“O governo deu o primeiro passo, mas não é o suficiente”, afirmou nesta quarta-feira (30) o engenheiro Walter Lidio Nunes, presidente da Celulose Riograndense, em almoço de final de ano com jornalistas gaúchos.
Seu comentário referia-se ao pacote de medidas proposto pelo governador do Rio Grande do Sul, Estado que na sua avaliação constitui “a expressão mais aguda da crise brasileira”.
Quanto ao Brasil, ele manifestou a convicção de que “as medidas estão muito lentas para a gravidade da crise”. A lentidão do governo reflete o impasse político. Segundo ele, “a sociedade brasileira ainda não sabe o que quer, mas tem certeza de que o modelo atual não serve mais, está vencido”.
Lídio só não manifestou pessimismo em relação ao setor de celulose. “Nós mantivemos a competitividade sistêmica graças à interconectividade com os mercados globais”, disse, prevendo a manutenção das atuais dificuldades econômicas ao longo de 2017. O preço internacional da celulose de fibra curta está no ciclo de baixa – em torno de US$ 500 por tonelada.
Recém-chegado do Chile, onde foi conversar com os donos da Celulose Riograndense, o executivo gaúcho fez uma longa análise das perspectivas de investimentos no setor florestal visando à produção de celulose, papel e produtos da economia verde afinados com a Conferência Mundial do Clima. “Sim, eu tenho um sonho de construir uma planta de celulose na zona sul do Estado”, disse ele, lembrando porém que a Celulose Riograndense está limitada pelo recente parecer da Advocacia Geral da União que manteve a proibição – prevista na antiga Lei de Segurança Nacional, ainda vigente — de compra de terras de fronteira por empresas de capital estrangeiro.
“A terra é um ativo estratégico que precisa ser visto sob a óptica das cadeias produtivas”, disse ele, sugerindo que se crie um “conselho de terras” apto a analisar a pertinência de investimentos estrangeiros que comecem pela compra de áreas fronteiriças e cheguem à implantação de indústrias intensivas em capital, como é o caso da celulose. “Em vez de manter a porta fechada, por que não se instalar um olho mágico na porta?”, perguntou, argumentando que o Brasil e o Rio Grande do Sul possuem poucas florestas plantadas em relação à crescente demanda por produtos de origem florestal. Por exemplo, pellets: há vários projetos em discussão no país, inclusive no Rio Grande do Sul, visando atender a Europa, que está abandonando o consumo do carvão, mas a burocracia não deixa as coisas fluírem.
Outra novidade energética: as biorefinarias de processamento de madeira estão ficando maduras para produzir, mas o Brasil continua imerso numa “irracionalidade tributária absurda”. Walter Lidio afirma que o governo brasileiro é um “sócio maldoso” das empresas, pois começa tributando antes que elas produzam, minando as vantagens comparativas internacionais do país. “O Brasil é 19 vezes mais caro do que o Uruguai na hora de iniciar um negócio”, disse.
Em resposta a um questionamento do JÁ, Lidio disse que “a renúncia fiscal praticada pelos governos estaduais para atrair investimentos é a contrapartida à pesada carga tributária”. Mas reconheceu que falta visibilidade a essas operações pois o contribuinte tem o direito de saber como estão sendo aplicados esses recursos que resultam de isenções fiscais. “Sou a favor de total transparência nesses programas”.
Autor: Geraldo Hasse
Walter Lídio: “O RS é a expressão mais aguda da crise brasileira”
Gestora ambiental do Sinos defende banhados como patrimônio natural
Com uma tiragem de 200 exemplares, circula fora do comércio o livro Os Banhados em Nós e Nós nos Banhados: Patrimônio Cultural, Material e Natural da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul (edição particular, 2016), síntese da tese de mestrado defendida na Universidade Feevale pela técnica em gestão ambiental Débora Cristina da Silva, que atua profissionalmente como secretária administrativa do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos.

Débora mostra a importância de preservar os banhados, reservas de água e de biodiversidade / Acervo pessoal
Nascida em 1980 em Novo Hamburgo, Débora antes mesmo de ter uma carreira profissional já se dedicava ao rio dos Sinos como colaboradora do Movimento Roessler para Defesa Ambiental, do qual foi tesoureira. Embora obedeça ao jargão acadêmico, seu livro de 140 páginas é uma declaração genérica de amor aos banhados como reserva de água e reduto de biodiversidade. No caso do Sinos, cujas cidades e lavouras foram construídas em cima de banhados, a autora faz um pleito explícito para que se preserve o ecossistema “banhado” como patrimônio ambiental.
Nesse ponto – a preservação dos banhados –, o livro de Débora retoma o trabalho pioneiro de Henrique Roessler (1897-1963)* como defensor da integridade das várzeas e banhados do Sinos. Nos anos 1950, contrariando uma ideia muito em voga e defendida até pelo engenheiro e líder trabalhista Leonel Brizola, Roessler se colocou contra a retificação do curso do rio de sua aldeia – São Leopoldo, berço da colonização alemã no Rio Grande do Sul. Sua campanha feita especialmente pelas páginas do Correio do Povo surtiu efeito, mas ficou restrita à bacia do Sinos. A retificação foi feita no vizinho Gravataí, um rio de planície, raso, de baixa declividade e pouca correnteza.
Pretendendo drenar o Banhado Grande para viabilizar a agricultura (arroz e pecuária), fez-se uma canalização do curso inferior do Gravataí, que se tornou assim um rio frágil e quase sem defesas contra cheias e secas. Embora existam no Banhado Grande uma ONG e um observatório da Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, os militantes ambientais ainda não conseguiram montar um plano de manejo da bacia hidrográfica do Gravataí, onde se cultivam anualmente 12 mil hectares de arrozais que vêm sendo alvo da vigilância do Ministério Público Estadual.
