Autor: da Redação

  • Mesmo com cortes federais Emater terá mais recursos em 2018

    GERALDO HASSE

    Marginalizada pelo governo federal, que vem esvaziando a política nacional de assistência técnica e extensão rural à agricultura familiar, a Emater-RS conseguiu um milagre: ampliar seu orçamento de R$ 168 milhões (2017) para R$ 205 milhões (2018).

    Como se explica o aumento de 22% num momento de cortes, contenção e enxugamento de recursos?

    A resposta é de Lino Moura, diretor técnico da Emater-RS: o salto orçamentário deve-se ao governo Sartori, que responde este ano por 70% do custeio das atividades da empresa, presente em todos (menos quatro) municípios gaúchos e tem 2 206 funcionários, 85% deles voltados para a assistência a 218 mil famílias de agricultores familiares, incluindo 5 mil famílias em assentamentos da reforma agrária.

    Dos 30% restantes, 15% vêm de municípios, 10% de receitas próprias (prestação de serviços) e apenas 5% do governo federal, que não disfarça o esforço para reduzir a ajuda técnica estatal aos pequenos agricultores, bem de acordo com o espírito privatista de Michel Temer.

    Ao apostar na Emater, o governo Sartori torna clara sua opção preferencial pela terceirização, que custa menos do que a manutenção de instituições estaduais de estudos e pesquisas como a Fepagro, a FEE e a Fundação Zoobotânica, colocadas há um ano em extinção como medidas de economia.

    A assistência técnica e a extensão rural são atividades fundamentais para que os agricultores – principalmente os mais isolados e menos letrados – assimilem e incorporem os conhecimentos levantados pelos pesquisadores agropecuários em laboratórios e lavouras experimentais.

    Exercidas por agrônomos, assistentes sociais, técnicos agrícolas e veterinários, as duas práticas foram introduzidas no Brasil em 1948 por associações de crédito e assistência rural (ACAR), que atuavam nos estados sob a orientação do Ministério da Agricultura. Nos governos militares, as duas atividades, conhecidas pela sigla ATER, passaram a ser comandadas pela Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater).

    O chamado extensionismo viveu então sua fase áurea até o governo Collor (1990-1992) declarar guerra às estatais. Desde então, a ATER viveu meio à sombra da Embrapa, tornando-se crescentemente dependente de aportes dos governos estaduais e municipais.

    Em maio de 2014, a presidente Dilma Rousseff criou a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), hoje presidida pelo técnico agrícola e advogado mineiro Valmisoney Moreira Jardim.

    Quando Dilma assinou a lei da Anater, o governo divulgou que, no ano seguinte (2015), a agência teria R$ 1 bilhão para aplicar na assistência à agricultura familiar, assentados, pescadores e quilombolas (em 2012 a ATER da agricultura familiar dispôs de R$ 350 milhões).

    Com os profundos cortes orçamentários estabelecidos pelo novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a generosa previsão não se concretizou. A própria Anater teve problemas para se organizar. Em 2016, a situação piorou: com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário, transformado num departamento do Ministério da Agricultura, a ATER dispôs de R$ 200 milhões.

    Em 2017 o orçamento previsto foi de R$ 122,29 milhões mas até meados de dezembro só tinha sido executado o equivalente a R$ 64 milhões.

    No orçamento federal de 2018 a ação de ATER tem uma previsão orçamentária de R$ 133 milhões. Por aí se vê quem está pagando os serviços das Emateres.

    Atualmente, os 27 Estados disponibilizam mais de R$ 2 bilhões para a ATER da agricultura familiar. Os três estados do Sul mais Minas Gerais desembolsam mais de R$ 1 bilhão.

