Autor: Elmar Bones

  • José Darcy Rodrigues morre aos 78 anos

    Foi cremado na manhã desta segunda-feira, 15 de agosto de 2016, o corpo do professor e escritor José Darcy Costa Rodrigues. Seu filho, Vladimir, parentes e amigos o velaram no crematório metropolitano.
    Nenhuma autoridade, nenhum figurão, nenhum reconhecimento do mundo oficial. Um caso exemplar da esquizofrenia do poder público nesta cidade, no Estado.
    Um servidor público da qualidade e da probidade de José Darcy não receber sequer um necrológico no jornal da cidade em que viveu é um sinal dos tempos.
    Menino pobre que iniciou sua formação no Colégio Parobé, José Darcy graduou-se em Pedagogia, fez doutorado em Administração e percorreu uma carreira exemplar no serviço público.
    Era diretor da Fundação de Recursos Humanos quando foi requisitado para a equipe que o governo do Estado colocou à disposição do cardeal D. Vicente Scherer para salvar a Santa Casa, tornada uma casa de horrores por décadas de crise.
    Ficou encarregado dos Recursos Humanos, no projeto que o dr. João Polankzic comandou e que transformou um depósito de doentes num dos mais modernos complexos hospitalares do país.
    Depois, na gestão de Ruy Carlos Ostermann na Secretaria de Educação, ele foi sub-secretário, trabalhando sobretudo no diálogo com os professores, com base na sua experiência de muitos anos em salas de aula.
    Aposentado, dedicou-se à literatura.  Publicou uma novela, evocando sua infância em Dom Pedrito, e deixou vários contos inéditos. Seu filho Vladimir, na despedida, lembrou do seu amor pela música, sua alegria nas festas tocando violão e  sua retidão no trabalho.
    Os amigos de todos os dias na Fernando Machado,  contaram que ele estava alegre.  Bebeu cerveja, cantou e contou piadas. Pouco depois das oito da noite, subiu para seu apartamento. Ao entrar sentiu-se mal, tentou voltar, caiu na porta. O médico constatou uma parada cardíaca.  Tinha 78 anos.
     
     

  • Loteamento em Campo Bom sofre com falta de tratamento de esgoto

    Conviver com a falta de tratamento de esgoto tem levado os moradores do Loteamento Recanto da Paz, em Campo Bom, a impactarem nascentes e comprometerem sua qualidade de vida. São cerca de 100 moradias ocupadas por aproximadamente 500 pessoas neste loteamento existente há 16 anos.

    O principal impacto ambiental é causado pelos dejetos dos moradores e por
    entulhos das áreas próximas que são ocupadas por pessoas de fora do
    loteamento, inclusive por um criador de porcos, tudo bem próximo de uma
    nascente. Já houve notificação para saírem, mas permanecem impactando a
    área, que, inclusive, está localizada na borda da planície de inundação do Rio
    dos Sinos, no bairro Mônaco.
    No Recanto da Paz a prefeitura executou apenas as obras de escoamento do
    esgoto das casas da Rua Boa Vista, Rua da Paz, Rua da Bica e Rua da Lagoa,
    até quase a reserva ambiental localizada ao lado esquerdo do loteamento, onde
    o esgoto é despejado livremente. Nesta área, de preservação permanente,
    encontra-se uma nascente e suas águas já estão contaminadas.
    Conforme estudos da vigilância sanitária, realizados a pedido do presidente da
    Associação dos Moradores do Recanto da Paz, Ezequias dos Santos, a análise da
    água coletada na nascente e em mais dez pontos nos poços artesianos apontou
    alta presença de coliformes fecais e de bactéria Escherichia coli.
    Ali, todos cidadãos utilizam água de poço artesiano, ou seja, dependem daquela
    água que oferece risco de intoxicação. O loteamento não é regularizado ainda,
    embora toda documentação necessária já tenha sido encaminhada. Por conta
    disso a população não tem acesso à água tratada pela Corsan.
    Canos levam água contaminada da nascente para as torneiras das 100 moradias /Divulgação
    Canos levam água contaminada da nascente para as torneiras das 100 moradias /Divulgação

    Preocupado com a saúde da comunidade, Ezequias tem acompanhando, junto
    com a agente de saúde do município, os casos de doenças causadas por
    bactérias. “São alguns casos isolados, mas podem aumentar e se agravar com a
    água contaminada”. E é sabido que investir em saneamento básico é
    economizar em doença. Segundo a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), a
    cada R$ 1,00 (um real) investido em saneamento, economiza–se R$ 5,00 (cinco
    reais) em medicina curativa.
    O motorista Adelar de Moura Oliveira, 48 anos, é um dos primeiros moradores
    do loteamento. Ele lembra das várias tentativas investidas no sentido de
    regularizar os lotes e de preservar a vertente. Ele mora com a esposa e filho na
    Rua Leão XIII, bem ao lado da área de preservação, e teme pela saúde da
    comunidade. “Já cansamos de ver as crianças e até adultos com diarreia e
    outras doenças. Não queremos que isso piore para a gente”, ressalta.
    Tratamento de esgoto por evapotranspiração – A intenção da Associação
    de Moradores é implementar um projeto de fossa séptica tratada com árvores e
    plantas, igual ao utilizado pelo Centro de Educação Ambiental Ernest Sarlet
    (CEAES), de Lomba Grande/Novo Hamburgo. Modelo que Ezequias conheceu em
    saída a campo realizada durante a Capacitação Gestores Ambientais
    Comunitários, em setembro de 2015, promovida pelo Movimento Roessler para
    Defesa Ambiental. Desde outubro do ano passado ele busca alguma solução
    para preservar a nascente.
    Ezequias conheceu projeto de tratamento de esgoto por evapotranspiração durante saída a campo, do Movimento Roessler / Divulgação
    Ezequias conheceu projeto de tratamento de esgoto por evapotranspiração durante saída a campo, do Movimento Roessler / Divulgação

