Autor: da Redação

  • A invasão hermana

    As ruas centrais de Porto Alegre ficaram azuis e brancas – ou albicelestes, como dizem los hermanos – para apoiar sua seleção que comandada por Lionel Messi derrotou a Nigéria, no início da tarde de quarta-feira, 25/06, por três a dois no estádio Beira-Rio.
    Dos cerca de 100 mil argentinos que estiveram na capital gaúcha, pouco mais de um quarto tinha ingresso para assistir a partida. Alguns milhares foram para o FIFA Fan Fest, e o resto se espalhou por bares do Centro Histórico, ou no bairro boêmio da Cidade Baixa. O negócio era assistir o jogo – telão ou telinha, não importa – e confirmada à vitória, comemorar.
    Francisco Ribeiro (clique no título da matéria para ler o resto do artigo).
    Porto Alegre, que temeu pela presença dos barrabravas (os hooligans argentinos), recebeu, no geral, bem os provocativos hermanos e suas canções que invariavelmente terminam dizendo que Maradona é melhor do que Pelé. Mas isso é problema deles e no Brasil a maioria leva as letras na esportiva, na gozação. Mas não convém exagerar, como comprovaram os distúrbios envolvendo argentinos nas cidades em que joga a sua seleção.
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    No Rio de Janeiro, por exemplo, um grupo, ao tentar interromper o trânsito na Avenida Atlântica, Copacabana, foi reprimido com gás de pimenta. No bairro Savassi, em Belo Horizonte, brasileiros e argentinos alcoolizados promoveram, num bar, uma verdadeira guerra de garrafas, vazias, naturalmente. Já em Porto Alegre, na noite de terça-feira, 24/06, um torcedor argentino foi baleado na coxa num bar da Rua Fernando Machado, após uma discussão sobre futebol.
    Contudo, não faltaram precauções. Órgãos de segurança argentinos, em colaboração com seus pares brasileiros, fizeram uma lista de 2500 nomes de indivíduos com antecedentes criminais, e pertencentes às barrabravas de clubes daquele país. Isso possibilitou a identificação e a proibição de entrada, ou a expulsão do território brasileiro de dezenas desses elementos. Mas sabe-se que muitos desses delinquentes disfarçados de torcedores conseguiram burlar os filtros de segurança e ingressar no Brasil.
    Barrabravas
    Uma típica ação barrabrava ocorreu quarta-feira, 25/06, pela manhã, poucas horas antes do jogo Argentina e Nigéria. Nessa ocasião, três torcedores nigerianos denunciaram terem sido agredidos por um grupo de argentinos: “roubaram nossos ingressos, comportaram-se como animais”, desabafou um revoltado africano. Mas os barras não foram os únicos vilões. Além de argentinos, foram detidos nigerianos e indianos vendendo ingressos falsos para o jogo no Beira-Rio.
    Mas seria injusto, por causa desses incidentes, discriminar os argentinos. Além dos milhões de reais que injetam no comércio das cidades onde joga a sua seleção, a maioria quer apenas torcer em paz ou como disse a simpática Claudia Xavier, natural de Córdoba, a segunda cidade mais populosa da Argentina: “aqui hemos venido a disfrutar” (estamos aqui para nos divertir).
    Comerciária, ela viajou de ônibus com o marido, Juan, cerca de 1600 quilômetros para assistir o jogo em Porto Alegre. No Caminho do Gol – trecho que vai da Avenida Borges de Medeiros ao Beira-Rio – o casal exibiu, discretamente, os ingressos comprados com bastante antecedência. Também achou absurdo o fato de alguns compatriotas estarem dispostos a pagar mais de mil dólares para assistir o jogo ao vivo: “é melhor pegar a grana e ir para o Fan Fest, e encher a cara de cerveja e caipirinha”, sugeriu a bem-humorada Claudia.
    Opção que coube Jorge Kelm, 19, um alto e loiro pibe (rapaz) de Colegiales, um bairro de Buenos Aires, que com mais dois amigos, estudantes de jornalismo, encararam num velho Fiat os 1366 quilômetros que separam a capital portenha de Porto Alegre. Chegaram sábado, 21/06, dormiram no carro e depois armaram uma barraca no Acampamento Farroupilha. Gostaram muito do Brique da Redenção: “Em Colegiales temos algo parecido, um Mercado de Pulgas”, informou Kelm.
    Para ele, estar no Brasil já é um prêmio, mesmo sem dinheiro para comprar os ingressos dos jogos. Salienta o ambiente de festa que acompanha o selecionado argentino pelas cidades brasileiras: “não sei se vamos ser campeões. Mas, com certeza, temos o melhor jogador. Messi é superior a Neymar, Robin ou Cristiano Ronaldo. Só não é melhor que Maradona ou Pelé”. Sobre os dois últimos, não quis fazer comparações para estabelecer quem foi o maior. Em terra estrangeira: prudência, chá e simpatia. Conselho que deveria ser seguido pelos torcedores de qualquer país.

