Atletas do rugby utilizam a Redenção para treinos noturnos

Matheus Chaparini
Uma bola oval cruza o campo de futebol do estádio Ramiro Souto, no parque da Redenção, todas as terças e quintas, sempre a partir das 22h. Jogadores e jogadoras vestem uniforme nas cores vermelho, azul e branco e a torcida alenta com cânticos enaltecedores. “Não tá morto quem peleia” é um deles.
Fundado em junho de 2001, o Charrua é o mais antigo time de rugby do Rio Grande do Sul. Amador, se sustenta com as mensalidades dos 120 associados e com receitas oriundas da venda de produtos licenciados e de eventos. “Somos autossuficientes, 100% da mão de obra é voluntária. Não existe nenhum profissional remunerado no Charrua”, explica o presidente, Rodrigo dos Reis.
Apesar disso, não faz feio em campo: o time feminino adulto, por exemplo, é o atual campeão brasileiro e há três meninas convocadas para a seleção em seus quadros. Entre os homens, o destaque é o atleta Gabriel Bolzan, revelado pela casa e que hoje treina para representar o país nas Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro.
Além das equipes principais para mulheres e para homens, há categorias de base. No feminino, apenas a juvenil, mas entre os homens é possível ingressar como jogador do infantil, juvenil e da categoria formativa, que é para adultos iniciantes.
Todas as equipes possuem treinador, preparador físico e manager, que auxilia o técnico nas viagens e partidas.
Posições para todos os tipos físicos
“O rugby é um esporte de valores morais muito rígidos: hierarquia, espírito de equipe, respeito, integridade, lealdade”, explica o presidente, Rodrigo dos Reis, que foi um dos fundadores do clube.
Se a filosofia é rigorosa, o mesmo princípio não é adotado para selecionar atletas segundo seu corpo. Isso porque um dos princípios do Charrua é que o rugby é para todos e pode se adaptar a cada tipo físico.
Ao contrário do futebol, no rugby quem mais ataca são os de trás – os backs. A linha de frente – forwards – é composta pelos jogadores mais fortes e pesados, que tem a tarefa de impedir o progresso do ataque adversário. Aqueles mais leves e velozes cumprem a tarefa de fazer avanços mais agudos, tentando cruzar a linha de fundo do campo adversário, o objetivo maior da disputa.
A disputa termina no terceiro tempo
“Se o cara não se sente à vontade jogando, talvez ele goste de alguma outra coisa, vai ser manager, vai assar o churrasco do terceiro tempo… Chegaram a te falar o que é o terceiro tempo?”, introduz o presidente.
O terceiro tempo é a confraternização tradicional que ocorre entre as equipes após os dois tempos de batalha. Os atletas interagem, cantam suas músicas e o dono da casa oferece ao visitante comida e bebida. A prática não está no livro de regras do esporte, mas ele faz parte da cultura do rugby no mundo inteiro.
Ismael Arenhart também é dos fundadores, já foi o camisa 2 da equipe e hoje é preparador físico do masculino. Para ele, a função do terceiro tempo tem a ver com o caráter amador do esporte, que só se profissionalizou em 1995.
“É um jogo de contato e as pessoas que estão dispostas a isso, o tornam um estilo de vida. Então é uma atividade tão importante, que o terceiro tempo é um agradecimento por alguém oportunizar o esporte que tu tanto ama. Se inverte a lógica de competição para deixar claro que sem adversário não tem esporte”, justifica.
Gurias são campeãs brasileiras

Mulherada joga duro na equipe do Charrua | Tânia Meinerz/JÁ
Mulherada joga duro na equipe do Charrua | Tânia Meinerz/JÁ

Quem acha que os esportes de contato físico intenso são coisa pra homem, constata seu grave equívoco assim que bota os pés no Ramirão em noite de treino do Charrua. No mesmo horário de treinamento, dividem o campo a equipe masculina e a equipe feminina. E o jogo das gurias é bem pegado.
Desde 2004 o Charrua conta com um time de mulheres. A procura é menor do que no caso dos homens, e por isso, elas jogam em uma formação de 7 atletas – e não de 15, como os rapazes. É a modalidade chamada “Sevens” no jargão internacional do esporte; a outra é conhecida como Rugby XV.
“No Sevens não temos as segundas e terceiras linhas que há no XV. Todo mundo faz tudo, todo mundo limpa e joga, não temos posições tão definidas e é bem mais correria”, compara Juliana Menezes, que começou a praticar o esporte em 2007 e foi a capitã do time feminino até o ano passado.
Com Juliana no comando da equipe, as gurias do Charrua foram campeãs brasileiras, título que ainda detém porque as competições de rugby sevens se concentram no segundo semestre.
O clube conta com três atletas na seleção brasileira: Juliana, que mora em Porto Alegre e precisa pegar avião para conciliar as atividades, Raquel Kochhann e Luiza Campos, que estão morando em São Paulo. Ao todo são 16 atletas treinando no time feminino.
Esporte retorna às olimpíadas em 2016
Há cinco anos atrás, Gabriel Bolzan havia passado no vestibular, praticava ginástica olímpica e estudava teatro, quando o amigo Gustavo deu a ideia: “tem um time de rugby que treina na Redenção, vamos jogar?”
Hoje Gabriel é atleta da seleção brasileira e treina em São Paulo para representar o país nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. A competição, em 2016, marca o retorno do rugby aos jogos.
Desde julho do ano passado, a seleção está treinando em São José dos Campos, através de um projeto da Confederação Brasileira de Rugby, aprovado pelo Ministério dos Esportes. Os atletas recebem uma bolsa de R$ 1.500 ao mês e aqueles que moram fora do estado ocupam uma casa alugada pela organização.
No cenário mundial, o Brasil ainda está longe de disputar títulos importantes. As principais equipes são Fiji, Nova Zelândia, África do Sul e Inglaterra, países onde o esporte é profissional e tem mais popularidade. “Na África do Sul, o rugby é que nem o futebol aqui no Brasil: no aeroporto tem a foto dos caras em alguma propaganda”, observa o atleta, não sem uma pontinha de inveja.
Jogadores usam pés e mãos
Origem do esporte seria semelhante ao futebol | Tânia Meinerz /JÁ
Origem do esporte seria semelhante ao futebol | Tânia Meinerz /JÁ

O rugby é jogado com os pés e com as mãos, utilizando uma bola oval. O objetivo principal é cruzar a linha de fundo do campo adversário e encostar a bola no chão, fazendo o chamado try, que vale 5 pontos e dá direito a uma conversão, que é um chute de dois pontos.
Os passes só podem ser dados para o lado e para trás.
A outra forma de pontuar é através de um chute de três pontos, que pode ser dado durante o jogo ou na cobrança de um pênalti.
Utilizar as pernas para derrubar o adversário ou fazer o takle (abordagem para derrubar) acima da linha do ombro são exemplos de infrações graves.
São inevitáveis algumas comparações com o futebol, até porque os dois esportes possuem uma origem comum. “O rugby e o futebol sempre foram a mesma coisa. Cada civilização praticava o seu esporte com bola, cujo objetivo era conquistar um território ou acertar algum tipo de caçapa do outro lado. Tem diversos nomes e regras diferentes, da Roma Antiga, da China… Basicamente é um esporte de bola, de avanço territorial e de conquista de polos”, sintetiza o presidente do Charrua, Rodrigo dos Reis.
Essa matéria foi publicada em versão ampliada no jornal JÁ Bom Fim de julho, que circula gratuitamente em estabelecimentos comerciais do bairro.

"Excelência, eu amava minha família"

Renan Antunes de Oliveira |

C
omo estava muito quente naquele dezembro, Liquinha passou todo dia dormindo com o ar condicionado ligado no quarto do sobrinho Pedro, na confortável casa da família na rua Tijucas. Pelas 7 da noite ele acordou faminto. Pediu bolinhos de carne pra dona Carmen. Ouviu um breve sermão do pai, seu Nilo, por ter faltado ao trabalho. A irmã Leopoldina gritou alguma coisa lá do quarto dando o maior apoio ao velho.
Liquinha os ignorou e foi buscar um vídeo na locadora – despediu-se da balconista dizendo que tinha “uma coisa muito importante pra fazer em casa”. No caminho, tomou três latinhas de Skol e comprou cocaína.
Já no quarto, a mãe lhe serviu os bolinhos. Ele botou o prato embaixo da cama: estava sem fome, de tanto cheirar coca.
Pouco depois das 10, Liquinha saiu da cama apenas de bermuda para aquela “coisa tão importante”: assassinar todos da casa com golpes de marreta e martelo.
Em menos de 15 minutos ele matou mãe, irmã, sobrinho e pai, nesta ordem – o crime que foi a única coisa notável em seus 38 anos de vida.
Em seguida, Liquinha tomou banho, comeu os bolinhos, correu para a rua, chamou os vizinhos e encenou uma farsa: “Socorro, mataram meu paizinho”.

A família assassinada, estampada em uma camiseta | Renan Antunes de Oliveira /JÁ
A família assassinada, estampada em uma camiseta | RAO /JÁ

Esta tragédia acontecida em 7 de dezembro de 2012 na cidade praiana de Penha foi revivida no Tribunal do Júri de Florianópolis na segunda semana de março de 2015.
O amplo auditório da corte estava ocupado por 20 familiares que vieram de Penha (a 115 km de Floripa) e por um bando de alegres estudantes de Direito interessados nas tecnicalidades do processo.
O júri ocorreu na capital porque o sentimento da população da pequena vila de pescadores desde a primeira hora era de linchar Liquinha.
A estrela da acusação foi outra irmã do réu, Zilda, 15 anos mais velha. Foi ela quem contou aos jurados que “ele me disse que queria ser conhecido como o maior matador de Santa Catarina” – lugar que já perdeu, em fevereiro, para o funcionário público Alcir Pederssetti, que matou cinco da família e a si mesmo, em Cordilheira Alta.
A irmã garantiu que Liquinha é “um psicopata, sem sentimentos, toda vida foi assim e talvez só eu tenha percebido”.
Um psiquiatra atestou para os jurados que Liquinha estava consciente quando cometeu os crimes e que sabia das consequências, levantando a bola para uma condenação certeira.
Em juridiquês: ele estava ‘imputável’, isto é, capaz de ser julgado e condenado, se os jurados assim o entendessem.
o réu
Luiz Carlos Flores, o Liquinha, hoje com 40, deu problemas desde a adolescência.
Na cidade pequena, os vizinhos sabiam que ele era um drogado. Passou pela maconha, bebida e estava firme na cocaína.
Foi pescador, motorista, pedreiro. Nunca estudou nem trabalhou direito. Era só biscateiro. Fazia alguma coisinha pra arrumar dinheiro pro vício e deu.
Entre os 11 filhos do casal ele ainda morava com os pais porque era o xodó da mamãe – a quem mataria a marretadas com tal ferocidade que conseguiu quebrar o cabo da ferramenta.
“Ela sempre o defendia de tudo e todos”, contou Carminha, irmã mais velha que ajudou a mãe a cuidar dele na infância.
De tudo ela o defendeu na escola, na rua, dos drogados – quando alguém vinha cobrar a conta do consumo da noite, dona Carmen pagava.
Seu Nilo só resmungava – ele era um autêntico manezinho, pescador aposentado, de uma tradicional família açoriana que remonta aos colonizadores do pedaço.
a mágoa
Zilda agia nos bastidores do tribunal como porta-voz da ala da família que pedia a mais longa condenação possível ao irmão.
Ela pediu isto ao promotor, que por sua vez queria condená-lo a 100 anos de cadeia – para ele cumprir no mínimo 20 em regime fechado.
A irmã disse que “desde pequeno ele ficava furioso quando era contrariado”.
Ela contou que a diferença de idade entre eles a fez ver o menino “com isenção”. Jurou que o respeitava nos encontros da família, mas temia “suas reações violentas”.
Uma das namoradas dele teria se queixado que uma vez Liquinha tentou estrangular o filho menor dela (de outra relação).
Zilda afirmou que a mãe tentou aliviar sua barra dizendo que fora briga de casal. Mais tarde, a mesma mulher procurou Zilda para contar que Liquinha havia tentado estrangular a mesma criança num segundo incidente, mas que ela chegou a tempo de impedi-lo. A mulher então anunciou o rompimento via Zilda e sumiu do mapa.
Tios, primos e irmãos desfilaram pela corte. Todos horrorizados pelo crime.
Um sobrinho conta que a família sofreu um racha irreparável quando um dos irmãos mais velhos, Roberto, de 53, passou a visitar Liquinha na cadeia, no que seria o mais parecido com uma absolvição.
Roberto: “Não há como perdoá-lo, isto é coisa para Deus. Mas eu não posso abandonar um irmão, se um dia ele for solto eu vou até acolhê-lo em minha casa”.
A maioria da parentada no tribunal era toda a favor dos 100 anos de cadeia para “o maldito que não é mais meu tio”, como disse um sobrinho no banco das testemunhas.
O julgamento
Liquinha subiu no banco dos réus exatos 824 dias depois do crime, para explicar o inexplicável. Mas ele não tinha a explicação: “Parece que foi um sonho”, “uma força me dominou”, “não queria fazer mal a ninguém”.
Fechou seu depoimento com a frase muito ouvida em tribunais: “Não lembro de nada”.
Para avivar a memória dele e ajudar na decisão dos jurados o promotor exibiu num telão um vídeo gravado pela polícia de Penha dois dias depois do crime. Nele, Liquinha faz uma confissão completa e dá o ciúmes da irmã como motivo do crime: na cabeça dele, os pais gostavam mais dela.
O promotor apresentou fotos das vítimas para os sete jurados – três homens com menos de 30, uma mulher de 30, duas com mais de 40 e um careca cinquentão. A de 30 chorou ao vê-las.
Na plateia, uma irmã do réu soluçava tão alto que um oficial da corte a levou para o corredor.
Liquinha acompanhou a exibição de fotos da perícia e a leitura da súmula dos crimes pelo juiz quase sempre de cabeça baixa, esfregando um dedo da mão esquerda numa unha da direita, olhar fixo nos mocassins pretos. Às vezes, alternava o olhar para as luminárias da corte.
A sessão durou das 9 às 19, ele deu umas choradinhas lá pelas 10, uma no depoimento perto das 12 e novamente ao final dele – mas era coisa pouca, sem muita lágrima, se recompunha em segundos.
O promotor chamou Liquinha de monstro, animal, fera, destruidor de uma família – só abrandando o ímpeto de sua performance duas vezes, uma para saudar a presença da esposa no auditório, outra para cumprimentar um amigo promotor de uma comarca distante que veio prestigiar sua performance acusatória.
o crime
O crime de Liquinha ficou conhecido como “chacina de Penha” e se tornou instantaneamente num dos mais notáveis da crônica policial catarinense.
Aconteceu numa noite muito quente, naquelas em que as famílias manezinhas ficam acordadas até mais tarde.
As testemunhas afirmaram que dona Carmen, 69,  pareceu intuir que alguma coisa ruim aconteceria.
Por volta das 9h30 da noite, ela ligou para a Zilda e disse que temia alguma violência de Liquinha, àquela altura no quarto de Pedrinho (10), a minutos de cometer seu desatino.
Nos autos consta que a irmã Leopoldina (41) estava trancada noutro cômodo, com Pedrinho, protegendo-se com uma faca sob o travesseiro pro caso do irmão atacá-la: “Eu a avisara para nunca abrir a porta e manter o menino sempre junto dela”, disse Zilda – imaginem o terror de se viver naquele ambiente.
Pouco depois das 10, na casa silenciosa, Liquinha disse alguma coisa para a mãe que a convenceu a segui-lo até um ponto do pátio distante 100 metros da residência. Ele carregava a marreta.
Não foi possível apurar o que ele disse, nem quando ela percebeu que morreria: o certo é que ele deu dois golpes na boca da mãe, quebrando os dois maxilares, fazendo saltar longe a dentadura postiça dela.
Os golpes foram tão fortes que os peritos acham que ela morreu na hora do primeiro. Em seguida, o filho ajeitou o cadáver, quase com carinho, numa posição confortável numa vala – para depois urinar sobre ele.
Aos jurados ele explicou que matou a mãe para que ela não sofresse com a morte da irmã Leopoldina, que ele pretendia matar por puro ciúmes: “Minha mãe gostava muito dela e não suportaria o sofrimento”. Nem juiz nem promotor perguntaram o porquê do xixi – talvez pela insanidade do gesto.
Suado e ensanguentado, já sem a marreta quebrada, Liquinha voltou para casa e pegou um martelo na gaveta da cozinha. Bateu na porta do quarto de Leopoldina. Ela falava com o namorado ao telefone e não queria abrir.
Falando em tom calmo, o mano pediu que ela lhe emprestasse a moto. Iludida, ela abriu uma fresta para passar-lhe a chave: “Eu acertei o olho dela com uma martelada”.
Ai ele a empurrou, entrou no quarto e acertou mais dois golpes, um na testa e outro na têmpora.
“Durou segundos”, ele contou ao delegado na fita exibida no tribunal. “Meu sobrinho acordou e eu disse que a vez dele ia chegar”. Três marteladas no rosto desfiguraram o menino.
O pai, de 71, acordou com a gritaria e correu para o quarto da filha, ainda de cuecas  – sendo recebido com três golpes, todos na cabeça: “Eu não tinha nada contra meu pai e Pedrinho, mas não queria testemunhas”.
Depois que seu patético pedido de socorro ( “mataram meu paizinho”) foi ouvido nas ruas, Liquinha recebeu bombeiros, paramédicos, vizinhos, familiares e a polícia. Ele estava banhadinho, de roupa limpa, mas tinha manchas de sangue nos pés.
E levava nas mãos o denunciador martelo ensanguentado. O primeiro policial na cena matou a charada na hora: doido de pedra. Liquinha citava criminosos imaginários e a polícia resolveu não contrariá-lo.
Havia sangue nas paredes e teto do quarto onde Leopoldina e Pedrinho foram encontrados. Também no hall onde o corpo do pai estava caído.
Não havia nenhum suspeito, ninguém na rua vira nada, os cachorros não latiram para supostos invasores – tudo apontava para Liquinha, mas a polícia demorava em prendê-lo porque primeiro queria entender o motivo para aquela carnificina. A tese do ciúmes da mana apareceria mais tarde – se perdeu na loucura geral.
Nas horas seguintes ao crime a vila de pescadores dançou um balé de doidos.
Liquinha continuou circulando entre as centenas de pessoas que desfilaram pelo velório e enterro como se nada tivesse acontecido – ele estava sempre sendo seguido por policiais à paisana.
Eu o entrevistei duas vezes, na madrugada do velório e antes do enterro. Na ocasião, consegui puxá-lo para um cantinho, tomar um café com ele. E fiz a pergunta que não queria calar – quem fez a matança?
Pude perceber que ele ainda estava naquela loucura dos embalados por coca, babando, agitado: “Se eu encontrar quem fez isto com minha família eu juro que o mato”. Prometia vingança contra o assassino imaginário.
As pessoas ao nosso redor interrompiam a conversa para dar-lhe condolências e fingiam acreditar na inocência dele.
Mudei de assunto e lhe perguntei quais eram seus planos. Me disse que estava esperando o enterro para ir de moto até Goiás para visitar uma namorada – e pediu para ser fotografado, sorridente, ao lado da motoca.
Liquinha e sua moto, com  a qual visitaria uma namorada em Goiás | RAO/JÁ
Liquinha e sua moto, com a qual visitaria uma namorada em Goiás | RAO/JÁ

o arrependimento
No Tribunal do Júri pude notar que Liquinha engordou bastante na prisão, talvez uns 20 quilos, deveria estar com mais de 100. Estava bem barbeado, cabelo aparado, vestindo calça e camisa jeans. Não olhou para a plateia de familiares, nem encarou primos, tios e sobrinhos que testemunharam.
Liquinha insistia em interromper o juiz durante o interrogatório para deixar bem claro um ponto: “Excelência, eu amava minha família”. O promotor ironizou tipo assim “imagine se não amasse”.
O matador descreveu o menino Pedrinho:  “Meu sobrinho era um anjo de criança”. Neste ponto ele derrapou um pouquinho: “Eu sei que tenho que pagar, estou arrependido” – dois soluços curtos acompanharam o momento de remorsos.
Quando o juiz perguntou pelos motivos dos crimes ele disse “eu não era a pessoa que sou hoje, fui vítima do uso da cocaína que me controlava” – a mesma tese com que a defesa tentou interná-lo numa clínica de rehab.
A tese de que o crime foi cometido por ciúmes da irmã consta do inquérito policial, mas ninguém pareceu realmente interessado em achar um motivo mais palpável.
Liquinha encontrou uma pessoa culpada por seu temperamento: “Minha mãe tapava minhas fraquezas”, resmungou, transformando o amor de dona Carmen num defeito.
De tempos em tempos ele voltava a professar aquele amor eterno à família. Lá pelas tantas disse que quando saísse da cadeia, queria constituir uma para si – ao que o promotor recomendou, com sarcasmo: “Faça como a Suzane Richtofen e case com um colega de cárcere”.
a condenação
Os jurados levaram menos de meia hora para concluir que ele merecia os 100 anos de cadeia, dando-lhe 97 anos e seis meses. O promotor achou de bom tamanho.
A defesa quer recorrer e pedir novos exames de sanidade mental. A tese é que ele tem que ter um parafuso frouxo, pelo detalhe que nem Freud explica: por que fazer xixi no cadáver da mãe?
O comportamento dele enquanto ainda negava a autoria também surpreendeu aos policiais.
Quando familiares encontraram o corpo de dona Carmen nos fundos da propriedade, Liquinha foi levado para fazer o reconhecimento. Ele só deu uma espiadinha para concluir “que merda, mataram minha mãe”.
Em seguida, tirou o pinto pra fora e fez xixi no mato, na frente de peritos, policiais e bombeiros.
Depois da condenação, Liquinha foi levado de volta à penitenciária da Agronômica, em Floripa. Ele está lá para sua proteção, porque detentos assassinos e estupradores da cadeia de Canhanduba tentaram matá-lo, horrorizados com a barbárie de seus crimes.
Hoje o matador cozinha pros carcereiros e diretores da prisão. Virou evangélico. Descobriu Cristo.
Todos na jaula atestam que ele tem um comportamento exemplar, o que vai contar quando pedir regime semiaberto, aquele no qual o condenado dorme na cadeia mas pode passar o dia na rua.
Como ele é réu primário, o pessoal acha que em 8 anos o cidadão Luiz Carlos Flores poderá sair livre, para recomeçar sua vida.
Ele disse pro irmão Roberto que quando cumprir a pena quer se mudar de Penha para outro lugar do planeta onde ninguém saiba sua história.
Vaya con Dios.

EXCLUSIVO: A tesoura que assombra a RBS

Luiz Cláudio Cunha* | Especial para o Jornal JÁ |

E
stá identificado, com nome, sobrenome e endereço, o espírito que há meses assombra com cortes e demissões a RBS, o maior grupo de mídia do sul do país, a 27ª empresa no ranking das 100 maiores do Rio Grande do Sul.
Não é nenhum dos jovens executivos barbudos da família Sirotsky que fundou e comanda a Rede Brasil-Sul de Comunicação desde 1957. O artífice que modela a nova RBS é Cláudio Galeazzi — um senhor de 74 anos e sorriso rasgado, cara limpa e cabelos quase brancos, 1m84 e 92 kg de um corpo massudo modelado pelo exercício disciplinado do halterofilismo —, reconhecido nos principais círculos econômicos do Rio e São Paulo, respeitado entre os grandes empresários brasileiros e disputado por empresas em crise que o veneram como o temido Galeazzi Mãos de Tesoura.
Com mais de 150 projetos de salvação empresarial no portfolio da consultoria Galeazzi & Associados que fundou em São Paulo, em 1995, Cláudio teve passagens triunfais (para os patrões) e traumáticas (para os empregados) no comando temporário de gigantes como os grupos Pão de Açúcar, Vulcabrás/Azaleia, Lojas Americanas, Artex, Cicrisa, Vila Romana, entre outros. Na coronha de seu revólver de serial killer de empregos, na conta sinistra da revista Época Negócios, estão registradas até janeiro de 2008 mais de 20 mil demissões — o triplo dos 6,5 mil funcionários hoje sobressaltados da RBS.
Cláudio Eugênio Stiller Galeazzi não ganhou fama pela ficção de Holywood, mas pelos cortantes resultados de eficiência gerencial, redução de custos e otimização de lucros que o tornaram uma lenda da vida real das empresas estressadas por balanços avermelhados e deslizamentos de receita. Era inevitável que Galeazzi e a RBS acabassem, um dia, se encontrando.
Essa convergência começou a se desenhar em 2011, quando acendeu a luz vermelha no comando da família Sirotsky. Estudos internos e sigilosos realizados por um executivo do grupo em Santa Catarina, Marcos Barbosa, indicaram que o jornal Zero Hora, nau-capitânea da frota da RBS, sofreria um grave abalo estrutural nas receitas a partir de 2018, açoitado pelas ondas cruzadas da queda de anunciantes, fuga de leitores e custos crescentes do papel, tudo isso potencializado no mar tormentoso da internet.
A carta-bomba
Essa tragédia anunciada acabou se antecipando em seis anos. Em 2012, o caixa do jornal sofreu uma abrupta queda de publicidade, com uma margem de redução de até 50%. O comando da RBS se assustou porque é a divisão de oito jornais impressos que dá o caixa para sustentar o resto da empresa. O solavanco, desconhecido até para o público interno da empresa, habituada às notícias sucessivas de auto-louvação sobre sua pujança e modernidade, veio no momento crítico de troca de descendência no poder.
Em 2012 aconteceu a transição da segunda para a terceira geração dos Sirotsky. Nelson, filho do patriarca Maurício Sirotsky Sobrinho (1925-1986), passou o comando executivo da RBS para o sobrinho de 40 anos, Eduardo Sirotsky Melzer, o Duda, filho de sua irmã Suzana, a primogênita de Maurício. Na cadeira de presidente-executivo, o inexperiente Duda enfrentaria emoções nunca antes vividas pelo avô e pelo tio, seus antecessores no cargo.

Maurício e Nelson... ...Duda e Maurício... ... Nelson e Duda: três gerações de Sirotsky / Foto/Adriana Franciosi - RBS Arquivo Pessoal Foto/Franco Rodrigues-RBS
Maurício e Nelson… …Duda e Maurício… … Nelson e Duda: três gerações de Sirotsky / Foto/Adriana Franciosi – RBS Arquivo Pessoal Foto/Franco Rodrigues-RBS

As receitas continuaram piorando no início de 2013 e o susto virou preocupação. Em julho daquele ano, consolidada a ideia de contratar uma consultoria externa para reorientar a RBS, começou a ser sussurrado ali um nome sonoro e desconhecido até pelos altos executivos da casa: um certo Cláudio Galeazzi. Os primeiros encontros reservados dele com Nelson e Duda Sirotsky aconteceram na sede da consultoria, que ocupa o sétimo andar de um prédio na avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, endereço nobre de alguns dos executivos e empresas mais destacados em São Paulo.
Ali, o trio selou a parceria, remunerada por uma taxa de sucesso sobre os resultados obtidos. Discreto, o consultor não foi visto uma única vez na sede da RBS em Porto Alegre, mas ficou clara sua entrada na vida do grupo. Sem aparecer, sem circular pelo QG dos Sirotsky no sul, Galeazzi despachou para lá um grupo pequeno de assessores para fazer o raio-X e agir sobre os problemas que rondam a empresa. Pelo que se sabe do contrato, a equipe de Galeazzi vai assombrar os corredores da RBS até meados de 2015.
A lâmina fria de Galeazzi Mãos de Tesoura mostrou publicamente o seu fio agudo numa segunda-feira, 4 de agosto passado, pela voz do próprio Duda Sirotsky, em uma das mais desastradas operações de Relações Públicas na história empresarial brasileira. Ele falou aos funcionários numa vídeoconferência e, no mesmo dia, reafirmou o que disse numa carta de duas páginas que pode ser definida como uma autêntica ‘carta-bomba’ — pela sangria na plateia, pelo estrondo na opinião pública e pelas feias cicatrizes na face da RBS como uma empresa moderna, pujante, vencedora, imune a crises e ao amadorismo no ofício da comunicação.
Nas 102 linhas confusas de sua ‘carta-bomba’, Duda fala cruamente em demissões, nega uma crise financeira, anuncia a quebra de paradigmas e conclama seus assustados ‘caros colegas’ — como diz no início de sua bombástica missiva — a imitar a RBS e a apostar no borbulhante mundo dos etílicos. Escreve Duda:

Ampliamos a operação da Wine, que já é a maior empresa de vinhos online do mundo, tanto que estamos agora preparando sua entrada no mercado internacional. E muitos de vocês que já são sócios da Wine agora poderão também ser da Have a Nice Beer, o maior clube online de cervejas da América Latina, que está vindo para o Grupo.

Tudo isso em um texto que, apesar de sua catatonia, trai as novas prioridades do maior grupo de comunicação do sul do País. A palavra ‘jornalismo’ tem uma única citação, assim como ‘leitor’, enquanto fala três vezes em ‘digital’, duas em wine e outras três em ‘vinho’, ‘cerveja’ e beer. O trecho mais espantoso é o sétimo parágrafo, onde Duda, com a inclemência dos profetas, anuncia o apocalipse:

Teremos uma semana intensa pela frente, pois na quarta-feira faremos cerca de 130 demissões, de um universo de 6 mil pessoas, com o objetivo de buscar produtividade e maior eficiência. São cortes que precisam acontecer, principalmente na operação dos jornais. Não estou de forma alguma insensível ao impacto que demissões geram na vida das pessoas e da própria empresa, porém acredito que tanto os profissionais quanto as empresas precisam repensar o modo como atuam.

O Marinho do Sul
Traduzindo. Duda antecipou na segunda-feira, 4, as demissões que só nomearia na quarta-feira, 6, ignorando o velho brocardo do sábio florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527): “Quando fizer o bem, faça-o aos poucos. Quando for praticar o mal, faça-o de uma vez só”. O estabanado anúncio do principal executivo da RBS impôs durante 48 horas um clima de aflição sobre uma comunidade de 6,5 mil funcionários, angustiados pela desinformação sobre os nomes dos 130 iminentes demitidos.
O grau de angústia poderia ser imaginado em Brasília se a presidente Dilma Rousseff reunisse seus 39 ministros na segunda-feira para anunciar que, dois dias depois, 10 ou 15 deles seriam demitidos, sem anunciar ainda seus nomes. O espectro de crueldade que dominaria a Esplanada dos Ministérios, com certeza, pode ser comparado ao que vislumbraram os ‘caros colegas’ de Duda, que a revista Forbes coroou como “o Marinho do Sul”.
A ligação do clã Sirotsky com o clã Marinho está no DNA do grupo e explica seu sucesso. A TV Gaúcha — a primeira das 18 emissoras da RBS que hoje compõem a maior afiliada da Rede Globo no Brasil — foi inaugurada em Porto Alegre num dia quente de dezembro de 1962, quando o avô de Duda, Maurício Sirotsky, recebeu em festa o presidente João Goulart e o governador Leonel Brizola. No início, a parceria da Gaúcha era com a pequena TV Excelsior, até que Maurício deu em 1967 o pulo do gato, fazendo então o realinhamento empresarial mais saudável de sua vitoriosa carreira.
Maurício sintonizou sua emissora com os novos tempos da ditadura instaurada três anos antes e se alinhou aos generais que derrubaram o mesmo Jango que suava em bicas no estúdio da sua TV Gaúcha naquele tórrido verão porto-alegrense. A nova e refrescante parceria de Maurício passou a ser com Roberto Marinho, que um ano após o golpe de 1964 fundou a TV Globo, embrião do império global que nasceu e prosperou à sombra frondosa dos generais. Marinho arrastou para o alto a RBS, sua nova parceira sulista.

