Soraya Mendanha e Isabela Vilar, da Agência Senado
Depois de ter conseguido boicotar a sessão de terça-feira, o deputado Jair Bolssonaro tentou de novo na noite de ontem. Mas, já na madrugada de hoje, o Congresso Nacional votou o projeto de resolução que anula a sessão de 2 de abril de 1964, que declarou vaga a Presidência da República quando João Goulart ainda resistia, já no Rio Grande do Sul, antes de partir para o exílio, no Uruguai.
“Eu estava com ele, em Porto Alegre”, disse, emocionado, o senador Pedro Simon (PMDB-RS), autor do projeto junto com Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). Eles argumentaram que a declaração de vacância da Presidência foi inconstitucional.
O Congresso Nacional comemorou a correção do erro histórico com chuva de papel picado.
Sob chuva de papel picado e com vivas à democracia, o Congresso Nacional aprovou, na madrugada desta quinta-feira (21), o Projeto de Resolução 4/2013, que anula a sessão de 1964 na qual foi declarada vaga a Presidência da República, então ocupada por João Goulart (1919-1976).
A sessão anulada, protagonizada pelo então presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, ocorreu na madrugada de 1° para 2 de abril, quando Jango se encontrava no Rio Grande do Sul, e abriu caminho para a instalação do regime militar, que durou até 1985.
Os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), autores do projeto, argumentaram que a declaração de vacância da Presidência foi inconstitucional, porque a perda do cargo só se daria em caso de viagem internacional sem autorização do Congresso, e o presidente João Goulart se encontrava em local conhecido e dentro do país.
– Eu estava com ele, em Porto Alegre – disse, emocionado, Pedro Simon, ao relatar os acontecimentos dramáticos relacionados à deposição de Jango.
Simon exaltou a coragem e a responsabilidade de Jango ante a possibilidade de uma guerra civil e até de uma intervenção norte-americana.
– O momento é histórico.
Este Congresso restabeleceu a verdade histórica. Viva o presidente João Goulart! – disse o senador, que classificou a sessão de 1964 de “estúpida”, “ridícula” e “imoral”. Ele sublinhou que aprovação da proposta reconstitui a verdade para o povo brasileiro e permite que a história seja ensinada de maneira diferente nas escolas e universidades.
– Nós não temos desejo de vingança, nem ódio, nem mágoa. Não temos nada disso. Nós queremos apenas reconstituir a história. Quem ler, vai saber – afirmou.
Após o início do golpe de Estado, em 31 de março de 1964, o presidente João Goulart decidiu ir a Porto Alegre a fim de encontrar aliados políticos e estudar como poderia resistir ao golpe de Estado. Foi nesse período que o então presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República.
“Em poucos minutos, sem discussão, Jango foi usurpado do cargo de presidente da República, num ato unilateral do então presidente do Congresso Nacional, Senador Auro de Moura Andrade”, argumentam no texto Pedro Simon e Randolfe Rodrigues.
Randolfe Rodrigues lembrou que vários parlamentares, como o então deputado Tancredo Neves (1910-1985), se manifestaram à época contra a decisão, por meio de questões de ordem. Randolfe afirmou que o país precisa reparar as “manchas no passado” para engrandecer a democracia.
– Não se constrói um país decente, justo, se não tiver lealdade com a sua memória. Não se constrói um país democrático se a Casa guardiã da democracia não reparar as arbitrariedades e as manchas do passado – disse.
A aprovação do projeto, segundo os senadores, mostra que o Congresso, passados 49 anos do Golpe de 1964, não se mantém curvado às circunstâncias que levaram ao regime militar e repudia a contribuição ao golpe dada pela Casa no passado. Para eles, trata-se de um “resgate da história e da verdade”, uma correção, ainda que tardia, de “uma vergonha histórica para o Poder Legislativo brasileiro”.
O deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) falou sobre a tristeza de relembrar a madrugada em que foi realizada a sessão em que Jango foi destituído, mas disse que o ato é necessário para evitar que episódios dessa natureza se repitam. Para ele, e o Congresso escreveu, durante aquela sessão, uma das páginas mais obscuras da sua história já que, ao declarar a vacância, propiciou o ambiente para o golpe militar.
– Ao declarar a vacância criou, aí sim, o ambiente para o malfadado golpe militar que levou o Brasil a um período de obscurantismo e ditadura – disse.
Vários deputados também discursaram, para repor a verdade histórica.
Protesto
O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi o único a se manifestar contrariamente à proposta. Ele tentou derrubar a votação, com questões de ordem, destacou que a destituição de João Goulart teve apoio, não só das Forças Armadas, mas de amplos setores da sociedade, e ainda da Igreja Católica, da Organização dos Advogados do Brasil (OAB), da imprensa e afirmou que a tentativa de apagar o passado é um ato “infantil” e “stalinista”.
– Isto é mais do que stalinismo, onde se apagavam fotografias. Aqui se estão apagando sessões do Congresso. Pelo menos está servindo para alguma coisa: botar por terra a farsa de que foi um golpe militar a destituição de João Goulart – disse, sublinhando a participação do Congresso na destituição do então presidente da República.
A votação da proposta estava prevista para a noite de terça-feira (19), mas foi adiada devido ao pedido de verificação de quórum feito pelo próprio deputado Jair Bolsonaro. Na sessão desta quarta (20), o deputado voltou a pedir a verificação, mas teve o pedido negado pelo presidente do Congresso, Renan Calheiros.
– Vossa Excelência, contra todos os líderes, contra todas as bancadas, isoladamente, não pode paralisar e imobilizar os trabalhos do Congresso, contrariando a Constituição federal. Aceitamos a questão de ordem na outra sessão, mas não podemos aceitar hoje para não perder a oportunidade de reparar a história e reparar o papel constitucional do Parlamento – explicou.
As sessões de terça e desta quarta foram acompanhadas por familiares do ex-presidente, entre eles, o seu filho João Vicente Goulart.
Exumação
A anulação da sessão que tirou Jango da Presidência ocorre no momento em que peritos da Polícia Federal examinam os restos mortais do ex-presidente, na tentativa de descobrir se ele foi ou não assassinado. A suspeita surgiu depois de declarações de um ex-agente da repressão da ditadura uruguaia, segundo o qual Jango teria sido envenenado.
A exumação, feita a pedido da família, ocorreu na última quarta-feira (13) e os restos mortais chegaram a Brasília na quinta-feira (14), onde foram recebidos com honras de Estado.
