Autor: da Redação

  • REVISTA JÁ ganha mais um prêmio ARI

    A Revista JÁ ganhou ontem mais um Prêmio ARI, pela reportagem econômica “A redescoberta do carvão”, de Elmar Bones e Cleber Dioni Tentardini. O trabalho foi publicado em maio, como reportagem de capa da edição especial sobre energia, a primeira de uma série de cinco edições sobre infraestrutura no Rio Grande do Sul. A segunda edição desta série, sobre logística de transportes, circulará ainda este ano. Para o outono, já está sendo preparada a edição sobre saneamento.
    O Prêmio ARI, o segundo mais antigo do Brasil, foi entregue no dia em que a Associação Riograndense de Imprensa, fundada em 19 de dezembro de 1935, completou 78 anos. Em 2013 recebeu um número recorde de inscrições: 260 trabalhos. A lista dos ganhadores está na página www.ari.org.br. Para ler a edição da Revista JÁ, clique no alto da página, à direita.
    A entrega do prêmio ocorreu no momento em que o Sindicato dos Jornalistas está numa campanha salarial inédita na história recente da categoria, que tem um vergonhoso piso salarial de 1540 reais no interior e 1690 reais na capital.

  • O velho Pink Floyd uniu gerações no bar Ocidente

    Francisco Ribeiro (colaborou Sérgio Lagranha)
    O “Projeto Pink Floyd das antigas” – reunião de músicos com o objetivo de tocar músicas da primeira fase do renomado conjunto inglês – entusiasmou o público que nesta última quinta-feira (19/12) lotou a pista do bar Ocidente, em Porto Alegre.
    No repertório, clássicos – como Atom heart mother, Astronomy domine, Lucifer Sam, Bike, Interestellar overdrive, Echoes, Cymbaline, e A soucerful of secret – que fizeram a alegria da galera – várias gerações misturadas – que dançou e, principalmente, viajou ao som psicodélico e progressivo de uma das maiores bandas de todos os tempos.
    Fundado há quase meio século e oficialmente extinto em 1996 – embora os membros sobreviventes da banda (David Gilmour, Roger Waters e Nick Mason) às vezes se reúnam para tocar – o Pink Floyd tem milhões de fãs pelo mundo, incluindo músicos de grande talento que sentem um grande prazer em se apresentarem como covers dos seus ídolos.
    Tal é o caso dos membros do “Projeto Pink Floyd das antiga”, formado por Chico Paixão, guitarra e voz; Leonardo Boff, teclado e voz; Pedro Porto, baixo; Pedro Hahn, bateria; e Fernanda Lantz, projeções. Criado em 2004, o Projeto, segundo um dos seus idealizadores, Pedro Porto, da banda gaúcha Ultramen, passa fundamentalmente pelo conceito de uma escola de fãs: identidade, admiração, e, simplesmente, uma imensa vontade de tocar essas músicas maravilhosas, únicas.
    O Projeto circunscreve um período da história do Pink Floyd: vai de 1967, ano do lançamento do álbum “The piper at the gates of dawn”, que teve a participação do guitarrista e vocalista Syd Barret; até o lançamento de “Obscured by clouds”, em 1972. Grande período lisérgico e experimental do século passado, misturando vanguardas artísticas e revolucionárias.
    Trata-se de um rico legado. E foi para curti-lo que na tórrida noite de quinta-feira (19/12), cerca de 200 pessoas – a maioria tendo idade para ser neto(a) de Gilmour, Mason e Waters – lotou a pista do Ocidente para ouvir o grupo que homenageia os velhos bardos ingleses. O som era envolvente, podia-se dançar, ou balançar suavemente em músicas como “Cymbaline”: “its high time, Cymbaline, it’s high time, Cymbaline, please wake me”.
    Impossível não ficar acordado com a altura dos acordes das guitarras, teclado, bateria, que dificultavam a conversa, mas aproximavam as pessoas pela cumplicidade que as unia, provocada pela qualidade das canções, das performances dos músicos. O sentimento era de lembranças que na verdade se atualizavam, pois, apesar do tempo, Pink Floyd continua soando moderno e maravilhoso como um bom Debussy psicodélico. Ou, como se diria nos longínquos anos 1970: que baita som!

