Os documentários Pina, de Wim Wenders, e Carta para o futuro, de Renato Martins, estão incluídos na programação de encerramento, nesta quinta-feira (15/03), da oitava edição do Festival de verão do RS de cinema internacional, com exibições, a partir das 19h30min, no Espaço Itaú de Cinema, no shopping Bourbon Country.
Os longas, finalizados em 2011, traçam insólitos percursos: artístico, no caso de Wim Wenders que em 3D retrata aspectos da vida e da carreira da coreógrafa e bailarina Pina Bausch, morta em 2009; antropológico, em Cartas para o futuro, no qual Renato Martins, através de gravações de partes do dia-a-dia de três grupos familiares cubanos – a partir de material audiovisual coletado durante sete anos – faz um interessante panorama comportamental da sociedade cubana atual.
Martins foge dos estereótipos que, desde a Revolução Cubana, há mais de 50 anos, acostumou-se, sobretudo em produções audiovisuais, a retratar-se a ilha de Fidel. Ele construiu sua narrativa através de depoimentos, concentrados principalmente na família Torres, onde a professora Miriam é o principal elo de quatro gerações de cubanos que, apesar das dificuldades, seguem fiel ao programa socialista.
A ela, tipicamente de classe média, somam-se os outros núcleos familiares compostos pela família de Luiz Alberto, taxista, e de Michel, negro, cujas condições de vida se assemelham a de um favelado brasileiro.
Apesar dos desníveis evidentes, do racismo que a revolução não conseguiu apagar, do bloqueio econômico, que estrangula a ilha, imposto pelos Estados Unidos, do pãozinho diário que cada cidadão tem direito, a pergunta: Afinal por que continuamos lutando? Pelo futuro, responde Miriam, cujo filho Júlio, emigrou para o país de George Bush, que é a representação do próprio diabo no imaginário de Diego, o neto.
Portanto, num país onde tudo parece faltar, mas que, segundo Martins, a noção de tempo é completamente diferente, menos estressante, a melhor opção seja aderir a ALCA, que segundo a professora significa: “al carajo el bloqueo”.


PINA
Um dos maiores nomes da Dança do século XX, a alemã Pina Bausch morreu há quase dois anos sem poder ver a riqueza de possibilidades que a tecnologia 3D ofereceria ao seu trabalho, da profundidade que daria aos movimentos dos bailarinos da companhia que dirigiu e hoje leva seu nome, a Tanztheater Wuppertal Pina Bausch.
Wim Wenders tem uma maneira muito original de tratar biografias. Em Pina, da mesma forma como já havia feito em Tokio-Ga – quando retratou a vida do cineasta japonês Yasujiro Ozu – Wenders faz uma excelente mistura imagética de arquivos, depoimentos, e novas encenações baseadas na herança artística do biografado, caso da engraçada coreografia das quatro estações.
Tendo como principal cenário a cidade alemã de Wuppertal – sede do Tanztheater e famosa por seu trem monotrilho, suspenso – o documentário recupera o conjunto da obra da coreógrafa, incluído trechos do espetáculo Café Muller, um dos raros documentos em que Bausch aparece dançando.
Ao agregar a dança elementos do teatro, do cabaré, Bausch renovou a linguagem corporal. E o cinema, através da decupagem em planos, mais a tecnologia 3D, ajuda acentuar os movimentos que sob a direção de Wenders se tornam extremamente sensuais, dando a impressão, às vezes, que se pode tocar no corpo, no sexo da bela bailarina latina.
Mas não é apenas sensualidade. O documentário, através de primeiros planos e closes, capta os elementos narrativos da estética de Bauch feita de pulsões, que fazia seus bailarinos falarem, chorarem, transmitir expressões de medo, angústia, e também de humor, e vigor.
Multiétnico e transnacional, o Tanztheater conta em seu quadro com a bailarina brasileira Regina Advento que, apesar de falar alemão, no filme dá um depoimento em português, pois uma das propostas de Wenders – como era da coreógrafa – é a de tornar seus espetáculos organicamente cosmopolita: falam-se os idiomas inglês, espanhol, francês, chinês. Mesmo tratamento dado a trilha, do clássico ao pop, e onde se pode ouvir O leãozinho de Caetano Veloso.