Já na bacia do Sinos, com seis mil hectares anuais de lavouras de arroz e uma população de 1,3 milhão de habitantes (na bacia do Gravataí, há outro tanto), já existe um plano de manejo que, sob a responsabilidade do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos) — o mais antigo do país, criado em 1988 — privilegia a segurança hídrica, com prioridade para o abastecimento humano. Integrado por 35 entidades que se reúnem mensalmente para debater e agir em defesa do curso d’água que inspirou o livro Um Rio Imita o Reno, de Vianna Moog, o Comitesinos lidera o movimento pelo tombamento dos banhados como patrimônio cultural, material e natural.
*A biografia do pioneiro está no livro ROESSLER – o Primeiro Ecopolítico, de Ayrton Centeno (JÁ Editores, 2006)Um raro livro sobre a prática do fotojornalismo
Se me fosse dada a chance de escrever um livro sobre minha vida de jornalista, eu tomaria como referência A Força do Tempo (Libretos, 184 páginas), de Ricardo Chaves, repórter-fotográfico que atuou a partir de 1970 no polígono Porto Alegre-Rio-São Paulo-Brasília, voltando em 1992 ao ponto de origem – o diário Zero Hora -, onde segue na labuta como editor do Almanaque Gaúcho, seção que lhe permite ir e voltar ao passado a bordo de fotografias antigas, e praticando com perícia a escrita.
É claro que, no tal livro imaginário, eu teria de me contentar em escrever textos mais ou menos saudosistas, e até recordaria ter feito uma ou reportagem com alguns dos melhores fotógrafos brasileiros – Assis Hoffmann, Leonid Streliaev, Marcelo Curia, Tânia Meinerz, Carlinhos Rodrigues e o próprio Kadão Chaves, entre os gaúchos -, mas me faltaria a matéria-prima fotográfica que, no caso de Kadão, constitui a essência deste livro sem precedentes no panorama jornalístico brasileiro. É muito bom que tenha surgido uma obra desta dimensão no momento em que, atrapalhado por uma convergência de novas mídias sem sustentabilidade econômica, o ofício de jornalista atravessa uma baita crise existencial. Kadão é precisamente um dos últimos moicanos a operar – como PJ, não mais como CLT – num veículo sem perspectiva de sucesso, como a maioria dos newspapers.
Nesse livro editado com maestria por Pedro Haase (Quati Produções) e Clô Barcellos (Libretos), o sessentão Kadão esbanja categoria como fotógrafo e se revela um redator preciso e sensível – uma surpresa para todos aqueles que se acostumaram a ver a maioria dos chamados retratistas limitando-se a ler apenas títulos e legendas, sem paciência para atravessar as colunas cinzentas dos textos, porque lhes bastavam as imagens. Na realidade, se ficasse só com as imagens e suas respectivas legendas, o fotojornalista já formaria uma obra respeitável. Com os textos, dá de relho na concorrência.
Ao lembrar os melhores momentos de sua carreira, sem ter esquecido sequer o nome dos motoristas que o levavam às metas, Kadão Chaves se equilibra bem como autor e personagem de um raro documento sobre a história da reportagem fotográfica no Brasil e no mundo. Tamanho comedimento, sem falsa modéstia, pode ser de extrema utilidade como matéria de estudo em escolas de jornalismo. Kadão Chaves fotografou grandes figuras do século XX – Fidel Castro, o Papa, Pelé, Atahualpa Yupanqui, Erico Verissimo e Chico Mendes, entre outros – mas não perdeu a capacidade de refletir sobre as pequenas grandezas e as grandes misérias deste mundo velho sem porteira. Da capa que mostra a fachada de uma relojoaria desativada de Montevideo à contracapa com a cara do próprio photo worker, A Força do Tempo não desperdiça imagens nem palavras.O poeta Nei Duclós retorna ao “crime” de 1976
“Este é o poeta Nei Duclós”, me disse Jorge Escosteguy (Scotch), indicando um sorridente magrão de olhos azuis e cabelos compridos. Posso estar enganado quanto à data — final de 1976, acredito – mas não quanto ao local: foi no corredor de acesso às baias da redação da revista Veja, onde fazíamos parte da colônia gaúcha, ao lado de JA Dias Lopes, Valdir Zwetsch e Vitor Hugo Sperb — tínhamos ainda como uma espécie de gaúcha honorária a Dorrit Harazim, cidadã do mundo nascida casualmente em Iraí.
Como sempre, o santanense Scotch estava apressado e praticamente rebocava o amigo uruguaianense, que não escondia a timidez (ou seria constrangimento?), para a editoria de artes&espetáculos, onde o editor José Márcio Penido, mineiro cordial, lhe daria alguns trabalhos avulsos. Resenhas de livros, que dariam ao novato gaúcho (“noviço rebelde”, quase escrevi) um duplo prazer: ler livros recém-lançados e tirar disso seu ganha-pão.
Eram tempos difíceis, politicamente, mas não faltava trabalho razoavelmente bem remunerado: bastava um frila por semana numa das revistas da Abril ou em outras editoras de São Paulo ou do Rio para um jovem repórter sustentar-se. Caras criativos e competentes como Nei Duclós nadavam de braçada no mercado editorial do auge da Ditadura Militar.
Foto de Juarez Fonseca, na Ufrgs
Aos 28 anos, já tarimbado como jornalista, Nei era festejado como o poeta que se revelara excepcional logo no primeiro livro, Outubro, lançado em 1976 em Porto Alegre. Nos anos seguintes ele lançaria outros, como No Meio da Rua (1979), mas acabaria deixando a poesia mais ou menos de lado para lutar pela sobrevivência na Paulicéia áspera e cruel. Ele e Scotch trabalhavam juntos na IstoÉ e até na revista da Fiesp nos anos 1990, quando o santanense sucumbiu a um infarto, 20 anos atrás.