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Autor: da Redação
Congresso anula sessão que afastou Jango
Últimos dias para ver Vasco, Xico e Iberê juntos
Na entrada da exposição, quarto andar da FIC, uma nota explicativa do curador da mostra, Agnaldo Farias – professor da USP e crítico de arte – resume aquilo que se vai encontrar: “a ideia que permeia essa exposição é enfatizar o coleguismo no áspero ofício artístico, tornado ainda mais árduo num país como o nosso, no geral indiferente às conquistas sociais mais elementares”.
Lida a explicação tem-se acesso ao primeiro ambiente da mostra onde dois quadros e seis esculturas definem, parcialmente, as complexas cabeças do austríaco Xico Stockinger (1919-2009), e dos gaúchos Vasco Prado (1914-1998), e Iberê Camargo (1914-1994). Do primeiro, a série “Gabirus”; de Vasco, a enigmática escultura “Acrólito”, e de Iberê, as pinturas “Tudo é falso e inútil V” e “No vento e na terra”.
Essas obras, de imediato, transmitem uma das características do gênio artístico: o estranhamento. Das telas de Iberê a metáfora construída em torno da bicicleta e da idiota que ri o riso amargo de alguém que passou indiferente a vida, sem correr o risco do ciclista que, mesmo caído, testemunha a ação de alguém que tentou.
De Xico, a denúncia da miséria na série, de 1996, de cinco esculturas representando o homem gabiru (apelido de um tipo de rato do Nordeste). Obra que, em seu conjunto, é uma trágica tradução e evolução, da forma pictórica para a escultural, de “Os retirantes”, de Cândido Portinari (1903-1962). No quadro de Portinari, 1944, temos a imagem da fuga, não se sabe pra onde, de uma família esquálida numa terra seca e desolada.
O homem gabiru, ao contrário, mesmo faminto, já se adaptou ao ambiente miserável, aprendeu a viver de dejetos, e seu parentesco está mais para os morlocks, subespécie humana, criados por H. G. Wells em “A máquina do tempo”. Ele procria e cresce nas cidades, disputando espaços e comida com os ratos que lhe emprestaram o apelido.
Por fim, observadora, “Acrólito”, escultura de madeira e bronze, que Vasco levou 30 anos para construir.
Espécie de esfinge, indecifrável, olhando para o futuro. Serve de escape, contraponto, ao baixo astral das obras de Iberê e Xico. “Acrólito” conduz a imaginação a uma viagem antropológica, ancestral, unindo épocas, antiguidade e presente. Vasco, o mais gaúcho dos três, sabia, como no pampa, olhar o horizonte verde da esperança.
Contudo, se o último Iberê, marcado por uma tragédia pessoal, é amargo, isso não impede de continuar a ser um grande artista, pois, como escreveu Ferreira Gullar no livro do fotógrafo Luiz Eduardo Achutti (Iberê Camargo por Achutti, 2004): “Estes últimos trabalhos do pintor nos mostram que a arte pode ser, em face do desespero, uma afirmação da vida, um derradeiro voo e, assim, uma superação do impasse definitivo”.
E é justamente essa afirmação da vida e da arte, seja como reinvenção ou manifestação de coleguismo e de amizade que transmitem os trabalhos confinados nos outros dois ambientes da exposição. Num, abrangendo um período de 40 anos, convivem obras como “Torso Masculino”, escultura de Vasco, de 1972; “Fantasmagoria IV”, óleo sobre tela, 1987, de Iberê; e “As magrinhas”, bronze de Xico, de 2003.
Noutro, sobressaem os retratos, pictóricos e escultóricos – cabeças em terracota e gesso – que cada um fez para o outro. Chama atenção o óleo sobre tela, 1984, que Iberê pintou de Xico, e que consagra uma de suas técnicas, através da utilização de grossas camadas de pasta- cor, na qual a figura humana parece esculpida, ganhando notório relevo.
Há também, dos três artistas, muitos desenhos, utilizando diversos materiais – como nanquim, lápis stabilo tone, guache, caneta esferográfica, sobre papel -, e que revelam experimentações, esboços. Alguns, como os desenhos eróticos de Vasco, grafite sobre papel, de 1979, fazem, há dois meses, a alegria da barulhenta garotada estudantil que visita a exposição.
Exposição: Xico, Vasco e Iberê: o ponto de convergência
Fundação Iberê Camargo (Av. Padre Cacique, 2000)
Até domingo (17/11)A hora e a vez do cinema palestino
Com a presença do diretor, Kamal Aljafari, 42, a exibição de Porto da Memória, nesta quarta-feira (06/11), deu início, na Casa de Cultura Mário Quintana, à segunda fase da Mostra Cinema e Paz, iniciativa do governo do Estado, agora com a apresentação de filmes palestinos.
Natural de Ramallah, Cisjordânia, Aljafari era um adolescente quando assistiu nas ruas de Jaffa (que hoje faz parte de Tel Aviv) a rodagem do filme Delta Force (1986), com Chuck Norris e Lee Marvin: “Lembro de cenas de perseguição, das ruas cheias de cartazes do aiatolá Khomeini, simulando a periferia de Beirute, Líbano”, recorda o diretor.
A mesma Jaffa que, 24 anos depois, Aljafari – já formado pela Academia de Artes-Mídias de Colônia, Alemanha, onde hoje é professor – voltaria para filmar uma história tendo como base um drama familiar: parentes, do lado materno, estavam sendo ameaçados pelas autoridades israelenses de despejo caso não pudessem comprovar que a casa, comprada há quatro décadas, era deles. Fato que para Aljafari ilustra o que é ser, na atualidade, palestino em Israel: “um estrangeiro no seu próprio país, um exilado, um imigrante, alguém indesejado”.
Porto da Memória, segundo o diretor, não é a um filme militante, de propaganda revolucionária, engajado numa luta libertária. Trata-se de uma reflexão factual e poética sobre o destino-desaparecimento da comunidade palestina de Jaffa, uma película que mistura documentário e ficção: “Não acredito na divisão em gêneros, numa fronteira, narrativas e modos de contar são coisas que se inter-relacionam”, explica Aljafari.
Nesse estilo, colabora para enfatizar o drama a utilização de atores não profissionais – os membros de sua própria família –, cujas forças vêm de suas presenças, testemunhos, dos seus gestuais repetitivos ou coreográficos, como a da senhora lavando as mãos, ritualmente, demoradamente.
Porto da Memória também é feito de paradoxos. A família de Aljafari, por exemplo, é cristã, o que a transforma em uma minoria dentro da minoria. Na televisão passa uma ficção sobre a vida de Jesus Cristo dublada em árabe. E, noutra inserção, aparece uma cena de um filme antigo, transformada em clipe, onde um cantor judeu perambula pelas ruelas da velha Jaffa, cantando em hebraico uma música que parece retratar o nostálgico estado de espírito atual dos palestinos e seu velho porto.