  • Consumidor em férias não deve descuidar de seus direitos

    Marcelo Silveira de Almeida
    É durante o mês de janeiro em curso e fevereiro que muitas pessoas aproveitam para viajar, pois é período que coincide com as férias escolares. Para que o passeio tão desejado não se torne um pesadelo, existem algumas precauções para quem pretende arrumar as malas em busca de diversão e descanso.
    Não importa o destino, mas antes de fechar o pacote turístico o consumidor deve checar qual é a empresa que irá contratar. Para isso, é necessário sempre buscar referência da contratada. Deve ser observado também se ela possui cadastro na Associação Brasileira de Agências de Viagem e na Associação Brasileira das Operadoras de Turismo.
    Quem optar em comprar a viagem via internet deve ficar atento a alguns detalhes. Procurar informações sobre o hotel, verificar se ele está registrado no Cadastro de pessoas físicas e jurídicas que atuam no setor de turismo e em qual a categoria. Ler com cuidado as cláusulas para saber quais são os serviços oferecidos que estão incluídos no pacote (alimentação, city tuor, hotel, entre outros). Caso o consumidor se arrependa, ele terá até sete dias para cancelar o contrato.
    A passagem aérea é um contrato que estipula as obrigações e deveres da companhia e do passageiro. Ao adquirir seu bilhete, observe atentamente se a data, o horário, a validade e o número do voo estão corretos. Em caso de atraso por uma hora, a companhia aérea tem que facilitar a comunicação para o consumidor, tais como: telefone, internet. Com duas horas, alimentação e acomodação digna e a partir das 4 horas tem que fornecer hospedagem. É importante que o consumidor em caso de gastos sempre guarde os comprovantes, pois esses documentos são importantes em caso de reclamação.
    Havendo o cancelamento do voo o passageiro tem direito a devolução da passagem ou acomodação em outro voo (mesmo que não seja da companhia contratante). Caso o atraso traga prejuízos financeiros, ele poderá ser indenizado, tanto por danos materiais quanto morais.
    Outro cuidado que o consumidor deve ter é em relação ao peso da bagagem. Vale lembrar se o passageiro tiver algum dano na mala ele terá até sete dias para registrar a reclamação na companhia aérea, importante também comunicar o dano na ANAC, instalada nos aeroportos.
    Em caso de extravio, o procedimento é realizar um registro ao desembarcar no aeroporto. Segundo as normas, a mala pode ficar extraviada até 30 dias. Depois deste período o consumidor é indenizado.
    Boas Férias.
     
     

  • Santander terá que realizar duas exposições sobre diversidade como pena por cancelar Queermuseu

    O Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul (MPF/RS) fez um acordo com o Santander Cultural para que sejam realizadas duas novas exposições enfatizando temas sobre diferença e diversidade, na ótica dos Direitos Humanos.
    Conforme o MPF, a medida se deu no âmbito da apuração do MPF em relação a eventual lesão à liberdade de expressão artística em decorrência do encerramento antecipado em 30 dias da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, após acusações de grupos conservadores de que as obras faziam apologia à pedofilia, zoofilia e ofendiam símbolos religiosos – o que não foi verificado pelo MPF.
    A partir do termo assinado com o MPF/RS, o Santander Cultural se compromete a patrocinar duas exposições sobre diferença e diversidade, que conjuntamente permanecerão abertas por aproximadamente 120 dias.
    Em uma das novas exposições, o centro cultural abordará a questão da intolerância a partir de quatro eixos centrais: gênero e orientação sexual, étnica e de raça, liberdade de expressão e outras formas de intolerância através dos tempos. Já a outra exposição tratará sobre as formas de empoderamento das mulheres na sociedade contemporânea, assim como a diversidade feminina, incluindo questões culturais, étnicas e de raça, de orientação sexual e de gênero.
    “Ambas as temáticas são altamente relevantes nos dias de hoje”, reforça o procurador regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), Enrico Rodrigues de Freitas. “A intolerância, em especial quanto às questões de gênero e orientação sexual, está diretamente ligada ao encerramento precoce da ‘Queermuseu’, então nada mais coerente do que debatê-la por meio de uma nova exposição. Já a mostra sobre o empoderamento feminino é outra perspectiva da questão de gênero, que igualmente temos que trazer à luz, inclusive sob o prisma da orientação sexual, e por meio do debate buscar evoluir.”
    Caso o acordo não seja cumprido, o Santander Cultural pagará multa de R$ 800 mil – valor sujeito a atualização monetária e juros de mora com base nos critérios adotados pela Justiça Federal