    A estação de tratamento de esgoto por evapotranspiração do CEAES,
    desenvolvida pelo engenheiro Fabio Fernandes, dá conta dos resíduos gerados
    por 5 mil pessoas (média/ano) que utilizam o local. Trata-se de um sistema
    fechado, sem infiltração no solo, onde plantas realizam o processo de filtração
    das águas servidas. A iniciativa melhora os índices de saneamento básico e a
    consequente preservação dos recursos hídricos do município.
    Dados do Comitesinos apontam que o maior problema de qualidade das águas
    do Rio dos Sinos e formadores é decorrente do inexpressivo volume de esgotos
    tratados, especialmente domésticos. Portanto, todas as iniciativas que tenham
    como objetivo a diminuição da carga orgânica lançada nos cursos d’água são
    louváveis, legítimas e desejáveis. Há que se considerar, no entanto, que é dos
    municípios a competência legal pela prestação de serviços de saneamento.
    Segundo o presidente do Comitesinos, Adolfo Klein, a população, quando
    disposta a implementar sistema de tratamento de esgotos tradicional ou
    alternativo, deve submeter o projeto à municipalidade, seguindo todos os
    tramites técnicos e legais necessários. “O percurso resguarda as comunidades
    de possíveis impactos indesejados e garante a conformidade do sistema de
    tratamento adotado”, salienta.
    O secretário de Meio Ambiente, José Alfredo Orth, afirma que o pedido para a
    implantação da estação de tratamento de esgoto foi recebido pela prefeitura,
    embora argumente que o projeto ainda necessita maiores análises sobre os
    resultados da água final. “Vamos visitar o modelo de Lomba Grande para
    conhecer melhor o projeto e vamos fazer o levantamento do custo desta obra”.
    O Movimento Roessler entende que o debate sobre o projeto deve avançar na
    busca de solução para esta situação que é importante para a comunidade local
    e para a despoluição do Sinos. “Deve haver uma avaliação detalhada da viabilidade
    da proposta por técnico especializado no tema a fim de garantir o correto
    dimensionamento da solução a ser implantada. Também salientamos que devam
    ser cumpridos todos procedimentos legais da questão para que se construa uma
    solução permanente para este e os demais problemas enfrentados pela comunidade”,
    ressalta Arno Kayser, presidente da entidade.
  • Num país perplexo com a corrupção, Cunha vai em frente

    P.C. DE LESTER
    Os fatos dos últimos dias em Brasilia demonstram que o politico mais poderoso do pais, no torvelinho desta crise, é o deputado Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara de Deputados.
    Até o fato negativo – o pedido de sua prisão pelo procurador Janot – revelou-se positivo na medida em que seu nome figurou numa lista entre os maiores caciques da República – Romero Jucá, ex-ministro, líder do governo no Senado; Renan Calheiros, presidente do Senado e José Sarney, senador ex-presidente.
    Ou seja, seu julgamento, agora, confunde-se com o julgamento de toda uma classe política. Ou seja, seu caso de ostensiva corrupção, ganha as tintas de um caso político, como ele sempre sustentou.
    Depois, teve a sessão na Comissão de Ética. Ao contrário das ruas, onde as pesquisas colhem que 92% querem sua cassação por corrupto, a comissão está dividida. Sua tropa de choque, sem qualquer escrúpulos, manobras as sessões e está a ponto de absolvê-lo.
    A batata quente está na mão da deputada Tia Eron, uma aliada sua, que faz um jogo de cena para fazer crer que vota com independência.
    Se ele for absolvido (ou punido brandamente) na Comissão de Ética,  mediante manobras e ameaças… quem acredita que o ministro Teori Zavaski, vai mandar prender Cunha? Lembre-se que há poucos dias, um filho do ministro denunciou nas redes sociais que sua familia se sentia ameaçada, sem dizer por quem.
     