A maior parte do filme denota passividade, depressão, decadência, casas em ruínas ou abandonadas. Mas não residiria justamente nisso a denúncia política da situação dos palestinos em Israel ou nos territórios ocupados? Seria essa passividade, misto de existência e ausência, uma forma de resistência, um grito silencioso?
Aljafari é irônico, e a pergunta apenas reforça que não fez um filme militante, embora esteja consciente que o tema, imagens e posturas das pessoas envolvidas provoquem, no mínimo, questionamentos sobre a maneira de Israel tratar os palestinos que habitam o seu território, ou seja, que vivem na sua própria terra.
Aljafari é um artista com um sentido estético particular de composição de imagens e cenas, tem domínio técnico do ofício. Portanto, consciente de sua proposta cinematográfica, cheia de referências, que vão de Robert Bresson a Jean-Luc Godard, e, sobretudo, do próprio cinema palestino. Enfim, mostra a coragem e a ousadia de alguém que recusa olhar-se apenas como vítima.
(Por Francisco Ribeiro)
Programação da Mostra Cinema e Paz, na Casa de Cultura Mário Quintana:
07/11 – Quinta-feira
19h30 – To my Father, de Abdelsalam Shehadeh ;
08/11 – Sexta-feira
19h30 – Sessão comentada de The Roof, de Kamal Aljafari ;
09/11 – Sábado
19h30 – Sessão com os três curtas-metragens :
Colorful Jouney, de Arab Abu Nasser e Tarzan Abu Nasser ;
Arafat and I, de Mahdi Fleifel ;
Izriqaq, de Rama Mari ;
10/11 – Domingo
19h30 – Sessão com os três curtas-metragensLeia aqui a edição de 25 anos do Jornal JÁ Bom Fim
Já está circulando a primeira das três edições especiais que vão marcar os 25 anos do Já Bom Fim, um dos mais antigos jornais de bairro de Porto Alegre.
A matéria principal da edição aborda as “Origens do Bom Fim” e conta a história daquela região desde que ela começou a ser ocupada por tropeiros que vinham trazer gados para os açougues da cidade.
A próxima edição vai circular na segunda quinzena de novembro e abordará o período romântido do bairro dominado pela comunidade judaica e os anos loucos da contra-cultura.
A terceira edição, no início de dezembro vai mostrar como o centro invadiu o bairro, que agora entra na era dos espigões.Amos Gitai: os horrores da guerra na Mostra da Paz
A visita do cineasta israelense Amos Gitai à capital gaúcha foi breve, o tempo de abrir a Mostra da Paz, fazer uma conferência, receber a comenda Simões Lopes Neto do governador Tarso Genro, e debater com cinéfilos, estudantes e intelectuais. A Mostra terá sequência em novembro, com filmes palestinos.
Fica a reflexão sobre a obra de Gitai que, sem dúvida, é um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Na Mostra de Porto Alegre, foram apresentados trabalhos já conhecidos e consagrados: Kadosh (1999); O dia do perdão (2000); e Kedma (2003).
Neles, e na maioria dos seus mais de 40 filmes, temas como, principalmente, a sociedade israelense, as relações entre judeus e árabes. Colocam, enfim, importantes abordagens sobre conceitos como território, fronteiras, paz, identidade, memória, numa das regiões mais conflituosas do mundo, o Oriente Médio. Gitai, na guerra do Iom Kipur, serviu numa unidade de salvamento, encarregada de resgatar feridos nos campos de combate. É desse testemunho que trata O dia do perdão, misto de ficção autobiográfica e linguagem de documentário, gênero muito apreciado por Gitai e responsável por grande parte da sua respeitável filmografia.
Terça-feira, 29 de outubro. Quarenta anos após a guerra do Yom Kipur, o cineasta israelense Amos Gitai, 63, fez, na abertura da Mostra da Paz, na Cinemateca Paulo Amorim, a apresentação do seu filme O dia do perdão (Kippur, 2000). Não era uma apresentação qualquer. Também era um testemunho.
Arquiteto de formação, Gitai ainda era estudante quando, em seis de outubro de 1973, Israel foi surpreendido com os ataques conjuntos dos exércitos egípcio e sírio.
Começava a guerra do Yom Kipur, que terminaria com uma vitória tática de Israel, mas que deixou, mais do que nos três conflitos anteriores, o gosto amargo de um estrago em baixas e equipamentos, e a necessidade de encontrar uma saída diplomática para a questão palestina, algo que, quatro décadas depois, ainda parece estar longe de acontecer.
Na capital gaúcha, a visita de Gitai foi breve, o tempo de abrir a Mostra, fazer uma conferência, receber a comenda Simões Lopes Neto do governador Tarso Genro, e debater com cinéfilos, estudantes e intelectuais. Tudo como parte do pacote da Paz, iniciativa do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no intuito de promover a concórdia tão esperada entre palestinos e judeus.
Mais de 40 filmes
Se a visita e a Mostra (que terá uma sequência, em novembro, com filmes palestinos) foram breves, resta à reflexão sobre a obra de Gitai que, sem dúvida, é um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Na Mostra de Porto Alegre, foram apresentados trabalhos já conhecidos e consagrados: Kadosh (1999); O dia do perdão (2000); e Kedma (2003).
Neles, e na maioria dos seus mais de 40 filmes, temas como, principalmente, a sociedade israelense, as relações entre judeus e árabes. Colocam, enfim, importantes abordagens sobre conceitos como território, fronteiras, paz, identidade, memória, numa das regiões mais conflituosas do mundo, o Oriente Médio.
Gitai, na guerra do Iom Kipur, serviu numa unidade de salvamento, encarregada de resgatar feridos nos campos de combate. É desse testemunho que trata O dia do perdão, misto de ficção autobiográfica e linguagem de documentário, gênero muito apreciado por Gitai e responsável por grande parte da sua respeitável filmografia.
A película começa mostrando o jovem Weinraub (Liron Levo. Weinraub é também o sobrenome original da família de Gitai) caminhando solitário pelas ruas vazias de Haifa, comércio fechado, como reza a tradição do Yom Kipur. Corte para uma cena erótica onde Weinraub e sua namorada fazem sexo e, ao mesmo tempo, se lambuzam de tintas coloridas. Outros preferem rasgar roupas, unhar-se. Não importa.
Trata-se de uma alegoria e belo efeito plástico ao desejo e a vida, em claro contraste com o baixo-astral do resto do filme, a tinta sendo substituída pela lama, numa região onde a paz é um breve interregno entre ataques e contra-ataques violentos.