Agora, 40 anos depois da memorável estréia literária do poeta Nei Duclós, ei-lo de volta com o mesmo Outubro numa edição comemorativa recheada de aportes, considerações e elogios de amigos e admiradores, entre eles Claudio Levitan, Dilan Camargo, Juarez Fonseca e Luiz Carlos Merten, gaúchos que afirmam ver nesse livro uma espécie de “manifesto de uma geração”. De fato, Outubro mantém acesa a chama da juventude poética dos terríveis anos 70.
Nei Duclós fotografado por Nana Monteiro/ND
Morando num ermo recôndito em Florianópolis depois de trabalhar por duas ou três décadas em São Paulo, sempre entremeando jornalismo, crônica ,conto, assessoria de imprensa e poesia, Nei Duclós não conserva da fisionomia da juventude senão os profundos olhos azuis. A cabeleira hippie deu lugar a um corte convencional de barbearia e a magreza poética transformou-se numa opulenta obesidade. Nada de novo nas fronteiras da vida: muitos magros viraram gordos enquanto alguns se tornaram praticamente irreconhecíveis à medida que o tempo lhes alterava a estampa, mas nem todos renunciaram à humanidade. Embora castigado pelos transes da vida, Nei Duclós não perdeu o peculiar senso de humor e se manteve fiel ao seu passado poético. Mais do que isso, ele continua escrevendo e publicando artigos, crônicas, contos e poemas em seus endereços digitais, como se pode conferir no site www.consciencia.org/neiduclos, no seu blogoutubro.blogspot.com, no Facebook e no Twitter, tudo isso indicado no Google.
Visto em perspectiva, Outubro de 1976 lembra o trabalho de poetas armados de graça e raiva como Thiago de Mello, Vinicius de Moraes antes de aderir à MPB, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Santana e Armando de Freitas Filho, entre outros. Diferente da maioria dos acima citados, o que mais caracteriza a poesia de Nei Duclós é a economia de palavras e até de sinais gráficos como ponto e vírgula.
Em poucos versos ele liquida o assunto: “Sempre que vejo um rio/parece que do outro lado/está a Argentina” (Lição de Travessia, poema em que ele fala “d’as balsas carregadas da infância”). Para encurtar esta resenha, vejam o poema que ele escreveu sobre Mario Quintana:
“Olhem o antípoda
olhem o animal da palavra
É um dinossauro na cidade de vidro
Borboleta branca na floresta queimada
Respeitem seu andar
e desconfiem com temor
de sua conversa fiada
Ele é o flagelo do Senhor
e vocês não sabem”
Um “thriller” do que a ditadura faria nos anos seguintes
Lançado em agosto e repicado agora na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, “O Sargento, o Marechal e o Faquir” (272 páginas, Libretos), de Rafael Guimaraens, recebeu uma carrada de comentários favoráveis em jornais, revistas e blogs, mas nenhuma resenha ousou dizer que se trata da mais completa e precisa reconstituição da história trágica do sargento nacionalista Manoel Raymundo Soares, protagonista central – como vítima — do “Caso das Mãos Amarradas”, que veio à tona em agosto de 1966 na margem esquerda do Rio Jacuí, em águas da capital gaúcha.
Seus algozes, identificados como integrantes do DOPS e do Exército, não foram punidos por um rol de crimes que começa com a prisão sem mandado judicial, segue com a tortura por uma semana em dependências militares e policiais, agrava-se com o encarceramento por cinco meses sem processo na Ilha do Presídio, no Lago Guaíba, e termina com a morte por afogamento durante uma sessão de “caldo” em que o preso foi obrigado a ingerir uma bebida alcoólica, fosse para aguentar o frio de agosto, fosse para “abrir o bico”.
Na sua última viagem, à noite, nas águas do lago-rio que banha Porto Alegre, Manoel tinha as mãos amarradas às costas com tiras de sua própria camisa, item que ajudaria na sua identificação, pois a “volta-ao-mundo”, fácil de lavar e que não precisava ser passada a ferro, era sua roupa de todo dia na prisão.
O “Caso das Mãos Amarradas” passou das páginas policiais para o noticiário político, pois gerou uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) na Assembleia Legislativa do Rio do Grande do Sul, afrontando as autoridades militares e o próprio governador Ildo Meneghetti, obrigado a lavar as mãos como o títere romano Pôncio Pilates no caso de Jesus Cristo, segundo o Novo Testamento.
Salvo descuido histórico, Manoel Raymundo Soares foi a primeira vítima da tortura política praticada à sombra da ditadura militar então comandada pelo marechal Castello Branco.
No livro, o sargento nacionalista, admirador de Leonel Brizola, desertor do Exército, brilha como herói por não entregar os companheiros dissidentes da ditadura, com quem andava a tecer planos revolucionários — findas as sessões de tortura, isolado em sua cela, ele punha-se a cantar o Hino Nacional Brasileiro, como recordaram alguns companheiros de cárcere ao repórter-historiador de Porto Alegre. No fundo, era um sonhador que foi se isolando no radicalismo político, como aconteceria com algumas centenas de dissidentes nos anos seguintes.
Já o marechal Castello Branco, pivô da prisão do sargento, consta no livro como o chefe fraco que não ousou enfrentar os militares adeptos do endurecimento do regime, sacrificando seus supostos sentimentos democráticos à disciplina da caserna.
Por fim, num achado digno dos melhores romances policiais, Rafael Guimaraens põe na história um “tertius” até agora esquecido por narradores e acadêmicos que se debruçaram sobre o Caso das Mãos Amarradas: o faquir fracassado Edu Rodrigues, pintor de letreiros e fazedor de bicos que entra em cena para “ajudar” o solitário sargento na colagem de panfletos antiditadura no centro de Porto Alegre e acaba se revelando um “cachorrinho” do Serviço Nacional de Informações (SNI).