  • O Guaíba nas imagens poéticas de Achutti

    Em “O Guaíba por Achutti” – obra financiada via Ministério da Cultura, produção executiva de Pedro Longhi, e Flávio Wild como designer –, o fotógrafo revela a beleza e as mazelas de um espaço aquático de águas sempre renovadas, cheio de histórias e lendas como as das cidades que foram construídas a sua volta.
    Para tanto, servem de apoio os textos de apresentação do historiador Voltaire Schilling e o ensaio do jornalista André Simas Pereira.

    A geração de Achutti, que cresceu na década de 60 do século passado, foi à última a curtir o Guaíba naquilo que ele tinha de melhor: suas praias, a orla balneária que do lado porto-alegrense vai, principalmente, do bairro Assunção ao Lami.
    Ele recorda de quando era criança e morava no bairro Menino Deus: […] “lembro, vagamente, de que a Av. Bastian margeava o Guaíba. Eu lembrava que até havia dunas, mas meu pai me corrigiu outro dia que dunas talvez não, a vegetação é que era alta e eu baixo” (ACHUTTI, 2014).
    Achutti cresceu, foi fazer doutorado em Antropologia em Paris, França, virou professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas não esqueceu o seu rio. Batalhou durante dez anos o projeto de retratá-lo. Uma vez conseguidos os recursos, ficou mais de um ano fotografando as aguas, ilhas, construções, embarcações, e pessoas.
    Não escolheu uma luz específica, pois a ideia era fugir do lugar comum, cartão postal, dando preferência à iluminação típica de cada estação, sem temer tempos feios. Assim, a luminosidade escaldante do verão, convive com a neblina do inverno, que, nesse caso, oferece uma imagem que faz lembrar alguns quadros de William Turner (1789-1862), famoso pelos seus fogs londrino.
    Por isso, considera seu mais recente trabalho, acima de tudo, como uma homenagem poética: “ao rio que vi do alto, a minha primeira praia, rio de projetos, sonhos de criança, adolescente e jovem adulto”. (ACHUTTI, 2014).
    Mas se as fotos realçam a beleza e o lirismo, os textos que acompanham o trabalho – principalmente o ensaio de 25 páginas de Andre Simas Pereira – relatam com profundidade diversos aspectos sobre o Guaíba e Porto Alegre. Percebe-se, logo, que suas histórias e lendas urbanas nos últimos dois séculos e meio se completam, e se confundem.
    Auguste de Saint-Hilaire
    Assim, na narrativa histórica de Pereira não faltam citações e observações de famosos estudiosos europeus, como Auguste de Saint-Hilaire, que visitou Porto Alegre em 1820. Ou a descrição do primeiro aterro sofrido pelo Guaíba, em 1842, para a construção da doca do primeiro mercado público da cidade, inaugurado em 1844; a Ferrovia (para transportar fezes) do Riacho.
    E daí para um interessante mergulho no século XX, com a construção do moderno porto fluvial; a descrição do prato principal servido na ilha do Presídio, quando abrigou um ilustre preso político, o ex-prefeito Raul Pont; e as homenagens fúnebres das cinzas jogadas no rio de Luiz Pilla Vares, ex-secretário de Cultura de Porto Agre, e de László Böhm, ex- diretor do DMAE e grande velejador, que deixou 250 litros de chope, previamente pagos antes de sua morte, para que os amigos bebessem em sua homenagem.
    Enfim, “Guaíba por Achutti”, mais do que um belo livro de fotos e histórias de uma das mais belas paisagens lacustre-fluvial do território brasileiro, traz a oportunidade para refletir e elaborar ações políticas e técnicas de reconquista de um espaço que por descaso do poder público tem sido tratado, principalmente, como uma cloaca e depósito de lixo das mais variadas procedências.

  • Romance baseado em surto de aftosa no Estado será lançado na quinta, 24

    Estreante no mercado literário, o jornalista Luiz Guimarães lança no dia 24 de julho, às 19h, na Livraria Saraiva do Shopping Praia de Belas, o romance Vinhas da Peste, uma obra que traz para a ficção um episódio real da história recente do Rio Grande do Sul. O livro é ilustrado pelo multipremiado cartunista Santiago, tem capa de Marco Cena e prefácio do escritor e Secretário da Cultura do Rio Grande do Sul, Luiz Antonio de Assis Brasil.
    Explorando como pano de fundo o surto de aftosa que sacudiu a pacata cidade de Joia, situada no noroeste gaúcho, na segunda metade do ano 2000, o autor cria um ambiente mágico, dando alma aos animais marcados para morrer, ao mesmo tempo em que revela o lado mesquinho dos homens que arquitetam a estratégia de combate ao mal.
    A obra traz para o conflito o debate político acerca do episódio e extrapola para o romance policial quando um assassino em série barbariza a pequena comunidade. Na esteira de um vinho misterioso, capaz de provocar mutações na espécie humana, a narrativa ganha tons de realismo fantástico, ao profanar a convivência entre homens e homens e animais e homens.
    “Desde o início, nunca passou pela minha cabeça produzir um livro-reportagem; a ideia sempre foi trabalhar o real (o episódio da aftosa) pelo caminho da ficção, sem deixar, no entanto, de ser fiel aos fatos que acompanhei como repórter da extinta Gazeta Mercantil de São Paulo”, explica Guimarães.
    No prefácio, Assis Brasil afirma que o conjunto de pessoas e elementos – quase todos incontroláveis – faz com que o romance justifique a si mesmo. “É um romance que, apropriando-se de um material comum (o pampa e suas circunstâncias), diz-nos algo de novo.”
    O autor
    Luiz Carlos Monteiro Guimarães é formado em Jornalismo e pós-graduado em Marketing pela PUC/RS. Lecionou Redação Jornalística no curso de Comunicação Social da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Por longo tempo, trabalhou como editor e chefe de reportagem do Correio do Povo e como repórter da sucursal de Porto Alegre na extinta Gazeta Mercantil. Atualmente, é editor de Economia do Jornal do Comércio.