O toque da sirene interrompe o sexo, mas não chega a ser uma surpresa. Em Israel o estado de prontidão é permanente. Todos sabem o que fazer e Weinraub e seu amigo Ruso (Tomer Russso) seguem a bordo de um velho Fiat rumo a sua unidade de operação.
Antimilitarista, assim como em seu filme Kedma (também presente na Mostra), Gitai mostra que a guerra além de um conflito armado é acima de tudo um esmagamento existencial.
Mas, se é impossível apagar o lado heroico e épico daqueles que combatem, mesmo sendo cético em relação as suas causas, é possível reforçar o mal-estar, como a longa na sequência, plano fixo, trágico-cômica da tentativa de resgate de um soldado ferido, quando todos, literalmente, ficam chafurdados na lama.
Neutralidade
Por outro lado, quando as condições de resgate são “satisfatórias”, também é preciso escolher quem socorrer, estabelecer prioridades, pois, não cabem todos no helicóptero que, numas das sequências finais, acaba sendo derrubado por um míssil.
Nisso, a ficção de Gitai foi mais branda do que na história real, quando o copiloto foi decapitado pelo projétil. Dá para imaginar o deleite que seria este fato para certo cinema hollywoodiano.
O filme, enquanto ponto de vista, transmite uma certa neutralidade, ou subjetividade como prefere Gitai, sem tomar partido e sem figuração dos exércitos sírio ou egípcio, cuja presença narrativa é constada somente através das explosões dos projéteis que lançam. Mas faz questão de mostrar os horrores da guerra, não faltando mortos, mutilados e corpos queimados. Afinal, o efeito surpresa do início da guerra do Yom Kipur foi devastador para Israel.
Na sequência final, Weinraub, em Haifa, volta para os braços da namorada, num movimento narrativo circular da história, repetindo a encenação da segunda sequência, os dois transando, lambuzando-se de tintas, que agora substitui a lama, enquanto aguardam o próximo toque da sirene convocando para o combate.
Até quando?
Questão complexa e cuja síntese parece estar inserida no final de Kedma, nos monólogos do palestino, expulso de sua terra, e do judeu, condenado ao sofrimento.
No próximo dia seis de novembro (quarta-feira) será vez do cineasta Kamal Aljafari apresentar filmes com a temática palestina. Pena não poder reunir, no Bom Fim, Gitai e Aljafari, que, dividindo um faláfel, ou um Kebab (especialidade turca, mas não importa) falariam de paz, coabitação, e daquilo que certamente fazem melhor: cinema.Haddad se envolve em assalto na Cracolândia
Tiago Lobo |
O prefeito Fernando Haddad (PT-SP) presenciou um assalto, no dia 28, em São Paulo. Haddad fazia uma visita surpresa a Cracolândia, acompanhado do secretário de Segurança Urbana, Roberto Porto, e o de Saúde, José de Filippi Junior. Aquela região da capital paulista há anos lateja como um hematoma ferindo a cidade.
Imagine a cena: uma criança, de faca em punho, assalta um cineasta que acompanha a comitiva do prefeito da maior cidade do país. Depois de ter o celular roubado, o cineasta dispara a correr atrás do menino, é cercado e agredido por outros marginais. O prefeito vê tudo e corre para ajudar. Mas o homem já tinha sido agredido.
Se não fosse a desgraça e ironia da situação, o cineasta seria peça viva do roteiro do seu próximo filme. A providência de Haddad foi chamar um assessor militar, da Polícia, que reuniu alguns moradores do bairro do Crack e soltou o verbo: “o prefeito vem aqui visitar e vocês fazem este papelão”.
Após a lição de moral, que pra um chapado é que nem papo furado de mãe, o celular foi devolvido, pois no Brasil é assim que a coisa funciona: na frente de Prefeito crime vira papelão e é tratado como gafe.Montevidéu: impressões de um paulistano
Montevidéu é uma belíssima cidade, mas isso não faz com que seus habitantes sejam muy alegres. Os montevideanos são circunspectos, um pouco mal humorados, “pra dentro”, o que pode fazer você concluir precipitadamente que há alguma prevenção deles contra nós brasileiros, alguma hostilidade tácita mal disfarçada.
Depois você vê que não é nada disso. Eles são assim mesmo. Em relação aos argentinos, sim, há uma rivalidade natural, regional. Os uruguaios comparam a oposição entre eles e argentinos com o que eles supõem ser a nossa com os cariocas. Fazem essa comparação comumente. É engraçado.
Num fim de tarde em que havia um pôr de sol magnífico e estávamos à beira do Rio da Prata, conversamos por acaso com o jornalista chamado coincidentemente Marcelo Tarde, que ali estava, como nós, para contemplar aquela cena que dispensa adjetivações.
Tarde deu sua versão sobre por que, na sua opinião, o uruguaio de modo geral é uma pessoa circunspecta e “cinzenta”. Segundo ele, as coisas são bastante difíceis para o povo, que vive num país de economia difícil para eles, onde tudo é caro e as pessoas ganham mal. Esse aspecto econômico não é conjuntural, mas histórico, visto que a economia uruguaia passou nos últimos anos por uma fase de crescimento e baixo desemprego.
Passamos dias ensolarados em Montevidéu (e um dia em Colônia de Sacramento), mas todos frios. O amigo Marcelo Tarde, naquela tarde, comentou que o clima normalmente cinza colabora para que o uruguaio seja aburrido, meio depressivo, mal humorado e com tendências suicidas.
Uma cidade cinza, que tem um inverno longo, acaba deixando as pessoas deprimidas, conjectura Tarde. Segundo pesquisa divulgada pela BBC no ano passado, o Uruguai está em primeiro lugar na taxa de suicídios, ao lado de Cuba, entre os países latino-americanos. Seriam 16,6 suicídios por 100 mil habitantes.
“Montevidéu é ótima para os turistas, para vocês, pero para nosotros és muy difícil”, diz Tarde. O jornalista faz uma associação entre futebol e sociologia. Afirma que o futebol do Uruguai, duro, raçudo, para o qual tudo é difícil e sofrido, um futebol não agradável, reflete esse estado de espírito de Montevidéu e do Uruguai de modo geral, de sua história, de sua economia, de seu povo. “Não somos alegres como vocês brasileiros com seu futebol alegre, com suas mulheres que se vestem coloridas. Para nosostros és así, como nuestro futbol.”
Tarde diz que virá ao Brasil se La Celeste bater a Jordânia na repescagem e garantir o passaporte para a Copa do Mundo de 2014.
