Autor: Elmar Bones

  • Convívio forçado no Moinhos

    Alexandre Lucchese e Paula Bianchi
    “Não dá pra deixar aquele mendigo deitado ali!”, reclama um freqüentador do Parcão ao guarda-parque Luiz Antônio Rodrigues, apontando um senhor que dorme no gramado. Queixas como essa se tornaram comuns e aumentam proporcionalmente com o número de habitantes de calçadas do Moinhos de Vento.
    Além do parque, é comum ver gente pedindo esmola ou dormindo na calçada em frente ao muro do Grêmio Náutico União que dá para a 24 de Outubro. O Morro Ricaldone e outras áreas verdes também foram escolhidos por essa população.
    “Aumentou, mas não só aqui. É um problema das cidades “, observa o presidente da Associação Moinhos Vive, Raul Agostini, que presenciou a multiplicação de moradores nas esquinas do bairro.
    Viver nas ruas do Moinhos de Vento aumenta a possibilidade de conseguir materiais recicláveis, fonte de subsistência de muitos deles. “É próximo ao Centro, onde o lixo é vendido”, completa um senhor de meia idade, que recolhe latas no parque.
    O bairro também é perto do Albergue Municipal e de outros abrigos públicos. Não tão decisivo, mas também importante, é o fato de que a classe alta que circula no bairro significa maior facilidade de conseguir esmolas.
    Os sem-teto provocam insegurança nos demais moradores. São poucos os que agüentam a realidade da rua livres de drogas ou álcool em excesso e é comum deixarem para trás utensílios sem uso e muito lixo.
    Por isso despertam hostilidade da população, que evita passar pelos lugares com medo de assaltos, ataques ou para desviar-se do incômodo de testemunhar a situação. Muitos preferem chamar a Brigada Militar. Como medida definitiva, pedem o cercamento de áreas como o Morro Ricaldone, que teve o acesso fechado em 2006. A próxima será a praça Atos Damaceno Ferreira, no final das ruas Quintino Bocaiúva e Coronel Bordini. A iniciativa é dos lojistas em atenção aos moradores, que reclamam da bagunça noturna.
    Versões distintas sobre atuação da Brigada
    Periodicamente a Brigada Militar recolhe os sem-teto. “A relação é péssima”, revela um morador de rua. Ele garante que, ao contrário do que afirma a corporação, não há qualquer atividade construtiva depois das abordagens. “A gente fica lá, sentado, olhando um para a cara do outro e vendo os brigadianos tomar café”.
    A ação matinal impede que os grupos se organizem para almoçar. “Passamos o dia inteiro em jejum”, revela o homem. Além disso, a saída só é permitida no fim da tarde, quando não há mais tempo de chegar aos albergues. “Deixando sem almoço e sem cama, acham que vão espantar a gente da rua”, conclui.
    A reportagem do JÁ Bom Fim/Moinhos presenciou a prisão de um foragido. Algemado, ele foi conduzido aos gritos para a viatura enquanto um policial o ameaçava com um pedaço de madeira. Comandante da 3ª Cia, que policia o Moinhos de Vento, o Major Medina admite a necessidade de um tratamento duro. “Sem-teto virou assunto de polícia, pois os órgãos de assistência social não têm a autoridade da BM”, argumenta.
    Para não se confrontar com a Brigada, mudam de local a cada pernoite. “São sazonais”, classifica um Guarda Municipal. Caso de Claudir Silveira, de 71 anos, que migra pelo bairro há trinta anos.
    Com ou sem praça, Mata Bacelar já tem morador
    Enquanto a Prefeitura não decide o futuro da rua Mata Bacelar, o lugar está sendo habitado por José Carlos da Rosa, flanelinha da praça Atos Damasceno Ferreira. “Estou aqui desde janeiro”, conta. A pequena casa de compensado é um luxo para o ex-servente de pedreiro, que a herdou depois que os operários concluíram o Conduto Forçado. “Eu cuidava das máquinas e dos carros dos engenheiros e me convidaram para ficar”, relata.
    O relacionamento com os vizinhos é bom. “Estão me ajudando na aposentadoria”. O pedido já foi solicitado e em junho ele deve receber o primeiro salário por invalidez.
    “Sabemos quem ele é e não temos medo”, avalia o presidente da Associação dos Moradores da Auxiliadora (AMA), João Violino Corrêa. Mas a associação e a ONG União pela Vida solicitam uma audiência com a Prefeitura para resolver a situação da rua.
    Essa reportagem é um dos destaques da edição 384 do jornal JÁ Bom Fim/Moinhos. A publicação é quinzenal e circula gratuitamente nos 10 bairros da área central de Porto Alegre.