Narrada em takes que se sucedem como um pré-roteiro cinematográfico, a história não se limita às três personagens do título. Nela aparecem também investigadores policiais sem medo, advogados conscientes de seu papel profissional e parlamentares corajosos diante de autoridades civis e militares armadas de evasivas, mentiras e omissões. O próprio general-presidente Castello Branco não obtém resposta para um memorando em que pede informações sobre o “Caso das Mãos Amarradas”. Entre os estudantes que se movimentam na cena, aparece até Tarso Genro, então com 16 anos, disputando vaga na liderança da entidade nacional dos secundaristas.
Em seu relatório-denúncia, o promotor Paulo Tovo conclui que os principais responsáveis pela morte do ex-sargento são o delegado do DOPS José Morsch e o major do Exército Menna Barreto. Nada acontece, exceto que Tovo ficou marcando passo em sua carreira no Judiciário gaúcho. Uma injustiça profissional, sem dúvida.
Cinquenta anos depois, o crime de Porto Alegre permanece impune. Afora a leveza e precisão da narrativa, o maior mérito do livro de Rafael Guimaraens é provar que o “Caso das Mãos Amarradas” foi um “thriller” do que a ditadura militar faria nos anos seguintes, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, que se destacaram como centros de caça, aprisionamento e tortura de dissidentes políticos.
Porto Alegre não abdicou de seu papel como coadjuvante da repressão, como se viu no sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, episódio de novembro de 1978 cujos autores não foram punidos, embora estivessem a serviço da Operação Condor, uma das maiores organizações criminosas da história da América Latina (ver a propósito o livro “Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios” (464 páginas, L&PM Editores, 2008), do repórter-historiador gaúcho Luiz Claudio Cunha.
Autor de vários livros-reportagem, entre os quais se destacam “A Enchente de 1941” e “A Dama da Lagoa”, Rafael Guimaraens construiu com “O Sargento, o Marechal e o Faquir” sua maior obra. Entretanto, trata-se de apenas um tijolo a mais na reconstrução da história brasileira que se enfileira ao lado de outros livros como “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2013), do gaúcho Ayrton Centeno, que usam a ferramenta da investigação jornalística para fazer aflorar verdades e mentiras, das quais se valem os cidadãos conscientes para fazer a justiça possível no momento oportuno.
Foi assim no episódio de dois anos atrás, quando a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre rebatizou como Avenida da Legalidade e da Democracia a principal via de acesso a Porto Alegre, até então denominada Marechal Castello Branco."Moro num país desigual…"
Geraldo Hasse
Para um pobre mortal situado na base da pirâmide social, é afrontoso ver os senhores magistrados aceitarem o benefício do auxílio-moradia alegando que é legal e que uma recusa, ostensiva ou discreta, seria mal vista pela categoria. Nisso, ao contrário da lenda, a magistratura não foi lerda. Até onde se sabe, nenhum juiz teve coragem de recusar o auxílio- moradia, o mais recente privilégio da categoria funcional mais bem remunerada do país.
A mordomia habitacional dos magistrados é acintosa quando se pensa que essa casta é protegida constitucionalmente por três invejáveis garantias: indemissilidade, inamovilidade e irredutibilidade dos salários.
Essa trinca de “ades” foi institucionalizada para que os magistrados fiquem teoricamente livres de perseguições políticas e de tentações corruptivas, podendo assim se dedicar à administração da justiça e à busca do bem comum. Entretanto, bem remunerados e com a carreira garantida, muitos deles se deixam seduzir pelo brilho fácil das entrevistas e palestras.
No momento, os mais picados pela mosca azul do poder são o juiz Sergio Moro, o ministro Gilmar Mendes e a nova presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen Lúcia.
Por mais meritocrático que seja, o sistema do Judiciário abriga e cultiva privilégios incompatíveis com o estágio de (sub)desenvolvimento do Brasil.
Seria muito mais justo se o dinheiro do auxilio-moradia fosse aplicado em favor da segurança do patrimônio público — escolas, creches e postos de saúde – frequentemente depredado por gente sem noção de direitos e deveres sociais. Mas quem vai dizer – “Eu passo, não vou aceitar”?
Como estão no topo da escala salarial do funcionalismo, eles poderiam dispensar benesses que afrontem o espírito democrático. Seriam aplaudidos pela população. No entanto, o que se vê é a maioria dos magistrados fazendo força para entrar para o clube da elite pensante, aquela que só pensa em si.
Além de não ter coragem de corrigir distorções como as férias de 60 dias, que agridem a cidadania, a maioria dos magistrados adota como seu o estilo de vida da classe dominante, ignorando o fato de que a maioria dos brasileiros está digerindo o trauma do impedimento presidencial e o triste espetáculo da Operação Lava Jato.
Na vida pública, o exemplo ético é fundamental. Sem ele, não se constrói um país equilibrado e feliz.O gol de letra de Luís Augusto Fischer e a canção de Bob Dylan
Geraldo Hasse
Por uma cósmica coincidência, rolaram apenas duas semanas entre o lançamento do livro “O Alcance da Canção” no dia 28/9 em Porto Alegre e o anúncio em Estocolmo de que o Nobel de Literatura de 2016 vai para o poeta-músico norte-americano Bob Dylan, de 75 anos.
Os dois fatos em duas capitais tão distantes têm algo em comum: reverenciam o poder da canção popular como uma das principais expressões artísticas da vida contemporânea. Estocolmo e Porto Alegre no mesmo diapasão… doce ilusão.
Enquanto Dylan acrescentou quatro milhões de euros à sua fortuna, os organizadores do livro gaúcho precisaram do apoio da FAPERGS para colocar de pé um produto editorial digno de ser lançado num programa-de-auditório radiofônico com canja de N estrelas da canção. Na real, o lançamento foi na Palavraria, cujo espaço não comporta mais do que um banquinho-e-um-violão.