Língua
Como escrevi em post anterior, diferentemente dos portenhos de Buenos Aires, os uruguaios de Montevidéu, os montevideanos, conversam com você numa boa se você fala portunhol. Nem todos, é claro, mas alguns falam muito bem o português e o vocabulário deles incorporou muitas palavras do português, que eles falam e entendem naturalmente. Claro, isso não se dá por acaso.
Todos nos lembramos das aulas de História em que aprendemos sobre a Colônia Cisplatina, lembram-se? O Uruguai foi incorporado ao Brasil em 1821 e se tornou independente em 1828.
Pegamos um táxi e o taxista falou um português correto. Surpreso, perguntei de onde ele é, do Brasil? “Não, sou daqui. Aprendi a falar português trabalhando, e também porque na história tivemos os portugueses aqui, nossa história é próxima”, ele explicou. O Rio Grande do Sul está logo ali. Muito simpático aquele jovem taxista de Montevidéu. É virtualmente impossível acontecer um diálogo como esse em Buenos Aires.
Comida e bebida
O mate é mais do que um hábito. É um vício. Pessoas andando com a garrafa térmica com água quente embaixo do braço enquanto a mão segura a cuia é uma cena onipresente. O taxista que nos levou do hotel ao aeroporto para pegar o avião de volta dirigia com a cuia na mão.
Algum tipo de carne, batatas (fritas, simplesmente cozidas, na salada russa ou em forma de purê) e uma salada é a combinação básica da culinária do dia-a-dia.
O popular chivito (que reúne carne, queijo e presunto, ovo ou outras combinações), que pode ser um sanduíche ou al plato, é uma solução sempre disponível.
Come-se muito ovo no Uruguai. O ovo deles tem uma gema bem vermelha. Lembra o ovo da galinha caipira que temos aqui, que se vê raramente.
Para comer uma carne, não há nada melhor do que o mercado do Porto. Para quem gosta de carne (de boi, de frango ou linguiça) é o paraíso. Você já começa a salivar chegando ao local, antes de se sentar a um dos inúmeros boxes disponíveis.
Andando pela calle San José, no número 1168, você encontra um restaurante basco, ali plantado, e se você não presta atenção quase não vê. Pacharan é o nome da taberna. Comemos um pollo a la vasca (frango à basca), sinceramente, inesquecível.
É caro comer em Montevidéu. Um real equivale a 9 pesos uruguaios. Em duas pessoas, você gasta em média para jantar ou almoçar, normalmente, entre 400 e 700 pesos uruguaios, equivalente a 45 e 80 reais, aproximadamente.
A cerveja é boa. A Patrícia e a Pilsen, de lá, são de ótima qualidade. É comum a garrafa de um litro. Custa cerca de 130 pesos (14 reais).
É muito comum as pessoas pedirem cigarros nas ruas de Montevidéu. Isso porque, para os pobres de lá, fumar é um luxo. Um maço de Marlboro, que no Brasil custa R$ 5,75, na capital uruguaia é 85 pesos, o que equivale a R$ 9,50.
Também diferentemente dos argentinos, que tomam muito vinho, os uruguaios bebem mais cerveja. E coca-cola. Como gostam de coca-cola! Um casal tomar 1 litro numa refeição é normal. Na Ciudad Vieja, há muitos estabelecimentos com propagandas antigas da Coca-Cola.
É charmoso, porque remete ao passado, mas um passado invadido pelo kitsch moderno, o que provoca um sentimento de nostalgia inevitável.
Mujica
Cerca da metade das pessoas com quem conversamos em Montevidéu sobre o presidente José Mujica consideram-no pífio, garantem que no ano que vem ele e seu grupo saem do poder e dizem, contra seus programas sociais, que o governo dá plata a quem não trabalha, “pero nosotros que trabajamos pagamos esto”. O mesmo argumento dos que vociferam contra o Bolsa-Família no Brasil, porém com uma diferença importante: uma parcela dos que são contra Mujica com esse argumento de que o governo sustenta vagabundos com o dinheiro dos que trabalham são pessoas com problemas. Passam dificuldades. Trabalham muito e não têm nada (no Brasil, o ódio contra o Bolsa Família parece mais ideológico).
A outra metade se divide em duas:
Um quarto, 25%, é expressa pelo taxista jovem citado acima:
– Te gusta Mujica? – perguntamos.
– Gosto. Não faz nada, mas pelo menos não rouba – respondeu, nessas mesmas palavras, em português.
Os outros 25% da segunda metade das pessoas com as quais conversamos sobre política e Mujica são mais reflexivos. Dizem que o governo “está bien”, que é certa sua política social. Mas há algo que as inquieta. É que essas pessoas parecem ter uma certeza amarga de que não podem ir más allá, e que Mujica não fará nada por elas. É uma parte significativa da população do Uruguai, que oscila entre a compreensão e a indiferença.
Estádio Centenário e praças
Fiquei emocionado ao visitar o Centenário. O estádio de futebol tal como conhecemos hoje descende das arenas gregas que sediaram a Olimpíada a partir do século VIII a.C., concepção que posteriormente deu origem ao Coliseu de Roma, construído entre 70 e 90 d.C.
Na história do futebol do século XX, o estádio de futebol é filho popular das arenas greco-romanas. E o Centenário é um “monumento del futbol mundial”, como diz uma inscrição no estádio, o primeiro construído para uma Copa do Mundo, onde a Celeste Olímpica se sagrou o primeiro time campeão mundial em 1930.
O estádio Centenário está situado dentro do parque Battle, uma linda área de nada menos do que 60 hectares localizada na região centro-leste da cidade. É um típico exemplo de como as capitais dos países sul-americanos consideram importantes as praças e os parques. Em Montevidéu, como em Buenos Aires ou Santiago de Chile, las plazas estão em toda parte. Nossa Porto Alegre (RS) tem um pouco essa cultura.
As praças nas cidades importantes da América do Sul ocupam o espaço que nas cidades históricas brasileiras é ocupado por igrejas católicas. Numa cidade importante de Minas Gerais, você não anda 500 metros, ou menos, sem encontrar uma igreja.
Nas cidades sul-americanas, melhor, você encontra praças. Vi poucas igrejas em Montevidéu. Falo das católicas. Infelizmente, há uma (felizmente, uma) “loja” da Universal do Reino de Deus, na avenida 18 de Julio. Seja como for, os montevideanos são mais laicos do que os brasileiros.
Las calles
Jorge Luis Borges define com nuance poética as ruas de Montevidéu como “calles con luz de patio”. Lindas calles, muitas das quais, principalmente as transversais à avenida 18 de Julio, uma veia que atravessa a cidade, são ornamentadas pelos plátanos.
