Geraldo Hasse
Começou com um clima festivo e terminou com aplausos do público a sessão de pré-estréia do filme Os Senhores da Guerra na sala 06 do Espaço Itaú do Bourbon Country em Porto Alegre. Pelo menos 200 pessoas acorreram ao convite para ver na noite de segunda-feira (12) o que provavelmente ficará na história do cinema gaúcho como o melhor filme do diretor Tabajara Ruas.
É um western que inicia nesta quinta (15) sua carreira em 18 cinemas do Rio Grande do Sul. Descontado o fato de que o herói morre no fim, é uma história com tudo para agradar o público brasileiro, que só vê cenas de combate em seriados da TV Globo ou em filmes estrangeiros. Bem a propósito, Os Senhores da Guerra tem pré-estréia nesta terça no Rio de Janeiro e quarta em Brasília.
Deixando momentaneamente de lado o herói general Netto, sua personagem favorita da saga farroupilha, o cineasta de Uruguaiana filmou uma síntese do romance do jornalista-historiador José Antonio Severo, responsável pelo resgate histórico da figura de Julio Rafael Bozano, afilhado político do poderoso Borges de Medeiros que teve uma meteórica carreira na primeira metade dos anos 1920, quando uma facção (liberal) do Rio Grande do Sul se revoltou contra o interminável mandonismo borgista.
Recém-formado em Direito, Bozano foi eleito prefeito de Santa Maria e tornou-se o mais jovem tenente-coronel da Brigada Militar após bater o maragato Zeca Neto no Passo das Carretas, no rio Camaquã. Belo e famoso, virou alvo de adversários de seu próprio Partido Republicano Riograndense: morreu aos 24 anos, vítima de uma emboscada quando se defrontavam chimangos, maragatos e integrantes da emergente coluna do capitão Luiz Carlos Prestes, no norte do Estado. Nem no livro nem no filme fica claro quem mandou matar Bozano, mas uma das hipóteses latentes é que teria sido uma armação de gente de São Borja.
Fora nuances feministas como a presença de personagens reais como Maria Clara Rocha (noiva do mocinho) e Cecilia de Assis Brasil (filha do líder civil da Revolução de 23), o novo filme de Tabajara Ruas focaliza essencialmente a luta pelo poder numa região em que caudilhos, coronéis, capitães, tenentes e peões se acostumaram a lutar a cavalo e de espada em punho – uma especialidade de Tabajara Ruas aprimorada em seus dois filmes anteriores, ambientados em meados do século XIX. Em Os Senhores da Guerra, o velho Taba dá um salto de quase 100 anos e põe em cena, com resultado estupendo, fuzis e metralhadoras giratórias, sem desprezar porém os sanguinolentos duelos de espada. Outra façanha da produção foi colocar em cena, com quatro vagões de passageiros, uma maria-fumaça. Quanto às cenas de cavalaria, consta que foi fundamental a ajuda da Brigada Militar.
“Quem levou esse filme nas costas foi a Ligia Walper, aqui ao meu lado”, reconheceu o diretor, nas boas-vindas ao público, recebido com pipoca e refri. Mulher de Tabajara, Ligia trabalhou como diretora de produção, coordenando, por cinco anos, uma equipe de dezenas de pessoas, entre elas o co-roteirista José Antonio Severo, que também operou como captador de recursos; o compositor Pirisca Grecco, responsável pela ótima trilha musical; e Omar Gomes, que organizou a narrativa em versos à moda do “poema campestre” Antonio Chimango, com que Ramiro Barcellos satirizou Antonio Augusto de Borges de Medeiros em 1915.
Autor: Geraldo Hasse
Tabajara Ruas dá o seu melhor no filme Os Senhores da Guerra
José Antônio Severo / Foto Tânia Meinerz Ligia Walper comandou a produção Mau uso dos contêineres espalha lixo por toda a cidade
Geraldo Hasse
Os contêineres de lixo adotados pelo DMLU em Porto Alegre lembram as bolantas usadas em lavouras de arroz do Rio Grande do Sul de outrora. Até se poderia pensar que, se fossem um pouco maiores, esses grandes recipientes metálicos seriam uma gentil oferta habitacional da Prefeitura aos nossos moradores de ruas, muitos deles vindos de pequenas cidades e/ou das zonas rurais.
Mas que bobagem, os contêineres de lixo não são habitáveis como as bolantas lavoureiras, com seus tetos de zinco ou de capim santafé, paredes e assoalho de pinho.
Bolanta usada para guardar material
As casinhas ambulantes rurais eram usadas para guardar materiais e até para a moradia temporária de peões empregados no plantio, na aguação e na colheita de
Bolantas modernas são levadas ao campo
arroz entre o final da primavera e o início do outono. Os contêineres urbanos destinam-se a armazenar o lixo depositado pelos habitantes enquanto não chegam os caminhões coletores da basura.
Porém, como ninguém lê ou leva a sério os avisos colados nos contêineres sobre o uso correto dos tais recipientes ultramodernos, que se destinam especificamente à deposição de dejetos domésticos, a coisa virou esta zorra que aí está: a maioria da população beneficiada pela novidade está descartando tudo nas bolantinhas, inclusive materiais recicláveis que deveriam ser deixados junto às antigas lixeiras ou nas calçadas para a devida recolha da dita coleta seletiva, que passa(ria) em dias certos e horários insabidos.
Por conta do mau uso dos contêineres pelos moradores, os catadores ambulantes já se habituaram a vasculhar as novas lixeiras no afã de recolher os materiais com que trabalham. Uns buscam latas, outros plásticos, alguns papel… Não raro, essa operação de cata-cata feita a toda hora, inclusive de madrugada, termina numa esculhambação generalizada nos arredores dos contêineres, que amanhecem cercados de coisas desprezadas pelos catadores: restos de comida, cocô de cachorro, plástico sujo, fraldas descartadas etc. Uma merda generalizada onde devia reinar a limpeza, a higiene, a logística, a economia de custos, a sustentabilidade ambiental.
