
    O último debate da FEE, um mês atrás, teve como palestrante o economista americano Mark Setterfield, que leciona e pesquisa em Nova York. O assunto dele era consumo x desigualdade. Segundo seus estudos, o endividamento das famílias é o motor que faz funcionar a máquina do rentismo dos EUA – e do mundo capitalista, por que não?
    Setterfield deixou para os estudantes, professores e funcionários da FEE algumas reflexões estimulantes resumidas em frases óbvias como “A dívida das famílias gera a remuneração dos rentistas” e “No frigir dos ovos, o que vai influenciar a economia é a dívida líquida dos trabalhadores”. É tudo tão óbvio que a maioria das pessoas nem pensa nessa lógica do sistema financeiro.
    Setterfield concluiu que as famílias trabalhadoras se endividam para consumir, e para tanto se espelham no consumo dos ricos. Nos EUA, nos últimos anos, o endividamento gerou aumento da desigualdade social.
    E quanto maior a desigualdade, maior a tendência para a imitação dos ricos pelos pobres. Uma boa conclusão quando se considera que desde 2004, segundo Bruno Paim, economista da FEE, o consumo de massa tem sido decisivo para o crescimento da economia brasileira, que ultimamente perdeu o dinamismo.

  • Exposição na CCMQ marca centenário de Lupicínio Rodrigues

    No dia 16 de setembro de 1914, nascia o compositor Lupicínio Rodrigues, em Porto Alegre. Para comemorar o centenário do músico gaúcho, a Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) relembra sua vida e obra com a exposição Lupi, o poeta da dor de cotovelo, na Sala Radamés Gnattali, terça-feira, 16 de setembro. A mostra reúne fotografias, letras de músicas, reproduções do jornal Última Hora, de 1963, onde eram publicadas uma coluna escrita pelo compositor, que morreu em 27 de agosto de 1974, e letras de seus sambas. Apresenta também uma linha do tempo explicando sua vida e obra e até textos sobre o músico, como um depoimento de Mario Quintana.

    Lupi com as irmãs / Foto  Acervo Lupicinio Rodrigues Filho
    Lupi com as irmãs / Foto Acervo Lupicinio Rodrigues Filho

    Com um uniforme escolar
    Com um uniforme escolar

    A exposição é uma realização dos núcleos de Acervo e Memória e de Artes Visuais da Casa de Cultura Mario Quintana, com apoio do Acervo Lupicínio Rodrigues Filho. Essa é a segunda exposição elaborada a partir de uma seleção de itens do Acervo. A visitação pode ser feita de segundas-feiras, 14h às 21h; terças às sextas, 9h às 21h; sábados, domingos e feriados, 12h às 21h.

