A sigla FMI está associada aos piores momentos da vida econômica da Argentina, nas últimas seis décadas, com arrochos, desemprego e catástrofes financeiras.
“É como voltar para trás”, “Isso nós já vivemos”, “É mais do mesmo”.
É o que se ouvia nas ruas de Buenos Aires logo depois que o presidente Maurício Macri anunciou na televisão que vai pedir ajuda ao fundo Monetário Internacional, o odiado FMI.
É a primeira vez em 15 anos que o país tem que recorrer ao fundo para fechar suas contas. Sessenta anos depois do primeiro empréstimo, em 1957, para um governo militar.
Desde então, sua presença acompanhou todas as crises econômicas que sacodem a Argentina de forma cíclica.
Nos anos 1990, o Fundo apoiou a conversibilidade aplicada por Domingo Cavallo durante o Governo de Carlos Menem. E hoje todos associam o Fundo ao fracasso daquele modelo em 2001.
O governo de Fernando de la Rúa havia acordado com o Fundo uma blindagem financeira de 38 bilhões de dólares para sustentar a paridade de um peso-um dólar herdada do menemismo. Mas só houve dois desembolsos.
A suspensão do terceiro precipitou o fim da conversibilidade e a eclosão da pior crise econômica de que os argentinos se lembram.
Eduardo Duhalde, sucessor de emergência de De la Rúa, recorreu duas vezes ao Fundo, que colocava condições cada vez mais duras, sempre relacionadas à redução dos gastos públicos e do déficit fiscal.
O Fundo nunca foi o principal credor da Argentina, mas de sua aprovação dependia a chegada dos investimentos: daí o peso de suas receitas.
Em 2006, o presidente Néstor Kirchner conseguiu eliminar o déficit, graças às receitas extraordinárias das exportações de matérias-primas.
Os países emergentes viviam anos de prosperidade econômica e o kirchnerismo quis dar um golpe de efeito: cancelou a dívida de 9,8 bilhões que a Argentina tinha com o FMI e se declarou livre de qualquer condicionamento. As bandeiras de uma suposta soberania econômica estavam muito altas e os argentinos acompanharam o kirchnerismo com seus votos.
Mas o vento de popa não durou. Os preços das matérias-primas caíram e a Argentina passou a gastar mais do que produzia. O kirchnerismo decidiu então se financiar em pesos, sobretudo com o dinheiro dos fundos de pensão.
Fechado o crédito externo, emprestava a si mesmo com a emissão de moeda. Em troca, não precisava prestar contas a ninguém. Macri chegou ao poder em 2015 e disse que a situação herdada era insustentável.
Voltou então aos mercados internacionais. Primeiro pagou 9,3 bilhões para os chamados fundos abutres para acabar com o litígio por causa do calote da dívida externa declarada em 2001.
Em dois anos tomou mais de 50 bilhões de dólares no mercado internacional, mas isso não foi suficiente para fazer do peso uma moeda à prova de tempestades externas.
Hoje disse que pedirá ajuda ao Fundo novamente, e os argentinos têm dificuldade em acreditar que desta vez será diferente.
“Voltar a essa situação provoca angústia”, diz Ezequiel, um professor que tinha 22 anos quando da crise de 2001. Outros falam em “decepção”, ou simplesmente “raiva”. “Não sei se o povo argentino vai tolerar isso, talvez esteja esperando, mas existe toda uma geração de 40 anos para cima que sabe o que aconteceu com o FMI. Sempre que suas receitas foram aplicadas as consequências foram pagas pelos trabalhadores”, acrescenta Ezequiel, que espera que as pessoas saiam às ruas para protestar.
Carlos, dono de uma floricultura em Villa Ortúzar, um bairro de classe média de Buenos Aires, teme a palavra “ajuste”.
“Voltar ao FMI significa entregar o país, é isso que Macri está fazendo. Em pouco tempo dirão que precisam fazer mais ajustes, ajustar os aposentados, vender empresas públicas.”
Ele não acredita, além disso, que o Fundo tenha “mudado”, como diz sua diretora-geral, Christine Lagarde. “É mais do mesmo, ou até pior, porque cada vez apertam mais os que têm menos e cresce o fosso entre as pessoas que têm dinheiro e os pobres.”
Quem é mais velho, como Graciela, aposentada, vê uma nova crise no horizonte. “Estou com muito medo porque já vivemos isso. A última vez que o FMI veio, acabamos tendo uma grande crise. Eu não entendo muito de política, mas o que eu sei é que meu dinheiro não é suficiente”, diz.
A inquietude atingiu até mesmo aqueles que votaram em Macri, com a esperança de que os problemas herdados do kircherismo fossem resolvidos. Nacho tem 24 anos, de manhã dirige um táxi e à noite trabalha num quiosque de doces.
Diz que sabe “muito pouco” sobre o FMI, mas não tem muitas expectativas em relação à ajuda que pode chegar. “É um desastre”, diz ele, “tudo sobe e o dinheiro não é suficiente. Ganho 16.000 pesos (cerca de 2.550 reais) e pago 12.000 (1.912 reais) de aluguel. Sou anti-kirchnerista porque eles roubaram tudo, mas Macri disse que iria fazer uma mudança e isso não aconteceu. Votei em Macri e agora me arrependo, não voto mais nele”. É possível que o dinheiro do Fundo dê um pouco de oxigênio para a economia argentina, mas em troca o Governo deverá pagar um alto preço político.
(Com informações de El País e Página 12)
Autor: da Redação
Fantasma do FMI assombra duas gerações de argentinos
Quem perde o emprego leva em média um ano para conseguir outro
Quanto tempo um trabalhador fica desempregado até conseguir nova colocação? Essa é uma informação importante, mas geralmente esquecida quando se fala nas dificuldades do mercado de trabalho.
Em março, segundo a última pesquisa do Dieese, a média era de 47 semanas, quase um ano.
No mesmo mês de 2015, a média era de 24 semanas. Ou seja, em três anos, o tempo de médio de procura praticamente dobrou.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República, em 1995, o tempo médio era de 22 semanas – em março. Em seu último ano no poder (2002), já estava em 52 semanas, ou 136% a mais.
Exatamente um ano de procura, conforme dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), da Fundação Seade, de São Paulo, e do Dieese.
No primeiro ano do governo Lula, em março de 2003, esse período estava praticamente igual: 53 semanas.
Foi diminuindo gradualmente até chegar a 35 semanas e continuou caindo com Dilma, até chegar às 24 semanas de 2015, chegando próximo ao nível de 1995. De lá para cá, só aumentou (confira quadro acima).
Alguns fatores explicam esse crescimento. O desalento é um dos motivos: diante das dificuldades de encontrar uma vaga, a pessoa simplesmente desiste de procurar.
E correr atrás de um emprego também custa dinheiro, envolvendo gastos com transporte e alimentação.
O IBGE também detecta esse movimento. O número de desalentados no país – os que desistem de procurar – chegou a 4,3 milhões no país em 2017, maior número da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
Embora o número oficial médio de desempregados no Brasil tenha sido de 13,2 milhões no ano passado, o total de pessoas disponíveis para trabalhar, mas que não conseguiram por diversos motivos, chegou a 26,5 milhões.
(Com informações da RBA)Escorpião amarelo: Vigilância alerta para o risco de infestação
Um escorpião amarelo encontrado à luz do dia no corredor de um prédio no centro acendeu o alerta: Porto Alegre está infestada. Foi o segundo encontrado no mesmo local este ano.
Ainda não se tem a exata dimensão do fenômeno.
O que se sabe é que, desde 2001, quando foi registrada a primeira picada, “a situação na cidade só se agrava”, conforme constata Fabiana Ninov, a única bióloga da Vigilância em Saúde a dedicar-se ao problema.
Seu trabalho tem sido percorrer os locais onde o escorpião é visto, orientando porteiros, zeladores, síndicos, comerciantes sobre os riscos e os cuidados.
O Tityus serrulatus, nome científico do bicho, é o escorpião mais venenoso do continente americano. Sua picada pode ser fatal para crianças e idosos.
Em 2017, foram registrados pelo Centro de Informações Toxicológicas 17 casos no Rio Grande do Sul, sete na capital, em vários pontos da cidade: Assis Brasil, Restinga, Partenon, Ceasa.
Agora, no início deste ano, foi encontrado no centro, na rua Senhor dos Passos. É provável que haja infestações em outros prédios antigos, onde há acumulação de entulhos, pois ele se multiplica velozmente.
Cada fêmea dá 20 a 30 filhotes por vez, uns 160 durante a vida, e sem acasalamento (se reproduz por partenogênese).
De hábitos noturnos, vivem nos esgotos, escondem-se em frestas e rachaduras das paredes, podem escolher seu sapato para se abrigar enquanto você dorme. No meio urbano seu alimento favorito são as baratas.
O Tityus serrulatus chegou ao Sul de caminhão, a cerca de 20 anos, oriundo da região de Minas Gerais e São Paulo, provavelmente num carregamento de hortaliças. Também há relato de alguns vindos numa carga de madeira da China, mais tarde.