     
     
     

  • Amigos lembram Dodora, que a tortura levou ao suicídio

    Nesta quarta-feira, 1° de junho, ocorreu um modesto ritual em Berlim em memória de Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976), que tomou a própria vida naquela cidade a 1° de junho de 1976.
    Integrante da VAR-Palmares, conhecida como Dora ou Dodora, ela foi  presa em novembro de 1969. Foi brutalmente torturada, até ser libertada entre os 70 presos políticos trocados pelo Embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, em 1971.
    Depois de exilar-se no Chile, seguiu por alguns países após a queda de Allende, fixando residência em Berlim Ocidental em 1974.
    Sem passaporte, com dificuldades de conseguir o asilo no país, marcada pela tortura, Dora Lara Barcelos jogou-se diante de um trem na estação de Charlottenburg naquele 1° de junho de 1976.
    A cerimônia será na estação de Charlottenburg, às 19h30, com flores e leitura de poemas de Hilda Hilst, Ingeborg Bachmann e Wislawa Szymborska.
    Depois, do breve ato foi apresentado o documentário “Brazil: A Report on Torture”, filmado no Chile em 1971 e ao qual Dora deu depoimentos. (Ricardo Domeneck)
    Sobre o documentário, em que Dora dá seu testemunho sobre os horrores que viveu , o jornalista Paulo Nogueira escreveu,  em março de 2014, o seguinte comentário:
    “Vejo um documentário sobre tortura na ditadura militar, e me chama a atenção uma mulher.
    É um trabalho rústico, uma câmara e depoimentos. E é sublime como retrato de uma época sinistra.
    O documentário foi gravado em 1971, no Chile. Os autores foram dois cineastas americanos – Haskell Wexler e Saul Landau — que estavam no Chile para entrevistar Allende.
    Eles souberam que havia um grupo de exilados brasileiros com histórias de tortura e decidiram registrá-las com sua câmara. O grupo tinha sido trocado pelo embaixador da Suíça no Brasil.
    Surgiria, como que por acaso, “Brasil, um relato da tortura”, um pequeno grande épico do cinema que não se curva aos poderosos. Eram talentosos os americanos. Haskell posteriormente receberia dois Oscars por trabalhos na área de fotografia de grandes produções de Hollywood.
    É uma mulher que me fisga no filme, uma jovem médica que narra as barbaridades que ela e os companheiros sofreram nas mãos dos agentes da ditadura.
    Ela é bonita, articulada, e pesquisando vejo que fascinou também os documentaristas americanos.
    Ela tinha 25 anos na ocasião, e riu ao lembrar as torturas, que narrou meticulosamente. Parecia invencível diante das violências.
    “Fui colocada nua numa sala com cerca de 15 homens”, disse ela. “Fui espancada e esbofeteada.”
    Seu rosto bonito ficou, contou ela, completamente deformado, conforme queriam os algozes.
    Durante a sessão puseram num volume ensurdecedor “música de macumba”, e ela lembrou que os torturadores pareciam “excitados, felizes” como se estivessem numa festa.
    A certa altura, a agarraram pelos seios e puseram uma tesoura em seu mamilo. Pressionavam e soltavam, e ameaçavam extirpá-lo. Também diziam que iriam matá-la.
    Uma das forças do vídeo é que os entrevistados mostram como eram as torturas, como o pau de arara. São reproduções realistas e assustadoras.
    Comecei a ver, por sugestão de minha filha Camila, e não consegui parar em quase 1 hora de conteúdo extraordinário. Fiquei perturbado como há muito tempo não ficava.
    E depois quis saber mais das pessoas. Particularmente dela: passados mais de quarenta anos, que estaria fazendo?
    E então vem a parte triste. Como escreveu Machado de Assis em Dom Casmurro quando as coisas degringolam, pare aqui quem não quer ver história triste.
    Maria Auxiliadora Lara Barcelos, este o nome daquela guerreira que comoveu aos cineastas e a mim. Dora ou Dodora, como a chamavam.
    Ela não viveu para ver o fim do horror militar.
    Pouco tempo depois, como Ana Karenina, se jogou sob as rodas de um trem. Ela estava com problemas psiquiátricos derivados da selvageria a que foi submetida, e tinha acabado de se consultar com seu médico.
    Morava, então, em Berlim.
    Dois anos depois de feito o documentário, Pinochet tomou o poder no Chile, e Dora teve que partir de novo.
    Primeiro foi para a Bélgica, e depois para a Alemanha Ocidental. Era brilhante: passou em primeiro lugar entre 600 estrangeiros e conseguiu aprovação para complementar seus estudos de medicina na Universidade de Berlim.
    Fiquei triste, quase enlutado, ao saber do que ocorreu com ela. Já imaginava entrevistá-la, e especulava sobre como ela estaria hoje. Conservaria vestígios da beleza sobranceira e altiva do passado?
    Num voo mental, penso que se ela tivesse nascido na Escandinávia, hoje seria uma avó, cheia de histórias para contar aos netinhos. Fantasio-a de bicicleta em Copenhague, feliz entre pessoas que são felizes porque aquela é uma sociedade como prescreveu Rousseau: sem extremos de opulência e de miséria.
    Mas ela nasceu e cresceu na terra da iniquidade, que combateu com coragem assombrosa e idealismo inexpugnável. Não há em sua fala vestígio de remorso por ter caminhado o caminho que escolheu.
    E então estou de novo nos dias de hoje.
    Ver aqueles relatos me faz desejar que seja preso imediatamente o general insolente que tem abertamente pregado um novo golpe. Mais Dodoras? Jamais. Que minha Camila seja poupada do pesadelo em que viveu Dodora sob as botas covardes e assassinas de uma ditadura que protegeu apenas os ricos.
    Em Laura, o detetive se apaixona pela foto de uma mulher assassinada. Como que me apaixonei por Dora ao vê-la no documentário.
    Fico tolamente satisfeito quando Camila me conta que, pesquisando, descobriu que Dilma prestara tributo àquela brasileira indomável.
    Em fevereiro de 2010, quando o PT confirmou a candidatura de Dilma para a presidência da república, Dilma disse em seu discurso: “Não posso deixar de ter uma lembrança especial para aqueles que não mais estão conosco. Para aqueles que caíram pelos nossos ideais. Eles fazem parte de minha história. Mais que isso, eles fazem parte da história do Brasil.”
    Dilma citou três pessoas. Uma delas era Dodora: “Dodora, você está aqui no meu coração.”
    E no meu também, desde hoje”.