  • Lair Ferst desafia provarem que foi arrecadador da campanha de Yeda

    Cleber Dioni
    O depoimento do empresário Lair Ferst à CPI do Detran, ontem, na Assembléia Legislativa, um dos mais esperados até agora, iniciou às 17h50, com duras críticas de deputados às declarações da defesa de Lair, de que as sessões que se estendiam por mais de quatro horas se tornaram sessões de tortura aos depoentes.
    Acompanhado de dois advogados, Lair negou que tenha participado da arrecadação de recursos para a campanha de Yeda Crusius ao governo do Estado e que tenha feito qualquer doação à governadora. “Não fui coordenador nem participei de nenhuma atividade na campanha da governadora. Desafio que alguém prove que eu pedi algum recurso para o PSDB. Não tinha intimidade nem proximidade com a governadora. Eu não era da cúpula do diretório do PSDB. Apenas atuei como militante ativo, o que fiz em todos os partidos dos quais fui filiado”, afirmou.
    O suposto lobista indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público Federal à Justiça Federal de Santa Maria negou também que seja dono das empresas Newmark e Rio del Sur, registradas em nome das suas irmãs e de um cunhado, ressaltando que apenas sugeriu a participação das empresas nos serviços prestados pela Fatec ao Detran. “Tenho a convicção que não cometi nenhum crime ou irregularidade. Lá na PF e MPF indícios já são suficientes para indiciar alguém, mas provarei que sou inocente durante o processo na Justiça. Ele afirmou ainda que não possui conta no Exterior.
    Poucas horas antes de depor, Lair Ferst concedeu entrevistas a rádios e jornais. Reiterou que não considera que teve papel importante na campanha de Yeda Crusius para o governo e disse que foi flagrado por um fotógrafo como militante ativo do partido, durante uma passeata de rua em São Leopoldo. Sobre suas relações com Carlos Ubiratan dos Santos, ex-diretor do Detran, e também denunciado pelo MPF, disse que é um amigo de mais de 30 anos, desde a vida estudantil.
    Fundação Carlos Chagas terceirizava
    Lair acusou a Fundação Carlos Chagas de terceirizar mão-de-obra e também o próprio objeto do contrato, “coisa que a Fatec não fez”, garantiu. Segundo ele, o sigilo dos exames era responsabilidade do contratado. Ferst entregou aos deputados documentação que, segundo ele, comprovaria esse fato.
    Ele disse que funcionários da WG Sistema de Informática se apresentavam como funcionários da Fundação e que o dono da empresa, Agnaldo Moreira, era coordenador do projeto no Detran. “A Carlos Chagas emprestava o nome e a folha de pagamento. O presidente da Fundação (Rubens Murillo Marques, que depôs na CPI no dia 31 de março) prestou depoimento falso”. Para Ferst, os fatos revelados poderão resultar na anulação de todos os exames feitos na época.
    Convocação de Martini é rejeitada
    Dos 14 requerimentos votados ontem no início da sessão, apenas dois foram aprovados, o encaminhamento para votação em plenário da prorrogação dos trabalhos da CPI por mais 30 dias, e a convocação de Alexandre Dornelles Barrios, denunciado pelo MPF.
    A convocação do secretário-geral do Governo, Delson Luiz Martini, foi rejeitado, assim como do delegado da Polícia Civil, João Carlos Weber, ex-corregedor do Detran; de Wilson Cignachi, ex-diretor da CEEE; de Leonardo Fardim Elesbão, ex-diretor de Contratos do Detran; e de Carlos Dirnei Fogaça Maidana, todos citados pelo deputado federal Enio Bacci, ex-secretário da Segurança, em seu depoimento à CPI. O requerimento para convocar o vice-governador Paulo Afonso Feijó foi retirado da pauta.
    Foram rejeitados ainda os requerimentos que solicitavam a quebra do sigilo bancário de Leonardo Fardin Elesbão, a partir de 2003 e o fornecimento pelo Governo do Estado de cópias de todos os contratos de prestação de serviços em vigor ou encerrados, mantidos a partir do ano de 2003 pelos órgãos públicos com fundações públicas e privadas, e com as empresas Pensant Consultores Ltda., Sarkis Engenharia Estrutural, Rio Del Sur, Newmark Tecnologia, NT Pereira, Doctus, Carlos Rosa Advogados Associados, Fadel Advogados, Nachtigall Advogados Associados, IGPL Inteligência e Gestão Pública, Höehr e Cioccari Advogados, PAKT e MD Serviços de Segurança.
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  • Seu Geraldo veio pra Ficar