Uma centena de tipos de escorpiões habita o brasil, cerca de dez são nativos no Rio Grande do Sul, mas os perigosos são minoria.
O Tityus serrulatus, que não existia no Estado até o ano 2000, é o mais venenoso: pode matar em poucas horas uma criança ou um idoso. Por terem menos água no corpo, a concentração tóxica do veneno é maior.
Em outubro, uma criança de cinco anos foi picada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Aquele foi o quinto registro do ano. Levada rapidamente ao HPS, foi tratada e se recuperou. Em novembro a Prefeitura emitiu um alerta epidemiológico.
Em janeiro, um deles foi visto num prédio na rua Senhor dos Passos, entre Andradas e Alberto Bins, um ponto comercial movimentado do centro velho. Agora em maio, de novo, no mesmo edifício, misto de comércio e residências. Chamada ao local, a bióloga Fabiana Ninov, da Vigilâcia em Saúde do município, constatou que o subsolo está cheio de entulho, ambiente convidativo para qualquer escorpião.
A visita culminou numa reunião de capacitação de pessoas do prédio para identificar e controlar a presença do escorpião amarelo. Responsável por uma das empresas que funciona naquele endereço, a Barcellos Assessoria Imobiliária, Fernando Barcellos decidiu sugerir ao Secovi, sindicato que reúne construtoras e imobiliárias, promover a capacitação de agentes em todas as imobiliárias, e que estes transmitam a porteiros, zeladores, síndicos. “Foi muito boa esta ideia, é desse tipo de iniciativa que precisamos”, anima-se a bióloga. “É essencial que todos estejam informados e mantenham-se de olhos bem abertos.”
Falta sincronia entre os agentes públicos
O biólogo Ricardo Ott, da Fundação Zoobotânica, lamenta que não exista uma ção integrada entre órgãos estaduais e municipais e compara a situação do escorpião amarelo com a da lexmaniose. “Há 20 anos todos sabem que existe no Morro São Pedro. Agora chegou ao Morro Santana”.
O Estado, avalia Ott, deveria promover financiamento de pesquisa voltada a identificar vetores de lexmaniose. “Qual a causa? Desmatamento, lixo acumulado? Qual é o vetor, qual é o mosquito? Não sabemos”. Em vez disso, quer extinguir a Fundação.
“Se a Zoobotânica fechar mesmo, seria ótimo que viessem trabalhar conosco. O último concurso para biólogo em Porto Alegre foi em 1998, estamos nos aposentando”, diz Fabiana Ninov.
Como manter o escorpião longe
O Tityus serrulatus se reproduz nos subterrâneos
Muita limpeza, rigor com o lixo, acúmulo de entulho de jeito nenhum, telas em todos os ralos, rebocar frestas e rachaduras, consertar rodapés soltos, vedar soleiras de portas e combate às baratas são providências urgentes para que o escorpião não seja atraído.
Em locais de maior risco, como moradias térreas em locais com lixo acumulado por perto, cuidados cotidianos devem ser adotados, como sacudir bem lençóis e travesseiros, vistoriar embaixo das camas antes de deitar e dentro dos sapatos antes de os calçar, colocar telas nas janelas, pias, tanque.
Tudo o que atrai baratas – lixo, louça suja, cebola, restos de cerveja deve ser evitado.
Em abril, foram distribuídas aos agentes municipais de controle de endemias luvas reforçadas e pinças adequadas à captura dos escorpiões. Como a picada não deixa marca, as enfermeiras das unidades básicas de saúde estão recebendo capacitação para reconhecer um caso pelos sintomas, na triagem, para agilizar o atendimento
O que não fazer
Escorpião não é inseto, inseticida só vai deixá-lo mais agressivo.
Quem se deparar com um deve matá-lo, segundo orientação da Vigilância em Saúde, usando um tijolo, pedra, um objeto duro. Pisar nele, só se estiver usando botas. Depois, o ideal é comunicar pelo 156 e encaminhar para identificação.
O soro antiescorpiônico é produzido em SP, MG e RJ, onde sobra matéria-prima, que é o veneno extraído do animal vivo.Secretário da Fazenda vai a Brasília discutir perdas do RS com Lei Kandir
O novo secretário da Fazenda, Luiz Antônio Bins, participa nesta terça-feira, 8, em Brasília, de reunião com a Comissão Mista Especial que desde o ano passado, analisa a questão das indenizações aos Estados, por contar da Lei Kandir.
O fato sinaliza uma mudança na postura do governo Sartori em relação ao tema.
“É um tema importante para o equilíbrio das nossas finanças diante do enorme impacto que a Lei Kandir representa na nossa arrecadação”, destacou Bins em nota distribuida pela Secom.
“Em 21 anos de vigência da Lei Kandir, o Rio Grande do Sul acumula perdas atualizadas que chegam a R$ 54 bilhões”, segundo a nota.
“Esta conta bilionária, a partir da diferença entre as perdas brutas desde 1996 com o valor que foi ressarcido neste período, se aproxima do montante da nossa dívida com a União, que fechou o ano em R$ 58 bilhões”, dimensiona Bins.
O secretário destaca que, atualmente, o Estado recebe algo ao redor de R$ 380 milhões por ano como ressarcimento pelo ICMS que deixou de recolher, uma média que veio despencando nos últimos anos.
Conforme o relatório apresentado pelo senador Wellington Fagundes (PR-MT) no início deste mês, a União deveria dispor de R$ 39 bilhões por ano para compensar os estados exportadores.
Pelo projeto, deve ser observado um período de transição de dois anos, começando com R$ 19,5 bilhões em 2019 e R$ 29,25 bilhões no ano seguinte, igualmente corrigidos pelo IPCA.
As perdas de arrecadação acumuladas desde 1996 devem ser repostas em até 30 anos. Se vingar esta proposta, o Rio Grande do Sul passaria a receber algo ao redor de R$ 3,6 bilhões por ano a partir de 2021. Em 2019, seria R$ 1,8 bilhão.
Do total de R$ 39 bilhões, 40% serão rateados segundo coeficientes fixos. Os 60% restantes, segundo o relatório, serão igualmente rateados segundo dois critérios variáveis: as exportações de produtos primários e semielaborados; e os saldos positivos da balança comercial.
Esses critérios serão apurados anualmente pelo Tribunal de Contas da União (TCU), com o apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, tendo como base a performance exportadora de cada ente para períodos de cinco anos.
No final de 2016, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou procedente Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) e fixou prazo para que o Congresso Nacional edite lei complementar regulamentando os repasses de recursos da União para os estados em decorrência da desoneração do ICMS.
O prazo termina no mês de agosto e se até lá não houver a aprovação as novas regras, caberá ao Tribunal de Contas da União (TCU) estipular as regras do repasse e calcular as cotas. O Rio Grande do Sul é signatário da ação julgada pelo STF.Acampamento só acaba quando Lula for solto, garante a militância
Matheus Chaparini
Quando a reportagem do JÁ desembarcou em Curitiba, já não havia espaço para uma barraca de dois lugares no terreno alugado para receber o acampamento dos apoiadores do ex-presidente Lula. Rapazes do MST e da CUT trabalhavam com pás e enxadas, limpando o terreno. Somente quatro horas depois nossa “redação” estava montada. Mais meia hora e o entorno estava tomado de iglus, de forma que até uma ida ao banheiro exigia um caminho em zigue-zague com o máximo cuidado para não pisar em ninguém.
Mais de vinte e quatro horas haviam passado desde que um homem – filmado por câmeras de segurança, mas ainda não identificado – descarregou uma pistola 9mm contra o acampamento, trocou de pente, disparou mais algumas vezes e foi embora. Não havia um clima de tensão, mas o atentado pautava boa parte das conversas.
De chegada, fomos recebidos por um dos coordenadores do acampamento, Thulio Siviero, militante do PT de Juiz de Fora. Me identifico como repórter e manifesto interesse em uma entrevista, para falar sobre a rotina do acampamento. “Já te adianto que não mudou quase nada depois dos tiros. Na verdade, só veio mais gente”, afirmou, matando a segunda pergunta do repórter.
Na prática, algumas providências foram tomadas. Além da presença constante de viaturas, duas barricadas, com sacos de areia e cerca de um metro de altura, foram erguidas junto à entrada, onde ficam concentrados a maior parte dos seguranças. A terra retirada para limpar o terreno formou um barranco que auxilia na proteção da frente do terreno. A segurança, feita por uma empresa terceirizada com orientação de voluntários, ganhou reforço de homens treinados, altos e fortes, alguns deles participaram da segurança da caravana do ex-presidente Lula.
Após atentado a tiros, pilhas de areia foram colocadas por segurnaça
O terreno é amplo, cheio de árvores e divido em dois níveis, com dois metros de diferença, ligados por uma escada de madeira. Na parte alta, a entrada principal, a cozinha e uma tenda onde acontecem rodas de violão, conversas e discursos. Na parte baixa estão os banheiros e chuveiros. Por todos os cantos possíveis, barracas e mais barracas. Para otimizar o espaço, foram montados barracões de lona, grandes dormitórios coletivos com capacidade para cerca de 40 pessoas. Haviam pelo menos quatro destes.