Por Francisco Ribeiro
Autor: da Redação
Documentários encerram festival
A Revolução Eólica (41) – O despertar da Fronteira dos Ventos
Por Cleber Dioni Tentardini | Fotos Antonio Henriqson
Com a inauguração neste mês de março da Usina Eólica Cerro Chato, Santana do Livramento, na fronteira-oeste gaúcha, vislumbra uma oportunidade única, após décadas de estagnação, para recuperar sua economia de forma sustentável. Em alguns anos, pode se tornar o maior pólo eólico da América Latina.
Santana do Livramento, na divisa com Uruguai, em uma década pode se tornar o maior pólo eólico da América Latina. Pelo menos uma dúzia de parques para geração desse tipo de energia renovável está projetada para o município, que passará a ser conhecido como a Fronteira dos Ventos.
Os projetos formatados até agora para Livramento, de pequeno, médio e grande portes, somam mais de 950 megawatts (MW). Representam quase a metade de todo potencial eólico do Estado, que gira em torno de 2 mil MW. À frente dos investimentos, que ultrapassam os três bilhões de reais, estão empresas públicas e privadas.
Três parques já estão fornecendo energia à rede elétrica nacional. Eles integram a primeira fase do Complexo Eólico Cerro Chato, um projeto da Eletrosul Centrais Elétricas, que foi incluído na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC 2, do governo federal.
A inauguração das primeiras usinas, em março, contará com a presença da presidenta da República, Dilma Rousseff, que se empenhou no fortalecimento do setor eólico enquanto era ministra de Minas e Energia no governo Lula.
O empreendimento simboliza um marco histórico não só para a empresa responsável por sua implantação e gerenciamento, a estatal, subsidiária do Sistema Eletrobras, como para o município sede, que deslumbra uma oportunidade única, após décadas de estagnação, para recuperar sua economia de forma sustentável e melhorar a qualidade de vida da população.
O prefeito de Livramento, Wainer Machado, espera duplicar a arrecadação municipal até 2014 somente com as primeiras usinas da Eletrosul. “Vamos aumentar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS, por conta da primeira usina, em torno de 40% a 50% do valor. “Se hoje é R$ 25 milhões, acreditamos que vai aumentar R$ 12 milhões a partir de 2013”, comemora Machado. Os cinco parques da Eletrosul aprovados no último leilão, projetados para gerar mais 78 MW a partir de 2014, irão render mais R$ 15 milhões/ano aos cofres do município.

Um pólo eólico no Pampa
A Usina Eólica Cerro Chato, de 90 MW, capazes de abastecer três vezes o município de Livramento, cerca de 240 mil habitantes, entra para a história da Eletrosul, assim como a cidade, pois é com ela que a estatal voltou à geração de energia, treze anos após a privatização. A empresa detém 90% dos quase R$ 500 milhões investidos no complexo. Os 10% restantes são da Wobben Windpower, subsidiária do grupo alemão Enercon GmbH, fabricante de aerogeradores.
A ampliação do Cerro Chato já começou, com a construção de mais 39 aerogeradores para produzir 78 megawatts. A terceira fase do complexo eólico, que compreende mais quatro parques com 34 torres no total e capacidade instalada de 68MW, pode ser definido no leilão de energia agendado pelo governo federal no dia 22 deste mês.
Santa Rufina – Outro empreendimento previsto para a mesma região é a Central Geradora Eólica Santa Rufina, de 60MW, com investimento previsto de 40 milhões de dólares da Zeta Energia, empresa do Grupo Ecopart. A propriedade está dentro da APA do Ibirapuitã, área de proteção ambiental mantida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente.
Cerros Verdes – Para a região dos Cerros Verdes, o grupo espanhol Fortuny tem projetos eólicos que somam 180 MW, com investimentos em torno de R$ 750 milhões. Há um entrave ambiental que pode provocar mudanças no projeto: a falta de autorização do ICMBio, órgão gestor da APA do Ibirapuitã.