Com 354 páginas, organizado por Luís Augusto Fischer e Guto Leite, O “Alcance da Canção” contém 22 ensaios sobre diversos aspectos do trabalho de vários “cancionistas”, termo empregado para designar os autores de letras musicadas. Com tiragem de 2 mil exemplares, o livro foi publicado pela Arquipélago Editorial.
Ousadia e coragem
Sem dúvida, dar o polpudo galardão para um cantor pop foi uma rara ousadia da ínclita Academia de Ciências da Suécia, que não costuma confraternizar com gente ligada à contracultura e, mesmo assim, premiou um ícone da rebeldia juvenil dos anos 60. Mas, convenhamos, corajoso mesmo foi o Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ao criar, há 25 anos, por iniciativa do professor LA Fischer, a disciplina Canção Popular, que vem ajudando a formar mestres e doutores em literatura brasileira. O que se estuda na UFRGS é Noel Rosa, João Gilberto, Chico, Gil, Caetano, a milonga, a bossa nova, o samba-enredo e temas de origem estrangeira como Atahualpa Yupanqui e Bob Dylan, cujas canções exercem poderosa influência sobre a cultura popular all over the world.
A entronização da canção popular como tema de estudo na UFRGS talvez ajude a explicar porque a capital gaúcha, apesar de distante dos centros do poder administrativo e econômico-financeiro do país, mantém características de vanguarda cultural. Aqui viveram alguns trabalhadores intelectuais que bem poderiam ter ganho o Nobel literário – Erico Verissimo, Mario Quintana, Josué Guimarães, Moacyr Scliar. E estão por aí meia dúzia de escritores com bagagem para viajar eventualmente a Estocolmo: LF Veríssimo, LA Assis Brasil, AG Schlee, Al Cheuiche, JC Pozenato e o próprio LA Fischer.
Sem dúvida, as chances desses obreiros contemporâneos diminuíram agora que os suecos abriram a porteira para a canção popular. Mas nessa nova categoria o Rio Grande do Sul e o Brasil poderiam concorrer com uma baita seleção de cancionistas atuantes em Porto Alegre, Pelotas, Fortaleza, Olinda, Belém, Campo Grande, Salvador, Vitória da Conquista, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras praças musicais.
Antes tarde do que nunca
Na realidade, a pergunta emergente é: por que somente agora os membros da academia sueca se deram conta da importância da canção popular como eixo da comunicação social no mundo moderno?
Ao longo do século XX a poesia popular foi difundida sobretudo pelo disco, o rádio, o cinema e a TV – em muitos casos, com aguda estridência. A partir dos anos 1990, com a internet, a coisa se tornou um dos fenômenos culturais mais intensos da era cibernética, fundindo letras e músicas em discos, filmes, shows de palco e TV.
Muito antes do Nobel, prêmios como o Oscar e o Grammy reconheceram o peso da canção popular no mix cultural da modernidade. Um quarto de século atrás, o curso de Letras da UFRGS avançou ao admitir que tal forma de expressão constitui um dos eixos formativos da cultura brasileira – e isso vem no mínimo desde Noel Rosa (1910-1937), que se viabilizou via disco+rádio, quando o samba-enredo engatinhava nos bairros do Rio, décadas antes da bossa-nova. Para marcar esse gol, Fischer contou com a ajuda de Homero Araujo e Paulo Seben de Azevedo.
Eis aí um bom pretexto para uma saudável manifestação de bairrismo: enquanto os caçadores de nobeis de literatura passavam os anos procurando e descartando talentos condensados em formato de livro, alguém do Terceiro Mundo saltou na frente, plasmando o novo em pleno bairro Bom Fim, o bom e velho Bonfa onde circulou anônimo o próprio Bob Dylan, ciceroneado por Eduardo Bueno, o Peninha, seu tradutor. Um achado & um perdido nas noites fumacentas do portinho.
Depois do curso de Canção Popular, vem agora o livro aprofundar a leitura do fenômeno letra-e-música. Em “O Alcance da Canção”, um dos textos mais instigantes focaliza as versões brasileiras das letras de Bob Dylan. Nas primeiras duas páginas de seu longo ensaio (24 páginas), a mestra em literatura brasileira Demirse Merilva Rufatto traça um retrato profundo do artista que diluiu o folk americano no showbiz mundial — o que já bastaria para justificar sua nobelização. Mas Dylan foi mais do que isso. Ele se colocou e permaneceu no centro da música popular enquanto os Estados Unidos faziam das suas no Vietname, em Cuba e no Brasll, entre outros quintais, no afã insano de conter o avanço do comunismo, que acabou ruindo sozinho, sob o peso da dialética da História.
O jornalista-escritor Lourenço Cazarré, autor de uma carrada de livros, distribuiu aos seus amigos internéticos um desabafo dizendo que a escolha de Bob Dylan como Nobel de Literatura foi um lance de marketing da Academia de Ciências da Suécia, cujo objetivo seria afagar corações e mentes de centenas de milhões de fãs do cancionista americano.
Segundo o escritor-jornalista, que se criou em Pelotas e vive em Brasília, os acadêmicos suecos devem ter pensado assim: “Por que conceder o Nobel a um poeta qualquer, que deve ter 1.300 leitores em seu país e mais 859 espalhados pelo mundo, se podemos concedê-lo a um astro da música pop, tocado no mundo inteiro?” Faz sentido, mas estaria o Nobel precisando de publicidade?
O anúncio do prêmio a Dylan bateu recordes em todas as mídias. “A entrega do Nobel a um poeta qualquer, da Tailândia ou da Rússia, nem seria percebida”, argumenta Cazarré, para concluir: “O prêmio Nobel, cuja atribuição sempre foi política, passou a girar agora — como tudo mais — em função do marketing.”