Durante a semana, o número de acampados varia entre 150 e 200, nos finais de semana, sobe para 300, segundo a coordenação. Na véspera do ato do dia do trabalhador, o movimento cresceu a ponto de surpreender os organizadores. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Ceará, Rio Grande do Norte, os apoiadores vinham de todas as partes do país. Um grupo de paulistas desce do ônibus e avisa: outros oito estão a caminho. “Eu não esperava tanta gente, mas acho que estamos dando conta da logística”, afirmou Thulio.
Quando a coisa bombou era possível encontrar todo tipo de militante. Os mais ferrenhos no discurso, os mais dedicados a tarefas práticas até os assíduos em redes sociais. Uma senhora de pele bem branca, transmitindo um vídeo ao vivo, interrompe um jovem tarefeiro e lhe solicita a enxada. Quer ser filmada com a ferramenta nas mãos. E discursa para a própria câmera. “Eu me criei no meio de um canavial. As terras, quase todas, eram do meu pai. Mas era como se fosse de todos.”
Na véspera do 1º de maio a senadora Gleisi Hoffmann experimentou o macarrão com salsicha no acampamento
Entre si, os membros da cozinha estimavam algo entre mil e dois mil jantares servidos na véspera do 1º de maio. O cardápio, massa com linguiça e feijão. Para manter a ocupação, os grupos se revezam. Os metalúrgicos da região metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, se dividiram em três caravanas: os que chegaram na segunda, iam embora na quarta, quem vinha na terça ficava até quinta e assim por diante. Entre os acampados, “Lula livre” se tornou um mantra. Substituiu o “fora Temer”. mas com bem mais intensidade.
O terreno fica na rua João Wislinski. Por ali passam muitos carros. Alguns motoristas buzinam ou gritam alguma mensagem. É claro que não há somente apoio.
Um automóvel passa, alguém grita uma frase pró-Lula, em seguida, a gargalhada e um “vão trabalhar!” “Pô! E o que que eu to fazendo então?, resmunga um rapaz suado de enxada na mão, abrindo espaço para mais barracas das caravanas que não param de chegar.
Frases de apoio ao deputado Jair Bolsonaro também têm certa frequência, mas sempre durante a madrugada.Hasta la vitória
Quando se pergunta até quando dura a vigília, a resposta vem de pronto: até o Lula sair. “Onde ele estiver a gente vai, não importa a distância. Unindo forças para demonstrar apoio ao companheiro e repúdio a este estado de exceção”, afirma Thulio. “Uma coisa é certa: se sair de Curitiba, só aumenta”, complementa outro militante.
Com tanta gente amontoada, comendo, dormindo, militando, carregando celular, um certo grau de disciplina é necessário para manter o acampamento em ordem. Os horários são rigorosos. Das sete às oito é servido o café, depois, caminhada até a vigília – nove em ponto é o momento do “”Bom dia, Lula”. Às dezenove, o “Boa noite” e regresso para a janta. Dez e meia inicia o horário de silêncio, que termina logo cedo da manhã, quando recomeça a rotina.
Bebidas alcoólicas, baseados e afins não são bem vindos. Enrolar e acender um palheiro é um teste da determinação dos rapazes da segurança em cumprir estas regras. “Com todo respeito, companheiro, mas isso aí na sua mão é maconha?”
Além de uma questão interna, o acampamento tem a presença constante de duas viaturas da polícia na entrada. É reclamação entre os acampados que a presença da polícia fazia parte do acordo de desocupação do entorno da Superintendência da PF, entretanto, eles garantem que o policiamento só passou a ser realizado após o atentado.Um retirante que virou ideia e estampa de camiseta
Nasceu menino pobre, na seca do sertão pernambucano, o líder que atrai essa multidão. Migrou para São Paulo com a mãe e irmãos em um pau de arara. Virou trabalhador, metalúrgico, liderança sindical, fundador do PT e incansável candidato do partido ao Planalto, nas eleições de 1989, 94 e 98, foi eleito presidente e “the guy”, segundo o então presidente americano Barack Obama. Depois tornou-se réu, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro no famoso “caso do triplex” e preso, em um processo ágil como poucos no Judiciário brasileiro. E sua imagem não para de crescer.
Lula se converteu em uma ideia, segundo ele mesmo. Mas se converteu também na única esperança daquelas pessoas que se concentram em Curitiba em garantir os direitos que julgam terem sido rapinados pelo atual governo. Lula virou também ícone pop, com seu rosto estampando camisetas, qual um Che Guevara.Mais de mil refeições em uma cozinha improvisada

José Luzardo Cruz Brum, gaúcho de santa Maria, é um dos responsável pela alimentação do acampamento
Após o acordo de retirada dos acampados junto ao local da vigília, próximo à PF, o acampamento Marisa Letícia ficou servindo de base de apoio aos que passam o dia na praça Olga Benário dando bom dia, boa tarde e boa noite ao ex-presidente e pontuando toda e qualquer frase com “Lula livre”.
São centenas – às vezes mais de mil – pessoas para comer. Para tal, há aqueles que não participam da vigília, não presenciam os discursos ali proferidos, nem gritam bom dia ao ex-presidente na esquina da PF. São os da retaguarda, os tarefeiros que fazem o acampamento funcionar.
José Luzardo Cruz Brum, gaúcho de santa Maria é um destes. Responsável pela alimentação do acampamento, Cruz, como é conhecido, coordena uma cozinha com mais quatro voluntários, que se revezam.
Ali são preparados e consumidos todos os dias 50 kg de arroz, 30 kg de feijão, 15 kg de café, os ingredientes mais frequentes. Com o agravante de nunca se saber ao certo quantas pessoas vão parecer na hora da refeição. Cruz nunca foi cozinheiro profissional. Aprendeu a cozinhar neste sistema de enormes quantidades quando serviu ao Exército Brasileiro durante oito anos. Recebeu a tarefa da coordenação e acatou de pronto.
São dois fogões industriais trabalhando sem folga sob a cobertura de uma tenda e lonas. Ao fundo, a despensa, formada com doações trazidas pelos movimentos que compõem o acampamento e por militantes avulsos.
Cruz está acampado desde o primeiro dia, veio a Curitiba “pela causa, pelo Lula e pela falecida” e se emociona ao citar o nome de Marisa.
“Esse acampamento não para. Se você fizer um encontro em Tocantins para um grupo debater política e a situação do Lula, Marisa Letícia vai estar lá. Ele é o começo de uma imensidão, de uma história. Onde Lula for, Marisa vai.”
Jardim Botânico é um museu vivo com mais de 4 mil plantas nativas
Cleber Dioni Tentardini
O Jardim Botânico de Porto Alegre possui 29 coleções científicas que somam mais de 4.300 plantas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, que são encontradas apenas no RS.
É um dos cinco melhores e maiores do Brasil, e serve de modelo para criação de outros JBs por sua organização e conservação da flora riograndense.
“A nossa preocupação maior é com a conservação da biodiversidade do Rio Grande do Sul”, afirma a bióloga Andréia Maranhão Carneiro, curadora das coleções do JB. Ela ressalta que o Brasil tem metas a cumprir, por ser signatário de acordos internacionais, especialmente através da Convenção da Diversidade Biológica (CDB)*, assinada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, a ECO 92.
Em 2002, houve a adoção da Estratégia Global para a Conservação de Plantas GSPC – Global Strategy for PlantConservation) na 6ª. reunião da conferência das partes da convenção sobre diversidade biológica em Haia. Foram estabelecidas 16 metas, adotadas pelo Conama, órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama.
Uma das metas é que os países disponibilizem 60% das espécies ameaçadas de plantas em coleções ex-situ (fora do seu habitat natural), de preferência no país de origem, e inclusão de 10% delas em programas de recuperação e reintrodução.
“E quem faz conservação ex-situ é jardim botânico”, diz a doutora em Botânica, especialista em Ecologia Vegetal. Se não for preservado nas suas atuais condições, provavelmente vai perder o registro, com prejuízos irreparáveis para conservação da biodiversidade no Estado.
Andréia está preocupada com o futuro das coleções /José Fernando Vargas/Divulgação
Não foi por acaso que o juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, no dia 9 de abril, em seu último despacho na ação movida pelo Ministério Público, ao travar a extinção da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, reforçou a ideia de que o Jardim Botânico de Porto Alegre é um museu vivo com um patrimônio público inalienável e que exige o máximo zelo dos gestores públicos na sua preservação para as gerações presentes e futuras.
“O ERGS foi devidamente cientificado do inteiro teor da decisão em 09.01.2018 e não se tem qualquer notícia de que tenha se insurgido contra a decisão, que é absolutamente clara em estabelecer que, para que possa operar e materializar a transferência da gestão para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, apresente, de forma minudente, clara e com indicação objetiva dos meios e modos de efetivação da alteração da administração, plano de ação que atenda, entre outros requisitos, a manutenção da classificação A do Jardim Botânico de Porto Alegre, com o atendimento de todas as exigências estabelecidas no art. 6º e respectivos incisos da Resolução 339/2003 do Conama”, anotou.