Antes e depois de 1964: Sirotsky com o último presidente ... ... e Marinho com o último general Maurício, Jango e Brizola... ... Maurício e Roberto... ... Marinho e Figueiredo. / Fotos/Agência RBS  Foto/ O Globo
Antes e depois de 1964: Sirotsky com o último presidente … … e Marinho com o último general. Maurício, Jango e Brizola… … Maurício e Roberto… … Marinho e Figueiredo. / Fotos/Agência RBS  Foto/ O Globo

O jornalista Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único país do mundo em que jornalistas chamam seus patrões de ‘companheiros’. No caso do Duda da Rede Globo, ainda havia uma certa reverência, já que o ‘nosso companheiro’ Roberto Marinho era tratado por todos com a mesura de ‘Doutor Roberto’. No caso do ‘Marinho da RBS’, foram rompidos todos os paradigmas de protocolo. Ao contrário do avô e do tio, que não passavam do tratamento coloquial de Maurício e Nelson, o novo presidente-executivo da RBS chegou ao extremo do apelido familiar.
Assim, a ‘carta-bomba’ em tom apocalíptico e triunfal, que mistura demissões, vinho e cerveja, e prega “desapego para deixar de fazer coisas que não agregam” é assinada não pelo sóbrio ‘colega’ Eduardo Sirotsky Melzer, mas pelo íntimo Duda, com todo o seu jeito fofo de ser. Depois de dizer tudo aquilo, Duda encerra: “Vamos em frente!” O ‘Doutor Roberto’ — que andou de braços dados com o regime, desde o primeiro até o último general-presidente da ditadura, incluindo João Baptista Figueiredo — jamais permitiu que os ‘companheiros’ do império global chegassem a este exagero de fofura.
A desastrosa ‘carta-bomba’ de Duda, na primeira segunda-feira de agosto, foi antecedida algumas horas antes por outras derrapadas na vídeoconferência de quase uma hora. O presidente-executivo chegou a responder perguntas anônimas, com os resultados previsíveis. Uma delas indagava porque a comida nos restaurantes da casa era “ruim e fria”, arrancando gargalhadas em meio à tensão. O nervosismo de Duda era tal que chegou a reclamar de boatos, queixando-se dos rumores sobre a RBS na chamada ‘rádio corredor’, que ganha uma enorme audiência nos momentos mais nervosos da crise. “Boataria não monetiza nada”, chiou Duda diante dos caros colegas que o assistiam e que não entendiam como converter um rumor em moeda.
O rumor pelo terror
A questão central é que não se tratava de boatos, mas de fatos. Na sexta-feira 6, quatro dias após o destrambelhado anúncio de Duda, o jornal JÁ ouviu jornalistas da RBS e descobriu que o drama das demissões em massa, algo inaudito na casa, poderia ser ainda maior. As primeiras conclusões da equipe de Galeazzi Mãos de Tesoura recomendavam já uma tesourada de 250 empregos, mas o corte ficou adiado por conta das eleições de outubro, que demandam mão de obra. Assim, a aflição de 48 horas em agosto para identificar os 130 funcionários executados agora vai se estender até outubro ou novembro por conta dos futuros 120 demitidos, que ninguém ainda sabe quem são, replicando o clima de terror que paira sobre os 6,5 mil funcionários da RBS.
O cruel ‘desapego para deixar de fazer coisas que não agregam’, como definiu Duda em sua ‘carta-bomba’, bateu no lombo de 40 jornalistas, que somavam mais de 30% desta primeira fornada de trabalhadores ‘desapegados’ à força de seus empregos. A revelação do JÁ forçou uma reunião inesperada de dois executivos da RBS com a redação de Zero Hora ainda na sexta-feira. Eduardo Smith, vice-presidente de Jornais, Rádios e Digital, e Marta Gleich, diretora de Jornais, negaram novas demissões em novembro. E justificaram o anúncio antecipado em 48 horas das demissões como uma decisão do próprio Duda em nome da ‘transparência’ para combater os boatos da ‘rádio corredor’.
Resumindo: para anular o rumor, o ‘caro colega’ Duda optou pelo terror.
Além das pessoas, a RBS mostra desapego também pela estrutura. Na tesourada geral decidiu-se pelo fechamento das sucursais de Zero Hora no interior do Estado, onde o jornal tinha presença nas principais cidades, como Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Novo Hamburgo, Santa Rosa. Em outras, como Santana do Livramento, Bagé, Rio Grande, Santo Ângelo, Passo Fundo, Uruguaiana e Santa Cruz, a cobertura cabia a repórteres free-lancer. Só no interior, a RBS mantinha 691 empregos, conforme um relatório da empresa de 2012. Toda essa presença, que fazia uma ligação direta de ZH com diferentes públicos em regiões variadas, virou pó.
O maior jornal do Rio Grande pretende agora cobrir os dramas e demandas de 11 milhões de gaúchos espalhados por 496 municípios de 35 microregiões a partir de um único centro: a redação refrigerada da sede de ZH, na avenida Ipiranga, em Porto Alegre. Passa a ser um jornal estadual que se apequena e se exila no conforto da capital do Estado. É, como diz Duda no seu palavreado de executivo moderno, outro paradigma rompido, outra barreira quebrada para “colocar a RBS cada vez mais no grupo das empresas vencedoras, daquelas empresas que constroem oportunidades de mercado para se posicionar e conquistar a liderança”. Não é fofo?
A tesourada de agosto, mês de desgosto, centrou fogo no time de executivos, funcionários que, além dos altos salários, acumulavam bônus de rendimento ou gratificações que chegavam a 5 ou 10 salários extras no ano. Como a ideia é fazer caixa, desapegaram os jornalistas caixa-alta. Por esse critério, foram demitidos os comandantes de dois jornais importantes em Porto Alegre e Florianópolis — o editor-chefe Alexandre Bach (Diário Gaúcho) e o diretor de redação Ricardo Stefanelli (Diário Catarinense).
Em Brasília, sua sucursal mais importante, pela qual Duda ainda mantém certo apego, foram tesourados os dois executivos mais caros: o vice-presidente Alexandre Kruel Jobim, filho do ex-ministro Nelson Jobim, e Klécio Santos, editor-chefe da RBS na capital federal. Para ocupar o lugar da dupla, Duda removeu para Brasília o jornalista Marcelo Rech, economizando para a empresa o seu alto posto de diretor de Jornalismo da RBS em Porto Alegre, que deverá ficar vago.
Tesoura e tesourinha
Os cortes só não foram maiores na base dos jornais, as redações, porque os salários já são comprimidos. Cerca de 3.400 funcionários, mais da metade do efetivo de 6,5 mil da RBS, ganham menos de três salários mínimos (hoje, R$ 2.172), conforme o balanço de 2012. É a faixa salarial de boa parte dos dois jornais da capital, ZH e Diário Gaúcho — este viu sua redação reduzida agora de 20 para 12 jornalistas. Apenas 375 funcionários ganham na faixa de 10 a 20 SM( entre R$ 7,2 mil e R$ 14,5 mil). A elite executiva da RBS, onde a tesoura de Galeazzi tem mais desapego, é formada por 128 funcionários que ganham mais de R$ 15 mil.
A aflição dos jornalistas nas redações da RBS aumenta quando cruzam, nos corredores, com uma jovem morena, de rosto redondo, cabelos pretos e sorriso doce, que nem todos conhecem pelo nome. É Telma Goulart, 42 anos, a tesourinha que Galeazzi levou de São Paulo para Porto Alegre como consultora encarregada de identificar e retalhar nos jornais da RBS os empregos pelos quais Duda têm menos apego. Graduada em Matemática pela USP e MBA em Gestão Estratégica, Telma foi uma eficaz gerente de análise de mercado do Grupo Folha/UOL por quase 19 anos. O fio agudo onde pisa Telma pode ser sentido pelo pensamento cortante de Galeazzi: “O erro é a contratação mal feita, que incha a empresa”.
O consultor é frio como a lâmina que usa para cortar custos, despesas e empregos na obsessão para salvar empresas pelo saneamento de suas contas: “Cortar é apenas uma parte da gestão. Não dá para cortar custos infinitamente. Mas, devem ser cortados sempre, como as unhas e os cabelos”. No conjunto, o currículo cabelereiro-empresarial de Galeazzi rima com sucesso, apesar da inevitável e descabelada sangria que provoca nos salões que contratatam seu gume e talento, ambos temidos e festejados.
Sorrisos de Galeazzi e Telma: tesoura e tesourinha / Foto/IstoÉDinheiro Foto/Linkedin
Sorrisos de Galeazzi e Telma: tesoura e tesourinha / Foto/IstoÉDinheiro Foto/Linkedin

Em 2012, Pedro Grendene contratou Galeazzi para acertar o passo e calçar melhor o grupo Vulcabrás/Azaleia, que faturou no ano R$ 1,1 bilhão, mas devia outro R$ 1 bilhão. O consultor chegou afiado em julho e, até dezembro, 12 fábricas tinham sido fechadas na Bahia, produzindo 13 mil demissões.
A tesourada incluía os 800 trabalhadores da fábrica de Parobé, a cidade gaúcha onde nasceu a Azaleia. Galeazzi nunca se assume com um serial killer de empregos, mas como um executivo devotado ao mantra sagrado da reestruturação. Ele ensina: “O reestruturador precisa ser tático e ter um horizonte de até dois anos para empreender as mudanças necessárias”. É o tempo que Galeazzi terá, até 2015, para ‘reestruturar’ a RBS.
Em meados dos anos 2000, o grupo de supermercados Pão de Açúcar, maior rede varejista do país, estava perdendo a corrida para o concorrente que viera dos Estados Unidos, a rede Walmart. Abílio Diniz, dono do grupo, achou que essa era uma missão para Galeazzi Mãos de Tesoura. O consultor ganhou o crachá de presidente, em dezembro de 2007, e virou a empresa de 150 mil funcionários pelo avesso. Mudou a disposição dos produtos nas gôndolas das 1.800 lojas no País, trocou o mix de itens vendidos e suspendeu a agressiva política de descontos da empresa. Em poucos meses, demitiu 20 diretores e 300 empregados.
Entre janeiro e setembro de 2009, o amargo prejuízo do Pão de Açúcar se converteu num doce lucro de 162% em relação ao período do ano anterior. A tesoura é de Galeazzi, mas quem dá a tesourada é sempre o pessoal doméstico, lembrou ele em 2012 à repórter Vivian Soares, do Valor Econômico. “Os executivos da casa conhecem a empresa, sabem o que fazer e são parte ativa na reestruturação. Muitas vezes só faltava o pontapé inicial”, disse, lembrando do aviso que deu aos executivos do Pão de Açúcar quando assumiu a presidência: “Quem vai trabalhar aqui são vocês, e vão trabalhar como nunca. E o pior é que quem vai levar o crédito sou eu”.
Caindo na tabela
No caso da RBS, isso quer dizer que Galeazzi como de hábito traz a tesoura e leva o ‘crédito’, mas a tesourada, insinua ele, será sempre de Duda e dos executivos sobreviventes da RBS. Apesar de Duda tentar exalar perfume em sua ‘carta-bomba’, negando a crise, os números contam outra realidade. Em 2008, o caixa da RBS ganhou um sopro com a venda de 12,64% do capital à Gávea, o banco de investimento de Armínio Fraga, presidente do Banco Central no Governo FHC e anunciado como futuro ministro da Fazenda de um (muito) hipotético Governo Aécio Neves. A ponte entre o banqueiro e a família Sirotsky foi construída pelo então vice-presidente executivo da RBS, Pedro Parente, ministro do Planejamento e colega de Armínio no Governo FHC.
Na versão oficial da RBS, os recursos da capitalização seriam utilizados não em jornais, mas em aquisições na área de internet e em conteúdos para telefonia móvel, expandindo as ações da RBS além das fronteiras do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em 2007, a RBS renegociou o contrato com a Globo, liberando suas ações em novas mídias do Paraná para cima, desde que não fosse competir com o império global em mídias tradicionais — como jornais, rádios, TV e revistas.
Em 2010, por tabela, a RBS caiu na rede de um banco americano. O JP Morgan, que gere ativos de US$ 12 bilhões, comprou por US$ 800 milhões uma fatia de 55% do capital e o controle da Gávea, que administra outros US$ 7 bilhões, incluindo no pacote o passe de Armínio Fraga por cinco anos. É a conta exata para se liberar em 2015 e assumir a pasta da Fazenda na hipótese cada vez mais remota da vitória de Aécio na corrida presidencial. No bolo está o pedaço de capital da RBS comprado pela Gávea e sócia, agora, da Highbridge, segunda maior gestora de fundos do mundo. O Morgan é ainda o principal acionista da WPP, maior agência de publicidade do mundo, um gigante de 162 mil funcionários espalhados por 3 mil escritórios em 110 países do mundo. É bom a RBS abrir o olho!
A empresa, por sua alta visibilidade, está impregnada na memória dos gaúchos. Na tradicional pesquisa ‘Top of Mind’, realizada todo ano pela revista Amanhã, a RBS reafirma em 2014 sua presença como a terceira marca mais lembrada do Rio Grande, logo atrás do gigante siderúrgico Gerdau e da indústria de facas Tramontina. No diagnóstico financeiro, contudo, a RBS está mais debilitada. No levantamento das 500 maiores empresas da região sul, abrangendo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande, divulgado na edição de agosto/setembro da revista, o grupo de Duda resvalou da posição 68 para 74, no comparativo de balanços entre 2012 e 2013. O campeão entre os 500 maiores continua sendo o Grupo Gerdau.
O segundo maior da lista é um gigante pouco citado de Concórdia, a cidade catarinense onde funciona a sede da BRF Brasil Foods, filhote gerado em 2012 pela fusão da Sadia com a Perdigão, marcas tradicionais de salsicha, frango, carne de porco e embutidos. Com 50 fábricas no Brasil, nove na Argentina e duas na Europa (Inglaterra e Holanda) e um exército de 110 mil funcionários, a pujante BRF morde quase 10% das exportações mundiais de aves e proteína animal. Em 2012 a BRF começou a construir uma fábrica no reino encantado de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, e fechou uma joint venture com a Dah Chong Hong Limited (DCH), que vende no varejo e no trepidante negócio de food services da China. E o que tem a ver toda essa salsicha com a RBS?
Simples. Ele mesmo, Galeazzi Mãos de Tesoura. Preocupada em ampliar os limites de seu vôo de galinha, a BRF entregou a presidência do grupo a Cláudio Galeazzi em agosto de 2013, um mês após o consultor fechar sua parceria com a RBS. Ele chegou exibindo o velho estilo, anunciando implacáveis tesouradas em granjas, florestas e prédios não administrativos, cortes anunciados como meros ‘desinvestimentos’ na amena novilíngua dos modernos ‘reestruturadores’ como Mãos de Tesoura.
“Desinvestimento vai ser considerado, sim”, anunciou Galeazzi na posse como presidente, sem negar o vôo transatlântico de longo curso que imagina para seus frangos congelados: “A BRF será a Ambev dos alimentos”, diz, sonhando com a cervejaria que se tornou a maior empresa da América Latina, com valor de mercado de US$ 120 bilhões — maior do que o da Petrobrás —, e que tem como principal acionista Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em R$ 49, 8 bilhões, segundo a revista Forbes.
Em agosto passado, a BRF anunciou a compra por US$ 160 milhoes de 75% da Alyasra Food Company, que distribui seus alimentos congelados no Kuwait. Galeazzi, fiel ao seu ‘horizonte tático’ de dois anos para chegar, tesourar e concluir o serviço, assumiu a BRF em agosto de 2013 e já anunciou que sai da presidência em dezembro próximo. Terá mais tempo, então, para voltar os olhos e afiar o gume na RBS, para desconsolo de muitos. No ranking das 100 maiores empresas do Rio Grande do Sul, segundo a revista Amanhã, a involução da RBS também chama a atenção. De 2012 a 2013, o império dos Sirotsky caiu da posição 24 para 27, numa lista liderada pela Gerdau, como sempre, e pelo Banrisul. A receita bruta do líder de aço (R$ 45,7 bilhões) é quase 45 vezes maior do que o do grupo de mídia (R$ 1,3 bi).
Na sua avaliação sobre o balanço da RBS, a Amanhã registra que, em 2013, “a empresa teve um aumento de apenas 1,3% na receita bruta. Já o lucro foi de R$ 75 milhões, o que equivale a 5,9% da receita líquida — um índice modesto”. A analista Luísa Vilhena, da agência de risco Standard & Poor’s, explicou para a revista a raiz das dificuldades da RBS. “O grupo tem um perfil de liderança na região. Por outro lado, acaba exposto a uma volatilidade maior do que se estivesse no país inteiro”.
O engessamento imposto pelo draconiano contrato com o Grupo Globo limita a expansão nacional da RBS, confinada à fronteira de Santa Catarina com o Paraná. Isso explica os novos negócios que começam a mudar o perfil de uma empresa que há meio século nasceu pelo jornalismo e hoje tateia por nichos inovadores e rentáveis de mercado, que têm de tudo — menos jornalismo.
Turbilhão digital
A crise mundial dos jornais explica e justifica esta ousada ‘quebra de paradigmas’ da RBS, que ainda parece um tanto envergonhada pela opção atual de um grupo que começou oferecendo notícias em TV, rádio e jornais e hoje vende vinho e cerveja. Na década de 1990, quando circulava aos domingos com 1 milhão de exemplares, a Folha de S.Paulo se gabava de ser “o 3º maior jornal do Ocidente”.
Hoje, o jornal da família Frias é o segundo do país, reduzido a um terço das glórias do passado, com tiragem média de 294 mil exemplares. Vem atrás do campeão, o SuperNotícia, um jornal de 25 centavos consumido pelas classes C e D de Belo Horizonte, atraídas pelas ofertas de panelas e faqueiros e pelas manchetes de futebol e atrocidades policiais, além das fotos com belas mulheres seminuas na primeira página. O campeão dos jornais brasileiros, apesar de todo esse chamariz, vende só 302 mil exemplares, segundo o IVC.
Neste ranking desconcertante, a Zero Hora é hoje apenas o sexto maior jornal do país, com tiragem de 183 mil exemplares diários, em média. O oitavo é o jornal popular do grupo, o Diário Gaúcho, com 159 mil, seguido por outro gaúcho, o concorrente Correio do Povo, com 140 mil. Em um país de 200 milhões de habitantes, a média diária de jornais pagos chegou a 8,4 milhões de exemplares/dia — uma queda de 3,7% em relação ao ano anterior, a maior desde o início da década, quando as vendas despencaram 9,1% em 2002.
Pouco a pouco, o IVC constata uma inversão preocupante no perfil de venda dos jornais diários. Em 2002, 58,7% da circulação vinha das assinaturas, como reflexo do nível de confiança e fidelidade do leitor, e 41,3% ficavam por conta da venda avulsa e sempre volúvel nas bancas. No ano passado, as bancas responderam por 48,7% das vendas, enquanto as assinaturas despencaram para 51,3%, traindo o desinteresse maior do público pela mídia de papel.
O negócio dos jornais impressos, como já perceberam os Sirotsky, está sendo avassalado pela mídia digital, exatamente o meio onde a RBS aposta cada vez mais, raramente por elevadas razões jornalísticas. Em janeiro de 2005, pela medição do Ibope Nielsen, a leitura on line de jornais registrava 4 milhões de visitas únicas por mês. Em janeiro de 2013, a audiência era quase seis vezes maior, 24 milhões de visitas mensais de gente que provavelmente trocou o papel pela tela brilhante e limpa de seus dispositivos eletrônicos. A indústria jornalística precisa conviver com a migração crescente dos jornais tradicionais para a mídia eletrônica. A primeira década do Século 21, conforme um alerta da Associação Nacional de Jornais (ANJ), citando um levantamento do Ibope Mídia, indica que o leitor estava, para aflição de Duda Sirotsky, num crescente processo de desapego aos jornais.
Em 2002, o brasileiro dedicava 41 minutos de seu dia à leitura de jornais. Dez anos depois esse número havia caído para 35 minutos, 85% do tempo original. Em compensação, quem gastava 139 minutos (duas horas e 19 minutos) diários com a navegação na internet, em 2002, elevou esse tempo em mais de 23% em 2012, passando 170 minutos (quase três horas) diante de um teclado e uma tela.
A joia da coroa
A RBS sentiu esta mudança na carne, e procura mudar com ela. Basta comparar a área de atuação do grupo, hoje, para perceber a transformação. O núcleo de jornais, capitaneado por Zero Hora, tem oito unidades, metade deles em Santa Catarina. O núcleo de TV, com 18 emissoras, atinge 789 municípios gaúchos e catarinenses e um público consumidor de 16,7 milhões de telespectadores. Mas, pelo tacão implacável da Globo, só pode dispor de 15% da grade local de programação, mesmo sendo a maior rede regional do império Marinho. O grupo de rádio, que inclui a Gaúcha, embrião da RBS desde 1957, tem oito emissoras.
No conjunto de mídia tradicional, que abrange jornais, rádio e TV, são 34 unidades na RBS. Mas, a joia da coroa, que concentra hoje as esperanças maiores de Duda e da família Sirotsky, é o grupo de inovação alojado no e.Bricks Digital, com 10 unidades, e no setor vagamente definido como ‘Outros Negócios”, com nove empreendimentos. De jornalismo, esta joia não tem nada. São 19 apostas no faturamento, nas vendas, nos resultados e no comércio escancarado por oportunidades inventadas pelo universo cibernético e aceleradas pela tecnologia. São simplesmente apostas para ganhar dinheiro, não credibilidade.
Vendem coisas, não ideias. Entregam mercadorias, não reflexão. Estabelecem as volúveis relações de uma empresa com seus consumidores, não os laços de fidelidade de uma empresa jornalística com seus leitores. Esta é a velha RBS da comunicação, aquela é a novíssima RBS, uma outra RBS, ainda indefinida. Esta partição empresarial é que define com mais clareza a quebra de paradigmas que Duda anunciou aos ‘caros colegas’ no início de agosto, na primeira tesourada.
Na saudável busca pela excelência e alto desempenho, a RBS investe pesado na formação de seus quadros, daqueles que eventualmente sobrevivam ao Galeazzi Mãos de Tesoura. Mais da metade de seus funcionários passou pela universidade: 33% são formados, outros 21% tem o curso superior incompleto.
Boa parte deles está na e.Bricks, pilotada por um jovem impetuoso de 41 anos, Fábio Bruggioni, ex-vice-presidente da Telefônica na área de internet e banda larga. No barco digital da RBS, Bruggioni vai inflar as velas para aproveitar os bons ventos de um mar de faturamento estimado em R$ 66 bilhões até 2015.  “Trata-se de um mercado recente e com altíssimo potencial de crescimento”, diz Bruggioni.
Fábio Bruggioni e a joia da coroa da RBS: vinho, cerveja, oba-oba e nada de jornalismo
Fábio Bruggioni e a joia da coroa da RBS: vinho, cerveja, oba-oba e nada de jornalismo

O amigo dicionário
A e.Bricks de Bruggioni, empresa da área digital com sede em São Paulo, é que define e resume o novo espírito de uma RBS transformada pelo futuro dos ‘novos negócios’. Só na compra de participação em oito empresas de internet, a e.Bricks já investiu R$ 300 milhões. No mundo febril dos novos nichos inventados por executivos cada vez mais criativos, é útil ter um dicionário ao lado, para quem não é íntimo do inglês. A definição bilíngue da e.Bricks, segundo o Relatório de Sustentabilidade 2012 da RBS, é esta: “Realiza investimentos em empresas growth stage e possui um fundo dedicado a startups iniciantes, early stage”. Não entendeu? É melhor recorrer ao dicionário…
A empresa aposta suas bitcoins (a criptomoeda que só existe no mundo virtual) em companhias brasileiras, inovadoras, com foco em três setores: e-commerce segmentado, mobile (que alguns brasileiros conhecem como celular…) e mídia digital e tecnologia. O portfolio da e.Bricks é feérico. A Pontomobi faz marketing para audiências on line através de dispositivos móveis. Entre eles, a Lembreto, a PlayMe (aplicativos de rádio em formato streaming e compatível com smartphones e tablets) e o TabStudio (para publicações digitais em aplicativos para iPad ou Android). A Hands é a rede de publicidade da Pontomobi e, segundo eles, ‘a maior Premium Mobile Ad Network da América Latina’. A Vitrinepix, ao que parece, imprime imagens, fotos e desenhos em camisetas e canecas. A Let’s é, dizem, “a primeira fast fashion on line do Brasil”, um site de moda que faz desfiles na sua tela. E promete: “Se você já é comprador on line vai adorar comprar com a gente. Se não é, vai virar fã de carteirinha.” A nova RBS caça compradores e fãs de carteirinha…
A Wine, como Duda anunciou à multidão aflita da RBS no dia da tesoura, é a maior webstore de vinhos on line do mundo, com um inebriante crescimento anual de 70%. Oferece mais de 2 mil rótulos de vinhos premium e integra o ClubeW, com mais de 13 mil sócios. Os ‘caros colegas’ da RBS têm, agora, o privilégio de afogar as mágoas se associando também ao Have a Nice Beer, o maior clube on line de cervejas da América Latina, que todo mês seleciona dois dos rótulos mais relevantes do mundo, entregando de quatro a oito garrafas na casa dos associados, em até 72 horas, em 300 cidades do Brasil. Não é o máximo?
A Hi-Mídia é “a maior rede de sites verticais” do país, dedicada ao ‘e-mail marketing’ para agências e anunciantes. A Hagah mira os 82 milhões de internautas que fazem, em média, 50 buscas por mês na rede, conectando 3,5 milhões de pessoas, listando 1 milhão de estabelecimentos no sul do país. O Oba-Oba mapeia casas noturnas, motéis e boates, localiza festas de baladas e dá dicas sobre locais de ‘pegação’. O Predicta atua na área de análise de publicidade e foi apontada pela Fast Company, em 2012, como “uma das 10 empresas mais inovadoras do Brasil”. O terceiro colocado da lista foi o Grupo EBX, do trepidante empresário Eike Batista, que no ano seguinte daria o maior calote de uma empresa na América Latina, deixando de honrar uma dívida de US$ 3,6 bilhões da petroleira OGX, que encolheu sua fortuna pessoal em US$ 30 bilhões num prazo galopante de 18 meses.
No vasto mundo dos “Outros Negócios” da nova RBS, cabe de tudo. As nove unidades abrangem eventos, educação, empregos, compra e venda de carros e imóveis, entrega de encomendas e serviços gráficos, atividades rentáveis que prescindem de qualquer jornalista. É um sortido, vasto balaio de tudo aquilo que, ao contrário do jornalismo, gera receita, faturamento e lucros, nos termos definidos pela ‘carta-bomba’ de Duda: “Estamos investindo e redesenhando a nossa operação, buscando velocidade e desprendimento que são vitais para a preservação do nosso projeto empresarial”.
Paradigmas, sem jornalistas
Com o ‘desapego para deixar de fazer coisas que não agregam’, como diz Duda, os ‘outros negócios’ da RBS vão fazer coisas que agregam rendas insuspeitadas para uma empresa antes identificada só pela comunicação e pelo jornalismo. A nova RBS, nesse campo inovador, só tem apego por coisas que agregam. A HSM Brasil, por exemplo, vai realizar cursos de educação executiva de alto padrão. A Engage, especializada em eventos, promoveu cerca de 200 espetáculos e encontros de negócios, entretenimento e esportes em solo gaúcho e catarinense. O mais triunfal deles foi o show do beatle Paul McCartney para 50 mil pessoas no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, em novembro de 2010. Apesar do sucesso, a crise abafou o clima de festa na Engage: os 40 funcionários caíram pela metade, os eventos sumiram e o desânimo geral alimenta os boatos de que a empresa apagou os holofotes e fechou as portas.
A Vialog surgiu há 15 anos, pelo natural desafio de entregar a Zero Hora em casa aos seus assinantes. Alguém mais esperto na RBS descobriu que, junto com os jornais, os caminhões da empresa podiam levar outras mercadorias, reforçando o caixa. A Vialog virou uma outra coisa que agrega, hoje cobrindo todos os municípios dos três Estados do sul do País, com 42 centros de distribuição para a entrega simultânea de de 600 mil mercadorias por dia. O jornal que um dia gerou a Vialog virou um detalhe na rotina burocrática da nova Videolog que, entre tantas outras coisas que agregam mais, também carrega a Zero Hora.
A RBS, que antes imprimia só os seus jornais, agora roda outros mais de muitos outros, agregando coisas pela UMA, a gráfica que em 2007 introduziu a empresa no rico filão da indústria da impressão, suprindo seus clientes em seis parques gráficos espalhados por Porto Alegre, Caxias do Sul, Cruz Alta, Florianópolis, Joinville e Blumenaus, de onde saem folders, folhetos, revistas e tablóides.
O rico filão de ‘outros negócios’ da RBS: um balaio de serviços que dispensam jornalistas
O rico filão de ‘outros negócios’ da RBS: um balaio de serviços que dispensam jornalistas

No agitado universo da economia, excitado pelo uso intensivo de tecnologia cada vez mais desafiadora, é natural que empresas inovadoras busquem outros mercados, novas oportunidades para diversificar e crescer. É o que acontece com a RBS. O que preocupa, contudo, é a essência dessa transformação no maior grupo de comunicação do sul do país. Não são apenas os números fartos da RBS que mostram que a divisão centrada no jornalismo gera despesas e pouca receita e o núcleo dos novos nichos de negócios não-jornalísticos produzem lucros com baixos custos. A quebra de paradigmas proposta por Duda para a nova RBS está expressa no perfil dos jovens executivos, como ele, responsáveis pelo futuro do grupo – e quase nenhum deles mostra, no currículo, um envolvimento direto com o jornalismo.
De praxe, são homens e mulheres de alta qualificação, com formação em centros de excelência universitária no exterior e passagens de sucesso em algumas das grifes mais importantes do exigente mundo digital, onde a RBS não tem fronteiras nem limites. “Na área digital não temos limitações geográficas para investir”, lembrou em dezembro passado o tio de Duda, Nelson Sirotsky, hoje presidente do Conselho de Administração do grupo, falando na reunião-almoço ‘Tá na Mesa’, promovida pela Federação do Comércio do Rio Grande do Sul (FEDERASUL). Como retransmissora da Globo nos dois Estados do extremo sul, a ambição jornalística da RBS acaba na fronteira com o Paraná. “Não podemos entrar e competir com outras afiliadas da Globo em outros estados”, explica Sirotsky.
Esta frustração ele não tem, porém, no campo digital. A RBS morde o calcanhar até de gigantes do setor para mostrar sua volúpia de expansão.
Em janeiro de 2013, a RBS repatriou um gaúcho que morava na Suíça, Nelson Mattos, que lá exercia o cargo de vice-presidente de Produtos e Engenharia para Europa e Mercados Emergentes da Google. É apenas o endereço digital mais visitado do mundo, operando um milhão de servidores conectados pelo mundo, processando por dia 1 bilhão de pesquisas e gerando 20 petabytes de dados diários – ou 20 quatrilhões de bytes, unidade de informação que corresponde a um número binário de oito algarismos. Mattos agora integra o Conselho de Administração da RBS, com 11 membros eleitos, seis deles acionistas, cinco independentes — nenhum deles jornalista –, sob a presidência de Nelson Sirotsky. Além de Mattos, os dois novos conselheiros indepedentes são Israel Vainboim, ex-chairman do Unibanco, e Régis Drubule, presidente da Tok-Stok.
Lecca-lecca e chupa-chups
Na Diretoria Executiva da RBS, presidida por Duda, existem oito cadeiras e só duas cabem a diretores egressos do jornalismo: Anik Suzuki, da Comunicação Corporativa, e Marcelo Rech, executivo de Jornalismo. Dos outros seis diretores que gerem a RBS, popularmente conhecida pela Zero Hora e pela RBS TV, ninguém tem origem ou passagens por redações, o que é uma grave disfunção. O diretor-geral de Televisão, Antonio Tigre, é analista de sistemas e especialista em finanças. O vice-presidente de Finanças, Cláudio Toigo, é formado em administração de empresas pela UFRGS, com pós-graduação da PUC gaúcha em finanças.
O vice-presidente de Pessoas e Tecnologia, Deli Matsuo, é formado em engenharia elétrica e tecnologia de informação e tem MBA em administração de empresas. É outro que a RBS foi buscar no Google, onde atuou como diretor de recursos humanos para a América Latina. O vice-presidente de Jornais, Rádios e Digital, Eduardo Smith, é formado em ciências da computação pela UFRGS e pós- graduado em administração de empresas e finanças pela PUC gaúcha. O executivo-chefe da e.Bricks, Fábio Bruggioni, é administrador de empresas com especialização em marketing. A diretora-executiva de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios, Luciana Antonini Ribeiro, é advogada formada pela UFRGS, com mestrado em direito comercial pela USP.
As duas únicas exceções nesta diretoria superpovoada por executivos estranhos ao jornalismo ficam por conta da diretora de Marketing e Comunicação, Anik Suzuki, e ao diretor de Jornalismo da RBS, Marcelo Rech. Ela, como seria natural num grupo jornalístico, foi repórter e editora de jornais e revistas, formada em jornalismo pela PUC. Ele, formado em jornalismo pela UFRGS, foi repórter de Zero Hora com experiência internacional e, a partir de 1997, atuou como diretor de redação do jornal por 11 anos.
Ambos, Anik e Marcelo, têm mais intimidade e contato direto com o jornalismo do que o chefe de todos eles, o presidente da diretoria-executiva, Eduardo Sirotsky Melzer, o popular Duda. Ele cursava administração de empresas na PUC, em Porto Alegre, quando viu, aos 20 anos, a ousada quebra de barreira aos importados executado pelo Governo Collor.
Duda aproveitou a onda e trouxe para a capital gaúcha a primeira loja no Brasil da Sweet Sweet Way, uma franquia que importava balas, bombons, trufas, doces e caramelos. Ou os coloridos lecca-lecca e chupa-chups, como se diz pirulito na elegante loja de Milão, Itália. A experiência com pirulitos teve um forte impacto sobre ele, como confessou ao site Coletiva.net, em novembro de 2006:
“Era um negócio diferente. O sujeito entrava na loja, escolhia as balas e pesava. Comecei não só a ter as minhas lojas, mas a franquear para o Brasil também. Foi uma responsabilidade bárbara, tinha quatro lojas próprias, 50 funcionários e um monte de franqueados. Assumi uma responsabilidade muito à frente do meu tempo”, disse, sem modéstia.
Duda Sirotsky e a ‘missão muito à frente de seu tempo’: vender os pirulitos lecca-lecca e chupa-chups / Foto/ Andréa Graiz -RBS
Duda Sirotsky e a ‘missão muito à frente de seu tempo’: vender os pirulitos lecca-lecca e chupa-chups / Foto/ Andréa Graiz -RBS

À revista da PUC, Duda lembrou dessa doce influência sobre seu futuro como principal executivo da RBS: “Foi bárbaro. Eu era impactado por todos os aspectos de uma empresa: relação com o cliente, funcionários, produto, fornecedor e governo. Numa escala pequena, mas muito completa. A mistura dessa experiencia com a formação academica foi relevante”.
Na entrevista concedida em novembro de 2012, cinco meses após receber o bastão de mando do tio Nelson, em nenhum momento Duda lembrou de relacionar, entre os seus particulares aspectos de impacto, as palavras-chave que seriam naturais no principal executivo da segunda maior rede de comunicação do país: leitor, informação, jornalismo, conteúdo, história, credibilidade… É desconcertante ler que o Duda da RBS, ainda hoje, sucumbe às delícias mercantis vividas pelo Duda da Sweet Sweet Way, entoando sua ideia fixa de ‘cliente, produto, fornecedor’, mais comuns no dialeto de mascates e vendedores do que na linguagem dos empresários da comunicação seriamente comprometidos com o valor social e ético da informação.
Marco do pensamento
Nem o pai, Carlos Melzer, do alto de sua experiência de três décadas na RBS, deslumbrou-se com o sucesso da franquia. Quando Duda completou o curso na PUC, chamou o filho e lhe tirou o pirulito: “Parabéns, mas não perca a perspectiva das coisas. Não sei se tu te enxergas como empresário de balas para o resto da vida. Tu deves ter outras ambições…”, alertou Melzer.
A frase amarga do pai fez Duda largar os doces. Vendeu o negócio da franquia e mudou-se em 1998 para Boston, nos Estados Unidos, para o inevitável curso de MBA em Harvard. Lá, diz ele, conviveu com alguns dos mais importantes gurus de gestão e colegas de vários países e de todo tipo de empresa, onde aprendeu a formular esta frase lapidar, que corre o sério risco de se transformar num marco histórico do pensamento da comunicação mundial. “A variedade de abordagens me deu uma visao aprofundada sobre as mudanças que estão sempre em curso”, filosofou na revista da PUC.
Concluído o MBA de Boston em 2002, aos 30 anos, Duda decidiu permanecer nos Estados Unidos. Após o impacto do pirulito, chegara a hora de sentir as emoções da Big Apple. Mudou-se para Nova York e adorou, disse ao Coletiva.net: “Foi complementar, em todos os aspectos, ao meu MBA. Nova York é um centro nervoso do mundo. Por mais coisas que eu estivesse fazendo, sempre sentia que estava deixando de fazer outras. Foi uma aula de gestão de prioridades”, brincou Duda.
Lá, ele treinou na área financeira de um banco de investimentos, o Delphi Corporation, e teve sua primeira, remota experiência de comunicação como diretor-geral da Box Top Media, que ele define vagamente na revista da PUC como “uma empresa de mídia não tradicional” em Nova York. Na verdade, a Box Top Media, fundada em 2001, opera uma rede de publicidade que anuncia e promove produtos lácteos de vários fabricantes e varejistas nos Estados Unidos. Orienta o marketing de leite em recipientes para venda em casas e lojas. Ou seja, a Box Top de Duda lembra mais o negócio do pirulito do que a área de mídia hoje comandada pelo Duda da RBS…
Tradicional ou não, esse notável desempenho de Duda no exterior chamou a atenção do tio, Nelson Sirotsky, e do vice-presidente Pedro Parente, que decidiram dispor de seu talento e espírito empreendedor no Brasil. Duda voltou em 2004 para São Paulo, como diretor-geral da RBS para o Mercado Nacional. Quatro anos depois era o vice-presidente de Mercado e Desenvolvimento de Negócios, chegando em 2010 ao posto de vice-presidente executivo.
Essa trajetória de sucesso tornou inevitável sua ascensão em 2012, aos 40 anos, ao posto de presidente-executivo, sucedendo o tio e marcando a chegada da terceira geração ao poder na RBS. Era uma linda e risonha história de sucesso, até o dia em que ela foi atravessada pela cortante aparição de Galeazzi Mãos de Tesoura. Foi o duro rito de passagem vivido por Duda, obrigado a quebrar paradigmas e a reconhecer aos ‘caros colegas’ que a vida, de fato, não é pirulito.
Perpétua, de pai para filho
Ninguém supera a RBS no orgulho de ser declaradamente “uma empresa de controle familiar”, ao ponto de deixar isso expresso na definição que faz de Governança Corporativa em seus balanços públicos: “A governança da RBS é estruturada a partir da interação harmônica entre os três círculos: propriedade, empresa e família”. Duda sustenta a tradição: “Quero levar a RBS para uma próxima geração e perpetuá-la. Não estou pensando no faturamento de 2013, mas no de 2024, 2040, daí para frente”, garantiu à revista Forbes.
As quatro gerações do clã Sirotsky... ...e Duda [no círculo e na presidência]: a RBS perpetuada / Fotos/ RBS
As quatro gerações do clã Sirotsky… …e Duda [no círculo e na presidência]: a RBS perpetuada / Fotos/ RBS
Perpetuação é uma palavra que permeia discursos, palestras e documentos do clã Sirotsky, que exibem orgulhosamente nas páginas oficiais as fotos das quatro gerações da família. Duda está lá. O conselho de família, composto por sete jovens do clã, não é um elemento decorativo na empresa. Ele se reúne uma vez por mês, sob a orientação do presidente-executivo Duda, e tem nobres propósitos:
“Conservar o legado da família Sirotsky, manter a unidade e assegurar o apoio das novas gerações da família proprietária na busca da perpetuação do Grupo RBS”, como explica o Relatório de Sustentatibilidade 2012, na página 16.Uma das reuniões do conselho de família, recorda Duda, foi realizada em Punta del Este, Uruguai, congregando em 2005 as quatro gerações para debater questões de grupo e realizar dinâmicas de integração. “Eu vi o meu filho de um ano correndo de mãos dadas com o meu tio Jaime. Isso foi emblemático, um momento mágico”, contou emocionado ao Coletiva.net.
O currículo alheio ao jornalismo da esmagadora maioria dos atuais dirigentes do grupo projeta uma dúvida preocupante sobre as prioridades e a essência da RBS como uma instituição dedicada preferencialmente à comunicação. No perfil da diretoria executiva, onde existem só dois jornalistas numa bancada de oito, fica latente o viés de técnicos de alta formação intelectual mais preocupados com crescimento e vendas do que de profissionais dedicados à informação e ao jornalismo.
Esta preocupação pode se reforçar com a escalação dos jovens Sirotsky do conselho de família. Dois dos sete são da 2ª geração, a mesma de Nelson, e os outros cinco são da 3ª, como Duda. O notável, no grupo de onde sairão os comandantes da futura RBS, é a perpetuação de um pensamento empresarial alheio ao jornalismo. Da geração de Nelson, Marcelo é empresário e Elaine, médica.
Da geração de Duda, Marina e Juana são psicólogas, Roberto é administrador e Pedro é universitário. A única e honrosa exceção identificada como jornalista é Tanise, a solitária repórter da 3ª geração.
Duas gerações para perpetuar a RBS: sete Sirotsky, um só jornalista
Duas gerações para perpetuar a RBS: sete Sirotsky, um só jornalista

A cor da pele
Uma leitura atenta do Relatório de Sustentatibilidade 2012 do grupo mostra um detalhe intrigante da RBS: uma inusitada preocupação com raça, que evoca lembranças constrangedoras para os gaúchos — e sempre dolorosas para os Sirotsky e os judeus do mundo inteiro. No jogo do dia 28 de agosto do Grêmio contra o Santos, em Porto Alegre, torcedores gremistas fizeram com gestos e gritos ofensas racistas ao goleiro santista Aranha, chamado de ‘macaco’, entre outras agressões.
O clube gaúcho foi excluído da Copa do Brasil e os torcedores identificados foram banidos dos estádios por 720 dias. O jornal Zero Hora reagiu na edição de 3 de setembro com um editorial veemente — ‘O Rio Grande não é racista’ —, sustentando ser ‘simplista, desproporcional e injusto’ responsabilizar o Estado inteiro ou o Grêmio pelas injúrias de alguns torcedores.
O principal jornal da RBS escreveu:

O Grêmio tem uma imensa torcida e a maioria dos seus torcedores, assim como a maioria dos gaúchos, abomina o racismo, defende a diversidade e a convivência harmoniosa entre todos os seres humanos. Não poderia ser diferente num Estado multirracial, que se orgulha de abrigar imigrantes de variadas origens étnicas.[…]
Também a história contemporânea do Estado evidencia o equívoco da rotulação. O Rio Grande do Sul já teve como governador o negro Alceu Collares, eleito democraticamente com o voto da maioria absoluta dos gaúchos. Também é deste Estado a primeira Miss Brasil negra, a porto-alegrense Deise Nunes, eleita em 1986. O próprio Grêmio tem uma forte identificação com a população afrodescendente: a estrela solitária de sua bandeira homenageia o negro Everaldo, campeão do mundo em 1970; o hino do clube foi composto pelo negro Lupicínio Rodrigues e o clube mantém, desde o ano passado, uma campanha de conscientização denominada ‘Azul, Preto e Branco: o Grêmio é contra o racismo’.
O racismo é inadmissível. Todas as práticas racistas, expressas ou veladas, devem ser combatidas, condenadas e punidas na dimensão exata dos danos que causam às vítimas e à sociedade.