Coxilha Negra –A Eletrosul possui projetos que estão sendo desenvolvidos na Coxilha Negra, na linha divisória com o Uruguai. Estima-se uma potência energética que pode chegar a 550 MW em uma área de 20 mil hectares. O investimento ultrapassa R$ 1,5 bilhão. Existe a possibilidade de interligação com o país vizinho.
Menos gases efeito estufa
Até 2010, o Brasil tinha 18 usinas eólicas em operação. Com isso, eram gerados 1 milhão de MWh/ano – o equivalente ao consumo médio de 4 milhões de pessoas – que contribuíram para a redução de aproximadamente 600 mil toneladas de emissão de CO2 por ano, um dos gases causadores do efeito estufa. A partir de 2012, com a estimativa de aumentar para 40 usinas eólicas no país, os números dobrarão, sendo gerados 2 milhões de MWh/ano, o que representa o consumo médio de 8 milhões de pessoas e a redução de aproximadamente 1,2 milhão de toneladas de emissão de CO2 por ano.
No Rio Grane do Sul, os primeiros 150MW produzidos pelos Parques Eólicos de Osório evitaram a emissão anual de aproximadamente 148 mil toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Mas os benefícios ambientais não se restringem aos efeitos climáticos.
Nova energia para Livramento
Município de porte médio, com o segundo maior território do Estado, numa área com6,9 mil km², atrás apenas de Alegrete. População chegando aos 85 mil habitantes. Prédios abandonados no centro de Santana do Livramento denunciam que, nas últimas décadas, a cidade amargou muitas perdas, das indústrias à mão de obra qualificada. Muitos jovens foram embora. O último Censo do IBGE registrou 20 mil habitantes a menos. Falta gente até para trabalhar no campo.
Espera-se, agora, uma mudança no cenário. Os parques eólicos viraram símbolos da recuperação econômica da região, com benefícios ambientais e sociais. A Eólica Cerro Chato se responsabilizou pelo Programa de Controle do Capim-annoni e vai plantar 2,6 mil mudas de árvores na cidade, dentre outras ações. Os proprietários rurais foram beneficiados principalmente com a construção de estradas e açudes, sem mencionar os royalties da energia produzida.
Muitos que trabalharam no canteiro de obras da usina eólica receberam cursos de capacitação e esperam ser contratados para os próximos parques. Outros adquiriram experiência, aprenderam novas profissões e melhoraram a renda da família. O motorista Denizart Silveira acompanhou diariamente os operários do início ao fim das obras. Era ele quem transportava o pessoal para a Campanha. Eram doze homens no início, entre serventes, pedreiros, carpinteiros.
A cada semana chegavam mais dez trabalhadores. “Pegamos o pior do inverno, quatro graus negativos, mas duvido quem não gostaria de voltar pra lá, porque pagavam bem, horas extras, e muitos tiveram oportunidade de crescer”, lembra. Silveira viu servente promovido a chefe do almoxarifado, motoristas de caminhão virarem operadores de máquinas gigantes, passando a ganhar quatro mil reais por mês.
“Conheço pai e filho que foram trabalhar em linhas de transmissão em São Paulo, funcionários com carteira assinada, e um mecânico, dono de borracharia, que lucrou muito fazendo o socorro de todos lá fora, a qualquer hora do dia ou da noite”, conta.
O sentimento geral dos santanenses é de que as oportunidades de trabalho ainda têm de melhorar, mas as expectativas mudaram. E não são só nos cerros que os ventos têm soprado a favor. Na esteira do desenvolvimento, a cidade natal do folclorista Paixão Côrtes vê ampliar de forma significativa os cursos técnicos e universitários gratuitos, da Unipampa, Uergs, UFPel, UFSM e da Escola Técnica Federal.
Free shops brasileiros — Há muita expectativa em torno da instalação de free shops brasileiros nas cidades fronteiriças – projeto de Lei 6316/2009, de autoria do deputado Marco Maia (PT/RS). Seria uma forma de reagir à explosão desse tipo de zona de livre comércio do outro lado da fronteira – somente em Rivera, beneficiado pelo valor baixo do dólar, essas lojas de produtos importados comercializam por ano cerca de 600 milhões de dólares.
Para o presidente da Associação Comercial e Industrial de Livramento (ACIL), Sérgio Oliveira, a posição geográfica do municípioencarece muito a logística e a matéria-prima. “Os municípios distantes têm de oferecer incentivos tributários para as empresas vir se instalar aqui”, defende o empresário.