A hipótese é bastante plausível, do ponto de vista da academia sueca, mas fica a dúvida: os curadores do Nobel correriam o risco de indicar alguém capaz de recusar a honraria? Seria Dylan capaz de chutar o balde? Nem pensar: no mundo capitalista (e até no que resta do comunismo), ninguém em sã consciência desprezaria tantos milhões de euros.
Sendo o marketing uma via de mão dupla e Bob Dylan um cara bastante ligado no vil metal (como bem lembrou um ácido Belchior numa letra de 1976), podemos concluir que rolou aí um bom negócio para ambos os lados, mas não só isso. Nesse aspecto, aliás, vale a pena ler em “O Alcance da Canção” o ensaio da jornalista Katia Suman sobre a influência do jabá (propina) na difusão da música no rádio e na TV.
A nobelização de Dylan está rendendo pano pra muita manga. Se era isso que pretendia com o Nobel de Literatura de 2016 – bajular os fãs de um monstro sagrado da canção popular com objetivos político-mercadológicos–, a Academia de Ciências da Suécia marcou um gol de placa. Com alguma controvérsia, naturalmente.
Por exemplo, logo de cara se acreditou que a escolha foi atribuída aos livros de depoimentos e memórias lançados recentemente pelo artista. Nesse caso, teria sido uma bola fora da academia sueca. Se fosse o caso de premiar o livro de um cantor-compositor, por que os suecos não consideraram a densa “Verdade Tropical” de Caetano Velloso?
Nesse livro de 1997, com 524 páginas editadas pela Companhia das Letras, o vate baiano escreveu sobre Dylan (página 272): “Ele é uma figura a um tempo central e à parte no panorama dos anos 60 – e um traço forte do século. Um dos mais impressionantes exemplos da pujança criativa da cultura popular americana, da cultura popular americano tout court. No momento em que os ingleses dominavam o jogo com sua versão do rock’n’roll do lado de lá do Atlântico, do lado de cá Dylan já apresentava o espessamento desse caldo em que Beatles e Rolling Stones beberam, mostrando onde está a nascente e de onde jorra a energia”.
Diante de uma síntese tão generosa sobre o alcance da obra de Bob Dylan, cabe indagar se o próprio astro pop americano seria capaz de escrever algo equivalente sobre Caetano ou sobre Chico Buarque ou Gilberto Gil, três caras que ficaram aqui ralando na contracultura do subdesenvolvimento latino-americano enquanto o imperialismo ianque sobrevoava o planeta, fazendo espionagem aqui e lançando bombas ali, com apoio de uma parafernália tecnológica.O "endireitamento" do Brasil
Quer saber para onde caminha o Brasil? Basta observar a Petrobras, conhecida mundialmente pela sigla BR.Carne e unha, o governo e sua maior empresa mudaram a tripulação – às custas de “um golpe parlamentar-midiático”, diz o PT; ou “pela via constitucional”, segundo os novos mandatários capitaneados por Michel Temer, que colocou no comando da nave-mãe da economia brasileira o economista Pedro Parente, fiel escudeiro de FHC, rei dos tucanos.Dividindo tarefas como tripulantes da grande nave BR, tucanos (PSDB) e pardais (PMDB) navegam com a empáfia dos velhos lobos do mar. Tome-se como referência o anúncio do governo federal publicado no dia 5 de outubro em página inteira de todos os grandes jornais.O título “Vamos Tirar o Brasil do Vermelho para Voltar a Crescer” é nada menos do que um agressivo manifesto político. O conteúdo da mensagem lista 19 itens acusando os governos petistas de irresponsabilidade fiscal. A peça publicitária esquece que alguns atos dos governos Dilma (2011-2016) foram assinados pelo então vice-presidente Temer, que ficou quieto no milharal enquanto não mudavam os ventos.Os famosos “erros do PT” foram aprovados pelos políticos e aplaudidos pelos empresários, que se beneficiaram da política de desonerações criada para amortecer a crise econômica vinda de fora. Quando a conta chegou em forma de desemprego, inflação e recessão, toda culpa recaiu sobre o PT, que restou praticamente sem aliados. Finda a coalizão PT-PMDB, começou a coalizão PMDB-PSDB. Por quanto tempo? Sabe-se lá, mas não é de graça que o PMDB fica no centro do espectro político — é o lugar mais cômodo para fazer alianças à esquerda e à direita.O fato indiscutível é que, depois de uma década de “socialismo à moda PT”, o governo Temer deu início a um ciclo de “endireitamento” do Brasil. Aqui e ali já se veem os primeiros movimentos da campanha eleitoral de 2018, quando os brasileiros vão ter de escolher um novo presidente. O segundo turno em várias cidades é um “thriller” do longa que seremos obrigados a ver nos próximos anos.Há no ar um inequívoco cheiro de velha república. Já estão se agitando no paddock os tucanos Aécio, Alckmin e Serra. Se ao trio AAS de tucanos forem adicionados os pardais de todo o Brasil, não há dúvida de que estamos à mercê de uma guinada reacionária similar à praticada em 1964 pelos militares em favor dos que abominavam as reformas prometidas por João Goulart. A ditadura durou 21 anos mas preservou a Petrobras e outras estatais. E agora?Vejam o que está fazendo a Petrobras para sair do buraco em que se meteu com a presunção de que podia tudo como controladora de uma das maiores reservas mundiais de petróleo, o pré-sal. Nos últimos três anos, acumulou prejuízos de R$ 1 bilhão por quinzena após meter-se em canoas furadas como a construção em Pernambuco de uma refinaria-gigante para processar petróleo da Venezuela. A parceria binacional Brasília-Caracas fracassou e a BR ficou sozinha na parada. A refinaria já está operando, mas o orçamento inicial de R$ 5 bilhões foi parar entre R$ 18 e R$ 21 bi, resultado de uma escandalosa mistura de