    Naira Hofmeister e Helen Lopes
    O negócio de seu Geraldo vai de vento em popa. Todos os domingos, entre 10h e 18h – dependendo do movimento – o pátio do casarão na esquina das avenidas João Pessoa e Venâncio Aires fica tomado de carros. Cada hora de estacionamento custa R$ 5,00 e a rotatividade é grande. “São 25 automóveis por vez”, anota.
    O resto dos dias não vale a pena abrir. “Nem mesmo aos sábados”, observa. Mas se ele sair durante a semana, os marginais tomam conta do local. Por isso, decidiu viver no andar superior da casa, onde montou um pequeno quarto com sofá, colchão no chão e uma mesinha de madeira para fazer as refeições. “É o único lugar onde não entra água quando chove”, descreve. O filho de 16 anos, que sonha em ser jogador de futebol, lhe faz companhia.
    É obrigatório guardar um facão para se proteger, já que as ameaças são constantes. “Botei fora uma dúzia de colchões dos antigos moradores”, ilustra. Os traficantes, que habitavam o pátio e incomodavam os vizinhos, voltam com freqüência. “Não tenho medo, pois a Brigada também está do meu lado”, acredita.
    Preocupado com a segurança, ele pediu um cão de guarda ao um amigo. “Veio isso daí”, lamenta, apontando um filhote de vira-lata que mede menos de 30 cm. Mesmo assim, alimenta o animal e torce para ele crescer depressa.
    Governo do Estado quer “lacrar” casarão
    Dois meses após anunciar que “em breve” daria uso ao casarão, o governo do Estado não sabe o que fazer com o prédio. Contatado inúmeras vezes, o secretário adjunto da Administração e Recursos Humanos (Sarh), Alfredo Scherer Neto, não pôde falar e mandou dizer, através da assessoria de imprensa, que estuda propostas com as secretarias de Justiça e da Cultura. Informou também que a ocupação é “responsabilidade da Brigada Militar”. Um dia depois, voltou atrás e informou que irá lacrar o local e deslocar um segurança terceirizado do Centro Administrativo para tomar conta do casarão.
    Essa reportagem é um dos destaques da edição 384 do jornal JÁ Bom Fim/Moinhos. A publicação é quinzenal e circula gratuitamente nos 10 bairros da área central de Porto Alegre.

  • Lair Ferst foi avalista de comitê de Yeda

    Cleber Dioni
    Lair Ferst, um dos indiciados pela Polícia Federal na Operação Rodin, foi uma das duas testemunhas que assinou no dia 28 de julho de 2006 o contrato de locação de um imóvel na avenida Farrapos que serviu de comitê eleitoral da então candidata pelo PSDB Yeda Crusius, cujo valor foi de R$ 5 mil mensais. Essa foi uma das informações dadas ontem pelo presidente da CPI do Detran, deputado Fabiano Pereira (PT), sobre a análise parcial dos documentos bancários de alguns dos indicados pela Polícia Federal, que tiveram o sigilo quebrado pela Justiça.
    Pereira disse que essas informações provam que Ferst participou ativamente da campanha da atual governadora. “Ele não era um simples militante”, disse. Os deputados que integram a Comissão identificaram ainda a compra de imóveis em Porto Alegre e Gramado por empresas ligadas a Lair Ferst cuja soma chegaria a R$ 2,8 milhões. E também grandes movimentações financeiras em outros países de pessoas e empresas envolvidas.
    Queda de braço
    O motivo que levou o parlamentar a divulgar os dados é a queda de braço que os deputados disputam hoje para a prorrogação ou não da CPI do Detran. Os integrantes realizam reunião pela manhã para definir se irão adotar um novo cronograma para os próximos depoimentos ou encaminhar à votação em plenário da Assembléia a proposta de estender o Inquérito Parlamentar.
    Fabiano Pereira, seu vice na CPI, Paulo Azeredo (PDT) e os demais parlamentares da oposição querem estender a Comissão por mais 60 dias, até dia 5 de agosto, prazo limite de funcionamento do Inquérito Parlamentar.
    Os deputados da base governista querem realizar sete sessões extraordinárias, além das que são feitas às segundas-feiras, para evitar a prorrogação dos trabalhos, cujo prazo de conclusão termina no dia 6 de junho. O calendário dos depoimentos seria estendido para os dias 20, 21, 23, 27, 28, 29 e 30 deste mês. Seriam ouvidas quatro testemunhas por dia, em média, totalizando 29, mais uma acareação entre Silvestre Selhorst, Luiz Carlos Pellegrini e Francisco de Oliveira Fraga, ambos indiciados na Operação Rodin.
    “Contemplamos todos os depoimentos já aprovados. Além disso, as convocações obedecem critérios de compatibilidade entre os depoentes, de modo a impedir que testemunhas dispostas em fatos afins possam saber antecipadamente dos depoimentos das outras”, explica o relator Adilson Troca (PSDB).