A avenida 18 de julho (data da primeira Constituição do país, em 1830) leva à Ciudad Vieja, e entre elas la Plaza Independência, uma ampla e agradável praça que é ao mesmo tempo um monumento urbano e ufanista, dedicado a José Artigas. Esse caráter ufano e militarista dessa praça, porém, é um pouco opressivo.
A partir dali, da Plaza Independencia, não existem plátanos, pero “calles con luz de patio” que acabam desembocando no monumental Rio da Prata de cujas ramblas o povo uruguaio mira o horizonte depois das águas. (Eduardo Maretti, no seu blog http://fatosetc.blogspot.com.br/2013/10/impressoes-de-montevideu.html)Jango foi perseguido até a morte
A suspeita de que o ex-presidente João Goulart foi assassinado estava presente já no seu enterro, no dia 6 em dezembro de 1976, em São Borja. Fazia muito sentido: em maio daquele ano, dois líderes da oposição uruguaia, o senador Zelmar Michelini e o deputado Gutierrez Ruiz, haviam sido seqüestrados e mortos em Buenos Aires.
Em setembro, Orlando Letelier, ex-ministro do Chile, morreu num atentado em Washington. No Brasil havia ainda a morte do ex-presidente Jucelino Kubtscheck, em agosto, num acidente na via Dutra, fato até hoje cercado de suspeitas.
O risco de Jango era evidente. Ex-presidente no exílio, “herdeiro político de Vargas”, tornara-se um incômodo no momento em que o regime militar enfrentava resistência cada vez maior no meio civil. Sua vida era vigiada, sua correspondência violada. Nos últimos meses, o cerco parecia se fechar: prenderam sua mulher, um amigo mandou avisar que não dormisse duas noites no mesmo lugar.
Teve que mandar os dois filhos para Londres, por segurança. Depois, as circunstâncias de sua morte, num lugar isolado, só com a mulher e um caseiro, com atestado de óbito de um médico que mal olhou o cadáver e declarou que ele morreu de “enfermedad” (doença). Por fim, a maneira como o governo militar
reagiu ao pedido da família para que o corpo fosse enterrado em São Borja, a terra do presidente morto.
Primeiro não queriam permitir, depois não podia levar por rodovia, só avião. Por fim, foi liberado, mas não podia ser um cortejo, tinha que ser um carro, em alta velocidade, sem parar na fronteira, direto para o cemitério. Não foi permitido à
família ver o corpo…
Tudo isso alimentou a suspeita que, desde aquele dia, nunca abandonou as conversas dos antigos correligionários de Jango. A saúde dele era precária, era cardíaco, tinha sido advertido pelo médico do grave risco que corria se não parasse de beber e fumar (ele
não parava), um enfarto fulminante não seria surpresa.
Envenenamento
Mas nem isso diminuiu as dúvidas. Nem mesmo o testemunho de Maria Tereza, sua mulher, que o viu morrer no leito conjugal e sempre rejeitou a hipótese do envenenamento.
Passaram-se 15 anos até que a suspeita fosse além das conjeturas. Preso como assaltante, no ano 2000, um ex-policial uruguaio, Mario Neira Barreiro, revelou aos jornais uma suposta Operação Escorpião, da qual participou, para matar Goulart.
Ele forneceu fatos concretos, plausíveis. Tinha, de fato, trabalhado como rádio-escuta para os órgãos da repressão política durante a ditadura uruguaia, eram corretas as informações que tinha sobre a rotina e a família de Jango no Uruguai e Argentina. Mas não ia além de uma boa história a ser confirmada.
No ano seguinte a Câmara dos Deputados instalou uma CPI para investigar a morte do ex-presidente João Goulart. Cerca de 60 depoimentos foram tomados, mas a CPI encerrou com um relatório contraditório: não há dúvidas que um “Mercosul do terror” operou na região, mas no caso especifico de Jango, faltavam provas.
Um “romance reportagem” dos jornalistas Carlos Heitor Cony e Anna Lee (O Beijo da Morte, Ed. Objetiva, 2003) retomou o tema do assassinato, associando-o com as mortes do ex-presidente Jucelino Kubitscheck e de Carlos Lacerda, ambas acidentais em circunstâncias pouco convincentes.
Barreiro foi uma das fontes de Anna Lee e Cony. Ouvido na Penitenciária de Charqueadas, RS, ele contou novamente a historia da Operação Escorpião, para eliminar Jango. Conclusão de Cony: “É um sujeito perigoso,
com uma tendência ao delírio. Mas seu delírio tem uma espinha dorsal que supera detalhes assombrosos de seu relato. Prometeu mostrar provas que estavam com outro preso. Não tivemos as provas, mas fortes indícios de uma operação destinada a eliminar o ex-presidente”.
No final de 2006, uma equipe da TV Senado que prepara um documentário sobre Jango, obtém permissão para ouvir Barreiro na prisão de Charqueadas. Ele exige alguém da família. O filho de Goulart, João Vicente, participa da gravação de duas horas e sai decidido a reabrir as investigações sobre a morte do pai. Barreiro conta a mesma história: Diz que a ordem para matar Jango foi dada diretamente pelo presidente Ernesto Geisel ao delegado Sérgio Fleury, do Dops paulista.
Quer pela hierarquia, quer pelas relações entre os personagens, quer pelo temperamento de Geisel, é uma afirmação discutível. Mas as recentes revelações sobre a Operação Condor, o esquema terrorista multinacional que operou na América Latina, deram mais sentido às declarações de Barreiro. No final do ano
passado, o filho de Jango entrou no Ministério Público Federal com o pedido de investigação sobre o caso, anexando cópia da entrevista.
No início de 2008, a repórter Simone Iglesias entrevista Barreiro em Charqueadas e a Folha de São Paulo mancheteia na capa: “Brasil Mandou Matar Jango”. Da Folha o assunto foi ao Jornal Nacional e nos dez dias seguintes, Barreiro deu mais de 30 entrevistas para jornais, rádios e tevês de todo o país.
É provável que tenha havido um plano para eliminar Jango. O infarto pode ter chegado antes. Entre os amigos mais chegados, o que o matou, mesmo, foi o “desgosto”. Ele queria voltar ao Brasil, tentara renegociar seu retorno inúmeras vezes. Cumprira dez anos de cassação, passara por dezenas de inquéritos, mantinha-se distante da política brasileira, queria cuidar de suas fazendas.