corrupção, incompetência e megalomania.Na busca do equilíbrio entre receitas e despesas, a empresa lançou um programa de desligamento voluntário que foi encerrado com pouco mais de 11 mil adesões e vai custar R$ 4 bilhões, uma montanha de dinheiro para nós pobres cidadãos e um quase-nada para a rainha da economia brasileira, que fatura coisa de R$ 1 bilhão por dia.Enquanto isso, para tocar o barco, a fabulosa estatal brasileira vai vendendo sua participação em empreendimentos secundários como a petroquímica, o varejo de combustíveis e até algumas áreas de extração de petróleo, que sempre foi a razão de ser da BR. É exatamente aí que mora o perigo.Segundo a lei aprovada pela Câmara dos Deputados na noite de 5 de outubro (63 anos e dois dias depois da criação da Petrobras), a BR está na iminência de perder a primazia na exploração das jazidas do pré-sal. Caindo o regime de partilha do pré-sal e voltando o regime de concessão, caberá ao Conselho Nacional de Política Energética dizer se a estatal terá ou não preferência na exploração das diversas áreas em que foi dividido o pré-sal.“Está pelada a coruja”, diz um ditado sulino. Ou, seja, o assunto está liquidado, não tem mais retorno. Pelo menos no atual ciclo conservador: dos 15 membros do CNPE, nove são ministros.Não é nada, não é nada e a nossa poderosa BR é comparável a um transatlântico em mudança de rota. Daí se poder dizer que a estatal é um simulacro do Brasil. Ou vice-versa.O país e sua maior empresa estão atolados em dividas, mas ambos não escondem ter um plano de viagem rumo à desestatização da economia, ou à privatização de ativos estatais.A única coisa capaz de reverter o processo de perda da soberania nacional na pira neoliberal é o protesto popular, mas em nome de quê ou de quem, se a maioria dos empresários, executivos e políticos não inspira confiança?LEMBRETE DE OCASIÃO“Meus amigos, não sou criança. Além do mais, conheço muito bem os milicos, sou um deles há mais de 30 anos. Por isso é que lhes digo: a coisa (a ‘coisa’ era a rebelião militar em Minas) não dura mais que 15 dias.”Brigadeiro Francisco Teixeira, comandante da III Zona Aérea, do Rio de Janeiro, no dia 1 de abril de 1964, ao receber correligionários do presidente João Goulart que buscavam proteção contra o golpe(“JANGO, um Depoimento Pessoal”, de João Pinheiro Neto, Mauad Editora, 2008)A avacalhação do Judiciário
Quatro da tarde, liguei o rádio do carro e apertei no botão de busca automática. O som veio do 970 AM: o apresentador de um programa de entrevistas criticava a recente decisão do Supremo Tribunal Federal que, por 6 votos contra 5, confirmou a prisão de condenados em segunda instância antes do trânsito em julgado — ou será do “julgado em trânsito”? (O vocabulário da Justiça é diabólico).
“Estão legislando por cima dos autos”, diz o âncora do Pampa na Tarde. Cheio de razão, ele passa a palavra ao depoente do momento, Dr. Lenio Streck, um jurista muito considerado nas rodas judiciais e nas redes sociais. Data venia, Doutor Streck critica os ministros do STF, prevendo dias sinistros para o exercício do Direito. Presente no estúdio, uma desembargadora chamada Isabel parece constrangida e se esquiva de opinar. Barra pesada nas hostes judiciais.
O apresentador chamado Vitorino dispara balas para todos os lados. Ao vivo ou pelo telefone, vai colhendo depoimentos sobre os fatos do dia. As coisas estão assim, o programa vespertino é exageradamente crítico para uma emissora comercial. No fundo, porém, reflete o sentimento de frustração da sociedade com o andamento das coisas nas instituições governamentais. Em quem confiar?
O Executivo parece perdido em campo, o Congresso se desmoraliza a cada sessão e o Judiciário “está virado num chapéu”, expressão popular corrente em Florianópolis, onde o povo pode explodir a qualquer momento (em novembro de 1979, alguém numa rua central gritou um desaforo ao presidente João Figueiredo, que visitava a cidade a pé em horário comercial; o general se incomodou e partiu para “tirar satisfação”, quase levando uns sopapos dos populares e transeuntes — o episódio rendeu até livro).
“A situação está de vaca não reconhecer bezerro”, disse certa vez, ainda nos soturnos anos 1970, o deputado gaúcho Nelson Marchezan, um dos civis mais queridos pela Ditadura Militar. Ele se referia à confusão política, ao tiroteio moral, à degradação dos debates, em síntese, àqueles tensos momentos rurais que precedem as tormentas, quando os bichos ficam assustados e começam a se estranhar.
Para alguns, a tempestade já passou na forma do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Para outros, a posse do vice Michel Temer é que marca o começo de um processo temerário segundo o qual as melhorias obtidas recentemente pelos pobres serão varridas por um vendaval em favor de minorias historicamente privilegiadas. Um revertério inimaginável até alguns meses atrás.
Como diria o corajoso Dr. Streck, estamos agora diante da avacalhação da Justiça por ação de integrantes do próprio Judiciário. Juizes tomando partido, desembargadores truncando processos, ministros contrariando a letra da Constituição e deixando no ar a sensação de que “a lei, ora a lei” (frase atribuída a Getúlio Vargas), o que está valendo é a opinião dos magistrados, além da convicção dos procuradores e a interpretação policial.
Tudo isso rolando num meio privilegiado por salários no teto, benefícios em penca e mordomias em cascata difunde entre os cidadãos a sensação de que na crise vale tudo para garantir o lugar conquistado. Nesse contexto, o que faz quem não tem sequer lugar na fila?