Apesar desse texto inspirador, uma nota de racismo nada velado da própria RBS foi revelado pelo blogueiro José Luiz Prévidi quatro dias após os vexames racistas na Arena do Grêmio. Um colunista de economia do jornal da RBS em Joinville, Santa Catarina, noticiou com santa naturalidade em outubro de 2013 que o perfil ideal dos trabalhadores procurados para ocupar 7 mil vagas nas empresas da cidade era “homem, branco, de 25 a 35 anos de idade”.
Não ocorreu ao jornalista Cláudio Loetz, que assina a coluna ‘Livre Mercado’, e nem ao jornal A Notícia, comprado pela RBS em 2006, combater e condenar a restrição racista tão bem chicoteada no editorial de Zero Hora.

O colunista do jornal da RBS em Joinville e o 'perfil ideal' para trabalhar na cidade: "homem, branco".
O colunista do jornal da RBS em Joinville e o ‘perfil ideal’ para trabalhar na cidade: “homem, branco”.

Poderia ser uma derrapada pontual de um jornalista distraído num dia infeliz. Mas, o caso é mais grave. Para uma empresa inovadora e moderna como a RBS, é espantoso descobrir que o tema da raça transborda as colunas de seus jornais periféricos e se torna, de fato, um detalhe cruel de uma instituição que se gaba de ter construído em 2012, quando Duda chegou ao poder, um novo ‘Modelo de Gestão de Pessoas do Grupo RBS’.
No Relatório de Sustentatibilidade 2012, o mais recente editado pela RBS, o capítulo de ‘Indicadores de Recursos Humanos’ revela uma face insuspeitada da empresa. Ela demonstra uma estranha obsessão para classificar seus funcionários pelo pigmento de pele. Assim, na página 33, no gráfico que mostra o percentual de ‘Colaboradores por cor’, sabe-se que a empresa divide seu pessoal entre os Brancos e Negros ou pardos.
A diferença é espantosa: 96% dos que trabalham na RBS são brancos, o que representa 6.240 funcionários num universo de 6.500. Só 4%, ou 260, são negros ou pardos. Quando se fecha a lupa pelo critério da hieraquia, a situação é ainda mais aberrante. No gráfico da página 34 sobre ‘Cargos de gerência por cor’, o nível de alvura da RBS é avassalador: 99% dos gerentes de Duda são ‘brancos em cargos de gerência’, contra 1% de ‘negros ou pardos em cargos de gerência’. Em números absolutos, são 826 funcionários brancos contra apenas oito catalogados como negros ou pardos. A quem duvida, basta acessar o relatório no portal www.gruporbs.com.br.
 
A RBS e a obsessão pela cor da pele: brancos em massa na empresa, quase todos brancos nas gerências.  Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 33
A RBS e a obsessão pela cor da pele: brancos em massa na empresa, quase todos brancos nas gerências.  Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 33

Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 34
Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 34

Mesmo com esses índices inquietantes, a RBS insiste em proclamar ao mundo a excelência dos seus padrões de seleção dos ‘caros colegas’ de Duda, omitindo qualquer eventual restrição étnica. Diz o relatório:

Durante 2012, a RBS desenvolveu um sistema de recrutamento e seleção de classe mundial que auxilia a empresa a identificar, contratar e reter os melhores talentos. Foi estabelecido também um Núcleo de Inteligência, que passou a monitorar o mercado para identificar os polos que concentram e/ou formam profissionais de alta capacidade.
Mas as mudanças mais significativas aconteceram em relação ao processo de seleção dos candidatos.
Os gestores das áreas participaram, ao longo de 2012, de um total de 692 horas de workshops que detalharam as novidades — uma vez que desempenham papel preponderante na contratação de colaboradores para suas áreas. O processo seletivo passou a adotar um modelo de colegiado, em que cinco profissionais de diferentes área da RBS entrevistam cada candidato individualmente. Ao candidato atribuem-se notas referentes às suas habilidades cognitivas, à sua experiência profissional e ao seu alinhamento aos valores corporativos do Grupo RBS.
Em 2012, houve uma seleção para o programa de Trainees, que registrou 12,8 mil inscrições. No final do processo, sete talentos foram recrutados. Os jovens são preparados durante dois anos para, posteriormente, assumirem cargos de liderança na companha.

Infelizmente, os números do relatório indicam que negros ou pardos não sobreviveram à ‘seleção de classe mundial’ da RBS, nem passaram pelo crivo do Núcleo de Inteligência. Não se sabe, também, se entre os sete talentos recrutados pelo programa de Trainees existe algum negro — ou simplesmente pardo.
O branco 100%
Estas observações poderiam parecer exageradas, mas o drama racial da RBS não acaba aqui. Na mesma página 34 do relatório, transcreve-se uma informação assombrosa, que se destaca por ser gratuita, deslocada e, essencialmente, ofensiva a 1,8 milhão de gaúchos. No quadro sobre ‘Indicadores de Remuneração’, estão distribuídas as sete faixas salariais que compõem o universo de funcionários da RBS. No pé do quadro, existem duas notas complementares, uma pertinente, outra inacreditavelmente impertinente.
A nota 2 diz que o item de 416 funcionários que percebem menos de um salário mínimo refere-se a trabalhadores com carga horária reduzida. Uma informação natural e útil. A nota 1, contudo, impressiona pela gratuidade, pela insensabilidade, simplesmente pela grossura. Diz a nota: “100% dos cargos de diretoria são ocupados por brancos”. Assim, no seco, sem nenhum nexo com o foco do quadro.
Por alguma razão, a RBS achou relevante explicitar que, na sua empresa, onde a supremacia branca é esmagadora, as dez cadeiras da diretoria executiva são totalmente, absolutamente brancas. É possível concluir, assim, que é estatísticamente nula a hipótese de um dia se ver algum negro, quem sabe um pardo, nas exclusivas poltronas de direção da RBS hoje solidamente ocupadas em 100% por brancos.

A brancura executiva na RBS: 100% de diretores absolutamente brancos, nada negros, nada pardos
A brancura executiva na RBS: 100% de diretores absolutamente brancos, nada negros, nada pardos

Num país como o Brasil, a ressalva da RBS, mais do que boçal, tem um tom triunfal difícil de entender pela estupidez que expressa. Pela primeira vez desde 1872, quando aconteceu a primeira pesquisa de população no país, o Censo de 2010 do IBGE mostrou que os negros já representam a maioria do povo brasileiro. Os negros somavam 50,7% (96,7 milhões de brasileiros) contra 47,7% (91 milhões) de brancos. O restante dos 190 milhões de 2010 eram representados por 1,1% (2 milhões) de amarelos e 0,4% (817 mil) de indígenas. A autoestima crescente dos negros explica porque, agora, eles mesmos proclamam, com orgulho, sua cor.
O Rio Grande do Sul, graças à forte imigração europeia, é o segundo Estado brasileiro com maior proporção de brancos — 83,2%, conforme o IBGE. Ainda assim não são 100%. Um dos senadores pelo Rio Grande do Sul, o negro Paulo Paim, saudou a lei estadual de 2012 que reserva vagas na esfera pública aos 16,13% (1 milhão 807 mil) de negros e pardos no Estado. Nesse número, com certeza, incluem-se os oito gerentes negros ou pardos que conseguiram ascender na carreira dentro da alva RBS.
A apoteótica, embora discreta, observação da RBS sobre a pureza racial de seus diretores ofende a história, a ciência e a verdade.
Na história, esqueceram que o judeu Josef Sirotsky chegou ao Rio Grande no início do Século 20 fugindo da repressão sofrida em sua terra, a Bessarábia, um enclave então espremido entre a Romênia e o Império Russo, às margens do Mar Negro. O velho Josef integrava o grupo de 34 famílias, cerca de 300 pessoas, que ocupou uma área de 5.700 hectares em Santa Maria, formando ali a Colônia Philippson, o primeiro assentamento judaico do Brasil.
Na nova terra, Josef, como os outros imigrantes, recebeu um lote de 30 hectares, duas juntas de boi, duas vacas, uma carroça, um cavalo, ferramentas e sementes. Ali, em 1920, Josef conheceu Rita, casou e teve com ela cinco filhos: Henrique, Isaac, Jayme, Samy e Maurício, o Sirotsky que começou a saga da RBS. Para um povo que sofreu a suprema ofensa da faxina racial do nazismo, responsável pelo holocausto de 6 milhões de pessoas na II Guerra Mundial, soa como um deboche a exaltação descarada por 100% de brancos no comando do império fundado pelo filho do velho Josef Sirotsky.
Na ciência, raça hoje identifica apenas cães, gatos e outros animais, não seres humanos. O avanço na genética e a evolução da antropologia aposentou o critério racial para definir os homens, sem qualquer relação com padrões biológicos. A cor da pele é tão importante ou irrelevante quanto o tipo de cabelo, a cor dos olhos, o tamanho do pé ou o formato do nariz. A cor da pele humana varia entre o quase preto (pela alta concentração do pigmento escuro, a melanina) e o quase sem cor (pelo tom rosado dos vasos sanguíneos sob a pele).
Até o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que já confessou ter “um pé na cozinha”, reconhece a herança maldita do escravismo. O darwinismo, para espanto dos ‘caros colegas’ de Duda, mostrou que somos todos negros ou filhos de negros. Há 1,2 milhão de anos, todas as pessoas tinham a pele escura, no berço ancestral da Mãe África onde nasceu a humanidade. O sol intenso reduzia a chance de sobrevivência das pessoas com pele mais clara. Ser negro era sobreviver. A pele escura impedia que o ácido fólico fosse destruído pelos raios solares.
Quando os seres humanos migraram da África para o Hemisfério Norte, onde o sol é menos intenso, a pele se tornou mais clara pelo mágico mecanismo da evolução para facilitar a absorção da luz solar, essencial para a produção de vitamina D.
A tola ressalva da RBS: os diretores-executivos não são 100% brancos... ... é só olhar as fotos de Matsuo e Suzuki
A tola ressalva da RBS: os diretores-executivos não são 100% brancos… … é só olhar as fotos de Matsuo e Suzuki

E na verdade, finalmente, a observação da RBS sobre os 100% de brancos da diretoria refletem um claro equívoco, constatado visualmente. Basta ler os nomes e sobrenomes dos 10 diretores, incluindo Duda, para comprovar a bobagem que escreveram. Pelo menos dois diretores não são brancos, muito menos negros ou pardos. Anik Suzuki, a diretora de Comunicação Corporativa, e Deli Matsuo, mostram na face e no sobrenome que são descendentes de japoneses — ou amarelos, pela classificação do IBGE.
Seria mais correto, assim, dizer que — ao invés de 100 % de cargos ocupados por brancos — 100% dos cargos de diretoria na RBS não são ocupados por negros ou pardos. A maioria ‘branca’ está ‘contaminada’ pela presença de dois descendentes orientais. Então, seriam no máximo 80% de brancos, ou supostos brancos. Essa é uma discussão boboca que os ‘caros colegas’ de Duda deveriam travar com o bom e velho Charles Darwin.
Todo esse desastroso conjunto de dados do relatório da RBS— que nunca discute o jornalismo e seus fundamentos — leva, enfim, a uma desanimadora conclusão: Galeazzi Mãos de Tesoura ainda tem muito serviço pela frente.
*Luiz Cláudio Cunha, jornalista, foi repórter de Zero Hora em Porto Alegre, em 1970, e editor-chefe da sucursal da RBS em Brasília, em 1993. – [email protected]


Texto original publicado por www.jornalja.com.br

Generais omitiram até os 22 dias que Dilma Rousseff amargou no DOI CODI

Luiz Cláudio Cunha* | Especial para o Jornal JÁ |
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Exército, a Marinha e a Aeronáutica mobilizaram durante quatro meses seus oficiais-generais mais qualificados para desfechar o mais canhestro ataque militar dos últimos tempos no Brasil — fuzilando o bom-senso, torpedeando a inteligência, bombardeando a memória nacional e condenando ao extermínio a verdade segregada nos campos de concentração erigidos pela mentira.
Para atender a um minucioso requerimento de 115 páginas enviado em 18 de fevereiro passado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), as Forças Armadas (FFAA) reuniram suas tropas para produzir um monumento à insensatez e ao deboche: um palavroso, maçante, insolente, imprestável conjunto de 455 páginas de relatórios militares que não relatam, de sindicâncias que não investigam, de perguntas não respondidas, de respostas não perguntadas e de conclusões nada conclusivas, camufladas em um cipoal de decretos, leis, portarias, ofícios e velhos recortes de jornais falecidos.
Um histórico fiasco que passou em branco pela indolente imprensa brasileira, confinada a um registro burocrático, preguiçoso, sobre o sonso documento de resposta das FFAA.
A maçaroca militar ignorada pelos jornalistas tem de tudo. Tudo para defender o indefensável, para sustentar o insustentável, para dizer o indizível na novilíngua dos generais: nunca houve tortura, nunca aconteceu nenhuma grave violação aos direitos humanos nos quartéis nos 21 anos do regime militar imposto em 1964 pelas Forças Armadas que derrubaram o presidente João Goulart.
A sindicância das FFAA lembra, mais pela tragédia do que pela piada, a histórica charge do humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012) na edição de maio de 1974 da revista Veja, que mostra um preso esquálido pendurado na parede de uma masmorra.
Da fresta na porta da cela surge o comentário consolador do carcereiro: “Nada consta”. Por causa da piada, a ditadura sem graça dos generais endureceu ainda mais a censura sobre a revista então dirigida por Mino Carta.

millor
Os generais repetem, 40 anos depois, a piada de Millor: ‘nada consta’

Em resumo, é a pilhéria que repetem exatos 40 anos depois os militares brasileiros, diante das indagações da CNV sobre tortura e morte em seus quartéis: “Nada consta”.
Para expor esta cômica contradição em termos, que põe em dúvida até a existência da ditadura, os generais brasileiros recorreram a um arsenal de papel concentrado em 268 páginas do relatório da Marinha, 145 da Aeronáutica e 42 do Exército, um conjunto sem serventia que a Comissão Nacional da Verdade fuzilou sem dó nem piedade:
“Deplorável, lamentável”, definiu com firmeza a CNV, em uma desalentada nota oficial assinada pelos seis comissários. Aturdida pela ‘completa incorreção’ da conclusão das FFAA,  a CNV lembrou aos generais distraídos que o Estado brasileiro reconhece desde 1995, por lei aprovada pelo Congresso, as condutas criminosas de militares e policiais durante a ditadura, “incorrendo inclusive no pagamento de indenizações por conta justamente de fatos agora surpreendentemente negados”.
Durante meses, os pesquisadores da CNV, auxiliados por especialistas da Universidade de São Paulo (USP), juntaram documentos, testemunhos e perícias para montar um consistente relatório que prova a ocorrência de graves violações aos direitos humanos nos sete endereços mais notórios da repressão coordenada pelos militares, situados no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco.
São cinco quartéis do Exército, uma base da Marinha e outra da Aeronáutica, com os nomes, sobrenomes, datas, depoimentos e horrores sobre nove casos de mortes sob tortura e outros 17 presos políticos torturados.
Por recato, talvez, a CNV não incluiu entre eles o nome de uma guerrilheira que sobreviveu às torturas em um dos sete endereços que marcam a face mais terrível da repressão brasileira: a rua Tutoia, na capital paulista, sede da pioneira ‘Operação Bandeirante’ (OBAN), sucedida ali pelo sangrento DOI-CODI do II Exército, sob o comando do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra.
No início de 1970, naquele lugar listado pela CNV, padeceu durante 22 dias de suplício uma estudante mineira de 22 anos, integrante dos quadros de comando do grupo guerrilheiro Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), onde era conhecida pelos codinomes de ‘Estela’ ou ‘Vanda’. Na ficha da polícia, ela era identificada como Dilma Vana Rousseff, ou Linhares, seu nome de casada.
Passadas quatro décadas, a guerrilheira, presa e martirizada ‘Estela’ tornou-se a presidente da República Dilma Rousseff. Foi investida assim, pela força da democracia, na condição de Comandante-Suprema das Forças Armadas. A torturada Dilma é, desde 2011, a chefe incontestável dos comandantes militares que hoje negam a tortura. Cria-se, assim, uma insuperável contradição ética e institucional entre a autoridade máxima do País e seus comandados de farda:
Quem está dizendo a verdade? A presidente da República ou os comandantes das FFAA?
Ou, dito de outra forma, quem está mentindo? Dilma ou os generais?
Al Capone e Aristóteles
Com a sutileza possível, a CNV evitou no seu relatório a pergunta direta que pressupunha a não-resposta militar de sempre: quem torturou?, quem matou?
Em vez disso, os comissários preferiram um atalho legal, buscando inspiração talvez no exemplo de investigação lateral que deu certo contra Al Capone (1899-1947), o maior gangster dos Estados Unidos que aos 30 anos, no auge da Lei Seca, faturava o equivalente hoje a US$ 1,3 bilhão anuais.
Dono de um império criminoso que controlava o jogo, corridas de cavalo, clubes noturnos, bordéis, cervejarias e destilarias clandestinas, Capone sobreviveu impune à lei, até tropeçar num esperto agente do Tesouro americano, Eliott Ness, que vasculhou deslizes no Imposto de Renda que levaram o chefão da Máfia de Chicago aos tribunais e, dali, a uma pena de 11 anos de prisão.
Como ‘Os Intocáveis’ de Ness, os comissários da CNV miraram a burocracia da ditadura, pedindo aos comandantes militares o “esclarecimento das circunstâncias administrativas que levaram ao desvirtuamento do fim público estabelecido para aquelas instalações militares”.
De forma elegante, a CNV admitia a generosa hipótese do ‘desvio de finalidade’ dos centros de tortura, abrindo a brecha legal para que os atuais comandantes, reconhecendo o ‘desvio’, mostrassem cabalmente que as Forças Armadas da democracia nada têm a ver ou a dever às Forças Armadas da ditadura.
Uma chance preciosa para mostrar que as FFAA de 2014 de Dilma Rousseff não guardam nenhum elo com as FFAA de 1970 do general Garrastazú Médici. Até o recruta mais inexperiente entenderia a educada exceção que os comissários cravaram no ofício enviado ao ministro da Defesa, Celso Amorim:
“Não se pode conceber que próprios públicos, afetados administrativamente às Forças Armadas, pudessem ter sido formalmente destinados à prática de atos tidos por ilegais, mesmo à luz da ordem jurídica vigente à época da ocorrência das graves violações de direitos humanos, objeto de investigação”, ressalvaram os comissários.
Os generais, que deixaram de ser recrutas há meio século, preferiram se fazer de desentendidos — e responderam, em um sincronizado exercício de ordem unida, que “não houve desvio”. Caíram assim na armadilha do silogismo de Aristóteles em que duas premissas verdadeiras levam a uma conclusão inescapável, terrível.

  • Premissa maior:
    A CNV prova que havia tortura e morte nos sete endereços militares apontados.
  • Premissa menor:
    As FFAA respondem que não houve desvio de finalidade nestas instalações.
  • Conclusão:
    Logo, tortura e morte eram a finalidade daqueles lugares das FFAA.

Foi a melancólica conclusão do jornalista Jânio de Freitas, na sua coluna na Folha de S.Paulo [‘O que as palavras dizem’, 22/junho/2014], assim expressa:
“Se os chefes militares consideram que nessas práticas não houve desvio de finalidade, está implícita a concepção de que tortura, assassinatos e desaparecimentos são uma finalidade do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em suas instalações. E salve-se quem puder”.
A CNV relacionou, para a Aeronáutica, uma morte e quatro casos de tortura na sua mais famosa instalação, a base aérea do Galeão, ao lado do aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro, onde estão baseados os cinco esquadrões de transporte que operam os 23 Hércules C-130 da FAB.
Resposta do tenente-brigadeiro do ar Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, na conclusão da sindicância:
“Encaminho a Vossa Excelência os autos da sindicância, informando não houve desvirtuamento do fim público estabelecido para a Base Aérea do Galeão, no período em questão, que pudesse configurar desvio de sua finalidade regulamentar”.
A CNV apontou, para a Marinha, dois casos de torturas na base naval da Ilha das Flores, encravada na Baía da Guanabara. Resposta do almirante-de-esquadra Júlio Soares de Moura Neto, comandante da Marinha, na conclusão da sindicância:
“Enfim, à luz da ordem jurídica vigente à época, não se pode falar em desvirtuamento do fim público estabelecido para a instalação em comento, justamente porque esse local foi criado com o fim específico de se constituir em estabelecimento prisional”.
A CNV indicou, para o Exército, oito mortes e 11 casos de tortura em cinco quartéis diferentes, em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte. Resposta do general Enzo Martins Peri, comandante do Exército, na conclusão da sindicância:
“Uma vez que estes destacamentos eram órgãos oficialmente instituídos, foram formalmente instalados nos imóveis destinados ao seu funcionamento, não havendo qualquer registro de utilização dos mencionados imóveis para fins diferentes do que lhes tenha sido atribuído; portanto, não se verificou o alegado desvio de finalidade”.
O chefe do Exército se referia sem desvios aos Destacamentos de Operações de Informações (DOI), o braço executor dos temidos DOI-CODI, a coordenação repressiva que sucedeu em 1970 a Operação Bandeirante (OBAN), criada no ano anterior em São Paulo com o financiamento de empresários e banqueiros, articulados pelo ministro da Fazenda do Governo Médici, Delfim Netto.
A CNV relacionou os três DOI mais ativos da ditadura, instalados nos IV Exército (Recife), II (São Paulo) e I (Rio de Janeiro). Os próprios documentos secretos do Exército garimpados pela CNV provam, sem ironias, as finalidades sem desvio dos destacamentos de busca e apreensão montados pela repressão militar.
Os DOI paulista e carioca, os mais importantes do país, concentram nas duas maiores capitais brasileiras quase um quarto (23,8%) das vítimas oficiais da ditadura brasileira. Morreram ali, segundo documentação recolhida pela CNV, pelo menos 81 das 339 pessoas assassinadas sob tortura na ditadura — 51 no DOI-CODI da rua Tutoia, 30 no DOI-CODI da rua Barão de Mesquita.
Esperava-se que o Exército, bem mais poderoso e equipado do que a CNV, pudesse trazer dados ainda mais completos em sua sindicância, após disparar uma rajada de 10 diligências que se desdobraram em quatro ofícios para apurar os fatos.

doi-codi
Foto/ Arquivo Veja

Foto/ Arquivo O Globo
Foto/ Arquivo O Globo

A péssima pontaria da sindicância — presidida pelo general de divisão José Luiz Dias Freitas e deglutida em seco pelo comandante do Exército e pelo Ministro da Defesa — pode ser comprovada já nos dois ofícios (DIEx números 01 e 02, de 28 de março passado) enviados aos Comandos do Leste e Sudeste (antigos I e II Exércitos), solicitando informações sobre os DOI da Tutoia e da Barão de Mesquita “no período compreendido entre 18 SET 1946 e 5 OUT 1988”.
Não é preciso nenhum curso elementar da caserna para saber que o DOI-CODI foi criado apenas em 1970, tornando inúteis os 24 anos anteriores citados pelo general.
Um resumo infame
Apesar dos aparentes esforços, os militares parecem pouco diligentes em sua investigação. Na ‘Parte Expositiva’ de seu relatório (folha 159), o general sindicante chega a uma espantosa conclusão: “…não foram encontrados registros institucionais sobre a criação dos DOI”.
Um fracasso monumental, já que o Exército alega ter realizado pesquisas em seis acervos oficiais: os do Arquivo Nacional no Rio e Brasília, a biblioteca do STM (Superior Tribunal Militar) e três centros de Pernambuco. Para sua inepta pesquisa foram feitas, diz o general, “pesquisas históricas em publicações, livros, jornais, artigos e mídia em geral”. Apesar de tanto esforço, a sindicância conseguiu não descobrir nada.
A prova suprema do enorme malogro da pesquisa do Exército, que beira a má-fé e zomba da inteligência do povo brasileiro, está expressa em uma citação mais enxuta que caberia em uma única mensagem de Twitter — exatos 128 toques com espaço, apenas 17 palavas — extraída com o bisturi da maldade pelo general sindicante na página de um só livro, talvez o mais importante sobre a repressão.
Dali, o Exército pescou duas míseras linhas, que nada esclarecem, mas tudo sugerem sobre o flácido relatório da força terrestre:
No livro Brasil: Nunca Mais, em sua página 74, encontra-se o seguinte texto:
“[…] Dotados de existência legal, comandados por um oficial do Exército, providos com dotações orçamentárias regulares, os DOI-CODis […]”.
Se o responsável pela pesquisa do Exército fosse um pouco menos desleixado, tentaria não tropeçar nas reticências salvadoras da frase acima e teria transcrito todo o parágrafo, que acrescenta oito linhas essenciais à verdade dos fatos. Eis o que diz, além da omissão medida pelas reticências, o trecho completo da página 74 do Brasil: Nunca Mais que a distraída sindicância militar esqueceu de reproduzir na íntegra de sua resposta à CNV:
“[…] Dotados de existência legal, comandados por um oficial do Exército, providos com dotações orçamentárias regulares, os DOI-CODIs passaram a ocupar o primeiro posto na repressão política e também na lista das denúncias sobre violações aos Direitos Humanos. Mas tanto os DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, de âmbito estadual) como as delegacias regionais do DPF (Departamento de Polícia Federal) prosseguiram atuando também em faixa própria, em todos os níveis de repressão: investigando, prendendo, interrogando e, conforme abundantes denúncias, torturando e matando. […]”
A falha evidente não é só da transcrição incompleta, indecorosa. Faltou ao Exército a sensibilidade para dar a devida importância à sua fonte. O “Brasil: Nunca Mais” não é apenas um livro. É um marco de resgate histórico, um empreendimento corajoso que avança sobre a memória da repressão política no país. O Projeto Brasil: Nunca Mais vai muito além das parcas 17 palavras selecionadas com fino tato pelos generais para não melindrar os quartéis.
Começou em plena ditadura, em 1979, quando um grupo de advogados passou a coletar informações e evidências de violações aos direitos humanos praticados pelo aparato repressivo do Estado. Realizaram esse trabalho justamente nos arquivos insuspeitos do Superior Tribunal Militar (STM), aproveitando o prazo de 24 horas que cada advogado tinha para a custódia provisória dos autos.
Em uma secreta operação de inteligência que faria inveja aos generais, o grupo se organizou sob a liderança em São Paulo dos respeitados comandantes de três credos distintos: o cardeal Paulo Evaristo Arns, o pastor presbiteriano Jaime Wright e o rabino Henry Sobel.
Com os recursos captados em Genebra junto ao Conselho Mundial de Igrejas – organização ecumênica de 120 países onde se espalham 500 milhões de fiéis de 340 igrejas diferentes -, o grupo alugou discretamente uma sala com três máquinas xerox em um prédio do centro de Brasília, próximo à sede do STM.
Começou então o revezamento diário para retirar e vasculhar milhares de pastas de processos dos arquivos do STM. Durante mais de cinco anos, atravessando madrugadas, os advogados reproduziram pacientemente naquela sala discreta quase um milhão de páginas de 710 processos políticos que transitaram pela Justiça Militar entre 1964 e 1979.
Todo o material foi fotocopiados em 543 rolos de microfilme. Era um tesouro: a história viva contada nas próprias cortes castrenses pelas vítimas da tortura e da repressão impostas pelo regime militar brasileiro — sem desvios de finalidade — para extrair as confissões sangradas de seus presos políticos.
Tudo isso rendeu um documento de 6.891 páginas de horrores distribuídos por 12 volumes do Projeto A, dos quais se fizeram 25 cópias para serem guardados em segurança no exterior, longe da censura do regime.
O cardeal Arns, preocupado com a disseminação dessas informações para o grande público, pediu um Projeto B, um resumo da vasta pesquisa em um único livro. A edição, em espaço de texto que correspondia a 5% do original, foi realizada pelo jornalista Ricardo Kotscho e pelo frei Betto, autores do texto final de enxutas 312 páginas do livro “Brasil: Nunca Mais”, lançado em julho de 1985 — quatro meses após a saída, pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, do último general-presidente da ditadura, João Figueiredo.
O livro, um sucesso editorial que já teve mais de 40 edições no Brasil, foi lançado nos Estados Unidos, um ano depois, sob o título de Torture in Brazil, pela editora Random House.
Toda essa épica aventura, de números superlativos e coragem inaudita, ganhou um infame resumo de meras 17 palavras na sindicância do Exército, que passa com cara de paisagem pelo técnico, certeiro relatório da CNV.
Não há, na resposta militar, nenhuma alusão ou reação aos casos de tortura e morte alinhados pela Comissão da Verdade com minúcia de nomes, datas e locais. Se prestasse atenção pelo menos ao sumário do livro Brasil: Nunca Mais, o Exército poderia ter notado a ênfase dos títulos, nada ficcionais, dos seis capítulos da obra prefaciada pelo cardeal Paulo Evaristo Arns:

Primeira Parte >Castigo Cruel, Desumano e Degradante
Segunda Parte >O Sistema Repressivo
Terceira Parte >Repressão Contra Tudo e Contra Todos
Quarta Parte >Subversão do Direito
Quinta Parte >Regime Marcado por Marcas da Tortura
Sexta Parte >Os Limites Extremos da Tortura

Se tivessem a audácia de consultar o Sumário A, com a íntegra das quase 7 mil páginas dos 12 volumes do Projeto Brasil: Nunca Mais, os generais descobririam que três volumes do Tomo V têm o mesmo título: “As Torturas”. O volume 4 tem um tema ainda mais radical: “Os Mortos”.
O Exército insubordinado
Mas os generais nem precisariam perder tempo lendo o livro que desprezaram. Poderiam ter acessado o arquivo digital do Brasil: Nunca Mais, no link http://bnmdigital.mpf.mp.br/, que desde 2013 dá acesso universal aos seus arquivos, em uma parceria entre o Ministério Público Federal e o Arquivo Público de São Paulo.
Lá, curiosamente, os documentos não consultados pelo Exército identificam e registram os termos que o Exército não conseguiu localizar em seus registros. Basta teclar em qualquer computador com acesso à internet e o milagre se faz. Aparecem 638 indicações no acervo digital quando se busca o desaparecido ‘destacamento’ — 134 entradas para a palavra ‘Destacamento de Operações de Informações’ e outras 504 para a dupla ‘DOI-CODI’.
A ilustre antecessora aparece 927 vezes quando se tecla ‘Operação Bandeirante’ (285 ocorrências) ou simplesmente OBAN (642 registros). Quando não há desvio de finalidade em uma pesquisa honesta, ela revela muita coisa, ou quase tudo.
O Exército deveria ter seguido a metodologia séria da CNV, que já na apresentação de seu relatório preliminar identifica as fontes principais de sua pesquisa: são documentos produzidos pelo próprio Estado brasileiro que o Exército parece não levar a sério.
A CNV se valeu dos processos deferidos pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e, para nomear os presos políticos mortos por torturas aplicadas por agentes do Estado em instalações militares, foram pesquisados processos aprovados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Ali mesmo, onde dá expediente a Comandante-Suprema das Forças Armadas, que na juventude sentiu na carne as torturas, infelizmente não registradas pelo Exército .
Não é novidade, aliás, o desprezo que as Forças Armadas da democracia dedicam aos trabalhos que visam apurar os abusos praticados pelas Forças Armadas da ditadura, que durante duas décadas montou um aparato repressivo estimado em 24 mil agentes que prenderam por razões políticas cerca de 50 mil brasileiros e torturaram algo em torno de 20 mil pessoas – quase três a cada dia do regime militar.
Os militares já tinham reagido mal, em agosto de 2007, quando o Palácio do Planalto lançou o livro “Direito à Memória e à Verdade”, um fundamental trabalho de 11 anos da Secretaria Especial de Direitos Humanos, iniciado ainda no Governo Fernando Henrique Cardoso (secretário José Gregori) e concluído no Governo Lula (secretário Paulo Vannuchi), reconhecendo pela primeira vez a responsabilidade do Estado brasileiro na violência oficial, com a lista de 339 mortos e desaparecidos pela repressão política.
Acintosamente, nenhum chefe militar compareceu à cerimônia solene presidida no Planalto pelo comandante-em-chefe das Forças Armadas, o então presidente Lula. Eram os mesmos chefes militares — o general Peri, o brigadeiro Saito e o almirante Moura Neto — que Lula deixou como legado a Dilma e que permanecem em seus postos desde 2007, há mais tempo do que um mandato presidencial.
São os mesmo chefes militares que, em maio de 2012, se mantiveram acintosamente estáticos, mãos no colo, enquanto a plateia no salão principal do Palácio do Planalto aplaudia com emoção o ato da presidente Dilma Rousseff que instalava oficialmente a Comissão Nacional da Verdade, com a finalidade de investigar sem desvios os abusos praticados, entre outros, pelas Forças Armadas. [Veja revista Brasileiros, edição nº 78, de janeiro de 2014]
O “Direito à Memória e à Verdade”, um indesmentido livro-relatório de 500 páginas — preciso pelos fatos e comovente pelos horrores que descreve —, é acintosamente ignorado pelo Exército, que não o cita uma única vez em sua sindicância. Mas, como outros, já está disponível na internet, no portal do Governo Federal (http://portal.mj.gov.br/sedh/biblioteca/livro_direito_memoria_verdade/), com todos os dados que o Exército não conseguiu encontrar em seus registros.
O DOI, por exemplo, aparece em 683 citações. A dupla DOI-CODI surge 283 vezes no arquivo digital. A OBAN ou Operação Bandeirante, outras 46 vezes. Palavras inequívocas como ‘tortura’ (523 citações), ‘torturador’ (47) e ‘pau-de-arara’ (21) aparecem na pesquisa digital sempre associadas aos DOI e às instalações militares que, sem desvio de função, eram administradas e operadas pelas Forças Armadas.
Os dados que o Exército estranhamente não conseguiu descobrir em seus próprios arquivos ou não procurou nos acervos abertos do próprio Governo foram encontrados pelo mesmo Exército em duas ‘obras literárias’, na maliciosa expressão pinçada pela sindicância militar para definir ‘literário’. Segundo o paisano Dicionário Houaiss, o adjetivo traduz, no seu sentido figurado, “uma imagem artificial da realidade”.
Miopia e amnésia
A primeira fonte ‘literária’ é um livro insuspeito, “Rompendo o Silêncio”, do coronel reformado de Artilharia Carlos Alberto Brilhante Ustra, por acaso o criador e primeiro comandante do DOI da Tutoia, o endereço mais letal do Exército e que, por conclusão de seus comandantes, nunca teve o “alegado desvio de finalidade”.
A segunda é “A Ditadura Escancarada”, do jornalista Elio Gaspari, que sustenta boa parte de sua autópsia em quatro volumes da ditadura nos alentados arquivos do general Golbery do Couto e Silva, cérebro da conspiração que levou à derrubada de João Goulart.
Só ali o desatento Exército brasileiro conseguiu afinal garimpar a secreta Diretriz Presidencial de Segurança Interna que o general Garrastazú Médici inventou, em março de 1970, para unificar a repressão sob o comando da força terrestre. Dali nasceriam seis meses depois, na primeira quinzena de setembro de 1970, os DOI, “todos sob a coordenação do próprio Comandante de cada Exército”, como registra o sagaz coronel Brilhante Ustra.
Alguém precisa apresentar os arquivos do mais notório comandante do DOI da Tutoia aos atuais chefes militares, que aparentemente não estão lendo as coisas devidas.
O Exército justifica sua estrábica pontaria alegando que não existem nos seus arquivos os documentos das décadas de 1960 e 1970 classificados como sigilosos. Mais do que miopia, o caso aqui envolve amnésia coletiva.
Nenhum oficial com estrelas no ombro parece ter lembrado de recorrer a um acervo precioso, e até hoje intocado: os arquivos do Centro de Informações do Exército (CIE), o serviço secreto da força, o braço operacional que está na linha de frente da repressão à esquerda armada.
Os nomes mais afamados dos DOI, como os coronéis Brilhante Ustra (II Exército) e Paulo Malhães (I Exército) eram egressos do CIE. Os registros do Centro de Informações certamente dariam o conteúdo que falta à sindicância do Exército porque, afinal de contas, o CIE mais do que fazia. O CIE, por dever de ofício, sabia.