  • Um diálogo artístico entre Porto Alegre e Pelotas

    Até dois de fevereiro próximo, na galeria Xico Stockinger – Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS) acontece à exposição “BR 116: circuitos independentes em trânsito”.
    Ela reúne obras – pinturas, desenhos, instalações, fotografias e esculturas – de seis artistas voltados à arte contemporânea: Tigo Weiler, Helene Sacco, Vivian Herzog, Ernani Chaves, Marília Bianchini e Diego Passos.
    O evento, idealizado pela Casa Paralela, de Pelotas, e Arte Subterrânea, de Porto Alegre – patrocinado através de edital pelo governo do estado – encerra o projeto homônimo ao da exposição.
    Nele, além de mostras simultâneas, foram inclusos, ao longo do segundo semestre de 2013: palestras, visitas guiadas, e oficinas nas duas cidades que são ligadas pela BR 116. Daí o nome do projeto.
    No sexto andar da Casa de Cultura Mário Quintana, no espaço que provisoriamente abriga o MACRS, as imagens de um vídeo-documentário veiculadas num monitor colocado em frente à entrada da galeria Xico Stockinger mostram obras e explicam através dos depoimentos o projeto “BR 116: circuitos independentes em trânsito”.
    De repente, a imagem de um artista na tela parece fundir-se com a figura real, do próprio, que na galeria quente e vazia empilha pequenas caixas – antigas gavetas de abelhas – que compõe a sua instalação “Arco”.
    Trata-se de Ernani Chaves que,tranquilamente, vai montando a sua obra, mesmo sabendo que um dos propósitos dela é o de também ser novamente desarrumada, e novamente ajeitada por ele ou pelo público visitante. Chaves, aos 48 anos, é o decano da trupe que participa do BR 116. Ele fez da força antagônica representada pelo empilhamento-desmoronamento o seu foco de pesquisa artística.
    As razões dessa escolha foram, inicialmente, pessoais, pois Chaves, com problemas na coluna e desgaste ósseo, soube transformar o limão, a doença, numa limonada: “comecei a desenvolver uma pesquisa sobre desequilíbrio e escoras verticais na arte contemporânea, já que vivencio isso também no meu corpo.
    Tive como inspiração mestres como o romeno Constantin Brancusi (1876-1957), e sua “Coluna infinita”; o brasileiro Hélio Oiticica (1937-80), e o americano Richard Serra”; explicou.
    A instalação de Chaves está cercada pelas obras dos outros cinco artistas. E o fato de serem poucas peças facilita o exame minucioso dos trabalhos, todos produzidos em 2013, como, por exemplo: “Odisséia mínima até lugar nenhum”, técnica mista, de Helene Sacco; as pinturas de Vivian Herzog; as impressões em jato de tinta sobre papel artesanal de Marília Bianchi; as instalações de Tigo Weiler; e a curiosíssima organização de azulejos dispostos por Diego Passos.
    Trabalhos que denotam estudos, experimentações estéticas e utilização de novos materiais. Tudo reforçado pela condição desses artistas atuarem como pesquisadores e estarem ligados a centros de formação acadêmica, pois a atividade de professor é fundamental para as suas sobrevivências e vulgarização das técnicas desenvolvidas.
    E isso também, segundo o diretor do MACRS, André Venzon, não deixa de influir na principal característica desta exposição: “o equilíbrio na diversidade de linguagens artísticas, e que, de certa forma, reflete a produção do estado que, em termos nacionais, é sempre vista como muito respeito”.
    Exposição: BR 116: circuitos independentes em trânsito
    Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – Galeria Xico Sockinger – Casa de Cultura Mário Quintana (Rua dos Andradas, 736, sexto andar)
    Horários: segundas, das 14 às 19h; de terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h.
    Até dois de fevereiro de 2014