  • Sangue latino no IECINE

    Francisco Ribeiro
    O Instituto Estadual de Cinema (IECINE) tem a frente, desde abril último, um novo diretor, o cineasta colombiano Juan Zapata, 36, que substitui Luiz Alberto Cassol. Radicado há dez anos em Porto Alegre, Zapata tem diante de si o desafio de conduzir até o final do ano um órgão que poderia ter um papel mais atuante no fomento do audiovisual gaúcho, tão carente no que tange a produção, espaços de exibição e distribuição.
    É justamente neste último quesito que a experiência de Zapata, principalmente na América Latina, poderá auxiliar na ampliação do mercado para as produções realizadas no Rio Grande do Sul.
    Zapata tem do imigrante a índole batalhadora e pragmática, o desafio de integrar-se numa sociedade que até o início desse século não tinha a menor noção da existência. Chegou aqui no verão de 2004 por paixão, não pela terra, mas por uma gaúcha que conhecera em Cuba no ano anterior, quando era bolsista da Escuela Nacional de Cine y TV, em San Antonio de los Baños, a 26 quilômetros de Havana.
    A Escuela, como ele define, é uma ilha dentro da ilha de Fidel: “o curso foi ótimo. Havia gente de tudo que era lugar, de 30 países, respirando cinema o dia inteiro. Fiz muitos amigos e alguns, mais tarde, tornaram-se meus parceiros em projetos. Enfim, uma experiência que mudou radicalmente a minha vida, inclusive a minha vinda para Porto Alegre”.
    Natural de Medellín – segunda cidade mais populosa da Colômbia – Zapata cresceu, devido ao narcotráfico (trata-se da cidade de Pablo Escobar, morto em 1993): “num lugar sangrento, inseguro, onde era comum, na ida para o colégio, ver corpos na rua. Bombas explodiam a noite. Ainda guardo um trauma, embora Medellín, hoje, seja um lugar completamente diferente, e com uma boa qualidade de vida”.
    De autodidata à professor
    Lá, Zapata teve, inicialmente, uma formação autodidata na área de comunicação, trabalhando, principalmente, em rádio e televisão. Depois de Cuba percebeu que o jornalismo não daria vazão ao seu desejo autoral e, já tendo Porto Alegre como base, investiu na sua carreira de roteirista, diretor, produtor, e, também, como já exercera na Colômbia, a de professor universitário.
    Dez anos depois de sua chegada já tem em seu portfólio a realização de quatro longas, o último foi Simone. Apesar disso, continua achando difícil para um cineasta estrangeiro trabalhar no Brasil, mas isso não o intimida: “quando cheguei senti certa discriminação por ser estrangeiro. Mas encontrei condições para me reinventar. Dá para contar nos dedos os cineastas estrangeiros que atuam no Brasil. Ainda sinto que algumas portas continuam fechadas. Nunca ganhei, por exemplo, um edital”.
    Para sobreviver profissionalmente como cineasta em Porto Alegre, o que não é fácil, Zapata agregou as suas atividades a tarefa de distribuidor de filmes latino-americanos, principalmente em circuitos alternativos. Trabalho que foi incrementado, consideravelmente, após o fórum de cineclubes na cidade do México, 2012. Naquela ocasião, sua produtora, a Zapata Filmes, uniu-se ao Centro Cultural Yaneramai, da Bolívia, e a organização Circo 2.12 A.C, do México, para criar a Latinópolis, uma rede de distribuição focada na produção latino-americana.
    É essa valiosa experiência de comercialização e distribuição de filmes que Zapata pretende desenvolver a frente do IECINE: “há muita dependência do recurso estatal. Um vício em editais, subvenções. No futuro, dependendo do governo que assumir, estas verbas poderão não existir. Então, é preciso pensar numa sustentabilidade de mercado para a produção feita aqui”.
    Para Zapata, o Rio Grande do Sul, com forte influência platina, é o estado brasileiro melhor aparelhado culturalmente para dialogar, através de suas películas, com o resto da América Latina. E nesse processo é necessário divulgar aquilo que já foi realizado: “tem muito filme bom guardado e que, fora os festivais nacionais, não foi para lugar nenhum. Isso me parece injusto.
    Vendendo o carro
    As pessoas, no exterior, precisam saber que aqui se faz cinema de boa qualidade. É preciso acabar com essa cultura de ficar sempre esperando o próximo edital. Vamos criar um mercado para o material que temos”.
    Segundo Zapata – que uma vez já teve que vender o próprio carro para financiar projetos – não se trata, meramente, de uma questão comercial, embora o retorno financeiro seja importante para custear novas produções: “é preciso um plano comercial que vise dar sustentabilidade para o que é produzido aqui. Caso contrário, vamos continuar patinando em processos que não são viáveis ou que não deram resultados em nenhum critério: político, cultural ou econômico”.
    Assim, Zapata quer compartilhar sua experiência como distribuidor no mercado internacional. Já fechou acordos com o México, Colômbia, Equador, Bolívia, Uruguai, Guiana Francesa e, quase certo, com a Argentina: “não há limite para o número de filmes. A televisão, por exemplo, está pedindo um pacote de dez longas para comercializar. Há previsão de mostra com seis longas e seis curtas, e pacote de dez longas para as salas.”
    Trata-se de uma política de mão dupla, pois filmes destes países também serão exibidos em território gaúcho. Nesse intercâmbio ainda está previsto, dependendo dos recursos de cada lugar, da ida e da vinda dos realizadores destas películas, fundamental para a troca de experiências e conhecimentos. Some-se a isso a expectativa da visita ao estado de uma missão chinesa, que inclui representantes de diversas áreas culturais. Será uma ótima oportunidade de abertura para o audiovisual gaúcho daquele imenso mercado que é a China.
    Mais do que desbravador, Zapata – no pouco mais de um semestre em que, a priori, ficará como diretor do IECINE – pretende marcar a sua gestão pelo incremento da penetração do audiovisual gaúcho no mercado internacional: “acabou a desculpa de que não se pode vender ou distribuir. Quero deixar as portas do mercado latino-americano abertas. Penso sempre no coletivo, numa maneira de caminharmos juntos, que um filme abra espaço para outro. Devemos pensar naquilo que podemos conseguir, e deixar para fazer políticas de fomento à produção, novos editais, no próximo governo, pelo futuro diretor do IECINE”.
    Francisco Ribeiro