A que ponto chegamos: a Prefeitura contrata uma tecnologia importada (da Itália, via Chile) visando “cleanizar” o serviço de limpeza mas, acreditando talvez que a terceirização a autoriza a lavar as mãos, se esquece de instruir a população, incluindo os catadores, sobre como usar o novo equipamento.
Segundo o DMLU, até agora apenas 10% dos habitantes da capital estão colocando a coisa certa nas bolantas do Fortunati. O que transparece dessa confusão é que, aparentemente, o novo sistema de coleta de lixo foi implantado sem um planejamento completo. Para complicar ainda mais, os contêineres estão sendo alvos dos vândalos ativos em manifestações políticas. Cada contêiner custa(ria) R$ 6,8 mil.
Um caminhão coletor, equipado com guindaste para erguer o contêiner e emborcar seu conteúdo numa caçamba à qual está acoplado um êmbolo compactador, custa R$ 900 mil, revela um funcionário do DMLU. Os veículos coletores de lixo são seguidos por caminhões de higienização dos tais recipientes. Caro e bonito, mas parcamente funcional.
Aparentemente, nenhum catador foi instruído (muito menos treinado) sobre a transição tecnológica por que passa o serviço de limpeza pública da capital gaúcha. Tudo indica que os voluntários da catação e da reciclagem – elo perdido da logística da limpeza pública – foram esquecidos pelo projeto da modernização da limpeza pública de Porto Alegre.
(Vale lembrar que o mesmo sistema automatizado de coleta de lixo está implantado em dezenas de cidades brasileiras, entre elas Venâncio Aires (a pioneira), Cachoeira, Bagé, Sobradinho, Rio Pardo e Santa Cruz do Sul (sede da Conesul, licenciada pela Themac chilena, que começou adaptando equipamentos criados na Itália). Em agosto, metade dos coletores foi trocada, com a entrada de outra empresa o negócio, a RN Freitas.
Na realidade, como fruto de uma importação de tecnologia, o sistema de contêineres metálicos é inadequado para a maioria das ruas de Porto Alegre, onde predomina a mão única. Como os caminhões coletores têm seu guindaste apenas apenas do lado direito, os moradores do lado esquerdo das ruas de mão única estão obrigados a atravessar a rua para depositar o lixo no local recomendado. Daí a pergunta óbvia: não seria pertinente desenvolver uma solução local que seja confortável para todos e não apenas para uma parcela dos moradores?
Na lanterna dos afogados
Seja qual for o desfecho do processo de impedimento da presidenta Dilma no Senado – estamos em agosto, mês de cachorro louco –, faz sentido realizar um balanço em torno das realizações do petismo. Afinal, em praticamente a metade dos últimos 28 anos – período entre a entrada em vigor da Constituição de 1988 e o afastamento da presidenta Dilma –, o governo federal esteve nas mãos do PT com Lula (oito anos) e Dilma (cinco anos e cinco meses).Nos outros 14 anos a Presidência foi ocupada por oito anos pelo PSDB (com FH Cardoso); por dois anos pelo corisco carioca-alagoano Fernando Collor (PRN, atual PTC); no tempo restante, o comando ficou nas mãos de três vices do PMDB (José Sarney, dois meses, contado apenas o tempo decorrido após a promulgação da Constituição); Itamar Franco, dois anos; e Michel Temer, três meses).Todos sabem do legado petista: manteve o principal da política econômica do governo FHC (era o que interessava aos ricos, que vivem do principal e dos juros), mas iniciou uma série de programas voltados para os pobres, que sempre viveram mais de promessas do que de benesses.Para fazer essa “revolução social”, o partido de Lula contou com o apoio do ex-partido de oposição consentida à ditadura militar (MDB, hoje PMDB), que atuou como o fiel da balança entre as aspirações da esquerda e os temores da direita. E também obteve a adesão de outros partidos viciados no toma lá-dá cá, pagando sabe-se lá que preços. Deu no que deu, mas muita gente ainda não entendeu o espírito da coisa.Todos se lembram da “marolinha”, palavra usada por Lula para qualificar a crise financeira global iniciada em 2008. O Brasil surfava então nas ondas das commodities supervalorizadas, do pleno emprego, da inflação baixa e dos juros relativamente reduzidos do endividamento público.A equação econômica brasileira ia tão bem que Lula viabilizou como sucessora na presidência a economista Dilma Rousseff, uma técnica que nunca havia disputado uma eleição. E tudo foi relativamente bem até começar a desandar em protestos de rua no primeiro semestre de 2013.Camisas amarelas nas ruas e bateção de panelas nas varandas, mais as manchetes sobre as propinas nos contratos da Petrobras, infernizaram o segundo mandato de Dilma, iniciado com a substituição do longevo ministro da Fazenda petista Guido Mantega, desenvolvimentista pragmático, pelo economista Joaquim Levy, monetarista ortodoxo “indicado” pelo Bradesco. Em um ano de trabalho, Levy não conseguiu fazer a lição de casa, que seria “enxugar”, fazer o ajuste fiscal, promessa do atual ministro Henrique Meirelles, que presidiu o Banco Central do Brasil nos governos Lula.Em meia dúzia de anos, a “marolinha” de Lula virou um tsunami que elevou a inflação, turbinou os juros e fez subir as taxas de desemprego. Enquanto o país entrava em recessão, a Operação Lava Jato punha gasolina na fogueira, diariamente, mediante “vazamentos” à mídia, sob o olhar tolerante do Supremo Tribunal Federal, cujos ministros se esforçam para parecer neutros, como Pilatos