    Carlos Rosa fala hoje à tarde

    Estão previstos três depoimentos hoje, de Carlos Dahlem da Rosa, da Carlos Rosa Advogados Associados, Ipojucan Seffrin Custódio e Mario Jaime Gomes de Lima. Para Fabiano Pereira, “Carlos Rosa irá ajudar a montar o quebra-cabeça sobre os envolvimentos e as decisões tomadas à época”.
    Na próxima segunda-feira estão previstas as oitivas de Lair Ferst, Elci Terezinha Ferst e Rosana Ferst. O deputado Gilmar Sossella (PDT) convidou o deputado federal Enio Bacci (PDT) para prestar depoimento à CPI. Bacci foi o primeiro titular da pasta da Segurança no atual governo do Estado.
    Se aprovada a nova agenda, ele falaria somente no dia 30. Já o depoimento do superintendente da Polícia Federal, delegado Ildo Gasparetto, aconteceria no dia 26.
    Fenaseg vai prestar esclarecimentos
    Na última sessão, dia 12, foi aprovado o requerimento que solicita a convocação do presidente da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg), João Elisio Ferraz de Campos. Para Azeredo, é um depoimento indispensável para a compreensão dos repasses financeiros da Fenaseg ao Detran/RS. “A Fenaseg como foi dito na CPI, seria o caixa-rápido do Detran, ma poderosa fonte de recursos que não são contabilizados pela autarquia”, justificou.
    Azeredo lembrou as denúncias recebidas pela CPI sobre a utilização indevida dos recursos da Fenaseg com o envio de notas frias e, ainda, para pagamento de outras despesas orçamentárias próprias da autarquia, como o aluguel de três automóveis Vectras por R$ 9 mil mensais cada um e o pagamento do estande na Expointer por R$ 190 mil.
    Em visita ao Detran, na semana passada, Azeredo foi informado da solicitação da vinda dos recursos da Fenaseg para o caixa da autarquia. Em 2008, até março, os recursos eram de R$ 1,163 milhões.
    A frota do Estado é de 3,5 milhões, e todos esses veículos recolhem as taxas do seguro obrigatório DPVAT e SNG. Por lei federal, 1% desse valor arrecadado fica retido na Fenaseg para aplicação, segundo contrato estabelecido com essa federação, em projetos que visam o reaparelhamento das delegacias de combate ao crime de trânsito e em campanhas contra acidentes. Ao ano, então, os recursos oriundos da Federação ficam em torno de R$ 6 milhões a R$ 8 milhões e, como os valores não são contabilizados pelo Detran, não se sabe onde esses valores são aplicados.
    Para a liberação destes recursos, basta a aprovação de um projeto pelo presidente do Detran, que valida e autoriza à Fenaseg o repasse de recursos direto para a conta do contratado, por isso não passa pela contabilidade da autarquia.
    Ainda repercute depoimento do ex-secretário de Segurança
    Para o relator da comissão, deputado Adilson Troca (PSDB), o depoimento à Comissão por mais de sete horas do deputado federal José Otávio Germano (PP), ex-secretário da Segurança Pública no governo Rigotto, não trouxe muitos esclarecimentos.
    “Até por ter sido um depoimento diferente dos outros. Ele não era um indiciado, veio como ex-secretário e disse que desconhecia os fatos relatados porque o Detran tinha vida própria e os responsáveis eram os diretores da autarquia na época”, declarou.
    “Ele disse também que não usou nenhum dinheiro de campanha de empresa terceirizada e que poderia garantir a isenção de duas pessoas: dele e do ex-governador Germano Rigotto”.
    Para o deputado Fabiano Pereira (PT), o depoimento deixou dúvidas, principalmente sobre a participação de Germano na celebração do contrato do Detran com a Fatec e a sua relação com o advogado Carlos Rosa. “São questões que precisam ser aprofundadas”. Pereira ressaltou que não vê impossibilidade de a CPI ter acesso às informações bancárias e fiscais de José Otávio Germano para comprovar a inocência do ex-secretário.

  • Os 58 anos do Clube de Cultura

    Naira Hofmeister e Alexandre Luchese

    O palco que já abrigou debates com Jorge Amado, Graciliano Ramos, Fernanda Montenegro e Vinícius de Moraes, e que serviu às experimentações de jovens de artistas porto-alegrenses – como o diretor Luciano Alabarse e os músicos da Bixo da Seda – está desativado desde 2006. “Não temos previsão de reabertura”, lamenta Hans Baumann, presidente do Clube de Cultura de Porto Alegre, que em 30 de maio completa 58 anos.

    A comemorar, a liberdade de criação e a vanguarda intelectual que marcaram os anos iniciais de sua história e a resistência ao Golpe de 1964, quando freqüentar o endereço “era até perigoso”, conforme recordação do músico Cláudio Levitan. No Clube, Levitan acompanhou os debates que deram origem à atual secretaria de Estado da Cultura, antes vinculada à pasta de educação.

    “Os pais de Jorge Furtado o proibiram de vir. Sua mãe era Arena e considerava o Clube um reduto de comunistas”, lembra Baumann, que através da entidade acompanhou os primeiros passos da carreira do cineasta, na década de 1970, quando fundou o Cineclube.

    Hoje os 700m² do Clube de Cultura são subutilizados. Os debates não atraem um público significativo. Há aulas de preparação para a carreira diplomática e, eventualmente, cursos de teatro.

    O dinheiro para manutenção é escasso, já que poucos se disponibilizam a pagar os R$ 10 reais de mensalidade. “Nos bons tempos eram 350, mas hoje não temos nem 150 sócios”.
    O café foi reformado em 2007, mas os permissionários não duraram meio ano no negócio. E o teatro precisa de uma ampla reforma. “Temos a intenção de buscar R$ 800 mil através das leis de incentivo à cultura”, revela Baumann. O projeto, no entanto, está longe de ser concluído.

    Membro do Conselho Diretor, Airan Aguiar critica a falta envolvimento da comunidade. “A contrapartida para quem participa acaba sendo financeira porque é muito difícil conseguir voluntariado”, observa.

    Nenhuma dificuldade desanima Hans Baumann, que ingressou no grupo em 1955. Sorriso no rosto, ele revela o projeto de fundar um círculo de leitura. “Acredito na revolução cultural”, prega.