  • Sociólogo demitido diz que Embrapa ainda vive no regime militar

    A demissão do sociólogo Zander Navarro da Secretaria Geral da Embrapa está repercutindo nos meios políticos e acadêmicos
    Ele foi demitido na última segunda-feira, 8, ao que tudo indica, pelo “delito de opinião”.
    A causa teria sido um artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo no dia 5, criticando a forma como vem sendo conduzida a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a Embrapa, uma das instituições públicas mais respeitadas no pais.
    Segundo ele, a Embrapa estaria se afastando das linhas iniciais que motivaram sua criação.
    Zander é professor aposentado da UFRGS, professor em universidades inglesas, autor, junto com Fernando Henrique Cardoso e Gianetti da Fonseca do recente best-seller “Porque somos assim”?
    Sumariamente despedido pelo “crime” de expor suas opiniões, ele se declarou chocado: seus e-mails foram todos cancelados, no dia seguinte, sem maiores explicações.
    Zander trabalhava havia 6 anos nas Embrapa, onde entrou por concurso.
    Octaciano Neto, secretário de Agricultura do Espírito Santo, e Arnaldo Jardim, secretário de Agricultura de São Paulo, estão entre os que se manifestaram amplamente pró-Zander.
    “Fiquei muito surpreso com essa demissão sumária. Imaginava uma suspensão, uma advertência. O direito de opinião, teoricamente, acho que eu tenho, né?”, disse Navarro ao jornal O Globo.
    “A Embrapa se comporta internamente como se ainda estivéssemos no regime militar. Há uma concentração absurda de poder nas mãos do presidente. Ele impõe (as decisões) goela abaixo, inclusive dos outros diretores”, completa.
    Por meio de nota, a Embrapa justificou a demissão do pesquisador afirmando que isso aconteceu “por decisão da Diretoria Executiva, por ignorar sistematicamente os códigos de ética e de conduta da empresa”.
     

  • Salário Mínimo: abaixo da inflação pela segunda vez e o menor aumento em 24 anos

    Com a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), nesta quarta-feira, constata-se que o salário mínimo, fixado no fim do ano, ficou pelo segundo ano consecutivo abaixo da inflação.
    O INPC aumentou 2,07% em 2017. O salário mínimo foi reajustado em 1,81%, com base numa estimativa de dezembro.
    A diferença é aparentemente mínima: 0,26% de perda em relação ao INPC.  No detalhe, vê-se que os prejuízos aos assalariados é significativo, não só pelo valor mas, também, pela tendência que se configura.
    O mínimo, depois do reajuste, passou de R$ 937 para R$ 954. Um aumento de R$ 17 reais.
    Além de ficar abaixo da inflação pela segunda por dois anos consecutivos, foi o menor aumento em 24 anos.
    Fora isso, é preciso considerar que o INPC, que cresceu 2,07% no ano, mede a inflação apenas na faixa dos que ganham de um a cinco salários mínimos, na condição de assalariado. Não é o índice oficial da inflação.
    O índice oficial da inflação é o IPCA, que mede perda do poder aquisitivo da faixas de um a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte de renda.
    E o IPCA, que é a referência para todos os reajustes na economia, cresceu 2.95% em 2017.
    A perda real do salário mínimo seria muito maior.
    Os reajustes menores do que a inflação nos dois últimos anos revelam uma inversão da tendência dos últimos quinze anos, de reajustes sempre acima do índice inflacionário.
    Sinal de que o governo de Michel Temer consagrou a tese de que os salários altos travam a economia e aumentam a inflação.
    Tanto que o destaque no jornal O Globo, carro chefe do maior sistema de comunicação do país, não foi a perda dos salários. Foi que “inflação menor estimula a retomada da economia”.