  • Um califado desafia o ocidente

    José Antonio Severo
    A degola de mais um ocidental pela faca afiada de Jiad John, como se chama o degolador do Estado Islâmico da Síria e Iraque (ISIS em inglês) é mais um passo de reforço à campanha para atrair tropas terrestres ocidentais para o sub-front da guerra civil árabe no Levante.
    Com isto, os combatentes do califado querem fortalecer o fantasma do inimigo externo ainda bem viva, evocando uma unidade milenar para combater os odiados “franjs”, ou os cruzados,  que,  vindos de toda a Europa cristã, tomaram e ocuparam por mais de 100 anos a atual Palestina no início do milênio passado.
    A morte de dois americanos teve força para levantar o clamor da opinião pública nos Estados Unidos, mas não o suficiente para Barak Obama mandar seus Boinas Verdes para lá.
    O assassinato ritual e público pela internet de um inglês objetiva mobilizar a David Cameron, o primeiro ministro britânico, que também faz corpo mole enquanto corre para estancar a onda separatista da Escócia.
    A verdade é que as opiniões pública norte-americana e britânica (de todo o Ocidente, diga-se) pedem ações contundentes contra os jihadistas, mas também não apoiam o reinício da guerra formal com a participação de soldados em terra.
    Aviões e bombinhas, tudo bem. Não mais que isto.
    Os líderes anglo-americanos estão em palpos de aranha, pois essa questão do califado é bem mais complexa e nebulosa do que se vê a olho nu.
    Assim como foi no caso do Talibã no Afeganistão, armado pelos norte-americanos para combater os soviéticos no âmbito da guerra fria, também o ISIS é um saco de escorpiões, aranhas cobras e todo o tipo de bichos brabos e peçonhentos. É complicado meter a mão dentro dessa cumbuca.
    Algumas pistas se podem tirar da própria imprensa da Arábia Saudita, a nação mãe da guerra santa atual, iniciada ainda na Primeira Guerra, insuflado pelo arqueólogo inglês T.E. Lawrence,  pelo primeiro rei Faiçal, príncipe de Meca, sacerdote mor do islamismo waabita, descendente direto do Profeta Maomé e guardião dos lugares sagrados, e que deu seu nome ao País, Saud.
    Vou transcrever algumas partes de uma matéria do jornalista saudita Rasheed Abu-Alsamh, muito esclarecedora desta confusão, e que deve ser lida cuidadosamente porque naquele país é muito arriscado escrever com todas as letras.
    Ele fala do que se diz em Riad (que ele escreve Jiad) sobre o exército do ESIS:
    “É a velha esquizofrenia da qual muitos sofrem aqui. De um lado há aqueles que dizem que o Estado Islâmico é uma invenção dos EUA, apontando para o fato de que alguns deles, de fato, tiveram treinamento militar dos americanos e britânicos na Jordânia no ano passado. É claro que esse treinamento foi dado levando-se em consideração serem eles parte da oposição supostamente mais moderada ao regime do presidente sírio Bashar al-Assad. Infelizmente esses elementos se juntaram ao Estado Islâmico que, com sua matança indiscriminada de minorias religiosas e muçulmanos xiitas e mesmo de sunitas, se mostrou bem extremista”.
    Este é um lado da confusão: muitos jihadistas foram criados pela CIA e pelo M5.
    Por outro lado, dizia outro jornalista árabe saudita, o colunista político Saad al-Dosari, do jornal Arab News: “A coisa preocupante é que nós, sauditas não parecemos estar longe de tudo isto”, e acentua que as células dos terroristas do califado recrutam no país jovens para formar nas milícias, muitos com apenas 15 anos, e levam para o Iraque para se incorporarem às tropas.  Ele destaca, também com cuidado, pois está mexendo em casa de marimbondo, que o monarca saudita é ambíguo: “O rei saudita Abdullah durante uma cerimônia em que novos embaixadores no reino lhe apresentavam credenciais, disse a eles, num discurso, que a ameaça do Estado Islâmico tinha de ser levada a sério. Caso contrário eles iriam chegar às portas da Europa em um mês e às portas dos Estados Unidos dentro de dois meses. Mas não ouvimos quaisquer planos dos sauditas de usarem seus caças F 16 para bombardear as posições dos terroristas do Estado Islâmico no Iraque, como alguns comentaristas norte-americanos têm pedido”.
    O jornalista Abou-Alsamh lembra que os estados do golfo têm interferido nos conflitos regionais, lembrando dos ataques dos aviões dos Emirados contra Trípoli, na Líbia (ele não fala do apoio do Qatar aos Hamas, na guerra contra Israel, há semanas) e vêm conversando com o Irã, que é o arqui-inimigo dos sauditas na geopolítica regional. Inclusive viu-se uma cena impensável até então, que foi a visita do chanceler iraniano a Riad para conferenciar com o ministro do Exterior saudita, príncipe Saud al-Faiçal, a fim de articular ações conjuntas relativas ao Estado  Islâmico.
    Vejam como é essa briga de foice no escuro: sauditas e iranianos são inimigos na crise síria, porque o Irã apoia Bashar e os sauditas financiam e armam os rebeldes; Já os dois países teocráticos se aliam para combater o califado, pois o ESIS pretende, reabilitando o califado de Bagdá, derrubar a todos os demais regimes (que eles chamam de fronteiras artificiais). Então, eles podem atuar em todos os países da região e do mundo.
    Isto não é tudo, como diz o jornalista Abou-Alsamh: “Mas todos estão bem cientes da duplicidade do regime sírio em suas relações com o Estado Islâmico, que combate, mas, ao mesmo tempo, compra seu petróleo e lhe vende armas”. Isto mesmo: a Síria financia o ESIS comprando o petróleo iraquiano que caiu em poder do califado na região de Mossul. Com este dinheiro os jihadistas compram armamentos, de quem? Do governo sírio de Bashar al-Assad, que sabe que tais armas serão usadas contra ele, mas também contra as demais oposições que lhe fazem guerra.
    É por isto que Obama hesita e que Cameron não quer mandar seus “Tommies” mais uma vez para os desertos do Levante. Então os jihadistas chamam Jiad John para degolar mais um para fazer a opinião pública empurrar seus líderes para o front. Claro, com as grandes potências em campo a guerra ganha novas proporções e vai correr mais dinheiro. No outro lado do Mar Negro, quietinho, Vladimir Putin espera com as barbas de molho espera o momento em que será também arrastado para o mesmo lado os demais ocidentais, quando seus muçulmanos chechenos se apresentem para entrar em campo. Só depois disso muita gente vai entender que não se pode analisar o oriente médio pelo modelo da antiga e extinta guerra fria. Será interessante ver os russos se alinhando com os europeus para conter os muçulmanos dentro de suas próprias fronteiras, como prevê o rei Abdullah, insuflando a guerra no Iraque para que os fanáticos deixem os subúrbios de suas capitais para irem se martirizar nas areias do deserto no Levante.
     