O Brasil possui 31 jardins botânicos: um distrital, dois privados, seis estaduais, oito federais e 13 municipais. Estão nos estados do Rio Grande do Sul (5), Paraná (1), São Paulo (7), Rio de Janeiro (4), Espírito Santo (1), Minas Gerais (3), Goiás (1), Brasília (1), Bahia (1), Pernambuco (1), Paraíba (1), Rio Grande do Norte (1), Ceará (1), Pará (2) e Amazonas (1).
No RS, existem dois JBs municipais, de Caxias do Sul e Lajeado, um privado, da Unisinos, um ligado à Universidade Federal de Santa Maria, e o da FZB, o maior.
Área de preservação está reduzida a 36 hectares/Cleber Dioni 
Entre os cinco melhores do Brasil /Cleber Dioni
Em junho de 2003, durante a Semana do Meio Ambiente, o Jardim Botânico da Capital passou a integrar o patrimônio cultural do Estado, permitindo beneficiar-se das leis de incentivo à cultura (federal, estadual ou municipal), para eventuais projetos de preservação e restauração de seu patrimônio, e estimulando a iniciativa privada para o desenvolvimento de projetos no parque. Proposta semelhante está em tramitação na Câmara Municipal, cujo projeto de Lei, do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) propõe tombar o imóvel sede do JB como Patrimônio Cultural e Histórico de Porto Alegre. Já passou por duas comissões de vereadores, de Constituição e Justiça (CCJ) e de Economia, Finanças e Orçamento e do Mercosul (CEFOR), sendo que ambas deram parecer contrário ao PL por entenderem que a proposição da matéria é de responsabilidade exclusiva do Poder Executivo municipal. O projeto aguarda parecer, agora, da Comissão de Urbanismo, Transporte e Habitação (CUTHAB).
Há 110 espécies ameaçadas de extinção
Modelo no Brasil em conservação da biodiversidade, o Jardim Botânico de Porto Alegre possui plantas envasadas (plantadas em vasos e abrigadas em casas de vegetação) e do arboreto (plantadas na área do parque). Há cerca de 2.250 exemplares de arbóreas, mais de 750 de orquídeas e mais de 620 de bromélias. Diversas plantas estão na coleção há mais de 30 anos. A planta Cactaceae envasada número 001 é de 1974.
Estão preservadas no JB aproximadamente 110 espécies ameaçadas de extinção entre bromélias, cactos, orquídeas, palmeiras, diversas famílias de arbóreas e pteridófitas (várias famílias de diversos tipos de samambaias e xaxins). Constam nas coleções, por exemplo, a espécie de orquídea Cattleya intermedia, o cacto Parodia neohorstii, espécie endêmica da Serra do Sudeste, no Estado, Callisthene inundata, árvore endêmica da Serra, e Dyckia maritima, espécie de bromélia que ocorre no Litoral Norte do RS.
Espécies nativas de cactos consideradas em perigo de extinção: Parodia leninghausii (na frente) e Parodia magnifica (ao fundo)
Há cerca de 35 espécies ameaçadas de cactáceas, ou seja, 66% das espécies ameaçadas de cactos do RS estão preservadas no JB. E aproximadamente 29 espécies ameaçadas de bromélias, quase todas (80%) que constam no último levantamento da lista “vermelha” da flora riograndense, de 2014. Também estão protegidas árvores como o Butia yatay e o pinheiro-bravo.
Quatro botânicas dividem as atividades de pesquisa e manejo das 4,3 mil plantas envasadas e arbóreas. Elas têm o apoio de três técnicos – Ari Delmo Nilson, Leandro da Silva Pacheco e Tomaz Vital Aguzzoli – e de jardineiros, parte destes terceirizados. Os estágios foram cortados pela atual gestão, mas há dois alunos da graduação, bolsistas de Iniciação Científica do CNPq.
“Temos mais de duas mil plantas envasadas, pertencentes a dez coleções, então dividimos por setores as atividades diárias, mas o trabalho é muito de equipe para podermos dar conta”, ressalta Natividad Ferreira Fagundes, referindo-se também aos técnicos, que auxiliam no planejamento e execução de todas as atividades da Seção de Coleções, incluindo os manejos do parque como plantios, podas e supressões, pois possuem conhecimentos específicos para a sua função.
Natividad é especialista em bromélias/Mariano Pairet/Divulgação
O ideal é que, além dos técnicos, houvesse jardineiros fixos para saber coletar, armazenar e transportar as plantas de forma correta. Analisar o estado fitossanitário, reconhecer pragas, preparar o tipo de substrato, selecionar o vaso ou o suporte adequado para cada espécie.
Vriesea corcovadensis, bromélia criticamente ameaçada de extinção 
Tillandsia duratii, criticamente ameaçada de extinção
“Cada espécie tem suas particularidades e demandam cuidados especiais. As bromélias, por exemplo, se multiplicam bastante por reprodução vegetativa, a equipe faz o manejo da coleção e, logo em seguida, surgem vários indivíduos novos, causando o adensamento das plantas, tornando-as mais suscetíveis a pragas, por exemplo, então a supervisão é diária para não corrermos o risco de haver perdas”, explica. “E como as bromélias, em geral, são epífitas, e absorvem a água principalmente pelas folhas, então, nos vasos, é preciso regar as folhas e não a terra porque, do contrário, elas apodrecem”, ensina Nati, como é chamada entre os colegas, especialista em bromélias, com pós-doutorado pela Ufrgs na área de Morfologia e Anatomia Vegetal. Ela ingressou na Zoobotânica em agosto de 2014, mas durante toda a vida acadêmica utilizou as coleções do Jardim Botânico em seus estudos.
Sua colega, Priscila Porto Alegre Ferreira, ressalta que o manejo das coleções é apenas uma parte do trabalho. “Também realizamos pesquisas, participamos de planos de manejo, saímos a campo para coletar mudas, exsicatas e sementes, ficando todas as informações armazenadas no banco de dados. Após um período para o preparo e adaptação dos exemplares, eles são, então, inseridos nas coleções”, afirma a bióloga.
Priscila e Tomaz Aguzzoli no trabalho com samambaias, na coleção de Pteridófitas/Júlia Fialho/Divulgação 
O xaxim Dicksonia sellowiana também é considerado vulnerável 
Samambaia Blechnum penna-marina, classificada como vulnerável/Priscila Ferreira
Priscila é formada na Universidade Federal de Santa Maria, com Doutorado na UFRGS. Especializou-se na família Convolvulaceae e em plantas trepadeiras. É taxonomista, capacitada para descrever espécies. Também ingressou em agosto de 2014 na FZB.
A botânica já descreveu sete espécies novas para a Ciência. Uma das plantas, do gênero Ipomoea, ela encontrou no município de Manoel Viana, e como de praxe, teve agregado seu nome, ficando então Ipomoea pampeana P.P.A. Ferreira & Miotto.
Bióloga mostra foto de Ipomoea mirabilis, espécie em perigo de extinção descrita por ela durante a pós-graduação
Priscila destaca os cuidados com as plantas bulbosas – exemplo das famílias Amarylliaceae, Asparagaceae e Iridaceae –, que perdem a parte externa em determinadas épocas do ano, mas não ficam menos suscetíveis a infestações, pois lagartas podem ainda atacar o bulbo (caule subterrâneo). “Assim, o cuidado é intensificado”, diz a botânica.
A bióloga Rosana Farias Singer lembra que, além das coleções arbóreas e s, jardins botânicos como o de Porto Alegre são muito visitados por pesquisadores de outros estados e países, além dos estudantes, o que demanda tempo e disponibilidade para auxiliá-los.
Rosana entre espinilhos do Jardim Botânico/Cleber Dioni
Formada pela Universidade Estadual de Campinas, com pós-doutorado em Biologia Molecular pela Ufrgs, a botânica sul-matogrossense é taxonomista, identifica e descreve as plantas.
“Sem especialistas, técnicos e jardineiros, não consigo vislumbrar a manutenção do Jardim Botânico. Não há a mínima condição de um único profissional ficar responsável pelas coleções, ou um pesquisador e um jardineiro, por exemplo. Porque o trabalho não é só dar água às plantas, elas precisam dos nutrientes, cuidados contra as pragas, o manejo correto, feito por pessoas qualificadas, sem isso é muito difícil que as espécies sobrevivam”, diz Rosana.
Pesquisadora do JB Rosana Singer no refúgio Banhado dos Pachecos/Mariano Pairet/Divulgação
A botânica chama a atenção também para o Banco de Sementes do JB, ameaçado de ficar sem pesquisadores e na iminência de encerrar as atividades de análise fisiológica e morfológica de sementes de espécies arbóreas e arbustivas nativas do Rio Grande do Sul.