Homem amargurado
Mas o regime militar havia lhe negado até o passaporte, viajava com passaporte paraguaio. Manoel Leães, que por 30 anos foi piloto de Jango, em seu livro de memórias diz que o expresidente era “um homem amargurado com o fato de não poder voltar ao Brasil”. Um amigo de infância contou que ele vinha para a beira do rio Uruguai, do lado argentino, e ficava olhando os campos de São Borja na outra margem.
Dois meses antes de morrer declarou que estava disposto a arriscar a travessia. O ministro do Exército deu ordem para que fosse preso imediatamente e posto incomunicável pela Polícia Federal.
Quando a notícia de sua morte chegou ao Brasil, as redações receberam a seguinte nota: “De ordem superior, fica proibida a divulgação, através do rádio e da televisão, de comentários sobre a vida e a atuação política do sr. João Goulart. A simples notícia do falecimento é permitida, desde que não seja repetida sucessivamente”.
Foi negado luto oficial e, no Congresso, a bandeira, hasteada a meio pau, foi depois arriada. Dias depois de sua morte, aos 57 anos, a diretoria do Internacional decidiu que o ex-atleta ilustre (ele jogara nos juvenis do clube) merecia um minuto de silêncio no jogo com o Atlético mineiro, no domingo seguinte no Beira Rio. O assunto chegou à cúpula militar e o minuto de silêncio foi proibido.
“Não sou inimigo de vocês”
O que Mario Neira Barreiro revela é o embrião da Operação Condor, grande ação conjunta dos aparelhos repressivos do Cone Sul para eliminar inimigos dos regimes militares da região. Ele conta que entrou aos 18 anos para o Grupo de Ações Militares Anti-Subversivas (Gamma). Foi escolhido para espionar Jango porque sabia português.
“Eu monitorei tudo o que falava através do telefone, de escuta ambiental e em lugares públicos, de meados de 1973 até sua morte em 6 de dezembro de 1976”.
Uma vez Barreiro falou com Jango. Ele e um colega, estavam rondando a casa. Jango convidou para entrar, disse que sabia que estavam espionando. “Não sou inimigo de vocês”, teria dito. Segundo Barreiro, o delegado Sérgio Fleury, do Dops em São Paulo, fazia a ligação com a inteligência uruguaia.
Partiu dele a ordem para que Jango fosse morto. A equipe que monitorava Jango se chamava Centauro (em Montevidéu outra equipe, Antares, se encarregava de Brizola). A operação para matar Jango chamou-se Escorpião, segundo Barreiro, e foi acompanhada e apoiada pela CIA.
O plano consistia em colocar comprimidos envenenados nos frascos de medicamentos que Jango tomava para o coração. O efeito seria semelhante a um ataque cardíaco. “Ele tomava Isordil, Adelfam e Nifodin. O primeiro ingrediente veio da CIA e foi testado com cachorros e doentes terminais.
Colocamos os comprimidos em vários lugares: no escritório, na fazenda, no porta-luvas do carro, no Hotel Liberty, em Buenos Aires”. Fleury deu a palavra final, disse que Jango era um conspirador. Ouviu uma conversa de Fleury com militares uruguaios dizendo que conversara com Geisel. “Faça e não me diga mais nada sobre Goulart”, teria dito o general.
Barreiro foi expulso do serviço de inteligência uruguaio em 1980, por razões que não revela. Morou em cidades da fronteira, depois fixou-se em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. Em 1999 foi preso pela primeira vez no Brasil.
Em sua casa a polícia encontrou granadas, pistolas e fuzis. Foi recolhido à penitenciária de segurança máxima de Charqueadas, em 2000. Em maio de 2003,
em regime de semi-aberto, fugiu mas foi recapturado em seguida.
Aos 54 anos, cumpre pena de 17 anos por tráfico de armas, falsidade
ideológica, roubo e formação de quadrilha.
“Eu vi quando ele faleceu”
Maria Tereza Goulart, a menina do interior que casou com o moço bonito e milionário, viveu ao lado de Jango trinta anos. Estava sozinha com ele na noite de sua morte e, desde o início, rejeitou a hipótese de assassinato.
Hoje ela evita o assunto, certamente para não contradizer filhos e netos que sustentam a tese do atentado. Uma das últimas vezes em que falou sobre o assunto foi neste depoimento ao programa Teledomingo, da RBS TV, em 2003.
”Nós chegamos em Libres, almoçamos, e fomos embora para a fazenda. No caminho, vi que ele estava meio cansado… com olheiras, cansado… Eu falei: “Jango, você não quer que eu dirija um pouco?” Ele disse: “Não, estou bem ainda, se eu precisar, te digo”.
“A fazenda era muito bonita, mas era um buraco. Não tinha ninguém por perto. Eu estava sozinha… “
“Era um casarão enorme, um horror… Só nós dois, tinha uma casa de caseiro lá do lado… Aí, começou a bater uma janela. O Jango disse: “Vou dormir, porque estou cansado”. Eu disse: “Vou apagar a luz, então… Ele falou: “Não, pode ficar lendo”. Fiquei lendo uma
revista, e a janela batendo, batendo… E eu louca de medo de ir fechar esta janela, porque a casa era assim um negócio que ia daqui até aquela outra esquina, de tão grande. Pensei: ah não vou me levantar, não; sair por essa casa, com essa janela batendo… A essa hora da noite…”
“Aí, eu apaguei a luz e fiquei algum tempo acordada. De repente, vi que o Jango estava respirando diferente. Acendi a luz de novo e comecei a chamar: Jango, Jango. Mas quando chamei, eu vi que tinha virado o corpo assim (sabe, quando segura com uma força incrível o travesseiro… ). E ele nunca dormia assim de lado… Aí, fui para o outro lado da cama dele e comecei a chamar, chamar. Aí, ele soltou o corpo, assim… Eu vi quando ele faleceu.”
“ Aí abri a porta e sai correndo e comecei a gritar pelo caseiro: Júlio, Júlio. E o cara veio armado, porque ele pensou que alguém tinha invadido a casa. Foi uma cena horrível. Vocês já imaginaram, perder uma pessoa, dentro de uma casa que não tem a ver contigo, sem ninguém por perto, e o caseiro… Que nem sabia falar direito….”