    O acervo vai incluir revistas e jornais e a consulta será gratuita. “Só não vai ter a Veja”, brinca, mostrando que a crítica não esmoreceu passados tantos anos.

    Livro de atas teve que ser clonado

    O Clube de Cultura de Porto Alegre foi fundado por intelectuais judeus cuja postura política progressista entrava em choque com a ideologia dos demais. “Havia 30 pessoas na reunião do dia 30 de maio de 1950, quando foi firmado o estatuto do Clube de Cultura”, conta Hans Baumann, que se uniu ao grupo mais tarde, recém-chegado de um kibutz em Israel.

    Egresso da escola de teatro, o diretor Luciano Alabarse teve suas primeiras peças encenadas ali. O Clube de Cultura abrigou a estréia de “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues, e “Reunião de Família”, de Lya Luft, que foi adaptada por Caio Fernando Abreu. “Era uma referência verdadeira aos que faziam teatro em Porto Alegre. Lembro com muita satisfação das temporadas se sucediam, sucessos de crítica e de público”, avalia Alabarse.

    “Era um espaço de proteção para a arte e cumpria a função de estar sempre aberto às diversas manifestações culturais”, complementa Claudio Levitan.

    A euforia dos primeiros anos acabou abruptamente com o golpe militar em 1964. “Tínhamos 300 sócios. Depois do golpe restaram quatro e entramos em pânico”, relata Baumann.
    O livro de atas daquele ano ficou muito tempo desaparecido. Hoje, Airan Aguiar pode contar despreocupadamente como ele foi clonado para ludibriar os militares. “As atas foram copiadas em um novo livro, mas retirando o que presumiam que pudesse trazer problemas ao clube, já que o SNI esteve aqui algumas vezes”.

    Mas a ditadura foi também responsável pela transformação em um espaço de resistência cultural. Justamente no Clube de Cultura Porto Alegre viu nascer sua cena rock’n’roll, nas antológicas apresentações da banda Bixo da Seda para mais de 600 pessoas.

    Essa reportagem é um dos destaques da edição 384 do jornal JÁ Bom Fim/Moinhos. A publicação é quinzenal e circula gratuitamente nos 10 bairros da área central de Porto Alegre.

  • Cage não tem auditores para cuidar das contas públicas

    Se a imprensa (a mídia) decidir ligar os fatos, vai mostrar que por trás de toda essa crise do governo está a enorme crise do Estado, ou seja, do setor público.
    Por exemplo: todos esses “furos” em contratos e licitações estão de alguma forma ligados à precarização da Contadoria e Auditoria Geral do Estado, a Cage, sexagenária e respeitável instituição.
    Quem conhece o assunto diz que seriam necessários pelo menos 200 agentes fiscais, mas a Cage tem menos de 80. Estão desmotivados, à espreita da aposentadoria. Por conta dessa situação, empresas como Banrisul e CEEE contratam auditorias privadas.
    No final do governo Rigotto, a associação dos agentes fiscais patrocinou um levantamento com 30 casos de “ralos” por onde escoa o dinheiro público.
    O que tem sido feito nessa área? Esta pergunta não é feita.
    Enquanto isso, na televisão…