Dal Ri com sementes conservadas na câmara seca do laboratório no JB/Cleber Dioni
O engenheiro florestal Leandro Dal Ri, analista do Banco de Sementes diz que o laboratório é um dos poucos no Estado que realiza essas funções, inclusive com as espécies ameaçadas. “Eventuais danos serão incomensuráveis, com perda em termos de sistematização de dados gerados em experimentos nos últimos 20 anos, podendo comprometer a lista de Index Seminum, pois não existirão sementes armazenadas”, afirma.
Andréia, a curadora das coleções, reforça outro ponto que normalmente as pessoas desconhecem em relação às funções de um jardim botânico, por acharem que “se não der lucro tem que fechar”.
“Tem várias atividades, prestação de serviços que são dever do Estado, está na legislação, e se não tiver profissionais para prestar esse serviço, o governo terá que contratar junto à iniciativa privada e vai gastar muito mais, isso já está provado. Posso dar vários exemplos, como os estudos em áreas de proteção ambiental, os planos de manejo, mapa eólico, zoneamento da silvicultura, as revisões das listas de espécies ameaçadas”, exemplifica.
A bióloga Andréia Carneiro durante coleta em Caçapava do Sul/ Foto Rosana Singer/Divulgação
Andréia lembra que está sendo construído um novo orquidário, sem gastos públicos. “Esse dinheiro é da empresa Taurus, que fez um acordo com o Ministério Público e reverteu uma multa na recuperação do telhado do bromeliário e na construção de um novo orquidário”, explica.
Andréia e os técnicos Ari e Leandro no Parque Estadual do Turvo/Foto Priscila Ferreira/Divulgação
A botânica destaca também que as coleções científicas têm valor para diversas áreas, e não só para a biologia. “Engenheiros agrônomos e florestais, farmacêuticos, médicos, todos pesquisam aqui. Isto é patrimônio do Estado”, completa.
Casa de Vegetação fica pronta em julho
Em dezembro de 2017, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, através da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, e a empresa Taurus S.A. participaram da reinauguração do bromeliário do Jardim Botânico de Porto Alegre, que foi restaurado com parte dos recursos provenientes de uma multa ambiental aplicada à fabricante brasileira de armas.
A arquiteta Rosa Maria Pacheco, da Fundação Zoobotânica, diz que foi substituído o telhado, restauradas as estruturas de ferro, de concreto e das mesas, e foram feitas pinturas em geral no bromeliário.
Promotora com advogado e a supervisora ambiental da Taurus/Cleber Dioni 
Bromeliário foi todo restaurado/Divulgação
O ato celebrou também a entrega de vários equipamentos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e o anúncio da construção de uma nova casa de vegetação, que abrigará orquídeas, samambaias, entre outras plantas. As obras começam em março, com prazo de entrega em 120 dias.
A multa revertida em benfeitorias ao JB e na compra de materiais para a Fepam resultam de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o MP e a Taurus, devido a um acidente em sua unidade na Capital que provocou contaminação do solo.
Segundo o advogado Neandro Bagatini Lazaron, representante da empresa, dos cerca de R$ 200 mil da multa, foram gastos R$ 25,9 mil no bromeliário, R$ 79,6 mil na aquisição dos equipamentos para a Fepam e serão aplicados R$ 95 mil na nova casa de vegetação.
Missão do JB é conservar a biodiversidade nativa
Poucos conhecem as matas e campos no Estado como o técnico agrícola Ari Delmo Nilson, um dos funcionários mais antigos do JB de Porto Alegre. Começou a trabalhar em 1975, três anos após a criação da Fundação Zoobotânica do RS.
Ari Delmo Nilson, o mateiro
Ele ajudou a plantar uma grande parte da coleção arbórea do Jardim Botânico. “Está tudo registrado nestes caderninhos”, aponta Ari, com orgulho por ter seguido à risca os ensinamentos dos naturalistas com quem conviveu no JB, como os professores Albano Backes e José Willibaldo Thomé.
Chegou a conhecer o fundador, irmão Theodoro Luis, mas logo o jesuíta espanhol retornou à Europa para continuar os estudos. “Lembro que, ao retornar a Porto Alegre, o irmão Theodoro elogiou o doutor Albano por ter cumprido com a missão de manter o JB como uma unidade de conservação da flora nativa e isso sempre carreguei comigo”, ressalta.
Uma hora de caminhada pelo JB com Ari é um aprendizado e um exercício de memorização. “Aqui temos uma floresta típica da região do Alto Uruguai, com exemplares de angico, louro, maria preta, canjerana, guatambú, sassafrás, camboatá, canela, cabreúva, todas essas plantas estão disponíveis, identificadas e catalogadas para pesquisadores e a população em geral que quiser conhecer. Esse angico vermelho ou curupaí, eu trouxe sementes do Alto Uruguai, fiz a germinação, adaptação e plantio, em 1976”.
Agora, nenhum outro local dá mais satisfação a esse “mateiro”, como gosta de ser chamado, que a entrada do Jardim Botânico, simplesmente porque foi ele quem plantou quase todas as palmeiras, algumas sementes trazidas de sua terra natal, Marcelino Ramos. Todas as espécies nativas de palmeiras constam na área do JB, algumas estão ameaçadas de extinção, como o coqueiro, jerivá, butiá, buriti, geonoma.
Ari ajudou a plantar quase todas as palmeiras na entrada do JB, algumas sementes trazidas de sua terra natal
“As palmeiras constituem a área frontal do Jardim Botânico, o cartão de visitas. Nós priorizamos espécimes nativas, os coqueiros, jerivás, butiazeiros, que estão bem representados aqui em exemplares com mais de 40 anos, mas nessa área há uma exceção porque a gente procurou plantar palmeiras de vários países”, explica.
Uma história de vida com o Jardim Botânico
O Julio tem 42 dos 60 anos de idade dedicados ao Jardim Botânico de Porto Alegre. Começou a trabalhar em outubro de 1976, como jardineiro, participou da implantação dos canteiros de flores e do arboreto. Foi para o viveiro faz uns 39 anos, e está lá até hoje, onde organiza e vende as mudas de árvores.
Mas sua história com o JB é bem mais antiga, remonta à infância. Julio Cesar Vianna do Prado é filho do seu Julião, um dos primeiros jardineiros do parque. A família chegou a morar numa das oito casas construídas para os funcionários, por volta de 1958, a pedido do irmão jesuíta Theodoro Luiz (responsável pela implantação do JB), para ajudar a cuidar o terreno, que na época era aberto, e a população transitava livremente pela área. A partir de 1972, com a criação da Fundação Zoobotânica, os servidores foram indenizados para adquirir terrenos na cidade e as casas, transferidas.
Julio Prado e o pai, seu Julião/Cleber Dioni
“Lembro que, logo em seguida da instalação da FZB, o diretor do Jardim Botânico, o doutor Albano Backes, achou por bem que deveríamos produzir as nossas próprias mudas, então começamos a produzir flores para os canteiros e coletar sementes de árvores aqui pela volta mesmo para produzir as mudas. Já chegamos a produzir 40 mil mudas num ano. Quando havia seis pessoas trabalhando no viveiro, chegamos a produzir duas mil mudas de flores para os canteiros, e como são flores de ciclo curto, tinha que trocar de tempos em tempos”, lembra.
No viveiro, há mudas de cerca de oito espécies arbóreas ameaçadas de extinção, como o palmito, a margaritaria, o pau ferro, bicuíba, pau alazão.
Mudas de Pau alazão (Eugenia multicostata)/Cleber Dioni
Manejo agroecológico, uma solução caseira
A bióloga Josielma Hofman de Macedo e a graduanda em Geografia na Ufrgs Carina Richardt de Carvalho entraram por concurso em 2014 no Jardim Botânico para trabalhar como jardineiras, passaram por vários setores, e hoje cuidam da irrigação e manutenção dos canteiros no parque.
Josielma, acompanhada de seu Pedro, aplica nas tarefas diárias os conhecimentos científicos/Mariano Pairet
Segundo elas, o setor de jardinagem tem procurado trabalhar mais com manejo agroecológico, por ser de baixo custo e ambientalmente correto.
Carina com sua colega jardineira Ana Emilia Sander/Divulgação
“A gente é quase autônomo aqui, em termos de materiais, produzimos o nosso composto, que pode ser utilizado na cobertura dos canteiros, no paisagismo, a água vem da vertente lá de baixo, as madeiras vem das sobras das podas. Tínhamos um projeto de reaproveitamento da água da chuva ali no prédio do museu, espero que retomem”, diz Josielma.
“São tecnologias de baixo impacto e custo”, complementa Carina. A futura geógrafa, espera que o cenário melhore, o Jardim Botânico permaneça funcionando e até contrate mais jardineiros. “Quando entramos havia 21 jardineiros, contando com os terceirizados, e hoje são 17, o que eu acho insuficiente para a manutenção da coleção arbórea e do paisagismo”, completa.
Bolsistas pesquisam flora espontânea no JB
Com as vagas de estágio cortadas pela atual gestão da Fundacão Zoobotânica, os estudantes Júlia Soares e Willian Piovesani estão entre os alunos bolsistas privilegiados por desenvolverem pesquisas no Jardim Botânico.
Os bolsistas desenvolvem projetos de levantamento das espécies de plantas epífitas e trepadeiras espontâneas do JB.