  • Os novos diretores de cinema no Festival de Verão

    Os filmes “Eles voltam”, de Marcelo Lordello, e “O Rio nos pertence”, de Ricardo Pretti, são dois exemplos da garra e do talento da nova geração de cineastas brasileiros.
    Eles provam, como outros em todas as épocas, que mesmo com orçamentos limitadíssimos é possível fazer obras de grande qualidade narrativa.
    Os dois trabalhos estão na avant-première da nona edição do Festival de Verão de Cinema Internacional, evento produzido pela Panda Filmes, e que acontece até 19 de dezembro nas salas Paulo Amorim (Casa de Cultura Mário Quintana) e Instituto NT.
    O brasiliense radicado em Pernambuco, Marcelo Lordello, e o carioca Ricardo Pretti mostraram em seus longas-metragens – “Eles voltam” e o “O Rio nos pertence” – domínio formal e narrativo, seja tratando do tema da sobrevivência, caso do primeiro; ou da solidão, do desespero, da pulsão de morte, no segundo.
    A obra de Lordello recebeu vários prêmios no 45° Festival de Brasília, como o de melhor filme e melhor atriz para Maria Luiza Tavares; já a de Pretti integra o projeto Operação Sônia Silk, uma cooperativa reunindo a mesma equipe de técnicos e atores para a produção de três filmes, dois dos quais já realizados.
    “Eles voltam” conta, fundamentalmente, a história de Cris (Maria Luiza Tavares), uma menina de 12 anos abandonada junto com o irmão numa estrada. O longo plano inicial do filme mostra uma rodovia movimentada que poderia estar na periferia de qualquer grande cidade brasileira: o capinzal, o barranco, o vai-e-vem de transeuntes humildes.
    Tudo inspira desolação e medo. É neste cenário que Cris e Peu, um pouco mais velho, foram largados pelos pais após uma briga. Castigo? Provavelmente, só que eles não voltam para buscá-los e o irmão resolve ir até o posto mais próximo para pedir ajuda. Peu também não regressa.
    De gata borralheira à princesa
    Começa a aventura de Cris que, inicialmente, é acolhida por uma família muito pobre, mas digna e solidária, capaz de alimentá-la e abrigá-la. Ela se conforma com o que lhe dão e pedem pra fazer, inclusive ajudar a mulher que a acolheu em seu trabalho de faxineira.
    É nesta faina que Cris, caminhando pela praia, reconhece a casa de veraneio dos pais. Trata-se, como diria o recém-falecido Syd Field, mestre da arte do roteiro, do grande ponto de virada da história que, contudo, continua enigmática, mas coloca o espectador em pé de igualdade com a protagonista e, a partir daí, sabe tanto quanto ela.
    Cris, até então vítima de imposições – o abandono pela família, não importa as atenuantes, ou a conformidade com os códigos da família que a abriga – pode assumir a sua identidade de classe-media alta, coisa que intuitivamente escondia. Corre para a casa vazia. E ali, já integrada ao seu meio, pede socorro à vizinha, que a reconhece e acolhe, e se propõe a levá-la de volta para o Recife.
    A nova condição de Cris que, de gata borralheira, volta a ser princesa, é sutilmente mostrada na caminhada que faz pela praia junto com a filha da faxineira, na troca de olhares que evidencia o mal-estar e a distância social que as separa.
    Mas o casulo foi quebrado. Ela sobreviveu à descoberta da existência de outros mundos, inclusive o do sexo, que ela vislumbra, na penumbra, a pouca distância, entre a vizinha e o namorado dentro da piscina. Cris, em seu ritual de iniciação de passagem da infância a adolescência adquiriu novas experiências e conhecimentos.
    Resta saber o que fará com essas lembranças, algumas amargas, como as imagens que gravou no seu celular, e que testemunham o seu abandono. No final da história, diante dos pais hospitalizados, revelará uma força superior a do irmão.
    Narrativa sombria
    Embora seja enigmático como “Eles voltam”, o filme de Pretti é uma narrativa sombria e sem esperança existencial. A história, falada em inglês e português, conta o percurso de Marina (Leandra Leal), uma jovem de classe média que após dez anos fora do Brasil resolve – depois de receber um cartão postal onde está escrito, em caracteres que parecem sangue,
    “O Rio nos pertence” – voltar à cidade e acertar pendências: com a irmã (Mariana Ximenes); com o ex-namorado (Jiddu Pinheiro); e elucidar a morte dos pais que, segundo ela, foram assassinados. Na verdade, trata-se de homologar rupturas, pois o baixo astral em que se encontra Marina só lhe aponta um caminho: morte. Real ou simbólica, a fuga.
    Os cenários de “O Rio nos pertence”, mesmo quando denotam algum requinte, conotam atmosferas mórbidas, pós-velório. Os diálogos são tensos e desesperados. O único alívio vem das imagens de alguns planos exteriores, fechados, que mostram partes de matas, pedaços de montanha, e o mar.
    Se os planos fossem abertos revelariam a miséria social, e a violência decorrente que manchou de sangue os cartões postais da cidade. Neste universo claustrofóbico, de onde emergem as ilhas envoltas na neblina, o sol que cobre a Guanabara é negro como a depressão. Resta a pergunta: a quem pertence o Rio?
    Sob o ponto de vista formal, Pretti é bastante ousado e tecnicamente – pelo uso que faz da câmera, efeitos e montagem –, materializa alguns aspectos psicológicos da personagem cuja melancolia oscila entre a perda do sentimento de paraíso, e o mergulho no inferno, entremeados por citações poéticas e filosóficas, da Bíblia a Nietzsche. Com esta temática, corporificando uma narrativa cheia de símbolos e pulsões, Pretti se associa a escola do finado diretor Walter Hugo Khoury. E Ingmar Bergman, se ainda vivesse, certamente lhe mandaria uma mensagem de felicitações.
    Nestes filmes, Lordello e Pretti propõem um interessante diálogo com a classe média brasileira, diferente daquele efetuado pelo Cinema Novo, e que foi brilhantemente dissecado por Jean-Claude Bernadet no livro “Brasil em tempo de cinema”, de 1967. Passou, praticamente, meio século, pouca gente ainda fala em ditadura do proletariado, e se os problemas de base do país não foram resolvidos, o caminho para discussão está livre.
    Também não falta proposta para acabar com aquele resquício de “Sobrados e Mucambos”, que falava Gilberto Freyre, e que se faz notar no início de “Eles voltam”. Enfim, Lordello e Pretti, trintões recentes, geram grandes expectativas sobre os seus próximos trabalhos.
    [notice]Festival de verão de cinema internacional: avant-première
    Até 19 de dezembro
    Sala Paulo Amorim – CCMQ (Rua dos Andradas, 736)
    Instituto NT (Rua Marques do Pombal, 1111)
    Informações sobre a programação e horários dos filmes:[/notice]
    http://www.facebook.com/festivalveraors