  • O milionésimo carro de Gravataí

    Cleber Dioni
    A General Motors apresentou na terça-feira, dia 20, o milionésimo carro montado em Gravataí (RS). Um Prisma vermelho recebeu aplausos de cerca de 500 convidados que compareceram à festa que a empresa organizou em tendas no pátio da fábrica.
    O presidente mundial da GM, Fritz Henderson veio para o evento, que teve dois governadores: a atual, Yeda Crusius, e o ex-governador Olívio Dutra, em cujo mandato a fábrica foi inaugurada. O ex-governador Antonio Britto, que negociou a instalação da multinacional no Estado, não compareceu.
    Ao final dos discursos, o carro foi doado para o Pão dos Pobres, centenária instituição assistencial de Porto Alegre. O empresário Paulo Vellinho que articulou a doação, estava exultante.
    Entre políticos e empresários, o mais sorridente era o prefeito Sérgio Stasinski. Há dez anos, o orçamento de Gravataí era de R$ 30 milhões. Este ano passa de R$ 300 milhões. O mais citado foi Daniel Borguignon, ex-prefeito, em cuja gestão se deu a implantação da fábrica. Em quase oito anos, gastou R$ 3,4 bilhões em compras de 485 fornecedores gaúchos. Os dirigentes da GM, sem exceção, ressaltaram “o incondicional apoio” dado por os governantes do Estado, em todas as etapas do projeto.
    O governador Olívio Dutra, muitas vezes criticado por suas exigências nas negociações, gostou do que ouviu: “A maior prova de que agimos certo, é que os homens que souberam negociar conosto, se tornaram dirigentes mundiais da empresa”. Referia-se principalmente Anderson, o presidente mundial, que viveu três anos no Brasil durante a implantação do complexo de gravataí.
    Quase 50 carros por hora
    O Complexo Industrial Automotivo de Gravataí emprega 5,2 mil pessoas, entre a fábrica, fornecedores sistemistas e prestadores de serviços. O Celta é o carro-chefe, cuja produção foi iniciada em julho de 2000, transformando-se no modelo mais vendido da linha Chevrolet. Para montagem do carro em Gravataí, o motor e o sistema de câmbio vem de outras unidades da GM. O restante é fabricado no local.
    Com capacidade instalada de 240 mil veículos por ano, a fábrica produz uma média de 48 veículos por hora, 860 veículos por dia. Este ano, espera-se um volume de 225 mil unidades em dois turnos. Representa cerca de 46% da produção de carros da GM no Brasil. A empresa tem outras duas fábricas no país, em São Caetano do Sul, no ABC paulista, que produz o Classic, Corsa, Montana, Astra, Vectra, Vectra GT, e em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, São Paulo, onde faz o modelo Zafira, Corsa, Montana, S-10 e Blazer, Meriva, além de motores. Além das três fábricas brasileiras, a GM tem no País uma unidade de estamparia em Mogi das Cruzes (SP). E já foi anunciada uma fábrica de motores para Joinville (SC), prevista para operar a partir de outubro do ano que vem. Na área de serviços, a montadora está montando um centro de distribuição no Porto de Suape, em Pernambuco.
    O presidente mundial da montadora, Fritz Henderson, se mostrou surpreso com o aumento no ritmo de produção da fábrica. “O Complexo que tive o privilégio de acompanhar durante minha passagem pela GM do Brasil, é sem dúvida, uma unidade exemplar no que diz respeito aos índices de produção com qualidade”, disse.
    Para o presidente da GM Brasil e Mercosul, Jaime Ardila, a fábrica se tornou referência tecnológica internacional, com flexibilidade para produção de dois dos modelos mais vendidos da montadora.
    O vice-presidente, José Carlos Pinheiro Neto, afirmou que, passados mais de 11 anos do momento histórico do anúncio de Gravataí, “podemos afirmar, com tranqüilidade, que foi realmente uma decisão acertadíssima da empresa e hoje o Complexo de Gravataí representa uma fatia expressiva da nossa produção total no País”. Ele acrescentou que vários números foram desmentidos com o passar do tempo, como a previsão inicial de geração de 1.200 empregos. Hoje, o efetivo já supera os 5,2 mil empregados, incluindo os funcionários diretos, os trabalhadores ligados às empresas sistemistas e os terceirizados. E destacou que a montadora em Gravataí deve alcançar os dois milhões de carros fabricados bem mais rápido. “Esperamos que ainda neste governo, em 2010”, frisou.
    A governadora Yeda Crusius salientou que a GM mudou a realidade sócio-econômica do Estado e de Gravataí. E destacou algumas características gaúchas da montadora, como a preocupação com o bem comum e com a ética em suas relações institucionais.
    O vice-presidente da GM anunciou, durante as homenagens recebidas, que a empresa autorizou a construção de duas creches no município de Gravataí. Outro anúncio feito foi o de que a equipe de robótica de alunos locais, que já participaram em 2006 de uma competição naquela área em Nova Iorque, nos Estados Unidos, vai disputar outras competições internacionais com o apoio da GM.
    Na cerimônia, a GM doou ao Governo do Estado uma Estação de Monitoramento de Ar, a ser instalada em Gravataí. A GM fará a manutenção da unidade por cinco anos. Também foi lançado pela ECT um selo e um carimbo comemorativos ao centenário da GM. A carta foi postada por Fritz Henderson, dirigida ao chairman da GM, Richard Wagoner, em Detroit (EUA), registrando a comemoração do carro um milhão.
    Presença da GM no RS
    Inaugurada em 20 de julho de 2000 com a produção do modelo Celta, a fábrica de Gravataí começou a produzir o sedã Prisma em 2006. Em 17 de março de 1997, a GM e o governador Antonio Britto, assinaram o contrato definitivo para a implantação da nova fábrica no País.
    O Complexo de Gravataí absorveu investimentos de US$ 600 milhões, incluindo os sistemistas, responsáveis pelo fornecimento de conjuntos para a montagem dos veículos. A fábrica foi inaugurada em 20 de julho de 2000, após mais de 30 meses de construção. Recentemente, o complexo absorveu novos investimentos da ordem de US$ 240 milhões, para a duplicação da capacidade de produção de 120 mil veículos/ano para 230 mil veículos/ano.
    A General Motors Corporation, uma das gigantes do setor, foi fundada em 1908 e emprega hoje 266 mi funcionários em 35 países. Sua sede principal fica em Detroit. Vendeu em 2007 cerca de 9,37 milhões de carros, comercializados com as marcas Buick, Cadillac, Chevrolet, GMC, GM Daewoo, Holden, Hummer, Opel, Pontiac, Saab, Saturn, Vauxhall e Wuling.
    Cronologia 1995
    Surge a idéia do projeto do Celta a partir da conversa a bordo, em um vôo São Paulo/Brasília, entre o chairman da época da GM, Jack Smith, e o alto comando da General Motors do Brasil. O objetivo era construir um carro pequeno, popular e moderno, com preço competitivo. O projeto foi batizado internamente na GM como “blue macaw” (arara azul). 02/12/1996 – O alto comando da GM do Brasil comunica ao então presidente da república, Fernando Henrique Cardoso, a decisão de fazer o investimento no Rio Grande do Sul, que tinha como governador na época Antonio Britto. 17/03/1997 – Em solenidade no Palácio Piratini, é anunciado o município de Gravataí, para sediar o Complexo da GM. 06/2000 – Anuncio do nome do carro que seria produzido em Gravataí: Chevrolet Celta. 20/07/2000 – Inauguração oficial do Complexo Industrial Automotivo de Gravataí com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso. 02/09/2000 – Lançamento do Celta de duas portas, hatchback, com motor 1.0 litro e potência de 60 cv. 29/10/2001 – Produzido o Celta 100.000 e o modelo foi o hatchback de 2 portas mais vendido do mercado brasileiro. 24/11/2001 – O Celta ganha o Prêmio Imprensa Automotiva, da Abiauto (Associação Brasileira de Imprensa Automotiva), na categoria ‘Carro Popular’. 05/07/2002 – O Celta 1.0 ganha versão de quatro portas e o novo motor “VHC” (Very High Compression), com potência de 70 cavalos. 18/10/2002 – Produzido o Celta 200.000. 13/08/2003-Lançado Celta de 2 e 4 portas c/ motor 1.4 de 85 cv. 17/09/2003 – Produzido o Celta 300.000. 15/12/2003 – O Celta ganha pela segunda vez o Prêmio Imprensa Automotiva da Abiauto (Associação Brasileira de Imprensa Automotiva), na categoria ‘Carro Popular’. 05/02/2004 – O chairman e presidente mundial da General Motors Corporation, Rick Wagoner, anuncia a decisão de investimentos de US$ 240 milhões para a expansão do Complexo de Gravataí. 14/06/2004 – Produzido o Celta 400.000. 10/05/2005 – Lançamento do Celta Off-Road. O “kit” de acessórios para transformação do carro em “Off-Road” é vendido na Rede de Concessionárias Chevrolet e pode equipar qualquer versão do Celta. 20/05/2005 – GM comemora produção do Celta 500.000. 30/06/2005 – Lançado o Celta 1.0 “Flexpower” com motor “VHC”. 30/11/2005 – O Celta foi eleito o “Melhor Carro Popular” do país pelo júri da Associação Brasileira da Imprensa Automotiva (ABIAUTO), composto por 83 jornalistas dos principais veículos de comunicação do Brasil. 01/12/2005 – GM comemora produção do Celta 600.000. 03/2006 – Lançamento do Celta Nova Geração, que ganhou um novo visual. 01/09/2006 – GM comemora produção do Celta 700.000. 10/2006 – É lançado o Prisma 1.4 Econo.Flex, sedã não-popular, segundo modelo a ser produzido em Gravataí, que se transformou de imediato em novo sucesso no mercado brasileiro.