Júlia e Willian realizam pesquisas no próprio Jardim Botânico/Divulgação
Ambos são alunos do curso de bacharelado em Ciências Biológicas da UFRGS. Pesquisam desde janeiro de 2016 e já tiveram oportunidade de apresentar um estudo parcial na Jornada de Iniciação Científica da Fundação Zoobotânica e no Salão de Iniciação Científica da UFRGS.
Levantamento é feito durante todo ano
“Estamos identificando essa flora nas quatro estações do ano para termos um levantamento completo”, diz Júlia, que se formou em licenciatura no fim de 2017. Ela encontrou 40 espécies de epífitas até agora, mas acredita que há muito mais dessas plantas.
Willian constatou um número mais elevado do que esperava de espécies de trepadeiras, 65 até o momento. Ele destaca como um dos desafios do seu trabalho a observação e a coleta dessas plantas que, na maioria das vezes, portam suas folhas, flores e frutos no alto das árvores.
Cenário de incertezas prejudica educação ambiental
Júlia dedicou seu trabalho de conclusão de curso, em licenciatura, no inicio deste ano, à educação ambiental no Jardim Botânico de Porto Alegre e contextualizou as atividades com o cenário de incertezas da Zoobotânica, instituição a qual o JB está vinculado. Ela acompanhou algumas edições do Curso de Formação para Educadores, ministrado pelo engenheiro agrônomo José Fernando Vargas, que foi seu coorientador. A professora Russel Dutra da Rosa, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do RS foi sua orientadora.
A bióloga constatou uma relação indissociável dos jardins botânicos com a educação ambiental, e desta atividade multidisciplinar com a população. E verificou uma queda drástica tanto nas visitas de escolas como da população em geral. Os dados são de 2013 e 2016.

“Em 2013, foram registrados quase 71 mil visitantes e, em 2014, mais de 67 mil, mas a partir da metade de 2015, quando é anunciado o plano de extinção da FZB, a procura caiu para 60 mil visitantes, justamente quando a possibilidade de encerrar a instituição foi anunciada e muitas pessoas passaram a achar que o Jardim Botânico estava fechado”, registra.
O número de visitas escolares ao Jardim Botânico também reduziu diante desse cenário de incertezas. Nos anos de 2013 e 2014, a média de visitas foi de 549 escolas e, em 2016, caiu para 327 agendamentos.
Júlia levantou dados sobre os cursos: de setembro de 2016 a outubro de 2017, ocorreram 11 cursos de botânica aplicada no Jardim Botânico – Cactos e suculentas, Compostagem doméstica, Cultivo de bromélias, Cultivo de orquídeas, Hortas em pequenos espaços e Propagação de plantas -, que disponibilizaram, no total, 335 vagas, das quais 205 foram ocupadas. Nesse mesmo intervalo, ocorreram 10 Cursos de Formação de Educadores, que disponibilizaram 330 vagas, sendo que 100 foram ocupadas. Também foram oferecidas atividades como Ciência na Praça, de divulgação científica e educação ambiental organizado pelo Museu de Ciências Naturais, e o JardinAção, evento que ocorre desde 2007.
Vargas com uma turma do Curso de Formação de Educadores realizado este ano/Mariano Pairet
Para o coordenador da Educação Ambiental do Jardim Botânico, Fernando Vargas, o JB tem potencial para incentivar muito mais atividades, basta ter vontade e disposição para que as iniciativas deem certo. “Temos agenda para oferecermos muitos mais cursos ao ano e outras alternativas”, diz o agrônomo.
Museu tem Ciência na Praça e exposições em escolas
O Museu de Ciências Naturais, da FZB, tem sua própria Seção de Educação Ambiental e Museologia e oferece exposições fixas, itinerantes e atividades como Ciência na Praça e Museu vai à Escola. “A ideia é popularizar e socializar o conhecimento científico”, explica a bióloga Laura Gomes Tavares.
Ideia é popularizar o conhecimento científico, diz bióloga, na entrada do Museu de Ciências Naturais
“O objetivo primordial da Fundação Zoobotânica é a conservação da biodiversidade, e as pesquisas, as coleções, os estudos em laboratórios são fundamentais para o trabalho, então, o papel da educação ambiental é explicar ao público, por exemplo, o que é biodiversidade, mostrar o que é feito na Fundação”, afirma Laura, que é mestre em Zoologia e servidora da FZB há mais de duas décadas.
Laura chama a atenção também para as exposições do Museu de Ciências Naturais, com mostras permanentes, itinerantes e para convidados. “Com o material do acervo, promovemos uma interlocução entre o pesquisador e o público, um diálogo informal que desperta a curiosidade para a importância do meio ambiente e estimula o pensamento crítico dos visitantes, reforçando que esse é um tema multidisciplinar”, ressalta.
Sua colega na Seção de Educação Ambiental e Museologia, Márcia Severo Spadoni, acredita que as atividades têm uma importância muito grande também para os pesquisadores e acadêmicos de biologia e de outros cursos, que levam esse aprendizado por toda a vida profissional.
Márcia (à esquerda) em atividade lúdica na Escola Municipal Porto Novo/Divulgação
“Nossas atividades externas como o projeto Ciência na Praça, que acontece desde 1986 e é direcionado prioritariamente para as escolas públicas, eles saem um pouco do mundo da academia, da pesquisa, e entram em contato com a população, é o momento de passar seu conhecimento, então eles vão experimentar, adaptar, aprimorar, é um aprendizado incrível”, garante.
Márcia ingressou na Fundação Zoobotânica em 1994, como técnica em química. Passou por alguns setores como Ictiologia, Mastozoologia, auxiliou na operação do microscópio eletrônico de varredura e prestou apoio à produção da revista Iheringia. Nesse tempo, formou-se em História, depois fez especialização em Psicopedagogia e mestrado em Ensino de Ciências e Matemática. Passou a trabalhar meio turno na área de educação ambiental, sob a coordenação da bióloga Geneci Britto. A partir do ano de 2000, decidiu dedicar-se exclusivamente às atividades de educação ambiental, ajudando a organizar inclusive feiras e exposições no Litoral Norte gaúcho.
“Através dessas atividades, temos a oportunidade também de dar nossa contribuição social, porque um museu como o nosso, com trabalhos fantásticos, tem um papel fundamental na sociedade e, portanto, tem que ir além das pesquisas e de suas coleções”, completa.Para lider sindical argentino, Brasil vive “aliança entre poder de fato e poder judiciário”
O ato de primeiro de maio em Curitiba foi marcado pela unificação das sete centrais sindicais brasileiras – CUT, CTB, Conlutas, Intersindical, Nova Central, UGT e até a Força Sindical, cuja liderança maior, o deputado Paulinho da Força, apoiou o impeachment da ex-presidente Dilma, sob argumento de ˜acabar com a boquinha PT e PC do B.” O momento político vivido pelo país estimulou ainda outra unificação. As três centrai sindicais argentinas enviaram representantes à capital do Paraná.
As lideranças argentinas fazem uma avaliação bastante dura da realidade política brasileira. Para o secretário para assuntos internacionais da CTA (Central de Trabajadores de la Argentina), Andrés Larisgoitia: “Aqui não se está vivendo a democracia e sim uma aliança entre o poder de fato e o poder Judiciário.” Larisgoitia defende a importância da união dos países da região e cita a importância do Brasil, não somente na América Latina, mas no mundo. A decisão da CTA de enviar representação à Curitiba veio depois que o presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, participou de atos realizados por sindicalistas no país vizinho no final de março.
Em janeiro, Larisgoitia esteve em Porto Alegre para acompanhar o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na segunda instância, no TRF-4. De volta à Argentina, criaram um comitê em solidariedade a Lula com abrangência nacional.
O secretario geral da mais tradicional central sindical argentina, a CGT (Confederación General del Trabajo) manifestou preocupação em relação aos impactos da instabilidade política na economia do Brasil. Juan Carlos Schmid faz uma leitura semelhante da conjuntura política brasileira. Para Schmid, a emergência de “sonhos retrógrados” ameaçam o sistema democrático, que parecia consolidado na região. Ele definiu o momento como “deformação e amordaçamento” do sistema democrático. O dirigente viajou à capital paranaense acompanhado de uma comitiva de vinte trabalhadores filiados à CGT.Hermes Zaneti faz campanha de pré-candidato com discurso anti-Sartori
Em nove encontros regionais, no Rio Grande do Sul, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) discutiu sua estratégia para as próximas eleições.
A alternativa que ainda mobiliza os debates internos é: candidato próprio ou aliança com o PMDB de Sartori?.
Uma votação preliminar indicou empate.
No caso da candidatura própria há um único nome proposto, o do ex-deputado Hermes Zaneti, que tem apoio de importantes setores do partido, mas esbarra numa resistência de caciques que acham mais seguro aspirar a uma vaga no senado à sombra do PMDB, apostando numa vitória de Sartori.
A alternativa que Zaneti oferece é exatamente o oposto. Ele se dispõe a ser candidato para ser o “anti-Sartori”.