Mais hotéis — A rede de hospedagem tem se expandido tanto na zona urbana como na rural para atender a demanda. O Sindicato dos Empregados em Turismo e Hospitalidade (Sethl), registra 22 hotéis e pousadas na cidade. “Até pode haver mais, mas alguns estabelecimentos abrem e fecham muito rápido”, afirma a presidente da entidade, Edila Goulart.
Uma boa opção são as pousadas nas estâncias, onde são oferecidas atividades de lazer, comidas típicas e a tranquilidade da Campanha.
Na cidade, o médico e empresário Mozart Hillal é um dos que mais investem no segmento. “A infraestrutura da cidade tende a melhorar a partir de agora, porque a prefeitura vai dobrar sua receita com os royalties da energia eólica”, destaca Hillal, que ocupa a presidência da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e a vice-presidência do Sindicato dos Lojistas (Sindilojas).
Aluguéis caros — A ampliação dos cursos e a adesão das universidades locais aos exames nacionais ENEM e ProUni levaram ao município muitos alunos e professores de outras cidades gaúchas e estados. Soma-se a isso chegada de funcionários das empresas que prestam serviços nos parques eólicos e a falta de investimentos na construção civil. Resultado: disputa acirrada para locar imóveis com preços exorbitantes. Apartamento de um dormitório chega a R$ 700.
Conforme o delegado do Sindimóveis/RS, Carlos Simas, Livramento começa a recuperar sua economia agora, com a vinda de algumas indústrias, mas o processo de qualificação da infraestrutura da cidade é lento. “Nosso mercado da construção civil está estagnado há muito tempo”, explica Simas.
Potencial turístico — O potencial turístico de Livramento, hoje, é proporcionalmente inversa aos investimentos nesse setor, que são muito baixos. De olho nas novas perspectivas, as guias turísticas Vera Reis e Viviane Ávila voltaram para a cidade natal e reativaram a sociedade na Corticeira’s Guia de Turismo, e já lançaram dois novos roteiros: A Rota Internacional do Vinho e a Rota dos Ventos. A luta é diária para que a cidade deixe de ser apenas dormitório para o turismo de compras. “Oferecemos alternativas de lazer às pessoas que vem em busca dos free shops, e tentamos direcioná-los para que conheçam mais nossa Fronteira”, explica Viviane. “A gente tem que alavancar nossas potencialidades para o caso de algum dia esse cenário comercial mudar”, completa Vera.Agora você pode assinar
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Palavraria Livraria & Café – Vasco da Gama, 165, Bom FimXingu arranca aplausos na abertura do festival
A apresentação de Xingu – quinta-feira (08/03), na Sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mário Quintana – arrancou aplausos do público e confirmou o filme de Cao Hamburger entre os melhores desta temporada.
A exibição também marcou a abertura da oitava edição do Festival de verão RS de cinema internacional que, até 15 de março, exibirá cerca de 50 filmes em salas da capital e interior.
A sessão deveria ser ao ar livre, mas devido ao prognóstico errado do meteorologista da Sony Pictures, distribuidora do filme, que previu chuva (o que seria uma benção para a noite senegalesca), houve o cancelamento, e a exibição foi transferida para a Sala Paulo Amorim.
Assim, em clima refrigerado, Xingu obteve dos 150 espectadores que assistiram a primeira sessão, às 22h, o mesmo entusiasmo conseguido no Festival de Berlim, onde a película ficou entre as três mais apreciadas pelo público.
Tudo funciona bem: roteiro, fotografia, trilha, interpretação dos atores, ritmo de edição. Os cenários – Tocantins e Parque Nacional do Xingu – são magníficos. E o todo, sob a batuta de Cao Hamburger, transformou-se num grande espetáculo épico, dramático, e um convite a aventura antropológica.
O diretor Cao Hamburger e o ator João Miguel
A saga dos irmãos – Orlando, Claudio e Leonardo – Villas Bôas é única na história da humanidade. Eles são responsáveis pela demarcação do território indígena – o Parque Nacional do Xingu –, cuja área, de 27 mil quilômetros quadrados, equivale a um país do tamanho da Bélgica.