  • Vice-governador pede CPI do Banrisul e demissão do presidente

    Cleber Dioni
    O vice-governador Paulo Afonso Feijó voltou a carga ontem contra o presidente do Banrisul, Fernando Lemos. Ele convocou a imprensa para defender a demissão de Lemos e a criação de uma CPI na Assembléia Legislativa para investigar os contratos feitos sem licitação pela instituição bancária com a Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Faurgs).
    As supostas irregularidades no Banrisul foram apontadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) e pelo Ministério Público. Promotores consideraram ilegais a dispensa de licitação e a sub-contratação de empresas. Desde 2000, o Banrisul repassou cerca de R$ 91,5 milhões para a fundação, pagamentos referentes a serviços de informática e consultoria, prestados por terceirizadas.
    Feijó explicou que esteve com a governadora na semana passada para denunciar os contratos irregulares. “Pedi que a governadora tomasse providências. Se eu fosse governador, o teria demitido há um ano e meio atrás quando surgiram as denúncias”, disse Feijó.

    Acordo com MP

    Ontem à tarde, enquanto Feijó concedia a entrevista, o Ministério Público Estadual assinava com o Banrisul um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), fixando percentuais progressivos de redução da contratação de horas/ano para prestação de serviço pela Faurgs ao Banrisul até a completa rescisão dos contratos, “visando à preservação da continuidade do serviço público prestado, equivalendo a um período de transição até a definitiva cessação dos efeitos dos contratos firmados”.
    O banco se comprometeu a não efetuar novas contratações com a Faurgs, mediante dispensa ou inexigibilidade de licitação, em matérias relacionadas com informática, sob pena de incidir em multa. Para substituir os serviços prestados pela Faurgs, o presidente do Banrisul também sinalizou para abertura de processos licitatórios e realização de concurso público.
    Conforme o TAC, que visa restabelecer a legalidade, com a extinção gradual dos três últimos contratos que o Banrisul mantém com a Faurgs, no primeiro ano (2008), foi fixada uma redução de 20% nas horas contratadas; no primeiro semestre de 2009, a redução atinge 45% do total contratado; no segundo semestre de 2009, uma redução de 70%; seguindo-se a extinção antecipada do contrato em outubro de 2010 – ano em que apenas 30% das horas podem ser contratadas.
    A Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público identificou que a Faurgs vinha transferindo o objeto dos contratos firmados (sub-contratação) em grande número, a terceiros, evidenciando que não executa pessoalmente, com estrutura própria, circunstância a descaracterizar a natureza da contratação.
    A atuação do MP nos contratos do Banrisul com a Faurgs tiveram como base um dossiê elaborado no ano passado pelo vice-governador, o que resultou na instauração de inquérito civil presidido pelo promotor Eduardo Iriart.