Estudioso da dívida pública desde 1988, quando foi constituinte, Zanetti tem “argumentos demolidores” para mostrar que o caminho escolhido por Sartori “é desastroso e não é a única saída para a crise das finanças públicas do Estado”.
Zaneti se tornou conhecido como presidente do Centro dos Professores do Rio Grande do Sul, hoje CPRS Sindicato, em 1979, quando ocorreu a primeira greve dos professores no Estado.
Começou a carreira política no MDB, levado por Pedro Simon, e se elegeu deputado federal no ano em que Simon chegou ao governo, 1986. Como deputado federal, assinou a constituição de 1988, da qual foi um ativo protagonista, na comissão de finanças. Filiou-se ao PSB em 2011.
Zaneti é um opositor temível para Sartori, além do mais, porque divide o eleitorado na região serrana, principal reduto do governador.
Filho de Veranópolis, vizinha da Caxias de Sartori, Hermes Zaneti é autor de uma façanha quase mítica na região: recuperou a Cooperativa Aurora, a maior vinícola brasileira, que ia fechar as portas, soterrada por dívidas depois de gestão fraudulenta.
O PSB adiou a decisão sobre a candidatura própria para um encontro mais perto da convenção, no início de agosto. Até lá provavelmente estará resolvida a questão do Regime de Recuperação Fiscal, o acordo com o governo federal, que é vital para as chances de reeleição de Ivo Sartori.
O setor que quer coligar com o PMDB alega a falta de recursos para a Campanha.
No caso do senado, dois nomes foram aprovados: José Fortunati, que assinou ficha com condição de ser candidato e Beto Albuquerque, candidato natural do partido.
Os dois são candidatos do partido confirmados pela executiva no mês passado. No caso de aliança com o PMDB um deles teria que abrir mão.
Zaneti trabalha como pré- candidato. Viaja pelo interior (nesta quinta, estava em Bagé) levando o livro que escreveu (O Complô) onde argumenta que o problema do Brasil e do Rio Grande do Sul é “um sistema financeiro perverso que estrangula o país, com o garrote da dívida pública”.
Seminário critica falta de investimentos públicos em Ciência e Tecnologia
Ao abrir a quinta mesa do seminário “Desenvolvimento Nacional: Dilemas e Perspectivas”, na noite de quarta, 2 o ex-governador Olívio Dutra leu uma carta publicada por um engenheiro da extinta Ciente no dia 4 de abril, que denunciava o desmonte daquela instituição de pesquisa pelo governo gaúcho e elencava todos os serviços prestados a sociedade pelos seus técnicos.
Olivio foi o mediador do tema “Ciência, Tecnologia, Inovação e Indústria 4.0”, debatido por pesquisadores a UFRGS e da UFRJ e que também teve a presença da pré-candidata do PCdo B a Presidência da República, deputada estadual Manuela D’Ávila.
O ex-presidente da Finep, Luís Fernandes, destacou o impacto da evolução da ciência e da tecnologia no mercado de trabalho.
Ele colocou que a principal diferença entre a primeira e a segunda revolução industrial foi que na primeira a mecanização era principal dinâmica, e que na segunda este processo foi sendo substituído pela crescente incorporação da ciência e da tecnologia.
“Isso levou — e ainda está levando — a uma profunda alteração no mundo do trabalho; o trabalho de baixa qualificação foi sendo marginalizado ou expulso da indústria mais avançada e o foco passou a ser no trabalho altamente qualificado, com elevação na produtividade”, resultando na expansão do setor de serviços.
Ele explicou que nos países capitalistas centrais, esse processo foi acompanhado pelo deslocamento dos centros de pesquisa das universidades e institutos públicos para as empresas privadas. Esse processo, juntamente com o regime de propriedade intelectual que aumentou o monopólio, reforçou assimetria no sistema internacional”.
Segundo ele, essa lógica nos levaria a concluir que a pesquisa seria inviável nos países da periferia. “Mas o fato, no entanto, é que essa não foi a realidade da economia global no pós-guerra. Em primeiro lugar, porque a dinâmica da financeirização afetou e afeta profundamente a dinâmica econômica das economias capitalistas centrais, que se tornaram crescentemente parasitárias”, explicou.
Ele citou como exemplo a China, cujo processo de modernização da economia promovido por Deng Xiaoping no final dos anos 1970, fez com que o país passasse de 4,5% do PIB mundial, no que diz respeito ao poder de compra, para 18% em 2014, ultrapassando os EUA que, naquele ano, ficou com 17%. Este processo, disse Fernandes, contou com “forte promoção estatal da ciência, da tecnologia, da inovação e da educação, uma intervenção estatal com metas e um projeto estruturante”.
Para ele, no Brasil, também é essencial ter um projeto nacional de desenvolvimento no qual a ciência, a tecnologia e a inovação tenham papel central, inclusive para a resolução dos problemas sociais que o país enfrenta. “Temos de produzir riqueza para distribuir riqueza”.
Disse ainda que um dos problemas no país é que a nossa política industrial tecnológica tem convivido com uma política macroeconômica que vai no sentido oposto ao seu desenvolvimento, com altas taxas de juros e câmbio sobrevalorizado. Ele também ressaltou que “precisamos de uma reforma profunda do Estado: o financiamento público é essencial e hoje ele é criminalizado”.
Para Fernandes, os sistemas de controle e parte do Judiciário — que não foram eleitos e que, portanto, não têm legitimidade para definir a política que o país deve trilhar — agem muitas vezes “coagindo e intimidando o Estado” e “incutindo preconceito na ação do Estado” inclusive nesta área, colocando o mercado como única alternativa.
Crime de lesa-pátria
Sérgio Bani, do Instituto de Informática da UFRGS e da SBPC, iniciou sua fala tratando da extinção de fundações públicas do RS promovida pelo governo de José Ivo Sartori, o que representa um retrocesso também na área da pesquisa no estado. “É um crime de lesa-sociedade”, declarou.
“Ciência, tecnologia e inovação devem estar no centro de qualquer projeto de nação, como política de Estado”, disse o professor, citando o Japão e a Coreia do Sul como exemplos. Ele lembrou que estes países investem mais de 3% de seus PIBs nesta área, enquanto no Brasil o índice está em torno de 1%.
Ele se contrapôs ao que chamou de “mantra neoliberal”, segundo o qual a inovação deve partir das empresas e que os benefícios sociais adviriam do setor privado. Ele lembrou que mesmo nos Estados Unidos, o Estado tem papel central na área.
A socióloga Maíra Baumgarten, também da UFRGS, destacou que historicamente as empresas privadas brasileiras não investem em ciência, tecnologia e inovação, preferindo importar esse conhecimento, enquanto os estudos nessas áreas ficam a cargo de empresas públicas e universidades.
Para ela, o investimento nessa área é fundamental para mudar a situação do país, uma vez que a pesquisa científica leva à produção tecnológica, resultando em desenvolvimento econômico e social. “Essa perspectiva relaciona o avanço ou atraso das sociedades ao nível de sofisticação tecnológica que possuem “, explicou. E completou: “no entanto, as tecnologias são construídas socialmente”.
“Para pensar o Brasil, é preciso pensar as carências sociais e perceber que a ciência e a tecnologia podem contribuir para resolver estes problemas. Para isso, é precioso ampliar o conceito de inovação, ciência e tecnologia; ter clareza de que são produtos sociais e como tais, têm de ser pensadas e discutidas socialmente. Neste sentido, é preciso ter comunicação pública para que se possa incluir outras pessoas nesse debate. A sociedade precisa participar”, destacou, enfatizando que este é um dos principais desafios do país, especialmente considerando o momento atual de investimentos decrescentes e desmonte das universidades públicas.
A abertura do evento contou ainda com as presenças do presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS, Miguel do Espírito Santo, e do vice-presidente da Alergs, deputado Juliano Roso.
Na próxima semana, no dia 08/05, acontece a última mesa do seminário, com o tema “Reformas estruturais e direitos sociais”. O evento terá a participação de João Pedro Stédile (MST); Altamiro Borges (Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé); Abigail Pereira (CTB/UBM); Floriano Sá Neto (Presidente da ANFIP) e Berna Menezes (Fundação LauroCaso Teresa Gimenes: nota do Conselho Indigenista denuncia racismo
“No dia 29 de abril de 2018, um grupo de Guarani Mbya da Aldeia
Cantagalo reuniu artefatos – cestos, bichinhos esculpidos em madeira,
pequenos objetos de arte – e seguiu para o Parque Farroupilha (conhecido
como Parque da Redenção), em Porto Alegre/RS, para vender artesanato,
como costuma fazer nos finais de semana.
Teresa Gimenes, seus dois filhos pequenos e um de seus animais de estimação (um macaquinho bugio) seguiram com o grupo e se instalaram em um ponto da feira.
Enquanto vendia os objetos, Teresa foi constrangida por uma mulher,
que também passeava com seu animal de estimação (um cãozinho), e que
considerou absurda a presença de um animal silvestre naquele contexto, junto
às crianças.