na antiguidade romana.Diante do esgotamento político e econômico do governo Dilma, quem apareceu no comando do processo de impedimento presidencial? O carioca Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, que abriu caminho para a posse do vice Michel Temer (PMDB), que se fez assessorar por Eliseu Padilha (PMDB), José Serra (PSDB) e Moreira Franco (PMDB), contando ainda com a ajuda luxuosa de Renan Calheiros (PMDB), presidente do Senado. Ajudaram na missa Aécio Neves (PSDB) e Aloysio Nunes Ferreira (PMDB), componentes da chapa presidencial derrotada em 2014.Nesse jogo sedicioso, para o qual muito contribuiu o comportamento ambíguo da presidenta Dilma, que se fez cercar por uma heterogênea equipe de assessores e ministros “cada um por si” – de Aloisio Mercadante a Katia Abreu e Jacques Wagner –, a cúpula do PMDB, toda ela ardentemente fisiológica, foi apoiada pelos principais partidos de oposição ao PT, especialmente o PSDB e o DEM, que manobram para conquistar posições visando futuras eleições.Sem dúvida, a jogada parlamentar em prol do impedimento da presidenta sujou a barra da maioria dos políticos, cujo conceito oscila entre “chantagistas”, “sabotadores” e “venais”, mas há um saldo positivo desses últimos dois anos: não dá mais para esconder que todos os partidos estão contaminados por distorções históricas do sistema político brasileiro, cujos elos se conectam direta ou indiretamente com as principais empresas brasileiras. É aí que mora o perigo. Perigo global. Há mouros na costa à espreita do petróleo do fundo do mar.As principais empresas envolvidas são as grandes empreiteiras de obras públicas, que “ajudaram” parlamentares a tocar em frente suas campanhas eleitorais. Por conta de denúncias de réus confessos da Operação Lava Jato, foi afastado da presidência da Câmara o deputado Eduardo Cunha, capitão do processo de impeachment da presidenta Dilma. Várias denúncias o incriminam, mas ele não é processado, como se contasse com um “sursis”. Supõe-se que tenha informações importantes sobre dinheiro de campanha e outras contravenções. O potencial destrutivo de Cunha paralisa não apenas o partido, mas inibe o governo interino e constrange até o Poder Judiciário.Por aí fica bastante claro que o PMDB, como as outras agremiações partidárias eleitoralmente mais fortes, não tem coesão sequer como detentor do poder. O presidente interino Michel Temer, por exemplo, oscila sob pressões variadas de interesses diversos. O veneno que paralisou o PT intoxica o PMDB e os outros partidos.Aqui e ali ouvem-se vozes dissonantes. A mais audível é a que Roberto Requião, ex-governador do Paraná. Temos assim um jogo. Comparado a um carteado, vemos os parceiros jogando à mesa cartas menores enquanto vão ao monte em busca de um ás, uma figura ou um coringa. Se a comparação for com uma partida de futebol, o que se vê é uma quantidade enorme de passes laterais e o jogo embolado no meio de campo, como faz a maioria dos times brasileiros.É consenso mais ou menos geral que o alvo principal da “campanha” antiPT é o ex-presidente Lula, que teria se tornado inconveniente para os grandes “players” do mundo globalizado por sua ideia fixa em “ajudar os pobres”.Tenha ou não condições políticas de concorrer em 2018, Lula provavelmente não deixará um sucessor. Teria sido Zé Dirceu, não fosse o Mensalão. Poderia ter sido Tarso Genro, mas o chefe do PT apostou em Dilma, que dificilmente voltará à tona. O prefeito paulistano Haddad virou alvo também.Com tudo isso, Lula se assemelha a Brizola, que não conseguiu fazer do PDT um partido de massas. E agora quem vai herdar o espólio do PT? Quem comandará a sigla, se ela sobreviver?O melhor elenco de petistas está no Rio Grande do Sul. Olivio Dutra é uma reserva moral. Tarso Genro, um intelectual formulador. Raul Pont, um professor com cacife para eleger-se novamente prefeito de Porto Alegre, onde é candidato. Em nenhum estado brasileiro o PT encontra quadros desse quilate.Talvez caiba aos gaúchos o papel de reabilitadores e reconstrutores do PT. Mas somente as urnas dirão se o partido ainda tem um bom quinhão da confiança popular. Antes do fenômeno Lula, que explodiu em 2002, o PT nunca havia passado de 14% do eleitorado. Para chegar lá, precisou fazer acordos, alianças e parcerias com outros partidos. Para ficar no jogo, teve de fazer concessões. Deu no que deu.(publicado originalmente no www.seculodiario.com)LEMBRETE DE OCASIÃO“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”Ditado popular brasileiroRevolução Farroupilha: lançamento reconta a vida do Bento maldito
GERALDO HASSE
Ao longo dos seus 72 anos de vida (1783-1855), Bento Manuel Ribeiro foi peão, soldado e fazendeiro, mas ficou na História como “o Bento traidor”, aquele que mudou de lado quatro vezes durante a Guerra dos Farrapos (1835-1845). Começou como oficial revolucionário e terminou como marechal do império e consultor de Caxias, o Pacificador.
Uma das figuras mais fascinantes da história riograndense, o “outro Bento” inspirou artigos, teses, romances e biografias – a última e mais alentada foi publicada em 1937 pelo jornalista gaúcho Olintho Sanmartin –, mas sua identidade controversa nunca apareceu tão por inteiro como no livro Bento Manuel Ribeiro, o Caudilho Maldito (Martins Livreiro, 2016), do jornalista Euclides Torres, um dos melhores vaqueanos da historiografia riograndense.