  • Dilma cai atirando

    Nesta quarta feira o Senado vota e na quinta sai o PT e entra o PMDB, levando de volta para a Esplanada dos Ministérios o mesmo séquito de partidos que compunham e ainda compõem a chamada “base aliada”.
    Excluindo PT, PCdoB e PSOL, todos os antigos apoiadores sentam de novo nas suas cadeiras.
    Os partidos da esquerda voltam às ruas, trabalhando os dois desafios eleitorais que têm pela`frente, as municipais de outubro e as nacionais de 2018. Este é o cenário geralmente aceito pelos analistas.
    Aí está o golpe, que, embora as forças majoritárias neguem o vocábulo, deu-se dentro do Palácio do Planalto, como nos saudosos filmes de capa e espada tirados dos romances de Alexandre Dumas.
    Portanto, muito simples: o PT perdeu o comando político e seu aliado PMDB passou-lhe uma rasteira. É assim que acontece.
    Já a presidente Dilma Rousseff não aceitara a manobra quando rejeitou o banqueiro Henrique Meirelles como tutor, como era o desejo do líder de suas forças de sustentação, o ex- presidente Lula.
    Ali ela assinou sua carta de alforria, mas selou seu destino como presidente, pelo menos por enquanto (ainda vai correr muita água por debaixo da ponte antes de tirarem definitivamente seu mando, se conseguirem).
    Meirelles que naquela vez chegara triunfante ao Planalto Central, levando consigo uma queda na cotação do dólar e uma disparada ascendente nas cotações das bolsas, mas deu com a cara na porta, agora volta triunfante.
    Nada como um dia depois do outro, repetiria o Conselheiro Acácio.
    Os antigos aliados da presidente passam para os escaleres de salvamento, deixando aos fiéis precárias tábuas de salvação que, uma a uma, vão afundando.
    Entretanto, Dilma não se entrega. Neste final ela não titubeou e foi para a rua clamar ao povo, mostrando o que acontecia.
    Todos os dias ela apareceu no Jornal Nacional denunciando o golpe, mostrando um inimigo visível, o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.
    Poupou os desertores.
    Entretanto, cada dia fica mais claro que os verdadeiros algozes estavam dentro de sua própria trincheira.
    Agora não adianta mais esbravejar contra Michel Temer. A raposa paulista, mesmo desqualificada pelas ruas (sua popularidade é menor que a de Dilma, que amarga o fundo do poço), soube recompor as forças majoritárias que, no início do ano compunham a base parlamentar do governo.
    A peça chega ao fim do primeiro ato. A surpresa que não estava no script é que Dilma não se conforma com o papel de velhinha roubada pelo trombadinha que a nova oposição pretendia colar à sua imagem.
    Ela deveria recolher-se ao Palácio da Alvorada e ficar regando as plantas, abrindo a porta aos turistas e aparecer de vítima indefesa nos telejornais, beijando criancinhas. Dilma vai à luta.
    Ela surpreende: esperava-se que se comportasse como uma mineira ensaboada, deixando que o governo Temer se afundasse em suas próprias contradições, e assim ganhando espaço para derrubar o impeachment no plenário, daqui a seis meses. Não será assim.
    Dilma decidiu pegar o touro à unha. Fora de suas características de tecnocrata, como fez no primeiro mandato, vai para a rua. Deixa para traz a economista de falas confusas e sai como uma oradora feroz botando o dedo na cara dos golpistas.
    No lugar da mineira maneirosa ela ressuscita a gaúcha de faca na bota e sai a campo para, sem medo, dar murros em facas de ponta.