De imediato, a referida mulher procurou a Guarda Municipal de
Porto Alegre e fez uma denúncia, alegando que Teresa estaria expondo a
venda um “pequeno animal primata”.
Os agentes da Guarda Municipal dirigiram-se ao local e deram voz de prisão à Teresa, conduzindo-a, juntamente com as crianças e o bichinho, até a Superintendência Regional da Polícia Federal.
Depois de várias horas, foi elaborado um Termo Circunstanciado e encaminhado ao Juiz Federal do Juizado Especial Criminal Federal de Porto Alegre.
Por volta das 16h do domingo, dia 29, com a presença do Cacique da
Comunidade do Cantagalo Werá Jaime e do advogado Henrique de Oliveira,
Teresa foi liberada e pôde regressar para a sua comunidade, mas o
animalzinho de estimação de seus filhos foi apreendido e levado a um abrigo
para posteriormente ser entregue ao IBAMA.
É necessário enfatizar que Teresa
entende muito precariamente a língua portuguesa e suas crianças se
comunicam exclusivamente em Guarani.
Para entender este acontecimento, é importante levar em conta as
formas específicas de pensar e de dar sentido ao mundo dos Guarani Mbya.
No quadro de referências de uma cultura urbana e ocidental, existe clara
distinção entre esferas naturais e sobrenaturais, assim como entre humanos e
animais.
E numa perspectiva antropocêntrica, considera-se que o homem
ocupa uma posição central e privilegiada frente aos outros animais. Contudo,
estas separações entre os mundos – os nossos, os dos animais, os de outros
seres – não são dados objetivos, universais e consensuais para todas as
culturas.
Cada povo indígena dota as coisas do mundo com sentidos
particulares, e produz outras formas de classificar, separar, distinguir, que nem
sempre correspondem àquelas que se convencionou como sendo da
verdadeira ordem do mundo.
Para os Mbyá Guarani, as relações entre pessoas e animais são
cotidianas e rituais – os animais fazem companhia, alegram, dinamizam a vida, e eles também protegem e resguardam, numa dimensão espiritual,
especialmente as crianças.
Por isso, quando crianças transitam nos espaços
urbanos, algumas vezes levam consigo seus animais de estimação e de
proteção – incluindo espécies silvestres.
Aliás, a classificação entre espécies domésticas e silvestres é uma invenção cultural concernente a uma visão ocidental de natureza.
Não se pode, desta forma, tomar como absolutas as distinções entre “tipos” de animais e tipos de ambientes que lhes caberiam “naturalmente”.
Mesmo para nós, essas separações não são absolutas – basta pensar que um macaco bugio em uma feira pareceu absurdo a uma mulher urbana passeando no parque com seu cão, mas um bugio preso em uma jaula, dentro de um zoológico, talvez não lhe soe assim tão estranho.
Numa aldeia Guarani, os animais – aqueles que existem no meio
ambiente, incluindo macacos, papagaios, galinhas, cães, gatos, coatis,
capivaras, pequenos roedores – integram a vida e o cotidiano das crianças e
adultos.
Eles circulam dentro dos espaços das casas, de escolas, de casas de
reza e compartilham frutos e alimentos com as pessoas.
A compreensão de que eles não possam sair para passear fora dos limites da aldeia (imposição de leis de proteção ambiental) é bastante relativa e problemática.
Dependendo, então, do ponto de vista, a presença do pequeno macaco
pode parecer estranha – e, estando à família Guarani em atividade de venda
de artesanato, pode parecer que este animalzinho estaria incluído entre os
objetos de venda (e, desse ponto de vista qualquer pessoa que leva consigo
um cão para uma feira poderia também estar pretendendo vender seu animal).
Contudo, com um olhar diferente, a cena denota simplesmente a presença de
uma família que foi vender artesanato e não quis deixar para trás o animalzinho
de estimação das crianças, seja porque ele ficaria desprotegido se não
estivessem com elas, seja porque as crianças é que ficariam desprotegidas
espiritualmente sem ele.
Este caso revela, de pronto, que o modo de ser dos indígenas não é
reconhecido e respeitado, como estabelece nossa Constituição Federal. Mais
uma vez, os povos indígenas não parecem ser vistos como sujeitos de direitos.
No caso de Teresa, havia uma situação bem específica, já que ela domina
pouco a língua portuguesa, e repentinamente foi abordada e conduzida por
homens que não conhecia.
Teresa não pôde compreender imediatamente os
motivos de sua detenção e, no seu entender, suas crianças e o bugio também
foram agredidos, já que o animalzinho deveria ficar com as crianças e não ser
engaiolado.
Esse acontecimento marca efetivamente que as relações com os
povos indígenas ao longo das décadas se dá de forma truculenta,
desrespeitosa e racista.
A Constituição Federal, em seu Art. 231, estabelece as regras para as
relações entre as culturas, e nela estão perfeitamente esclarecidos que devem
ser reconhecidas as organizações sociais, os costumes, línguas, crenças e
tradições e os direitos originários que os indígenas têm sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer
respeitar todos os seus bens”. O Artigo 232 determina ainda que os índios,
suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo
em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em
todos os atos do processo. Esse artigo impõe que os povos, comunidades
indígenas e todos os seus integrantes sejam tratados e respeitados como
sujeitos de direito.
Além das normas internas o Brasil é signatário da Convenção 169 da
OIT- Organização Internacional do Trabalho – e no seu Artigo 2° determina
que os governos nacionais devem assumir a responsabilidade de desenvolver,
com a participação dos povos interessados, uma ação coordenada e
sistemática com vistas a proteger os direitos desses povos e a garantir o
respeito pela sua integridade.
Essa ação deverá incluir medidas que promovam
a plena efetividade dos direitos sociais, econômicos e culturais desses povos,
respeitando as suas identidades sociais e culturais, os seus costumes e
tradições, e as suas instituições.
O Artigo 4° estabelece que medidas devam
ser adotadas para salvaguardar as pessoas, as instituições, os bens, as
culturas e o meio ambiente dos povos interessados, e que incluem os direitos
de cidadania – tal como o de ir e vir, a liberdade de crença, etc.
Com estas garantias legais, resguardam-se ainda as formas como os
indígenas utilizam os recursos naturais, formas estas que são compatíveis com
seus usos e manejos tradicionais e que são regidas pelas lógicas próprias de
cada comunidade indígena. Conforme menciona a procuradora federal Caroline
Boaventura Santos, citando Luiz Fernando Villares[1]:
Dentro ou fora das terras indígenas, a produção consoante com a
organização social, os costumes e tradições indígenas jamais devem
ser limitados.
A caça, a pesca, a agricultura de subsistência, a
pecuária, o extrativismo e a produção de artesanato não podem
sofrer restrições, pois são amparadas constitucionalmente.
Pode-se inferir, a partir desse argumento, que dentro e fora das aldeias
o trânsito das pessoas e de seus animais de estimação não deveriam ser,
também, constrangidos e limitados.
Fica evidente, pelas normas brasileiras e
internacionais, que os Povos Indígenas podem livremente exercer suas
culturas, seus costumes e tradições e, por conseguinte, se a convivência com
os animais faz parte do modo de ser do povo não compete ao Poder Público
estranhar ou criminalizar estas relações.
Não compete, tampouco, à nossa
sociedade fazer censuras ou impor regras, já que estas já estão expressas na
legislação.
O fato de Teresa ter sido conduzida, com seus dois filhos pequenos pela
Guarda Municipal até a Polícia Federal, revela o despreparo dos agentes e dos
órgãos de segurança, mas fundamentalmente estampa a existência de um
profundo preconceito contra aqueles que têm uma identidade cultural diversa
daquela considerada hegemônica.
Requer-se, diante deste acontecimento, que haja da parte dos órgãos
públicos, especialmente daqueles que exercem função peculiar de
acompanhar, monitorar e fiscalizar os espaços de convivência entre
comerciantes, artesãos, indígenas e outros grupos sociais, tais como as feiras
populares, feiras nas vias públicas, praças e no “Brique da Redenção” o
mínimo de preparo sobre legislação, relações humanas e respeito às
diferenças e diversidades étnicas e culturais.
Pede-se, igualmente, que o animalzinho, o bugio das crianças Guarani Mbya, seja devolvido à comunidade Guarani, uma vez que este faz parte daquele meio de vida, ele integra uma rede de relações sociais particular e longe daquele contexto e de seu habitat está exposto ao risco de morte.
Porto Alegre, 01 de maio de 2018.
Conselho Indigenista Missionário-Regional Sul
Conselho Estadual dos Povos Indígenas/RS
[1]SANTOS, C.M.B. O uso dos recursos naturais pelos índios e a observância
da legislação ambiental. 2014. Disponível
em: http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,o-uso-dos-recursos-naturais-
pelos-indios-e-a-observancia-a-legislacao-ambiental,51439.html
[2]BAPTISTA, Fernando Mathias. LIMA, A. (org.). O direito para o Brasil
socioambiental. São Paulo, Instituto Socioambiental; Porto Alegre,



