  • Voz de Luciane Bottona e violão de Tiago Oliveira abre temporada na Pinacoteca

    Para quem está em Porto Alegre, a temporada de shows e acontecimentos culturais está diversificada.
    O início da temporada 2018 do projeto “Clássicos na Pinacoteca” será marcado por um recital de voz e violão no dia 17 de janeiro, quarta-feira.
    No sobrado tombado como patrimônio histórico que abriga a Pinacoteca Ruben Berta, a mezzo-soprano Luciane Bottona e o violonista Tiago Oliveira irão interpretar composições dos espanhóis Isaac Albéniz (1860-1909), Federico García Lorca (1898-1936), Manuell de Falla (1876-1946), Federico Moreno Torroba (1891-1982) e Joaquín Rodrigo (1901-1999).
    SERVIÇO
    Clássicos na Pinacoteca.
    RECITAL DE VOZ E VIOLÃO;
    Com Luciane Bottona (mezzo-soprano) e Tiago Oliveira (violão);
    Local: Pinoteca Ruben Berta. Rua Duque de Caxias, 973 – Centro Histórico – Porto Alegre;
    Data: 17 de janeiro de 2018, quarta-feira, 18h30;
    Ingresso: contribuição espontânea (lotação: 50 lugares).
     
     

  • TRF4 divulga rito do julgamento de Lula

    O julgamento da apelação criminal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e mais seis réus iniciará às 8h30min do dia 24/1, na sala de sessão da 8ª Turma, na sede do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre. O processo será o único julgado nesta sessão, a primeira da 8ª Turma em 2018.
    Os juízes avaliarão os recursos das defesas que envolvem o favorecimento da Construtora OAS em contratos com a Petrobras, com o pagamento de propina destinada ao Partido dos Trabalhadores e ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, por meio do apartamento triplex do Guarujá e do depósito do acervo presidencial. Os réus respondem por atos de corrupções ativa e passiva e de lavagem de dinheiro. Esta será a 24ª apelação julgada pelo TRF4 contra sentenças proferidas em ações oriundas da Operação Lava Jato.
    Além de Lula (condenado no primeiro grau a 9 anos e 6 meses pelo juiz Sérgio Moro), recorreram contra a sentença o ex-presidente da OAS, José Aldemario Pinheiro Filho (condenado em primeira instância a 10 anos e 8 meses), o ex-diretor da área internacional da OAS, Agenor Franklin Magalhães Medeiros (condenado a 6 anos), e o ex-presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto (absolvido em primeira instância, mas requer troca dos fundamentos da sentença).
    O Ministério Público Federal ainda recorreu contra a absolvição em primeira instância de três executivos da OAS: Paulo Roberto Valente Gordilho, Roberto Moreira Ferreira e Fábio Hori Yonamine.
    A sessão começa com a abertura do presidente da 8ª Turma, desembargador federal Leandro Paulsen.  Após, o relator, desembargador federal João Pedro Gebran Neto, faz a leitura do relatório do processo. Em seguida, ocorre a manifestação do MPF que terá o tempo de 30 minutos.
    Depois, se pronunciam os advogados de defesa, com tempo máximo de 15 minutos cada réu. Ao todo será disponibilizada uma hora para o conjunto das sustentações orais das defesas.
    A seguir, Gebran lê o seu voto e passa a palavra para o revisor, desembargador Leandro Paulsen, que profere o voto e é seguido pela leitura de voto do desembargador federal Victor Luiz dos Santos Laus.
    Paulsen, que é o presidente da turma, proclama o resultado. Pode haver pedido de vista. Neste caso, o processo será decidido em sessão futura, trazido em mesa pelo magistrado que fez o pedido.
    Caso confirmada a condenação, a determinação de execução provisória da pena pelo TRF4 só ocorrerá após o julgamento de todos os recursos do segundo grau.
    Os recursos possíveis são os embargos de declaração, utilizados pela parte com pedido de esclarecimento da decisão, e os embargos infringentes. Este último só pode ser pedido quando a decisão for por maioria e tenha prevalecido o voto mais gravoso ao réu. Por meio deste recurso o réu pode pedir a prevalência do voto mais favorável. Os embargos infringentes são julgados pela 4ª Seção do TRF4, formada pelas 7ª e 8ª Turmas, especializadas em Direito Penal, e presidida pela vice-presidente da corte.