Euclides Torres pesquisou o personagem por cinco anos / Foto Gazeta de Caçapava
Autor de A Patrulha de Sete João (2005) e Farrapos & Sabinos (2011), ambos publicados por JÁ Editores, Torres promete autógrafos na Feira do Livro, em novembro próximo, se lhe sobrarem exemplares da primeira edição (312 páginas) que compartilhou com a Martins Livreiro, especializada em literatura riograndense, com loja na Rua Riachuelo em Porto Alegre, onde pode ser comprado por R$ 50.
Estabelecido em Caçapava do Sul, sua terra natal, Torres capinou no assunto por cinco anos. Contando com o apoio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual é membro, ele fez uma releitura instigante da persona mais controversa da República Riograndense.
Com prefácio de Cesar Pires Machado e capa de Ronie Prado com ilustração de Enio Squeff, o livro tem dez capítulos e conta como o filho de tropeiro de Sorocaba chegou ao Sul, criança ainda, e se internou como auxiliar de serviços numa fazenda em São Sepé, onde aprendeu a cavalgar, obedecer e mandar.
De peão a miliciano, o aprendiz de caudilho envolveu-se em missões civis e militares que o ajudaram a se tornar criador de gado – teve fazendas de Alegrete e Quaraí – neste município foi proprietário da histórica Fazenda do Jarau, sede da caverna lendária.
Além de estancieiro, foi guerreiro engenhoso, capaz de enganar os adversários e ludibriar até os seus chefes. É aí que Torres lava a égua, divertindo-se ao narrar as peripécias guerreiras e jogadas políticas do velhaco em Sarandi, no Uruguai (foi um dos poucos que escaparam de uma grande derrota), Passo do Rosário (manteve-se longe da batalha comandada pelo Marquês de Barbacena), na ilha do Fanfa (onde aprisionou o tocaio Bento Gonçalves) e no genial episódio em que, “perseguido” pelo presidente da província Antero de Brito, atraiu-o para uma cilada na porteira de sua fazenda entre Rosário e Alegrete.
À medida que crescia sua fama como chefe militar, aumentavam as evidências de que Bento Manuel entrava nas guerras para aumentar seus cabedais. Ele aparece então nitidamente como um sagaz e ambicioso negociante que faz o possível para ganhar poder e dinheiro, usando como desculpa a necessidade de “ajudar familiares e amigos”.
No fim da sua vida, ninguém confiava nele. Quando morreu aos 72 anos, era um dos homens mais ricos da província, embora não se saiba precisamente quantas sesmarias possuía, quantas cabeças de gado tinha e quantos peões empregava…Oficialmente, teve 11 filhos mas deixou afilhados, agregados, amigos, inimigos e admiradores.
Peão-militar semianalfabeto, Bento Manuel virou um ser tão poderoso que, no final da vida, contou com a ajuda do filho advogado, que escrevia cartas rebuscadas para o pai assinar. Aí está uma das melhores contribuições do livro: Torres descobriu que a influência política de Bento Manuel estendeu-se pelo menos até 1920, incluindo pugilatos eleitorais. Um descendente do caudilho maldito foi assassinado dentro da igreja de São Borja onde se escondera com uma urna cheia de votos.A roubalheira contida e a privataria liberada
A palavra “roubalheira” sempre esteve na boca do povo como alusão genérica a algo corriqueiro nas altas esferas do Poder, mas nunca como agora ela se tornou tão verazmente aplicável a um número expressivo de administradores públicos, empresários, executivos de estatais e parlamentares. Em seu penúltimo artigo, o comentarista político Elio Gaspari apresentou o mais recente balanço da Operação Lava Jato: 57 pessoas condenadas a 680 anos de prisão. Todas elas muito bem situadas nos altos escalões dos poderes econômico e político.
Por obra da Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014 pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal, desvendou-se finalmente o esquema de corrupção que sustentava os partidos políticos e suas práticas eleitorais. Tornou-se enfim explícito o que antes se mantinha escondido sob apelidos diversos: “maracutaia”, “panamá”, “quiprocó”, “mamata” e, claro, “roubalheira”. O aspecto mais tragicômico dessa história é que o partido mais afetado pelas investigações é o PT, a sigla mais bem sucedida eleitoralmente na esfera federal no século XX. Como cabeça dos quatro últimos governos nacionais, o petismo transfigurou-se no principal culpado da roubalheira descoberta na Petrobras, a maior empresa nacional, fundada em 1953. Ainda que nenhum partido reste incólume após tamanha devassa, já está eleito o bode expiatório da temporada.
Com as evidências colhidas, mais as delações de empresários e executivos, a Justiça ficou com a faca e o queijo na mão para dar um novo conteúdo às relações entre empresas e partidos. Só lhe falta iniciativa, pois o Judiciário só opera se for acionado. Todas as investigações, processos e sentenças se concentraram até agora numa única vara do Paraná, sob o martelo do juiz Sergio Moro, a celebridade nacional do momento, tal como aconteceu com o ministro Joaquim Barbosa no final do processo do Mensalão no Supremo Tribunal Federal, que condenou à cadeia membros da cúpula do PT e de alguns partidos aliados.
Embora tenha se tornado um ícone da moralidade, Moro não é uma unanimidade. Ele tem sido criticado por: 1) procurar incriminar sobretudo o PT; 2) abusar do instituto da prisão preventiva para obter confissões dos acusados; 3) aceitar com gosto paparicações de grandes corporações da mídia e outras organizações sociais; 4) não ligar para as consequências da paralisação de contratos e obras no âmbito da Petrobras, com o que estaria favorecendo a fragilização de empresas nacionais e abrindo caminho para a desnacionalização de ativos estatais e privados. Dessa maneira, a Lava Jato seria uma nova edição da privataria tucana, agora pela via judicial (o termo privataria foi difundido por Elio Gaspari, que viu na privatização de estatais nos anos 1990 a prática da pirataria).