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Brilhante Ustra | Foto CNV

Foto/ Wilson Dias- ABr- Agência Brasil
Paulo Malhães | Foto Wilson Dias/ Agência Brasil

Coronéis Brilhante Ustra e Paulo Malhães, do CIE para o DOI-CODI: ‘sem desvio de finalidade’.
 O general sindicante, que diz pouco saber, confessa que não conseguiram encontrar nenhum registro sobre a destinação administrativa e o uso dos imóveis destinado ao DOI no Rio e no Recife. E dá a razão: “Tal fato se deve ao caráter sigiloso dado aos documentos que tratavam sobre Segurança Interna à época. Salienta-se que essa documentação foi legalmente destruída, bem como os eventuais Termos de Destruição, tudo devidamente apurado por meio do Procedimento Investigatório”.
Traduzindo o militarês: os documentos que poderiam detalhar o uso de instalações transformadas em centros de tortura e morte foram despedaçados e os documentos que permitiram esse abuso de lesa-memória também foram destroçados. Simples assim.
Não são apontados os nomes dos responsáveis por essa dupla destruição e as razões que privam o país, agora, de conhecer detalhes escabrosos de seu passado recente.
Do sangrento DOI de São Paulo, o único documento que sobreviveu a este apagão burocrático não é militar, é civil. Conforme a sindicância, sobrou apenas o “Memorial Descritivo” da prefeitura de Paulo Maluf, de agosto de 1971, formalizando a concessão de uso ao então Ministério do Exército, ‘a título precário’, do imóvel que tornaria notória a esquina das ruas Tutóia e Tomás Carvalhal, no bairro paulistano de Vila Mariana.
Derrotado em seu hercúleo esforço de busca e apreensão de documentos úteis que pudessem atender à CNV, o Exército chega a esta opaca conclusão:
“Portanto, infere-se que, do ponto de vista administrativo, os DOI constituíam órgãos de segurança interna, criados e instalados legalmente, de modo a permitir-lhes o exercício de suas atividades, conforme previsto na Diretriz Presidencial de Segurança Interna. Nesse sentido, no acervo pesquisado não foram encontrados registros formais que permitam comprovar ou mesmo caracterizar o uso de suas instalações para fins diferentes dos que lhes tenham sido prescritos”.
Para responder à intrigante questão sobre a alocação de pessoal para estas “instalações afetadas às Forças Armadas e utilizadas para perpetração de graves violações de direitos humanos”, conforme o título do relatório preliminar da CNV, o general dá uma resposta intrigante. Diz:
“O termo Destacamento, adotado pelo Exército Brasileiro, caracteriza parte de uma força, separada de sua organização principal, destinada a cumprir missão em outra região, com efetivo normalmente reduzido e organização variável, dependendo da situação. Coerente com tal definição, os DOI não possuíam constituição fixa”.
“Em decorrência disso, os militares das Forças Armadas eram passados à disposição para desempenhar atividades temporárias, os quais eram oriundos de diversas Organizações Militares (OM) do país; tal qual ocorria com policiais civis, policiais militares e integrantes do Departamento de Polícia Federal. Destaca-se que o ato de passagem à disposição de militar para o Destacamento, visando o cumprimento de missão ou atividade temporária, prescindia de registro”.
Os ‘doutores’ e suas ferramentas
A inusitada confissão do Exército à CNV sugere uma bizarra liberalidade do Alto Comando da época sobre a linha de frente da repressão. Dá a imagem assustadora de uma tortuosa cadeia de comando que estimulava ações encobertas e ilegais e garantia, no futuro, o anonimato e a clandestinidade, premissas básicas da impunidade que ainda hoje protege os agentes da ditadura.
É no mínimo estranha a noção de uma corporação fundada na lei, na ordem e na hierarquia, como é o Exército, convivendo com um Destacamento de segurança interna caracterizado como “parte de uma força separada de sua organização principal” e sem limitação de fronteiras.
Fonte/ Relatório Preliminar – Centros Clandestinos, pg 7 - CNV
A cadeia de comando da tortura: do Planalto ao DOI-CODI, passando pelos comandantes das FFAA / Fonte/ Relatório Preliminar – Centros Clandestinos, pg 7 – CNV

Pior ainda. Pela sindicância do Exército, o DOI era “parte de uma força … destinada a cumprir missão em outra região com efetivo normalmente reduzido e organização variável, dependendo da situação” (sic).
Na prática, essa elástica e imprecisa definição confirma os depoimentos de ex-presos e sobreviventes da ditadura sobre o braço longo e ilimitado do DOI-CODI, um aparato nada estático e muito errático, de “atividade temporária”, que juntava militares das três Forças Armadas, policiais civis, homens da Polícia Militar e agentes da Polícia Federal agindo de forma coordenada e combatendo onde fosse necessária a repressão — “destinado a cumprir missão em outra região”.
Entende-se, daí, que comandos do DOI da rua Tutóia, baseado no II Exército de São Paulo, pudessem agir sem qualquer restrição geográfica — por exemplo, no Rio de Janeiro, onde está baseado o DOI do I Exército, instalado na rua Barão de Mesquita. E vice-versa.
Apesar de atuar na primeira trincheira de combate à luta armada, o efetivo de ferro e fogo alistado pelo DOI do Exército em vários quartéis e organismos de segurança do país não tinha cara, nem nome, nem posto, nem identidade, já que estranhamente essa tropa tão lancinante e variada “prescindia de registro” (sic) .
A imprevista derrapada do general sindicante, nessa expressão de renúncia explícita à identidade, reconhece oficialmente que o Exército engajado na repressão tinha o anonimato como opção preferencial para sua tropa. Era uma conduta esquiva reforçada nos torturadores pelo disfarce dos codinomes (o coronel Brilhante Ustra era o Dr. Tibiriçá no DOI do II Exército em São Paulo, o coronel Paulo Malhães era o Dr. Pablo no DOI do I Exército no Rio de Janeiro) ou camuflada pelo uso sistemático do capuz nos torturados, nos momentos mais terríveis do ‘pau-de-arara’, da ‘cadeira-do-dragão’, do choque elétrico da ‘pimentinha’, da palmatória, das sessões de afogamento nas masmorras.
pau de arara
O famoso ” pau de arara”

A cadeira do dragão
A cadeira do dragão

Choques elétricos
Choques elétricos

Palmatória
Palmatória

Afogamento
Afogamento

Sem registro de uso dos imóveis para fins diferentes do atribuído”, responde o Exército
Os encobertos agentes do DOI, que ali atuavam sem o ‘alegado desvio de finalidade’, na palavra oficial do Exército, acabariam contaminando pelo menos uma instância da própria Justiça Militar com sua obsessão pelo encoberto, pelo oculto, pelo escondido.
Aconteceu em novembro de 1970, na 1ª Auditoria Militar do Rio de Janeiro, justamente com uma vítima do DOI paulistano, o centro de torturas da rua Tutoia. Uma guerrilheira do grupo VAR-Palmares, ‘Estela’, codinome de Dilma Rousseff, então com 22 anos, aparece em uma foto no momento em que era ouvida pelos juízes militares.
O flagrante em preto e branco resgatado pelo jornalista mineiro Ricardo Amaral para seu livro, “A Vida Quer É Coragem”, é a imagem mais emblemática de uma época cinzenta conhecida pelo chumbo quente da tortura, que a literária sindicância do Exército não registra.
O que chama atenção na foto não é a jovem guerrilheira em primeiro plano, uma Dilma quase menina. O que avulta na foto são os dois personagens em segundo plano, juízes fardados da Corte militar, cobrindo o rosto para não serem identificados.
Na falta de um capuz, os magistrados, bem mais velhos do que a jovem à sua frente, usam as mãos para ocultar o rosto diante do fotógrafo. Os dois julgadores, em uma impiedosa inversão de papéis, escancaram ali a dolorida consciência de que podem até condenar, mas não serão absolvidos pelo juízo inapelável da História.
Pela desonra da imagem, eles é que parecem ser os réus, apequenados diante de uma julgadora implacável. Pelo inusitado da cena, os dois juízes que se escondem se assemelham aos anônimos beleguins que atuavam nos DOI, como eles prescindindo de registro — principalmente fotográfico.
Foto/ Arquivo Justiça Militar
Rio de Janeiro, novembro de 1970, 1ª Auditoria Militar. Dilma e os juizes encobrindo o rosto | Foto/ Arquivo Justiça Militar

O homem à esquerda é um capitão, o da direita exibe nos ombros os galões de major. Fora da foto, quase em frente à jovem, senta-se o presidente do tribunal, um coronel. Na outra ponta da bancada acomodam-se mais dois juízes militares, os vogais.
O fotógrafo anônimo, por alguma razão, estava ali autorizado pelo coronel para fazer o registro da audiência e os dois juízes flagrados por sua lente sabiam do perigo iminente da foto.
Por isso, trataram de esconder suas identidades, na esperança de que essa tentativa de fuga à responsabilidade lhes assegurasse o pleno anonimato e a eterna impunidade. Livraram a cara e deixaram seus nomes na clandestinidade, como era hábito e licença entre os agentes do DOI.
Assim, contudo, delataram na cena muda das mãos a verdadeira face do regime que representavam naquele tribunal de exceção armado por militares para julgar civis, marca distinta de todo regime autoritário que não se desvia de suas finalidades. Não atentavam para um profundo pensamento marxista, que ensina: “Justiça militar é para a justiça o que música militar é para a música”, pregava Groucho Marx (1890-1977), perigoso comediante estadunidense, líder da ativa organização anarquista conhecida no cinema como ‘Irmãos Marx’.
O inseparável DOI-CODI
A resposta do Exército à CNV é contraditória, quando afirma que o DOI é uma “força separada de sua organização principal”. A Diretriz Presidencial de Segurança Interna do general Médici, de 1970, nega esta separação, como enfatiza o próprio comandante do DOI da Tutoia, coronel Brilhante Ustra, curiosamente citado na sindicância militar com este trecho incisivo, extraído da página 125 de “Rompendo o Silêncio”:
“De acordo com essa Diretriz, em cada Comando de Exército, que hoje se denomina Comando Militar de Área, existiria:
– um Conselho de Defesa Interna (CONDI);
– um Centro de Operações de Defesa Interna (CODI);
– um Destacamento de Operações de Informações (DOI); todos sob a coordenação do próprio Comandante de cada Exército.
Este Grande Comando Militar, quando no desempenho de missões de Defesa Interna, denomina-se Comandante de Zona de Defesa Interna (ZDI)”.
É o mesmo trecho que o general sindicante do Exército cita e extrai do Tomo 1, página 136, de uma obra literalmente de fôlego, com quase seis mil páginas e 10 kg de peso: a “Historia Oral do Exército. 1964 – 31 de março: o movimento revolucionário e a sua história”, organizada pelo general de brigada Aricildes de Moraes Motta.
A edição de 2004 da História Oral, publicada em 15 volumes, continua sendo publicada pela insuspeita Biblioteca do Exército, a Bibliex, que tem o seu conselho editorial presidido justamente pelo general Aricildes.
A confortável versão que define o DOI como ‘uma força separada de sua organização principal’, como sustenta o relatório do Exército de 2014, não expressa o que pensava o Exército de 1975, no auge da repressão militar.
No DOI-CODI mais funesto do país, o do II Exército na rua Tutoia, duas mortes de repercussão internacional em menos de três meses provaram que, de acordo com a Diretriz Presidencial de Segurança Interna ordenada em 1970 pelo general Médici, os DOI-CODI estavam “sob a coordenação do próprio Comandante de cada Exército”, como lembra até o coronel Brilhante Ustra.
Instituto Vladimir Herzog
Vlado/ Foto Instituto Vladimir Herzog

fiel
Manoel Fiel Filho

Herzog e Fiel Filho, tortura e morte no DOI-CODI: ‘sem desvio de finalidade’
Às 8h da manhã de 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura de SP, ingressou no prédio da Tutoia, convocado no dia anterior para prestar depoimento.
Sete horas e muitas torturas depois apareceu morto na cela do DOI, enforcado com o cinto do macacão que seus carcereiros esqueceram de retirar, para inflar a tese de ‘suicídio’.
Em março do ano passado, a mentira de 37 anos foi desfeita pela Justiça que, a pedido da Comissão Nacional da Verdade, mandou refazer o atestado de óbito de Herzog, agora reconhecido como morto “em decorrência de lesões e maus tratos sofridos durante interrogatório em dependências do II Exército (DOI-CODI)”.
Em um primeiro momento, o general Ednardo D’Ávila Mello, comandante do II Exército, sobreviveu ao ‘suicídio’ de Herzog. Menos de três meses depois, outro ‘suicídio’ abreviou a carreira do general.
Ao meio-dia de sexta-feira, 16 de janeiro de 1976, o metalúrgico Manoel Fiel Filho foi preso na fábrica e levado por dois agentes do DOI-CODI. Lá aguentou longas 25 horas. Uma nota oficial do II Exército anunciou que, às 13h de sábado, 17 de janeiro, o operário era a mais nova vítima do surto de ‘suicídio’ da ditadura.
Dessa vez, na falta de um cinto, tinha se enforcado com as meias, dizia a nota, embora calçasse chinelos sem meias na hora da prisão. Na contagem do jornalista Elio Gaspari, que o general sindicante não lembrou de citar, “Manoel Fiel Filho fora o 39º suicida do regime, o 19º a se enforcar”.
Era o mesmo DOI-CODI que, afirma o Exército hoje, não tinha desvios de finalidade.
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Geisel demite Ednardo sem consultar Frota: o DOI-CODI não era força separada do Exército
Apesar de ser uma “força separada de sua organização principal”, conforme a inovadora definição lava-rápido do Exército, o DOI e sua peste de ‘suicídios’ geraram na época um tremendo desarranjo entre os generais da “organização principal”.
Preso na sexta 16, o operário morreu no sábado 17. Na segunda 19, sem qualquer consulta ao general Sylvio Frota (ministro do Exército), o general Ednardo foi demitido do comando de São Paulo por ato sumário do general Ernesto Geisel, o chefe supremo de todos eles.
No mesmo dia da demissão, Frota convocou a Brasília os 14 generais de quatro estrelas que integravam o Alto Comando para uma tensa reunião de duas horas realizada na quinta, 22 de janeiro.
Os comandantes de Porto Alegre (Oscar Luís da Silva, do III Exército) e do Recife (Moacyr Barcellos Potyguara, do IV Exército), bufaram contra a demissão de Ednardo. Até o chefe do Estado-Maior do Exército (Fritz Azevedo Manso), o número 2 da força, assoprava no balão da rebeldia.
O comandante do Rio (Reynaldo Mello de Almeida, do I Exército), com o apoio de outros quatro generais, botou água na fervura, lembrando que o Alto Comando não tinha competência para discutir a decisão sumária de Geisel.
Três dias depois, o ministro da Justiça, Armando Falcão, mandou um relatório secreto a Geisel, com base em conversa com o general Reynaldo. O relato de Falcão mostrava que o general Sylvio Frota estava agitado demais para um ‘suicídio’ de rotina em uma ‘força separada de sua organização principal’.
Diagnóstico de Falcão: “O Ministro [Frota] está nervoso. Sabe-se que teve um ligeiro desmaio em Brasília. Não consegue dormir direito”. O documento em duas páginas, com manuscrito de Geisel —”Do Falcão. Conversa com Reynaldo” — , acabou exilado no baú de preciosidades do general Golbery do Couto e Silva.
Uma semana depois da reunião do Alto Comando, o próprio Geisel, que não via o DOI-CODI como uma força separada do Exército, resolveu separar outro comandante da força: exonerou o general de brigada Confúcio Danton de Paula Avelino da chefia do Centro de Informações do Exército (CIE), o serviço secreto da corporação.
Fonte/ Arquivos da Ditadura - Arquivo Pessoal de Golbery
Mensagem de Falcão a Geisel, após ‘suicídios’ no DOI: “ministro [Frota] nervoso, desmaio, insônia” | Fonte/ Arquivos da Ditadura – Arquivo pessoal de Golbery
Este quadro de chiliques, insônia e nervos estressados entre os generais mais estrelados e experientes do Exército brasileiro, só por conta de dois ‘suicídios’ em São Paulo, torna ridícula a versão do relatório sobre o caráter do DOI assassino como ‘força separada’ de seu braço principal — o próprio Exército.
Todos esses fatos, ignorados pelo general sindicante, poderiam ter sido rapidamente acessados na internet, no arquivosdaditadura.com.br, um sítio precioso organizado por Elio Gaspari com base em papéis oficiais do general Golbery do Couto e Silva.
Lá, o Exército aprenderia com os documentos do próprio Exército como separar a força da realidade das ciladas da fantasia.
As mortes na escola
Se o arquivo de Golbery não agrada, o Exército poderia recorrer a outra fonte, talvez mais confiável: a própria força do DOI-CODI. Umas das estrelas principais do bando barra-brava da repressão, coronel de Cavalaria Freddie Perdigão Pereira, produziu uma inédita estatística da repressão, que confirma tudo o que o Exército não conseguiu descobrir sobre ele mesmo.
Bastaria ao incansável general sindicante buscar este trabalho na internet no endereço http://www.eceme.ensino.eb.br/eceme/, no ícone Biblioteca da página oficial da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), localizada no bairro carioca da Urca, onde oficiais entre capitão e coronel se preparam para chegar, sem desvios, ao generalato.
Ali é possível ler na íntegra o texto confidencial da monografia 1137 de 30 páginas apresentada em 1978 no curso da ECEME.
No trabalho, o então major Perdigão faz uma simpática biografia sobre os DOI, incluindo na página 28 uma tabela sem precedentes sobre os números de terror e sangue do DOI-CODI paulistano da rua Tutoia em seus primeiros sete anos de vida, tortura e morte, até 19 de maio de 1977.
O levantamento de Perdigão aponta que, naquele período, 2.541 pessoas foram presas pelo DOI do II Exército, 1001 foram encaminhadas ao DOPS para processo, 201 foram destinadas a ‘outros órgãos’, 1.289 acabaram liberadas e 51 foram mortas.
Fonte/ Biblioteca - ECEME
Fonte/ Biblioteca – ECEME

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Para aprender na escola: a lista do major Perdigão, do DOI, com as finalidades que o Exército não registrou
Perdigão, falecido em 1997, é um nome mitológico na repressão brasileira. Circulava pelo DOI da Barão de Mesquita, no Rio, e na ‘Casa da Morte’ de Petrópolis sob o codinome de ‘Dr. Nagib’. Frequenta a ‘obra literária’ do “Brasil: Nunca Mais” como notório torturador. Em 30 de abril de 1981, quando aconteceu o frustrado atentado do Riocentro, estava lotado justamente na Agência Rio do SNI.
O general Newton Cruz, chefe da Agência Central do órgão no Governo Figueiredo, admitiu que Perdigão lhe falou do atentado horas antes que ele ocorresse.
A bomba planejada pelo SNI e armada pelo DOI-CODI carioca explodiu minutos antes ainda no estacionamento, dentro do Puma onde estavam dois agentes do DOI do I Exército. Matou o sargento do DOI Guilherme Pereira Rosário, que a levava no colo, e feriu gravemente o motorista ao seu lado, o capitão do DOI Wilson Machado.
Em 2011, 30 anos após o atentado, o repórter Chico Otávio, do jornal O Globo, localizou a pequena agenda telefônica que o sargento Rosário – um especialista em explosivos do DOI – levava no bolso de trás da calça na hora da explosão e que o Exército não registrou na sua resposta cheia de desvios à CNV.
Lá estavam os nomes reais, não codinomes, de 107 integrantes do ‘Grupo Secreto’, organização paramilitar de direita que desencadeou uma série de atos terroristas na tentativa de deter a abertura política.
O bando reunia desde oficiais graduados a soldados, de delegados a detetives, com os contatos do sargento do DOI em setores estratégicos, como o Estado-Maior da PM e a chefia de gabinete da Secretaria de Segurança do Rio, além de amigos ligados a setores operacionais, como fábrica de armamento e cadastros de trânsito.
Na letra P da agenda, depois de Prieto, Pedroso, Paulinho, Pena, Paulo e Pedro Rosa, perfilava-se o nome dele, o Perdigão.
Foto/ IPM – I Exército
Foto/ IPM – I Exército

Fonte/  Arquivo O Globo
Fonte/ Arquivo O Globo

O sargento do DOI no Riocentro: bomba no Puma e agenda no bolso com o nome do coronel Perdigão
O Exército perdeu a oportunidade, agora, de esclarecer à CNV e ao Brasil se a agenda e o ‘Grupo Secreto’ do explosivo sargento do DOI caracterizam ou não um ‘desvio de finalidade’ do DOI.
O desastrado atentado do Riocentro, que o Exército nunca assumiu nem como desvio de conduta, só não se transformou em uma tragédia nacional por conta da incompetência dos terroristas.
No final de abril passado, a Comissão Nacional da Verdade apresentou ao país a pesquisa “Riocentro: Terrorismo de Estado contra a população brasileira”, também disponível no site da CNV.
Lá, com todas as letras que evitam desvios, os comissários concluem que o atentado foi “um minucioso e planejado trabalho de equipe realizado por militares do I Exército e do Serviço Nacional de Informações (SNI) e o que o primeiro inquérito policial militar (IPM) sobre o caso, aberto em 1981, foi manipulado para posicionar os autores diretos da explosão apenas como vítimas”.
Para o coordenador da CNV, Pedro Dallari, o caso Riocentro foi o último de uma série de 40 atentados ocorridos entre janeiro de 1980 e abril de 1981, “que visavam dificultar a abertura política iniciada em 1979 e dar uma sobrevida ao regime militar”.
O almirante Júlio de Sá Bierrenbach, que depôs na CNV sobre o caso, era ministro do Superior Tribunal Militar (STM) quando o inquérito policial militar sobre o Riocentro chegou ao tribunal para ser julgado. O caso já veio arquivado da auditoria militar onde tramitou e o militar da Marinha foi o único a votar contra o arquivamento do processo e pedir que o capitão Machado continuasse como investigado e a apuração, retomada.
Para Bierrenbach, “o IPM (do Riocentro) foi uma vergonha e isso é facilmente demonstrável”.
Ele afirmou considerar absurdas a absolvição e a promoção até coronel que Wilson Machado, co-autor do atentado, recebeu na carreira. “Vítimas, uma ova! Eles fizeram o atentado. O capitão vai ao Riocentro com uma bomba, a bomba explode. O colega morre. E ele é promovido. Isso é um absurdo!”, torpedeou o almirante.
Fotos/ Arquivo Nacional e IPM- I Exército    Fotos/ Paulo Moreira – O Globo
Fotos/ Arquivo Nacional e IPM- I Exército Fotos/ Paulo Moreira – O Globo

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Bomba no Riocentro, acidente de trabalho no DOI-CODI: o sargento morre e o capitão sobrevive
Segundo o relatório da CNV, apresentado pelo gerente de projetos Daniel Lerner, cerca de 20 mil pessoas estavam no Riocentro na noite de 30 de abril de 1981 para assistir um show organizado por Chico Buarque de Hollanda para o Dia do Trabalhador.
O grupo que planejou o atentado conseguiu até que a Polícia Militar recebesse uma ordem para não realizar policiamento dentro do espaço onde ocorria o show.
A morte da MPB
Os dois militares terroristas do DOI-CODI — o sargento morto e o capitão socorrido com as vísceras de fora — não foram as únicas baixas da ditadura. A evisceração do regime foi ainda mais notável nos meses seguintes.
O general João Figueiredo infartou na presidência, o general Golbery do Couto e Silva demitiu-se da Casa Civil, o general Octávio Aguiar de Medeiros (chefe do SNI) implodiu como virtual candidato a uma sexta presidência fardada e o regime militar definhou até morrer, sem choro nem vela, no remanso do Colégio Eleitoral que sagrou Tancredo Neves como primeiro presidente civil desde 1964.
Foto/ Carlos Namba -Veja
Foto/ Carlos Namba -Veja

Foto/  Roberto Stuckert–SECOM/PR
Foto/ Roberto Stuckert–SECOM/PR

Foto/ Arquivo Veja
Foto/ Arquivo Veja

O RIOCENTRO NO COLO DA DITADURA
Figueiredo, presidente, infartado… Golbery, ministro da Casa Civil, demitido… Medeiros, chefe do SNI, implodido.
Naquela noite, data do maior ‘acidente de trabalho’ da escalada terrorista do DOI-CODI do Exército, o número de mortos e feridos do atentado poderia ser muito maior. Além da bomba que explodiu no estacionamento, outro artefato explodiu na casa de força do Riocentro.
O objetivo era o corte de energia que impedisse o show e causasse tumulto, mas o artefato não causou o efeito desejado. Depoimentos apontam que duas bombas sob o palco foram retiradas do local antes de serem detonadas e testemunhas afirmam que havia outras duas bombas no Puma do DOI-CODI, que foram retiradas da cena do crime.
O tumulto previsível de explosões coordenadas em recinto fechado, com as portas de saída criminosamente trancadas com cadeados, certamente provocaria uma tragédia amplificada na platéia de 20 mil pessoas.
E as bombas sob o palco, detonadas no momento esperado do encerramento, quando todos os artistas se reúnem para a apoteose final do show, produziriam uma hecatombe na Música Popular Brasileira.
Junto com Chico Buarque, lá estavam 30 dos mais famosos e carismáticos astros da MPB. Entre eles, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga e o filho Gonzaguinha, Cauby Peixoto, Clara Nunes, Gal Costa, Ivan Lins, João Bosco, Alceu Valença, Elba Ramalho, Djavan, Fagner, Moraes Moreira, Ângela Ro-Ro, Simone, Zizi Possi, MPB-4 e Beth Carvalho.
“A ditadura militar fez isso. Ia matar todos nós, artistas”, lembrou Beth Carvalho.
Traduzindo: a missão do DOI-CODI naquela noite também mataria a MPB. O Exército infelizmente não esclarece, na resposta à CNV, se o eventual sucesso de seu braço terrorista naquele atentado meticulosamente planejado poderia ser enquadrado como uma finalidade sem desvios do DOI-CODI.
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Beth Carvalho e alguns alvos do terror no show do Riocentro: “O DOI-CODI iria matar a MPB”, resume

O Exército que não consegue ver a essência do DOI-CODI, em sua precária sindicância, deveria ter o método de trabalho e a seriedade de gente como o pesquisador Pedro Estevam da Rocha Pomar, que em 2000 descobriu uma preciosidade no acervo do DOPS paulista, hoje depositado no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
É o RPI 06/75, o Relatório Periódico de Informações do II Exército, reconhecendo a morte de 50 presos no DOI-CODI da rua Tutoia, de 1969 até fevereiro de 1975.
O registro, classificado como ‘confidencial’, foi produzido dias depois, em março de 1975, e as 23 páginas do RPI são rubricadas pelo ‘Gen d’Ávila’. É o nome do comandante do II Exército na época, o general Ednardo d’Ávila Mello, que acabaria exonerado um ano depois por Geisel, após o ‘suicídio’ de Manoel Fiel Filho no DOI-CODI.
O RPI 06/75 rubricado pelo general Ednardo reconhece 47 mortos entre os “presos pelo DOI” e outros três mortos “recebidos de outros órgãos”. O repórter Mário Magalhães, da Folha de S.Paulo, que revelou a descoberta de Pomar há 14 anos, fez uma arguta observação sobre o documento:
“Os 47 mortos (não há descrição de nomes e das condições das mortes) são um subitem do item ‘presos pelo DOI’, e não um item à parte. Pela lógica, foram presos e, depois, mortos. […] Os três mortos entre os ‘recebidos de outros órgãos’ reforçam a impressão de que morreram na rua Tutóia, a não ser que o DOI-CODI recebesse cadáveres”.
Apesar dessas provas documentais, o criador e comandante do DOI da Tutoia em seus primeiro quatro anos, coronel Brilhante Ustra, insiste na tese da finalidade sem desvios abraçada pelo Comandante do Exército e pelo Ministério da Defesa: “No meu comando, meu senhor doutor Fonteles, ninguém foi morto lá dentro do DOI”.
“Todos foram mortos em combate. Os que o senhor diz que foram mortos dentro do DOI, não é verdade. Eles foram mortos pelo DOI em combate, na rua. Dentro do DOI, nenhum!”, gritou Ustra irritado, socando a mesa, diante da pergunta do ex-procurador-geral da República e então comissário da CNV, Cláudio Fonteles, na audiência pública realizada em maio de 2013 em Brasília.
Um bom exemplo da disparidade entre a Comissão Nacional da Verdade e as Forças Armadas, na busca da verdade e dos fatos, está no método utilizado por uns e outros para cumprir sua missão legal e ética diante da Nação brasileira. A CNV atua de forma aberta, transparente, direta, sem desvios. As FFAA, não.
O pedido formal de informações sobre a ‘ocorrência de graves violações de direitos humanos em instalações administrativamente afetadas às Forças Armadas’ foi apresentado pela CNV em sessão aberta, em 18 de fevereiro passado, com a distribuição do texto do relatório preliminar, detalhando fatos, nomes e testemunhos de 11 ocorrências de tortura e de 8 casos de morte, incluindo fotos e croquis dos quarteis e bases militares utilizados para o ‘alegado desvio de finalidade’.
A pÁtria de coturno
A CNV fez mais, e fez melhor. Apresentou sua demanda em uma entrevista coletiva de imprensa de 72 minutos, transmitida pela internet e disponível no site da comissão.
Lá, a certa altura, o comissário e ex-ministro da Justiça de FHC José Carlos Dias ensinou: “Temos o direito de exigir informações. É obrigação das autoridades buscar a verdade”.
O comissário Paulo Sérgio Pinheiro enfatizou o absurdo da situação criada pela ditadura: “Havia um arquipélago de centros de tortura em instalações do Estado brasileiro, em todo o território nacional, à custa do contribuinte. Era uma violação sistemática, contínua, rotineira. Imaginem a cena! Enquanto havia gente numa sala batendo à maquina, fazendo seu trabalho burocrático, na sala ao lado tinha um pessoal usando o pau-de-arara nos presos”.
E como reagiram as FFAA? Mal, muito mal. Gastaram quatro meses para produzir sua oca sindicância de indulgência plenária, que nega qualquer abuso com o requinte de não responder a nenhum dos casos concretos laboriosamente levantados pela CNV. E a equipe do ministro da Defesa escolheu entregar o material em junho passado.
Não optou nem pela segunda-feira 16, nem pela quarta 18. O ministro Celso Amorim preferiu exatamente a estratégica tarde de terça-feira, 17 de junho, para mandar um emissário entregar a resposta dos chefes militares.
Para quem não lembra, era a tarde em que 200 milhões de brasileiros, todos juntos, formavam aquela corrente pra frente de olho grudado na TV para assistir ao empate em zero do Brasil contra o México em Fortaleza, o segundo jogo da seleção no Grupo A da Copa do Mundo.
A ardilosa pátria de coturno esperou que a distraída mãe gentil, a pátria de chuteiras se dedicasse à bola redonda da seleção verde-amarela, para remeter o quadrado pacote de documentos à CNV.
A tática, aparentemente, funcionou. Mais fascinada pelo goleiro mexicano Ochoa que travou o ataque de Neymar & cia, a imprensa canarinho de olho fixo no jogo em Fortaleza não deu pelota para a bola fora do esquadrão de Amorim em Brasília. E ninguém deu cartão vermelho para as botinadas do time brucutu das FFAA na equipe de verdade da CNV.
Defesa milagrosa: o brasileiro Amorim segura as FFAA, o mexicano  Ochoa segura o Brasil de Neymar
Defesa milagrosa: o brasileiro Amorim segura as FFAA, o mexicano Ochoa segura o Brasil de Neymar

Na entrevista de quatro meses antes, em fevereiro, Paulo Sérgio Pinheiro tinha dito que as sete instalações militares escolhidas pontualmente pela CNV eram “uma pequena amostra’ da estrutura de Estado montada para torturar e matar”. Não era uma licença poética. Dois meses depois, a CNV foi além dos sete locais malditos.
Apresentou a lista e o endereço de outras 17 ‘casas da morte’, centros clandestinos de tortura espalhados por casas, chácaras e sítios particulares cedidos à brutalidade sem constrangimentos da repressão.
É um criterioso trabalho de pesquisa da CNV coordenado pela historiadora Heloísa Starling, da Universidade Federal de Minas Gerais e, como sempre, solenemente ignorado pelo generalato.
A CNV mapeou a cadeia de comando de sete desses centros, mostrando como operavam sob ordens de altas patentes do Exército e da Marinha. Foram localizados, com nomes e fotos, os locais de quatro Estados: três em São Paulo (fazenda 31 de Março, Itapevi e Ipiranga), um em Belo Horizonte (Casa do Renascença), um no Pará (a ‘Casa Azul’, o QG da repressão à guerrilha do Araguaia) e dois no Rio (‘Casa da Morte’, de Petrópolis, e a casa de São Conrado, bairro nobre da Zona Sul do Rio).
Os outros centros, deliberadamente ocultos até da legislação de exceção e agora sob investigação da CNV, se espalham por oito Estados.
asa Azul'( Marabá) e 'Casa da Morte'(Petrópolis) : 38 mortos em dois centros clandestinos do Exército
Casa Azul'( Marabá) e ‘Casa da Morte'(Petrópolis) : 38 mortos em dois centros clandestinos do Exército