  • Mostra Cinema pela Verdade volta a Porto Alegre

    No ano em que completam-se 50 anos do golpe que instaurou a ditadura, a Mostra Cinema pela Verdade volta a Porto Alegre com filmes que retratam este período marcante da história brasileira. Cada estado do país terá pelo menos seis sessões gratuitas de filmes entre abril e maio, totalizando 162 exibições seguidas de debates.
    Este ano, os filmes selecionados foram os documentários Repare Bem, de Maria de Medeiros, Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro, de Vandré Fernandes, e Ainda Existem Perseguidos Políticos, produzido de forma coletiva pela Ong Acesso. Nos dias 12, 13 e 14, acontecem exibições às 19h30 no Auditório UNIR Centro.
    Realizado pelo Instituto Cultura em Movimento (ICEM), em parceria com o Ministério da Justiça, o projeto foi contemplado pelo edital “Marcas da Memória”, da Comissão de Anistia, que visa à promoção de eventos e projetos com foco na Ditadura Militar no Brasil e na América Latina.
    50 anos do Golpe
    “O Festival de Cinema pela Verdade chega a sua terceira edição em um momento de afirmação de nossa democracia com o aniversário dos 50 anos do Golpe. Este ano serve para reafirmar o NUNCA MAIS e para dizermos em alto e bom tom que a sociedade brasileira não aceita ruptura com as instituições e com a Constituição”, diz o Secretário Nacional de Justiça e Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão.
    A terceira edição da Mostra Cinema pela Verdade teve início na última semana de março, quando universitários das 27 Unidades Federativas do Brasil reuniram-se em um hotel no interior do Rio de Janeiro para participar de uma intensa capacitação que os tornaram “agentes mobilizadores”.
    Oriundos dos cursos de Jornalismo, Ciências Políticas, História, Sociologia, entre outros, eles serão responsáveis por produzir e promover a Mostra em universidades, escolas e centros culturais de todas as capitais e em algumas cidades do interior do país.
    “O ICEM acredita no audiovisual, no cinema, como um instrumento potencializador do debate e o Cinema Pela Verdade é uma ótima oportunidade de interlocução com o público jovem, atuante e crítico.
    Esse ano, em que se completam os 50 anos do Golpe, o projeto vem para somar a discussão do que foi a Ditadura Militar no Brasil. Falar sobre, discutir, esclarecer, facilita o entendimento do presente e futuro e é isso que o Cinema Pela Verdade se propõe a fazer”, conclui a vice-presidente do ICEM, Luciana Boal Marinho.