Fala-se de reforma política, reforma tributária, reforma educacional, reforma agrária… Seria oportuno colocar na agenda, também, a reforma judiciária.
LEMBRETE DE OCASIÃO
O Estado Democrático de Direito está em risco. Exceção em cima de exceção. Tudo em nome de argumentos finalísticos. A moral predou o direito. E com apoio de grande parte da comunidade jurídica. Os juristas estão canabalizando o direito! Isso não vai terminar bem!
Dr. Lenio Streck, comentando sentença recente do juiz Sérgio MoroO pré-sal não pode ser entregue numa bandeja global
Geraldo Hasse
A economia começa a sair do fundo do poço e quem a puxa é a locomotiva Petrobras, que já produz mais de um milhão de barris por dia nos campos do Pré-Sal descobertos em 2006.
Alcançar tamanha performance em apenas dez anos seria caso para prêmio, mas não há no famoso Mercado quem reconheça a eficiência da empresa, colocada na linha do choque entre o neoliberalismo emergente e o distributivismo de governos voltados para os pobres.
Também não se vê ninguém festejar a autossuficiência finalmente alcançada após mais de 60 anos de trabalho em terra e no mar. Pelo contrário, o que se nota é um esforço para deteriorar a imagem da empresa. E, no entanto, ela vem dando a volta por cima.
Na moita, sem alarde, a grande BR já recuperou R$ 455 milhões de dinheiro desviado em casos comprovados de corrupção. Uma gota d’água no oceano, dirão os pessimistas. De fato, o valor equivale a apenas meio dia de faturamento anual da empresa, mas o fato relevante é que a petroleira nacional vem tapando os furos por onde vazavam as propinas.
Detalhe: os últimos R$ 145 milhões foram recuperados de casos ocorridos entre 1997 e 2012. O dinheiro estava em bancos suíços em conta pertencente a Julio Faerman, ex-representante da empresa holandesa SBM Offshore, locadora de navios-plataforma, equipamentos caríssimos e cartelizados no mundo. Num acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, o tal Faerman reconheceu que obteve o dinheiro “através de atividades criminosas”.
As investigações começaram bem antes da Operação Lava-Jato e a Petrobras, como vítima das falcatruas, atuou como assistente de acusação no processo. Atingida em cheio pelo vendaval da Operação Lava Jato a partir de 2014, a Petrobras vem se mostrando muito maior do que a crise.
Dias atrás, o presidente Pedro Parente teve de reconhecer que a produção média dos poços do Pré-Sal ultrapassou a previsão – de 15 mil barris diários, chegou a 25 mil. Ex-ministro dos governos tucanos, Parente parece ter assimilado o pensamento nacionalista dominante no corpo técnico da empresa. Pode ser uma tática conciliatória enquanto não é possível aplicar a estratégia subjacente ao golpe contra a presidenta Dilma: “entregar” o pré-sal a petroleiras estrangeiras.
O perigo está na Câmara dos Deputados, onde tramita o Projeto de Lei 4567/2016, que retira da Petrobras a obrigatoriedade na exploração na camada do pré-sal. Essa proposta formulada às pressas pelo senador José Serra permitirá que as multinacionais explorem os campos do pré-sal sem o essencial controle da Petrobras, que deixará de ser obrigatoriamente operadora. Como ministro de Relações Exteriores do governo Temer, Serra não esconde sua intenção de tirar o filé da Petrobras.
O projeto é antinacional e entreguista porque retira da Petrobras o conhecimento geológico do nosso subsolo marinho, aliena a decisão sobre as tecnologias adotadas, tirando a preferência para equipamentos produzidos no Brasil e terceirzando a decisão sobre o ritmo adequado de exploração das jazidas.
O deputado paulista Carlos Zarattini acaba de publicar artigo no site do GGN argumentando que, ao contrário do que alega Serra, não há motivo para ter pressa na exploração do pré-sal porque, depois que descobriu as jazidas, a Petrobras desenvolveu a tecnologia de exploração em águas profundas e conseguiu reduzir os custos de produção a menos de US$ 10 por barril. Uma façanha que causa inveja e aguça a cobiça internacional.
Seria um crime contra a soberania nacional entregar o pré-sal agora que a Petrobras começou a sair do sufoco financeiro do endividamento. Na real, o esforço da empresa é um exemplo para o Brasil, que entrega aos credores da dívida pública uma montanha de recursos que deveriam ser transformados em investimentos em infraestrutura.
Ao fim e ao cabo do gigantesco processo de endividamento do Brasil, quem mais investe no país é a Petrobras. Até 2021 ela vai investir US$ 70 bilhões em recursos próprios e conta atrair parceiros/sócios que invistam mais US$ 40 bilhões.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“De certa maneira, a rede de companhias multinacionais representa em forma embrionária o sistema nervoso central de uma ordem econômica global emergente.”
Giovanni Agnelli, presidente da Fiat, em depoimento na ONU em 1975, época em que os grandes chefes do capitalismo mundial elaboravam o Consenso de Washington/Trilateral




Visto em perspectiva, Outubro de 1976 lembra o trabalho de poetas armados de graça e raiva como Thiago de Mello, Vinicius de Moraes antes de aderir à MPB, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Santana e Armando de Freitas Filho, entre outros. Diferente da maioria dos acima citados, o que mais caracteriza a poesia de Nei Duclós é a economia de palavras e até de sinais gráficos como ponto e vírgula.
Enquanto Dylan acrescentou quatro milhões de euros à sua fortuna, os organizadores do livro gaúcho precisaram do apoio da FAPERGS para colocar de pé um produto editorial digno de ser lançado num programa-de-auditório radiofônico com canja de N estrelas da canção. Na real, o lançamento foi na Palavraria, cujo espaço não comporta mais do que um banquinho-e-um-violão.