As duas instalações clandestinas mais letais da lista eram operadas justamente pelo Centro de Informações do Exército (CIE), o serviço secreto que pairava acima dos DOI-CODI, sobre os quais o Exército diz não ter nenhum registro.
A ‘Casa da Morte’ – um simpático sobrado de dois andares em estilo alemão no bairro Caxambu, no pé da serra em Petrópolis, Rio de Janeiro – foi emprestada ao Exército pelo dono, o empresário Mário Lodders.
Entre 1971 e 1974, foi administrada pelo DOI-CODI do I Exército e pelo CIE. É muito estranho que o general sindicante não tenha localizado nada sobre ela, já que a casa é reconhecida até pelo general Adyr Fiúza de Castro no denso depoimento que deu a Maria Celina D’Araújo e Gláucio Ary Dillon Soares, para o livro “Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão” (ed. Relume-Dumará, 1994, pp. 35-80).
Fiúza, expoente da linha dura do regime, foi um dos criadores do CIE em 1969, quando ainda coronel chefiava a Divisão de Informações (D2) do ministro do Exército, Aurélio de Lyra Tavares. Em 1974, como braço-direito do general Sylvio Frota no comando do I Exército, assumiu a chefia do DOI-CODI do Rio de Janeiro. Ele chama docemente de ‘aparelho especial não oficial’ o que a CNV rotula, sem desvios, como clandestino.
A versão de Fiúza:
“Nós [do CODI] cedemos umas dependências na Barão de Mesquita ao CIE para eles fazerem uma espécie de ‘cela preta’ que aprenderam nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mas o CIE tinha autonomia para trabalhar em qualquer lugar do Brasil. Eles tinham aparelhos especiais, não oficiais, fora das unidades do I Exército, para interrogatórios (…). Como a casa de Petrópolis”.
No seu relato, Fiúza descreve o procedimento inicial no DOI na chegada do preso, com as fotos, impressões digitais e primeiras perguntas de praxe sobre nome, filiação, origem. O general descreve uma repartição que, acima do do terror e do medo, tinha obsessão literal pela higiene, pela limpeza.
Fala Fiúza:
“[…] Eles não podiam ficar com a roupa que estavam, porque podiam esconder qualquer coisa. Então, eram mandados se despir, e era fornecida uma roupa especial, uma espécie de macaquinho. Para as moças, também era dado imediatamente um modess, porque a primeira coisa que acontece com a mulher quando ela é submetida a essa angústia da prisão é ficar menstruada. E fica escorrendo sangue pela perna abaixo, uma coisa muito desagradável. Em seguida, tomavam um banho, trocavam a roupa. O [Sylvio] Frota fazia questão de que cada cela tivesse roupas de cama limpas [….]”
“[…] Normalmente, o camarada que ‘cai’, ou seja, foi preso, entra num estado de pânico e de perturbação muito forte. Só aqueles mais estruturados, mais seguros é que mantêm o domínio de si mesmos. O restante, vamos dizer 90%, a primeira coisa que faz é ter uma disenteria brutal, de escorrer pelas pernas abaixo. Qualquer homem que já leu algum relato de combate sabe que, quando o sujeito é submetido a um bombardeio, suja as calças”.
“Porque os esfíncteres não seguram os excrementos quando se está submetido a um medo muito grande. Então o medo é realmente um fator muito favorável ao interrogatório quando este é feito logo que o camarada ‘caiu’ […][…] o medo é um grande auxiliar no interrogatório […] tirando a sua roupa, fica-se muito agoniado, num estado de depressão muito grande. E esse estado de desespero é favorável ao interrogador”.
“O Frota não concordava muito com isso, mas usava-se. É uma técnica praticamente generalizada. E também por uma questão de limpeza, porque o prisioneiro se suja, suja o chão… É impressionante. Não se pode parar um interrogatório e convidar: “Vamos mudar a roupa?”. E o cheiro fica terrível. Interrogando o preso despido, é mais fácil qualquer limpeza […]”
Na ‘Casa da Morte’, mais do que no higiênico DOI de Fiúza, a limpeza extrema devia ser proporcional ao terror, ainda maior. Lá desapareceram para sempre ao menos 14 militantes da esquerda, segundo a CNV.
É o inferno onde viveu durante terríveis 96 dias a única sobrevivente do lugar, Inês Etienne Romeu, dirigente do mesmo grupo guerrilheiro de Dilma Rousseff, a VAR-Palmares.
Acusada de participar do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher em 1970, foi presa no ano seguinte e condenada à prisão perpétua, pena depois reduzida a oito anos. Nos três meses de suplício na casa, entre 8 de maio e 11 de agosto de 1971, Inês Etienne foi torturada, estuprada, injetada com pentotal sódico (o chamado ‘soro da verdade’) e, depois de cada uma de suas duas tentativas de suicídio, medicada para recuperar as forças e receber novas sevícias.
Dois de seus torturadores mais graduados na casa, apesar dos codinomes, foram identificados pela CNV. O Dr. Roberto era o major Freddie Perdigão, o Dr. Teixeira era o major Rubens Paim Sampaio, hoje tenente-coronel na reserva.
As dores de Etienne:
“[…] Fui conduzida para uma casa […] em Petrópolis […] O Dr. Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão, segurando pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e deram-me pancadas na cabeça […] Fui várias vezes espancada e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios. A certa altura, o Dr. Roberto me disse que eles não queriam mais informação alguma; estavam praticando o mais puro sadismo, pois eu já havia sido condenada à morte e ele, Dr. Roberto, decidira que ela seria a mais lenta e cruel possível, tal o ódio que sentia pelos ‘terroristas’
[…] Alguns dias depois […] apareceu o Dr. Teixeira, oferecendo-me uma saída ‘humana’: o suicídio […] Aceitei e pedi um revólver, pois já não suportava mais. Entretanto, o Dr. Teixeira queria que o meu suicídio fosse público. Propôs então que eu me atirasse embaixo de um ônibus, como eu já fizera […] No momento em que deveria me atirar sob as rodas de um ônibus, eu me agachei e segurei as pernas de um deles, chorando e gritando.
[…] Por não ter me matado, fui violentamente castigada: uma semana de choques elétricos, banhos gelados de madrugada, ‘telefones’, palmatórias. Espancaram-me no rosto até eu ficar desfigurada. […] O Márcio invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se o Camarão havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo Márcio obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo Camarão e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos mais grosseiros e obscenidades […]”.
Outros craques da repressão no time barra-brava daquela casa infernal, que o Exército nem lembrou de citar em sua sindicância como ‘desvio de finalidade’, eram o tenente da reserva Antônio Fernando Hughes de Carvalho, codinome Alan, e o então capitão Paulo Malhães, o Dr. Pablo.
Em fevereiro passado, o coronel da reserva Armando Avólio Filho contou à CNV ter visto Hughes pulando sobre o corpo de um preso torturado na carceragem do DOI da Barão de Mesquita, em janeiro de 1971.O preso era o ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido até hoje. O tenente morreu em 2005.
Um mês depois de Avólio contar sobre Alan, foi a vez do Dr. Pablo falar. Em março passado, num estarrecedor depoimento à CNV reproduzido até no Jornal Nacional da Rede Globo, e que deve ter passado desapercebido do general sindicante, Malhães reconheceu ter organizado a casa clandestina de Petrópolis em nome do DOI-CODI e assumiu uma das finalidades – sem desvios – daquele tétrico endereço de um Exército envergonhado que não ousa dizer seu funéreo apelido.
Falou Malhães:
“Naquela época não existia DNA, concorda comigo? Então, quando o senhor vai se desfazer de um corpo, quais são as partes que, se acharem o corpo, podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais, só. Quebravam os dentes e cortavam os dedos. As mãos, não. E aí, se desfazia do corpo”.
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Registros que o Exército diz não ter sobre o DOI-CODI no Rio e sua ‘Casa da Morte’ em Petrópolis: Os torturadores: Malhães, Hughes, Paim, Perdigão… … e os torturados: Inês Etienne e Rubens Paiva
 
A morte do Robot
Na manhã de 25 de abril, exatamente um mês após ter chocado o país ao revelar na CNV como se torturava, matava, retalhava e ocultava cadáveres de presos políticos na ditadura, Malhães foi encontrado morto em seu sítio em Marapicu, no interior de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.
Sucumbiu por infarto, segundo a polícia, às fortes emoções da invasão de sua casa por três ladrões que buscavam as armas antigas que colecionava.
Apesar da forte convicção policial em simples latrocínio, o comportamento dos assaltantes mostrava coisas esquisitas. Ficaram mais de seis horas na casa, com o coronel morto e a mulher amarrada, revistando tudo, especialmente o escritório, deixando filmes e documentos de Malhães espalhados pelo chão.
Um deles falava com frequência ao celular, talvez recebendo instruções. Ao sair, levaram três pastas de documentos e o disco rígido de um dos dois computadores do coronel, itens estranhos para uma simples rapina.
“É um fato grave, porque entra em confronto com a tese de latrocínio”, anotou o advogado Wadih Damous, então presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro.
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Cadeia de comando no Rio: o DOI-CODI, dos generais Médici e Orlando Geisel aos coronéis Perdigão e Malhães

Um endereço ainda mais letal do Exército ficava no Pará. Apesar do nome, a ‘Casa Azul’ foi o inferno final para 24 pessoas na cidade de Marabá, 500 km ao sul de Belém. Funcionou como o QG da repressão à guerrilha do Araguaia, nos anos 1972-73.
Era a sede do antigo DNER, que ocupava uma grande área arborizada imune a curiosos no bairro Amapá, às margens do km 01 da rodovia Transamazônica.
A coordenação cabia ao coronel do CIE Léo Frederico Cinelli, em linha direta com o temido chefe do CIE em Brasília, o casmurro general Milton Tavares, o Miltinho, pináculo da linha dura no Exército.
Cinelli era chefe do serviço de inteligência do I Exército em 30 de abril de 1981, quando recebeu às 23h45 o relato do fracasso da ‘Missão 115 – Operação Centro’, nome em código do atentado do Riocentro, transmitido pelo próprio comandante do DOI-CODI fluminense, o coronel Júlio Miguel Molinas Dias.
As anotações nervosas daquela noite de quinta-feira no diário do coronel Molinas, assassinado em um assalto em 2012 em Porto Alegre, dão uma ideia da insônia que tomou conta do DOI-CODI, ferido mortalmente pela explosão.
Trechos do diário do coronel Molinas, divulgado pelo jornal Zero Hora:
Quinta-feira, 30 de abril de 1981
Intervalo do jogo do Grêmio x São Paulo, telefonema do agente Reis [codinome]. Disse que um cabo PM telefonara avisando que haveria um acidente com explosivo com uma vítima. Deu o nome quente Dr. Marcos…[codinome do capitão Wilson Machado, chefe da Seção de Operações do DOI-Codi, ferido na explosão].
[…] Por volta das 22h30min, cheguei ao órgão… dirigi-me à vaga n.1 do comando. […] O Dr. Wilson [codinome], que estava na operação, chegou logo a seguir. Reis […] avisou que recebera telefonema […] dizendo que um sargento estava no local, irreconhecível.
23h30min — Na Globo  – estouraram duas bombas no estacionamento, destruindo dois carros e uma moto. No segundo carro não houve vítimas. 23h30min — Dr. Araújo (codinome) telefona para saber o que houve. […]
23h30min — Hospital Miguel Couto… [Capitão] Tá sendo operado, vísceras do lado de fora. Estado grave.
23h35min — Uma bomba na casa de força [central de energia do Riocentro] e uma no carro.
23h50min — O Robot [sargento Rosário] está morto. Tem uma granada que estava no carro e botaram no chão.
Sexta-feira, 1º de maio de 1981
0h40min — Coronel Cinelli — Falamos sobre a ida da perícia da PE [Polícia do Exército] à paisana e a retirada do corpo.
1h01min — Tenente-coronel Portella liga ao HCE [Hospital Central do Exército] para receber o corpo do Robot [sargento Rosário].
1h05min — [Capitão]Está sendo operado, dilaceração nas vísceras.
4h24min — Um Chevette aberto cinza metálico com bagageiro placas RT-1719 estava ao lado do carro Puma, com um emblema do 1º BPE.
6h05min — Justifico telefonema dizendo que está na cirurgia, Dr. Marcos (codinome do capitão ferido), ortopédica nos braços.
Domingo, 3 de maio de 1981
8h25min — Telefonema do coronel Prado, dizendo que o JB [Jornal do Brasil] tem reportagem em que um médico diz que o capitão estaria em condições de falar. O assunto é tratado com o coronel Cinelli.
Na ‘Casa Azul’, dez anos antes do Riocentro, Cinelli conviveu com algumas das estrelas mais notórias da repressão. Como chefe do Centro de Informações e Triagem (CIT), cabia a ele enviar as informações que o general Miltinho, em Brasília, repassava aos seus chefes diretos: o ministro Orlando Geisel e, no topo, o presidente Médici.
Abaixo dele, Cinelli teve dois chefes do CIE no Estado-Maior das FFAA no Araguaia: em 1973 o tenente-coronel Wilson Romão (o último militar a dirigir a Polícia Federal, já no Governo Itamar Franco) e, em 1974, o tenente-coronel Flávio Demarco (que em 1975, por ordem de Geisel e Figueiredo, representou o Brasil na criação da Operação Condor, em Santiago do Chile).
Completavam o dream-team da Casa os majores Sebastião Curió, Lício Maciel e José Teixeira Brant. Eles garantiam o serviço. Dos 24 mortos ali, 22 eram militantes do PCdoB, que organizou o foco guerrilheiro, e os outros dois eram camponeses que aderiram à guerrilha, entre 1972 e 1973.
“Ninguém sobreviveu à Casa Azul”, lembrou a historiadora Starling.
Centro de serial killer
Os dois centros clandestinos de morte, em Marabá e em Petrópolis, assinalam a opção irremediável do Exército pelo cipoal emaranhado da exceção, na floresta amazônica, e pela escalada íngreme da crueldade, na serra fluminense.
“Não se confundem com quarteis nem com delegacias de polícia. A criação e funcionamento desses centros eram resultado de uma política definida pela FFAA”, explica Starling, que merecia ser ouvida ou lida pelos comandantes antes que produzissem aquele fiasco escrito.
“Tratava-se de uma política de Estado, e não apenas de excessos ou acidentes”, completa o advogado e coordenador da CNV, Pedro Dallari. No gráfico sobre a cadeia de comando da ‘Casa Azul’, montado pela CNV, ficam escancarados os responsáveis da máquina de morte do regime, que ligava desde o Palácio do Planalto em Brasília até os matadores da linha de frente de Marabá.
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Cadeia de comando do CIE em Marabá: a ‘Casa Azul’, dos generais Geisel e Frota ao coronel Demarco e major Curió

Em termos formais, o avassalador relatório da CNV reconhece a face mais terrível da ditadura brasileira: seus centros de tortura e morte, de fato, não constituíam um ‘desvio de finalidade’.
Na verdade, segundo o relatório preliminar da equipe de Starling, aqueles lugares encobertos de sofrimento e reservados ao assassinato eram a própria essência do caráter serial killer do regime.
Alguns trechos marcantes do documento da CNV:
[…] Os centros identificados estavam diretamente vinculados aos comandos dos órgãos de inteligência e repressão do Exército (Centro de Informações do Exército/CIE) e da Marinha (Centro de Informações da Marinha/CENIMAR), bem como aos organismos mistos de natureza militar e policial – os Centros de Operação e Defesa Interna (CODI) e Destacamentos de Operação Interna (DOI). Todos esses órgãos encontram-se vinculados diretamente aos gabinetes dos Ministros do Exército, Marinha e Aeronáutica. Nem estruturas autônomas ou subterrâneas, nem produto da ação de milícias ou grupos paramilitares; pela natureza dos vínculos de comando, abrangência geográfica e atuação regular, os centros clandestinos eram parte integrante da estrutura de inteligência e repressão do regime militar e obedeciam ao comando das FFAA. […]
Com esse sistema legal adaptado ou criado, o Estado passou a dispor de uma matriz institucional instaurada por um tipo específico de legalidade de exceção, voltada principalmente – mas, não exclusivamente – para as diferentes maneiras de institucionalizar a repressão política sob um regime militar.[…]
A militarização do exercício do poder de Estado, centralizado no governo da União, materializou-se em uma estrutura repressiva ampla, destinada a funcionar como ferramenta de salvaguarda do poder […]
Procedimentos introduzidos pelo Estado na estrutura do aparato de repressão […] demonstram que o regime militar definiu uma política e lançou mão de instrumentos repressivos que expressam uma quebra radical e deliberada com a legalidade de exceção […] São eles:
4.1. A prática da tortura como forma de interrogatório nos quartéis militares, a partir de 1964.
Cabe observar que:
4.1.1. A prática da tortura nos quartéis brasileiros é um procedimento inédito; não
foi utilizado em nenhum outro momento da história do país; […]
4.2. Adoção dos desaparecimentos forçados como estratégia repressiva, a partir do segundo semestre de 1969.
Cabe observar que:
4.2.1. A prática dos desaparecimentos forçados está associada a diversos procedimentos considerados estratégicos pelas FFAA:
4.2.1.1. Encobrir homicídios de prisioneiros políticos;
4.2.1.2. Encobrir uso da tortura em prisioneiros políticos para extorsão de confissões e/ou informações;
4.2.1.3. Provocar incerteza e/ou expectativa nas forças de oposição sobre o destino de militante e/ou de liderança política;
4.2.1.4. Garantir a inimputabilidade dos militares envolvidos na repressão política.
4.3. A criação de centros clandestinos de violação de direitos como órgãos da estrutura do aparato de inteligência e repressão do regime militar […]
Os centros clandestinos foram criados para execução de procedimentos considerados estratégicos pelas FFAA, a partir de uma nova apreciação das forças oposicionistas, realizada pelos órgãos de comando no interior da estrutura de repressão, e iniciada no ano 1970. Nesse contexto, são definidas as atribuições para funcionamento dos centros clandestinos. São elas:
5.1. Executar os procedimentos necessários para desaparecimento de corpos de opositores mortos sob a guarda do Estado. Tais procedimentos incluíam:
5.1.1. Eliminar condições de identificação dos corpos: retirada de digitais e arcadas dentárias;
5.1.2. Eliminar corpos por meio da queima (junto com pneus); do esquartejamento; do lançamento no mar ou em rios;
5.2. Executar procedimentos necessários à prisão e interrogatório de opositores políticos já condenados pela política de extermínio. Tais procedimentos incluíam:
5.2.1. Evitar o reconhecimento da prisão de opositor político pelos órgãos de repressão;
5.2.2. Impedir o ingresso do preso nos esquemas judiciais previstos pela legalidade de exceção;
5.2.3. Criar condições necessárias para suporte e execução da política de extermínio […]
5.4. Criar condições necessárias para alojamento provisório de agentes envolvidos em operações clandestinas;
5.5. Garantir a inimputabilidade dos agentes envolvidos com o aparato repressivo. […]
Poucas vezes se produziu e se leu, na esfera do Estado brasileiro, um documento tão objetivo, tão veraz e tão contundente sobre os desvios institucionais do próprio Estado e seus agentes, atuando sob uma diretriz programada de violência focada em graves violações de direitos humanos que deveriam ser protegidos, não vilipendiados pelo Estado, revelando assim a face agressiva do poder e o carácter agressor da ditadura.
Contra os fatos e argumentos recolhidos com esforço e seriedade pela CNV, as FFAA respondem com o gesto calculado da omissão, o tique enervante do silêncio e a recorrente tática do ‘nada consta’.
A face clandestina da ditadura: cinco centros serial killer, sob o brutal controle do Exército e Marinha
A face clandestina da ditadura: cinco centros serial killer, sob o brutal controle do Exército e Marinha

Tortura ao pé da rampa
A cadeia de comando que envolveu todos os degraus do poder no regime militar, da Presidência da República ao guardinha da guarita do DOI-CODI, ficou ainda mais evidente com um documento que transcreve cerca de 20 horas de depoimentos de mais de 30 jornalistas submetidos a interrogatórios e torturados em instalações militares do Distrito Federal.
O material inclui o surpreendente relato de quatro jornalistas à Comissão da Memória e da Verdade do Distrito Federal, criada pelo Sindicato dos Jornalistas da capital: Alexandre Ribondi, Armando Rollemberg, Romário Schettino e Hélio Doyle, os dois últimos ex-presidentes do sindicato brasiliense dos jornalistas, revelaram ter sido sequestrados, vendados e agredidos por militares em Brasília no Governo Médici.
Não chegava a ser um desvio da rotina do regime. O espantoso é que tudo isso aconteceu na Esplanada dos Ministérios, a apenas alguns metros do Palácio do Planalto, confirmando as evidências de que as graves violações de direitos humanos não eram excessos dos porões, mas prática tolerada e estimulada pelos escalões estrelados do núcleo do poder.
Em circunstâncias parecidas e épocas distintas, os jornalistas contam ter sofrido torturas no sub-solo dos prédios da Marinha e do Exército na Esplanada, quando ainda mantinham o status de Ministério. Em linha reta, da rampa do Planalto do presidente Médici até a entrada do ministério do general Orlando Geisel, são exatos 1.068 metros de distância na Via S1 do Eixão Monumental, que concentra o poder federal. Outros 93 metros à direita, no prédio ao lado, estava a Marinha do almirante Adalberto de Barros Nunes. Essa ilustre vizinhança ministerial não inibiu as violências do regime em seu quintal mais nobre. Ao contrário, parece ter acobertado.
Conta Alexandre Ribondi:
“…fatos de 1973. Fui preso saindo da biblioteca da UnB. Fui encapuzado e levado para um lugar onde… Ao entrar você descia uma rampa, ao sair subia uma rampa. Um sino tocava no prédio do lado, o da Aeronáutica… Fui torturado, passei por tortura durante dez dias… Fiquei encapuzado, acho que as outras pessoas na cela também ficaram, havia quatro ou cinco pessoas… Fiquei com o capuz e tive sessões de interrogatórios… Eu pedia muito para ir ao banheiro, porque dentro do banheiro eu podia tirar o capuz… Levei choque elétrico o tempo todo, porrada e uma maldita vareta na canela”.
“Na cela, quando a gente sentava, eles entravam e batiam na canela dizendo que tínhamos de levantar, tinha que ficar de pé o tempo todo… Tinha muito soco, muito tapa e roleta russa…Colocavam o revólver do lado do rosto e rodavam o tambor… Eles batiam muito porque eu não mostrava medo da roleta…Hoje desconfio que nem tivesse bala dentro…O sino fica no Ministério da Marinha. … a referência é a rampa da garagem… havia um quebra-mola no final da rampa…Quando a gente era torturado não havia carro lá embaixo, porque havia a cela de tortura…… O sino foi muito marcante… ele sempre tocava na mesma hora…”
Conta Armando Rollemberg:
“(…)numa sexta-feira de dezembro de 1973. Eu era repórter da revista Veja em Brasília. Recebi um aviso da portaria do prédio, alguém queria falar comigo. Desci e fui abordado por dois homens à paisana. Me deram ordem de prisão. Quando cheguei ao carro, uma Veraneio, fui encapuzado, jogado na mala traseira e levado para um local em que o carro entrava de marcha a ré… como se fosse uma ampla garagem…
Fui colocado de pé, encostado na parede, tiraram o capuz e colocaram um esparadrapo no olho. Permaneci nesse local durante umas sete horas….havia outras pessoas sendo torturadas… ouvia gritos, gente sendo interogada. De repente começou o meu… Recebi choques na ponta dos dedos…
No interrogatório reconheci a voz da pessoa ao lado… Era o Alexandre Ribondi…reconheci pelo timbre de voz, ouvia os gritos dele sendo torturado… sofreu terrivelmente… embora encapuzado, percebia que havia uma rampa de descida e que as coisas ecoavam como se fosse um vão amplo… havia um eco que parecia de uma garagem…”
Conta Hélio Doyle:
“(…) final de 1971, era repórter de O Estado de S.Paulo… Saía de casa no final de tarde com minha mulher quando tive o meu carro, um fusquinha, fechado por duas Veraneios, de onde saíram homens com metralhadora em punho…Nos colocaram na Veraneio, sem capuz, mandaram abaixar a cabeça…Quando chegamos, vi que era o Ministério do Exército…Eu lembro que havia uma rampa improvisada, como se fosse de obra, por fora do prédio do ministério…
Subimos por essa rampa até a sobreloja…havia uma série de caras, todos parecidos com a gente, de barba, à paisana, que eram do Serviço Reservado… Fui colocado em uma sala muito pequena, com vidro, totalmente à prova de som… fiquei ali algumas horas, fazendo absolutamente nada, com muito frio…uma hora o cara me chamou e perguntou se eu sabia porque estava preso. Falei que não, não tinha a menor ideia. Ele disse, você sabe, já foi preso outras vezes.
Eu disse, ué, mas não sei porque estou sendo preso agora. Dessa vez não é você, é sua mulher… Era um inquérito da AP, minha mulher tinha militado na Ação Popular. Fomos levados para o PIC [Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército], ficamos lá uns dez dias. Não fui interrogado nenhuma vez, fiquei na cela sem contato com ninguém. Até ser libertado…
Conta Romário Schettino:
“(…)setembro de 1973, em Brasília, foram presas mais de 100 pessoas… fui preso na porta do Banco Central, na saída do expediente…Fui sequestrado por um bando armado com metralhadoras, capuz na cabeça… Me jogaram no banco de trás, algemado, me fizeram abaixar a cabeça com o capuz, tiraram meus óculos… Suponho que me levaram para o subsolo do Ministério do Exército… o que tinha na minha visão era a rampa e aquelas persianas verticais, que eu conseguia ver por debaixo do capuz…”
“Eu ouvia outros presos apanhando, ouvia choros, gritos, era um terror…No segundo dia, veio o choque elétrico. Fiquei completamente nu, tinha um cara que me bolinava, me dava porrada, choque no testículo, nas mãos, tinha aquela maquininha que eu achava um horror…Nesse dia de tortura violenta eu desmaiei…Quando acordei, sentia muita sede, uma sede horrível”.
“Pedi água e um deles ia buscar, quando o outro falou: ‘Não dá água, não. Com a energia que ele tem no corpo, pode provocar uma eletrose’…Fiquei de molho ali um tempão…Fiquei uma semana em uma cela isolada do PIC, suponho que no primeiro andar…Sei porque na cela tiravam meu capuz…estava sem óculos, mas vi que tinha aquele descampado ali no pátio, dava para ver a uma certa distância…”
“O movimento do quartel, o toque de recolher, o toque de chegada do general… Fiquei 25 dias desaparecido, ninguém sabia onde estava…Então, me levaram num camburão para o cerrado, na 313 Norte, e me largaram ali, no meio do mato… me botaram no chão, eu saí correndo…”
As antigas sedes do Exército e da Marinha na Esplanada não estão incluídas entre os locais listados pela CNV como instalações militares utilizadas para violações de direitos humanos nos tempos da ditadura.
O coronel encabulado
Seria doloroso repetir, aqui, os nomes e circunstâncias dos nove casos de morte e 17 relatos de tortura em sete instalações das FFAA, zelosamente levantados pela CNV e solenemente ignorados na resposta dos comandantes militares.
Os chefes do Exército, Marinha e Aeronáutica não confirmaram, não negaram, não comentaram, sequer se deram ao esforço de corrigir eventuais detalhes de cada caso de violência citado no relatório.
Os oficiais-generais das três Armas não se perguntaram nem por quem os sinos dobram, esquecidos que eles dobram justamente por elas, as Forças Armadas brasileiras, na expressão do poeta inglês John Donne (1572-1631), eternizada na obra de Ernest Hemingway.
O poeta John Donne  e dois torturados na Vila Militar, Chael e Dora: por quem dobram os sinos?
O poeta John Donne e dois torturados na Vila Militar, Chael e Dora: por quem dobram os sinos?

“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”, escreveu Donne em ‘Meditações 17’. Assim basta citar entre os casos listados pela CNV uma única morte, a morte de um homem qualquer que diminui as Forças Armadas como parte e instituição de um Estado comprometido com a verdade, a justiça e a democracia.
Basta lembrar a morte de Chael Charles Schreier em 1969 na 1ª Companhia da Polícia do Exército da Vila Militar, no Rio de Janeiro — uma das sete instalações militares listadas pela CNV como palco de graves violações de direitos humanos —, para desqualificar o arremedo de sindicância apresentado ao país pelas Forças Armadas.
Chael, um estudante de medicina de 23 anos, gordo e alto, militante da VAR-Palmares da guerrilheira Dilma Rousseff, foi detido por agentes do DOPS e militares da PE em casa, no bairro de Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio, junto com dois companheiros de organização: Antonio Roberto Espinosa e Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora.
Ela foi a primeira a ser presa, logo ao abrir a porta do sobrado para os visitantes armados. No andar superior, Chael e Espinosa resistiram a tiros e só se entregaram quando a munição acabou.
Presos na noite de sexta-feira, 21 de novembro de 1969, passaram por uma sessão de pancadaria no DOPS até serem repassados à 1h30 da madrugada ao quartel da 1ª Companhia da PE da Vila Militar, na zona oeste da cidade, onde está a maior concentração de força terrestre da América Latina: 51 quartéis com uma guarnição de 60 mil homens, quase um terço do efetivo atual (222 mil homens) do Exército brasileiro.
A Companhia da PE era o endereço mais temido da vila, onde Chael sucumbiu em pouco tempo às torturas. Morreu por volta das 7h da manhã seguinte, atrapalhando o sábado da guarnição que, conforme apurou o Exército, não tem “qualquer registro de utilização (…) para fins diferentes do que lhes tenha sido atribuído” [sic].
A verdade, que o Exército não conseguiu localizar nos seus registros, pode ser melhor avaliada no cru relato de Dora perante a 2ª Auditoria de Marinha, cinco meses após a prisão.
As dores de Dora:
“[…[presa no dia 21 de novembro, …junto a Antônio Roberto e Chael; …em casa, na rua Aquida­ban;(…) foram conduzidos ao DOPS; …Chael foi chamado para uma sala do lado, onde Chael foi espancado, ouvindo a declarante os seus gritos; (…) depois dessas duas horas, Antônio Roberto também foi chamado, …de dez horas da noite às quatro da manhã, Antônio Roberto e Chael ficaram apanhando,(…) nesta sala, foram tirando aos poucos sua roupa; (…) um policial, entre calões proferidos por outros, ficou à sua frente, como traduzindo manter relações de sexo com a declarante, ao tempo em que tocava seu corpo, que esta prática perdurou por duas horas;… o policial profanava os seus seios e usando uma tesoura, fazia como iniciar seccioná-los;
…sofreu bofetadas já quando à sala vieram cerca de quinze pessoas;…na sala contígua interpelavam a Chael e Antônio Roberto [sobre] como era a declarante, sob o prisma sexual; (…) pelas quatro horas da madrugada, Chael e Roberto saíram da sala onde se encontravam, visivelmente ensanguentados, inclu­sive no pênis, na orelha e ostentando corte na cabeça; (…) daí foram transferidos para a Polícia do Exército. (…) que nesta unidade do Exército, os três presos foram colocados numa sala, sem roupas;
…inicialmente chamaram Chael e fizeram-no beijar a declarante toda e em seguida chamaram Antônio Roberto para repetir esta prática, empurrando a cabeça dele sobre os seios da declarante; (…) depois um indivíduo lhe segurou os seios apertando-os, enquanto outros torturadores a machucavam; (…) em seguida Antônio Roberto e Chael foram levados para a sala ao lado onde estava a declarante, que ouvia gritos de Chael dizendo não saber de nada; (…) tais torturas duraram até sete horas da manhã, quando Chael parou de gritar, ficando caído no chão(…)”
[Apelação nº 40.278,págs. 60 e 61, do STM, processo nº 0260/96 da
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos]
A morte de Chael foi comunicada naquela manhã ao coronel Carlos Luiz Helvécio da Silveira Leite, que fazia o plantão no gabinete do ministro do Exército, Orlando Geisel. O coronel perguntou o nome do oficial responsável pelo interrogatório: era o então major de Cavalaria Ary Pereira de Carvalho, figura ilustre das listas de torturadores.
Helvécio mandou à Vila Militar um tenente-coronel do CIE, Murilo Fernando Alexander, com ordens de levar o corpo para o Hospital Central do Exército (HCE). Deu encrenca.
Talvez suspeitando de algum desvio de finalidade inconfessável, o diretor do HCE, general Galeno da Pena Franco, se negou a receber o cadáver: “Não concordaram em aceitá-lo como se tivesse entrado vivo”, contou Hélvécio em 1988 ao jornal O Estado de S.Paulo. Mas, o diretor do HCE reteve o corpo o tempo necessário para fazer a autópsia. Desviado depois para o Instituto Médico Legal (IML), o corpo despido revelou nas feridas o ímpeto das torturas sofridas. “Fiquei encabulado de ver o número de equimoses, as sevícias que o cadáver apresentava”, chegou a confessar o coronel Alexander, do CIE.
O Exército devia ter ficado ainda mais encabulado com as mentiras que contava em São Paulo aos aflitos pais de Chael, Ary e Emília Schreier. Quando saiu a primeira notícia da prisão de Chael, no domingo 23, ele já estava morto de véspera. Os pais viajaram ao Rio naquele dia, na esperança de reencontrar o filho vivo. P
elo telefone, em contato com um major conhecido da família, foram tranquilizados na segunda 24: “Certamente, seu filho deve estar bem e farei o possível para que possam vê-lo”, disse o militar. Mais serenos, os pais procuraram advogados e um apartamento para o que parecia ser uma longa espera. Na terça-feira 25, novas notícias animadoras:
O Globo informou que o trio estava preso na PE da Vila Militar, fato confirmado pelo major. Até que, às 15h30 daquele dia, veio o choque: a família foi informada que podia visitar o cadáver do filho no IML. Só na quinta-feira 27, quando o corpo havia sido sepultado na tarde de quarta-feira no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo, é que a imprensa enfim publicou informações sobre a morte ocorrida no sábado.
Deu no The New York Times
Pouco antes do enterro, ao abrir o caixão para as cerimônias judaicas de purificação, a família pode ver, além das marcas da autópsia e das costuras no tórax e nas pernas, manchas roxas no rosto e na barriga. Um dos primos de Chael resumiu: “Ele apanhou como um cavalo”.
A versão oficial, registrada em documento do II Exército e encontrada nos arquivos do DOPS, era mais branda: “Reagiram violentamente com disparos de revólver, espingarda e mesmo com bombas caseiras.
Da refrega, os três terroristas saíram feridos, sendo Chael o que estava em estado mais grave. Foram medicados no HCE, entretanto Chael sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer”. A explicação tinha uma cavalar contradição com o relato técnico do atestado de óbito, que descrevia a causa mortis: “contusão abdominal com ruptura do mesocólon transverso e mesentério, com hemorragia interna”.
A história ganhou a capa da edição 66 da revista Veja, de 10 de dezembro de 1969, dedicada a um só tema: “Torturas”. Era um destemido trabalho de investigação de vários meses de um equipe de oito repórteres chefiada por Raimundo Rodrigues Pereira, detalhando três casos de morte e arrolando outras 150 denúncias.
A revista foi apreendida nas bancas. Uma semana antes, a morte de Chael tinha conquistado bancas imunes ao braço longo da censura brasileira em Nova York, Paris e Londres, publicada em três importantes jornais do mundo — The New York Times, Le Monde e The Times.
A morte de Chael: deu no The New York Times e deu capa na Veja, logo apreendida nas bancas
A morte de Chael: deu no The New York Times e deu capa na Veja, logo apreendida nas bancas

O dramático depoimento de Dora na Auditoria da Marinha não salvou a vida de Chael — e nem a dela. Incluída na lista de 70 presos políticos banidos e trocados pelo embaixador suíço, em 1971, ela se exilou no Chile e mudou-se depois para a Alemanha.
Em fevereiro de 1976, com as feridas da tortura ainda latejando na alma, internou-se numa clínica psiquiátrica em Spandau. Quatro meses depois, Dora atirou-se na linha do metrô de Berlim. Tinha 31 anos.
No caso de Chael, até o laudo da morte desmentia a tese simplória do ‘ataque cardíaco’, na versão do Exército. A expressão ‘contusão abdominal’ indica ‘lesão produzida nos tecidos pela pancada de corpo duro sem que haja rompimento de pele’. A origem disso, segundo os médicos, pode ser atropelamento, queda violenta, paulada, pontapé.
A CNV foi além das especulações e, 45 anos depois, submeteu o laudo de necropsia do HCE à análise de peritos. Em quatro quadros esclarecedores, a CNV exibe um quadro terrível.
Na cabeça e no pescoço, foram localizadas escoriações e feridas no olho esquerdo, nas pálpebras, no queixo, na maçã do rosto. Havia hemorragia e manchas no peito, no abdome e nas nádegas. O ombro, o braço, a coxa e o punho do lado esquerdo exibiam cinco hematomas e três manchas.
Os sinais internos, segundo o laudo do hospital do Exército, eram ainda mais assustadores: quatro costelas fraturadas no lado direito, seis costelas no esquerdo, hemorragia no couro cabeludo e no reto.
Conclusão da perícia da CNV sobre o laudo do Exército:
“Ao analisar o Laudo Cadavérico de Chael Charles, referente ao exame de ne­cropsia realizado no dia 24 de novembro de 1969, verificou-se a constatação de hema­tomas (indevidamente denominados escoriações) produzidos nas regiões anterior e posterior da cabeça, do tronco e dos membros, alguns inclusive denotando um formato “ovalar”, fratura com infiltração hemorrágica de várias costelas de ambos os lados e afun­damento do rebordo costal esquerdo.
A natureza, forma e distribuição por todo o corpo das lesões descritas no referido Laudo, determinam que Chael Charles foi agredido de forma generalizada e contínua, inclusive tendo recebido socorro médico, face à sutura descrita na região mentoniana.
A variedade de colorações das lesões descritas, aliada à presença de infiltrados hemorrágicos relatados em várias costelas corroboram a ocorrência de agressões reite­radas por todo o corpo.
Verificou-se ainda, que em momento próximo e anterior à sua morte, Chael Charles foi submetido a coleta de impressões papiloscópicas, tendo sido verificadas subs­tância enegrecida aderida às suas poupas digitais. Vale ressaltar que tal procedimento é típico das diligências policiais.
laudo
Até o laudo do Exército reconhece: 10 costelas fraturadas, hemorragia no reto, pancada no estômago, ruptura no intestino