Hora de perguntar: quem vai herdar o país que sobrar da Lava Jato? Não há partido que possa se sobressair nessa parada. Nenhumas das 32 siglas vigentes no universo partidário brasileiro tem cacife ou envergadura para reconstruir o edifício da austeridade administrativa. A esta altura do processo, não se sabe sequer quantos partidos restarão depois que a Lava Jato chegar ao fim. A primeira prova será em outubro próximo. A menos de dois meses da corrida às urnas para eleger prefeitos e vereadores, não se ouvem os clarins da campanha eleitoral. Durma-se com um silêncio desses. Falta dinheiro para acionar as gambiarras eleitorais. A prova seguinte para a sobrevivência dos partidos será em 2018 com as eleições para presidente, governador e parlamentares.
Hora de perguntar novamente: que país resultará da limpeza em andamento por iniciativa do MPF com apoio da PF e o respaldo (algo constrangido) do STF?
Ainda é cedo para uma resposta ou até mesmo para um prognóstico calcado na esperança em algo melhor ou, pelo contrário, baseado na observação da realidade de maio para cá, quando o vice-presidente Michel Temer substituiu a presidenta Dilma, mas a mudança em curso sinaliza um retrocesso à época do presidente José Sarney (1985-1990), cujo governo foi marcado pelo fisiologismo e a mediocridade. Afinal, do PMDB não se pode esperar ousadia alguma, pois está na cara que o maior partido brasileiro está atolado em roubalheiras imemoriais.Recuerdos implacáveis
GERALDO HASSE
As reuniões eram nas segundas-feiras à noite na Rua Augusta, 555, sobreloja, endereço do escritório paulista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Íamos por adesão ideológica, simpatia política e interesse jornalístico. Tínhamos consciência de que ali estava desabrochando algo novo.
Tínhamos participado da greve dos jornalistas de maio de 1979, que redundou em 200 demissões na imprensa paulistana.
Na Abril, progressista, ninguém foi mandado embora, nem mesmo um dos expoentes da greve, Rui Falcão, editor-chefe da Exame. Ex-preso político, ele era uma das referências dos jornalistas situados à esquerda do espectro político.
Era nítido que o governo autoritário não tinha futuro. Os sindicatos agitavam as massas, a imprensa nanica levantava bandeiras contra a opressão.
No ABC paulista, reduto da indústria automobilística, o ferramenteiro Lula empolgava a classe metalúrgica com reivindicações salariais e exigências de novos direitos trabalhistas.
E havia outros dirigentes sindicais confiáveis. Jair Meneguelli. AudálioDantas. Luiz Gushikem e Olivio Dutra. Religiosos como Frei Betto. Professores como Laurindo Leal Filho e Fernando Henrique Cardoso, que nem haviam saído do Brasil, como tantos outros.
Com a anistia de agosto de 1979, os exilados estavam voltando. Toda semana descia um figurão no Galeão. Miguel Arraes. Darci Ribeiro. Fernando Gabeira. Apenas Leonel Brizola fez questão de chegar por São Borja, “costeando o alambrado”, para não acordar os fantasmas de 1961, 64, 68.
Alguns desses recém-chegados, sem emprego e sem saber direito a que categoria profissional pertenciam depois de uma década fora do país, pousavam na Rua Augusta 555, que se tornou um point de agregação de personas em busca de uma reconciliação com seu passado e seu futuro.
Éramos em média uns 40/50 por segunda-feira. Quando os frequentadores habituais eram avisados da presença de alguma figura extraordinária, vinda das catacumbas da luta política, das prisões ou do exterior, o quorum da sessão aumentava.
A maioria era de gente da imprensa. Formávamos o núcleo de jornalistas pró-fundação do Partido dos Trabalhadores, aberto naturalmente aos que não pertenciam a outro núcleo profissional ou de bairro.
Além do discreto Rui Falcão, que perderia para Emir Nogueira a eleição para presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, lembro da presença assídua de José Dirceu, da aparição eventual de Bete Mendes e de uma ou outra vez em que baixou na ABI o ex-líder estudantil Luiz Travassos, cuja base original era o Rio de Janeiro.
Também andou por ali José Ibrahim, que havia liderado uma greve em Osasco nos anos 60. Líderes estudantis ou sindicais que estiveram na cadeia ou voltaram do exílio, eles falavam sobre o que disseram ou escreveram Lenin, Marx, Guevara e outros ícones da esquerda.
Era uma discussão para iniciados. Eles acreditavam que se poderia aplicar ao Brasil de 1980 algumas lições da Rússia de 1911 ou 1917. A maioria dos presentes ficava esperando até que o debate refluísse para a situação brasileira, muito confusa e heterogênea, a presidência da República nas mãos de João Figueredo, um general sem traquejo político que aceitou o posto de má vontade, por apego à disciplina.
Ele havia liberado a imprensa, a música e o teatro da censura. Era um avanço, mas nos bastidores da ditadura decadente agiam grupos de extrema-direita que lutavam para não largar as tetas do Poder.
Baixando a voz, também se falava da Repressão, na qual pontificavam figuras como o delegado Sergio Fleury e militares como o general Milton Caveirinha, ambos sinistros e temidos.
Todo mundo desconfiava que nas reuniões da Augusta havia agentes a serviço do regime, como havia informantes nas redações, nos sindicatos, nas gravadoras e nos estúdios de TV. E assim rolaram várias semanas até que o partido foi fundado em 10 de fevereiro de 1980 e cada um tomou seu rumo.