  • Festival de verão de cinema terá avant-première

    A partir dessa sexta-feira (13/12), até a próxima quinta-feira (19/12), o público cinéfilo da capital gaúcha poderá assistir na Sala Paulo Amorim (Casa de Cultura Mário Quintana), e no Instituto NT, uma avant-première daquilo que, em março de 2014, deverá ser o nono Festival de Verão de Cinema Internacional.
    Em seis dias serão exibidos 15 filmes – brasileiros, latino-americanos, europeus – de safra recente. Também, integrando a avant-première, ocorre a Mostra Cinefrance, que reúne 11 películas, consagrada aos diretores franceses Alain Resnais e Jacques Tati.
    Num ano marcado pela oferta de ótimos filmes, nada melhor para encerrar a temporada do que uma versão pocket da futura nona edição do Festival de verão cinema internacional. Em março, como promete Beto Rodrigues, diretor da Panda, empresa produtora do evento, haverá, como nos anos anteriores, grandes atrações – películas e profissionais do meio audiovisual – em Porto Alegre.
    Por enquanto, nessa espécie de tira-gosto, boas surpresas como, por exemplo, os brasileiros “O Rio que nos pertence”, de 2013 – que abre oficialmente a avant-première –, de Ricardo Pretti, e “Eles voltam”, de Marcelo Lordello; o espanhol “No habrá paz para los malvados”, de Enrique Urubizu, de 2011, ganhador de seis prêmios Goya, que na Espanha equivale ao Oscar. E da Venezuela o premiadíssimo “Pìedra papel o tijera”, 2012, de Hernan Jabes.
    Resta a conferir outros títulos como o brasileiro “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”, 2013, de Matheus de Souza; a coprodução, Chile-Argentina, “Sal”, 2012, de Diego Rougier; o francês “Bastardos”, 2013, de Claire Denis; e o documentário português “O fado da Bia”, 2012, de Diogo Varela Silva.
    A mostra Cinefrance, que integra a avant-première, dá uma boa oportunidade para rever na telona dois dos maiores diretores franceses, Alain Resnais e Jacques Tati (1907-1982). Há muita literatura sobre ambos: seja dissecando o lado formal e temático de Resnais, sua ruptura com a narrativa linear; ou refletindo sobre um tipo de nostalgia poética e lúdica que parece impregnar o humor de Tati que, além de diretor, também foi um grande ator cômico. Enfim, são mestres e se tem muito a aprender olhando os filmes que realizaram.
    Aos 91 anos, Resnais – um dos faróis para os cineastas da Nouvelle vague – continua na ativa. Nessa mostra ele comparece com cinco títulos: “Noite e neblina”, 1955; “Hiroshima meu amor”, 1958; “Ano passado em Marienbad, 1961; “Muriel – tempo de um retorno”, 1963; e “Meu tio da América”, 1980.
    Tati, para os franceses mais chauvinistas (desculpem o pleonasmo), foi o equivalente gaulês do inglês Charles Chaplin, e do americano Buster Keaton. Impossível dissociá-lo do monsieur Hulot, seu principal personagem, corpo atirado para frente, cachimbo na boca. A mostra Cinefrance, para a delícia do público de todas as idades, reuniu seis dos seus filmes, sendo três curtas: “Cuida da tua esquerda”, 1936; “A escola dos carteiros”, 1947; e “Curso noturno”, 1967. E três longas: “As férias do sr. Hulot”, 1953; “Meu tio”, 1948; e “Tempo de diversão”, de 1967.
    9o Festival de verão de cinema internacional : avant-première e Mostra Cinefrance
    De 13 a 19 de dezembro
    Sala Paulo Amorim – CCMQ (Rua dos Andradas, 736
    Instituto NT (Rua Marques do Pombal, 1111)
    Informações sobre a programação e horários dos filmes:
    http://www.facebook.com/festivalveraors