Os atores Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat – que interpretam, seguindo a ordem dos personagens reais relacionados acima, os irmãos Villas Bôas – garantem o carisma necessário e a complexidade de cada um destes seres que dedicaram suas vidas a causa indígena.
Por isso, Hamburger e seus colaboradores fixaram o seguinte slogan: “se você acredita que o Brasil não tem heróis, venha ver o filme Xingu”.
O projeto do filme surgiu quando o filho do Orlando Villas Bôas procurou o diretor, e também produtor, Fernando Meirelles, dizendo que estava disposto a ceder os direitos para contar a história dos sertanistas: “houve, claro, muito interesse e o Fernando me chamou.
Fiz uma pequena pesquisa sobre o universo deles e fiquei encantado, e fui sugado pela história por três razões, principalmente: primeiro, para resgatar a vida destes heróis brasileiros; depois pela necessidade de rever a cultura indígena; por último, apesar de ser uma história que se passou entre os anos 40 e 60 do século passado, ela é muito atual e muito urgente”, revela Hamburger.
Na feitura do roteiro, o primeiro desafio: uma biografia ficcional, por mais realista que procure ser, jamais alcançará o ser histórico: “e isso exigiu um entendimento profundo da essência da vida deles, da personalidade de cada um, da saga que eles viveram.
Então, misturar os eventos da vida, transformando numa narrativa com começo meio e fim, e que fosse direto ao coração do público” explica Hamburger.
Fernando Meireles como produtor do filme trouxe, evidentemente, uma credibilidade muito grande para o projeto. Contudo, acrescenta Hamburger, “vale ressaltar que a história dos Villas Bôas, por si só, atraiu investidores, inclusive, sem leis de incentivo fiscal”.
Superprodução
A produção de Xingu girou em torno de R$14 milhões. Trata-se de uma superprodução para os padrões brasileiros. Para as filmagens – três meses no estado do Tocantins, e uma semana no Parque Nacional do Xingu – montou-se uma verdadeira operação de guerra: “só conseguimos chegar ao final porque o elenco estava totalmente comprometido com a idéia do filme.
Houve muito heroísmo por parte da equipe, afinal, três meses e pouco no meio do mato não é fácil. Passamos por situações extremas, no limite das condições humanas de trabalho. Mas com a determinação da equipe e do elenco, e com a produção nos guiando, chegamos ao final sem estourar orçamento”, conclui Hamburger.
João Miguel, que interpreta Claudio Vilas Boas, fala da grandeza do personagem, e do filme retratar um episódio importantíssimo da história brasileira, e que não pode ser esquecido: “estamos falando de coisas muito latentes em relação ao Brasil, contracenando com pessoas, os índios, que faziam parte da própria história que estávamos contando.
E isso foi uma experiência incrível, pois traz a tona questões muito contemporâneas, muito vivas, sobre nós, inclusive. Descobrir o quanto nós somos indígenas e não sabemos. E também que não dá para entender o Brasil racionalmente, é preciso senti-lo”.
Segundo o ator, a premissa para a construção ficcional de uma biografia, caso de Claudio Villas Bôas, foi à paixão que o levou a procurar reunir todo o tipo de informação e colocá-la no jogo, nas filmagens: “e isso inclui roteiro, ator, direção. Trata-se de uma grande conversa para encontrar o melhor caminho.Enfim, um baita desafio”.
O imaginário brasileiro sobre os povos indígenas é uma mescla de idealização, culpa e desprezo. Xingu narra à história de três homens, suas forças e fragilidades, e, até mesmo, suas prepotências, pois o desejo em preservar a cultura indígena chegava a ultrapassar o próprio livre-arbítrio dos índios.
Nisso, a cena do avião, em que vemos Orlando (Felipe Camargo) empurrando um grupo de índios a força para bordo, para tirá-los do nocivo contato com os brancos, que os exploram, é emblemática.
Como também é emocionante e cheia de simbolismos a cena da comemoração dos índios, no pátio, entre as malocas, quando o Parque foi criado, em 1961. Verdadeira comunhão, ao som das longas flautas e tambores, vontade de se misturar, pintar o corpo e arrancar as roupas, livrando-se da máscara de civilização.