A orientação era para inscrever-se no diretório do seu bairro, mas deixei o tempo correr porque estava disposto a cair fora de São Paulo. Como jornalista, enfim, não me senti à vontade diante da hipótese de filiar-me a um partido.
Militância era uma palavra complicada. Poderia ser um petista sem vínculo, como um torcedor sem carteirinha de sócio do clube. Mas desde a primeira eleição (1982) votei nos candidatos do PT. Somente em 89 balancei entre Brizola e Lula.
Ou, seja, passei a metade da vida enchendo a bola desse partido trabalhista marginal e discriminado por sua origem híbrida, fruto de uma aliança de sindicalistas, religiosos, intelectuais, exilados e trabalhadores em geral.
Passado tanto tempo, tento compreender o que aconteceu. Como explicar que tantos anos depois de sua fundação o partido esteja se esfacelando sob a presidência de Rui Falcão, o jornalista-grevista-referência de 1979? Por que o diabólico Lula está sendo alvo de uma implacável perseguição que tenta enquadrá-lo sob diversas acusações?
Por que o satânico Dr. Dirceu mofa na cadeia, tricondenado e biinvestigado? Como é que Dilma Rousseff não está lá onde devia estar por escolha de 54 milhões de brasileiros? Algo importante se perdeu no caminho de 1980 até aqui. Esse algo precisa ser resgatado.A volta de “Antônio Chimango”
Geraldo Hasse
O professor Luiz Augusto Fischer, líder do ensino e da crítica de literatura do Rio Grande do Sul, acaba de lançar o que provavelmente será reconhecido como o maior lançamento editorial de 2016.
Ramiro Barcellos
É uma requintada reedição de “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcellos, livreto lançado em 1915 para satirizar o poderoso presidente do Estado, Antonio Augusto Borges de Medeiros, apresentado então como “magro como lobisome, feio como o demônio”.
Por sua forma debochada, o poema em sextetos caiu no gosto popular e teve várias edições, tornando-se um clássico da literatura regional, comparado ao “Martin Fierro”, do argentino José Hernandez.
Em dois volumes, capa dura, somando 590 páginas, o trabalho de Fischer foi patrocinado pelo Banrisul, via Lei Rouanet.
Luiz Augusto Fischer | Foto: Divulgação
Além do professor da UFRGS, que desde estudante, em 1979, se envolveu no estudo da terrível sátira de Ramiro Barcellos (médico da Santa Casa e senador), o livro coloca nas mãos dos leitores contemporâneos estudos antigos produzidos por Raymundo Faoro e Augusto Mayer; traz ainda artigos escritos agora por estudiosos como Fausto Domingues, do Instituto Histórico e Geográfico do RS; Gunther Axt, historiador; e José Francisco Botelho, tradutor; Sergio da Costa Franco, historiador; Michel Le Grand, estudioso da literatura gauchesca.
Enquanto o primeiro volume é todo ele dedicado ao Antonio Chimango, o segundo focaliza o restante da obra escrita de Ramiro Barcellos, autor de livros de história, discursos, artigos, poemas e ensaios.
Alguns textos são publicados com pseudônimos como Amaro Juvenal (“autor” do Chimango) ou “Dr. Raphael de Mattos”, usado em polêmicas sobre a prática da medicina e as políticas de saúde pública. Como fecho de ouro, o livro apresenta em suas 28 páginas finais um estudo biográfico sobre Ramiro Barcellos.Vendavais catastróficos ocorrem 10 vezes por ano no Sul do Brasil
Geraldo Hasse
Em sua primeira palestra pública sobre as mudanças climáticas, tema de seu mestrado, a geógrafa Flávia Dias de Souza Moraes mostrou a uma plateia de 160 pessoas na noite de segunda-feira (11) que o vendaval de 29 de janeiro em Porto Alegre é um fenômeno recorrente que acontece dez vezes por ano, em média, no Sul do Brasil, alcançando até o Paraguai.
A tendência é que ocorram principalmente nos meses de maior calor – de outubro a abril.
Convocado pela Associação Gaúcha Para a Proteção do Ambiente Natural (Agapan), o debate sobre a arborização da capital em tempo de mudanças climáticas lotou o auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS.
Com a segurança de uma veterana, a jovem estreante explicou que os tais vendavais catastróficos foram batizados com um nome técnico (complexos convectivos de mesoescala, CCM) mas podem ser chamados simplesmente de “nuvens de tempestade”.
Armam-se ao entardecer e desabam até a meia-noite, durando cerca de seis horas.
As fotos de satélite (tiradas a cada 30 minutos) indicam que o CCM de 29 de janeiro cobriu uma área de 390 mil quilômetros quadrados (maior do que o Rio Grande do Sul, cujo território ocupa 287 mil km²) e tinha um núcleo de quatro quilômetros de largura que desabou exatamente sobre o centro de Porto Alegre.
No Menino Deus, os ventos chegaram a 150 km/h. “São ventos que varrem, não são ventos que sugam, como os dos tornados”, explicou Flávia.
Com fotos e gráficos, a geógrafa da UFRGS mostrou que o fenômeno dos CCMs resulta de uma combinação de altas temperaturas na superfície terrestre (entre 30/36 graus C) com a intensa circulação de umidade marinha e da Amazônia, formando nuvens cujo topo alcança temperaturas baixíssimas (-52 graus C).
O fenômeno é previsto, descrito e diagramado pelos meteorologistas, mas sua intensidade é imprevisível. No caso de 29 de janeiro, explicou Flávia, “foi uma microexplosão com duração de 20 minutos”, cujo núcleo caiu em cima do Parque da Redenção e arredores.
Foi azar de Porto Alegre, mas pode acontecer de novo com danos muito maiores do que apenas 45 feridos e 3 mil árvores atingidas.