  • Grupo Zero, ou uma ode à inventividade

    Até quatro de março de 2014 a Fundação Iberê Camargo (FIC) oferece à visitação uma reunião de obras que possibilita uma visão geral de uma das principais vanguardas artísticas que, entre os anos 1950-60, deu um sopro de renovação nas artes plásticas, e cuja influência se faz sentir na atualidade. Trata-se da Exposição Zero, que congrega trabalhos de 24 artistas da Europa e da América do Sul, cujas inspirações maiores são a luz e o movimento.
    Além de peças do núcleo fundador do grupo Zero de Dussseldorf – Heinz Mack, Otto Piene e Günther Uecker –, obras do francês Yves Klein, do argentino Lucio Fontana, e dos brasileiros Hércules Barsotti, Abraham Palatnik e Lygia Clark.
    Os octogenários artistas alemães Otto Piene (1928), Günther Uecker (1930) e Heinz Mack (1931), viveram em suas infâncias e parte de suas adolescências o apogeu e a derrocada do nazismo.
    Mas se tiveram a sorte de sobreviver aos intensos bombardeios dos aliados ao final da II guerra mundial, também viram seu país ser dividido, ocupado e carregar uma mistura de sentimentos que iam da vergonha pela derrota a culpa por desencadear um conflito que matou cerca de 60 milhões de pessoas.
    Enfim, testemunharam, sofreram, e habitaram alguns dos cenários que serviram de inspiração para o genial e depressivo neorrealismo italiano, cujo filme “Alemanha, ano zero”, 1948, de Roberto Rossellini, foi o melhor retrato do início do pós-guerra. Em tal contexto histórico e emocional, que futuro poderia almejar um jovem artista?
    Estudar bastante e estar pronto para a década seguinte, os gloriosos anos 1950, sacudidos pelo jazz, nouvelle vague, rock and roll e, mais modestamente, a bossa nova. É nessa atmosfera de renouveau que em 1957, em Dussseldorf, Heinz Mack e Otto Piene criam o grupo Zero, logo seguido pela publicação de uma revista homônima, cuja tônica artística seria trabalhar com dois componentes principais: a luz e a sua dinâmica. Günther Uecker se juntaria ao grupo em 1961, formando a trinca original e cujo ideário estético ganharia adeptos pelo mundo, principalmente nas cidades de Amsterdã, Milão e Paris.
    O grupo, através dos seus próprios autores, foi dissolvido em 1967. Mas a semente experimental continua influenciando artistas, como salientou a historiadora de arte, Heike van den Valentyn, da Fundação Zero de Dusseldorf, responsável pela curadoria do evento no Brasil que, além de Porto Alegre, já foi apresentado em Curitiba e, a partir de abril de 2014, acontecerá em São Paulo.
    Segundo ela, as idades avançadas foram o principal empecilho para a presença de, pelo menos, um dos artistas da trinca original, mas cujos depoimentos o público pode assistir através de um documentário veiculado no terceiro piso da FIC. Nele, os, aparentemente, saudáveis velhinhos, falam das agruras de uma Alemanha “que parecia um cemitério”, como lembra Mack, e, pós-milagre econômico, a redenção através de uma arte feita de invenção e experimentalismo como salientam Piene e Uecker.
    Originalidade e audácia são coisas que não faltam nessa exposição que ocupa o terceiro e o quarto andar da FIC. Mas, já no térreo, a incrível instalação de Otto Piene (Lichtraum,) – criada em 1961, um verdadeiro balé de luzes e movimento ativado por aparelhos mecânicos – incita a imaginação para possíveis surpresas feéricas nos pisos acima.
    No quarto andar, trabalhos de Yves Klein (1928-1962) – como “assiete bleu” e “relief planetaire” – nos remetem ao seu mundo monocromático, destacando-se o azul, sua obsessão, e o que o leva, inclusive, a criar o IKB (International Klein Blue), seu luminoso ultramarino – feito a partir de pigmento misturado uma determinada resina – registrado, inclusive, como patente industrial.
    Ao lado de Klein, o mestre que inspirou o seu monocromatismo, Lucio Fontana (1899-1968), cujas esferas de bronze compõem o “Concetto Spaziale”, de 1959-60. Isso nos faz mergulhar no movimento spacialista, fundado pelo próprio Fontana que, enquanto pintor, era inconformado com o limite bidimensional (altura e largura) da tela. Através de incisões, cortes, conseguiu materializar a dimensão de profundidade, juntando, com isso, também a ilusão de temporalidade. Aplicou este conceito em suas esculturas, por isso, as fendas nas esferas. Ao falar de espaço-tempo, arte total, e reforçar a ideia conceitual, Fontana transformou-se no principal inspirador do grupo Zero.
    Noutros ambientes do terceiro e quarto andares, causam estranhamento as instalações de: Günther Uecker e sua “Lichtregen”, composta de tubos de alumínio e luzes de neon, de 1966; o curioso arranjo intitulado “Kleines Segel” – elaborado entre 1964-67, e feito de tecido de chiffon azul, lastros de perca e ventilador elétrico – do alemão Hans Haacke; o monumental “Spiegelwand und mobile”, de 1963, um ambiente formado por espelho, madeira, linha, do suiço Christian Megert; e o misterioso e assustador “Spazio elástico”, um ambiente de luz ultravioleta e animação eletromecânica, concebido em 1967-68, pelo italiano Gianni Colombo.
    De todos estes trabalhos se sente uma energia cujos movimentos, luzes ou som de motores parece interagir com o espaço arquitetônico da FIC e seus visitantes. E também com o ambiente exterior, enquadrando-se numa das principais concepções vanguardistas do século XX e que segue nesse começo de novo milênio: quebrar barreiras, fronteiras entre pintura, escultura, arquitetura, etc. O grupo Zero encarnou uma espécie de renascimento e, por isso, em meio a estas estruturas – algumas concebidas há mais de 50 anos – que ainda hoje parecem futuristas, a arte dialoga com a ciência, e em meio às instalações pode-se imaginar o espectro de Leonardo da Vinci.
    Francisco Ribeiro
    Exposição Zero
    Fundação Iberê Camargo (Av. Padre Cacique, 2000)
    Até quatro de março de 2014