O Parque Nacional do Xingu, hoje, da uma idéia do que era o Brasil em 1500, época do “descobrimento”. È o lar de diversas tribos, como a Kayabi, bastante enfocada no filme, e os remanescentes dos Kreen-Akarôre, cuja ficcionalização do primeiro contato é o último grande plano da película, configurando bem o fascínio e abeleza do estranhamento.
Enfim, mais do que preservação cultural, o Xingu representa a demarcação da nossa ideia de paraíso, em torno do qual roncam as serras e os tratores, e mugem os gados das fazendasA pátria gaúcha em preto, branco, e a cores
O ensaio fotográfico Pátria Gaúcha – lançado, recentemente, na Fundação Iberê Camargo, pela Portfólio Design – reúne alguns trabalhos de 16 profissionais que registraram imagens de paisagens urbanas e rurais de diversas regiões do Rio Grande do Sul.
A publicação também inclui textos de Tabajara Ruas – cheios de lirismo, metáforas, simbolismos – que servem para introduzir os espaços geográficos enfocados, conferindo-lhes uma profunda e orgânica identidade cultural.
A obra de 220 páginas – cujo acervo, originalmente, foi destinado a calendários temáticos – contou com a curadoria de Rogério Reis, a batuta editorial de Marília Vianna, e a coordenação executiva de Pedro Longui, da Telos.
As imagens – cidades, montanhas, campos – são belíssimas e de alta qualidade como se poderia esperar de um time de fotógrafos com essa escalação: André Abdo, Celso Chittolina, Clovis Dariano, Cris Berger, Eneida Serrano, Eurico Salis, Fernando Bueno, Flavio Dutra, Guto de Castro, Leonid Streliaev, Leopoldo Plentz, Luiz Carlos Felizardo, Luiz Eduardo Achutti, Marcos Luconi, Nede Losina e Raul Krebs.
De Leopoldo Plentz, por exemplo, têm-se imagens de Jaguarão, destacando a Ponte Internacional Mauá, construída em 1930, o casario antigo, e também as lidas de campo. Autor de inúmeros trabalhos sobre a fronteira, ele não esconde seu fascínio por esta região “onde as pessoas misturam o português e o espanhol, e trocam mercadorias, e culturas, tornando aquele espaço bastante singular”. Plentz salienta que a Pátria gaúcha é um importante resgate imagético e histórico do Rio Grande do Sul, um estado tão carente deste tipo de publicação.
Homens no campo / Foto: Leopoldo Plentz
A síntese do pampa foi enquadrada pelas lentes de Leonid Streliaev, este descendente de imigrantes russos que lhe ensinaram a gostar daquela paisagem – composta por uma imensidão verde e de coxilhas sinuosas, falsamente monótonas – que, segundo seu pai, lembrava certas partes da Sibéria, “mas não o clima”, brinca. Streliaev fotografou Bagé, seus campos e seus gaúchos monarcas.

Afinal, no pampa, como diz a lenda, vivem os centauros que gostam de churrasco de carne gorda, corridas de cancha reta, belas piguanchas e, claro, de uma boa briga.
Já Luiz Eduardo Achutti produziu imagens que abrangem parte da região serrana – área de Caxias do Sul – enquadrando grandes planos de sua bonita cascata e parreirais. Também detalhou interiores de casas e galpões, com suas cestas, ferramentas, bigorna, cortinas e artefatos de cozinha. Trata-se de conjunto que confere um olhar antropológico sobre o mundo do trabalho e da figura do colono italiano, e que remetem a questões como a imigração e a construção de identidades, temas caros a Achutti: “talvez isso se deva a minha própria origem – italiana, alemã, árabe – que já é um cruzamento de culturas”, explica.