“O médico veio, um médico de algum lugar dali, que não sei bem. Nem vi a cara dele direito. Ele me falou: “Dona Maria Teresa, ele teve um enfarte total: aquele que parte o coração”. Em seguida, ficou uma mancha assim…”
“ Aí, começaram as pessoas: porque o Jango morreu assim, porque Jango morreu assado. Porque foi enterrado assim; porque estava de pijama… Quem disse que Jango estava de pijama? Ele estava vestido com uma camisa branca, uma calça jeans, que era o que tinha ali, na hora. Arrumamos ele, fizemos o velório ali na casa. Não, mas as pessoas ficam inventando umas coisas que não têm explicação. Aí veio o tal do envenenamento…”
“Disseram que eu impedi a autópsia.… Eu nem sabia que se fazia autópsia, nunca tinha visto ninguém morrer na minha vida…”
“Eles disseram que o Jango não podia sair… Se quisesse trazer o Jango para São Borja, tinha de sair de barco pelo Rio Uruguai, mas era um calor de não sei quantos graus. O corpo teria que ser embalsamado. Mas em um buraco daqueles quem é que saberia fazer
isto? Então, fomos de carro para São Borja, passando por Libres”.
“Eles mandaram descer o corpo; depois disseram que não podia descer; que não podia isso, que não podia aquilo… Mas o Almino Afonso já estava lá e ligou para o Presidente, ou para sei lá quem, e disse: “Não podemos fazer uma coisa dessas. Estou aqui com a
família, Dona Maria Teresa está sozinha, os filhos estão na Inglaterra, o corpo está mal-embalsamado e tem de seguir para São Borja para ser enterrado”. Então, eles liberaram. Mas, até liberar, foi uma cena”.
”Meus filhos estavam em Londres. Quando chegaram não puderam ver o Jango porque o caixão já estava fechado por causa do calor, não chegaram a ver o Jango”.
Texto publicado originalmente na Revista JÁ de abril de 2008
[related limit=”5″]Exumação dos restos de Jango já tem data
Foi anunciada hoje a data da exumação dos restos mortais do presidente João Goulart: 13 de novembro próximo. Deposto pelo golpe militar de março de 1964, Jango morreu no exílio, na Argentina, em 6 de dezembro de 1976, e foi sepultado sem autópsia em São Borja, sua cidade natal.
“Essa é a busca da memória do nosso país, daquilo que nos constitui. A exumação de João Goulart é a exumação da ditadura do nosso país”, disse a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, em entrevista coletiva.
Embora a viúva de Jango, Maria Teresa, que estava sozinha com ele quando faleceu, na cama, tenha descartado a hipótese de envenenamento desde o início, parentes e amigos próximos do ex-presidente sustentam a tese de que a morte pode ter sido causada pela substituição de medicamentos rotineiros de Goulart, feita por agentes da repressão uruguaia. A Comissão Nacional da Verdade entende que o ex-presidente foi uma das vítimas da Operação Condor, montada pelas ditaduras militares do Brasil, da Argentina e do Uruguai para perseguir opositores.
A exumação será coordenada pelo Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal e ocorrerá em duas etapas. A primeira é a análise antropológica, que detalhará informações sobre substâncias venenosas que eram usadas no Brasil, na Argentina e no Uruguai e podem ter causado o envenenamento do ex-presidente.
Nesse momento, serão reunidos dados médicos e pessoais do ex-presidente. Além disso, será feita a análise do DNA. A segunda etapa constará do exame toxicológico dos restos mortais de Goulart para descobrir se houve envenenamento.
De acordo com Amaury de Souza Jr, perito da Polícia Federal, a exumação toxicológica dos restos mortais do ex-presidente João Goulart será feita por um conjunto de laboratórios internacionais de identificação.
O procedimento tem o objetivo de garantir a isenção das informações e desvincular o resultado do Estado brasileiro. A operação terá supervisão do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e de peritos internacionais da Argentina e do Uruguai. Técnicos cubanos também poderão se integrar ao grupo.
Com informações da Agência Brasil32 siglas partidárias disputam a atenção do eleitor em 2014
Procurando na Internet por “sopa de letras”, os resultados são os mais variados: desde um programa da Rádio e Televisão de Portugal (RTP) até jogos gratuitos “online”, como um que tem como instruções: “Leia atentamente a dica e forme a palavra correspondente com as letras que estão na sopa. Após formar 5 palavras, sua sopa ficará pronta e você deve derrubar as moscas para que elas não caiam no seu prato.” (em www.escolagames.com.br).
Mas a mais preocupante das sopas de letras no universo brasileiro não está no Google ou em outros sites de busca.
Está no endereço http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos. Lá você, atento leitor e futuro eleitor, poderá constatar que a eleição de 2014 para presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, distritais e estaduais promete dar um nó nos “seus miolos”, conforme o dito popular.Para o primeiro turno que já está marcado para o dia 5 de outubro, as “colas” devem se multiplicar.
A sopa de letras concorrente nos oferecerá 32 siglas: PMDB, PTB, PDT, PT, DEM, PCdoB, PSB, PSDB, PTC, PSC, PMN, PRP, PPS, PV, PTdoB, PP, PSTU, PCB, PRTB, PHS, PSDC, PCO, PTN, PSL, PRB, PSOL, PR, PSD, PPL, PEN, PROS e SDD. Ufa! Cansou? Mas pode trocar por números, já que você pode votar somente na legenda: na mesma ordem, 15, 14, 12, 13, 25, 65, 40, 45, 36, 20, 33, 44, 23, 43, 70, 11, 16, 21, 28, 31, 27, 29, 19, 17, 10, 50, 22, 55, 54, 51, 90 e 77.
Dá até prá fazer uma “fezinha” na Lotomania da Caixa!!!
O que será que move tamanha sanha partidária?
Há tantos socialismos ou democracias ou trabalhismos tão diversos que cada um “dono de partido” ou grupo político queira ter o seu? A maioria das siglas remete para isto.
Se analisarmos os programas e estatutos partidários, as propostas se assemelham ao pretender o melhor dos mundos para os cidadãos brasileiros.
Quase tudo na direção da assertiva atribuída ao pensador e escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784): “O inferno está cheio de boas intenções”.
Além das siglas de aluguel, haverá disputa às vezes ininteligível para o eleitor comum pelos horários gratuitos no rádio e na TV. E mais do que isto, uma cobiça incontrolável pelos recursos do Fundo Partidário que, em 2012, distribuiu quase R$ 350 milhões entre as legendas registradas até então e com atestado de regularidade nas suas prestações de contas.
Depois do troca-troca partidário encerrado no início de outubro, as negociações vão recrudescer, desaguando nas convenções partidárias cujo prazo fatal é 30 de junho de 2014, quando serão sacramentadas as candidaturas majoritárias e proporcionais.
Preparemo-nos, pois! Como dizem as instruções do joguinho mencionado no início: “… as moscas podem cair em nosso prato”!!! Cuidado.
Vilson Antonio Romero, jornalista, diretor da Associação Riograndense de Imprensa.