  • Um homem bomba

    P.C. de Lester
    A decisão do Supremo Tribunal a respeito de Eduardo Cunha ainda está sendo decifrada. Não dá para perceber até o momento toda motivações e todo o alcance de seu afastamento do centro da cena´.
    Uma vez mais, com essa decisão, fica evidente que há um script  por trás de todos esses movimentos que culminam com o impeachment da presidente Dilma.
    Cunha se colocou como uma peça essencial num determinado momento, depois se tornou um incômodo, um constrangimento para os golpistas, uma bandeira para os que contestam a legalidade do impeachment.
    Agora é removido num lance cheio de controvérsias. Sai dos holofotes, ninguém pode  pode falar em impunidade, fica talvez mais confortável para manobrar.
    É dificil acreditar que ele vai se simplesmente descartado e entregue às feras. Ele tem muita gente na mão, a começar pelo presidente Michel Temer.
    Nesse ponto é forçoso concordar com Mino Carta: Eduardo Cunha tornou-se um homem bomba no meio da crise política brasileira.
     
     
     

  • Cimi denuncia aumento da violência contra povos indígenas

    Enquanto a agenda política segue voltada para o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a guerra de baixa intensidade travada contra os povos indígenas faz cada vez mais vítimas.
    Nos últimos 30 dias, foram cinco assassinatos, cinco prisões, dois atentados e ao menos quatro ataques de pistoleiros a terras indígenas do Mato Grosso do Sul, além de despejos e tentativas de reintegrações de posse pela Polícia Federal no estado e na Bahia.
    Conforme dados prévios do Relatório de Violências Contra os Povos Indígenas 2015,  a ser publicado nos próximos meses pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre 28 de março e 28 de abril de 2015 foram cinco casos. Este ano no mesmo período foram 12 episódios de violências contra lideranças e aldeias indígenas.
    Durante o ano passado não ocorreram prisões no período recortado; ataques a aldeias e reintegrações de posse não constam no recorte de 2015.
    O conflito territorial e as dificuldades do direito à terra pelas comunidades indígenas país afora estão entre as causas dos assassinatos, atentados, prisões.
     