    Repare Bem, de Maria de Medeiros

    Documentário, 10 anos, 95 min., França, Itália, Brasil, 2012
    Sinopse: O jovem guerrilheiro Eduardo Leite “Bacuri” morre em 1970 nas mãos da ditadura militar brasileira, depois de 109 dias de tortura. Sua companheira, Denise Crispim, perseguida e presa durante a sua gravidez, consegue fugir para o Chile depois do nascimento de Eduarda. Lá, encontra seus pais exilados, os quais dedicaram toda a sua vida à luta pela liberdade. A violência da repressão volta a atingir a família com o golpe de Augusto Pinochet, obrigando pais e filhos a se dispersar pelo mundo.

    Camponeses do Araguaia, a Guerrilha Vista por Dentro, de Vandré Fernandes

    Documentário, 14 anos, 73 minutos, Brasil, 2010
    Sinopse: Camponeses falam da amizade com os “paulistas”, como chamavam os militantes do PC do B que lutaram na Guerrilha do Araguaia durante a ditadura militar, e revelam as atrocidades cometidas pelo exército brasileiro na região entre 1972 e 1974.

    Ainda Existem Perseguidos Políticos, produzido pela ONG Acesso

    Documentário, 10 anos, 54 minutos, Brasil
    Sinopse: O filme tem por objetivo fomentar o debate sobre a ausência de uma efetiva transição democrática no Brasil, pós-Ditadura Civil-Militar implantada no País a partir de 1964. Identifica semelhanças no agir do Estado no passado e atualmente, demonstrando que a cultura do autoritarismo permanece arraigada em algumas instituições estatais brasileiras. Apresenta também imagens do projeto que levou este debate para os mais variados públicos (quilombolas, universitário, LGBTT, assentados do MST, comunidades periféricas, etc) desenvolvido pela Acesso – Cidadania e Direitos Humanos em parceria com a Comissão de Anistia.
    Sobre o Instituto Cultura em Movimento: O ICEM é uma organização da Sociedade Civil de interesse Público (OSCIP), fundada em 2002. Nascido da bem sucedida experiência do projeto “Cinema em Movimento”, rede nacional de agentes culturais, organizada em torno da distribuição gratuita de filmes brasileiros, o ICEM atua em todas as 27 unidades da federação.

    SERVIÇO MOSTRA CINEMA PELA VERDADE:

    Filme: “Camponeses do Araguaia, a guerrilha vista por dentro”
    Data: 08/05
    Local: Auditório do Campus Central da Uergs
    Endereço: Av. Bento Gonçalves, 8855. Bairro Agronomia, Porto Alegre
    Horário: 19h
    Preço: Grátis
    Filme: “Repare Bem”
    Data : 15/05
    Local: Auditório do Campus Central da Uergs
    Endereço: Av. Bento Gonçalves, 8855. Bairro Agronomia, Porto Alegre
    Hora: 19h
    Preço: Grátis
    Filme: “Ainda existem perseguidos políticos”
    Data: 22/05
    Local: Arquivo Nacional
    Endereço: Rua Riachuelo 1031, Centro
    Hora: 19h
    Preço: Grátis
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  • MARGS lança catálogo geral