Não há dúvida de que os CCMs são a novidade climática trazida pelo aumento da temperatura na superfície terrestre. “O aumento da temperatura na superfície terrestre é o combustível dos CCMs”, disse Flávia, concluindo: “Temos que nos preparar”.
TIPUANAS E JACARANDÁS, ADEUS
Plateia cheia mostra que Agapan se revigora como movimento em defesa do ambiente urbano
Tanto as palestras como as manifestações do auditório se ativeram à pauta sugerida pela Agapan, cuja militância está se revigorando diante das evidências de que as árvores de Porto Alegre são as vítimas preferenciais tanto das mudanças climáticas quanto da negligência dos gestores públicos.
A defesa das árvores foi estopim do processo de conscientização ambiental promovido pela Agapan, fundada em 27 de abril de 1971 por Augusto Carneiro, José Lutzenberger e um grupo de pessoas preocupadas com a preservação da vida no planeta.
O sentimento dominante no auditório da Arquitetura era de que os cidadãos conscientes dos riscos climáticos e dos problemas ambientais precisam juntar forças para agir, pois a ação dos gestores públicos tem ficado aquém das necessidades.
No caso da arborização, prevaleceu a palavra do biólogo Paulo Brack, da UFRGS, que sugeriu aos portoalegrenses começar a dizer adeus às árvores de grande porte que ocupam as calçadas da capital, colocando em risco não apenas a vida das pessoas, mas o patrimônio público e particular (fios, cabos, postes, tubulação subterrânea, carros, muros e telhados).
“A tipuana é linda, mas não dá mais”, disse ele. “O jacarandá, uma pena”.
Ele não chegou a fazer uma lista, mas lembrou que as dez árvores mais plantadas em Porto Alegre são exóticas como a tipuana, nativa das planícias andinas introduzida no paisagismo urbano a partir dos anos 1940.
“É hora de começar o plantio de árvores de pequeno porte”, recomendou o professor de Biociências e dirigente do Instituto Ingá, lembrando que o mínimo que a prefeitura pode fazer, nesse caso, é montar uma lista das espécies mais indicadas e facilitar à população a participação no processo de plantio e manutenção do arvoredo urbano.
Como fazer isso é uma dúvida, pois os funcionários municipais que assistiram à fundação da Agapan se aposentaram sem que a prefeitura tenha feito a reposição desse pessoal especialista em manejo arbóreo.
Paulo Brack citou um antigo viveiro municipal que “tinha 70 funcionários e hoje tem meia dúzia de pessoas”. Segundo Brack, “há na prefeitura uma ação deliberada para dificultar o planejamento ambiental”.
CONDOMÍNIOS DEVASTADORES
A vereadora Fernanda Melchionna (PSOL) fez uma intervenção-relâmpago para condenar o comportamento da administração da capital em favor da construção imobiliária do sucateamento do sistema de controle ambiental do município, do que resulta a “vista grossa” diante de projetos de condomínios residenciais que avançam sobre a zona rural do município.
Segundo a vereadora, os ambientalistas estão particularmente espantados com o Pontal do Arado (246 hectares), que prevê cerca de 2,3 mil residências em áreas alagadiças onde estão projetados aterros de dois metros de altura.
“Cabe ação civil pública contra o projeto do Pontal do Arado”, afirmou Melchionna, levantando a bola para outras intervenções sobre a participação popular na gestão do meio ambiente.
Leonardo Melgarejo, presidente da Agapan, lembrou que ao completar 45 anos a instituição fundada pelo agrônomo José Lutzenberger está disposta a recuperar o ativismo ecológico que colocou o Rio Grande do Sul na vanguarda das lutas ecológicas nos anos 1970.
Só que agora, considerando o agravamento da crise ambiental em face das mudanças climáticas, a Agapan quer mudar seu modo de lutar: “Nosso papel agora deve ser de articulação dos grupos envolvidos nas questões ambientais”.
VAI TER FESTA
Para o final do mês, a Agapan está programando uma série de ações populares em comemoração ao seu aniversário. No dia 23, às 10 horas da manhã, vai partir um bolo na feira ecológica da rua José Bonifácio.
À tarde, participa do abraço ao Cais Mauá. No dia 27, haverá uma programação especial cujos detalhes ainda não foram divulgados, mas vai ter festa.Crônica de adeus a um notável jornalista capixaba
Geraldo Hasse
Tomba mais um guerreiro, diz um dos 100 jornalistas que se juntaram em 1968 em São Paulo para fundar a revista Veja sob a direção do navegador genovês Mino Carta.
Quem tombou desta vez foi Claudio Lachini (Colatina, 1941), que estudou Direito em Vitória antes de embarcar na canoa paulistana ao lado de uma centena de remadores aliciados em várias capitais e até em cidades do interior.
Único capixaba entre uma centena de talentosos brasileiros selecionados para suar em madrugadas tensas na beira do rio Tietê, Lachini compensava a solidão falando por dois e bebendo por três.
Mais do que jornalista-remador, foi poeta e narrador primoroso, como se pode conferir abaixo, lendo trechos de sua memorável escrita.
Do seu livro O Que Se Viveu, de 1991, que reune poemas escritos em Vitória, São Paulo, Curitiba e em alguns momentos no exterior, seleciono “Aqui, onde o mineral transformado”, escrito em 1968, o ano em que se estabeleceu em São Paulo:
Aqui, onde o mineral transformado / nos esmaga sem contemplação, / somos todos os homens / que têm coração, ternura e luto. / O trabalhador que revolve a terra / no cimento, recoberto de argamassa e asfalto / me dá a mão como um irmão. / Pernambuco, Maranhão, Bahia, Rio / como corcovados bem acabados / espalmam a tarde como quem / ainda quer regressar. / Mas todo mundo vai ficando / na noite de entorpecer, / como o entardecer do sanguíneo copo que bebemos”.