  • Cinema africano no Cine Bancários

    Mazeko concentra a ação do filme nos anos 1950, tendo, como cenários, principalmente: a redação da revista Drum – fundada pelo inglês Jim Bailey, e que foi o primeiro veículo a tratar sobre o estilo de vida dos negros africanos; e o bairro Sophiatown, em Joanesburgo, um reduto cosmopolita, boêmio, violentíssimo, e insubmisso as leis do apartheid impostas a partir de 1948.
    Nesses ambientes, reina uma atmosfera de puro jazz, filme noir e aventura, onde tudo aparenta ser um convite a escrever narrativas. É neles que, movidos a muito álcool, circulam Nxumalo (interpretado pelo ator americano Taye Diggs) e sua turma – jornalistas e escritores negros de Joanesburgo, entre os quais Can Themba (1924-1968). Todos brindam ao lema romântico: viver rápido, morrer jovem, ser um belo cadáver”.
    Ditado que Nxumalo, não por sua vontade, cumpriu a risca. Natural da província de Natal, África do Sul, Henry Nxumalo viveu pouco, apenas 38 anos, tempo suficiente para se tornar um dos maiores ícones do jornalismo do continente negro e inspiração para qualquer jovem repórter.
    Para fazer suas reportagens, Nxumalo colocava, literalmente, as mãos na merda. Empregou-se como camponês para poder investigar o trabalho semiescravo, que incluía castigos físicos, nas plantações. Noutra ocasião, fingindo-se de bêbado, desacatou as autoridades para ser preso e, através de sua experiência, denunciar o tratamento desumano e abjeto das prisões sul-africanas.
    Matérias que têm como pano de fundo a luta antiapartheid. É neste contexto que, no filme, aparece o jovem Nelson Mandela (Lindane Nkosi), liderando uma passeata contra a exigência de salvo-condutos para circulação dos negros em certas zonas, e cuja sentença dita pelo policial encarregado de reprimir a manifestação resume o espírito colonial, não há negociação possível: “nós mandamos e vocês nos servem”.
    Mazeko livrou-se dos clichês conhecidos do politicamente correto e coloca algumas mazelas existenciais – incluindo sexo inter-racial – pois, além da cor da pele há toda uma complexidade subjetiva gerada pelo colonialismo europeu, onde as vítimas também se deixam manusear por seus carrascos, como salienta o diálogo, no final do filme, entre Nxumalo e o gangster, seu suposto assassino.
    Nxumalo, quando foi morto, fazia uma reportagem sobre a prática de abortos clandestinos. No filme, o crime ocorre após a denúncia sobre o que estava por trás da reurbanização bairro de Sophiatown, onde seus antigos moradores – negros, indianos – foram expulsos, suas casas destruídas, para dar lugar a um empreendimento imobiliário destinado à população branca.
    Em muitos aspectos, Henry Nxumalo faz lembrar o jornalista gaúcho Tim Lopes, assassinado por narcotraficantes no Rio de Janeiro, em 2002, quando colhia elementos para uma reportagem sobre o comércio de drogas e o crime organizado nas favelas cariocas.
    Tim, ganhador de um prêmio Esso – e que chegou a internar-se numa clínica de dependentes químicos para fazer uma matéria sobre o assunto – conhecia a arte da reportagem e também seus riscos. Como Nxumalo, pagou com a sua vida por aquilo que julgou, enquanto jornalista, ser a sua missão: narrar a vida, contar a verdade.
    Programação: Mostra de Cinema Africano. Sessões gratuitas. Cine Bancários (Rua General Câmara, 424).
    28 de novembro:
    15h – Tabataba;
    17h – Heremakono – à espera da felicidade;
    19h – Minha voz
    20h30min: debate com Mahomed Bamba, autor do livro “Filmes da África e da diáspora: objetos de discursos”, de 2012.
    29 de novembro:
    15h – Drum;
    17h – Djeli;
    19h – Tabataba
    30 de novembro:
    15h – Jom ou a história de um povo;
    17h – O vento;
    19h – Minha Voz
    Primeiro de dezembro:
    15h – Identidade;
    17h – Buud Yam;
    19h – Sessão Baobá de cinema: “Raça, Um filme sobre a igualdade”, de
    Joel Zito Araújo e Mecan Mylan, 2012.

  • Rodovia da soja fica com a Odebrecht

    A Odebrecht Transport venceu hoje de manhã o leilão para explorar 850 quilômetros da BR-163, em Mato Grosso, ao oferecer deságio de 52% na tarifa de pedágio: 2,63 reais a cada 100 quilômetros, longe do teto de 5,50 reais. “O Mato Grosso cresce mais que o Brasil”, justificou a jornalistas o diretor de rodovias da empresa, Renato Mello.
    A “rodovia da soja” transporta as commodities agrícolas para os portos do Sul e Sudeste e passa por Rondonópolis, onde este ano foi inaugurado o maior complexo intermodal no país, a principal vitrine do governo em logística de transportes. O contrato prevê investimentos de R$ 4,6 bilhões em 30 anos, incluindo a construção de um contorno de 10,9 km em Rondonópolis.
    A segunda colocada no leilão foi a Triunfo Participações e Investimentos (deságio de 46%). Em seguida, a Invepar (43%), CCR (35%), o consórcio liderado por Fidens (31%), o consórcio da EcoRodovias (27,6%) e, por último, a Galvão Engenharia (deságio de 3%).
    Com informações da Agência Brasil/Bovespa.