  • Imprensa e jornalismo, cada vez mais distantes

    Uma imprensa sem jornalismo
    Por: Luciano Martins Costa
    ( Do Observatório da Imprensa)
    Já se disse neste Observatório que não existe mais uma relação orgânica entre imprensa e jornalismo no Brasil.
    Alguns comentaristas que se manifestam sobre os temas propostos pelo observador neste espaço, entre eles acadêmicos portadores de currículos respeitáveis, consideram exagerada, ou no mínimo controversa essa afirmação.
    Mas a ruptura entre a mídia tradicional, como instituição, e o jornalismo, como atividade socialmente relevante no equilíbrio entre as forças que atuam no espaço público, fica mais evidente conforme se intensifica a disputa eleitoral.
    É neste período que os principais protagonistas da instituição conhecida como imprensa extrapolam de suas funções mais nobres para atuar como agentes de propaganda a serviço de determinada pauta política.
    Como na frase de um antigo assessor do ex-presidente americano Bill Clinton, trata-se, como sempre, da economia: por trás de toda controvérsia abrigada pelos jornais, pode-se notar a linha d’água da questão crucial que ainda divide o mundo das ideias, grosseiramente, entre esquerda e direita.
    Trata-se de um embate mais próximo do pensamento religioso do que da racionalidade.
    Acontece que essa matriz dicotômica não dá conta de iluminar as questões da complexa realidade contemporânea.
    Assim como as planilhas de uma pesquisa de opinião, por mais extensas e detalhadas que sejam, não conseguem abarcar as sutilezas que demarcam as variáveis individuais, a informação mediada passa longe de retratar a diversidade de interpretações possíveis para cada evento.
    A origem dessa complexidade é facilmente identificável: quanto maior o protagonismo dos indivíduos, estimulado pela cultura de massas e facilitado pelas tecnologias de informação e comunicação, maior o peso das individualidades sobre o coletivo.
    Tomemos, por exemplo, o caso da Petrobras, que frequenta o noticiário a bordo de uma sucessão de notícias sobre desvios de recursos, fraudes e supostos erros de gestão.
    Não há como escapar ao fato de que toda a celeuma em torno da estatal brasileira de petróleo tem como núcleo a divergência central grosseiramente delimitada entre direita e esquerda. Isolada a questão da corrupção, fenômeno histórico, o que alimenta o debate é a divergência ideológica.
    A RUPTURA
    Desde os comentários em programas noticiosos do rádio e da televisão até os artigos de economistas e jornalistas especializados, passando pelos editoriais que procuram conduzir a opinião do leitor para determinado viés, todas as manifestações credenciadas pela imprensa brasileira sobre a Petrobras carregam uma alta dose de aversão ao controle da estatal pelo… Estado.
    Paralelamente ao noticiário – necessário e coerente com o papel da imprensa – sobre erros, fraudes, crimes e outros desvios na gestão da empresa, o que se critica, realmente, é a estratégia de gestão.
    Dizem comentaristas da mídia tradicional que o governo atual prejudica a Petrobras ao definir uma estratégia que a coloca como um dos instrumentos da política econômica.
    Ora, se a aliança política que governa o país foi eleita há doze anos para conduzir um projeto de governo que se propõe a reduzir as diferenças de renda, ainda que eventualmente contrariando a doutrina do livre mercado, e o eleitorado tem renovado seus mandatos, não há como questionar a legitimidade de suas ações quando elas são coerentes com o compromisso anunciado.
    A Petrobras, assim como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e todos os ativos do Estado são instrumentalizados para a realização desse propósito.
    Essa escolha permitiu, há cinco anos, que o governo utilizasse os bancos oficiais para manter a oferta de crédito, quando a crise surgida no sistema financeiro dos Estados Unidos quebrou a capacidade dos bancos privados de financiar atividades econômicas essenciais.
    Sob essa estratégia, a Petrobras não apenas reduz a dependência nacional de insumos fundamentais para o dia a dia do país – também atua como fator de moderação de preços.
    Submetida aos caprichos do mercado, ela serviria apenas aos investidores da bolsa de ações e títulos – que, aliás, durante os anos anteriores se valeram de muita manipulação para fazer lucros da noite para o dia.
    Essa é apenas uma das muitas complexidades que a mídia tradicional não penetra, nas intervenções diárias que protagoniza no debate eleitoral.
    Por quê? Porque não existe mais a relação orgânica entre imprensa e jornalismo no Brasil.