A subversão da ética
Tudo isso – fatos, depoimentos, dados, laudos, perícias – integra o consistente relatório preliminar enviado aos comandantes das FFAA, historiando o caso notório de Chael, que a edição apreendida de Veja em 1969 definiu como “a primeira prova real de morte violenta durante um interrogatório policial”.
E o que responderam os generais sobre a mais notória morte por tortura em um quartel do Exército no coração da Vila Militar?
Nada, não responderam nada. Não comentaram, não replicaram, não confirmaram. Como sempre, ‘nada consta’ sobre isso nos registros do Exército.
A frustrante resposta das FFAA à CNV e ao País deixa evidente, mais uma vez, a opção preferencial dos militares pela trincheira oposta a uma nação comprometida com o resgate da memória e da verdade.
É uma postura incompreensível para os atuais chefes das três forças, considerando a limpidez de suas biografias. O general Enzo Martins Peri (72 anos), o almirante Júlio Soares de Moura Neto (70) e o brigadeiro Juniti Saito (70), como as tropas que hoje comandam, nada têm a ver com as truculências cometidas no regime que derrubou Jango e a democracia.
Ao contrário dos camaradas da ditadura que ainda hoje protegem, 29 anos após o fim do ciclo militar, o trio de comandantes tem ficha limpa para avaliar com isenção — ‘sem desvios de finalidade’ — os crimes cometidos no passado. Todos os três chegaram ao generalato no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, quando a ditadura já era defunta há uma década.
 Os comandantes das FFAA:  ficha limpa O brigadeiro Saito, o almirante Moura Neto, o general Peri
Os comandantes das FFAA: ficha limpa
O brigadeiro Saito, o almirante Moura Neto, o general Peri

O general Peri chegou ao topo da carreira sem envolvimento com repressão e violações aos direitos humanos. De um ramo técnico da força, a Engenharia, era segundo-tenente de 23 anos quando irrompeu o golpe de 1964. O almirante Moura Neto completou 21 anos apenas 12 dias antes da derrubada de Jango em 1º de abril. Só cinco meses após o golpe é que ele vestiu, pela primeira vez, a farda de guarda-marinha. O brigadeiro Saito virou aspirante da FAB apenas no final de 1965, 19 meses após o movimento militar.
Na principal força armada do país, o firmamento das 276 estrelas que comandam a tropa — 14 generais de exército (quatro estrelas), 32 de divisão (três estrelas) e 62 de brigada (duas estrelas) — produz uma luz intensa que pode espantar a treva do passado que envergonha a farda e o país.
Todos os generais foram promovidos sob o regime democrático, o que torna ainda mais estranha a intransigente posição corporativa que preserva a impunidade de quem cometeu graves abusos na ditadura. Se os comandantes das FFAA não se sentem à vontade para responder às questões pertinentes levantadas pela Comissão Nacional da Verdade, deveriam pelo menos cumprir os regulamentos internos que eles mesmos juraram cumprir.
O principal deles é o Estatuto dos Militares, regulamentado justamente pelo Governo Figueiredo, o último do ciclo de generais. A lei nº 6.880, aprovada pelo Congresso em 9 de dezembro de 1980, prevê no estatuto a Seção II do Capítulo I (‘Das Obrigação Militares’), reservada a um item pouco conhecido da carreira: “Da Ética Militar”.
O inciso I do Art. 28 do Estatuto dos Militares, aprovado pelo último presidente da ditadura, estabelece o primeiro preceito da ética militar: “Amar a verdade e a responsabilidade como fundamento de dignidade pessoal”, diz o inciso I.
O inciso III do Estatuto dos Militares determina: “Respeitar a dignidade da pessoa humana”.
O digno relatório da CNV prova, como prega o Estatuto dos Militares, uma busca permanente pela verdade e uma preocupação obsessiva com a dignidade da pessoa humana.
A frustrante sindicância das FFAA, infelizmente, mostra o contrário.
GUERRA NAS ESTRELAS
O Exército nega a tortura que a comandante suprema sofreu
O comandante, a presidente e a porta para o inferno da rua Tutóia: uma tortura de 22 dias para Dilma e de 44 anos para a verdade
O comandante, a presidente e a porta para o inferno da rua Tutóia: uma tortura de 22 dias para Dilma e de 44 anos para a verdade

O Exército do general Enzo Martins Peri, subordinado à presidente Dilma Rousseff, acaba de negar oficialmente qualquer tortura praticada no antigo DOI-CODI da rua Tutóia, em São Paulo, onde a guerrilheira Dilma Rousseff foi torturada em 1970 pelo Exército do general Orlando Geisel, subordinado ao presidente Garrastazú Médici.
E agora? Quem diz a verdade? Quem está mentindo?
Mente a presidente da República, comandante suprema das Forças Armadas, ou mente o Exército, a força militar mais poderosa da América Latina, com 220 mil homens e a maior concentração de blindados (2.000 tanques, 500 deles pesados) do continente?
O Exército da democracia de 2014 informou à Comissão Nacional da Verdade (CNV), em junho passado, que não houve torturas nos cinco mais notórios centros de truculência do Exército da ditadura de 1970.
Da lista faz parte o afamado Destacamento de Operações de Informações do II Exército, em São Paulo, localizado no endereço que é o símbolo maior da violência militar instaurada com o golpe de 1964: o DOI-CODI da rua Tutoia.
No ofício 6749 enviado à CNV, o ministro da Defesa, Celso Amorim, baseado na sindicância de 42 páginas firmada pelo comandante do Exército, general Peri, reafirma ao país que não houve qualquer desvio ou abuso nas instalações geridas pela força terrestre no regime militar de 1964-1985.
Nem mesmo no sangrento DOI-CODI onde morreram 51 pessoas, segundo a CNV e conforme documentos confidencias do Exército. Por lá passaram 2.541 presos, dos quais 1.001 foram encaminhados depois ao DOPS.
Uma das sobreviventes daquele inferno foi uma guerrilheira da VAR-Palmares, ‘Estela’, codinome de Dilma Rousseff. Pelos acasos da democracia, que revogou a ditadura daqueles tempos, ‘Estela’ hoje é a presidente da República, a quem se subordinam todos os 14 generais de Exército, os 32 de Divisão e os 62 de Brigada da força terrestre, além do comandante Peri e do ministro Amorim, por força dos códigos militares e imposição categórica da Constituição.
Mais do que tudo, todos eles, como qualquer cidadão, se submetem ao jugo da verdade e da lei, que juraram defender. Apesar das oito mortes e 11 casos de tortura relacionados em cinco quartéis diferentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte, o general Peri atestou que não houve ali o “alegado desvio de finalidade” arguido pela CNV — nem mesmo no sangrento DOI da Tutoia.
O ministro e seus generais esqueceram de combinar esta versão com sua comandante, a ex-guerrilheira Dilma, que diz exatamente o contrário. Presa em São Paulo na tarde de 16 de janeiro de 1970, como integrante da VAR-Palmares, foi levada em seguida para a sede do DOI-CODI da Tutoia, ainda agindo sob a grife da temida OBAN, a Operação Bandeirante.
As torturas que sofreu, durante 22 dias, estão transcritas nas páginas 30-31 do processo 366/70 da Auditoria Militar de São, resgatado pelo Projeto Brasil: Nunca Mais. Em junho de 2005, poucas horas antes de trocar a cadeira de ministra das Minas e Energia pela chefia da Casa Civil de Lula, Dilma recordou suas dores num raro desabafo ao repórter Luiz Maklouf Carvalho, da Folha de S. Paulo.
Dilma – “Eu me lembro de chegar na Operação Bandeirante, presa…. Era aquele negócio meio terreno baldio, não tinha nem muro, direito. Eu entrei no pátio da OBAN e começaram a gritar ‘mata’, ‘tira a roupa’, ‘terrorista’, ‘filha da puta’, ‘deve ter matado gente’… E lembro também perfeitamente que me botaram numa cela.
Uma porção de mulheres. Tinha uma menina grávida que perguntou meu nome. Eu dei meu nome verdadeiro. Ela disse: ‘Xi, você está ferrada’. Foi o meu primeiro contato com o esperar. A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Também estou lembrando muito bem do chão do banheiro, do azulejo branco. Porque vai formando crosta de sangue, sujeira, você fica com um cheiro…
Por onde a tortura começou?
Dilma – Palmatória. Levei muita palmatória.
Quem batia?
Dilma – O capitão Maurício sempre aparecia. Ele não era interrogador, era da equipe de busca. Dos que dirigiam, o primeiro era o Homero, o segundo era o Albernaz. O terceiro eu não lembro o nome. Era um baixinho. Quem comandava era o major Waldir [Coelho], que a gente chamava de major Linguinha, porque ele falava assim [com língua presa].
Quem torturava?
Dilma – O Albernaz e o substituto dele, que se chamava Tomás. Eu não sei se é nome de guerra. Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Ele dava muito soco nas pessoas. Ele começava a te interrogar. Se não gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmatória, eu fui pro pau-de-arara.
Dá pra relembrar?
Dilma – Mandaram eu tirar a roupa. Eu não tirei, porque a primeira reação é não tirar, pô. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram com o resto no pau-de-arara. Aí começou a prender a circulação. Outro xingou não sei quem, aí me tiraram a roupa toda. Daí, depois me botaram outra vez [no pau-de-arara].
Com choques nas partes genitais, como acontecia?
Dilma – Não. Isso não fizeram. Mas fizeram choque, muito choque, mas muito choque. Eu lembro, nos primeiros dias, que eu tinha uma exaustão física, que eu queria desmaiar, não aguentava mais tanto choque. Eu comecei a ter hemorragia.
Onde eram esses choques?
Dilma – Em tudo quanto é lugar. Nos pés, nas mãos, na parte interna das coxas, nas orelhas. Na cabeça, é um horror. No bico do seio. Botavam uma coisa assim, no bico do seio, era uma coisa que prendia, segurava. Aí cansavam de fazer isso, porque tinha que ter um envoltório, pra enrolar, e largava. Aí você se urina, você se caga todo, você…
Quanto tempo durava uma sessão dessas?
Dilma – Nos primeiros dias, muito tempo. A gente perde a noção. Você não sabe quanto tempo, nem que tempo que é. Sabe por quê? Porque para, e quando para não melhora, porque ele fala o seguinte: “Agora você pensa um pouco”. Parava, me retiravam e me jogavam nesse lugar do ladrilho, que era um banheiro, no primeiro andar do DOI-CODI. Com sangue, com tudo. Te largam. Depois, você treme muito, você tem muito frio. Você está nu, né? É muito frio. Aí voltava. Nesse dia foi muito tempo. Teve uma hora que eu estava em posição fetal.
Dá pra pensar em resistir, em não falar?
Dilma – A forma de resistir era dizer comigo mesmo: “Daqui a pouco eu vou contar tudo o que eu sei”. Falava pra mim mesmo. Aí passava um pouquinho. E mais um pouco. E aí você vai indo. Você não pode imaginar que vai durar uma hora, duas. Só pode pensar no daqui a pouco. Não pode pensar na dor.
A sra. aguentou?
Dilma – Eu aguentei. Não disse nem onde eu morava. Não disse quem era o Max [codinome de Carlos Franklin Paixão de Araújo, então seu marido]. Não entreguei o Breno [Carlos Alberto Bueno de Freitas], porque tinha muita dó. […] as razões que levam a gente a não falar são as mais variadas possíveis.
Quais foram as suas?
Dilma – Tinha um menino da ALN que chamava ‘Mister X’. Eu o vi completamente destruído. Não sei o que foi feito dele. Nunca vou esquecer o quadro em que ele estava. Primeiro, eu não queria que meus companheiros estivessem numa situação daquelas. Segundo, eu tinha medo que algum deles morresse. Terceiro, porque teve um dia que eu tive uma hemorragia muito grande, foi o dia em que eu estive pior. Hemorragia, mesmo, que nem menstruação. Eles tiveram que me levar para o Hospital Central do Exército. Encontrei uma menina da ALN. Ela disse: “Pula um pouco no quarto para a hemorragia não parar e você não ter que voltar”.
Palmatória, pau-de-arara, choque. O que mais?
Dilma – Não comer. O frio. A noite. Eles te botam na sala e falam: “Daqui a duas horas eu volto pra te interrogar”. Ficar esperando a tortura. Tem um nível de dor em que você apaga, em que você não agüenta mais. A dor tem que ser infligida com o controle deles. Ele tem que demonstrar que tem o poder de controlar tua dor.
Dilma ignorava na época o que a Comissão Nacional da Verdade hoje já conhece: nome, sobrenome e posto de seus torturadores. O então major do Exército Waldyr Coelho, como primeiro comandante da OBAN, ocupava uma sala no primeiro andar do prédio. Homero César Machado, capitão de Artilharia do Exército, era o chefe da Equipe B de interrogatório do DOI-CODI. O chefe da Equipe A, Benoni de Arruda Albernaz, era o pior de todos, como lembra bem Dilma Rousseff.
Também Capitão de de Artilharia, Albernaz justificava a fama: “Ele era o mais violento e o mais doente de todos. Andava com um pedaço de viga de madeira na mão e quando passava nos corredores ia batendo nos presos. Não precisava de sala ou interrogatório para torturar. Ele era o exemplo do diabo”, contou o jornalista e ex-militante da ALN Celso Horta, que passou pelo pau-de-arara da Tutóia.
“Era um homem terrível, o torturador mais famoso da OBAN naquela época”, completa o advogado Carlos Franklin de Araújo, ex-guerrilheiro da VAR-Palmares e ex-marido de Dilma, que dividiu com ela os suplícios da tortura em São Paulo.
Benoni Albernaz, o torturador: coração em casa/ Dilma Rousseff, a torturada: dente arrancado
Benoni Albernaz, o torturador: coração em casa/ Dilma Rousseff, a torturada: dente arrancado

No perfil feito pelo repórter Thiago Herdy para O Globo em 2012, Albernaz é descrito como o capitão que “tinha 37 anos, sobrancelha arqueada, riso de escárnio e fazia juras de amor à pátria enquanto socava e quebrava os dentes da futura presidente do Brasil, Dilma Rousseff, na época com 22 anos”.
Apesar da violência em janeiro de 1970, Albernaz ganharia dez meses depois o seguinte elogio em folha de seu comandante, o major Linguinha Coelho: “Oficial capaz, disciplinado e leal, sempre demonstrou perfeito sincronismo com a filosofia que rege o funcionamento do Comando do Exército: honestidade, trabalho e respeito ao homem”. Consolava seus torturados com uma frase inquestionável: “Quando venho para a OBAN, deixo o coração em casa”.
Um pouco mais do desalmado Albernaz se soube quando Dilma abriu o coração em 2001, ainda secretária de Minas e Energia no Rio Grande do Sul, para um sentido depoimento à comissão de Minas Gerais que trata de indenizar vítimas da ditadura. A durona Dilma chorou diante do jovem filósofo Robson Sávio, que a entrevistava, ao lembrar do inferno que viveu no DOI-CODI de São Paulo e que reviveu no quartel da 4ª
Companhia da Polícia do Exército (PE) em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, para onde foi transferida em 1972. Era um detalhe desconhecido para o Brasil, até ser revelado em meados de 2012 pela repórter Sandra Kiefer, do jornal Estado de Minas, ao descobrir o desabafo de Dilma numa caixa de papelão perdida entre 700 processos de presos políticos em uma sala do quinto andar de um prédio no centro de Belo Horizonte, onde funciona o Conselho de Direitos Humanos de MG.
Ali, Dilma revela pela primeira vez ter levado socos no maxilar na sua estadia mineira. “Minha arcada girou para o outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco, o dente se deslocou e apodreceu”, contou a secretária do então governador Olívio Dutra (PT), nove anos antes de se tornar presidente e comandante das Forças Armadas que negam as torturas.
Para combater a dor provocada pelo soco no maxilar, tomava Novalgina em gotas na prisão mineira. Quando voltou para o cárcere em São Paulo, o problema acabou: “O Albernaz completou o serviço com outro soco, arrancando meu dente”, contou.
Dilma no tribunal de Juiz de Fora, em 1972, dois anos após o soco de Albernaz que arrancou um dente
Dilma no tribunal de Juiz de Fora, em 1972, dois anos após o soco de Albernaz que arrancou um dente

Albernaz deixou o DOI-CODI no início de 1971. Teve a matrícula recusada três vezes no curso de operações na selva. Foi transferido para o interior do Rio Grande do Sul. Em março de 1974 foi internado em Porto Alegre, vítima de envenenamento. Foi denunciado cinco vezes por fazer dívidas com recrutas e não pagar.
Ao delegado que investigou o caso, mostrou a arrogância dos tempos de terror: “Sou amigo íntimo do presidente da República , foi ele [Médici) quem me deu isso” contou, mostrando a pistola Smith&Wesson. Ainda se vangloriava de ser o número 2 da lista de torturadores do país.
O número 1 era o seu chefe no DOI-CODI da Tutóia, o então major de Infantaria Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sem dinheiro para pagar a hipoteca, sofreu quatro ações de execução judicial. O homem que deixava o coração de fora do trabalho sofreu um infarto dentro da casa da namorada, nos Jardins, em São Paulo, em 1992. Chegou morto ao Hospital do Exército que agora o renegava, lembrou o repórter que descreveu a descida de Albernaz ao inferno.
O outro torturador que Dilma, ao contrário do Exército, não esquece, é o capitão do Exército Maurício Lopes Lima. Depois do martírio na OBAN, ela foi transferida para o presídio Tiradentes.
Até que apareceram lá dois militares enviados pelo capitão Maurício, ameaçando um retorno para novas sevícias na Tutóia. Dilma reagiu, perguntando se eles estavam ali com autorização do Poder Judiciário.A resposta do militar resume o deboche daqueles tempos sem lei: “Você vai ver o que é juiz lá na OBAN!…”
Em novembro de 2011, quando a ex-guerrilheira estava prestes a completar seu primeiro ano como presidente da República, o Ministério Público Federal paulista ajuizou ação pública para responsabilizar três oficiais do Exército e um da PM pela morte de seis pessoas e a tortura em outras 20 detidas na OBAN.
O capitão Maurício era um dos denunciados. Um ano depois, com base na Lei da Anistia, montada em 1979 pela própria ditadura para assegurar a impunidade dos agentes que iam trabalhar sem o coração, a Justiça arquivou o caso contra o capitão Maurício.
Ele já tinha um rombudo antecedente. O frei dominicano Tito de Alencar Lima, 24 anos, preso por envolvimento da ordem com a ALN de Carlos Marighella, foi retirado do presídio Tiradentes no início da tarde de 17 de fevereiro de 1970 para ser levado para a OBAN. Acompanhado de outros dois militares, o capitão Maurício avisou Tito: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno!”.
Após sobreviver aos horrores do DOPS do delegado Sérgio Fleury, Tito caiu nas garras infernais da equipe do capitão Maurício. Definhou 14 meses sob as torturas mais diabólicas do sistema repressivo que, segundo diz agora o Exército à CNV, não sofreu nenhum ‘alegado desvio de finalidade’.
Um dos 70 presos trocados em 1971 pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, frei Tito andou pelo Chile, Alemanha e Itália. Com o espírito destroçado pelos demônios que viu e sentiu no inferno da repressão, frei Tito só ganhou a paz pelo suicídio, em agosto de 1974, ao se enforcar em uma árvore nos campos de um convento da ordem próximo a Lyon, na França.
Com o cinismo típico dos profissionais da repressão que não ousa dizer seu nome, o capitão Maurício tentou o reconhecimento que Dilma lhe fez como um de seus torturadores: “Ela esteve comigo somente um dia e eu não a agredi, em momento algum”.
Em entrevista ao Portal IG, em 2010, ele fez graça com a desgraça de sua carreira, dizendo que sequer poderia imaginar que veria aquela guerrilheira, um dia, no Palácio do Planalto. “Se eu soubesse naquela época que ela seria presidente, eu teria pedido: ‘Anota meu nome aí. Eu sou bonzinho'”.
Esta parece ser a recomendação seguida, como instituição, pelo Exército, ao ser provocado pela CNV: todos os torturadores, que tiveram seus nomes devidamente anotados, agora parecem ser ‘bonzinhos’.
Afinal, onde está a verdade?
A Nação merece, agora, um esclarecimento da principal ocupante do Palácio do Planalto, que um dia circulou como presa pela sucursal do inferno, levou soco na cara, perdeu dente, sofreu hemorragia, passou frio, teve fome e sentiu medo, muito medo.
Nem as conveniências de uma dura campanha eleitoral, que recomenda cautelas à direita e à esquerda, justificam o silêncio e a omissão diante desse grave paradoxo: a testemunha mais notável da tortura imposta pelo regime militar e agora negada pelos generais é justamente a comandante-suprema das Forças Armadas.
A presidente da República, que viveu na carne e na alma todo o terror da ditadura, precisa esclarecer ao país, enfim, onde está a verdade, que a CNV busca com o empenho que as FFAA não demonstram.
Afinal, presidente Dilma, quem está mentindo?
Dilma e a sucursal do inferno: Maurício, como capitão, e agora, 'bonzinho'
Dilma e a sucursal do inferno: Maurício, como capitão, e agora, ‘bonzinho’

Tráfico: empresário leva 25 anos para provar inocência

Por Renan Antunes de Oliveira |

N
ão existe caso de erro judicial no Brasil igual ao do empresário carioca José Germano Neto, de 65 anos, dono de uma revenda BMW no Rio de Janeiro. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de absolvê-lo de um crime nunca cometido.
Germano foi perseguido pela polícia como narcotraficante por 25 anos.
Ele enfrentou seis processos. Puxou cadeia aqui, nos Estados Unidos e na França.
O ponto de partida da perseguição foi uma denúncia fria feita por um alcaguete da polícia carioca, em 1989.
O homem queria revanche porque o empresário o acusara do roubo de um Chevette de segunda mão. Ele se vingou acusando Germano de chefiar o tráfico no Morro do Vintém.
Com base na denúncia fria Germano foi preso e fichado como chefão. Aí começou aquele conhecido desfile de delegados e promotores divulgando suspeitas como fatos, fofocas como verdades.
Tudo era reproduzido na imprensa, sem filtros. O linchamento de Germano não teve precedentes: o caso da Escola Base só aconteceria em 1994, cinco anos depois. Os jornais o moeram e jogaram na lama.
A ficha suja dele circulou entre policiais dos três países por mais de duas décadas. Só aqui o processo teve 40 volumes, 30 adendos e 6 mil páginas.
PERSEGUIÇÃO SEM FIM
A fama de narco lhe rendeu três processos no Brasil (1989, 1996 e 2002), dois na França (1994 e 2000) e um nos EUA (1998).
Foram quatro anos de cadeia, um pouco em cada país. E um quarto de século de idas e vindas a tribunais.
Germano foi investigado sem sucesso pelas polícias Civil e Militar do Rio, pela Federal, DEA (agência antidrogas americana), Nacional Francesa e até pela CPI do Narcotráfico.
A sentença (leia neste link) do STJ que o absolveu foi divulgada apenas nos meios forenses e em juridiquês.
O trânsito em julgado do processo aconteceu em junho – agora ele é inocente de uma vez por todas. Os bens apreendidos e o passaporte já podem ser devolvidos ao dono. José Germano Neto está limpo outra vez.
ENFRENTANDO A BMW
A absolvição chegou aos 45 do segundo tempo: o empresário está com câncer e botando pontes de safena.
Se não morrer e se ganhar indenização de R$120 mi da multinacional BMW, talvez Germano ainda aproveite o limão que a vida lhe deu.
A indenização é muito possível. Germano processou a montadora na 5ª Vara Cível do Rio porque a empresa cassou a concessionária dele na Barra da Tijuca enquanto estava preso nos EUA, em 1998.
Para cassá-lo, a multi alegou que o nome sujo dele respingava na imagem da marca.
Os advogados da BMW, Tozzini, Freire, Teixeira e Silva, ilustraram sete páginas da defesa dela com reportagens sobre Germano como bandido.
O Germano agora com nome limpo pede a concessionária de volta, mais lucros dos últimos 16 anos. O cálculo dos milhões foi feito por peritos legais. O caso está na 9ª Câmara Cível do Rio, a passos de cágado.
MINHA APOSTA
Entrei no caso Germano quando era repórter do Estado de S.Paulo em Nova York, em 1998. O cônsul brasileiro me ligou avisando da prisão pela NYPD de “um carioca condenado na França por narcotráfico”.
Era ele. Foi preso na happy hour de uma convenção da BMW.
Fui conferir. A polícia americana me disse que o prendeu para extraditá-lo à França, para cumprir 12 anos de cadeia, conforme mandado da Interpol. Lá, Germano fora condenado à revelia.
Ele passou semanas sendo interrogado pela DEA, no cadeião federal de Manhattan. Num ponto qualquer, os americanos se desinteressaram dele.
O Brasil abriu mão do direito de pedir primazia na extradição. Ele foi então para uma cadeia no Upstate NY aguardar transferência à França.
Meses depois, consegui autorização para entrevistá-lo na prisão. Ele não acreditava na nova acusação de narco, ainda mais na França. Parecia atordoado. Só repetia “sou inocente”.
Estávamos na área comum de visitas aos presos. Eu olhei para a turma em volta e disse, como nos filmes: “Claro, aqui dentro todos são inocentes”.
Me perguntou: “Você acha que se eu fosse um traficante condenado não saberia? Aí eu não viajaria para o Exterior. Viajei porque não sabia”.
Passei o trator nele: Você fumava? Cheirava? Comprava? Vendia? Germano negava tudo. Tentei ver a alma nos gestos, para a sentença de repórter: bandido ou mocinho?
Como bandido, ele já tinha a fama feita. No Rio, figurou nas páginas policiais até o esgotamento.
Como mocinho, ainda não dava para acreditar nele. No texto, fiquei em cima do muro.
Com a prisão nos Estados Unidos ele voltou às manchetes por alguns dias. Minha entrevista rendeu meia página no Estadão.
Em 2000, Germano desistiu de se defender nos EUA e pediu para ser extraditado à França. A DEA não viu nada importante nele e o deportou.
SACANAGEM DIPLOMÁTICA
Meses depois da entrevista no Upstate, reencontrei o cônsul num regabofe. Ele me puxou para um canto e soprou: “Sabe o Germano? Fizeram uma sacanagem com ele”.
O cônsul me explicou: “A Polícia Federal queria vê-lo na cadeia, mas não conseguia. Então, foi feita uma armação para entregá-lo aos americanos”.
Ele disse que a Interpol francesa expedira o mandado de prisão por canais sigilosos. Só a PF sabia. Aí, ela passou ao NYPD dia, horário, flight number e hotel dele, resultando numa prisão fácil pros tiras americanos.
O cônsul me sugeriu investigar outra vertente da sacanagem. Ele achava que o convite da BMW para a convenção fora só para tirá-lo do Rio e assim cassar a concessão dele (mais tarde, a multi negou envolvimento na trama).
A PF não informou Germano do mandado francês porque o queria na cadeia, não importando onde. Ela usou o artifício porque a Constituição proíbe a extradição de brasileiros.
A própria condenação na França derivou de uma informação errada dela, PF, aos franceses. Eles investigavam uma conexão Rio-Paris, em 1994. A PF mandou a ficha de Germano como sendo o chefão do Morro do Vintém. Vapt vupt, o empresário foi condenado, sem saber que era réu em Paris.
Bem mais tarde Germano processou a PF, mas ela foi absolvida da mancada, considerada ossos do ofício.
Germano teria tido uma chance de voltar dos EUA para o Brasil sem ser extraditado para a França, se o Itamaraty tivesse pedido a repatriação dele, coisa que não fez.
Consultei o cônsul: “Nós não pedimos porque o Governo não deixou. A gente não sabia o motivo. A PF dizia que ele era bandido. Só agora o pessoal do Itamaraty está dizendo que ele é inocente”.
Corri para o telefone. Liguei para meu chefe, Laerte Fernandes. Pedi para ele acionar nosso correspondente em Paris para checar o caso. A resposta foi gelada: “Não vamos atrás de cachorro morto”.
Liguei para a jornalista francesa Valerie di Chiappari, uma amiga de anos. Sem avisar o Estadão, ofereci 200 dólares para ela ir ao Tribunal de Paris descobrir alguma coisa.
Val não teve sorte. Informou apenas que Germano continuaria preso, aguardando julgamento. Pela lei local, quando um condenado à revelia aparece, anula-se o anterior e abre-se um novo processo.
Mandei uma nota para o Estadão. Tomei mais um balde frio: “Renan, esquece o caso”. Desta vez a ordem veio de um assistente do diretor Pimenta…perdi o reembolso dos 200 dólares.
MALANDRAGEM POLICIAL
Ainda fuçando, liguei dos Estados Unidos para a Corregedoria da Polícia Federal no Rio. Fiz uma longa entrevista com um delegado. Ele disse que a investigação de Germano tivera problemas e que, em consequência, o responsável pelo caso fora afastado.
Mandei uma matéria com o sinal de alerta bem grande: o empresário José Germano Neto pode ser inocente.
Surpresa: o delegado-fonte processou o Estadão dizendo que não tinha falado comigo. Não era uma dúvida sobre um ponto ou outro do texto. Era uma negativa total. Como seu eu tivesse pirado e inventado a conversa com ele. Aí, pediu grana de indenização.
Juntei o papo do cônsul e a ação do delegado para começar a suspeitar fortemente … da inocência de Germano.
Raciocinei: se um delegado PF faz uma pilantragem dessas, o bandido deve ser o mocinho da história.
Em 2001, fui posto pra rua do Estadão. Voltei pro Brasil e fui trabalhar na Gazeta do Povo, de Curitiba.
No final de 2002, recebo um telefonema no jornal. Uma voz rouca, grave, arfante: “Aqui é o José Germano”. Ele me contou que tinha sido absolvido e deportado da França.
Estava no Rio. E, surpresa, prestes a ser preso de novo pela PF.
Por quê? “Por causa da primeira condenação na França.”
Com frieza, respondi que o caso dele não interessaria ao meu jornal. Ele me lembrou, com delicadeza: “Só liguei porque você pediu para te avisar quando saísse da cadeia”.
O PRIMEIRO DELEGADO
Fast forward para o final de 2004. Saí da Gazeta. Ganhei uma passagem e 24 horas de hotel grátis no Rio, pra cerimônia do Prêmio Esso.
Do aeroporto, fui primeiro para o escritório dos advogados de Germano. Eles me vieram com o papo de polícia incompetente perseguindo seu cliente inocente, arruinando o negócio com a BMW. Queriam me mostrar uma sala cheia de documentos.
Desconfiei deles. Pedi para procurarem na papelada apenas o nome do primeiro delegado a prendê-lo, em 1989. “Foi o doutor Júlio Mulatinho, da Polícia Civil do Rio”, lembrou Germano, mesmo 15 anos depois.
Encerrei a reunião. Rápidos telefonemas, achei o doutor Mulatinho. Era o titular da delegacia de Maricá. Peguei um táxi e levei uns recortes de jornal para o papo com ele.
O homem mal viu a primeira foto, virou a cara e fez tsk tsk tsk: “Ah, este coitado (Germano). Não é bandido. Foi caguetado por um vagabundo”.
Pedi uma prova: “Posso não ter provas da inocência, mas duvido que encontrem da culpa”.
O delegado me contou que o prendeu “por uma denúncia fria”. Para ele, Germano estava limpo. “Quando a PF assumiu o processo, eu tentei avisar o pessoal dela, mas ninguém se importou.”
Estaria o delegado no bolso de Germano? Como ele lembrava de tudo, 15 anos depois? “Deu tanta notícia na época que foi impossível esquecer.”
PERDAS
Balanço do caso entre 1989 e 2004: Germano passou quatro anos na cadeia. A BMW lhe cassou o negócio. Prenderam a mulher dele, a leiloeira oficial Zalfa Nassar, acusada pela PF de cumplicidade. Ela perdeu o cargo e abortou na cadeia. Eles se mudaram de um apê de luxo na Barra para o subúrbio de Campo Grande – uma condenação dentro da condenação.
A perseguição já era do tipo ovo ou galinha: na França, acusado de ser traficante no Rio, no Rio, acusado de traficante na França.
Mesmo que Germano quisesse retomar sua vida, ela continuaria parada na 8ª Vara Criminal do Rio de Janeiro por mais10 anos. Estava com seus bens congelados, sem passaporte, obrigado a viver no eixo casa-advogado-casa.
POLÍCIA BANDIDA
Em 2005, no Jornal Já, re-re-reinvestiguei o caso. Contratei um frila no Rio para ir à PF checar as acusações contra ele. Era o estudante Breno Costa, depois top repórter na Folha de S.Paulo.
Breno chega ao processo, mas é detido pelo delegado do caso. Ele ameaça mandar o repórter para um cadeião carioca.
Telefonemas frenéticos. Mobilizado o sindicato do Rio. O presidente Aziz Filho liga, me dá uma dura por mandar um estagiário, resgata Breno ileso.
O repórter ficou sem a matéria, mas eu reforcei minha dúvida: a PF não tinha nada para provar a acusação contra Germano. Quando policial tem, solta em off. Quando não tem, acusa: “Você é amigo do bandido?”
Neste estágio, boquirrotiei: contei para Milton Coelho da Graça, do Observatório de Imprensa, que estava preparando uma história sensacional.
NA TOCA DO LEÃO
Para escrevê-la, voei para o Rio, numa manhã de domingo. Fui de surpresa à casa de José Germano. Ele e Zalfa estavam na varanda. Liam jornais. Pareciam calmos e confortáveis na rotina morna do casamento sem filhos.
Saímos para almoçar numa churrascaria vagabunda. O papo rolou sobre colesterol e pontes de safena. Ele estava pesando 120 quilos. Eu idem, então tive intimidade suficiente para apelidá-lo de Gordo.
Passamos a tarde com Faustão e futebol. Ele roncou na poltrona. Zalfa remexia nas pilhas de volumes dos processos. Furunguei na papelada.
Aos poucos, a mulher começou a tagarelar. Contou dos dias presa em 1989: “Para me soltar, queriam que eu incriminasse o Zé.”
Zalfa perdeu o cargo de leiloeira, mas fez uma limonada: foi estudar. Deu tempo para formar-se em Direito e advogar para o marido.
Fingindo orgulho, ela mostra sua foto na capa do Extra sob o título “Linda, rica e procurada”. Dobra o papel amarelado e ironiza: “Já não me procuram, não sou mais rica e esta foto tem 15 anos”.
Num momento de fraqueza ela confidencia sobre o aborto do bebê que os dois queriam, durante os interrogatórios da PF. Não houve violência física, ela acha que foi pelo estresse da coisa. Zalfa agora chora. Bem baixinho, para não acordar o Gordo.
Seguro a mão dela alguns segundos, num gesto de conforto. Ela recolhe a sua, seca os olhos com meu lenço: “Ele não gosta que eu fale mais nisso”, diz, apontando com a cabeça para o dorminhoco. “O Zé acha que faz mal pra gente lembrar coisas ruins.”
Anoitece. Mais TV, entramos no Fantástico. Eu já estava quadrado de tanto sofá. Tentava sacar a rotina da casa. Notei que os telefones não tocaram uma única vez.
Perguntei: “Ué, os comparsas de vocês não ligam mais? Cadê o resto da quadrilha? Quanto tempo vocês vão disfarçar?” Conclusão: “Não sabia que vida de traficante aposentado era tão calma”.
Eles receberam como piada, numa boa. Me convidaram para dormir na casa, porque era longe do meu hotel e “perigoso sair à noite”. No dia seguinte, tomamos café juntos e eles me largaram no aeroporto.
Mais alguns meses se passaram. Voltei ao Rio. Zalfa me liga querendo processar o governo francês na Corte Europeia de Direitos Humanos para pedir indenização pela cana puxada em Paris.
Pergunta minha opinião. Achei bobagem. Mas, foi aí que tive a ideia: se a investigação não andava no Brasil, poderia tentar via França.
EXPEDIÇÃO PARISIENSE
Fomos à agência de viagens deles. Comprei uma passagem para Paris. Eu paguei cash, preocupado com a possibilidade de a PF ainda estar na cola dele e me acusar de tomar dinheiro de “traficantes”.
Desci em Paris e fui direto para a sede da Policia Nacional Francesa.
Me encostei no balcão e pedi para falar com o chefe da narcóticos. Dois guardas me levaram à sala do capitão Marc Geny. Pelo papo, percebi que ele achava que eu vinha fazer alguma denúncia.
Mostrei uma reportagem antiga assinada no Estadão. Geny conferiu o nome com meu passaporte. Pareceu frustrado, depois relaxou. Jogou-se para trás na cadeira, dispensou os guardinhas e me ofereceu café.
Eu retruquei oferecendo off the record. O capitão disse que não trabalhou no processo, mas sabia dele: “Tudo o que eu posso dizer é que foi um caso kafkiano. Usamos uma informação da polícia brasileira para condená-lo, sem nunca ter apreendido drogas com ele”.
REPÓRTER OU CÚMPLICE?
Depois do papo, voltei de Paris com a certeza da inocência de Germano.
Claro, aquele tipo de certeza de jornalista: sempre recheada de dúvidas. No fundo, eu procurava provar que ele era o bandido que diziam.
Eu já tinha tentando entrevistar o alcaguete que fez a primeira denúncia, sem sucesso. Era um ex-cabo da PM carioca. Só achei o nome e a caguetada nos autos do processo. Ele morreu em 1997.
Re-re-entrevistei o Gordo. Fizemos o balanço de quantas vezes ele foi investigado sobre o mesmo assunto. Não dava para lembrar. Só a PF continuava na cola dele, disposta a provar o improvável.
Seria ele tão esperto a ponto de conseguir enganar todo mundo o tempo todo? E eu teria cruzado a barreira de repórter a cúmplice de bandido?
Cansado, voltei as baterias contra Germano. Pedi para me confessar tudo. Ofereci a ele uma chance de redenção: garanti que não publicaria nada se ele me dissesse a verdade.
Para os registros: “Não quero comprometer minha carreira defendendo um bandido”.
Nada o demoveu de jurar que era inocente.
CAÇADO
Em 2007, eu andava frilando no moribundo Jornal do Brasil. Pude contar toda história de Germano até ali, desta vez já cravando a inocência dele. O editor Mário Marona caprichou na capa: “O homem que foi caçado por 18 anos”.
Despejei tudo em duas páginas internas. A repercussão foi zero. Mesmo assim, Germano tirou cópias e distribuiu para os amigos. Era sua declaração de inocência na imprensa que tanto o castigara.
Saí do JB e voltei para Porto Alegre. O tempo voou. Germano teve câncer. Tremeu nas bases. Começou a me ligar, depressivo. Queria processar tudo e todos para provar sua alegada inocência.
Ele bolou até um protesto: sentar na frente do Cristo Redentor com uma placa de “inocente” no pescoço. Seria o único jeito de contar sua história para o mundo. Ri da ideia: “Além de bandido, vão te chamar de louco”.
NÃO DEU NO FANTÁSTICO
Aí, para dar uma força ao doente, cometi uma ingenuidade indesculpável. Sugeri para ele contar seu caso kafkiano no Fantástico (o pessoal mais velho deve lembrar de quando este programa tinha Ibope).
Seriam 10 minutos de alívio na telinha, depois de 18 anos tomando chumbo. Ele ligou se oferecendo. Não quiseram.
Minha besteira foi deixar de ser pro e mandar um e-mail para o repórter Eduardo Faustini. Ele conhecia o caso. Eu só sugeri que desse uma nova olhada. Dei os telefones de Germano e dos advogados daquela sala cheia de documentos.
Faustini ficou com um pé atrás. Nunca procurou Germano. E começou a me interrogar. Só então percebi o óbvio: se algum jornalista me ligasse com essa história eu também pensaria como ele deve ter pensado: “Compraram este cara para limpar a barra de um traficante.”
Pior fez Germano: ele esperou horas por Larry Rother no escritório do New York Times. Não foi recebido. Deixou recortes de jornais e um patético pedido de ter sua história de injustiça brasileira contada mundo afora.
VIRADA
Em 2010, Germano foi absolvido pela 8ª Vara Criminal do Rio. Absolvido, sob o estrondoso silêncio da mídia. Nenhuma linha, nenhuma notinha, nada de nada.
O juiz se convenceu da inocência quando interrogou seu principal acusador, o delegado da Polícia Federal Luiz Dórea. Obteve dele a resposta que mudou o jogo, lançada nos autos: “Nunca (em 18 anos) houve qualquer depoimento, ou qualquer flagrante, ou qualquer apreensão de drogas que o implicasse com o tráfico”.
Aí o delegado PF Aldeir Gonçalves sepulta de vez a acusação. Explica ao juiz que para processar Germano em sua volta ao Brasil “tudo que (a polícia) tem contra (ele) é apenas a sentença francesa”.
Da absolvição na 8ª Vara o caso subiu para o TRF4 (Tribunal Regional Federal) por recurso do MPF, mas já sem muita margem para mudança.
No TRF foi confirmada a absolvição das acusações de tráfico e formação de quadrilha. Mas, o MPF ainda queria salvar a cara e insistia que os bens de Germano seriam fruto de enriquecimento ilícito. O MPF então recorreu ao STJ tentando esta condenação indireta como traficante.
Germano provou que tinha riqueza lícita de berço. O avô foi um industrial judeu pioneiro da metalurgia. Ele herdou do pai vários imóveis no subúrbio.
A Receita Federal demoliu a acusação, anexando uma certidão nos autos. Só então o MPF capitulou, mandando um ofício ao STJ desistindo das acusações.
O caso caiu no buraco negro, à espera da sentença do STJ. Foram mais três anos parado, até outubro de 2013.
Germano ainda não podia comemorar porque um ministro poderia derrubar o pedido de desistência do MPF e ele mesmo mandar reinvestigar tudo. Aí a roda continuaria: STJ-MPF-TRF4- 8ª Vara-PF-Rio-Paris, tudo de novo.
Em junho, o caso foi para os arquivos, desta vez para sempre.
BIOGRAFIA MANCHADA
Com o caso encerrado, liguei para o Gordo pela última vez.
– E aí Germano, como vão teus dois processos ?
– Perdi o da BMW em primeira instância, mas na segunda vou vencer.
Ele parecia empolgado com a derrota.
– E o do narcotráfico ?
– Ganhei (sua voz não tinha nenhuma emoção).
Pedi licença para publicar sua saga de 25 anos.
– Deixe pra lá, estarei sujo para sempre.
Ele parecia amargurado na vitória.
O motivo da amargura é a tecnicalidade da sentença. Ela não diz “absolvido”. O STJ o absolveu porque o MPF desistiu de persegui-lo.
Os promotores não disseram “inocente”. Ou “demos uma mancada”. Ele não levou sequer um pedido de desculpas.
Numa frase ? Foi inocentado porque não provaram que era bandido.
Assim, o volumoso, complicado e demoradésimo processo União x José Germano Neto acabou com um suspiro.
Agora ele vai tocar sua vida, parada desde os 40 anos. Aos 65, não terá mais energia, nem tempo, para processar o governo por indenização.
E a mancha nunca vai apagar: muita gente ainda vai achar que ele é um narcotraficante esperto que conseguiu enganar a todos o tempo todo.

