Guaíba: maior enchente ocorreu depois que a chuva parou

Ao menos 700 habitantes de Porto Alegre estão agora sem acesso a suas casas por causa das chuvas. Já é uma situação de emergência, que desencadeia ações de solidariedade ao tempo que evidencia a fragilidade da cidade perante o El Niño desta temporada, muito mais influente no clima que o anterior, de 1997.
Mas o que mais assusta é a previsão de que as chuvas continuarão intensas por toda a primavera, e verão adiante. E diante disso, é inevitável que ressurjam no imaginário da cidade as cenas da maior enchente pela qual ela passou, em 1941. Daquela vez foi La Niña, fenômeno climático de efeitos mais violentos que os de El Niño.
Ao contrário de todas as outras chuvaradas que causaram inundações nas áreas próximas ao Guaíba, sempre na primavera, a de 1941 foi no outono.
O auge foi no dia 7 de maio de 1941, quando, já com sol, as águas dos rios que desembocavam no Guaíba, especialmente as do caudaloso rio Jacuí, chegaram à metade da altura das portas do Mercado Público e alcançaram a Andradas, antiga Rua da Praia.
Impedidas pelo vento sul de seguirem pela Lagoa dos Patos em direção ao oceano, as águas da chuva ficaram represadas como aconteceu na semana passada.
Como agora, as regiões atingidas não foram apenas as partes tomadas ao rio, os aterramentos para expandir o centro. A zona Sul e a parte lindeira ao cais na zona Norte são facilmente inundáveis. Porém, os primeiros são sempre os moradores da região das ilhas. “Devido ao aterramento, o Guaíba perdeu espaço e quem sofre os maiores prejuízos são as populações das ilhas, pois a água tem que ir para algum lugar”, diz o jornalista Rafael Guimarães, que pesquisou o episódio e publicou o livro em formato de álbum A enchente de 1941 (Libretos, 2009)
O livro resgata as imagens e os números da inundação que deixou 70 mil pessoas desabrigadas, praticamente um quarto da população da cidade na época, de 272 mil habitantes.
Construído na década de 1970, durante o período militar, com a intenção de proteger a cidade de uma nova grande enchente, o muro da Mauá é até hoje motivo de polêmica. Muitos são a favor da sua permanência para evitar inundação na cidade. Para Rafael, está provado que o muro é desnecessário. “Os alagamentos na cidade aconteceram mesmo com o muro já que água avança por baixo, pelo esgoto. É um custo benefício muito baixo para a cidade.” argumenta.
Guimarães prepara agora o lançamento do novo livro, Águas do Guaíba, no qual faz um relato da história do Guaíba, seus afluentes e aspectos culturais que o cercam – monumentos, prédios, museus, avenidas que o cercam ou cercavam no passado. Além de contar uma parte da história de Porto Alegre, também reporta a cultura das outras cidades ligadas ao Guaíba, como Barra do Ribeiro e a cidade Guaíba. “Foi um trabalho muito legal, que lembrou minha infância, quando íamos a Itapuã desfrutar do Guaíba”, recorda. O livro será lançado em novembro, também pela Libretos, na Feira do Livro de Porto Alegre.

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