    Esse período teve como marco inicial o espancamento sofrido pelo estudante de Medicina Veterinária Nerlei Fidelis Kaingang, no final do mês de março, em frente ao alojamento estudantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
    Quatro rapazes agrediram o estudante Kaingang com ofensas racistas e preconceituosas; na sequência, os rapazes passaram a espancá-lo com socos, chutes depois de levar o indígena ao chão – os agressores foram identificados e respondem a processo judicial.
    No Mato Grosso do Sul, desde janeiro, pistoleiros atacaram os tekoha – lugar onde se é – do Guaivyry, Tey’i Juçu (onde o ataque se deu com componentes químicos), Taquara e Kurusu Ambá.
    Prisões
    Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau Tupinambá, e o irmão, José Aelson Jesus da Silva, o Teity Tupinambá, foram presos no final da manhã do dia 7 de abril pela Polícia Militar (PM) da Bahia no município de Olivença, depois de reintegração da aldeia Gravatá.
    Na foto, as cápsulas recolhidas pelos indígenas após o despejo. Encaminhados à sede da Polícia Federal de Ilhéus, tiveram as prisões preventivas decretadas pelo juiz Federal Lincoln Pinheiro da Costa, que depois foram convertidas em domiciliares.
    Cacique Babau e seu irmão são acusados de porte ilegal de armas, desobediência de decisão judicial, desacato e agressão. A trama envolvendo a prisão de cacique Babau e Teity se relaciona diretamente com a demarcação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença, cuja publicação aguarda a vontade política do governo federal desde 2012. A aldeia Gravatá, cenário do desenlace da criminalização, é uma das áreas exaustivamente exploradas por mineradoras da região de Ilhéus.
    Os Tupinambá inúmeras vezes alertaram o governo brasileiro para o crime ambiental em curso, e avisaram que não tolerariam a continuidade da retirada de toneladas de areia da terra indígena. Razão essa que motivou a decisão dos indígenas pela retomada da área degradada pelas mineradoras, a aldeia Gravatá, reintegrada por decisão do mesmo juiz Lincoln no dia 6 de abril, que ainda mandou a PM escoltar os caminhões das mineradoras que retiram areia da terra indígena.
    “Tivemos reuniões em Brasília onde sempre frisamos que apenas a demarcação pode colocar um fim a esses conflitos, e os Tupinambá acabam sempre criminalizados, ameaçados de morte e assassinados”, declarou Ramon Tupinambá à Victoria Tauli-Corpuz, durante a visita da relatora da ONU para direitos indígenas à terra Tupinambá de Olivença no final de março deste ano. Poucos dias depois da prisão das lideranças Tupinambá, uma decisão judicial passou a impedir que a portaria declaratória da Terra Indígena Tupinambá de Olivença seja publicada pelo Ministério da Justiça.
    Imputar crimes é uma estratégia clássica para criminalizar lideranças. No Mato Grosso, Dodoway Enawenê-Nawê, liderança do povo, foi preso no final da última semana acusado pela morte de dois rapazes em Juína, cujos corpos foram encontrados nos limites da Terra Indígena Enawenê-Nawê. Não há provas de que os indígenas, ou Dodoway, tenham cometido os crimes. Dodoway está preso em uma cadeia pública, sob o risco de sofrer violências de outros presos, enquanto o Estatuto do Índio permite que essas detenções, quando necessárias, possam ocorrer em sedes da Fundação Nacional do Índio (Funai).
    No Paraná, o cacique Cláudio Kaingang se encontra na penitenciária de Guarapoava desde o dia 3 de abril. Por conta de conflitos envolvendo a Terra Indígena Boa Vista, o cacique é acusado de lesão corporal, cárcere privado, furto, dano ao patrimônio público e privado, posse ilegal de arma de fogo e tentativa de homicídio. As acusações são feitas por não-indígenas que acossam a terra indígena. Sem averiguar a situação de conflito, e o contraditório, cacique Cláudio teve a prisão preventiva decretada pela Justiça Federal.
    Assassinatos
    Entre os dias 26 de março e 22 de abril, os indígenas Aponuyre, Genésio, Isaías e Assis Guajajara (na foto, à frente), todos da Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, foram assassinados. Com pouca fiscalização e sem sinal de investigação dos culpados, os indígenas Guajajara que vivem na área – já demarcada e habitada também por índios Awá isolados – sofrem com a constante pressão de madeireiros e temem por sua segurança.
    Os assassinatos de indígenas do povo Guajajara – autodenominados Tentehar – têm se sucedido rapidamente e de forma impune na TI Arariboia, e vêm ocorrendo tanto dentro do território de usufruto exclusivo dos indígenas quanto no município mais próximo da área, Amarante do Maranhão (MA), bastante frequentado pelos índios que buscam itens no comércio local ou atendimento em serviços básicos.
    No dia 26 de março, o indígena Aponuyre Guajajara, de apenas 16 anos e natural da aldeia Arariboia, uma das mais de cem aldeias do povo Tentehar/Guajajara que compõem a Terra Indígena Arariboia, foi assassinado a tiros no município de Amarante do Maranhão.
    Na madrugada do dia 11 de abril, Genésio Guajajara, de 30 anos, habitante da aldeia Formosa,também foi assassinado na zona urbana de Amarante do Maranhão com pauladas e um tiro no tórax. Ele estava na cidade para receber a cesta básica distribuída pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
    No dia 19 de abril, Isaías Guajajara, de 32 anos, da aldeia Bacabal, foi assassinado a facadas, também no município de Amarante do Maranhão. Poucos dias depois, em 22 de abril, o indígena Assis Guajajara, de 43 anos e morador da aldeia Nova Viana, foi morto a pauladas no interior da própria Terra Indígena Arariboia.
    Atentados
    Ailson dos Santos Truká (na foto) segue internado em estado estável no Hospital Regional de Caruaru, município do agreste de Pernambuco, depois de sofrer atentado a mão armada no último dia 16 de abril. Yssô Truká, como é conhecido, foi atingido por três disparos e um dos projeteis se alojou na região pélvica – o indígena aguarda se a melhor solução será a retirada da bala por um procedimento cirúrgico ou se o corpo conseguirá conviver com ela. Yssô está no hospital sob proteção de escolta da Polícia Federal.
    O atentado aconteceu por volta das 5 horas da manhã na frente de uma casa mantida por estudantes indígenas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Caruaru. Com outros indígenas Truká, incluindo um de seus filhos, Yssô arrumava bagagens no veículo que os levaria de volta para a aldeia, localizada no município de Cabrobó, quando dois pistoleiros em uma moto abordaram a liderança indígena efetuando os disparos. Yssô buscou se proteger; de quatro tiros desferidos contra o indígena, três o acertaram.
    A câmera de vigilância de uma casa vizinha registrou toda a ação. Antes do ataque, os pistoleiros passaram de moto para reconhecer Yssô. Na sequência retornaram e então fizeram os disparos. O filho da liderança indígena interveio, gritando aos homens não identificados: “Vocês mataram meu pai! Assassinos!”. Com isso, os pistoleiros acreditaram que de fato tinham conseguido executar Yssô e fugiram – abortando novos disparos, na medida em que fizeram a movimentação de voltar para concluir o crime.
    No Maranhão, um outro atentado terminou em morte. Na noite do dia 21 de abril, o indígena Joel Gavião Krenyê, liderança do povo Phycop (Gavião), da Terra Indígena Governador, acabou morrendo depois de um suposto acidente, onde apenas o veículo em que o indígena estava permaneceu no local. Embora a justificativa oficial para a morte seja a de que Joel se envolveu em um acidente automobilístico no caminho entre o município de Amarante do Maranhão e a TI Governador, a perícia ainda não foi realizada e os indígenas defendem que se trata de um atentado contra Joel.
    Reintegrações de posse
    Trata-se de um verdadeiro festival de reintegrações de posse contra aldeias em terras indígenas. Mesmo quando suspensas, a ameaça do despejo desespera as aldeias e causa instabilidade na vida escolar das crianças. Embora o governo federal tenha reconhecido como tradicional a Terra Indígena Comexatiba, antiga Cahy-Pequi, do povo Pataxó, sul da Bahia, um órgão do próprio governo tem criado impedimentos à permanência dos indígenas na terra, além de fazendeiros e grupos interessados na exploração das áreas para a construção de resorts.
    O Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental (ICMBio), administrador do Parque Nacional do Descobrimento, tem entrado com sucessivos pedidos de reintegrações de posse contra os Pataxó de Comexatiba.
    Apenas esse ano foram três contra seis aldeias do povo, sendo que uma delas acabou suspensa pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, no final de março, na noite anterior ao despejo a ser realizado por forte poderio bélico da Polícia Federal.
    Ainda na Bahia, a reintegração da aldeia Gravatá, Terra Indígena Tupinambá de Olivença, terminou com a prisão do cacique Babau e de seu irmão, Teity.
    Ainda em março, cerca de 80 famílias Guarani e Kaiowá do tekoha Taquara, no município de Juti (MS), estiveram ameaçadas de despejo. Depois de decisão da Justiça Federal no fim de fevereiro, a reintegração de posse contra indígenas pôde ocorrer durante visita da relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos e as Liberdades Fundamentais dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, ao Brasil.
    O desembargador Hélio Nogueira, do Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, anulou decisão anterior favorável à comunidade indígena, determinando a reintegração de posse de parte da fazenda Brasília do Sul, que incide sobre o território já identificado e delimitado como de ocupação tradicional do povo Guarani e Kaiowá.
    O Supremo Tribunal Federal (STF) mandou suspender a decisão de reintegração.
    Ao todo, a Terra Indígena Taquara possui 9.700 hectares já reconhecidos e publicados no Diário Oficial da União pela Funai e declarados pelo Ministério da Justiça em 2010, por meio de Portaria Declaratória que está sob contestação judicial.
    A Fazenda Brasília do Sul, que pediu a reintegração de posse, incide totalmente sobre a terra tradicional indígena e teve parte retomada pelos indígenas em 2003, ocasião em que o cacique Marcos Veron foi morto por jagunços.
    (1)  (1) Com informações de Tiago Miotto, jornalista do Cimi, e da Assessoria de Comunicação do Cimi Regional MS.
    (2)  (2) Os dados são parciais e podem sofrer alterações até a publicação do Relatório de Violências Contra os Povos Indígenas – 2015.