O triste fim do irreverente terrorista da internet

Por Renan Antunes de Oliveira
Ilustração de Enio Squeff | Fotos de Celso Martins e TV UFSC
A
porta já estava aberta quando o padre Elizandro procurou pelo blogueiro Mosquito na rua dos Maracanãs. Ele entrou e deu de cara com o corpo dele pendurado na escada, enforcado num lençol. A cena parecia de suicídio.
Eram quase cinco da tarde da terça 13 de dezembro. Em minutos a notícia da morte do destemido e temido jornalista catarinense de 52 anos caiu na blogosfera. Tornou-se trending topic no Twitter antes das 10 da noite. A suspeita de assassinato bombou na internet.
A morte dele encerrou a era do “terror midiático” imposta pelo blog ‘Tijoladas do Mosquito’ à política catarinense desde 2008.
As tijoladas eram críticas irreverentes e desbocadas disparadas contra tudo e todos por qualquer motivo e até sem motivo – Mosquito gostava de se apresentar como sendo “o primeiro terrorista midiático” da internet.
Nesta semana, 87 dias depois da morte de Amilton Alexandre, apelidado Mosquito, o Instituto de Perícias de SC confirmou a tese inicial de suicídio. Amigos e familiares acreditam que ele se matou por temer a prisão depois da segunda condenação por difamação.

O Tijoladas conduzia uma feroz campanha moralista contra autoridades, políticos e empresários. Muitas das denúncias eram frias, mas os textos tinham irreverência, humor e bastantes palavrões. Ofendeu gaúchos, negros, judeus – e até os vizinhos da rua Maracanãs, no condomínio onde foi encontrado morto, o Pedra Branca, na pacata Palhoça, Grande Floripa.
Seus maiores alvos foram a hoje ministra das Relações Institucionais Ideli Salvatti, o ex-governador Leonel Pavan, o prefeito de Floripa Dário Berger e Fernando Marcondes de Mattos, dono do resort Costão do Santinho. Na política nacional deu uns pitacos, agredindo a presidente Dilma com baixarias impublicáveis – Brasília fez vista grossa.
“Ele acertava na dimensão universal de seus ataques contra poderosos, privilegiados e sacanas”, diz o sociólogo Remy Fontana, professor da UFSC, amigo dele por 33 anos. “Mas, algumas vezes foi inconsequente e injusto, expondo reputações à execração pública”.
O blog tinha como lema “jamais se calar”. A operação toda era apenas Mosquito, um netbook Asus e um modem da Claro. Não tinha anunciantes. Ele postava de uma mesa do bar Kibelândia, a central de fofocas da Ilha, onde garimpava notícias entre bebuns e barnabés fora do expediente.
Pela distribuição das tijoladas Mosquito enfrentou 22 processos e a invasão de hackers. O delegado Hudson Queiroz lhe deu uns sopapos e ameaçou matá-lo. Os demais preferiram processos por calúnia, com pedidos de indenização em dinheiro.
MANEZINHO
Amilton Alexandre era nativo, descendente dos colonizadores açorianos. O pai, seu Amadeu, tinha índole mansa. Criou quatro filhos consertando refrigeradores. Mosquito, agitado desde pequeno, foi o primeiro dos Alexandre com diploma universitário. Fez Administração na UFSC.
Em 1979, no episódio conhecido por “Novembrada”, virou herói dos manezinhos: imagens dele liderando a passeata de estudantes de Floripa contra a ditadura militar apareceram no Jornal Nacional.
Ele e mais seis foram presos pela Polícia Federal. Dez dias de cana, um ano de processo na Auditoria Militar de Curitiba e a apoteótica absolvição dos sete estudantes catarinenses o transformaram numa celebridade local.
No episódio, o papel dele foi de mero agitador, sob ordens dos comunistas do Partidão.  Um dirigente queria sua participação reexaminada por psicólogos. Alguns companheiros o acusaram de ter colaborado com a polícia, mas o ex-senador Nelson Wedekin, advogado no histórico processo, garante que não.
mosquito2
A redemocratização tirou um pouco do brilho popular dele. Magrinho e elétrico na juventude, daí o “Mosquito”, virou obeso na vida adulta. Conseguiu seu primeiro emprego público na prefeitura do PMDB, gestão Edson Andrino. Cuidava de um projeto de cinema na periferia, com expediente nos findis – fosse outro, na certa seria chamado de funcionário fantasma pelo blog Tijoladas.
FAVORECIDO
Em 1987 Mosquito obteve do então senador Jaison Barreto (do Partidão, no PMDB) uma ajudinha pra comprar uma casa de três andares no Centro Histórico.
A bancada do PMDB-SC em Brasília intermediou o pedido à Caixa de financiamento habitacional fora das regras para o herói da luta contra a ditadura. Foi maracutaia. Fosse outro o beneficiado e teria levado uma tijolada daquelas.
Com o dinheiro Mosquito montou o bar Havana – point dos anos 80 e 90 com pouca política, boa música, excelentes feijoadas e carnavais memoráveis. Lá, rompeu com os amigos do PMDB.
O diploma de administrador não lhe serviu para muita coisa. Todos os negócios em que se meteu fracassaram. Transformou a casa da Caixa num sebo de livros. Depois restaurante, loja de informática, mais tarde em loja temática do time do Avaí – no fim, era só um cafofo para as namoradas.
Bolava promoções avançadas demais para Floripa, como vender computadores na feira livre. Fazia bicos. Durante eleições usava as suas capacidades de agitador profissional – chegava nas cidades do interior antes dos candidatos, armava o palanque e esquentava o eleitorado.
Ele era um solteirão convicto. Seu relacionamento mais duradouro foi com Elaine, 17 anos mais nova. Em 2000, tiveram Júlia. Ele sumiu por seis meses, até reaparecer e se dizer pronto para uma família.
Não estava. Sumiu de novo. Foi e voltou por 11 anos. Elaine disse que era louca por ele, mas que não poderia esperar tanto tempo. Meses antes de morrer, Mosquito pedia para juntarem os trapinhos outra vez. Aí ela não quis mais: “Não era homem para família, gostava de viver isolado”.
Ela conta que os dois se mantiveram bons amigos a vida toda. “Mosquito era generoso, quando tinha, tudo era de todos”. Não pagava a pensão de Júlia, mas a mãe não cobrava “porque ele mal podia se sustentar”. Os três almoçavam juntos quase todos os domingos na casa de Palhoça.
NEOPETISTA
Quando começou a Era Lula, Mosquito se filiou ao PT. O Havana já não existia mais. Vapt vupt e ele passou seis meses no Nordeste. Tinha avisado aos amigos que trabalharia num dos novos governos petistas – mas voltou de lá duro, desempregado e mais gordo, quase 130 quilos para 1m78.
Começou então a cavar embaixo dos pés: durante o caso do Mensalão foi num debate com José Dirceu na Assembleia Legislativa/SC e botou a boca nele. O PT viu no neopetista o mesmo Mosquito errático dos tempos do PMDB.
Endividado, vendeu a casa da Caixa. No Kibelândia, adotado como segundo lar, anunciou planos grandiosos com a grana. Iria abrir um jornal em Palhoça. Primeiro passo: comprou na cidade a casa onde morreria.
Ele disse que o plano furou porque os vizinhos do condomínio seriam uns “burgueses egoístas” – isto por não apoiarem seu natimorto jornal.
Logo o dinheiro acabou. De volta ao ócio no Kibelândia, pediu emprego ao PT, então já coligado com o PMDB. Ganhou um, para fiscalizar o programa Luz Para Todos, numa empresa terceirizada pela estatal Eletrosul – se fosse um adversário o beneficiado com o emprego teria sido chamado de aproveitador pelo blog.
Ali ele deu uma tijolada no próprio pé. Denunciou maracutaia na Eletrosul. Como ainda não tinha o blog, enviou para jornais um dossiê com fotos de propriedades rurais de dirigentes do PMDB que supostamente estariam se beneficiando de ligações de energia ilegais. Batendo no aliado, mordeu a mão dos petistas que o nomearam.
Ele foi demitido da Eletrosul. Estava convencido que sua cabeça foi pedida pela então senadora Ideli Salvatti. Recorreu à Justiça do Trabalho para reintegração, dizendo-se perseguido político “por ter feito a coisa certa”.
O juiz trabalhista mandou as denúncias de corrupção para o Ministério Público apurar, mas deram em nada. Mosquito levou só uma indenização de R$ 30 mil. Ele achou pouco e por isto brigou feio com a advogada, fechando uma era: Rosângela “Lelê” de Souza era amiga da primeira hora, uma dos sete da Novembrada.
Fora da Eletrosul e da política, recolheu-se de vez ao Kibelândia. Foi ali, no final de 2008, que ele criou seu Tijoladas. Se achou. E se fechou: “Vinha visitar a mãe e não saia da droga do notebook”, diz o irmão Ênio, eletricista. “Não via mais nada, só aquele blog”.
IRREVERENTE
Mosquito adorava o papel de jornalista blogueiro que criara para si mesmo. De sorriso aberto, gestos largos e em voz alta, dominava os ambientes recontando as tijoladas que dava e as que daria nos ‘inimigos’ – seu discurso público era do tipo “quem não está comigo está contra mim”.
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Uma das primeira tijoladas foi sucesso de audiência no blog e reproduzida pela mídia tradicional. Mosquito postou o vídeo da desembargadora Rejane Anderson, do TJSC, gravado por um policial de trânsito. Ela aparecia dando carteiraço para evitar que o carro do filho fosse apreendido.
Os advogados dele acreditam que ali ele fez inimigos poderosos no Judiciário: “As ações contra Mosquito tramitavam mais rápido do que as outras”, garante Edson Silva Jardim, que vê no cliente um herói.
Mosquito bateu tanto em Ideli Salvatti que ela conseguiu uma ordem judicial para impedir que ele citasse seu nome. A mesma decisão ordenou ao Google que suprimisse tudo dele.
Aí ele foi para cima do vereador Marcos Souza, aliado de Ideli. Negro, brindado com o clássico “não faz na entrada faz na saída”. E disparou a tijolada mentirosa de que Souza empregava filha e genro em seu gabinete na Câmara de Floripa.
“Eu o conhecia desde os oito anos e por isso nunca lhe respondi. Ele era um provocador, desbocado e racista. Para crescer, precisava de alguém para bater”, disse o vereador. Souza ganhou na Justiça e Mosquito fez acordo para um pedido público de desculpas – mas morreu antes de se retratar.
Ele também bateu pesado no ex-governador Leonal Pavan. Denunciado pelo MP às vésperas de tentar reeleição em 2010, desistiu da candidatura. No dia em que Mosquito morreu, Pavan obteve uma vitória tardia: a Justiça rejeitou as denúncias.
Quem ele pegou para Cristo foi o empresário Fernando Marcondes de Mattos, do Costão do Santinho. Mattos foi preso pela PF na Operação Moeda Verde, acusado de subornar vereadores e órgãos ambientais para favorecer seu hotel.
Mosquito só chamava o empresário de “meliante”. Processado, pegou dois anos de cadeia por difamação – pena substituída por serviços comunitários.
A juíza admitiu que Mattos poderia ser condenado. Mas isto não daria a ninguém “o direito de se arvorar em salvador da pátria”. Ela sentenciou: “O blogueiro confunde liberdade de expressão com ofender a honra alheia”.
PERSEGUIDO
Mosquito fez a mesma coisa com o prefeito de Florianópolis Dário Berger. Cheio de processos, mas sem nunca ter sido condenado, Berger se considerava ficha limpa. Os dois se enfrentaram na Justiça.
Audiência, 18 dias antes da morte: juíza, promotor e advogado viram o blogueiro no banco dos réus quase prostrado. Respirava com dificuldades depois de sobreviver a quatro enfartes. Estava pressionado pela condenação anterior, financeiramente quebrado, com o blog esfacelado por hackers.
O queixoso viu ali uma oportunidade de ouro para dobrar seu algoz. Aí lhe perguntaram candidamente se ele confirmava as afirmações contidas no blog de que o senhor prefeito era corrupto. O velho Mosquito voltou lá do fundo como um vulcão. Apontou o dedo para o rosto de Dário Berger, manteve o escrito e ainda berrou: “Corrupto”!
Bafafá na sala de audiências. Mosquito foi preso na hora. Pagou fiança e saiu gritando da audiência, dizendo-se vítima de um complô legal. Seria “retaliação pelo que publico” – seus advogados ajudaram na piração descrevendo a cena como prova de que o Judiciário era contra ele.
O ponto alto da carreira de Mosquito foi uma baixaria e uma maldade. Ele jogou no blog todos os detalhes sórdidos de um estupro cometido por dois adolescentes de Floripa – naquele dia obteve 75 mil acessos e se tornou ícone do jornalismo blogueiro independente.
O Tijoladas escancarou o nome dos estupradores, entre eles o filho de um dos donos da RBS, e o da vítima, afrontado a lei que protege menores.
No episódio da RBS Mosquito ganhou o apoio do programa Domingo Espetacular da Rede Record. O jornalista Paulo Henrique ficou alguns dias no Kibelândia para repercutir as denúncias dele contra a afiliada da Globo. Elogiava seu entrevistado como “um Quixote” – Mosquito se sentia supervalorizado e ia mais fundo na briga dos cachorros grandes.
SONHADOR
Em algum momento Mosquito acreditou que seria convidado para ser diretor da Rede Record no Espírito Santo. Estaria na etapa de discutir salários e a contratação de duas secretárias, tudo testemunhado por dona Cristina, garçonete do Kibe. Até que ele confidenciou ao compadre João Vianney ter demorado demais para acertar. Lamentou-se: “Perdi a chance”.
Em 2010 ele entrou noutra briga sonhando grande. Estudantes x polícia, no protesto contra o aumento de passagens de ônibus. Mosquito correu para o terminal e quis assumir a liderança do movimento.
Seria uma novembrada em maio. Os estudantes não entenderam nada. Então enxotaram do caixote aquele velhinho agitador, barbudo, gordo e careca – muitos nem sabiam quem era. Ele se achava vereador sem mandato, já sondava o PSOL para concorrer este ano.
Para se sustentar Mosquito passou a vender camisetas do Tijoladas. Ficava furioso quando os amigos não compravam. Achava que era obrigação deles manter a “mídia alternativa democrática” e ajudá-lo na luta contra a “corrup-i-ção”, como dizia com seu sotaque ilhéu.
“Menos”, diz o ex-presidente da Fenaj Sérgio Murillo de Andrade, amigo dele por 30 anos. “Mosquito não era jornalista, foi só um agitador”.
Ele passou então a viver de achaques. Aos amigos pedia que lhe pagassem contas de luz, telefone, o rango no bar. Às vezes, não tinha nem o dinheiro da passagem para Palhoça – mas, teimoso, recusava-se a vender a casa.
Queixou-se uma vez que “o blog fez sucesso, ficou famoso, e eu ia levando, sem lastro econômico, minhas roupas acabando”.
Um certo Jairo Viana postou na internet o extrato da dependência dele em 2011: “…pude dar a ele uma cordinha de varal, grampos pra varal, comprei uma camiseta e paguei uma diária de hotel quando ele esteve em Criciúma. Dias depois depositei uns créditos no telefone dele”.  E Viana ainda ficou feliz de ter ajudado aquele “maluco beleza que queria reformar o mundo”.
ATOLADO
Aqui vão trechos da última correspondência de Mosquito com um amigo, onde admitiu que “a ficha demorou a cair… outro dia fui ver e tinha passado meses com 500 pila (reais)”. Logo ele descobriu o que todo mundo sabe: “Não dava para viver apenas pagando água, luz e comida”.
No fim: “Sou um cara que atolou o pé na lama e não sabe como sair”. A turma de fofoqueiros que o conhecia do bar espalhou que o atolado estava sendo sustentado pelo deputado federal Esperidião Amin (PP). Parecia verdade porque Mosquito já tinha declarado voto nele para prefeito.
“Nunca lhe dei um tostão”, disse Amin. “Me deve três úlceras que deu na minha mulher (a ex-prefeita Ângela) de tanto bater por causa dos ônibus”.
No Kibelândia, passou a ser levemente hostilizado. O psiquiatra Heitor Bráulio de Freitas, que bebe por lá todos os dias, disse que viu nele o perfil suicida: “O ego dele era grande demais, não poderia viver sem o blog”.
Desesperado em busca de emprego pediu ao compadre para trabalhar como consultor de educação à distância, mas ouviu um não: “Ele nunca tinha feito isto. As tijoladas assustavam todo mundo e ninguém o empregaria”.
Mosquito então apelou para o amigaço de infância Paulinho Carreirão, sócio da Brognoli PrestServ, a maior do ramo na cidade. Ele não lhe faltou. Ofereceu vaga de pintor de paredes ou fiscal de obras, oferta rejeitada.
ENCURRALADO
Mosquito anunciou o fim da carreira em 9 de dezembro. Fechou o blog e deletou suas 1298 postagens: “Não tenho mais como enfrentar as ameaças e retaliações pelo que publico” – fiel ao personagem vítima de poderosos.
Em seguida, num gesto teatral, destruiu o HD do laptop a marretadas, sumindo com as “provas de corrupção de vários casos” – quem viu sabe que era uma pilha de recortes digitalizados, alguns documentos apócrifos e sua coleção particular de fofocas recolhidas no Kibelândia.
Quatro dias depois ele estava morto. Por todos os relatos de amigos ele se sentia sem perspectivas. “Mosquito parecia transtornado quando o encontrei na quarta (7 de dezembro) na esquina da rua Osmar Cunha”, conta a amigaTatiana Lino, dona do café Trajano. “Conversamos bastante, tentei acalmá-lo, mas ele se despediu de mim dizendo que iria se suicidar”.
Na manhã do sábado, 10 de dezembro, ele iniciou a jornada sem volta. Encheu a banheira no andar superior de casa e tentou afogar-se nela.
Às 16h, chorando, chamou a ex-mulher. No telefonema de uma hora explicou para Elaine que fracassou “por covardia”.
Ele avisou que tentaria se matar com outro método. Mosquito ainda disse para Elaine ter destruído o HD do computador com o qual erguera seu reino de quase 1200 dias na internet.
Aquele telefonema choroso era o lado do Mosquito que poucos conheciam. Elaine fez o de sempre nas deprês dele: ouviu, confortou, incentivou. No fim do papo, desligou o telefone: “Achei que seria como das outras vezes”.
A menina também falou com ele. Apesar da pouca idade, deu conselho de gente grande: “Pai, sai dessa, parte pra outra”.
TRAÍDO
Mas, Mosquito estava sem perspectivas. “Ele fez muitas escolhas erradas na vida, inclusive a última”, analisa o ex-senador Wedekin, decepcionado com o cliente que tanto ajudou.
O professor Fontana vê uma trágica coerência na trajetória dele. Em gravação de 50 minutos do jovem estudante para o livro Novembrada, em 1980, recolheu a bravata de que Mosquito nunca iria “integrar-se ou entregar-se” ao sistema: “Foi se inviabilizando como pessoa, mas atacava alguns caras que mereciam. Fez mais bem do que mal à sociedade”.
Mosquito tentou explicar suas atividades num dos últimos posts. Eram quase como abraçar o mundo com as pernas: “O blog foi construído com o objetivo de denunciar corrupção, tratar de assuntos ligados à cidadania e versar sobre os mais diversos temas da blogosfera”.  E postou sua prestação de contas: “Contribui para tentar sanear a política catarinense”.
De Brasília, o poeta Emanuel Medeiros Vieira botou o cara nas alturas. Eis trechos de “Mosquitadas”, para “os amigos dos sonhos de antigamente”, criticando o sistema – sistema que teria provocado a morte dele:
Em silêncio, eu sei, muitos se rejubilam com a tua morte.
Eram inimigos fortíssimos, de vários matizes – fortes não pelo humanismo (são carecedores dele), mas pelo poder mesquinho e pela pecúnia.

Mais do que os processos, a falta de dinheiro, era insuportável enxergar quase todos fechados em si mesmos, a mídia imbecilizante, o egoísmo velhaco, o mundo dirigido pelos financistas, o país dos nossos sonhos na lata de lixo.
CARENTE
Cacau Menezes, colunista mais popular do Estado, escreveu no Diário Catarinense que reconhecia o direito dele de se indignar com tudo e todos.
Os dois foram amigos na juventude, mas adversários na web. Ele viu Mosquito dizendo “coisas que a grande mídia não tem coragem… mídia e política estão cada vez mais juntos no que eles querem”.
O colunista deu a entender que Mosquito cometeu suicídio como sua última tijolada, de um jeito que deixaria os desafetos como suspeitos de crime – crime que não aconteceu, de acordo com o perito policial Milton Silva, autor do laudo de suicídio.
As dúvidas surgiram porque vizinhos invadiram a cena antes da chegada da polícia, logo depois que o padre Elizandro descobriu o corpo. A simples presença do padre na casa do ateu confesso já provocara especulações entre os que acreditavam em assassinato.
O padre chegou lá por acaso. Um amigo comum, o blogueiro religioso Nahor Lopes, distante 100 km, pediu para Elizandro, da paróquia do Aririu, a dois quilômetros da Pedra Branca, para dar uma checada em Mosquito, já quando ele não atendia mais o telefone nem emails.
Depois do susto de ver Mosquito morto o padre correu para a rua pedindo socorro aos vizinhos. Um psicólogo e um funcionário da Brasil Telecom que consertava fones no pedaço entraram na casa. Deram uma de CSI. Notaram que um dos pés do morto estava no chão. Foi o psicólogo que espalhou na vizinhança a teoria do assassinato.
Depois deles, um delegado aposentado da polícia gaúcha deu seu pitaco: “O lençol estava amarrado como quem tem caxumba, apenas no queixo”, portanto, seria crime. Mais: “A panturrilha esquerda dele tocava num banquinho, se fosse suicídio teria esperneado e o derrubaria”. Segundo a perícia, as teorias do psicólogo e do delegado são furadas.
SEM SAÍDA
Antes de morrer, Mosquito também falou com o irmão. Ênio fez mais do que Elaine: o convidou para voltar à casa da mãe, onde nada lhe faltaria: “A gente tinha diferenças, mas eu o amava”, disse, com os olhos marejados, sentindo-se culpado por não ter notado que daquela vez era sério.
Os últimos contatos dele foram com o blogueiro Canga. Pediu emprego, numa mensagem desesperada. Queria que o amigo encontrasse a oportunidade entre gente que ele teria ajudado com suas tijoladas, a quem “nunca pedira nada em troca” – enfim o blog apresentava sua fatura.
Canga não tem dúvida de que o amigo se suicidou. Levou sua opinião ao delegado Attilio Guaspari – encarregado do inquérito e autor da singular tese de suicídio porque o homem estava muito pesado: “Precisamos de cinco para baixá-lo do lençol, logo, teriam que ser cinco ou mais para pendurá-lo”.
Depois que a polícia retirou o corpo da casa dona Elaine foi lá e queimou os arquivos do blog. “Ele era muito organizado com papéis, tinha até o manual de uma batedeira que não existia mais”.
Num momento de ternura e fraqueza, ela balança a cabeça e tenta negar o suicídio. Pergunta ao repórter se não teria sido possível alguém ter forçado Mosquito a se matar mediante ameaças à filha – ela lembra que meses atrás a menina foi seguida por um desconhecido que se dizia fotógrafo.
Ela mesma responde “possível, mas improvável”. Elaine pareceu levemente paranoica com a segurança da filha: “Tenho medo que alguém queira vingar-se nela”.
Elaine não quer mais voltar na rua Maracanãs. Deu o dog Ventania para uma amiga e botou a casa para alugar na Imobiliária Brognoli.
Amilton Alexandre foi sepultado no cemitério do Itacorubi. E ali deu a prova definitiva de nunca ter se integrado no sistema: os amigos tiveram que fazer uma vaquinha pelos R$ 2.600 devidos à funerária São Joaquim.
Um videomaker gravou o enterro para um documentário. O corpo do filho inquieto foi entregue ao infinito na mesma carneira do pacato seu Amadeu.
A viúva e a filha jogaram flores na cova. Amigos fizeram discursos emocionados. A última a falar foi Lelê, enfim reconciliada. Ela o descreveu como sendo “do bem”.
E alguém fez a homenagem símbolo do personagem: jogou um tijolo no caixão.

Farda nunca mais

Por Renan Antunes de Oliveira |
Ele era um pracinha que amava a banda Restart e usava calças coloridas como as dos ídolos, mas pro pelotão dele seu gosto é coisa gay. Durou três meses no quartel, até o estupro na frente de 14 colegas – nenhum o ajudou. IPM sob medida recomenda expulsá-lo do Exército.
O pracinha gaúcho de iniciais DPK, 19, enfrenta o Exército na Justiça Militar. Ele tem poucas chances de ganhar, mas pelo menos honra a tradição de luta do uniforme verde-oliva.
DPK está ameaçado de pegar cadeia depois de denunciar ter sido estuprado no quartel por quatro dos 19 colegas de alojamento – os demais disseram que não viram nada acontecer.
“Eu fui violentado e quero Justiça”, afirma DPK, 120 dias depois do incidente, acontecido em 17 de maio no quartel do Parque de Manutenção do 3º Exército, em Santa Maria (RS). Um inquérito policial militar (IPM) concluiu que foi sexo consensual. O caso corre em segredo na 3ª Auditoria Militar.
A ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário mandou o ouvidor nacional de DH Domingos Silveira investigar o IPM. Ela quer “verificar a situação desta violência que está sendo tratada com tamanho desrespeito”.
Durante entrevista no sábado 17, o soldado afirmou que enfrentará a acusação no tribunal. Ele disse que o Exército convenceu seus quatro agressores a mentirem no IPM, oferecendo para eles penas menores em troca de acusá-lo de homossexualismo – o objetivo seria isentar a instituição da responsabilidade sobre o suposto estupro.
Pelo relato, seu pesadelo começou quando se apagaram as luzes do alojamento do 3º Pelotão, às 10 da noite: “Eu fui atacado de surpresa pelos quatro e não tive como reagir”. Um quinto soldado ficou vigiando a porta e, nos beliches, outros 14 assistiram tudo e nada fizeram.
O soldado revive o drama numa sala também lotada, por advogados, amigos e familiares, inclusive uma prima adolescente. Olha para o chão e continua: “Eles me jogaram de bruços na cama e taparam minha boca pra não gritar”. Exames de DNA comprovaram que três dos quatro acusados o penetraram.
Dia 15, o Ministério Público Militar (MPM) acatou a versão do IPM, denunciando DPK e os demais envolvidos pelo crime de “pederastia e outros atos libidinosos”, artigo 235 do Código Penal Militar, passível de um ano de cadeia e expulsão (no CPM só existe estupro se for entre pessoas de sexos diferentes). A turma dos beliches escapou.
O Exército jogou pesado contra DPK durante o IPM. Oficiais, sob a condição de anonimato, foram revelando aos poucos para jornalistas partes escolhidas do inquérito sigiloso, difamando o jovem como homossexual, aidético, suicida e mentiroso.
Na versão militar, DPK teria inventado a violação para obter indenização financeira. Toda argumentação do IPM tem base nos testemunhos dos recrutas acusados. Ficou a palavra de um contra quatro. DPK passou de vítima a réu.
Dona Ester, 40 anos, mãe do soldado, comanda a defesa dele e partiu para o ataque. Quer responsabilizar o Exército e pedir indenização. Ela contesta a tese central do IPM: “Meu filho não é gay, nunca tentou o suicídio, nem é aidético” – neste caso, exames deram negativos.
Ela afirma que o resultado do IPM teria sido manipulado porque foi antecipado em 70 dias pelo general comandante da guarnição de Santa Maria: “Os militares fizeram uma campanha de mentiras para condenar meu filho” (os citados nesta reportagem foram procurados, mas o único a falar foi o comandante).
A mãe do soldado disse que DPK se queixava de assédio no pelotão desde fevereiro, quando foi ao quartel pela primeira vez usando calça justa e colorida, à moda da banda Restart, a favorita dele.
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Segundo o IPM, 20 soldados estavam no alojamento na hora do incidente, contando com DPK. Um ficou de sentinela. Os quatro acusados pelo ataque encostaram três beliches, improvisando a cama onde deitariam DPK. A sessão de sexo durou 30 minutos.
Os outros 14 recrutas, interrogados pelo capitão Newmar Schmidt, disseram não ter visto nem ataque nem orgia. “Muitos viram e nenhum me ajudou”, insiste DPK. “Durante três meses os carinhas do pelotão fizeram piadas, passavam a mão na minha bunda, mas nunca pensei que chegariam a tanto”, relembra. Ele acha que o assédio começou mesmo por causa do figurino Restart. “O pessoal aqui diz que minha roupa é coisa de gay”.
Peritos encontraram esperma dos soldados JS, JPR e VRS nas ceroulas de DPK (os nomes completos não podem ser citados por causa do segredo de Justiça).
O último a ser ouvido no inquérito foi DPK. Ele manteve que foi violentado. No interrogatório, Schmidt perguntou se para subjugá-lo os supostos agressores usaram “correntes, cordas, fios de luz ou de nylon”? Resposta: não. Para intimidá-lo, se usaram “baioneta, faca, pistola, revólver, fuzil, escopeta, metralhadora”? Resposta: não.
O capitão relata nos autos um exame feito pelo enfermeiro do hospital da guarnição, que levantou as cobertas e deu uma olhada no traseiro do soldado. A conclusão deste perito: “Seu corpo não exibe marcas compatíveis com a resistência que teria oferecido”. Exames independentes feitos pela família não foram aceitos pelo IPM.
Juntando os nãos, a ausência de marcas no corpo e a confissão dos acusados por DPK, o IPM fechou redondo na tese da orgia gay.

Foi brincadeira de rapazes, diz general
“Houve crime, mas não foi estupro”, disse em entrevista na segunda-feira o general Sérgio Etchegoyen, comandante da 3ª Divisão do Exército, em Santa Maria. “O IPM foi conduzido de forma isenta pelo oficial encarregado”.