  • Trem da ALL mata oito pessoas em São Paulo

    Entre os oito mortos em São José do Rio Preto, uma criança e uma gestante. Outras oito pessoas ficaram feridas. O trem da América Latina Logística (ALL), com nove vagões carregados de milho atingiu quatro residências no final da tarde de ontem. As buscas por vítimas que ainda possam estar soterradas continua hoje. Três postes derrubados deixaram a região sem energia elétrica e telefone.
    Peritos do Instituto de Criminalística suspeitam que as causas do acidente sejam falta de manutenção na via férrea (dormentes podres) e de um problema mecânico: defeito nos freios.
    Em nota, a ALL disse que “prestará todo suporte e apoio”.
    O descarrilamento de um trem ontem (24), na cidade de São José do Rio Preto (SP), provocou a morte de oito pessoas, sendo uma criança e uma gestante, além de oito feridos sem gravidade. Segundo a Defesa Civil do Estado, o trem de carga da empresa América Latina Logística (ALL) tinha nove vagões, que transportavam milho.
    A composição atingiu quatro residências, por volta das 18 horas, deixando as vítimas soterradas. Equipes do Corpo de Bombeiros permanecem no local buscando vítimas que podem ainda estar soterradas.
    Peritos do Instituto de Criminalística suspeitam que as causas do acidente podem ter sido falta de manutenção na via férrea, devido aos dormentes que estariam podres, e de um problema mecânico: defeito nos freios de uma das composições. A Polícia Civil vai instaurar inquérito para averiguar as causas do acidente.
    As casas, localizadas entre as Ruas Osvaldo Aranha e Presidente Roosevelt, no Jardim Conceição, foram vistoriadas pela Defesa Civil, a qual constatou que duas delas estão completamente destruídas e duas estão parcialmente danificadas, e permanecerão interditadas até o término dos trabalhos de busca por vítimas. A queda de três postes também deixou os moradores da região sem energia elétrica e telefones.
    A América Latina Logística, responsável pela operação no trecho, enviou nota lamentando a fatalidade e se solidarizando com as famílias e vítimas. A empresa informou que prestará todo suporte e apoio. A nota ainda nega o relato de testemunhas, de que o trem estivesse trafegando em alta
    velocidade antes do acidente. “Por meio do centro que controla remotamente, via satélite, toda a operação, a empresa confirmou que a composição transitava dentro dos limites de velocidade do trecho. As causas do acidente serão investigadas por meio de sindicância”.
    Da Agência Brasil