  • Meirelles para presidente

    PINHEIRO DO VALE
    Na entrevista que deu na tarde de sexta-feira em frente à casa do vice-presidente Michel Temer, em São Paulo, o ex-presidente do Banco Central do governo Lula falou como se já fosse o novo ministro da Fazenda.
    Ato falho de Henrique Meirelles, certamente uma das pessoas mais versáteis politicamente no país, ou melhor, um pula-muro que poderia bater o recordista mundial do salto com vara das Olimpíadas.
    Há poucos meses Meirelles chegou a Brasília como virtual ministro da Fazenda da presidente Dilma Rousseff, prestigiado pelo ex-presidente Lula e festejado pelo mercado, tanto que só menção de seu nome fez a Bolsa de Valores subir e o dólar despencar.
    Nesta sexta-feira ele aparece no meio dos jornalistas de plantão em frente à mansão dos Temer dando receita de política econômica.
    Para bom entendedor, de aliado de Lula a golpista foi uma chispa. Mais ligeiro que um raio.
    Agora vai começar o seu calvário, caia ou não Dilma, pois com isto ele sinaliza que entra na corrida presencial com o apoio de Michel Temer,  vice-presidente e dono do PMDB, partido que já anunciou que vai ao pleito de 2018 com nome próprio.
    Este nome seria o de Henrique Meirelles. Uma repetição de Fernando Henrique com Itamar Franco. Pega uma crise, resolve o problema e sai do ministério nos braços do povo para o Palácio do Planalto. Só falta combinar com os russos.
    A ambição presidencial de Meirelles é notória. Ele não esconde de ninguém, nos meios da plutocracia internacional, que já é um homem realizado.
    Nada lhe faltaria, pois tem dinheiro aos borbotões, prestígio mundial como banqueiro, nome na política como mago das finanças do presidente Lula e uma vida tranquila nos Estados Unidos, onde vivia nos últimos tempos.
    Só uma coisa faria Meirelles se mexer: a presidência da República. Este seria seu prêmio. Não a cadeira de Dilma, mas a vaga para concorrer, o que, diga-se, não será fácil, pois teria pela frente vários pesos pesados e seu mestre Lula bombando como líder da oposição ao governo Temer.
    Por outro lado, não seria difícil repetir a trajetória de Fernando Henrique. Seria até mais fácil, pois o tucano pegou uma economia em frangalhos. Já Meirelles herdaria uma economia plantada em fundamentos macroeconômicos sustentáveis, com inflação cadente e um potreiro de oportunidades para atrair investimentos.
    Espertamente, ele vê esse páreo como uma barbada.
    Entretanto, ele é um neófito em política. Nem sabe o que é colar no peito um alvo de presidenciável. Vem muita bala.
    Veja o caso de Lula: saiu do governo consagrado, continuou no paraíso como ex-presidente, fazendo conferências pelo mundo e recebendo homenagens.
    Bastou dizer que pensava voltar em 2018 para desabar o mundo sobre ele e sua família.
    Meirelles que ponha as barbas de molho.
    O paulista Antônio Mariz caiu antes de entrar por uma declaração bem menos detalhada que a de Meirelles na saída do encontro com Temer.
     