Uma versão completa do incidente já tinha sido dada pelo general em sigilo aos deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha, em sete de julho. Lá, ele disse que tudo fora “uma espécie de luta corporal de brincadeira entre os rapazes”. Etchegoyen disse ainda que apenas “constatou-se lesão leve no ânus do soldado DPK, o que por si só não comprova o alegado estupro” – falava 50 dias depois do ocorrido, antecipando em 70 o resultado do IPM.
O depoimento foi distribuído aos jornais por um deputado petista. A revelação enfureceu o general. Na segunda, por telefone, ele lamentou que “um tema tão sórdido tenha sido levado a público pelo deputado. Ele diz o que quer porque tem imunidade, mas eu tenho um compromisso com a privacidade com meus subordinados”.
Na batalha pela mídia, tudo já indicava que DPK seria transformado em réu no IPM. A boataria na cidade cresceu tanto que em 29 de agosto, duas semanas antes da conclusão do inquérito, o MPM divulgou uma nota preventiva, isentando o Exército das acusações de tentar “abafar o caso ou descaracterizá-lo”.
O promotor Jorge César de Assis, o mesmo que depois aceitou a denúncia, afirmou que “… as Forças Armadas estão entre as instituições que detém a maior credibilidade perante a opinião pública” e que “não há nenhum indício de que estejam fazendo isto” (abafando ou descaracterizando).
A escaramuça do hospital
Depois do ataque, DPK não quis mais sair da cama. No dia seguinte, quarta 18 de maio, um sargento estranha sua apatia e logo descobre tudo, alertando superiores. O soldado é internado no hospital da guarnição, onde seria periciado pelo tal enfermeiro. Um aspirante a oficial anota que ele parecia deprimido e suicida, receitando antidepressivos.
Um recruta do mesmo pelotão é destacado para vigiá-lo no leito, mas piora as coisas porque o ameaça: “Se falar, você vai se ferrar”.
Dia 19 de maio. DPK liga pra mãe, mas não conta nada: “Eu tive vergonha”. No quinto dia, 22 de maio, a mãe ouve boatos de um estupro no quartel. Num palpite, ela manda o marido apurar – a fama do quartel é ruim desde 2006, quando dois soldados foram expulsos por violentar um terceiro na padaria da guarnição.
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Seu Luiz encontra o filho escondido sob cobertores, com as mãos no rosto. Chorando, DPK conta tudo pro pai. Dona Ester se materializa no hospital. Em modo de combate ao lado do filho, interroga todos que vê pela frente. O subtenente Jorge Bernardes faz o papel de assistente social. Ele explica candidamente aos pais que “o menino participou da ‘cerimônia do sabonete’ durante o banho. Caiu, quem se abaixa para juntar já era”. E que não tinha dúvidas: “O filho de vocês é gay”.
Dona Ester diz uns palavrões para Bernardes, acampa no quarto do filho e expulsa de lá o sentinela. Os militares tentam tirá-la do quartel, mas ela se recusa a sair. O general Etchegoyen oferece transferir DPK para o QG, promete que lá seria tratado como filho por oficiais mais velhos. Dona Ester também não aceita. O general disse que cedeu às exigências dela porque “era compreensível o sentimento de mãe”.
No último dia dele no hospital, 25 de maio, um capitão aparece com ordens para transferi-lo em carro oficial e fardado para outra unidade militar. Dona Ester bate pé: “Daqui ele só sai comigo e vai para casa”. Ela ganhou de novo. Licenciado, sempre recebendo o soldo de R$ 473 mensais, o filho está desde então na casa dos pais.

De volta pra casa

E como vai indo o soldado DPK?”Tô maus, mas vou levando, vou superar”.Na entrevista ele vestia calça justa, tênis Nike e jaqueta escura – nada colorido. Seu cabelo é o moicano estilizado da hora. Magro, 1m80, pele bem morena, apesar do sobrenome e sangue de imigrantes alemães. O soldado fala baixo, com voz grave. Tem um tique nervoso que o faz jogar os lábios muito pra frente ao falar, fazendo biquinho.Seus melhores amigos são as irmãs de 9 e 7 anos. A mãe conta que ele ainda brinca com elas de esconde-esconde.
E Samuel, com quem vai ao culto da Igreja Quadrangular nas quartas.Na sala lotada, DPK se vê forçado a responder se é gay ou não – mesmo que quisesse sair do armário seria difícil, ainda mais com a curiosa prima adolescente refestelada numa poltrona.Ele demora segundos. Todos na sala com respiração suspensa. Mas a voz grave e firme vem do biquinho: “Sou hétero”. Ao lado dele, o pai relaxa os ombros, parecendo respirar aliviado.”Meu filho não é gay” atesta dona Ester, percebendo que a tese do homossexualismo é central na disputa jurídica. Ela ainda desafia: “E se fosse? Poderia ter sido estuprado?”.
Os advogados dele querem provar que o soldado é retardado mental e que o Exército falhou em perceber isto nos exames de ingresso. Se for declarado incapaz, voltará a ser considerado vítima de violação.
A mãe concorda. Ele ouve ser chamado de retardado e nem pisca. O pai ajuda: “Meu filho nunca conseguiu ser aprovado na escola depois da 5ª série do primeiro grau”.
Pais e advogados desencavaram pareceres de professores, laudos de exames neurológicos e testes psicológicos extras do menino lá na escola primária. Um psiquiatra de Santa Maria atestou retardamento e déficit de atenção por hiperatividade.
O pai quer que o drama termine logo para mudar-se da cidade e fugir do escândalo.
DPK revela o sonho que tinha de permanecer no Exército depois do serviço obrigatório, mas sabe que agora não será mais possível.
A mãe fecha o papo: “Esta farda você não veste mais”.

Jovens, pobres e malditos

Por Renan Antunes de Oliveira |

Com Ana Lúcia Mohr, Carlos Matsubara, Daniela de Bem e Paula Bianchi
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ona Suzana disse que o neto avisou um dia antes de morrer que todos os problemas acabariam no feriado do Dia do Trabalho: “Acho que ele sabia o que aconteceria”, conta ela, sem derrubar uma lágrima sequer pelo menino que criou.
Maicon morreu mesmo no dia anunciado, primeiro de maio. Sexta, perto das duas da tarde. Sua morte virou notícia destacada na Zero Hora do sábado 2, véspera do dia em que faria 19 anos. O texto da reportagem reproduzia as informações oficiais do b-ó , como se diz para “boletim de ocorrência”, o registro obrigatório de incidentes policiais.
Resumo: “Um jovem e uma adolescente morreram durante perseguição na Cidade Baixa. A dupla bateu num ônibus quando tentava fugir de motociclistas da Brigada Militar (a PM gaúcha) numa moto roubada”.
O jovem era Maicon Gerônimo Cruz Teixeira de Ávila, lavador de carros, jornaleiro, pé rapado. A adolescente, Fabiana Bitencourt, 17 anos, de Livramento, filha de uruguaios. Faxineira, de mãe faxineira, neta de faxineira, grávida de quatro meses.
Os perseguidores eram dois PMs do 9º Batalhão, de Porto Alegre. Quando iniciaram a perseguição eles ainda não sabiam que a moto era roubada e muito menos que Maicon tivesse o que a Polícia Civil depois divulgaria como sendo uma “extensa ficha criminal”.
Foi um alívio para os PMs a revelação da ficha. Sem ela, eles teriam de alguma forma provocado a morte de dois inocentes – a conta fica em apenas um inocente porque Fabiana tinha 17 e ficha limpa. Ela (foto abaixo) estava na carona na hora errada: é provável que não tenha tido tempo de descer.
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A imediata revelação da ficha de Maicon pela polícia não o torna um criminoso, como parece. Tratavam-se de infrações cometidas quando menor de idade – portanto, deveriam ter sido mantidas com o sigilo determinado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
Por que perseguir até a morte dois suspeitos ? As ações da Brigada foram corretas? Para responder estas perguntas a Polícia Civil abriu o inquérito de praxe. Se foi rápida na cortesia profissional de revelar a ficha criminal do guri, está lenta em apurar sua morte: passados 40 dias o inquérito ainda estava parado.
A única versão do incidente é a da Brigada Militar. Por ela, os soldados Junior Rabelo e Kenni tentaram abordar Maicon na esquina da avenida Borges com a Riachuelo, no Centro da capital. Maicon dirigia uma Honda Twister amarela 250 cilindradas, com Fabiana na garupa. Os PMs usavam motos menos potentes, duas Yamaha 225 cilindradas.
Os PMs alegam que notaram que a placa da Honda estava dobrada, coisa que fazem criminosos para impedir a identificação das roubadas – embora a maioria não o faça porque ao dobrá-la apenas levanta suspeitas mais facilmente.
Os soldados afirmam que quando deram ao motoqueiro “voz de abordagem” – seja lá o que for este comando verbal – Maicon teria arrancado em disparada.
Não se sabe qual dos PMs chamou o número 190 para verificar se a placa era de um veículo roubado, mesmo porque a tal placa estaria dobrada. Nem quando eles chamaram: se antes da abordagem ou depois que a moto disparou. O fato: quando Maicon arrancou, os PMs saíram atrás no pega pega.
“A Brigada existe para coibir delitos”, justificou o major Gelson Guarda, do 9º BPM, que minutos mais tarde seria acionado por rádio e também participaria da caçada mortal. “Se há um delito em andamento, e no caso era uma moto roubada, é obrigação da PM tentar restituir o bem para seu dono. E quem foge, é porque tem algo errado, é porque teme”.
O jornal Diário Gaúcho relata o incidente exibindo uma ilustração com um PM de arma na mão no momento da abordagem – se tal arma foi sacada, já daria motivo para qualquer um fugir, culpado ou inocente. Só no ano passado, 168 pessoas se queixaram à Corregedoria da Brigada de abordagens violentas de PMs contra jovens pobres na periferia.
O major Gelson não vê importância na forma da abordagem: “A perseguição foi uma operação policial tecnicamente perfeita”. Ele disse que “várias viaturas espalhadas pelo centro foram acionadas para “acompanhamento” – por alguma razão, o major não queria que a reportagem usasse a palavra “perseguição”.
Mais do major Gelson: “Não tem como perseguir de outra forma, não há como fazer alguém que está fugindo da polícia parar, a não ser atirando, derrubando da moto, e isso nós não fizemos. A gente não atira, não derruba”. Na tese dele, “Maicon provocou a própria morte e a da menina na garupa”.
A perseguição que começou perto das duas da tarde na Borges acabou quase 15 minutos depois na esquina da José do Patrocínio com Joaquim Nabuco. A moto bateu num ônibus da linha Cruzeiro.
O motorista Otoniel Araújo conta que estava saindo da parada, na segunda marcha, quando ouviu o estrondo: “Eu nem quis saber e nem quero saber quem era o menino. Ele tinha roubado a moto. Então morreu alguém que só fazia mal para os outros” – como fica óbvio, Otoniel não teve nenhuma problema de consciência porque deu entrevista depois de ser informado pela polícia que Maicon seria do mal.
Maicon morreu na hora. Fabiana foi socorrida pelos PMs que a perseguiam. Recolhida pelo SAMU, foi levada pro HPS, inconsciente desde a queda. Morreu às 16h05, com fraturas na coluna cervical e na bacia. Os médicos constataram gravidez e a morte do feto.
Aos médicos, a polícia, ainda sem identificar Fabiana, disse que a adolescente seria uma mulher assaltante. Uma assistente social do HPS repassou a informação à família de Fabiana. A mãe protestou, reclamando mais da insensibilidade do que da acusação falsa, mas a assistente firmou posição pró-polícia: “Tem mãe que é cega”.
A moto foi mesmo roubada. Na noite de 28 de abril, em Ipanema. “Eu a comprei para minha filha”, diz o dono, o barbeiro Arno Manfroi, 62 anos. “Dois homens a renderam quando ela chegava da faculdade” – o capacete da filha foi encontrado com Maicon.
O barbeiro contou que por três dias chegou “a desejar a morte dos ladrões, mas quando soube do acidente fiquei com pena”. Uma moto vale duas vidas ? Seu Arno pensa um pouco. Em seguida, reage indignado: “Pensando bem, a gente não pode ter pena. Fiquei com 18 prestações para pagar, quase 12 mil”.
Um pouco de Maicon e Fabiana, além do boletim de ocorrência
Maicon era filho do romance de dois adolescentes. Pai e mãe não viveram juntos, nem com ele. Foi criado pela avó materna num bairro barra pesada.
No geral era um cara pra cima, mas nos últimos tempos andava com o papo de ser amaldiçoado e que iria morrer cedo.
Seus azares começaram quando largou o colégio na sexta série. Na era da Internet, ele só era bom em cuidar de bicicletas. Autodidata, estava estudando mecânica de motos – ao que tudo indica, nas motos de outros.
Tinha três fotos conhecidas. Numa, de roupinha amarela, é um bebê loiro e gordinho. Nas outras duas já estava interno na Febem.
Ele foi parar lá aos 16, depois que participou de um assalto com um bandido adulto. O homem pegou cadeia. Ele passou dois anos internado, saiu em novembro, em liberdade assistida.
Maicon só conheceu o pai em fevereiro. Seu Flávio é empregado de um lavajato lá perto do Hospital Conceição. Disse que antes não tinha podido falar com o menino porque a família da mãe não gostava dele – talvez porque a única coisa que deu pra Maicon em vida foi, como admitiu, um pacote de fraldas e um creme para assaduras, isto em 1991.
Apesar de uma vida separados, pai e filho estavam começando a se dar bem. O pai lhe deu trabalho, mas Maicon parece que não gostava do batente. Ficava olhando seu Flávio lavar os carros e não atinava nem em passar uma água com a mangueira.
Maicon trabalhou algumas semanas como jornaleiro, vendendo Zero Hora. Com o dinheiro obtido nas vendas comprou uma casa no Jardim Ipê. A avó não é boba e logo intuiu que ele estava roubando – drogas ele usava desde os 14.
A partir de então, cada vez que o neto entrava em casa ela o revistava: “Ele ficou intratável, dizia que já era um homem e não queria mais dar satisfações”, diz a senhora, resignada.
Ninguém da família sabia direito o que ele fazia, mas uma pista está numa frase dele mesmo: “Quando eu saio pra fazer as minhas tretas posso não voltar”.
O intratável e cada vez mais desregrado Maicon tinha um primo trabalhador, Rudinho,18 anos, porteiro de um edifício na Independência. Os dois cresceram na mesma rua, mas tomaram rumos diferentes na adolescência: “Ele tinha a turma dele, eu a minha”, disse Rudinho, demonstrando desprezo.
Enquanto Maicon foi para a Febem, Rudinho vivia o melhor dos mundos – levou para morar com ele uma menina que tinha largado a sétima série, de apenas 16 anos: Fabiana.
No ano passado Fabiana engravidou, mas perdeu o bebê. Depois disto, as coisas entre eles desandaram. Ela se queixava para as irmãs que ele trabalhava muito, que estava sempre cansado. Rudinho era de ficar em casa – ela, de sair à noite.

Rudinho, Fabiana, a irmã Fiama e um amigo de Rivera

Dos tempos bons ela guardou uma foto onde aparece com Rudinho, a irmã Fiama e um amigo de Rivera. Quando Maicon saiu da Febem, no final do ano passado, Fabiana começou a sair com ele.
Pouco depois do Carnaval Fabiana deixou a casa de Rudinho. Foi pra mãe, numa pensão fuleira na avenida Salgado Filho. Dona Mariela, faxineira do Unibanco, a acolheu no quarto já dividido com as irmãs Vitória, bebê, Mariele, 11, e Fiama,16.
No dia da morte de Fabiana, as irmãs experimentaram blusas, tentaram diferentes maquiagens. Estavam se divertindo. Em momentos assim a mãe sempre ironizava delas: “Vocês são as legítimas PPs”. Patricinhas pobres.
Às duas da tarde as três irmãs estavam de saída da pensão para o show do Padre Marcelo na Praia de Belas quando tocou o celular de Fabiana. Sabe-se agora que era Maicon. “Vão na frente que eu alcanço vocês lá”, disse, sem saber que sua vida já estava amaldiçoada.
“Eu olhei pela janela e vi o carinha na moto, mas não sabia quem era”, conta dona Mariela. “Perguntei, a Fabi disse pra mim não me preocupar e saiu voando”. Vestia calça jeans, blusa verde listrada, tênis Fila e prendia o cabelo com uma pequena piranha rosa. A mãe ainda viu a menina colocar um capacete preto antes de partir em direção à avenida Borges.
Minutos depois, na Borges, se deu a abordagem da moto pelos brigadianos.
Enquanto isto, Fiama e Mariele caminharam até a Praia de Belas. Quando o Skank começou a tocar elas decidiram ir embora: “Não gosto do rock deles”, resumiu Mariele.
“Liguei pra Fabiana pra avisá-la”, lembra Fiama. Um dos PMs que tinha feito a perseguição atendeu o celular. Eram quase três e meia da tarde. O soldado fez várias perguntas. Queria identificar Fabiana – sinal que então a polícia soube quem era a moça na garupa da “moto roubada” por aquele bandidinho de “extensa ficha criminal”.
O PM avisou Fiama que Fabiana tinha sido levada pro HPS. Lá, a assistente social insensível deu pra família aquela versão policial de que Fabiana era cúmplice de Maicon em assaltos, acrescentando ofensa à dor.
Na pensão: Fiama, Mirele com Vitória, uma vizinha e dona Mariela

Fiama queria ver a irmã acidentada. Uma médica pediu que descrevesse a roupa, pra saber se era a mesma pessoa que ela atendera. Fiama tinha o figurino patricinha pobre na ponta da língua: calça jeans, blusa verde, tênis Fila, piranha rosa. A resposta foi em tom delicado: “Ela já não está entre nós, seu coraçãozinho parou de bater”.

Giovani quer largar o crack

Por Renan Antunes de Oliveira

Quase toda vez que entro apressado no Jornal JÁ tomo cuidado para não pisar em meu amigo Giovani de Souza Pereira, um self made mendigo de 22 anos, podre de drogado. Gio é morador de rua. Há quase 10 fixou residência na nossa, a Augusto Pestana.

Nos dias de bom tempo ele puxa seus roncos estirado na frente do portão da redação. Por alguma razão, prefere o lado ímpar da Augusto. Já deve ter dormido em cada centímetro de chão desde a esquina da avenida Venâncio Aires até o JJ, no número 133 da Augusto.

A gente nota que ele dorme melhor quando o sol está alto. Sabemos que no nosso pedaço ele também se sente mais seguro. Os vizinhos não se atreveriam a chutá-lo, coisa que acontece quando vai dormir sob alguma marquise e é despertado por seguranças de lojas.

Aconhegadinho em algum farrapo Gio ronrona enquanto se recupera das noitadas de crack e das baladas de maloqueiros – adiante eu conto como é intensa a vida social dos sem teto.

Ele é a pessoa mais conhecida do quarteirão. Não sei quem são meus vizinhos, eles não sabem quem sou eu, mas todos conhecemos Giovani – de uma certa forma, ele nos une.

Gio é um amigo que posso chamar de meu desde 2003. Isto porque quando eu entrei no JJ ele já era um veterano da casa – quero dizer, do lado de fora da casa.

Pouco antes da minha estréia nas páginas ele fazia por aqui um bico de entregador. Pena, tivemos que demiti-lo porque nossa contratação informal virou um problema trabalhista: seriamos multados por explorar trabalho infantil.

A idéia de dar trabalho pra ajudar Gio foi do Mariano, filho do patrão. Ele teve pena, queria tirar o menino da rua e das drogas. Mariano agora anda na Alemanha. Casou, tem uma filha pequena, tá lá cuidando dela – mas nosso Gio, adulto, continua na calçada.

Todos nós que ficamos temos boas intenções com ele. Todos nos compadecemos. Todos tentamos ajudar, de uma forma ou outra.

Anos atrás, uma senhora lá do fim da rua notou que ele andava meio abatido – era uma gonorréia, que ela se prontificou a tratar com antibióticos.

Socos e “roubo”

Um senhor notou um inchaço na boca e o levou ao dentista. Alguma coisa foi feita e hoje nada está doendo – o problema mais visível é a sujeira amarela e a falta do canino esquerdo. Tá partido ao meio. Foi quebrado a socos por um motorista de táxi do ponto do HPS. Normalmente o pessoal ali gosta dele, mas naquele dia alguns estavam furiosos porque acharam – erradamente – que ele tinha roubado o rádio de um carro.

No JJ tivemos vários debates de como ajudá-lo. Cada nova estagiária se comove ao vê-lo na calçada. De tanto vê-lo, elas se acostumam. Depois, acabam pulando por cima dele pra poder entrar – hay que perder a ternura e endurecer, senão ninguém entra na redação.

Todo novo repórter passa pela fase de pensar em entrevistá-lo, depois desiste – eles querem alguma coisa mais longe, mais aventurosa, menos doméstica.

Com o passar dos anos eu andei viajando. Passei um ano nos States. Morei meses no Rio, fui pra Amazônia, pra Curitiba, pra Sampa. Cada vez que voltava ao JJ tinha notícias de Gio. Ele estava por ali, todo dia, sempre dormindo na calçada.

Concluímos que ajudar Giovani seria tarefa pros órgãos assistenciais do governo. Telefonamos até pra caixa prego, sem sucesso. Procuramos burocratas de três partidos diferentes, nos níveis municipal, estadual, federal – por telefone é mais difícil conseguir alguma coisa do governo do que pedir qualquer coisa nos 0800 das multinacionais de telefonia celular.

Sugerimos as igrejas católica e evangélica. E fomos até na sinagoga da rua Henrique Dias. Neca, Gio firme na miséria, drogado e sujo, dormindo na calçada.

Giovani parece ter sido um predestinado pra viver nas sarjetas, com vocação revelada cedo. Do pai ele nada lembra, nem o nome, só sabe que morreu. Era bugre. O filho herdou as feições, cor e tamanho. Até fazer oito vivia com a mãe numa casinha na Lomba do Pinheiro. Foi tirado da escola por ela “porque ele só ia lá para comer a merenda”.

Mãe e filho passavam o dia esmolando no Centro. Ele abria e fechava portas de táxis na frente do Guaspari – mas as gorjetas iam todas pra mamãe. “Ela não me dava dinheiro pra jogar fliperama”, conta ele, ainda parecendo revoltado. Fugiu dela e esmolou pra si mesmo.

começo aos 11

Foi pouco antes de fazer nove que ele começou sua carreira de self made mendigo. A primeira noite ao relento foi na Praça XV. Era frio, ele estava só de calça e camisa.

Nas drogas ele começou aos 11, cheirando solvente, o chamado loló. Foi uma fase difícil, porque sua turma de cheiradores de loló era perigosa – uns roubam dos outros para comprar a droga.

Um dia apareceu alguém do Conselho Tutelar e ele foi levado para o abrigo Miguel Dario, na Serraria. Fugiu de lá semanas depois. Uma vez a Brigada o pegou nas ruas e o mandou para outro abrigo, na Miguel Tostes. Fugiu em oito dias. Desde 1999 adotou e foi adotado pela vizinhança da Augusto Pestana. Às vezes, rola pela Redenção.

Depois da Era do Loló veio o Tempo da Maconha. Fumava todo dia. Pra comprar, fazia bico de flanelinha. Uma vez ele e uns amigos roubaram um depósito da UFRGS. Ele pegou uma TV, mas não conseguiu vendê-la porque foi preso antes.

Não puxou cana. Ganhou “liberdade assistida”, um privilégio para menores concedido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A assistente social do seu caso era dona Érica, ou “tia Érica’, como ele diz.

A prisão lhe rendeu uma ficha na polícia. É seu único documento. Cada vez que é pego num arrastão da Brigada diz o nome. Os brigadianos que por acaso ainda não o conheçam consultam seus computadores, encontrando sua ficha de ladrão em liberdade assistida.

O pessoal da lancheria do Marino não deixa mais ele assistir lá dentro os jogos do Inter, por causa do cheiro de suas roupas e porque supeitam que foi ele que arrombou as grades e roubou cigarros, tempos atrás.

Ele vive num prende e solta. Uma vez reclamou da brutalidade policial, mas aí levou uma coronhada forte no olho esquerdo que quase o perdeu. Estava tão sujo que nem o HPS quis tratá-lo. Foi consertado no postão da Vila Cruzeiro.

O máximo de grana que conseguiu juntar na vida foram 200 reais, na vez em que cuidou do estacionamento de uma churrascaria. Desde os 16, tudo o que ganha ele gasta com crack, a droga da hora, do mês, do ano, da vida dele – tem dias em que está um farrapo que mal pode andar.

Nos últimos tempos os moradores da rua notam que ele anda cada vez mais drogado, mais esfarrapado, mais imundo – tem gente apostando que qualquer dia morre de overdose.

Mas nem tudo está perdido. Saibam todos que ele tem planos de parar com as drogas.

Na terça 31 de março eu o chamei pra esta entrevista. Ele mandou dizer pelo lavador de carros que só viria se ganhasse um troco. Queria 10. Pro crack. Apareceu às 3 da tarde. Foi só entrar na sala pra gente sentir aquela murrinha.

Ele estava falante. Contou que passou a noite transando com uma moça conhecida como Mãe, moradora de rua como ele. O romance foi ali perto do Hospital de Clínicas e ele garante que usou camisinha: “Uma tia me ensinou a usar, tenho que me cuidar”.

Alguém duvidou deste cuidado, lembrando que corre a lenda de que ele é pai solteiro de uma menininha – ninguém nunca viu nem sabe quem é a mãe nem onde anda tal filha.

Ele insistiu que sim, usa camisinha. Afirmou que até os gays que o procuram para programas no Parque da Redenção exigem isso. Não, ele não se considera um michê, não como aqueles da Avenida José Bonifácio. Se diz autônomo. E que cobra 20 reais por sessão, depois das 10 da noite, nos matinhos do parque – a grana é pra comprar crack.

Ele tem um sonho na vida: ser eletricista. Fez um serviços para um tal Paulinho da Farmácia. Segurava a escada. O cara também deixou ele apertar alguns parafusos em tomadas – foi o suficiente para ele tomar gosto pela elétrica.

“Não votaria em ninguém”
Uma tia – tias são assistentes sociais e/ou alguma mulher que o ajude – se prontificou a levá-lo pruma clínica de desintoxicação qualquer dia destes.

Ele disse que pode ser, porque está cansado da vida que leva. Anda pensando em procurar tratamento médico. Está convencido que pode sair da droga quando quiser. E que durante o tratamento vai aprender a ser …eletricista: “Na clínica ensinam alguma coisa pra gente”.

Gio ainda acredita em si mesmo: “Não quero ser conhecido como o Giovani velho, drogado, rabugento, fedorento”.

Se votasse ? “Não votaria em ninguém”. Tem uma pequena divergência com dona Yeda, a quem cita nominalmente. Ele acha que ela botou policiamento demais contra os pobres: “A gente fica um montão de tempo preso no 9º (Batalhão da PM) levando porrada até um tenente sentir bondade e mandar a gente embora”. Magnânimo, ele pede moleza “não para mim, mas para o bem da cidade”.

Gio aceita tirar fotos no meio da rua. Não, ele não espera nada do pessoal do JJ. Nem do governo. Repete que qualquer dia vai pegar nojo da vida de drogado. E então, mudar.
Pede cinco reais, pro ajudar na dose de crack.

Fim da entrevista. São quatro da tarde. E lá vai Giovani às ruas, sujo e esfarrapado, só com cinco no bolso, mas cheio de confiança, repetindo a única lição que aprendeu nas calçadas: “Eu mesmo tenho que fazer por mim”.

O crime da rua Venezuela

Renan Antunes de Oliveira

As três últimas casas antes da rua virar mato são de madeira, pintadas de azul, verde e branco. Na azul, com uma roseira carregada de flores vermelhas, morava Viviane, 14 anos. Na verde vive Tati, 13. A branca é de Clairton, 17, primo de Viviane, apaixonado por Tati. O ódio entre as meninas adolescentes foi maior do que aquele pequeno pedaço do mundo e transbordou em tragédia.

A rua Venezuela é um beco sem saída às margens da BR116. Está quase sempre deserta. Seu João e dona Jovenilda, avós de Viviane e tios de Clairton, passam horas na calçada da casa azul, sob uns pés de cinamomo, tomando chimarrão. Nas conversas, quase sempre lembram da tragédia mais improvável já acontecida na pacata cidade de Ivoti, no Vale dos Sinos.

Aconteceu em dezembro, na noite do dia 18: Clairton matou Viviane a pedido de Tati.

Olhando para trás é fácil entender o crime – Tati, por todos os relatos, apesar de quase criança, tinha inveja de Viviane, adolescente com corpo e aparência de bem mais velha. Difícil é compreender como este sentimento comum deu em morte com gente tão moça.

Viviane reagia com zombaria à inveja da vizinha. A rivalidade das duas foi testemunhada por todos que as conheceram. Começou nos primeiros anos de escola delas, no tempo em que a rua ainda não tinha sido calçada com paralelepípedos.

Muitas vezes Viviane teve que voltar para casa quando estava a caminho do colégio porque Tati jogava barro nela. Viviane xingava a rival de bobinha – mas também revidava com crueldade calculada, dizendo que o pai dela era um bêbado, o que afetava muito Tati.

Viviane era fruto de um romance adolescente do pai. Ele morreu afogado no rio dos Sinos quando ela tinha 7. A mãe sumiu e deixou a menina com os avós. Ela tinha liberdade total na casa azul com roseira. Os velhos lhe davam tudo o que precisava e bastante conforto.

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Tati vivia num ambiente opressivo e repressivo. O pai bebum só a deixava ir à escola e à igreja evangélica. Soube-se depois do crime que Tati tinha sido estuprada aos 10 anos, por outro vizinho – o que a ruazinha tem de calma e florida parece ter de ruim.

A rivalidade entre as meninas foi ignorada por pais e professores. Todos achando que tudo ia passar quando elas crescessem.
Não foi assim. Lá por maio do ano passado, Clairton, um grandalhão desengonçado com quase 100 quilos, motoqueiro sem carteira, drop out da escola e drogado, notou Tati já mais crescidinha. E passou a fazer investidas – queria transar com ela de qualquer jeito.

A mensagem foi passada pelo irmão de Tati. Mas ela tinha aquele problema: depois do estupro, os pais não a deixavam mais sair de casa desacompanhada.

Prisioneira da casa verde, Tati via todos os dias Viviane passar pela frente da sua e ir para a casa branca de Clairton. Os primos eram amigos e confidentes. O rapaz morava no porão da casa, onde seus pais tinham feito um quartão com tv e computador, pra ele curtir seus amigos e drogas longe da família. Viviane tinha trânsito livre na toca.

Quem conheceu bem todos eles garante que os primos nunca transaram. O primeiro de Viviane foi Juarez, um vendedor da Liquigás, 10 anos mais velho – e por isso, o principal suspeito da polícia quando ela foi encontrada estuprada, estrangulada e morta no matagal às margens da rodovia BR 116, apenas 100 metros distante da casa branca.

Tati começou a ser cortejada por Clairton à moda antiga, por carta. Bilhetes em folhas de caderno escolar, trocados de mão por amigas comuns.


Foram estas cartas que esclarecem o crime. Em vários trechos estão as pirações de Tati, seu ódio contra a vizinha, o pedido para matá-la e a oferta irrecusável: se Clairton matasse Viviane, ela, Tati, transaria com ele.

Clairton respondeu cedendo à oferta: “Capaz que eu não deixaria tu fazer aquilo com a Vivi, pra mim tanto faz”, escreveu, sendo “aquilo” o matar a própria prima.

“Eu não sei de onde saiu tanta frieza, não consigo aceitar que tenha sido ele”, diz dona Jovenilda, inconformada com a dupla perda – depois do crime, nunca mais falou com o irmão, pai de Clairton.

Por alguma razão qualquer as cartas acabaram nas mãos de uma amiga de Tati. Quando o caso deu na TV ela as mostrou pros pais, que por sua vez as levaram aos pais de Tati. Eles, mesmo horrorizados ao perceberem o que a filha tinha escrito, ainda tiveram coragem de ir à polícia e entregar tudo, 12 dias depois da morte de Viviane.

As cartas mostram que Clairton se tornou cada vez mais participante na trama macabra de Tati: “Por mim, que se f… a Viviane, pode encher ela de bala”. Os dois passaram até a planejar um segundo crime: matar o estuprador de Tati, jamais identificado.

Clairton foi preso em 11 de janeiro, mas nunca confessou o crime. Até o final de março, ele continuava negando.

A polícia suspeita que ele teve cúmplices, três carinhas maiores de idade, marginais da pesada pra quem ele teria pedido ajuda – mas que agora teme delatar porque seria como pedir para ser morto.

As investigações continuam no mesmo ritmo lento da cidade. A polícia identificou um trecho das cartas onde Clairton diz que botou “200 reais na mão de um ‘louco’ (que tinha pedido 400), mas ele disse que tinha uma proposta melhor pra me fazer”, tipo de papo de um contrato para matar Viviane.

Na noite em que a matariam, Viviane foi vista pela última vez pelos avós em companhia do primo, mas eles nada suspeitaram.


Eram sete da noite. “Entrei em casa e vi que ela tinha tomado banho e saído limpinha e bem vestidinha”, conta dona Jovenilda. Na calçada, vó e neta conversaram sob os cinamomos. Viviane usava tamancos de salto alto, saiu pipocando pelo calçamento irregular, aos pulos pelos 50 metros da casa azul até a branca, passado pela verde onde, é bem possível, Tati espreitava na janela.

“Quando começou a novela das 9 e ela não voltou, eu liguei. Ela me disse que estava baixando músicas pelo celular do Clairton”, ainda lembra a vó. A velha senhora foi então até o porão do sobrinho, espiou por uma fresta, nada viu de suspeito, bateu na porta e perguntou pra Clairton por Viviane: “Tia, Ela foi embora faz tempo”, mentiu, com calma.

Na manhã seguinte, angustiada, dona Jovenilda foi na casa de Juarez. Ela não estava lá. Ele jurou que a respeitava muito e que estaria esperando que Viviane completasse 18 anos para ficar com ela – uma mentira que a avó dispensou, porque sabia de tudo: “Se ela quisesse ficar com ele eu deixaria, ela não precisaria mentir, nem fugir”.

Se não estava com Juarez, tentaram a casa da mãe, mas ela dificilmente passaria por lá. Então só restava a polícia. Dia 19 de dezembro, manhã de sexta. Na delegacia, disseram pra vovó que “uma menina na idade dela faz coisas que nem o diabo acredita”, avisando que buscas só iniciariam 72 horas depois.

A juíza Célia Lobanowisky acreditou nas coisas que a polícia diz que Tati e Clairton fizeram, mandando os dois para a Febem, ela em Nova Hamburgo, ele na da Porto Alegre.

No início de abril ela preparava a sentença sigilosa para puni-los. É uma tarefa inútil, já que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente os dois não podem ser presos. Suas fotos e seus nomes sequer podem ser publicados, o caso corre em segredo de Justiça.

Em juízo, Tati negou ter mandado matar Viviane. Disse que Clairton a interpretou mal e que fez tudo por conta própria – descontada a possibilidade dele ter agenciado o crime com aqueles carinhas pra quem ofereceu os 200 reais.


Quem quer que tenha matado Viviane foi bem cruel. Não se sabe os detalhes, nem quando e se ela percebeu que iria morrer, mas sabe-se o resultado da ação do matador/matadores.

Do porão da casa de Clairton ela foi levada por uma picada no matagal dos fundos da casa para perto de um tronco de guarapuvu, cerca de 100 metros distante.

Seu corpo foi encontrado apenas na manhã de 23 de dezembro, o quinto dia do desaparecimento, sem que a polícia tivesse organizado nenhuma busca. Foram outros irmãos e sobrinhos de dona Jovenilda e seu João que combinaram, na noite do dia 22, começar a procurar perto de casa.

Quem se ofereceu pra ajudar ? Clairton solícito com os tios.

“Eu sai procurando pelo lado do muro (de uma empresa de lacticínios) e fui indo pra baixo”, conta o avô. “Clairton me apontou uma árvore lá longe (o tronco seco do garapuvu) e me disse pra ir praquele lado, eu nem imaginei nada”.

Seu João, falando sob os cinamomos, chora quando lembra a cena final: “Eu dei uns passos perto de um córrego e vi um vulto no chão, gritei ‘ai está ela’ e sai correndo, porque tudo se escureceu na minha vista”.

E lá estava a menina mais bonita da rua Venezuela: morta, deitada de costas, sobre os braços amarrados pra trás por um fio elétrico, com um saco plástico enfiado na cabeça e um pano cobrindo o rosto.

Os legistas confirmaram que ela foi estuprada e morta por estrangulamento e asfixia. O assassino ou assassinos tentaram encobrir o crime queimando seu tórax, mas apenas chamuscaram o corpo.

O cadáver ficou exposto aos vizinhos por quatro horas, que fizeram cortejos para vê-la. Dona Jovenilda fez questão de ir ver o cadáver. Chocada, não quis que tirassem o pano do rosto – sob o qual, soube-se depois, estavam dentes quebrados. Ela disse que reconheceu a neta por um piercing que usava no umbigo: “Era a minha Vivi”.