Bigorna / Foto: Luiz Eduardo Achutti
Desde o século XIX que homens, através de suas câmeras, captam imagens do Rio Grande do Sul. Dos pioneiros Luiz Terragno e Virgílio Calegari até chegar ao grupo inserido em Pátria gaúcha se passaram mais de 150 anos. Mas o perfil aventureiro dos que encararam esta profissão é o mesmo, enquadrando-se naquilo que Tabajara Ruas denomina de anticaçador, pois, segundo o escritor, o fotógrafo não mata: “ele gera. E gera um outro tipo de vida, fruto da união dele, homem, com a máquina. Isso acontece apenas num instante, numa minúscula parcela de tempo, quando a luz desce sobre ele e sussurra: é agora. Só ele sabe o momento, porque, entre os mortais, só os fotógrafos possuem o dom de falar com a luz”.Jornal JÁ Bom Fim 416 – fevereiro de 2012
http://issuu.com/baltz/docs/fevereiro_j__bom_fim_-415/1
Jornal Já Bom Fim – dezembro de 2011
http://issuu.com/baltz/docs/j_-bomfim-413-dezembro
Imprensa: sempre lerda na hora de corrigir
Por Luiz Cláudio Cunha
A imprensa sempre critica, sob aplausos gerais, a lentidão da Justiça. Mas merece vaias quando posterga decisões justas que poderiam melhorar a qualidade da informação no país. Juristas e jornalistas se reuniram em outubro, em Porto Alegre, num seminário para discutir o vácuo jurídico criado pela revogação em 2009 da Lei de Imprensa, um entulho produzido em 1967 pela ditadura e removido sem deixar saudades.
Como sempre, houve divisão quanto à recriação de uma nova lei. Os jornalistas continuam contra, enquanto os juízes defendem uma legislação específica para regular a mídia. O principal foco da discordância é o direito de resposta, que os veículos só concedem por instância final da Justiça, sempre mais tolerante com o direito do outro lado ser ouvido, sem demora.
O próprio consultor jurídico da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Alexandre Jobim, admite: “Ainda se percebe uma falta de iniciativa dos meios de comunicação em relação ao direito de resposta”. É uma opinião relevante, já que a ANJ reúne 155 dos mais importantes jornais brasileiros, responsáveis por 90% da circulação de jornais pagos no país, que chegam a 4,3 milhões de exemplares diários.
O jornalista e deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) dá a receita mais simples e direta: “O melhor que pode acontecer é o jornal aceitar o pedido de resposta por livre e espontânea vontade, porque ali também há informação. O recurso à Justiça só deve ser feito em último caso”. O vice-presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), Benedito Felipe Rauen Filho, ecoa: “O direito de resposta deve ser imediato, atendido logo após ser solicitado, para que cumpra seu papel”.
As chicanas jurídicas que retardam a resposta de quem se acha atingido pela mídia acabam desgastando os próprios veículos de comunicação, que passam ao público uma imagem de intolerância e prepotência que desconsidera a liberdade de expressão de quem também consome a informação. E, como todos sabem, a imprensa precisa dar e o leitor merece receber a informação mais precisa e verdadeira — sempre.
Capricho sem desculpa
O viés autoritário ainda é forte no país. Respondendo a uma pergunta do jornal Zero Hora sobre a eventual proibição prévia de publicação de matérias, o juiz Teori Zavascki, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e professor de Direito da UnB, conseguiu vacilar: “É difícil responder.
A regra óbvia é que não deve haver proibição prévia. Mas há situações-limite em que pode ser necessário, como num caso reiterado de racismo e discriminação”. O deputado Miro Teixeira ensina: “É censura deslavada. Primeiro, se publica a matéria. Depois, se for necessário, se postula direito de resposta e indenização”.
Apesar de tanto bom senso, a ANJ concedeu um ano de prazo para os jornais aderirem a um programa de autorregulamentação. É um capricho indesculpável. Basta copiar agora, já, o CONAR que rege a publicidade brasileira, aplicando imediatamente a regulação que protege a informação, os veículos e seus leitores.
A imprensa não demanda tanto tempo, tanta hesitação, para corrigir seus erros.
Uma imprensa que se respeite deve cobrar de si mesma a imediata, inadiável correção que exige dos outros.
O distinto público só terá a agradecer.Jornal Já Bom Fim – Novembro de 2011
http://issuu.com/baltz/docs/edi__o412-novembrode2011
Jornal JÁ Bom Fim – Outubro de 2011
http://issuu.com/baltz/docs/j_c3_a1-outubropdf.