  • Fotógrafo gaúcho lança livro e exposição sobre ilhas do Guaíba

    O jornalista e fotógrafo gaúcho Cristiano Sant’Anna lança seu livro Arquipélago, na próxima quarta-feira, 17, às 19h, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, no Centro Histórico de Porto Alegre. O evento também marca a abertura da exposição, que apresenta 60 imagens em preto e branco sobre as comunidades de pesca localizadas no conjunto de 16 ilhas formado pelo Delta do Rio Jacuí.
    Em janeiro de 2013, Sant’Anna começou uma pesquisa fotográfica no bairro de Porto Alegre denominado Arquipélago. Ao longo de 18 meses, o fotógrafo conviveu com moradores e conheceu seus hábitos, rotinas e a maneira como se relacionam com o rio e a natureza. O resultado desse trabalho é um fotolivro e uma exposição que retratam a economia, a cultura e as relações sociais daquela comunidade.
    Com uma narrativa fotográfica contínua, sem pausas ou marcações de capítulos, o fotógrafo se utiliza de diversas histórias para compor o cenário cotidiano e a dinâmica de relações nessa comunidade que vive da pesca: “A geografia entrecortada desses canais define a cultura e a relação do homem com o meio. O livro e a exposição são um conjunto de contos sobre os pescadores, os cavaleiros, as enchentes sazonais, a relação entre pais e filhos. São uma parte da história desse povo que vive de frente pro rio”, explica.
    Financiado pelo FUMPROARTE/Prefeitura Municipal de Porto Alegre, o projeto Arquipélago conta com o apoio cultural da Pubblicato Editora e da Ideativa Cultural. A exposição é uma correalização entre a Chourisso Editorial e o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo/CEEE/Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
    No dia do lançamento, o livro (tamanho 42 x 27 cm, 88 páginas) estará à venda por um preço promocional de R$ 60,00. A exposição fica em cartaz até o dia 18 de outubro.

    Pescadores do Arquipelago
    Pescadores do Arquipelago

    Sobre O autor
    Jornalista e repórter fotográfico há 18 anos, Cristiano Sant’Anna trabalhou para jornais do sul do Brasil como Zero Hora e Correio do Povo, em Porto Alegre. Entre seus projetos autorais destacam-se a exposição fotográfica Duas Margens (2009), sobre a frontalidade entre Buenos Aires e Colônia do Sacramento, e a cobertura do Fórum Social Mundial em Belém do Pará.
    Em 2011 e 2012 foi selecionado para apresentar seu trabalho no NanoFotoFest, de Buenos Aires. Atualmente desenvolve  Campos de Cima, um projeto de documentação do espaço geográfico dos campos de altitude e canions do sul do Brasil, e Quase Paisagem – Taim, financiado pelo FAC/RS, desdobramento deQuase Paisagem/Micro Paisagem, apresentado em 2013, na Usina do Gasômetro.
    Sobre o CCCEV
    Localizado no Centro Histórico de Porto Alegre, a poucos metros da Praça da Alfândega, o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV) se constitui em um equipamento a serviço das diversas expressões da arte.
    Abriga-se no “Edifício Força e Luz”, prédio com arquitetura de inspiração francesa, erguido entre 1926 e 1928 pelo arquiteto Adolfo Stern. O edifício foi tombado em 1994, transformando-se no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo em 2002.
    De lá para cá, a casa acolhe milhares de visitantes em atividades que englobam diferentes manifestações artísticas e formativas, cumprindo ininterrupta agenda de iniciativa própria.
    Sua vocação de origem ainda hoje se revela no 2º andar, que abriga o Museu da Eletricidade do Rio Grande do Sul (MERS). Em seu acervo estão valiosos objetos reunidos por todo Estado em uma exposição interativa ao dispor dos visitantes.
    Agora, o projeto original do CCCEV ganha formas definitivas a partir da criação do Memorial Erico Verissimo, que passa a dar visibilidade e acesso a um acervo que revela vida e obra do escritor que deixou as mais profundas marcas na Literatura Brasileira.