  • Com recorde nos embarques de soja, exportações do agronegócio gaúcho registram aumento de 3,4% em 2017

    2017 foi o ano com maior volume de soja em grão exportado pelo Rio Grande do Sul, desde o início da série histórica em 2007, totalizando 12 milhões de toneladas.
    Com esse recorde, as exportações do agronegócio gaúcho registraram alta de  3,4%, devido ao aumento no volume embarcado (9,9%) e queda nos preços médios (-6,0%), totalizando US$ 11,4 bilhões.
    O complexo soja (US$ 5,5 bilhões) liderou o ranking de setores mais importantes para as exportações do agronegócio gaúcho em 2017, seguido por carnes (US$ 2,0 bilhões), fumo e seus produtos (US$ 1,6 bilhão), produtos florestais (US$ 596,9 milhões) e cereais, farinhas e preparações (US$ 386,9 milhões).
    Comparativamente ao ano de 2016, a soja foi o setor que apresentou o maior crescimento absoluto no valor exportado (mais US$ 625,1 milhões, 12,9%). O incremento de 23,6% no volume das vendas externas de soja em grão foi o principal responsável por esse desempenho.
    Os setores com queda no valor exportado no ano passado são produtos florestais (menos US$ 182,0 milhões, -23,4%), máquinas e implementos agrícolas (menos US$ 155,4 milhões, -61,7%) e couros e peleteria (menos US$ 55,5 milhões, -12,9%).
    Os principais destinos das vendas gaúchas do agronegócio para o exterior foram China (44,9%), União Europeia (14,1%), Rússia (3,3%), Estados Unidos (3,2%) e Coreia do Sul (2,5%). Esses destinos concentraram 68,1% das exportações do período.