    O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) lançou na última quinta-feira (24/04), na sede da instituição, o seu Catálogo Geral. Trata-se de uma publicação de 468 páginas que documenta a coleção de cerca de três mil obras pertencentes ao Museu, que reúne o maior acervo artístico do Estado.
    O Catálogo é resultado do Projeto de Digitalização do Acervo do MARGS, desenvolvido a partir de 2011, e foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal.
    Do quadro, “Balança”, do fluminense Abelardo Zaluar (1924-1987), primeiro nome da lista alfabética, ao último, da artista plástica gaúcha Zorávia Bettiol, e sua xilogravura “O colar”, o catálogo revela o verdadeiro tesouro que é o acervo do MARGS.
    Obras de artistas nacionais de grande renome como Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral; uma gravura de metal do louco e genial surrealista Salvador Dali. Verdadeiras coleções de obras de artistas gaúchos, tais como: Pedro Weingärtner, Carlos Scliar, Iberê Camargo, Vasco Prado.
    Enfim, uma enorme publicação – reunindo artistas brasileiros e estrangeiros, obras do século XIX ao XXI, dados biográficos – organizada por Raul Holtz, coordenador do núcleo de acervo do MARGS, e sua equipe de colaboradores. E que contou, para a sua realização, com a estreita participação da Associação dos Amigos do Museu (AAMARGS).
    Holtz, arquivista formado pela UFRGS, faz questão de salientar que a conclusão do projeto de digitalização do acervo incrementou a sua conservação, manejo e planejamento de novas aquisições. Ressalta tratar-se, este catálogo, de um primeiro volume, pois, durante o seu período de elaboração mais de 300 obras, por intermédio de aquisição ou doação, somaram-se ao acervo já existente. Ou seja, a virtualidade de um segundo volume já se faz presente.
    Por enquanto, este primeiro volume, além do inventário das obras, traz bons textos de análise e reflexão, pois, quase sexagenário, o MARGS, como um velho senhor, tem muitas histórias para contar.
    Trajetória da instituição
    Por este viés, José Francisco Alves, curador-chefe do Museu, no texto “O acervo como protagonista do MARGS”, recupera parte da trajetória da instituição, criada por decreto estadual em 1954, sem sede e sem acervo; do seu primeiro diretor, Ado Malagoli (1906-1994), que pensou o museu enquanto “arte brasileira do presente”; ou Xico Stockinger (1919-2009), que, em 1963, capitaneando a instituição, transformou o museu numa ativa galeria, pois o acervo existente “não era suficiente para uma programação de maior envergadura”; aos dias atuais, em que o MARGS, “pela excelência do seu acervo passou a ter como protagonista a própria instituição”.
    Já o diretor do museu, Gaudêncio Fidelis, nos textos “Programa e estratégia” e “Justaposição do labirinto” faz um balanço administrativo e cultural de sua gestão, 2011-14, no que tange a melhoria da infraestrutura, exposições, qualificação do acervo, conservação e restauro, e resgate das relações com a comunidade.
    Segundo Fidélis, houve incremento em todos os setores, destacando-se, entre outras coisas: a instituição da função de curador-chefe e um núcleo de curadoria; a introdução, no acervo, da área de Design; a instalação de um moderno sistema de iluminação, maior segurança. Assim, para Fidélis, diante deste saldo positivo, o ingresso do MARGS no clube dos museus mais importantes da América Latina “dependerá apenas de seus futuros diretores”.
    Francisco Ribeiro
    Catálogo Geral do MARGS
    Onde comprar: Loja do MARGS, Praça da Alfândega (Centro Histórico)
    Preço: R$120,00

  • Revista JÁ – História conta como foi o golpe de 1964

    Promoção de lançamento: dez reais. Só hoje, para quem for ao Tutti Giorni pegar seu exemplar.
    A partir de amanhã, nas bancas e boas casas do ramo.

  • A caça (aos pagantes) dos black blocs

    Dirceu Cardoso Gonçalves* |

    Os acusados da morte do cinegrafista Santiago Andrade falaram à polícia que os participantes das manifestações são pagos para vandalizar e, como vimos, até matar. Veio a público uma lista de partidos e supostos contribuintes, incluindo vereadores, delegado de polícia e até juiz de direito, que negam ter dado recursos para sustentar manifestações violentas.
    Apesar das negativas, a sociedade não pode abrir mão de apurar e buscar a identificação daqueles que efetivamente mantêm os tais black blocs e saber, inclusive, quais os seus interesses e finalidades. Mesmo que os citados inicialmente não sejam os financiadores, é preciso saber quem os custeia e promover a identificação e o devido processo legal contra criadores e criaturas.
    Não se pode, ainda, descuidar na proteção aos dois acusados presos pois, com a denúncia formulada, podem ter se transformado em inconvenientes “arquivos” sujeitos à queima antes que possam fazer novas revelações.
    A polícia e o Ministério Público certamente dispõem de meios para aprofundar a investigação e chegar aos financiadores dos atos de selvageria e vandalismo que tanto têm incomodado as cidades brasileiras e, inclusive, desvirtuam os movimentos que buscam pacificamente seus objetivos. Da mesma forma que uma sociedade democrática tem de ser permeável às reivindicações do povo, desde que feitas pacifica e ordeiramente, tem de ser diligente e eficiente para isolar e punir rigorosamente os aqueles que se infiltram e promovem o caos.
    No momento em que a autoridade constituída não é suficiente para manter a ordem pública, fica comprometida até a sua representatividade. O povo, através do “contrato social” e do voto, dá procuração aos governantes e às autoridades de carreira para zelarem da ordem pública e promover o bem-estar geral. Sucumbir aos black blocs ou a seus financiadores é extrema prova de fraqueza e falta de comprometimento.
    Espera-se que, da jornada empreendida pelo ministro da Justiça junto aos secretários estaduais daSegurança Pública, saiam medidas concretas e eficazes para fazer cessar a desordem, e que o Congresso Nacional seja rápido o suficiente para aprová-las. O país e a população precisam de paz para vencer seus grandes desafios.
    Todos os que atuam em direção contrária, têm de enfrentar as consequências. É inaceitável a morte de Santiago Andrade. Mas, como já ocorreu e é irreversível, que sirva, pelo menos, para a retomada da ordem pública e da busca da paz social…
    *Dirceu Cardoso Gonçalves é tenente da Polícia Militar de São Paulo e dirigente da ASPOMIL (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo)