  • Procuradores induzem depoimento sobre "sítio de Lula"

    Reproduzo texto de Marcos de Vasconcellos, do Conjur:
    O cenário é uma casa humilde no interior de São Paulo. Quatro procuradores batem à porta e, atendidos pelo morador — que presta serviços de eletricista, pintor e jardinagem em casas e sítios—, começam a questionar se ele trabalhou no sítio usado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se conhece um dos donos do imóvel, o empresário Jonas Suassuna. Ao ouvirem que o homem não conhecia o empresário nem havia trabalhado no local, começam o jogo de pressões e ameaças:
    Procurador: Quero deixar o senhor bem tranquilo, mas, por exemplo, se a gente chamar o senhor oficialmente pra depor daqui a alguns dias, e você chegar lá pra mim e falar uma coisa dessas…
    Interrogado: Dessas… Sobre o quê?
    Procurador: Sobre, por exemplo, o senhor já trabalhou no sítio Santa Barbara?
    Interrogado: Não trabalho.
    Procurador: O senhor já conheceu o senhor Jonas Suassuna?
    Interrogado: Nunca… Nunca vi.
    Procurador: O senhor já fez algum pedido pra ele em algum lugar?
    Interrogado: Nem conheço.
    Procurador: Então, por exemplo, aí eu te apresento uma série de documentações. Aí fica ruim pro senhor, entendeu?
    A conversa foi gravada pelo filho do interrogado, um trabalhador da região de Atibaia. Os visitantes inesperados eram os procuradores do Ministério Público Federal Athayde Ribeiro Costa, Roberson Henrique Pozzobon, Januário Paludo e Júlio Noronha.
    Nas duas gravações, obtidas pela ConJur, os membros do MPF chegam na casa do “faz tudo” Edivaldo Pereira Vieira. Sutilmente, tentam induzi-lo, ultrapassando com desenvoltura a fronteira entre argumentação e intimidação, dando a entender que dizer certas coisas é bom e dizer outras é ruim.
    Na insistência de que o investigado dissesse o que os procuradores esperavam ouvir, fazem outra ameaça velada a Vieira, de que ele poderia ser convocado a depor e dizer a verdade.
    Procurador: É a primeira vez, o senhor nos conheceu agora, e eventualmente talvez a gente chame o senhor pra depor oficialmente, tá? Aí, é, dependendo da circunstância nós vamos tomar o compromisso do senhor, né, de dizer a verdade, aí o senhor que sabe…
    Interrogado: A verdade?
    Procurador: É.
    Interrogado: Vou sim, vou sim.
    Procurador: Se o senhor disser a verdade, sem, sem problema nenhum.
    Interrogado: Nenhum. Isso é a verdade, tô falando pra vocês.
    Procurador: Então seu Edivaldo, quero deixar o senhor bem tranquilo, mas, por exemplo, se a gente chamar o senhor oficialmente pra depor daqui a alguns dias, e você chegar lá pra mim e falar uma coisa dessas…
    Investigado ou testemunha
    Ao baterem à porta de Vieira, um dos procuradores diz: “Ninguém aqui tá querendo te processar nem nada, não”.
    No entanto, o nome de Pereira Vieira aparece na longa lista de acusados constantes do mandado de busca e apreensão da 24ª etapa da operação “lava jato”, que investiga se o ex-presidente Lula é o dono de sítio em Atibaia, assinado pelo juiz Sergio Fernando Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba.
    Ao se despedirem, deixando seus nomes e o telefone escritos a lápis numa folha de caderno, os membros do MPF insistem que o investigado escondia algo e poderia “mudar de ideia” e decidir falar:
    Procurador: Se o senhor mudar de ideia e quiser conversar com a gente, o senhor pode ligar pra gente?
    Interrogado: Mudar de ideia? Ideia do quê?
    Procurador: Se souber de algum fato.
    Interrogado: Não…
    Procurador: Se você resolver conversar com a gente você liga pra gente, qualquer assunto?
    Interrogado: Tá.

  • Fiergs quer rigor no corte de despesas federais

     
    “É preciso agir com rigor na política fiscal, encaminhando mudanças básicas na estrutura de despesas federais” diz o presidente da Fiergs, Heitor Muller, em nota distribuída na tarde desta quarta-feira.
    Muller afirmou que a expectativa de uma redução na taxa de juros, hoje mantida em 14,25% pelo  banco central, deve ser transferida para o segundo semestre, quando se espera que o país tenha um novo governo, para sair do “compasso de espera”.
    Para que isso seja possível, porém, o novo governo terá que tomar “medidas corajosas” de combate à inflação. A principal delas, cortar despesas para equilibrar o orçamento. Segundo o atual governo, o alvo destes cortes são os programas sociais.