  • A Unidade como ponto de partida

    Roberto Amaral
    Sempre que o debate político – chamado pela realidade – se volta para a discussão sobre a unidade (como necessidade) das esquerdas, torna-se relevante, e até mesmo pedagógico, revisitar experiências como as de 1954 e 1955. Elas precisam ser lembradas como lições e advertências aos que desconhecem nossa história recente, e, ignorando-a, tendem a repetir os erros passados.
    Em 1954 – primeira etapa do golpe que se consolidaria em 1964 com a ditadura militar – as esquerdas se deram ao luxo de se dividir na defesa x denúncia de Getúlio Vargas, envolvidas, lamentavelmente não pela última vez, pelo discurso moralista articulado pela direita para dar justificativa à deposição do presidente.
    O Partido Comunista, liderado por Luís Carlos Prestes, então carente de visão estratégica, associou-se ao udenismo e ao lacerdismo, ao que havia de pior na imprensa brasileira (Diários Associados e O Globo) e às forças militares golpistas (nomeadamente Eduardo Gomes, Juarez Távora e Pena Boto) no pleito da renúncia do presidente.
    Uma vez mais tomava-se a aparência pela realidade, e, em nome do combate a uma corrupção jamais demonstrada, os pecebistas associaram-se na operação de desmonte de um governo nacionalista, comprometido com o trabalhismo e o desenvolvimento nacional.  Assim facilitaram o golpe que se consumaria na posse de Café Filho, e na ascensão, dentre outros, de Eugenio Gudin (que combatia a industrialização do país) ao Ministério da Fazenda, além de Raul Fernandes (que entendia que o Brasil deveria ser uma ‘província’ dos EUA), antecipando-se em tantas dezenas de anos ao atual chefe do Itamaraty.
    No dia do suicídio de Vargas, sem lideranças, as grandes massas saíram às ruas para prantear o presidente morto, e, em sua rebeldia tardia, incendiaram viaturas de O Globo e depredaram as dependências da Voz Operária, jornal do PCB, que, na véspera, circulara encimado por uma manchete de letras garrafais acusando Getúlio Vargas de “lacaio do imperialismo”, imperialismo que sabidamente estava por atrás de todas as conjurações golpistas.
    Nada mais simbólico, mas igualmente denotativo do fracasso de nossas lideranças.
    Em 1955, as esquerdas, que já se haviam unificado no processo eleitoral, ampliam sua unidade e atraem setores liberais na frente ampla que defenderia a legalidade, e asseguraria a eleição de Juscelino Kubistcheck e João Goulart, e ainda desmontariam o segundo golpe da direita civil-militar, que visava a impedir sua posse.
    Na primeira fila dos que conosco defendiam a legalidade (e por força dela a posse dos eleitos) estava, entre outros, o líder católico, conservador, Sobral Pinto, que voltaria aos nossos palanques quando, novamente unidos, construímos a Frente ampla pelas Diretas-jáque implodiria o colégio eleitoral montado pela ditadura para nomear seu delfim e, rebelado, elegeria Tancredo Neves.
    Desaprendemos?
    O 24 de janeiro que se aproxima para nós como um desafio é uma etapa, importantíssima, na luta das forças populares contra o governo entreguista e as ameaças crescentes ao processo eleitoral democrático. Por óbvio todos os democratas estarão envolvidos na mobilização popular que visa a expressar a vontade majoritária do povo brasileiro e impedir a usurpação anunciada.
    Uma etapa, importantíssima, mas que não encerrará a luta toda. Pode ser, até, apenas um ponto de partida. Para enfrentar o farisaico julgamento político de Lula, quando três juízes podem ditar a sentence redigida pelas forças antipopulares, e as demais ameaças que já estão em laboratório, o primeiro passo é a unidade política das esquerdas, o que não implica necessariamente aliança eleitoral, mas compromissos estratégicos, conditio sine qua non para a formação de uma grande e ampla aliança nacional em defesa da democracia, do desenvolvimento e da soberania nacional.
    A esquerdas desunidas fazem a festa da direita; unidas mas isoladas, não terão forças para derrogar o projeto da direita; unificadas em torno de objetivos concretos que não se limitam a eventuais alianças eleitorais, poderão ampliar suas forças para além de seu campo. O caminho óbvio é este: concertar o discurso, adotar um programa mínimo de ação claro e exequível, ampliar sua composição e suas perspectivas de lutas, de sorte a conquistar setores ainda refratários, dialogar com a classe média e liderar os trabalhadores. É preciso conquistar novas forças para vencer nossos adversaries, que jamais estiveram (nem mesmo em 1964) tão unidos como presentemente.
    De novo o risco de tomar as aparências como a realidade: é uma extrema tolice confundir a proliferação (tática) de pré-candidaturas reacionárias como divisão da direita. Há algum cisma entre o capital financeiro nacional e internacional, a CNI e a Fiesp, o império midiático, a reação parlamentar, o poder judiciário, a Polícia Federal, o Ministério Público e seus salvacionistas?
    Nada disso, porém, deve soar como convite à retomada da política de conciliação que limitou os avanços dos governos Lula e levou ao colapso do governo Dilma. A frente de agora tem um objetivo imediato e concreto: impedir o avanço do programado ataque à democracia.
    A primeira tarefa é óbvia, a luta por assegurar eleições limpas e livres de golpes de mão, e a primeira condição é a presença de Lula na disputa. É inadmissível aceitar que três togas substituam o povo brasileiro, representado por um colégio de mais de 140 milhões de leitores. Isso é inadmissível, como é inaceitável qualquer alteração relativa às atribuições do Executivo e às competências do presidente da Republica.
    “Presidencialismo mitigado” ou “parlamentarismo à Alemanha” seriam apenas mais um golpe contra as regras constitucionais e a vontade popular que em dois plebiscitos rejeitou o regime de gabinete. É preciso explicar às grandes massas que o enfrentamento ao golpe em processo continuado e ao seu projeto antipopular depende da força da democracia, e que as forças sociais é que são seu sustentáculo.
    Vencida essa travessia, estará à nossa frente a via eleitoral e a exigência histórica de um candidato com força suficiente para estancar o desmonte da economia nacional, reconciliar a nação e retomar o desenvolvimento, o que implica, necessariamente, a revogação das principais medidas recessivas e antipopulares do regime ilegítimo.
    Ou seja: nosso candidato precisará ganhar em condições de governar.
    As forças não petistas, partidárias ou não, muito contribuirão para o avanço coletivo na medida em que entenderem, e não lhes resta muito tempo, que o que está em jogo, correndo risco de vida, não é nem o PT nem Lula, mas o processo democrático, sem o qual dificilmente avançarão os interesses populares, ou sobreviverá o movimento sindical, ou as forças populares e os movimentos sociais de um modo geral. E essa aglutinação de forças é que decidirá o rumo que tomará a História.
    Nossas organizações e suas lideranças deverão entender que ninguém e nenhum força de nosso campo avançará sobre eventuais despojos do PT e de Lula, e que é ainda muito cedo, qualquer que seja o resultado do julgamento de 24 de janeiro, para falar no ‘pós-Lula’ (uma utopia dos ‘cientistas’ do sistema), pois sua liderança – e eis uma das poucas evidências que podemos colher do cenário de nossos dias — permanecerá ativa enquanto houver pobres e desamparados neste País.
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    O guerreiro que se despede – Havendo dedicado sua vida à luta contra a tragédia social, Pedro Porfírio foi finalmente derrotado pela tragédia biológica, e deixa mais um grande vazio  entre os lutadores pela democracia e o socialismo. Conheci-o ainda adolescente, mas já líder estudantil e de esquerda, nos idos dos anos 60, atuando em Fortaleza. Cedo, como muitos de sua geração, migrou para a cidade grande onde cumpriu uma longa carreira como jornalista e escritor e político, trabalhista à moda Pasqualini, e amigo de Leonel Brizola, com quem conviveu e cuja memória reverenciou.
    Pelo PDT foi vereador do Rio de Janeiro. Jamais ensarilharia as armas. Quando não mais lhe foi permitido atuar nas redações (já doente, porém, ousou disputar eleições) transformou seu computador em sua arma de guerra e através de seu blog e em seu ‘exílio doméstico’, como chamava sua dacha em Vargem Grande, manteve-se na trincheira da luta, animando-nos, encorajando-nos, mantendo-nos de pé com seu exemplo edificante.
    Há passos que passam e pegadas que ficam, como raízes fundas e firmes, diz-nos o Pe. Vieira em seu sermão da Primeira Dominga do Advento. As pegadas de Porfírio permanecerão.