  • CPI chegou no Vice

    Depois do depoimento do ex-secretário de segurança, Enio Bacci, a CPI do Detran não tem como evitar um convite ao vice-governador Paulo Feijó. Se ele não aceitar o convite, tem que convocá-lo.
    Mesmo que a conversa entre ambos não tenha sido exatamente como Bacci reproduziu perante os deputados, o fato é que Feijó falou e revelou ter informações importantes, senão decisivas para os rumos da CPI.
    Bacci mostrou um papel que seria “uma denúncia sobre o Banrisul”, que Feijó teria lhe passado. Seria o indício de que o esquema criminoso pode ir além do Detran. Citou, além do Banrisul, a CEEE, a Corsan, e até a CGTEE, empresa de energia, que pertence ao governo federal.
    Mesmo que Bacci dramatize um pouco, e até exagere – ou ele não seria um criminalista – o que ele disse é grave. Ele falou sob juramento e abrindo mão das suas prerrogativas de deputado federal.
    O depoimento rende desdobramentos, não só pelo envolvimento de Feijó. Colocado na perspectiva das últimas semanas, ele revela uma sucessão de fatos preocupantes para o governo.
    1) O flagra (resultado de denúncia anônima) que a Zero Hora deu no secretário do Planejamento Ariosto Culau, tomando chopp com o lobbista Lair Ferst, um dos principais implicados no desvio de mais de R$ 40 milhões do Detran.
    A reportagem de capa da revista Carta Capital da semana passada trazendo aberta em duas páginas uma fotografia da candidata Yeda Crusius em campanha e, à sua espalda, Lair Ferst (Os dois mil exemplares colocados nas bancas de Porto Alegre, com Yeda na capa, esgotaram).
    O secretário Busatto tem se desdobrado na construção de uma agenda positiva e na sexta-feira passada estava na primeira fila no lançamento dos Programas Estruturantes, em que o governo oferece uma ponte para o futuro.
    Uma análise das presenças que superlotaram o Palácio Piratini na sexta-feira de manhã daria um ensaio de política. Algumas ausências, como o senador Pedro Simon, foram eloqüentes. Mas imprensa local foi generosa.

    Reprodução:Carta Capital

  • Doze de maio de 2008

    Donaldo Schüler
    Na noite de 12 de maio, passada, Gerald Thomas, em Fronteiras do Pensamento, ensaiou um gesto iconoclasta radical: negando a arte, o pensamento, tudo o que realizou até aqui, propôs a discussão da miséria, da violência, da política partidária. O gesto não é novo. Diógenes, no quarto século a.C., em protesto contra elucubrações verbais, anda, munido de lanterna, pelas ruas de Atenas, à procura de um homem. O cético Sexto, no segundo século da nossa era, investindo contra a especulação, opta por um comportamento empírico. Nietzsche, quebrando as tábuas da lei, derruba, em fins do século XIX, todos os valores. Marcel Duchamp, no início do século XX, envia um vaso de urinar a uma exposição de arte. John Cage reinventa a música com instrumentos danificados. O irreverente Caetano Veloso, no fervor do Movimento Tropicalista, espanta platéias com movimentos inusuais. Gerald Thomas, à tarde do mesmo dia 12, numa entrevista coletiva, perguntado se a poesia seria um antídoto contra a violência, respondeu categoricamente “não”.
    Catástrofes esporádicas dessa natureza beneficiam arte e pensamento, obrigando artistas e pensadores a refletir sobre o que fazem. Declará-las, entretanto, definitivas, seria afirmar o apocalipse. Em lugar do fim catastrófico, escolho a regeneração. Sem poesia, bombas continuarão a enlutar povos oprimidos. Sem poesia, choques armados continuarão a ensangüentar ruas e ruelas nas grandes cidades. Sem poesia, troncos continuarão a fumegar em florestas incendiadas. Populações famintas necessitam mais do que pão para sobreviver. Vivem, como todos nós: de ócio, de religião, de mitos, de sonhos, de amor, de arte…Em lugar de condenar espetáculos teatrais, tratemos de torná-los acessíveis a todos.
    Se persistirmos em combater a violência com atos de violência, engrossaremos os exércitos armados contra a espécie humana. Insultos e agressões não dignificam a inteligência. Se a palavra nos funda, convém cultivá-la no exercício de nossas divergências. O combate de idéias robustece o vigor de pensar. Formas e imagens confrontadas ativam a imaginação, reformam. Bastaria lembrar o trabalho vigoroso de Platão, Kafka, Beckett e Joyce para confirmá-lo.
    A noite de 12 de maio de 2008, oferecida pelo Fronteiras do Pensamento, ergue-se como um dos marcos na construção da arte e do pensamento nesta alvorada do terceiro milênio.