Depois, em 2000, ele publicou ANÁBASE, a história do jornal Gazeta Mercantil, do qual foi um dos diretores. Era um livro encomendado, para atender aos interesses da Casa, mas o autor colocou nele a alma do jornalista que acompanhou, por dentro, a evolução da economia brasileira ao longo de três décadas, dos anos 1970 ao final do século XX.
É um livro que não se folheia impunemente. Basta abri-lo e fixar os olhos nas suas letras graúdas: impossível não cair na leitura, pois Lachini lhe deu um ritmo de crônica.
Os melhores livros do capixaba Claudio Lachini foram os romances históricos Sperandio (Barcarolla, 2007) e Vasco (Barcarolla, 2009), que poderiam inscrever-se tranquilamente no panteão da literatura fantástica latino-americana.
Leiam o início genial de Sperandio, um capixaba de origem italiana: “Meu nome foi Sperandio Zibaldone. Estou no limbo, onde habitam os seres vividos na Terra e mortos sem destino, como sucede aos animais da espécie dita humana. Os demais bichos, de chão, de mar e de ar, não sei para onde seguem quando falecem, se por acaso algum lugar lhes é destinado. Aqui não sinto frio, calor, fome, sede, desejo sexual, ambição, medo, ódio ou rancor. Meu estado físico é decomposto ao natural. O mundo viaja e seu caminho é inexorável. (…) Quem tem sorte, queima até o toco da vela”. São mais de 200 páginas nessa toada fantástica.
Por fim, em Vasco, Lachini conta (na primeira pessoa, como se fosse uma autobiografia) a história de Vasco Coutinho, o primeiro donatário da capitania do Espírito Santo, que chegou à baía de Vitória em 1534.
Para as orelhas dessa obra de 250 páginas escrevi um textinho do qual extraí uma frase-síntese: “Este livro, meio ensaio histórico, meio livro de memórias, tem um encantador sotaque luso antigo que traz à tona um Portugal esquecido, ainda que cantado por Camões”.
Com essa narrativa fantástica, Lachini elevou-se ao nível mais alto da literatura brasileira. Se não foi festejado nem badalado, talvez a resposta esteja dentro do famoso cesto de caranguejos capixabas, de onde não se alça unzinho que seja, todos sufocados pela inveja.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Rodar o pião já passou,
a bola ainda é uma possibilidade
e fazer a barba, uma necessidade.”
Vitória. 1968
(Poema de Claudio Lachini (1941-2016)Sugestões de presentes de Natal
Se o prezado leitor ainda não decidiu que presente vai enviar para aquele(a) amigo(a) distante, eis aqui algumas sugestões de livros produzidos em 2015 no RS.
O primeiro é uma barbada de JÁ Editora: História Ilustrada do Rio Grande do Sul, reedição atualizada de uma série de fascículos lançada em 1997. Um livro de peso, com 350 páginas.

A segunda sugestão (por ordem de lançamento) é Esse Tal de Borghettinho, de Marcio Pinheiro (Belas Letras, 240 páginas).
Jornalista (filhos de jornalistas) que conhece música, Márcio Pinheiro foi bastante além da biografia do gaiteiro Renato Borghetti, o cinquentão que está nos palcos há mais de 30 anos: traçou um amplo panorama da música regional gaúcha.
Preenchendo uma lacuna na historiografia da música do RS, fala de todo mundo, do Radamés Gnatalli a Vitor Ramil, passando por Barbosa Lessa, Teixeirinha, Pedro Raimundo, Irmãos Bertussi, Luiz Carlos Borges e os modernos que têm como habitat a Cidade Baixa.
É tanta gente que faz falta um índice remissivo, mas a leitura é fácil porque o livro apresenta uma boa arquitetura narrativa. Se o livro for para uma segunda edição, o autor promete aprofundar o capítulo final sobre a Fábrica de Gaiteiros, o genial projeto do Borghettinho estabelecido em Barra do Ribeiro e difundido em escolas do Estado.
A outra opção musical é ELIS – Uma Biografia Musical, de Arthur de Faria (Arquipélago, 272 páginas). Músico que não perdeu o fio como jornalista, Arthur de Faria disseca a vigorosa veia musical de Elis ao mesmo tempo em que esmiuça as contradições de sua vida e sua carreira, encerradas aos 36 anos, em 1982, com uma overdose de cocaína.
Arthur de Faria escreve leve e vai costurando histórias intercaladas aqui e ali por detalhes que somente um músico poderia sacar. Revela os bastidores de shows e discos não com o viés de fofoqueiro, mas com curiosidade de colega da música. Como daquela vez em que Elis demitiu em cena um músico mineiro que insistia em improvisar durante os espetáculos. Segundo Faria, foi assim: “Eu gostaria agora de apresentar esses músicos maravilhosos. Na guitarra, tocando comigo pela última vez…Toninho Horta!”

Aqui e aqui Faria breca a narrativa com parágrafos de uma ou duas palavras. Vai revelando assim o gênio desconcertante da cantora que nasceu na Vila IAPI e cresceu fazendo programa de auditório no rádio de Porto Alegre. Acaba compondo uma biografia mais rica e interessante do que as anteriores — Furacão Elis, de Regina Echeverria, escrita poucos anos depois da morte da artista; e o recente livro de Julio Maria, jornalista de São Paulo que se debruça sobre detalhes da morte e da vida da cantora.




De peão a miliciano, o aprendiz de caudilho envolveu-se em missões civis e militares que o ajudaram a se tornar criador de gado – teve fazendas de Alegrete e Quaraí – neste município foi proprietário da histórica Fazenda do Jarau, sede da caverna lendária.