  • Arte e feminismo no MARGS

    Até 23 de março o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) abrigará a primeira exposição retrospectiva de Ana Norogrando: obras 1968-2013. A mostra, que tem a curadoria do diretor do museu, Gaudêncio Fidelis, reúne uma produção eclética: pintura, escultura, instalações e videoinstalações.
    Nela se destaca o caráter feminista que a artista imprime ao seu trabalho, fruto de sua intuição, inquietação, de um grande embasamento teórico, que forma um conjunto de obras de grande qualidade estética e, principalmente, ousadia.
    Natural de Cachoeira do Sul, Ana Norogrando viveu 30 anos em Santa Maria, onde desenvolveu sua trajetória artística e acadêmica. Seu currículo impressiona pela solidez e aplicação dos conhecimentos adquiridos em várias áreas: desenho, pintura, tecelagem, litografia, xilogravura, escultura, fotografia, vídeo, design, pesquisas com luz e movimento.
    Tradição
    E embora seu trabalho não deixe de denotar engajamento político e social, o feminismo de Ana não vem propriamente de uma militância que, se há, está nas suas obras. Estas a designam como uma artista contemporânea sem, contudo, perder o vínculo com a tradição, sobretudo aquela ligada ao trabalho e a cultura italiana que herdou de seus pais, agricultores.
    Nesta exposição retrospectiva – que como tal impõe uma cronologia do seu percurso enquanto artista – consta inclusive o quadro “Modelo negra”, óleo sobre tela, feito em 1968, quando, ainda em Cachoeira do Sul, frequentava o curso intensivo de Pintura II, ministrado por Ado Malagoli.
    Ela aproveitaria a década de 1970 para aprimorar seus estudos e viajar pela Europa para conhecer museus e coleções de arte.
    Sua grande guinada profissional foi nos anos 1980, quando começou a trabalhar com fibra metálica.
    Há nisso uma alusão a persona, ao temperamento feminino: “esse material, aparentemente, quando submetido, de longe, ao olhar, é suave. No entanto, é forte, rígido, resistente, adjetivos que também definem as qualidades da mulher”, salientou Ana Norogrando.
    É desse período varias obras desta exposição, como, por exemplo: “Tramas e tensões”, de 1986, e “Peneiras”, de 1987. Esses trabalhos, cuja inspiração é o artesanato milenar com fins utilitários, ganham através de sua intervenção e do material empregado (tela metálica galvanizada, fios de cobre, barra de ferro), um diálogo com o mundo industrial.
    Mas foi através de “Vul-crário”, de 1993 – uma escultura cuja forma lembra uma vagina – que Ana Norogrando produziu o seu trabalho mais polêmico, cuja visualização provoca no público um voyeurismo sensual. Contudo, esta obra – constituída de fibra metálica galvanizada, barra de ferro, massa plástica e tinta acrílica, e que faz parte do acervo do MARGS – é puro onirismo, flerte com o surrealismo.
    Prazer ou nascimento
    E mesmo nestes rincões passa longe do conceito baudelairiano de “épater le bourgeois” (chocar, escandalizar o burguês). Há outras peças cujas formas lembram a genitália feminina e pelos pubianos e que, dependendo da imaginação, assumem ares de portal rumo ao prazer ou nascimento. Ou seja, convidativas e sem dentes que ameacem o falo imaginário de algum machista imprudente. Ana, uma mulher alta e elegante, não é uma feminista “enragée”.
    Gaudêncio Fidélis, num dos textos que escreveu no livro homônimo ao da exposição, faz uma analogia entre “Vul-crário” e alguns trabalhos da americana Georgia O’Keeffe (1887-1986): “uma das precursoras de uma abordagem feminista nas artes visuais no contexto americano, tendo realizado pinturas biomórficas abstratas em que a forma do órgão sexual feminino ‘aflora’ literalmente através de imagens de flores voluptuosamente pintadas em grandes formatos”.
    As referências não param por aí. Se “Vul-crário” remete as flores de O’Keeffe, e suas vulvas, a instalação “Terra” lembra o trabalho de outro artista norte-americano, Robert Smithson (1938-1973), um dos expoentes da Land Art, famoso por seu “Broken circle”, espiral de terra localizada em Emmen, Holanda, realizada em 1971.
    Ana, em sua instalação, coletou 33 tipos de terra entre Porto Alegre e Santa Maria, inserindo discos de arados danificados encontrados no interior do estado. Trata-se de uma clara homenagem ao árduo e sofrido (33, idade de Cristo) labor dos camponeses gaúchos e sua religiosa fé na redenção pelo trabalho.
    Também é interessante a escultura “Klein, Desomenagem”, de 2013, construída a partir de um manequim, água, anilina e tecido artesanal de seda e algodão. Nela há uma forte alusão ao monocromatismo do artista plástico francês Yves Klein (1928-1962), e sua obsessão pelo azul, levando-o a criar o YKB (Yves Klein Blue). Esse trabalho não deixa de ser um convite ao público a checar, na Fundação Iberê Camargo, algumas obras de Klein que integram a Exposição Zero.
    Já a videoinstalação “Interlúdio”, gravada em 2012, mostra imagens dos pores do sol a partir da Ilha dos Marinheiros, Porto Alegre, casa-atelier de Ana Norogrando. Essa incursão de Ana no audiovisual não se circunscreve somente a vídeo-arte. Ela realizou trabalhos que se inserem no gênero documentário, mostrando a natureza e a pobreza das populações ribeirinhas, assim como a necessidade de preservação ambiental do Delta do Jacuí. Isso a levou fazer um trabalho socioeducativo, incluindo oficinas, junto a estas pessoas que são, também, seus vizinhos.
    Em seu conjunto, percebe-se que a obra de Ana Norogrando está bem sintonizada com a arte contemporânea. Suas influências têm um toque brasileiro, antropofágico, tão bem representado pela sua escultura “O canibal”, de 2000, que simboliza nossa forma de apreensão e recriação das coisas. Tudo isso torna a visita ao MARGS um ótimo programa para quem estiver ou passar pela capital gaúcha durante este verão.
    [notice]Ana Norogrando: obras 1968-2013
    MARGS (Praça da Alfândega)
    De terça a domingo, das 10h às 19h.
    Até 23 de março[/notice]
     