  • Marxismo e Rock 'n' Roll até domingo

    Trata-se de um texto forte, abarcando 22 anos de história contemporânea, enfocando temas como totalitarismo, dissidência, contracultura.
    Não está muito longe à idade de ouro da contestação contra o sistema capitalista e, também, das manifestações de sua antítese, o dissidente comunista. Assim, 1968 é o ano ideal para situar esse dilema, pois nele temos: o maio francês, os protestos contra a guerra do Vietnã, a Primavera de Praga, flower-power, e Jimi Hendrix em sua glória.
    Ao escrever, em 2006, a peça “Rock ‘n’ Roll” (que no Brasil teve agregados os termos marxismo e ideologia), Tom Stoppard, dramaturgo e roteirista oscarizado por “Shakespeare apaixonado”, idealizou, misturando história e ficção, um original caminho de volta para casa. Mas não se trata, embora contenha elementos ligados à vida pessoal do autor, de uma autobiografia.
    Judeu tcheco, Stoppard tinha apenas dois anos de idade quando seus pais, em 1939, deixaram à pequena Zlin, na antiga Tchecoslováquia, fugindo dos nazistas. Depois de algum tempo em Singapura – onde o pai morreu combatendo os japoneses, e do novo casamento de sua mãe com um oficial inglês – o jovem Straussler tornou-se Stoppard, como o padrasto, e mudou-se para a Inglaterra em 1946.
    Sessenta anos depois, já famoso (principalmente pela peça “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos”), e com sotaque e postura que o fazem parecer um lorde inglês, Stoppard resolveu recuperar parte de sua própria história. A peça, situada entre Cambridge, Inglaterra, e Praga, Tchecoslováquia, engloba o período 1968-1990.
    Jan, Max, Eleonor e Esme são os personagens principais da trama. Max, comunista de longa data, é um conceituado professor de filosofia. Sua mulher, Eleonor, é uma professora de grego clássico. Por fim, Esme, a filha do casal, uma adolescente de 16 anos, flower-child, espécie de hippie juvenil, que vive a sua viagem psicodélica.
    A história começa em Cambridge, quando Jan, tcheco, aluno favorito de Max, comunica ao seu velho mestre que está de partida para Praga. Lá, a chegada de Alexander Dubcek ao poder, em janeiro de 1968, anuncia a sonhada combinação entre socialismo e democracia. Este movimento se tornou conhecido como a Primavera de Praga, uma declaração de ruptura contra a burocracia stalinista que se fazia passar por comunismo.
    Então, se o clima é de abertura, de aproximação com o ocidente, que melhor forma de concretizar, culturalmente, isto, do que na música. As revoltas são jovens e o que pode representar melhor a juventude do que o rock’n’ roll? Assim Jan, armado com a sua centena de vinis, acha que pode arrombar a cortina de ferro.
    Na bagagem, ao invés de livros, discos dos Rolling Stones, Velvet Underground e, claro, Pink Floyd, cujo fundador, Syd Barret, tal qual o deus Pan (a guitarra substituindo a flauta), povoa o imaginário maconheiro e lisérgico de Esme que acredita vê-lo tocar no seu jardim.
    O sonho de Jan vira pesadelo quando em agosto de 1968 as tropas soviéticas do Pacto de Varsóvia invadem a Tchecoslováquia. Impedido de voltar para a Inglaterra, torna-se um dissidente, é preso e tem seus vinis destruídos pela repressão.
    Mas ele é forte. E ao algoz Milan – o policial encarregado de perseguir a ele e ao seu amigo Fernando, outro dissidente – poderia contrapor os versos de Sapho, a poetisa grega tão cara a Eleonor, escritos há dois mil e quinhentos anos: “não me domes com angústias e náuseas”. Afinal, se o rock, segundo a ótica totalitária, é alienação e
    decadência, também pode significar resistência. Foi o caso da Plastic People of Universe, banda de rock checa que tocava clandestinamente e teve seus músicos presos.
    Essa é a história de Jan. Mas a dos outros personagens também poderia servir de fio condutor da trama como comprovam os desenlaces finais. Não há um narrador específico e os pontos de vista, apesar de ângulos ideológicos diferentes, são coerentes e revelam, sobretudo, maturidade.
    Eleonor, a mulher de Max, trata um câncer no seio. Mutilada pós-operação, recusa o apelido de amazona, e tal como a poetisa Sapho, cuja verve ensina para a insinuante Magda, mistura feminismo e sentimentos aguçados, pois, como lembra ao marido: o seu corpo – sem um seio, ovário, ou outra coisa que as diversas cirurgias possam ter extirpado do seu organismo – não é nada sem a sua alma, persona. Ou seja, aquilo que ela acha que é.
    Não estaria aí – nesse discurso angustiado, desesperado, o mais pungente da peça, onde a visão da essência precedendo a existência parece ser a última ilusão de alguém condenado – uma metáfora a ideologia marxista, ou, mais especificamente, aos avatares, como o stalinismo e seu caráter totalitário, que ela gerou? São estas contradições entre
    ideais e práxis que terminam por abalar as convicções de Max e o fazem comprometer-se, seja pela libertação de Jan, seja assinando documentos de apoio à causa dos dissidentes tchecos.
    Esme – ao contrário de Jan, Max e Eleonor – é uma folha em branco que, alienadamente, quer apenas entrar na corrente daquilo que considera o seu tempo, feito de rock, sexo e drogas. Sobreviverá, terá uma filha e, ao final, seguirá com Jan, amor de juventude, para Praga, cidade cuja redenção, 22 anos depois, parece se concretizar através do show dos
    Stones, afinal: “it’s only rock’n’ roll (but I like)”.
    Esta última cena, puro happy end, faz com que o texto de Stoppard represente uma luz no fim do túnel se comparado aos sombrios “Zero e infinito”, romance, de Arthur Koestler, e “As mãos sujas”, peça, de Jean Paul Sartre. Em ambas as obras de Koestler e Sartre, escritas nos anos 1940, transcende um mal-estar entre ideologia marxismo e lógica stalinista, sendo os heróis destruídos em nome desta última.
    Apesar do parentesco, em parte, temático, este não é o caso de “Rock ‘n’ Roll” onde, exceto Eleonor, que não sobrevive ao câncer, os demais personagens têm a chance de amadurecer, rever suas posições ou defendê-las e tentar ser feliz, pois nem tudo precisa ser eternamente cinza e depressivo na chuvosa Inglaterra. Afinal, sartreanamente, cada indivíduo tem o direito de escolher seu caminho e engajar-se nele. É esta a liberdade
    existencialista que panfleteia Stoppard.
    Ao preservar todos estes aspectos, Luciano Alabarse e Margarida Peixoto fizeram uma adaptação interessante e segura. O cenário é despojado, amplo, perfeito para a evolução da trupe de atores. Eles vestem bem os seus personagens, destacando o veterano Carlos Cunha Filho, pela economia, perfeito como o velho Max, comunista de carteirinha.
    A música, outro ponto alto da peça, serve de fundo para as emoções transmitidas pelos personagens. Nisso, destaque para a participação do multi-instrumentista Arthur Faria – tocando violão, piano e acordeão – encarnando uma espécie de Syd Barrett gaudério. E à inclusão de composições de Caetano Veloso – do seu exílio londrino – enriquece a
    adaptação brasileira dando um toque tropical sobre o final dos anos 1960. Vale a pena conferir. (Francisco Ribeiro)
    Marxismo, Ideologia e Rock’n’roll
    Teatro Renascença (Av. Erico Verissimo, 307)
    Quinta, sexta e sábado às 21h
    Domingo às 18h