  • Alimentos fazem inflação oficial ter a menor taxa em 19 anos, de 2,95%

    O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país, fechou em 2017 com alta acumulada de 2,95%, resultado 3,34 pontos percentuais inferiores aos 6,29% de 2016. É o menor número desde a taxa de 1998 quando ficou em 1,65%.
    Os dados foram divulgados nesta quarta-feira, 10/01, no Rio de Janeiro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e indicam que, em dezembro, o IPCA fechou em 0,44%, ficando 0,16 ponto percentual acima do resultado de novembro (0,28%). Essa foi a maior variação mensal de 2017. Em 2016, o IPCA de dezembro atingiu 0,3%.
    Alimentação consumida em casa influencia índice
    Dos nove grupos que compõem o IPCA, o setor de Alimentação e Bebidas foi o que mais contribuiu para conter a inflação. Responsável por cerca de 25% das despesas das famílias, o grupo acusou queda acumulada (deflação) de 1,87%.
    O resultado decorreu da redução de 4,85% no preço dos alimentos consumidos em casa, com destaque para as frutas (-16,52%), que tiveram o maior impacto negativo (-0,19 ponto percentual).
    Segundo o gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor do IBGE, Fernando Gonçalves, a deflação dos alimentos foi consequência da produção agrícola, que teve uma safra cerca de 30% maior que a de 2016.
    Essa situação levou o consumidor a pagar mais barato (-1,87%) do que no ano anterior. É a primeira vez que o grupo apresenta deflação desde a implantação do Plano Real”, disse.
    Índice abaixo da meta
    A inflação de 2017 de 2,95% ficou abaixo do piso inferior da meta fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que era de 4,5% (com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos).
    Para 2017, o governo havia fixado uma meta inflacionária de 4,5%, com possibilidade de variação de 1,5% para cima ou para baixo, ou seja, entre 3% e 6%.
    Em dezembro o IPCA fechou com alta de 0,44%, a maior variação mensal do ano e um resultado 0,16 ponto percentual acima do 0,28% de novembro. Em 2016, o IPCA fechou dezembro com alta de 0,3%.
    A alta do último mês do ano foi influenciada pela aceleração na taxa dos grupos Alimentação e Bebidas, que passou de uma deflação de 0,38% em novembro para 0,54%; e Transportes (de 0,52% para 1,23%).