  • Respeito à biografia de Mario Quintana

    Carlos Alberto de Souza, jornalista |

    O 2013 não pode, por questão de justiça, cerrar suas pesadas portas sem que se conteste publicamente uma ofensa perpetrada contra a biografia e a memória de Mario Quintana. A afronta foi cometida por um doutor em Literatura e, lamentavelmente, contou com a conivência da intelectualidade gaúcha, que se omitiu e silenciou diante do fato.
    Com todos os méritos do título, o doutor em questão é o professor Luís Augusto Fischer. Em declaração de rara infelicidade, em entrevista concedida ao caderno Cultura de Zero Hora de 12 de outubro passado, na condição de patrono da Feira do Livro de Porto Alegre que se iniciaria a 1º de novembro, ele disse que Erico Verissimo, Cyro Martins e Dyonelio Machado não eram habitués da Feira e que Quintana a frequentava “porque ele nos últimos anos era um velhinho folclórico, e havia trabalhado ali no Correio do Povo, morava no Centro…”
    Fischer, nessa sua resposta, sustenta que “a intelectualidade”, “os escritores mesmo”, como o triunvirato citado, não eram atraídos pela Feira, que reunia “jornalistas, professores”.
    Referir-se a Mario Quintana como um “velhinho folclórico” é revelar um juízo distorcido da figura do poeta, além de menosprezar e desrespeitar sua história de vida. Imaginei que o disparate seria alvo de imediata refutação por algum integrante da intelectualidade, mas nenhuma voz se levantou por Quintana que, morto em 1994, aos 87 anos, não pode se defender.
    Tentei expressar em Zero Hora, por meio de artigo, o sentimento de repulsa que manifesto aqui, mas a contradita não foi acolhida pelo jornal que veiculou a gafe. Além da busca do desagravo, creio que o reparo se impõe, entre outras razões, para que a opinião de Fischer não transite como uma verdade inconteste e eventualmente seja absorvida por um desavisado pesquisador do mundo acadêmico. Afinal, a pecha foi lançada por um especialista.
    Por ironia, não houve escritor mais identificado com a Feira do Livro do que Mario Quintana, que viveu com graça, encantamento, simplicidade e dignidade. Não por acaso, ele está eternizado em bronze na Praça da Alfândega, Centro de Porto Alegre, ao lado da estátua de Drummond.
    Dois gigantes. Patrono da Feira em 1985, Quintana foi sempre uma espécie de atração extra do evento, caminhando entre as bancas ou sentado num dos bancos da praça. Não são poucas as pessoas que guardam com imenso carinho um livro autografado por ele, com dedicatórias poéticas e bem-humoradas.
    Certamente, Quintana frequentou a Feira, criada em 1955 – quando Fischer ainda não havia nascido -, desde sempre. Na primeira edição, o poeta tinha 49 anos e já trabalhava havia dois anos no Correio do Povo. O evento concentrava três de suas paixões: a rua (“Olho o mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo…”), a praça e a literatura. Não é demais lembrar que, além de consagrar-se na arte da poesia, ele marcou no país como tradutor, vertendo, para a lendária Editora Globo, nomes como Marcel Proust, Virginia Woolf, Aldous Huxley, Guy de Maupassant.
    A que atribuir o deslize que sugere a existência de um Quintana inconsequente, vazio, indigno de ser levado a sério quando “velhinho”, pois, afinal, são essas as características de um sujeito dito “folclórico”? Para deixar barato, digamos que ao paradoxo, uma vez que na sua atividade Fischer mostra zelo pelas coisas de valor do passado, sendo um profundo e respeitado estudioso da obra de Simões Lopes Neto, um dos maiores nomes da literatura rio-grandense, por exemplo.
    Até por essa razão é que o epíteto aplicado ao poeta choca e causa perplexidade. Mario Quintana, um “velhinho folclórico”?! Por favor, professor…