  • Porto Alegre tem 26 ocupações com pedido de reintegração de posse

    Quase ausente do noticiário e, por conta disso, quase ausente das campanhas eleitorais a questão da habitação popular em Porto Alegre é crônica e cresce sem parar.
    Não é a toa que se vê tanta gente dormindo na rua e que as noticias de invasões pipocam todos os dias.
    Neste momento, segundo o Movimento Nacional de Luta pela Moradia, há em Porto Alegre 26 ocupações com processos de reintegração de posse correndo na Justiça. Duas apenas são em áreas públicas, todas as demais em propriedades privadas.
    Há um mês quando 600 familias deixavam o chamado ”terreno da Avipal” no bairro Cavalhada, depois de três meses de ocupação, o diretor de planejamento da Secretaria Estadual da Habitação, Aurélio Froner, estimava que restavam ainda na capital outras 20 áreas invadidas. Um mês depois são 26.
    O mais impressionante é que a maioria dos atuais ocupantes são egressos de outras ocupações, de onde foram expulsos mediante a reintegração de posse. Muitos estão em programas de reassentamento que estão paralisados ou nunca saíram do papel.
    Na ocupação do terreno da ex-Avipal na Cavalhada, por exemplo, cerca de 80 familias eram oriundas da vila do Resvalo, um casario que ocupava as encostas de um valão à margem do arroio Cavalhada.
    Com as obras do PISA que canalizou o riacho, aumentou o risco de inundação e eles foram removidos. A liberação do dinheiro rendeu notícia, reassentamento ficou pela metade. O pisa cadastrou 1680  familias de quatro vilas que seriam removidas.
    Pouco mais de 300 foram reassentadas na Vila Nova e na Vila Hípica. Os restantes receberam um insuficiente bônus moradia por seis meses e, muitos, seguiram na condição de ocupantes.
    O problema das remoções e reassentamentos que geram sem teto tem raízes históricas em Porto Alegre. Foram manchetes em 1952 as remoções dos casebres do entorno da Doca das Frutas, para fazer o novo cais. As manchetes eram favoráveis, mas os jornais não deixaram de registrar “atos arbitrários e desumanos”.
    Outro evento marcante foi o programa “Remover para Promover” que levou, em fevereiro de 1967 as primeiras familias da Ilhota , na Cidade Baixa, para a então remota Restinga,na zona rural. Em quatro anos, os recursos deram para transferir 390 familias.
    A maioria dos moradores da Ilhota e de outras seis vilas removidas de áreas urbanizadas (atual Érico Veríssimo), que resistiam a  ir para um lugar ermo, sem nada, acabaram se dispersando, dando origem a outras ocupações.
    Cinco anos depois, em 1972, a Secretaria da Saúde registrava 124 núcleos e vilas irregulares, com quase 20 mil domicílios e quase 100 mil habitantes.
    Uma pesquisa de 2005 registrou 486 ocupações irregulares na cidade. Representavam 17% dos domicílios de Porto Alegre e abrigavam 21,4% da população “vivendo em situação de habitação irregular”.
    Em 2007, o Demhab foi incumbido de fazer o Plano Municipal de Habitação de Interesse Social, o PMHIS-POA. Uma equipe de 30 pessoas de sete órgãos do Estado e do Município, coordenadas por Silvio Carpenedo montou o Mapa da Irregularidade Fundiária: havia 75 mil domicílios, onda viviam 288 mil pessoas em áreas irregulares, muitas vezes em risco, sempre com total deficiência de serviços.
    Para resolver minimamente o problema seriam necessários R$ 2,5 bilhões, o que demandaria 64 anos se fosse mantida a média de investimentos em habitação na última década.  (E.B.)